A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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terça-feira, 5 de setembro de 2023

NOVA ÁGUIA nº 31: Capa, Editorial e Índice...

 

EDITORIAL

O trigésimo primeiro número da NOVA ÁGUIA é um número particularmente rico, na sua diversidade. Começamos por celebrar os primeiros trinta números da nossa Revista, com uma selecção de trinta visões de Portugal, da Filosofia Portuguesa e do Mundo Lusófono – de trinta autores diferentes, desde o primeiro ao trigésimo número da NOVA ÁGUIA.

Depois, publicamos a transcrição da primeira mesa-redonda “Repensar Portugal, à luz de Portugal, Razão e Mistério”, que decorreu em Julho, na Fundação António Quadros. No próximo número, fica desde já prometida a publicação da segunda mesa-redonda, entretanto realizada.

Neste número, publicamos ainda os textos apresentados no I Encontro do Observatório SEDES da CPLP/ VIII Congresso MIL da Cidadania Lusófona, que teve como tema “A percepção da guerra na Ucrânia pela CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa” e que decorreu em Dezembro, na sede da SEDES: Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, ocasião em que, no final, foi entregue o Prémio MIL Personalidade Lusófona 2022 a Jorge Carlos Fonseca, ex-Presidente da República de Cabo Verde.

Depois, conforme o prometido, publicamos os restantes textos apresentados no Congresso Internacional “Gilberto Freyre: o outro Modernismo Brasileiro e a nova Escola do Recife”. Após, no número anterior, termos publicado os textos mais centrados na figura de Gilberto Freyre, neste número publicamos os textos relativos a Maria do Carmo Tavares de Miranda, Emanuel Carneiro Leão, Nelson Saldanha, Vamireh Chacon e Eduardo Portella.

Neste número, publicamos ainda alguns textos sobre Pinharanda Gomes, figura de referência para a NOVA ÁGUIA (e de destaque maior, no vigésimo quinto número da Revista), textos apresentados num Colóquio realizado na Biblioteca Nacional de Portugal, bem como sobre “Outros Vultos” relevantes no plano cultural: desde Agustina Bessa-Luís (no centenário do seu nascimento) e Ana Luísa Amaral (recentemente falecida), até Cleonice Berardinelli e Nélida Piñon (também falecidas recentemente) e Joseph Ratzinger, o Papa Emérito Bento XVI, aqui evocado de forma particularmente sentida, após a sua morte no último dia de 2022.

Finalmente, em “Outros Voos”, publicamos mais de uma dezena textos, de temática diversa; em “Extravoo”, publicamos um longo ensaio de Joaquim Domingues, intitulado “Modernos e Modernistas”; em “Periódicos Eternos”, recordamos O Leal Português; no “Bibliáguio”, damos destaque a uma série de obras publicadas recentemente; em “Moradas: caderno poético e visual”, publicamos um longo poema de Teresa Dugos, com desenhos de Mariana Gomes; e, em “Memoriáguio”, recordamos os momentos mais marcantes do segundo semestre de 2022 no universo do voo, cada vez mais alargado, e elevado, da NOVA ÁGUIA.

A Direcção da NOVA ÁGUIA 

Post Scriptum: Dedicamos este número a Adriano Moreira, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono – a quem daremos destaque no próximo número da nossa Revista, recordando os muitos textos que na NOVA ÁGUIA publicou –, e a Alfredo Campos Matos, a ser homenageado no III Congresso MIL "Eça de Queirós, 150 anos", a decorrer em Outubro deste ano, ocasião em que lançaremos o nº 32 da NOVA ÁGUIA, onde serão publicados os textos apresentados no II Congresso MIL "Eça de Queirós, 150 anos", realizado em 2021.


NOVA ÁGUIA Nº 31: ÍNDICE

Editorial…5

30 NÚMEROS DA NOVA ÁGUA: 30 VISÕES DE PORTUGAL, DA FILOSOFIA PORTUGUESA E DO MUNDO LUSÓFONO

De Abel de Lacerda Botelho (p. 8), Adriano Moreira (p. 8), António Braz Teixeira (p. 8), António Carlos Carvalho (p. 9), António José Borges (p. 9), António José de Brito (p. 10), António Telmo (p. 10), Artur Manso (p. 10), Carlos Aurélio (p. 10), Dalila Pereira da Costa (p. 11), Delmar Maia Gonçalves (p. 11), Elísio Gala (p. 11), Jesus Carlos (p. 12), João Ferreira (p. 12), João Maurício Brás (p. 12), Joaquim Domingues (p. 13), José Almeida (p. 13), Luís Lóia (p. 13), Manuel Ferreira Patrício (p. 14), Miguel Real (p. 14), Nuno Sotto Mayor Ferrão (p. 14), Paulo Ferreira da Cunha (p. 15), Pedro Sinde (p. 15), Pedro Velez (p. 15), Pedro Vistas (p. 16), Pinharanda Gomes (p. 16), Renato Epifânio (p. 17), Rodrigo Sobral Cunha (p. 17), Rui Martins (p. 17) e Samuel Dimas (p. 18).

REPENSAR PORTUGAL, À LUZ DE PORTUGAL, RAZÃO E MISTÉRIO, DE ANTÓNIO QUADROS

Intervenções de Mafalda Ferro, Luís Filipe Santana Dias, Renato Epifânio, Joaquim Domingues, António Cândido Franco, Pedro Martins, José Almeida, Joaquim Pinto da Silva, Manuel Cândido Pimentel, Manuel Dugos Pimentel e César Tomé. Em anexo: mensagens de Maurícia Teles da Silva, Anna Maria Moog e Guilherme d’Oliveira Martins (pp. 20-45).

A PERCEPÇÃO DA GUERRA NA UCRÂNIA PELA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

Textos de Renato Epifânio (p. 48), José Maurício de Carvalho (p. 48), Elter Manuel Carlos (p. 50), Lúcio Sanhá (p. 55), Delmar Maia Gonçalves (p. 55), Alice Goretti de Pina (p. 56) e Ivónia Nahak (p. 57).

O OUTRO MODERNISMO BRASILEIRO E A NOVA ESCOLA DO RECIFE

A ONTO-ANTROPOLOGIA DE MARIA DO CARMO TAVARES DE MIRANDA | António Braz Teixeira…60

O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE EMANUEL CARNEIRO LEÃO: PARA UMA VIA HISTÓRICO-HERMENÊUTICA DA METAFÍSICA | Samuel Dimas…68

DA ÉTICA E DO HUMANO NO PENSAMENTO DE EMANUEL CARNEIRO LEÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…71

O HISTORICISMO CULTURALISTA DE NELSON SALDANHA | António Braz Teixeira…74

O PENSAMENTO FILOSÓFICO-JURÍDICO DE NELSON SALDANHA | Ana Paula Loureiro de Sousa…82

APROXIMAÇÕES A VAMIREH CHACON | Manuel Cândido Pimentel…85

EDUARDO PORTELLA E A FILOSOFIA | Sérgio Paulo Rouanet…89

ASPECTOS DA REFLEXÃO ESTÉTICA NA NOVA ESCOLA DO RECIFE | António Braz Teixeira…95

PINHARANDA GOMES: AINDA E SEMPRE

ACERCA DA RELAÇÃO TEÓTICA DA SAUDADE: INTERROGAÇÃO A PINHARANDA GOMES | Manuel Cândido Pimentel…104

A FILOSOFIA DA RELIGIÃO EM PINHARANDA GOMES: O CARÁCTER SALVÍFICO DA MORTE | Samuel Dimas…106

APONTAMENTOS COM PINHARANDA GOMES: A DOUTA IGNORÂNCIA | Luís de Barreiros Tavares…118

OUTROS VULTOS

AGUSTINA BESSA-LUÍS | António Braz Teixeira…122

ANA LUÍSA AMARAL | António José Borges…123

ANTÓNIO ALEIXO | Luís Ramos…124

ANTÓNIO TEIXEIRA FERNANDES | Alexandre Teixeira Mendes…132

CARLOS GOMES BESSA | Jorge A. H. Rangel…135

CESÁRIA ÉVORA | Elter Manuel Carlos…138

CLEONICE BERARDINELLI | Nélida Piñon…142

GUSTAVO DE FRAGA | José Esteves Pereira…143

IVO NUNES | Emanuel Oliveira Medeiros…149

JOSÉ CARDOSO MARQUES | José Almeida…154

MANUEL ANTÓNIO PINA | António de Carvalho Pais…155

NÉLIDA PIÑON | António Braz Teixeira…165

RATZINGER | Emanuel Oliveira Medeiros…166

OUTROS VOOS

O QUE É SER PORTUGUÊS? (II) | Alves Ambrósio…174

EM DEFESA DO NOSSO PATRIMÓNIO | Cândido Ferreira…184

O REI QUE TROUXE A ESPERANÇA AO POVO | Duarte Branquinho…186

ALTER EGO TRANSATLÂNTICO | Humberto Schubert Coelho…189

A PRIMEIRA GREVE GERAL PORTUGUESA | José Lança-Coelho…191

NA ESCOLA PORTUGUESA DE MOÇAMBIQUE | José Manuel Malhão Pereira…192

A RAIZ JUDAICO-CRISTÃ DO OCIDENTE, ELEMENTOS DE UM DIÁLOGO | José Maurício de Carvalho…196

FOLCLORE: CULTURA TRADICIONAL E POPULAR | Lino Mendes…203  

DA MARITIMIDADE DA LÍNGUA | Pedro F. Correia…204

DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS | Renato Epifânio…206

AUTOBIOGRAFIA 12 | Samuel Dimas…214

EXTRAVOO

MODERNOS E MODERNISTAS | Joaquim Domingues…230

CARTA A JOAQUIM DOMINGUES: A LUSOFONIA E A GALIZA | Daniel Lago Leirós…244

PERIÓDICOS ETERNOS

O LEAL PORTUGUÊS | Pedro Vistas…245

BIBLIÁGUIO

NA ROTA DO ANTERO INSULANO | António Braz Teixeira…252

ABORDAGENS NO PENSAMENTO PORTUGUÊS | Renato Epifânio…254

ELUCIDÁRIO DO ESTUDANTE CURIOSO | José Almeida…255

LE PSYCHIQUE, LE LANGAGE ET LA CONNAISSANCE | Júlio Amorim de Carvalho…256

E SE TUDO O QUE CONVERGE DEVE SUBIR | João de Melo…260

MACAU VISTA POR DENTRO | Jorge Rangel…262

ENTRE DOIS RIOS COM MARGENS | Martins J.C. Mapera e Cristóvão F. Seneta…265

POEMÁGUIO

ADEUS, ADRIANO | Renato Epifânio…7

IMORTALIDADE | Samuel Dimas…7

ÚLTIMA NAU | António Salvado…18

PESO E MEDIDA | Jaime Otelo…19

CANTO PELA UCRÂNIA | José Valle de Figueiredo…46

SENTIDOS | Manuel Dugos Pimentel…47

QUE FAZER? | Maria Leonor Xavier…59

MINHA PÁTRIA | Delmar Maia Gonçalves…59

ACLAMO AMOR | Susana Roque Bravo…81

QUASE AFORISMOS | Francisco Braz Teixeira…101

NATÁLIA CORREIA: AINDA O DEVER DE DESLUMBRAR | Maria Luísa Francisco…103

INIMIGO E AMIGO | António José Borges…172

DEPOIS DE TE AMAR | Joel Henriques…173

O ARCANJO DOUDO DO RILHAFOLES: ÂNGELO DE LIMA | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…228

SONETO DA MISERICÓRDIA | António José Queiroz…229

BERÇO DE OURO E MIRRA | Marta David…268

A SENDA DOS DRUIDAS | Jesus Carlos…269

MORADAS: CADERNO POÉTICO E VISUAL

Poemas de Teresa Dugos; Desenhos de Mariana Gomes…270

MEMORIÁGUIO…284

MAPIÁGUIO…285

ASSINATURAS…285

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…289

domingo, 19 de março de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31, sobre Pinharanda Gomes...

 

ACERCA DA RELAÇÃO TEÓTICA DA SAUDADE: INTERROGAÇÃO A PINHARANDA GOMES

Manuel Cândido Pimentel

Tendo a coincidir com Pinharanda Gomes ao afirmar «quanto a saudade é problemática, enigmática, senão misteriosa»[1]. Situado numa cronologia de autores que desde D. Duarte têm vindo a refletir sobre este sentimento ímpar, também ele o tomou na problemática, interrogou na enigmática e veio a quedar-se na mais alta visão do mistério sem idade e sem tempo que é o próprio Deus.

O problema substancial que o ocupou diz respeito à questão de saber se a saudade é apenas privilégio do homem; propôs para o enigma uma resposta de tipo antropológico, gnosiológico e cosmológico; e deteve-se no grau superior, já ontológico, já teológico, interrogando-se se a saudade poderá lobrigar-se em Deus. À cifra deste mistério ultimante respondeu negativamente, por reconhecer que a saudade é sentimento humano, coerente com a incompletude do ser criado.

A análise metacognitiva[2] a que submete a saudade a partir do arcaísmo filológico da suidade leva-o a entender que o sui reenvia para a solitate, no sentido radical da solidão do eu, um fenomenológico solus ipse que propõe a natural posição do ser suidoso enquanto singularidade que está aí no isolamento de um cosmo que, no entanto, tem de característico tocar, por paredes meias, o infinito de uma transcendência amante e amável.



[1] Pinharanda Gomes, «Saudade e Ser», in Pensamento e Movimento, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1974, p. 17. O adjetivo «teótico», do antigo grego théosis, que significa divinização ou deificação, subsiste, por exemplo, em apoteose (apothéōsis), o ato de deificar, de elevar ao nível dos deuses. Por teótico se deve entender o que tem relação com o divino e que diz respeito ao divino, adjetivando-se teótica a relação dos saudosos com Deus e da saudade em Deus, sendo esta a relação dita por excelência, última e primeira na ordem das essências às existências.

[2] Ela é antropológica em primeira instância, mas com consequências a um nível gnosiológico, o que permite dizer que da reflexão filosófica de Pinharanda é suscetível desentranhar-se uma fenomenologia da saudade, num certo sentido complementar à de Joaquim de Carvalho, mas que, no autor de «Saudade ou do mesmo e do outro», remete para uma antropologia, que lhe serve de antecâmara. Ela transita do radical sui para um eu que promove e quer a companhia de outros eus ou mónadas solidárias. A saudade seria assim o vínculo de um à alteridade de outros.

(excerto)

sábado, 11 de março de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31, sobre NÉLIDA PIÑON...

 

LEMBRANÇA DE NÉLIDA PIÑON

António Braz Teixeira

Como foi noticiado pela imprensa portuguesa, nem sempre com o devido relevo, faleceu em Lisboa, em meados de Dezembro de 2022, a escritora Nélida Piñon (1937-2022), que constituiu, com Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), Rachel de Queiroz (1910-2003), Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), Clarice Lispector (1920-1977), Lygia Fagundes Telles (1923-2022) e Adélia Prado (1935) o grupo das mais significativas vozes narrativas femininas da literatura brasileira.

Figura cimeira da geração surgida para as letras na década de 60 do século XX, em que, no plano da ficção, avultam autores como Raduan Nassar (1935), Adélia Prado, Ignácio Loyola Brandão (1936), Moacyr Scliar (1937-2011), António Torres (1940), João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), Sérgio Sant'Anna (1941-2020) ou Chico Buarque (1944), Nélida Piñon iniciou a sua obra narrativa em 1961, com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, dando à estampa, nos seis decénios seguintes, uma dezena de romances, cinco livros de contos e diversos livros de carácter memorialístico, ensaístico e reflexivo.

Largamente reconhecida e premiada no Brasil, em Espanha e em diversos países da América Latina, mas esquecida pelo Prémio Camões (como o foram também Gerardo Mello Mourão, Mário Palmério, Josué Montello, Dora Ferreira da Silva, Lêdo Ivo, Ariano Suassuna, Hilda Hilst ou Ivan Junqueira), a escritora brasileira recém desaparecida, não renegando nunca a sua origem galega, muito presente nos seus romances, especialmente em A república dos sonhos, o seu opus magnum e um dos maiores romances brasileiros do século XX, sempre se reconheceu "filha da língua portuguesa", que, afirmou, "nunca trocaria por nenhuma outra". Não admira, por isso, que a sua pátria brasileira, como a Galiza arcaica, mágica e mítica, e Portugal tenham marcado decisiva e profundamente a sua criação literária e que, simbolicamente, a sua obra romanesca se haja concluído com Um dia chegarei a Sagres (2020), cuja acção decorre em Portugal, durante o século XIX, e cujo protagonista é um camponês nascido perto do rio Minho, que, simultaneamente, separa e une Portugal e a terra irmã da Galiza.

(excerto)

domingo, 5 de março de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31: sobre Manuel António Pina...

 



A CASA DO SI PRÓPRIO: UMA LEITURA DA OBRA POÉTICA DE MANUEL ANTÓNIO PINA

António de Carvalho Pais

O eu surge com a consciência que se descobre a si mesma e, assim voltada sobre si, na posse da expressão da linguagem, naturalmente se interroga “Quem sou eu?” ou, com uma inquietação não tanto existencial quanto metafísica, “O que sou eu?”. Uma interrogação só devida ao pensamento que nela se desenrola incessantemente no seu modo essencial de reflexividade. São as palavras que dizem o eu através da sua diferenciação que o singulariza face ao outro, dado pelos inúmeros objectos intencionados pela consciência. Fundamentalmente, está-se perante um problema prático de constituição de sentido pela aplicação de conceitos. O eu terá o sentido dado simbolicamente no arranjo semântico que melhor lhe corresponde. Quer-se dizer, sendo o pensamento e a sua expressão partes integrantes da consciência, que ela mesma dirige, o questionamento do eu é um solilóquio em que esse que é (com toda a certeza que resulta da evidência cartesiana de que alguma coisa pensa) diz para si mesmo quem é. Mas quem melhor do que o próprio para se identificar? Quem melhor do que ele para dizer quem ele mesmo é? Uma consciência certa de si é sem mistérios; logo que se dirija a si, que traga à sua presença a própria consciência, tem acesso imediato ao que é em si mesma e ao que a distingue de outros objectos da consciência. Por isso, nada mais óbvio do que o eu, dado por esse que sem reservas se pensa a si próprio, ser transparente e mostrar o seu verdadeiro sentido.

(excerto)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31: sobre Gustavo de Fraga...

 

GUSTAVO DE FRAGA E JOSÉ ORTEGA Y GASSET[1]

José Esteves Pereira

1. Gustavo de Fraga (1922-2003) construiu uma obra fundamental sobre o pensamento europeu contemporâneo com particular incidência no campo da fenomenologia tendo na sua demanda especulativa prestada atenção reflexiva ao pensamento de José Ortega y Gasset (1883-1955) desde logo na sua obra De Husserl a Heidegger. Elementos para uma problemática da fenomenologia, de 1966,até á meditação sobre inúmeros problemas, nomeadamente sobre o destino da Universidade que atravessa as páginas de Fidelidade e Alienação publicado em 1977.

A obra De Husserl a Heidegger, dissertação de doutoramento de Gustavo de Fraga, constitui para o seu colega na Universidade de Coimbra Alexandre Morujão “ um denso estudo em que se põe em evidência a abertura da fenomenologia a uma direção metafísica pela via da interioridade e onde, pelo confronto entre Husserl e Heidegger, se mostra o prolongamento da fenomenologia para além de Fichte e Hegel, na linha influenciada pelo pensamento de Dilthey” (Morujão, 1990, col. 701). A menção que o pensador açoriano virá a fazer a Ortega y Gasset na sua argumentação doutoral incide, precisamente, no liame especulativo do filósofo madrileno a Wilhelm Dilthey (1833-1911) citando para tal efeito Kant, Dilthey, Husserl dada a lume em Madrid em 1958.

Quanto ao aproveitamento crítico que Gustavo de Fraga realizou da obra de José Ortega y Gasset importa, a meu ver, não perder de vista o que um e outro pensador dedicaram às múltiplas questões que envolvem a crise do pensamento ocidental particularmente no campo da fenomenologia. Embora bastante separados geracionalmente não se pode esquecer a importância orteguiana no investimento da fenomenologia em Espanha e no espaço cultural sul-americano. Em todo o caso, o encontro mais demorado de Gustavo de Fraga com o pensamento de Ortega y Gasset teria lugar, sobretudo, no âmbito do tema do homem em sociedade no domínio da antropologia filosófica.



[1] O presente texto foi apresentado no Colóquio Gustavo de Fraga: Pensamento e Legado, realizado em Ponta Delgada pelo Centro de Estudos Humanísticos da Universidade dos Açores, a 3 de Novembro de 2022.

(excerto)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31: sobre Cesária Évora...

 

CESÁRIA ÉVORA E A MÚSICA COMO DESVELAMENTO DOS SEGREDOS DA ALMA

Elter Manuel Carlos

Este estudo, uma abordagem filosófica e estética acerca do legado musical de Cesária Évora, surge na esteira daquilo que entendemos ser a celebração da vida pela música, um gesto tão caro à cultura cabo-verdiana que, exibe-nos a sua história, tem na música um dos originários espaços de manifestação do Ser do homem cabo-verdiano. Ainda que não pertencemos à área da musicologia, é possível sempre instalar uma leitura-outra, complementar às já existentes, respeitando sempre os limites da interpretação, como nos incita Umberto Eco no seu livro com esse título.

Desde infância escutamos a voz da Cesária Évora nas rádios cabo-verdianas e tivemos a prerrogativa de assistir ao vivo um concerto da cantora no grande festival de música Baia das Gatas, na sua ilha natal, São Vicente. Foi deveras um autêntico fenómeno vivo que deixou marcas profundas na nossa sensibilidade estética, o que fora natural no contexto de um devaneio total vivido por centenas de espectadores sedentos da Beleza da sua Voz e do virtuosismo de grandes músicos e instrumentistas que sempre a acompanhara.

A doçura da voz dessa magnífica cantora, não só no meu caso mas no de todos os cabo-verdianos da minha e de outras gerações, foi (e está sendo) uma presença real (expressão de Georg Steiner) na vida de todos nós. Por isso, dedicar-lhe este ensaio é outrossim fazer jus a celebração da música como desvelamento dos segredos do Ser de um Povo histórico. Cesária Évora fez, e está fazendo, história. Permitiu-nos Ser em devir e em abertura de sentido, num amplo movimento relacional entre cultura, mundo, signo e significado.

Autora de uma obra de alto valor artístico e nome invulgar na tradição da música cabo-verdiana, sem olvidar os amplos reflexos na cultura musical mundial, Cesária Évora encarna uma Voz que escolheu Cabo Verde como lugar onto-antropológico de seu fazer poiético e transcendental. Da sua identidade cultural à alteridade das várias geografias musicais e palcos do mundo por ela frequentados, vividos e experimentados em plenitude, a cantora colocou a sua Voz a serviço do desvelamento dos segredos da alma humana à procura de forma. Parece que a cantora foi escolhida pelo dom dos deuses para louvar a cultura e o Povo cabo-verdianos ao seu mais alto nível de expressão, comunicação e elevação espiritual.

(excerto)

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31: voltar a ler Ana Luísa Amaral...

 

UMA QUESTÃO DE OLHAR PARA REPARAR: VOLTAR A LER ANA LUÍSA AMARAL

António José Borges 

Ana Luísa Amaral (ALA, 1956-2022) foi poeta, dramaturga, ficcionista, ensaísta e tradutora de Emily Dickinson, William Shakespeare ou Louise Glück, entre outros. A par da sua atividade de professora universitária, publicou mais de trinta livros e a sua obra está traduzida e publicada em diversos países, escrevendo ela própria em espanhol. Obteve várias distinções e prémios em Portugal, destacando-se, entre outros (como o da APE ou do PEN Clube), o Prémio Literário Correntes d’Escritas ou o Prémio Vergílio Ferreira, e no estrangeiro a Medalha da Cidade de Paris, o Premio de Poesía Fondazione Roma e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana. A 1 de abril de 2022, foi agraciada com o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. As insígnias foram apenas entregues a 6 de agosto de 2022, a título póstumo, à filha de Ana Luísa Amaral.

Toda a poesia de ALA pode ser vista como uma contínua sessão de psicanálise em relação não propriamente com a medicina mas sim com a psicologia, a antropologia ou a filosofia. Não propõe qualquer moral nem tende a destruir a religião. É um claro-escuro com luz dentro ou O olhar Diagonal das Coisas, justamente o título da sua obra completa de poesia, o qual é tomado do espetáculo de teatro homónimo e levado à cena, em torno da sua obra, pela companhia Assédio, com a colaboração do Teatro do Campo Alegre, no Porto.

Não pretende este texto contextualizar ou classificar a obra de ALA. Não é este o espaço específico para tal e isso já foi devidamente feito, mas nunca acabado. Cada um de nós tem o seu cânone e é em cada leitor que termina a obra. Neste momento cumpre-nos deixar, também num exercício de destaque gráfico em grifo, vincados os traços gerais, e fazer entrever os particulares, da sua poesia, sobretudo, pois é o que melhor a define como escritora.

Desde a Minha senhora de quê, de 1990, até ao Mundo de 2021 a viagem pela sua poesia nunca se acaba. Há, logo desde o início, sempre Qualquer Coisa de Intermédio que por meio de Espionagens Verbais soltam sequências de ritmos e pensamentos temperaturados. Não são quaisquer Coisas de partir, são Imagens, Entrelaços no tempo fixados não numa só Lua de Papel mas em várias. Os seus poemas são Epopeias, de luz, à escala das Poses do desconforto do sujeito lírico, Queixas ou resignações, Inocentíssimos plágios. 

Ana Luísa Amaral é uma Senhora da literatura, de muitos caminhos, de Histórias com posteridade, como glosas de Shakespeare, de uma noite de verão, e a sua produção poética um interlúdio entre a vida e a dita posteridade. Sim, ALA, Às vezes o Paraíso fixa As danças no telhado, como Revisitações, Precipícios de sonho ou os pequenos brilhos, A leste do Paraíso; criação de Imagens ou Imagias nas Correções do amor ou As delícias do verbo Entre o Inferno e os Anjos n´O tempo das estrelas e n´A arte de ser tigre entre as estações e os Inversos, pois o interior das coisas é sempre por ALA olhado e os contrários sempre plausíveis. Com efeito, na sua produção não encontramos a obsessão pela busca d´A génese do amor, antes Os perigos do êxtase, os Apontamentos desiguais, até Teares da memória como quem guarda os sonhos e além, Entre dois rios e outras noites.

A coerência da sua obra é como Se fosse um intervalo de Discrepâncias (a duas vozes), com pausa para um Breve exercício em três vozes, também composto de Trovas de memória e Escrito à régua, variando as rotações e os andamentos. A sua voz poética é um instrumento da linguagem universal que toca o âmago do escuro, uma Outra fala. E todavia há uma composição química nas suas soluções metafóricas ou alegóricas, brilhos que abraçam As indiferenças nítidas das sílabas, tudo Sentidos d´O Som que os versos fazem ao abrir um Intervalo em seu tempo: [quem sabe] receitas para a crise…, Pequenas fábulas.

Debruçando-se sobre Coisas, Regressos, Povoamentos, mitologias íntimas e culturais universais, escreve, portanto, sobre e o Mundo, Experiências e evidências, com Sopros de Intervalo para Outras paisagens: Mundos.

Em 2014, publicou Escuro, com apropriadíssimas epígrafes de William Blake e de Juan de la Cruz (que definiu o amor como poucos), uma obra de poesia que, e estas escolhas são sempre discutíveis entre os exegetas ou os leitores comuns, que não são de somenos, me agrada particularmente, conquanto o seu conteúdo pudesse ser menos digressivo, por considerar que é cativante no seu equilíbrio em três partes, como se de um texto expositivo se tratasse, simples no trato da linguagem, todavia reveste-a a devida temperatura da palavra poética, aquilo que chamaria, na entendimento de Harold Bloom na Angústia da Influência, uma defesa da poesia forte. Ilustrando o predito, na primeira parte de Escuro, a introdução (termo, este e os restantes da divisão clássica, decidido por mim neste texto), intitulada “Claro-Escuro”, ALA faz um percurso Das mais puras memórias: ou de lumes, Entre mitos: ou parábola, rumo ao «(…) enigma, / que pouco importa aos donos do equilíbrio, / mas que dizem ser a fonte da poesia. / E é a fonte de onde a carne desperta, / nas margens do humano.» (p. 18). Deste modo, inicia uma demanda, na segunda parte do livro, o desenvolvimento, da génese do escuro que lhe trocaram, simples e fundos questionamentos da existência, encontrando, na terceira e última parte, a conclusão, Outra fala para Amar em futuro um tempo: O drama em gente: a outra fala – «Mas sempre deste tempo / é o lume que as prende, a estas vozes, / e ao prendê-la as solta / sobre o tempo –». (p. 67)       

Em suma, a sua obra são interlúdios da ficção; daí a necessidade de a voltar a ler.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31: nos 100 anos de Agustina Bessa-Luís

 

AGUSTINA E O AFORISMO

António Braz Teixeira

 

Cuido não haver sido ainda suficientemente tida em conta a circunstância de a cultura portuguesa do século XX se singularizar pelo peso e significado que, no plano da expressão de ideias, nela representou o recurso à forma aforística, por parte de autores como Pascoaes, José Marinho, Sant’Anna Dionísio, Agostinho da Silva, Augusto Saraiva, José Bacelar, José Rodrigues Miguéis ou Agustina Bessa-Luís, a maior parte dos quais hauriram a sua mais visível e directa inspiração no que há de oracular na prosa de Junqueiro, Raul Brandão e Leonardo Coimbra ou no Pascoaes de Verbo escuro e de O Bailado.

Do grupo de autores acima referidos, apenas os de Revisão, Reflexões sobre o homem e Aforismos & desaforismos de Aparício acharam diversa inspiração. Enquanto as Anotações à margem da vida quotidiana, se, de algum modo, retomam a esquecida lição setecentista das Reflexões de Matias Aires, a obra do segundo apresenta carácter mais discursivo que, verdadeiramente, aforístico e, a do terceiro, uma dimensão irónica, circunstancial e política própria do jornalismo (em que teve origem) do que da reflexão mais séria e responsável.

Na obra de Agustina, a presença e a natureza do aforismo, ora crítica e paradoxal, ora sentenciosa e sibilina, ora interrogativamente metafísica, tem a sua mais directa afinidade com a do seu visionário vizinho amarantino, de que fez enigmática personagem de O susto.

Com efeito, também em Pascoaes a súbita iluminação que se exprime aforisticamente de forma súbita ou incontida, irrompe ao longo da obra poética, das biografias, dos livros de memórias ou das finais tentativas romanescas, O Empecido e Dois jornalistas.

Procurando explicar a frequente presença da expressão aforística na sua obra romanesca, Agustina escreveu: “o meu pensamento estende-se de uma maneira caótica e para o deter recorro ao aforismo”, a que diz sempre haver dado grande importância, aditando que eles são uma “fuga ao pensamento”, dotada de toda a seriedade, pois constituem “uma lição e não o pretexto para uma pirueta”.

Nesta sua última afirmação, a escritora marca, com inequívoca clareza, o que afasta o verdadeiro aforismo, mesmo quando se exprime sob a forma de paradoxo, do mero exercício literário frívolo e gratuito, como foi aquele que a primeira geração modernista por vezes praticou e de que são brilhante e mundano exemplo obras como a Teoria da indiferença, de António Ferro.

Ao afirmá-lo, Agustina aproxima-se de idênticas posições de Sant’Anna Dionísio e José Marinho quanto à mais séria natureza do aforismo.

O primeiro, cujo pensamento, de feição marcadamente existencial e trágica, é constitutivamente intuitivo, enigmático, interrogativo, fragmentário, “invertebrado”, encontrou no aforismo, na reflexão e no solilóquio o modo mais adequado para se exprimir, notava que aquele tinha sobre o pensamento discursivo a vantagem de formular perguntas em vez de propor soluções, de ser um pensamento que não prossegue nem acaba mas constantemente principia, “corrigindo-se e desmentindo-se sem pudor”.

Por seu tuno, o autor de Teoria do Ser e da Verdade pensava que o aforismo representava, “na exposição das ideias, o máximo de descontinuidade”, o que, no entanto, não significava “ausência de interior discursividade”, implicando, pelo contrário, “uma discursividade realizada em planos diversos de intelecção, uma discursividade da qual o pensamento tem a inequívoca presença mas se realiza com uma face voltada para a luz e outra para a sombra”, para concluir que, com a sua intrínseca discursividade, o aforismo se apresentava mais de acordo com a condição do homem e a sua real realidade do que o pensamento discursivo.

Note-se que, tal como acontece com os autores de Rio de Heraclito e de Aforismos sobre o que mais importa, também em Agustina a obra aforística, não só a reunida no volume intitulado Aforismos, como nos seus múltiplos livros, não deixa de apresentar uma íntima coerência e uma funda e essencial unidade, que lhe conferem um lugar único na produção literária em língua portuguesa da nossa perplexa e contraditória contemporaneidade.