
Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.
A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso Manifesto.
Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:
- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.
- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.
- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.
- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.
- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.
- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.
- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).
- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.
- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?
- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.
- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.
- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.
- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.
- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.
- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"
- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.
- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.
- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.
- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.
- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).
- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).
- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).
- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.
- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).
- 25º número (1º semestre de 2020): Pinharanda Gomes: Textos e Testemunhos dos seus Amigos.
Para o 25º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
EDITORIAL NOVA ÁGUIA 24
As personalidades maiores (ou mais aquilinas) são aquelas que mais transcendem fronteiras – culturais, religiosas ou ideológicas. Pela amostra (significativa – mais de uma dúzia) de testemunhos que aqui recolhemos, proferidos numa sessão em sua Homenagem promovida pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no dia 10 de Maio do corrente ano, no Palácio da Independência, João Bigotte Chorão foi, de facto, uma personalidade maior da nossa cultura lusófona.
Personalidade não menor foi a de Afonso Botelho, que completaria no dia 4 de Fevereiro 100 anos. Igualmente por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, realizou-se, nesse exacto dia, também no Palácio da Independência, um Colóquio que abordou as diversas facetas do seu pensamento e obra. São os textos então apresentados (com mais alguns entretanto chegados) que aqui publicamos (mais de uma dezena e meia de textos).
Dois mil e dezanove tem sido um ano especialmente rico em centenários. Para além de Afonso Botelho, evocamos aqui igualmente Jorge de Sena e José Hermano Saraiva. Para o próximo número, fica desde já prometida a evocação de Joel Serrão e de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde iremos também recordar Agustina Bessa-Luís, recentemente falecida, no início deste semestre, que marcou ainda presença na NOVA ÁGUIA – logo no primeiro número, onde publicámos um texto seu intitulado “O fantasma que anda no meu jardim”, que termina desta forma: “Voltaremos a encontrar-nos”. Até sempre, Agustina!
Ainda no vigésimo quarto número da NOVA ÁGUIA, para além do “Poemáguio” e do “Memoriáguio” (duas secções igualmente clássicas), publicamos cerca de uma dezena de “Outros Voos” e, em “Extavoo”, mais um capítulo da segunda parte (inédita) da Vida Conversável, de Agostinho da Silva, bem como a série completa das “Cartas sem resposta” de João Bigotte Chorão –, algumas das quais já publicadas em números anteriores da nossa revista. No “Bibliáguio”, por fim, publicamos mais de meia dúzia de recensões de obras que despertaram a atenção do nosso olhar aquilino.
A Direcção da NOVA ÁGUIA
Post Scriptum: Já na fase final da composição deste número, a 27 de Julho, faleceu, aos oitenta anos, Pinharanda Gomes, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, um dos mais importantes colaboradores da NOVA ÁGUIA, desde o primeiro número (até este que aqui se apresenta, com dois ensaios que nos fez chegar no primeiro semestre deste ano), e, sob todos os pontos de vista, uma das mais relevantes figuras da cultura lusófona do último meio século (facto que só por ignorância ou má-fé pode ser contestado). Por isso, no próximo número da revista, teremos, logo a abrir, uma série de Textos e Testemunhos em sua Homenagem.
NOVA ÁGUIA Nº 24: ÍNDICE
HOMENAGEM A JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Textos e Testemunhos de J. Pinharanda Gomes (p. 8), Alfredo Campos Matos (p. 22), Annabela Rita (p. 22), António Braz Teixeira (p. 24), António Cândido Franco (p. 24), António Leite da Costa (p. 25), António Manuel Pires Cabral (p. 26), Artur Anselmo (p. 27), Eugénio Lisboa (p. 27), Isabel Ponce de Leão (p. 29), Jaime Nogueira Pinto (p. 29), Miguel Real (31), Paulo Ferreira da Cunha (p. 39) e Paulo Samuel (p. 41).
NOS 100 ANOS DE AFONSO BOTELHO
APOLOGIA E HERMENÊUTICA NA OBRA DE AFONSO BOTELHO | António Braz Teixeira…48
AFONSO BOTELHO SEMI-INÉDITO | António Cândido Franco…57
AFONSO BOTELHO NO 57: MOVIMENTO DE CULTURA PORTUGUESA | Artur Manso…59
EDUCAÇÃO E SAUDADE EM AFONSO BOTELHO | Emanuel Oliveira Medeiros…65
HUMANISMO ESPERANÇOSO DE AFONSO BOTELHO | Guilherme d’Oliveira Martins…86
À MEMÓRIA DE AFONSO BOTELHO | J. Pinharanda Gomes…88
AFONSO BOTELHO: TESTEMUNHO BREVE | Joaquim Domingues…90
AFONSO BOTELHO, UM ARISTOCRATA EXEGETA DE D. DUARTE | José Almeida…92
TESTEMUNHO E HOMENAGEM A AFONSO BOTELHO | José Esteves Pereira…97
MITO E MITOS FUNDANTES: A POSSIBILIDADE DO DISCURSO DA SAUDADE | Luís Lóia…98
O TEMA DA SAUDADE NA TEORIA DO AMOR E DA MORTE DE AFONSO BOTELHO | Manuel Cândido Pimentel…104
AFONSO BOTELHO: DA RAZÃO E DO CORAÇÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…108
AFONSO BOTELHO, DO PENSAMENTO À ESCRITA FICCIONAL NO 57: UMA ABORDAGEM DO CONTO O INCONFORMISTA | Maria Luísa de Castro Soares…112
A FICÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Miguel Real…118
DA FILOSOFIA COMO “SABEDORIA DO AMOR”: ENTRE JOSÉ MARINHO E AFONSO BOTELHO | Renato Epifânio…125
A RENÚNCIA DO MAL NA METAFÍSICA CRISTÃ DA REDENÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Samuel Dimas...127
SOBRE A MÓNADA HOMEMULHER EM AFONSO BOTELHO | Teresa Dugos-Pimentel…139
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES: JORGE DE SENA E JOSÉ HERMANO SARAIVA
A CRÍTICA LITERÁRIA EM JORGE DE SENA | Miguel Real…146
JOSÉ HERMANO SARAIVA: HISTORIADOR E DIVULGADOR DA CULTURA PORTUGUESA | Nuno Sotto Mayor Ferrão…151
OUTROS VOOS
A MANEIRA PORTUGUESA DE ESTAR NO MUNDO | Adriano Moreira…162
O PENSAMENTO ESTÉTICO DE EDUARDO LOURENÇO | António Braz Teixeira…165
O SENTIDO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO DA LUZ EM “VIRGENS LOUCAS” DE ANTÓNIO AURÉLIO GONCALVES | Elter Manuel Carlos…170
OS AÇORES E O MAR – O POVO, SOCIEDADE(S) E TERRITÓRIOS | Emanuel Oliveira Medeiros…176
SOBRE OS INÉDITOS DE JUNQUEIRO | Joaquim Domingues…188
VIVÊNCIAS COM MÁRIO CESARINY E FERNANDO GRADE: POETAS E PINTORES | Luís de Barreiros Tavares…194
SENTIDO E VALOR ACTUAIS DA MONARQUIA: UMA PERSPECTIVA TEÓRICO-CONSTITUCIONAL | Pedro Velez…197
CINCO DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS| Renato Epifânio…199
AUTOBIOGRAFIA 6 | Samuel Dimas…204
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…220
CARTAS SEM RESPOSTA | João Bigotte Chorão…227
BIBLIÁGUIO
ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA | Joaquim Domingues…256
A ESCOLA PORTUENSE EM QUESTÃO | Elísio Gala…256
LEONARDO COIMBRA: VIDA E FILOSOFIA | José Esteves Pereira…258
EUDORO DE SOUSA E A PRESENÇA DO MITO NA FILOSOFIA PORTUGUESA | Samuel Dimas…262
TABULA RASA II & ESTUDOS SOBRE HEIDEGGER | Renato Epifânio…263
PEITO À JANELA SEM CORAÇÃO AO LARGO | Onésimo Teotónio Almeida…264
ESPÍRITOS DAS LUZES | Anabela Ferreira…266
POEMÁGUIO
CATATÓNICO; GOLGOTHA | António José Borges…46
SEU HÁBITO MELHOR | Jaime Otelo…47
“NASCERÁ O MAIOR AMOR…” | Catarina Inverno…144
FUNDURA | Maria Leonor Xavier…145
MACAU | António José Queiroz…159
CANÇÃO SUPREMA | Carla Ribeiro…160
COMO PODEM ESPERAR | Delmar Maia Gonçalves…161
PELOS SENTIDOS | Juvenal Bucuane…161
NUME | Luísa Borges…218
STELA | Jesus Carlos…219
MIMNERNO E AS FOLHAS CAÍDAS DE JÚDICE | Susana Marta Pereira…254
LARGO | Joel Henriques…255
PARA O HERBERTO HELDER | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…267
SEGUNDA VARIAÇÃO | José Luís Hopffer C. Almada…268
MEMORIÁGUIO…272
MAPIÁGUIO…273
ASSINATURAS…273
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…274
Lançamento da NOVA ÁGUIA 24
18 de Outubro, no Palácio da Independência (na foto: Abel Lacerda Botelho, Renato Epifânio e António Braz Teixeira). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...
Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.
MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.
PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:
https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas
O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"
Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Um encharco aqui na pedrada mole da morrinha bloguista e relativamente tão-só "lusofónica" !
a) ou se conclui que se prefere postar a comentar, o que indiciaria serem mais os postantes que os comentadores, o que é notoriamente inverdade;
b) ou se anda muito distraído com outros voos mais comezinhos como novelas, corriqueiros como os pomposos anúncios das medidas do governo, ou as costumeiras "saramagosices" auto-infladas, como significativa parte da plebe literante que por aí pulula adora pavonear;
c) ou então - o que é bem pior que as duas anteriores hipotéticas razões - não se está lá muito virado para fazer essa coisa porventura relativamente cansativa que é pensar pela própria cachimónia e expender umas opiniões que façam um mínimo de diferença, que não seja esticar apenas e só a já relativamente vasta jurisdição do próprio ego.
Digo isto porque, com excepção de alguns textos que tiveram interessante profusão de comentários, ainda que sobretudo comentários a comentários, a maioria dos posts tem entre zero e dois comentários.
Convenhamos, cara comunidade lusófona que aqui vem (ou, afinal, será lusomuda?), convenhamos que, para um blog que pretende (o que muito concordo que pretenda) desafiar, acicatar e incentivar o debate de ideias vivas sobre temas bastamente importantes, as que aqui não se mostram seriam presumivelmente bem menos mortiças que as que aqui se entre-espreitam, nada dizendo.
Creio que seria bom, se todos ("todos", significa muitos - como é óbvio), de quando em quando relêssemos o "Manifesto da Nova Águia" e os "Princípios do MIL", para reavivarmos (eu incluído) a memória de quanto me parece deveria estar mais vivo do que o próprio olho que sempre (à cautela) mantemos aberto, para não tropeçarmos nas cascas de banana de quem alegadamente devia governar-nos e faz exactamente o desgoverno contrário.
Mas ... parece que não! Bonito!
Acordemos!
Valete Fratres!
domingo, 7 de setembro de 2008
Se te incomoda
Se te incomoda ouvir falar da elevação no império posso antes mostrar-te o jardim, e o constrangimento que o jardineiro impõe às ervas. E adivinho já o teu fastio: vais dizer-me que te aborrecem os caminhos programados do Palácio, a disposição geométrica das rosas, a igualitária decapitação das sebes; vais dizer-me que está cheio de tabuletas com proibições e que os teus pés descalços dançam melhor no prado das fadas. E como posso eu não te dar razão? Não tenho culpa do cansaço e da frieza dos príncipes. Ah, mas não é ao jardim deles que te quero levar: não perco tempo a propor-te bailes de máscaras.
Por isso te mostro o jardim, e por ele entendo o que nos espera se deixarmos para trás o Palácio e as ruas arrogantes dos mercadores e generais: aqui a horta humilde que abastece os mercados, mais além a floresta dos lobos, no meio dela o teu prado das fadas; deste lado a montanha coberta de carvalhos e faias, por ali o caminho que conduz ao mar. Em qualquer lugar tu situas-te: apetece-te a solitária companhia das dunas e sabes que cortas à esquerda a seguir ao moinho de água; mas se tens saudades da roda das fadas sabes que tens primeiro que atravessar a encosta dos abetos. E se te perdes na noite de Outono sabes em que direcção vai a lua nascer.
Ainda sentes o constrangimento? Na verdade, os carvalhos não progrediram além da linha da areia, aqui no prado das fadas não ocorreu ao hortelão plantar as suas cebolas. Olha para estes ramos despidos: não é ainda o tempo das maçãs. Em vão procurarias aqui a orquídea dos trópicos, e elas enchem no entanto a orgulhosa estufa dos príncipes. É essa a duríssima lei do jardineiro maior. E, vês? Não recorreu para isso a tabuletas nem a cães de guarda.
Mas as dunas, dirás tu que as dunas hão-de um dia ser morada de lobos e que o hortelão só ganharia se de manhã encontrasse orquídeas em vez de cebolas e que acabas de reparar que então há direcções onde nunca vemos a lua nascer? As dunas, dirás tu que lhes falta a liberdade de ser tudo, dirás que é injusto as fadas elegerem o prado verde para dançar e que serias mais feliz se a partir do moinho de água pudesses escolher qualquer caminho e todos descessem ao mar? Aí, onde irias quando ansiasses pela solidão? Onde, quando o teu coração quisesse dançar?
Entendes porque te afastei dos caminhos geométricos do Palácio? Não há neles sequer a sombra de um jardim, e por isso todos eles vão dar à varanda dos príncipes cansados. E para os construir foi preciso derrubar a cabana e a fonte, e por isso aqueles guardas carrancudos que te ficaram na memória como guardiães do império. Impostores. Não te esqueças de que essa história foi escrita para agradar aos generais, foi paga pelos mercadores que dependem do luxo dos príncipes. Mas tu escapavas-lhes de noite, e saltavas a muralha para brincar com as crias do lobo.
Na verdade, a tua liberdade é constrangimento das ervas: se elas se dispersarem, não terás um prado para dançar. E o teu constrangimento é a liberdade das árvores: que será delas se derrubares quem se interpõe entre ti e o mar? Mas ambos se fundam no jardim, que a tudo situa em hierarquia e poema.
E em ti, quem eu quero fundar é o jardineiro.
Sobre a alegada presença de uma “linguagem nacionalista-passadista” neste blogue.
1. Nunca neste blogue se fez a apologia do Estado Novo ou de Salazar, ou algo de próximo. Mesmo quem fez a apologia do conceito de Império (como o Casimiro Ceivães), o que poderia despertar algumas suspeitas, fê-lo num sentido não nacionalista-passadista (a ponto de ter sido elogiado pelo Paulo Borges). E também por mim, já agora.
2. A única pessoa que temos entre nós que publicamente esteve ligada ao Estado Novo é o Professor Adriano Moreira, primeiro nome do Conselho de Direcção da NOVA ÁGUIA. Isso foi, de facto, contestado por algumas pessoas, mas tanto eu como o Paulo Borges defendemos essa opção. Tal como a de o termos convidado para apresentar a NOVA ÁGUIA no 10 de Junho deste ano (na Feira do Livro de Lisboa), convite igualmente contestado por algumas pessoas.
3. Sei que há pessoas que têm reacções pavlovianas sempre que se fala de Pátria: “se fala de Pátria, é nacionalista-passadista”, para não usar outro palavrão. Mas isso não me complexa ou me faz mudar de opinião relativamente à justeza do tema do primeiro número da revista*. Como tenho ido a quase todos os lançamentos da revista, sei que o conceito desperta, a priori, algumas suspeitas. Em todas essas ocasiões, tenho salientado que o nosso conceito de Pátria não se inscreve em qualquer paradigma “nacionalista-passadista”. Tal como o Paulo Borges, sempre que ele também tem estado presente.
4. Por último, para quem acha que nós temos de facto algo a ver com qualquer corrente “nacionalista-passadista”, basta ir à blogosfera e verificar o que essas correntes dizem de nós. Só não digo mais porque não lhes quero fazer publicidade.
5. A única crítica que me parece pertinente em relação ao nosso blogue é a desproporcionada presença de figuras portuguesas em relação a figuras de outros países da CPLP. A esse respeito, relembro o que escrevi aqui ontem: “Já, aliás, nos fizeram alguns justos reparos em relação a isso – nomeadamente neste blogue, onde também predominam as referências a figuras portuguesas, desde logo em relação ao Brasil. Mas isso é algo que só se irá ajustar com o tempo, à medida que cada vez mais brasileiros participem neste projecto em prol do valor comum da Lusofonia. De resto, para quem quiser fazer uma análise justa a esse respeito, reconhecerá que, devido ao contributo de várias pessoas (permito-me salientar o nome de Adriana Costa, o primeiro nome que me ocorre), o blogue NOVA ÁGUIA é, cada vez mais, um BLOGUE DA LUSOFONIA. Ainda que haja muito caminho a percorrer a esse respeito. A Lusofonia não se esgota em Portugal e no Brasil. Queremos que, cada vez mais, pessoas dos outros países da CPLP aqui colaborem.”
CONCLUSÃO: A ALEGAÇÃO É POIS DESPROPOSITADA E, NO QUE ME DIZ DIRECTAMENTE RESPEITO, INSULTUOSA.
* A composição da revista, sobretudo na sua parte relativa à Poesia, também foi transtornada por causa disso (se for preciso, também relembrarei os factos).
Renato Epifânio
Co-Director da NOVA ÁGUIA
Membro da Comissão Coordenadora do MIL
Resposta a Casimiro Ceivães e aos demais
O problema, creio, é que vocês sabem que sou budista e, como não percebem nada de budismo, continuam a repetir os lugares-comuns dos intérpretes ocidentais do séc.XIX, que identificam budismo com niilismo... Ora é o próprio budismo que formulou a mais antiga crítica e denúncia do niilismo como um erro paralelo ao essencialismo!
Mas eu não falei de budismo no meu texto, falei apenas da convergência de milenares tradições sapienciais, que recorrem à introspecção meditativa - como ainda Descartes, por exemplo, o pai do racionalismo moderno - , e da microfísica contemporânea, para nos darem um quadro do mundo onde a noção de relação prima sobre a de substância e a de interdependência prima sobre a de existência em si e por si. Parti daí para aplicar isto à questão das identidades nacionais e lembrar que os povos, as culturas, as nações e as pátrias não podem ser abstractamente pensados como entidades ou coisas independentes, mas antes como processos inscritos na trama de interdependências que é a história e o próprio universo.
E para quê ? Apenas para recordar o que está presente na Declaração de Princípios e Objectivos do MIL, ou seja, que Portugal e a Lusofonia não são um fim em si, mas que o melhor da sua tradição cultural visa pô-los ao serviço do desenvolvimento da consciência e do bem comum de todos os homens e de todos os seres, ou seja, do universo. Isto, também, para contrapor a um nacionalismo ou patriotismo autocentrado a ideia de um novo patriotismo, que defini como trans-patriótico e universalista.
Se falei de meditação, não foi de meditação budista, mas do indispensável exercício de observação introspectiva e de auto-conhecimento que se requer quando queremos superar as nossas tendências egocêntricas e colocar as nossas energias ao serviço não só dos amigos, dos compatriotas ou de grupos restritos, mas de projectos generosos e universais, como pretendo que seja o do MIL. Esta auto-observação da mente foi praticada por todas as escolas de filosofia gregas - chamavam-lhe "meleté" - , foi praticada na tradição cristã (por Vieira, por exemplo, segundo as instruções de Inácio de Loyola) e, comum a religiões e irreligiões, é hoje redescoberta em todo o mundo e alvo da pesquisa de vanguarda no domínio das neurociências, estando a ser proposta nos EUA para substituir o consumo de Prozac.
Ao falar da sua relação com a política - onde não invento nada, porque já há em todo o mundo quem fale disto há muito tempo - , poderia ir muito longe, mas basta-me dar um exemplo da sua grande utilidade: se a maioria dos actuais políticos, em todo o mundo, praticassem sinceramente esta introspecção meditativa, verificando sinceramente se iam para a política por engodo da fama, da riqueza e do poder, ou para servir o bem comum, decerto tinham desistido, para seu bem e nosso!...
Espero que estas reacções à flor da pele, ao falar-se de política e meditação, não indiquem haver no MIL quem queira, por recusa de observar a própria mente, ir no mesmo caminho de sempre...
Aprendi muito ao ler os vossos comentários e fico-vos imensamente grato por isso. Mas também algo céptico, relativamente à possibilidade de se cumprir verdadeiramente a Declaração de Princípios e Objectivos do MIL: vejo em vocês muita coisa, menos aspiração à compreensão de ideias novas e diferentes e ao bem universal...
Ainda bem que vos incomodo!
POST SCRIPTUM AO MEU TEXTO «DITADURA»
1. A ditadura de que falo não é nenhuma apologia ao fascismo ou a qualquer outro regime limitador das liberdades fundamentais e que desrespeite os direitos humanos.
2. O rei de que falo não é um mero conceito monárquico.
Oportunamente voltarei a estes temas, no quadro da nova ideologia que tenho vindo a conceber e que designei por transnacionalismo.
Klatuu Niktos
sábado, 6 de setembro de 2008
Esclarecimento pessoal
Não vou comentar o seu comentário ao texto do Paulo Borges – o Paulo, se o entender, fá-lo-á. Em todo o caso, digo-lhe, a bem da verdade e da salvaguarda da minha posição pessoal (sou também um dos fundadores do MIL): se alguma vez o MIL vier a defender na sua Declaração de Princípios e Objectivos que “o mundo não é senão a ilusão e o nada”, que o “não-ser é o que realmente somos” ou que “a nossa verdadeira Pátria é o vazio”, eu sairei. Não acredito, contudo, que isso alguma vez venha a acontecer. Aliás, mais: estou certo disso. Tão certo como estou certo que o mundo existe. E que eu também.
O Nada que é Tudo
Crente é pouco sê-te Deus
E para o nada que é tudo
Inventa caminhos teus.
…
Se Ele é o que dizes
Ele nada pode ser
E se nada, livre está
Para ser o que quiser.
...
Se Deus quisesse ocupar
Lugar a si mesmo igual
Preenchia todo o nada
E o deixava tal e qual.
...
Do que é o Espírito Santo
Só diga quem ficar mudo
Que palavra há que me leve
Áquele nada que é tudo.
...
Oxalá por saber tanto
Me apeteça ficar mudo
Só então vendo sem ver
Aquele nada que é tudo.
Agostinho da Silva
Este "nada que é tudo" de que nos fala o mestre Agostinho, falando a partir das bordas do abismo do Mito, essa sobre-excessiva mudez que nada tem que ver com mutismo, não é um vacuum, um vazio, um apelo à nadificação e à abdicação.
Falou-se já muito aqui em religião, em adeptos, neófitos e coisas assim. Ora, adoptar uma perspectiva religiosa não vai contra a liberdade de expressão. Talvez certos secretismos vão. E a liberdade de expressão não pode ir contra a liberdade religiosa, nem vejo como o Mil possa estar contra isto.
Mas é verdade que o Mestre Agostinho nos diz para sermos contagiosos. Mas eu tenho muita dificuldade em defender isto, porque não quero que ninguém se contagie com o eu ser eu. É uma doença tramada. Assim que me levanto de manhã, vejo-me ao espelho e, caramba!, sou eu!
Ora, eu não preciso de pedir autorização a ninguém para ser eu. Nem eu tenho que me autorizar a ser eu. Posso fingir que não sou eu, mas tratar-se-ia dum fingimento meu.
E os pensamentos vêm-me de algum lado. E o eu agarra-os, como o Kant já se tinha dado conta na Crítica da Razão Pura: a unidade da apercepção agarra os dados fenoménicos e faz com eles um mundo, com a ajuda de todo um instrumentário complicadíssimo que, ao que parece, funcionaria mesmo sem que nós soubéssemos da sua existência.
Mas, no meio disto tudo, não quero um machado, seja ele qual for, a dar-me cabo das engrenagens transcendentais. E do que delas possa ser regurgitado.
E gosto da ideia de Agostinho da Silva segundo a qual cada homem é Deus a ser homem. O que significa que cada homem pode superar-se. Não há mal nenhum nisso. Não é a mesma coisa que a Aufhebung hegeliana, é algo de mais radical. E envolve tudo aquilo que historicamente somos. E, também o que não somos, não fomos e poderemos, ou não, vir a ser. Há uma meta-história, talvez infra e supra histórica. É daí que emergem os mitos. E os mitos são imbuídos de forças de superação, de energias demiúrgicas, capazes de levar à transcensão do que, sendo finito por ser o infinito em acto, sempre pontual e pontuado, pois a História é um pontilhado dinâmico, multimodal e multi-circunstancial, nunca totalmente circunscriptível, nunca está completamente determinado. Não há, contudo, um indeterminismo radical, no fundo mais fundo, mas uma inter-determinação, ela sim, verdadeiramente adunadora de sentidos e de complementaridades, sicronias, discronias, no fundo, o jogo, sempre caótico, da Physis.
Isto por vezes custa a meter-se-nos na pinha.
É natural. Mas há milénios que a coisa marcha, ora duma forma, ora doutra. Muitos dos que defenderam estas ideias foram acalentados pelas fogueiras inquisitoriais. Cavaleiro de Oliveira, recordo aqui a lição de Sampaio Bruno, ardeu em efígie e queixou-se que, no mesmíssimo dia, tiritava de frio na soturna Londres tão afastada no clima, e nos costumes, da sua tão amada Lisboa.
A mesma Lisboa que abalou a harmonia pré-estabelecida de Leibniz ao ser o palco do infausto terramoto de 1755. Aí os mitos tremeram, não só os que tinham por cá uma roupagem religiosa, ou até político-religiosa, mas também os que se erguiam na Europa a caminho do esclarecimento. É que a Razão nada pode contra a Natureza, embora esta última nunca tenha deixado desmentir a sua profunda racionalidade, razão pela qual, "Deus não joga aos dados", segundo Einstein, e o "real é racional e o racional é real", seja qual for a ordem da coisa, de acordo com a versão hegeliana do Princípio da Razão Suficiente. A Natureza participa também da demiurgia mítica. Pode é não estar de acordo com a forma como incarnamos os mitos. Mas isso é uma coisa nossa, cultural, portanto, se calhar, des-naturada, embora possa ser naturante, porque talvez esteja por pensar as formas pelas quais a Cultura se degenera em Natureza, como se pode ver nos mais recentes avanços da ciência genética. O Zoon torna-se artefacta e a Bios, a vida tal como os humanos a vivem, deixa, hoje, de ser encarada como uma poiésis, num sentido muito especial, para passar a ser, cada vez mais , uma mera repetição, uma mimésis de modelos e de formas culturais que nada têm de mítico, mesmo que lhes tenham tomado de empréstimo a aparência.
E aqui há uma lição importante, que nada tem que ver com atitudes religiosas, num texto insuspeito de Derrida: "l'animal donc je suis" (Vários Autores, L'Animal Autobiographique, galileé, Paris, 1999, pp. 251-301). Aí Derrida fala duma compaixão essencial, fundamental, que emerge do olhar do animal sobre o ser humano, o "animal auto-biográfico" exilado da sua nudez primordial, a que não deixa rastos nem rasteja, mas que no caso do homem sofre duma incompletude alienante.
Esse olhar do outro sobre o absolutamente outro que nós somos para si, que, no fundo, não tem um "si", é um olhar desarmante porque incomunicável, como todo o autêntico olhar. E o nosso rosto só a esse olhar se torna transparente, devido à sua capacidade de ir ao fundo, do que mais importa.
É absolutamente falso ligar a rapacidade humana, o egotismo desenfreado, a inveja, o medo de perder protagonismo, as razões para o ódio e para a desunião, a tendências ou instintos animais. Embora Pascoaes, Leonardo Coimbra, Agostinho da Silva e outros autores tenham razão ao afirmar que o mundo humano e a sua caractereologia formam um bestiário exuberante. Talvez seja verdade. E há aí muitas razões para nos regozijarmos, uma vez que voltamos a encarar-nos como naturais. O que já não será pouco.
Também será errado considerar que os homens, todos os homens, não têm um fundo bom. E nada há aqui de religioso. Talvez seja uma palermice minha que até nem sou muito seguidor de Rousseau. Até certo ponto.
Todos os homens são dignos de respeito e de consideração.
O Menino Jesus
Como clarissimanente expôs o Paulo Borges no texto hoje publicado, as coisas não existem em si e por si, antes lhes sendo intrínseca a interdependência (e a impermanência).
Para mim assim é o MIL; e portanto, como com qualquer outra coisa, ele não existe para além da percepção que os que nele se reconheceram dele têm: é feito pela sua história, e não pelo seu desígnio. Ora essa percepção assenta, para todos, no que lhes é proposto pelo Manifesto e pela Declaração de Princípios; e assenta também, ao menos em todos os que não tenham sido os seus fundadores, naquilo que encontraram ao chegar como etapa caminhada já, como história partilhada pelos que antes chegaram. Para ir directo ao assunto, se Portugal não é Menino-Jesus-das-Nações não vejo que possa haver um MIL Menino-Jesus-das-ideias; não há, neles, uma essência destinada à progressiva revelação (a neófitos ou a inspiradores); não há, com eles, pré-determinação de pontos de chegada ou, sequer, de etapas de jornada.
Definimo-nos em fraternidade, na barca e na estalagem comum da lusofonia – o resto serão coisas de caminhar. Sabemos que andamos em busca, e isso não nos diz onde vamos esta noite dormir: a barbárie indo-europeia deu-nos, entre outras maravilhas, a possibilidade de pensar a vida como uma aventura, e a aventura como uma possibilidade de redenção. Como na história grande do Graal, não estamos frente a uma porta fechada: antes temos na mão uma chave e é o pórtico o que nos falta, antes temos respostas soltas, com que buscamos a grande Pergunta-a-haver. Mistério da beleza, que nos beija na impermanência das coisas; mistério da Elevação, que faz dos nadas a claridade do ser.
II
No mesmo fundamental texto de hoje, diz-nos Paulo Borges:
a) que “É apenas à luz do patriotismo trans-patriótico e universalista, como projecto fundamentalmente ético-espiritual (…) que considero fazer sentido a existência do MIL”;
b) que “patriotismo trans-patriótico e universalista é o que encontro no melhor da ideia de Portugal e da comunidade lusófona que – depurada do lastro de muitos condicionantes - interpreto em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva”;
c) que “patriotismo trans-patriótico e universalista é o que em última instância aspira a orientar as energias de uma dada nação para que (…) a comunidade humana possa expressar o mais possível a estrutura e as leis fundamentais da própria realidade: ausência de id-entidades com características intrínsecas, interdependência, impermanência”.
Porque não quero admitir que estejamos diante de uma operação de manipulação friamente planeada ou de uma OPA hostil à herança do pensamento lusíada, tomo isto como uma proposta séria – tanto mais importante quanto, na ilusão da nossa ainda não trans-patriótica e definitivamente libertada percepção, a vejamos como vinda de um Paulo Borges objectivamente exterior a nós e realmente fundador do MIL – de percorrer um caminho, e um caminho escolhido na luz de já encontrada candeia. Ora esse caminho eu descrevo-o assim:
a) vejamos a herança dos pensadores portugueses, de Camões, de Vieira, de Pessoa, de Pascoaes, de Agostinho; depuremo-la – como lastro no alto mar – de todas as referências a Portugal-povo, a Portugal-nação, a Portugal-história, a Portugal-combate – o mundo não é senão a ilusão e o nada;
b) vejamos aquilo que ainda cremos ser, e despojemo-nos disso – assim atingiremos o não-ser, que é o que realmente somos;
c) vejamos a hierarquização das coisas a que chamamos Pátria, e lembremo-nos de que tudo é impermanente excepto a dissolução – assim atingiremos o vazio, única Pátria verdadeiramente comum;
d) vejamo-nos a nós, manto ilusório de id-entidade, onda insubstancial do Oceano maior; e renunciemos ao manto como o único acto digno do Rei, que é a Abdicação.
e) ah, e este é o verdadeiro MIL - tal como eu o sonhei, mesmo sem saber que sonhava.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
AINDA SOBRE “O QUINTO IMPÉRIO E A CPLP”
Para mal dos meus pecados, este meu espírito irrequieto não me deixa em paz. Quando lê um texto sobre este tema fica numa roda-viva !
Temos Imperadores, temos Senadores, temos Generais, temos a guarda-avançada mas... onde está o exército ?
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Sete esboços para um triálogo
Ao Renato e ao Klatuu, novamente...
1. No fundo, entender o que será o império de que Portugal pode aspirar ser a proposta - de que nos vale a pena aspirar a ser palavra de início - é entender a diferença entre um espaço definido pelo uso da língua portuguesa e um corpo constituído como uma língua portuguesa.
2. Uma língua é um sistema de comunicação, e por isso uma conversa é simultaneamente comunicação de diferenças e enriquecimento de identidade própria. Não pressupõe o conhecimento recíproco dos falantes: ele gera-se no seu uso e pelo seu uso. Não anula as diferenças; mas a enunciação da diferença gera a compreensão que a ilumina. Não é apropriável por ninguém, mas apropriada para todos. A língua é uma hierarquia sem dominação, uma verdade sem ciúme, uma beleza sem artifício: no mundo da linguagem, que é o da irresistível elevação das coisas ao poema, somos desde sempre senhores entre pares. Porque a sua riqueza não sabe excluir, admite o paradoxo maior que é o da aristocracia de iguais. A língua não cala o estrangeiro: tradu-lo. E ao traduzi-lo convida-o. Na língua, o silêncio também tem lugar.
3. A diferença entre nação e império - se preferirem, a diferença entre o nacionalismo e projecto imperial português - é a diferença que vai entre afirmar que tudo o que seja dito em português é valioso e bom, e afirmar que tudo o que é valioso e bom pode ser dito em português. A nação não pode traduzir, porque é um espaço e não uma língua: as suas fronteiras são fechadas à importação de mercadorias e à importação de conceitos, sob pena de dissolução. Já o império não pode deixar de traduzir, porque sendo um corpo linguístico e não um espaço não tem fechadas as suas fronteiras cognitivas.
4. A inconsciência desta distinção perturbou a análise de quase todos os intelectuais do séc. XIX e inícios do séc. XX (notabilissima por isso a excepção de Pessoa), isto é, os intelectuais que viveram o apogeu dos nacionalismos, e que confundiam império com as falsíssimas caricaturas dos neo-impérios francês e prussiano: atribuíram à vitalidade nacional a capacidade de integrar, superando-as, as novidades e as transformações estrangeiras, quando na verdade essa integração correspondeu sempre - exemplarmente no período português das Descobertas - a uma fase em que a nação pariu um império como um espaço bárbaro pode parir uma língua.
5. Agora, passado o tempo das nações fechadas por força da irresistível transformação mundial a que chamamos globalização, o risco já não é o de confundir nação com império, mas o império com a neutralização dos mundos; isto é, o de não perceber não só que a globalização não é indutora mas o obstáculo maior ao império, mas também que o império é a única forma de devolver identidade (e, por isso, diferença) aos seres humanos globalizados, rebaixados a consumidores ou, no melhor caso, a computantropos. E que por isso o império - e as cumplicidades locais que o constituem - são a forma superior de resistência à ilimitada voracidade dos mercados.
6. Ao contrário da nação, o império não está encarcerado no seu espaço físico e no seu tempo histórico, mas estrutura o mundo no seu próprio espaço-tempo complexo: a língua e o império são sempre uma plataforma entre mundos. E como a mesma língua admite diferentes discursos, o império admite diversas realidades locais: culturas tradicionais e tribos pós-urbanas, crenças espirituais e hábitos de vida. Todo o império é heterogéneo e heterónimo.
7. Assim, à semelhança da língua há-de ser o império ou não vale a pena falar. Ele forja-se em nós, na nossa relação com o mundo-que-somos, com os mundos-diversos que as coisas nos dão. Não brota de um programa político, mas de uma linguagem de programação. Não depende da vontade de poder, mas da verdade a exprimir. Não é reaccionário nem futurista, porque passado e futuro são modos de enunciação. Há-de ser um mundo dito, e não um mundo ditado.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
COMENTÁRIO AO POST Querem ser melhor retratados?
Este é o Al-Andaluz de que não temos falta: somos arábicos de pleno direito histórico – o da história da civilização de excelência, tolerância, supremo conhecimento, arte, filosofia, astronomia, matemática, geometria, poesia e elegância que foram os dos Reinos Taifas; «somente» o melhor momento da Civilização Islâmica, a dos Príncipes Perfeitos, como Al-Mutamid, nascido em Beja, Príncipe de Silves, Rei de Sevilha, que tomava por esposas, cristãs, bebia vinho e não perdia uma boa conversa sobre o Ser e o Nada.
O que mais me espanta numa certa Esquerda não é a sua demagogia alarve, nem a suspeita de traição – é mesmo a sua tamanha falta de cultura!
Klatuu Niktos
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Sobre a presença militar internacional no Afeganistão e a posição do MIL
Contudo, é minha opinião de que aquilo que se está a passar no Afeganistão é de tal gravidade que todos os Estados têm o dever de participar ativamente no que aqui decorre.
A ascensão do poder dos Taliban (que montam hoje um cerco efetivo a Kabul) e o colapso da presença da NATO e do "governo" local irá implicar o retorno do país às mãos dos fundamentalistas islâmicos e o ressurgimento de um santuário a partir de onde se lançam tentacularmente operações terroristas em todos os países do mundo.
Ou seja, sejamos claros: se o Afeganistão retornar ao jugo talibã, não faltará muito tempo a que tornemos a ver bombas estourando nos transportes públicos de todos os países da NATO e do Ocidente, e Portugal, tendo em conta o relativo despreparo nestes assuntos está muito mais vulnerável do que qualquer outro país membro da NATO.
Travamos uma guerra no Afeganistão, para que não tenhamos que a travar nas nossas ruas.
Sendo a guerra um inevitável "último recurso" e tendo em conta a barbárie que os islamitas querem instalar no Afeganistão e a projeção desta depois a todos os cantos do mundo onde a conseguissem lançar não cabe aos homens e mulheres de bem tudo fazer para impedir que tal tumor assassino se reinstale no poder?
Não estaremos assim perante uma "guerra justa" (ao contrário da recente na Geórgia, dos bombardeamentos na Sérvia, na ocupação do Iraque, etc, etc) onde temos o dever moral e político de participar?
E falamos de 40 e tal "técnicos" não-combatentes que estarão sempre no perímetro do aeroporto de Cabul, não falamos?
Por fim, quanto à "Força Lusófona de Manutenção de Paz", é minha convicção de que ela, quando for criada (e sê-lo-á, mais cedo ou mais tarde) deverá intervir em primeiro lugar em todos os locais onde seja necessária a sua presença estabilizadora e pacificadora, dentro do mundo lusófono, e sempre com a intensa e coordenadora participação de forças locais, mas é também minha convicção de que nenhum país lusófono devia participar isolado em qualquer missão de paz internacional descontextualizado desta força. Assim, no Haiti, o Brasil não devia estar sózinho, nem Portugal o devia estar no Kosovo, no Líbano ou no Afeganistão. A partir do momento em que fosse constituída esta força, as forças nacionais deveriam ser substituídas por "forças lusófonas", imparciais, desinteressadas (ao contrário do que se passa geralmente com os anglo-saxões) e respeitadas pelas partes, quer pela sua tradição não-intervencionista, quer pela presença no local com meios suficientes capazes de garantir a eficácia da força (não repetindo, p.ex. os erros da UA no Darfur).
domingo, 31 de agosto de 2008
VIVA A CORAGEM DE QUEM LUTA PELA LIBERDADE, PELA DEMOCRACIA E PELO OCIDENTE!
«SUDÁRIO, ESCUDO VERMELHO E ESPADA»
Este é o meu comentário à coisa aqui embaixo. Não suporto o fundamentalismo islâmico, nem quem o apoia, e estou e sempre estarei solidário com os nossos militares que combatem contra a tirania no quadro das missões de paz determinadas pelas Nações Unidas. Acredito ser essa também a posição do MIL.
sábado, 30 de agosto de 2008
Do Império e da perpetuidade de Portugal – mais seis notas para o Klatuu, e também para o Arnaldo, para o Casimiro e o Clavis (e para quem mais vier)
1. Historicamente, nada de mais verdadeiro. Daí a necessidade das alianças ao longo dos séculos. De outro modo, há muito que Portugal tinha deixado de existir…
2. Nestas paragens, já passámos, contudo, o tempo das invasões*. Objectivamente, não há qualquer perigo de, por exemplo, sermos invadidos pela Espanha. O risco que poderia advir de Espanha seria a sua desintegração – e as consequências disso (voltaremos um dia a este ponto).
3. Não se pondo a questão de uma ameaça militar (a ameaça terrorista é outra coisa), há, decerto, outros planos a considerar – nomeadamente, o demográfico (sim, Portugal corre o risco de colapso demográfico) e o económico (apesar da “assistência” europeia). Mas, para esses, vai havendo sempre remédios, ou pelo menos, paliativos (que não iremos agora desenvolver).
4. Portugal, contudo, não é uma mera “empresa” - sob o ponto de vista empresarial, tudo isso se resolveria com uma mera “deslocalização”, como agora se diz. Portugal é um território (por definição, indeslocalizável) e, sobretudo, um povo, cuja singularidade está, essencialmente, na língua e na cultura. É esse o fundamento maior da nossa “independência”.
5. Sob esse ponto de vista, o risco maior à nossa independência seria a língua portuguesa ficar confinada a este nosso território (falamos sempre no plano do médio-longo prazo). Daí a aposta estratégica na Lusofonia: é do nosso interesse que a língua portuguesa se continue a falar nos diversos países da CPLP.
6. E, também, ponto decisivo, para os outros países da CPLP. Para os PALOPs (países africanos de língua oficial portuguesa), por exemplo, é a língua o grande factor de coesão nacional. Por isso (esclarecimento ao Casimiro) escrevi aqui que “é a razão o que sobretudo nos une”. Acredito mais na perpetuidade das alianças por interesse do que por paixão (as paixões esvaem-se; os interesses mantêm-se). Por isso, acredito no futuro da Lusofonia**. Tanto mais porque essa “plataforma linguística” tem virtualidades outras (económicas, por exemplo) ainda não de todo exploradas. Por isso, em suma, acredito no futuro de Portugal. Aliás, parafraseando o outro, se não acreditasse, não estaria aqui…
* O mesmo não se passa ainda, por exemplo, na Europa de Leste (veja-se o que se está a passar na Geórgia) e em muitos locais do mundo. Daí, também, a fragilidade da independência timorense (ponto a desenvolver).
** A este respeito, há, obviamente, que referir e salientar o papel do Brasil (outro ponto a desenvolver).
Notas à margem da mesma conversa
Caros, com pena de não ter mais tempo agora:
1. O assunto foi tomando, por assim dizer, a forma de uma estrela de David, de duplo triângulo: num plano, a tríade Vieira - Pessoa - Agostinho; num outro, a tríade Portugal - Europa - Lusofonia. Se quisermos, de um lado a idealização (Império, para manter a palavra) e, do outro, a realização (CPLP como caminho e, em pano de fundo, a globalização planetária). Curiosamente, cada vez mais claramente parece estarmos a falar de coisas completamente diferentes (foi a minha primeira reacção ao ler a "provocação" do Arnaldo); julgo que não estamos, e que nos falta no mapa um 7.º ponto, que não é vértice mas centro da estrela... Lá iremos ao andar da conversa, acho.
2. O que o Renato diz de Vieira, Pessoa e Agostinho é crucial, e merece análise mais funda: por agora, só dizer que o Agostinho está claríssimo, mas que, no Pessoa, a questão do "jogo literário" (precisamente por causa da sua possível confusão com qualquer "jogo interior") tem muito que se lhe diga, para não envolver uma petição de princípio: a de dar por demonstrado precisamente aquilo que em última análise toda a tradição de pensamento "esotérico-religiosa" (em amplíssimo sentido) repudia, e que é a ideia "moderna" de que o acto solitário, por si, não transforma o mundo (incluo neste "acto solitário" tudo o que vai da oração judeo-cristã à prática alquímica ou mágica).
3. Quanto à análise da situação actual, subscrevo quase inteiramente o que disse o Klatuu (o "quase" vem do ponto 2 e nasce só de ser eu, ao contrário, o maior céptico relativamente à minha racionalidade...). O ponto mais importante a meu ver vem trazido pelo Renato, e está nos pontos 4 (de ambos) sobre "europa das pátrias" e "europa imperial".
4. Da europa imperial há que excluir liminarmente a Inglaterra e o seu actual herdeiro americano, como tão perfeitamente compreendeu De Gaulle: o império destes não é império europeu mas império marítimo, e a vocação destes há-de ser sempre a de cercar e neutralizar a hipótese de um império continental (que na actual circunstância só pode ser russo-europeu).
5. De passagem, não penso que Portugal tenha sido alguma vez um império marítimo, ao contrário do que nos ensinam a pensar: marítimas eram, no tempo das nossas Descobertas, as potências com quem conflituámos (Veneza, Inglaterra, Holanda), e por isso a elas se deve a parte "material" da modernidade: o capitalismo na sua forma financeira, por exemplo. Mas à medida que Portugal se expandia (e expandia-se aprendendo, pois foi preciso re-conhecer primeiro o mundo a descobrir) procurou sempre uma plataforma continental em que ganhasse o fôlego de território que nesta faixa da europa lhe faltava, sendo a Índia e o Brasil as sucessivas hipóteses de centrar o império: através da expansão marítima, Portugal buscava penetrar na terra.
(a continuar)
A JUNTAR-ME AO TRIÁLOGO (?) COM O RENATO, O ARNALDO E O CASIMIRO… ALGUÉM MAIS?
Não te faltam munições – mas como estes me são mais fáceis, do que a tríade: Pessoa/Vieira/V Império... aqui vai.
(Em breve o resto; ainda hoje).
1. Portugal é a raiz da Europa moderna; dispensa «lições de Europa», seja de quem for.
2. Também é convicção funda minha, para não lhe chamar Fé, mas como é Fé e como (te disse) sou o maior céptico em relação ao meu próprio misticismo (fundamentalmente porque não o consigo racionalmente explicar) – penso que é avisado admitirmos que Portugal poderá não existir no futuro. Como tal cabe a nós, os vivos, garantir que Portugal terá um Futuro.
3. Não concordo inteiramente. Dependerá muito da forma: se for uma soma, não terá eficácia, mas se for uma coordenação das políticas externas de cada estado-membro poderá ser muito eficaz – desde que a Europa Comunitária não caia na tentação de se substituir à NATO.
4. Penso que isso acontecerá, mas não pelos vectores que apontas: é a própria «europa imperial» que criará esse retorno à Nação (veja-se a Bósnia, etc), mas não por uma reacção à Europa Comunitária, mas sim porque as «super-estruturas imperiais» permitem que as nações se libertem da «tirania dos estados». A mensagem de Deepak Lal em «O Elogio dos Impérios. Globalização e ordem» é inequívoca: os impérios sempre conferiram maiores direitos de cidadania que os estados e garantem melhor a paz, impedindo a rivalidade entre estes. É evidente que tornar-se Estado é a forma de afirmação da Nação, mas isto só é possível para as pequenas nações pelo recurso a uma terceira instância que é o «império».
Não esqueçamos aqui algo de fundamental: o projecto de extensão da civilização portuguesa deve ser na direcção de mar e terra; juntá-los reforça-la-á nos dois vectores e isto também se aplica à economia, tornando-se Portugal uma boa parte da plataforma de relação comercial entre a Europa, o Brasil e África.
5. 6. 7. Nestes pontos concordo inteiramente.
8. É evidente que a rota do MIL não poderia ser outra, querer que a CPLP se substituísse à Comunidade Europeia seria absurdo – Portugal deve manter-se em ambas as estruturas; isso torna-o aliciante além e aquém mar.
9. Concordo, mas há que tornar a CPLP mais dinâmica, não só enquanto estrutura, mas na convergência de um modelo económico e na abertura de um mercado livre de fronteiras entre os estados lusófonos – e isto basta; mais não é necessário: a possibilidade federativa enfraqueceria Portugal enquanto nação europeia e ameaçaria a nossa sobrevivência.
10. A convergência económica fomentaria a democracia – e não nos esqueçamos de um fenómeno imparável: o da cada vez mais rápida e livre divulgação da informação, da cultura e do conhecimento. Os regimes ditatoriais têm os dias contados... pela crescente tomada de consciência da cidadania individual transnacionalista, do indivíduo enquanto cidadão planetário.
Klatuu Niktos
Mais dez breves notas – para o Arnaldo, o Casimiro, o Klatuu e o Clavis.
2. Se essa condição é “eterna”, o actual modelo de construção europeia é meramente conjuntural. Nasceu ainda do rescaldo da 2ª Guerra Mundial e pelo facto da Alemanha ter ficado no estado em que ficou. Durante décadas, durante mais de meio século, a Alemanha aceitou pagar essa construção europeia sem reclamar qualquer voz política. Pela natural ordem das coisas (não há condenações eternas), isso está a mudar, e mudará cada vez mais…
3. O presente “salto em frente” da União Europeia, nomeadamente com a definição de uma política externa comum, é o seu canto do cisne. A Europa, a velha e eterna Europa, nunca terá uma política externa comum, pela simples mas suficiente razão de que a força da Europa está na sua pluralidade. Podia aqui multiplicar os exemplos: a França, tida como grande “europeísta”, sempre teve uma política própria; da Inglaterra nem vale a pena falar…
4. A construção europeia vai pois regressar à "Europa das Pátrias": é esse o seu destino. Há coisas mais fortes do que todos os voluntarismos de circunstância. É o chamado “Vento da História”.
5. E Portugal? Portugal, depois de 25 de Abril, quis fazer um corte com todo o seu passado. Exausto da guerra colonial (a maior razão para o golpe de estado), Portugal voltou as costas a todo o Ultramar (com algumas consequências bem trágicas) e empenhou-se em “regressar à Europa”. Daí essa obsessão de ter “a Europa connosco” (lema soarista) ou de sermos o “bom-aluno europeu” (lema cavaquista).
6. Passados já mais de trinta anos sobre o 25 de Abril, saradas (ou a caminho disso) as feridas do lado de cá e de lá, com uma nova geração já nascida depois de tudo isso, é tempo de refazer as pontes…
7. Refazendo as pontes com o mundo lusófono, Portugal não está pois a renegar a sua condição europeia, mas, ao invés, a cumpri-la: tal como o fazem, de diferentes modos, as outras potências europeias…
8. O que o MIL pretende, como já foi mil vezes dito, não é senão estimular essa dinâmica de reconvergência lusófona – todas as posições públicas que temos tomado é claramente a essa luz que devem ser lidas. No aprofundamento do que existe, ou seja, da CPLP. Não é senão isso o que queremos ser: a “guarda avançada” da CPLP, os que vão à frente a abrir caminho…
9. Até onde poderá ir essa convergência, não sei, nem acho que tenhamos que propor a priori modelos políticos. Por enquanto, a meu ver, importa apenas alimentar essa dinâmica: cooperação cultural, desde logo, mas também económica, cívica, social, institucional, diplomática, etc, etc, etc…
10. Decerto, é preciso caminharmos com cuidado, até porque, do lado de lá, há regimes que não inspiram a menor confiança (desnecessário nomear quais). Mas também isso irá, a pouco e pouco, mudar…
Entre Vieira, Pessoa e Agostinho – seis breves notas em "triálogo" com o Arnaldo, o Casimiro e o Klatuu.
2. Não sei o que seria Vieira se tivesse nascido no tempo de Pessoa. Decerto, um Vieira bem diferente. A ponto de se reconhecer na "heresia" pessoana? Talvez até, pelo menos em parte.
3. Vieira era, a meu ver, um espírito muito pragmático, mesmo no plano ideativo. Dir-se-á que pôs o V Império ao serviço de uma visão cristocêntica do ser e do tempo. Poder-se-á, contudo, também dizer o contrário: que pôs a mundividência cristocêntrica do seu tempo ao serviço da “sua” ideia de V Império.
4. O mesmo exercício especulativo se pode fazer com Pessoa. Se ele tivesse nascido em 1608, decerto teria sido bem mais cristocêntico. Talvez até mais do que Vieira…
5. Num ponto, decerto, eles divergem, e aqui entra o Agostinho, e o seu grande ponto de ruptura em relação ao Pessoa. Para Pessoa, tudo se passa, sobretudo, num plano interior, ou, para ser mais cáustico, num plano lúdico-literário*. Para Vieira, como depois para Agostinho, o V Império (também não gosto da expressão, mas adiante) tem que ter uma tradução política, social e económica. Decerto, também interior, ou “espiritual”. Mas não apenas…
6. E, por isso, estando no plano ideativo mais próximo de Pessoa (vide a sua obra “Um Fernando Pessoa”), no plano da praxis, Agostinho é um vieirino, tanto quanto se pode ser vieirino neste nosso tempo. Mas sobre isso, sobre a construção práxica do V Império no século XXI, mais notas escreverei adiante**.
* Como se, para Pessoa, tudo fosse um mero jogo, uma mera construção literária. Nessa medida, tanto poderia ter escrito sobre o V Império como sobre a União Soviética (é o que pensam, ainda que não o digam, muitos dos ditos “pessoanos”). Não é, de todo, o que eu penso: acho que há um Pessoa genuíno para além de todo o jogo literário, mesmo para além de todos os seus heterónimos. E não considero que seja uma questão de fé. Ele está lá, para quem o quiser ver…
** Convocando também o Clavis, que tem igualmente procurado fazer esse exercício.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Ao Arnaldo Norton, reflexão sobre o Império e a Estratégia Imperial (I)
Caro Arnaldo Norton, impensada e solitariamente levantei a luva da sua importantíssima provocação, e eis-me agora com um mundo de coisas para treplicar. Tantas, na verdade, que tenho de começar por picar os pontos essenciais da pergunta (múltipla) que lançou e, descendo dos princípios para a confusa realidade quotidiana, responder hierarquizando as questões.
Partamos assim do Império, que sendo o Fim é o melhor lugar do Princípio.
Eu não disse que Pessoa não estimasse e admirasse Vieira; não acrescentei - mas digo-o agora - que duvido de que Vieira estimasse as ideias de Pessoa, se as pudesse ter conhecido (vou manter arredada por ora a Terceira Pessoa da nossa profética trindade, o Agostinho). E a razão funda desta desestima é a de que Vieira era católico, enquanto Pessoa - conforme o último livro que ia lendo - era ou fazia-se (nunca o saberemos) teosofista, neo-pagão, admirador de Crowley, pseudo-templário ou invocador de diversas serpentes; coisas perdoáveis ou estimáveis num artista (e num génio) mas tudo coisas a ver com cautela (porque há caminhos que não têm regresso) se entrarmos nas vias de conhecimento, gnose ou revelação (que não são já as da teologia e da metafísica, racionais ainda) mas as do profetismo, do esoterismo, do ocultismo ou do misticismo (deixo a cada leitor a sua escolha pessoal).
Ora para Vieira o V Império há-de ser a culminação da História na redenção da humanidade (e da Criação), e portanto há-de ser obra divina; o fim da cisão, da falha, do abismo que duram desde a fundação do mundo. É, em termos cristãos, o mistério do Oitavo Dia: coroação da tripartida Obra de Deus na Criação do Pai, na Redenção do Filho, na Consolação Nupcial e Final do Espírito Santo.
Já para Pessoa, o V Império há-de ser uma coisa inteiramente outra: não consegue ele conceber, perdido sempre nos seus "caminhos da serpente", outra coisa que não a auto-iluminação pessoal, a auto-elevação pessoal de cada homem a uma condição "angélica", uma vez que Deus não falará nunca, não mostrará nunca a Sua face (não porque o não queira, mas porque a não tem: "o Cristo não é mentira, mas (...) é da essência do Cristo não poder ser encontrado"). O Império será, naturalmente, a morada - ou a alma colectiva - dos homens tornados plenamente conscientes de que, para serem como Deus (ou para prescindirem da sua insuportável ausência) hão-de ser tão múltiplos que uma só Face também já não tenham.
Compare-se isto com a visão católica de Vieira: a desvairada multidão de Povos que Portugal ajuntou, na "globalização" das Descobertas (ante-anunciada no Índio que uma pintura manuelina apresenta como um dos Reis Magos) é, essencialmente, a re-união do Único Povo (disperso na História) sob a égide do rei do mundo, delegado terreno da Única Fonte (que é o Amor infinito, divina forma do Nada de onde brota todo o Ser).
Vale a pena, a meu ver, pensar nisto (pensar aqui, quero eu dizer) porque aquilo que seja para nós o Império condiciona aquilo que veremos como o caminho para o atingir: quer do ponto de vista do caminho pessoal para a santidade ou a iniciação (esse, não nos ocupa aqui), quer do ponto de vista do caminho colectivo: aquilo a que chamarei (para a distinguir das pequenas tácticas da guerrilha política) a Estratégia Imperial.
E a Estratégia Imperial (por ser diferente o lugar que nela a nossa alma tem) não é a mesma, diria mesmo que é a oposta, conforme entendamos que sejam caminhos do Império tudo o que contribua para a infinita difracção de cada alma no prisma infinito dos caminhos da possibilidade ("Sermos tudo", como dizia Pessoa, sermos "Como os deuses que conhecem o bem e o mal", como dizia a velhíssima Serpente bíblica...) ou que sejam esses caminhos tudo o que contribua para o combate e a contenção da parte material (terrena, se preferirmos), do Manto de Trevas que recobre o mundo em que estamos (e que, por isso mesmo, nos recobre a nós também).
Dito de outra forma: há uma determinada Estratégia Imperial quando o objectivo é o da libertação, à imagem do Nada, da infinita aparência das coisas, e há uma outra Estratégia Imperial quando o objectivo é o da libertação, à imagem da Vitória, da infinita apetência das coisas (não há nada mais ávido do que os demónios...).
No fundo, o que esta escolha pressupõe é saber se o nosso Ser é como o Oceano, informe e idêntico a si mesmo num imenso infinito sonho, ou se é como o Reino, hierárquico e polarizado num Rei e num Centro ou Eixo (simbolizado pela Cruz para um cristão e num Pólo, numa Árvore Sagrada ou numa Montanha em outras espiritualidades).
Para que não nos percamos (ainda estamos longe da CPLP mas, oh Arnaldo Norton, você é que despejou o cesto em cima da mesa...), poder-se-á começar a entender porque é que há duas leituras possíveis (mas, inconciliáveis?) do significado dos tempos de "paz e espiritualidade" antevistos pelo profeta Daniel...
Para uma ocasião seguinte, porque isto vai longuíssimo já, ficarão a globalização, o capitalismo e uma certa "moderna Europa" como os rostos visíveis do nosso actual adversário e, por isso mesmo, como as maiores armadilhas para Portugal, nesta fase histórica do seu destino...




