Para encomendar: info@movimentolusofono.org
Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/filosofia-nova-aguia
Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/
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No trigésimo sétimo número da NOVA ÁGUIA, o destaque maior vai para José Marinho, por muitos considerado como, provavelmente, o maior filósofo português do século XX, não apenas pelo “conteúdo” da sua obra – por muito que este tenha decorrido do seu fino e fundo diálogo com, entre outros, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra –, como também, senão sobretudo, pela “forma” com que se expressou, em particular na sua Teoria do Ser e da Verdade, a sua obra de maior estatura metafísica, publicada em 1961, qual “montanha inacessível na planície acidentada do pensamento português”, nas lapidares palavras de António Telmo. Nascido, no Porto, em 1904, José Marinho veio a falecer, em Lisboa, em 1975 – por ocasião dos 50 anos do seu falecimento, o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em parceria com o Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, realizou, no Porto e em Lisboa, um Colóquio sobre a sua Obra e Pensamento, em que se apresentaram os textos que aqui publicamos.
Como sempre, destacamos “outros vultos” da cultura lusófona, começando, neste caso, por António Ferro, provavelmente o melhor Ministro da Cultura que Portugal teve nos últimos 100 anos – como, também de forma lapidar, escreve António Braz Teixeira neste número da NOVA ÁGUIA: “Afigura-se culturalmente incompreensível que, decorridos mais de oitenta anos sobre a morte prematura e trágica de Duarte Pacheco (1899-1943) e setenta sobre o desaparecimento de António Ferro (1895-1956), não haja ainda sido reconhecido o papel decisivo que, como Ministro das Obras Públicas (1932-1943), o primeiro teve na introdução da arquitectura moderna entre nós e não tenha sido possível, até hoje, proceder a uma avaliação serena, séria, objectiva e justa da importância da acção cultural que o segundo desenvolveu, de 1933 a 1949, à frente do Secretariado de Propaganda Nacional/ Secretariado Nacional de Informação e, de 1941 a 1949, como presidente da Emissora Nacional (cargo que acumulou com aquele), e o que essa acção teve de inovador e de antecipador ou precursor de iniciativas e realizações que, com meios incomparavelmente superiores, a Fundação Calouste Gulbenkian e outras instituições vieram a levar a cabo décadas mais tarde.”.
Após evocarmos ainda António José de Brito, António Telmo, Francisco da Cunha Leão, Gilberto de Mello Kujawski, José Carlos Craveiro Lopes, José Maria Amorim de Carvalho e Silvestre Pinheiro Ferreira, temos mais de uma dezena de “outros voos” e, em “extravoo”, o (duplo) regresso, que aqui saudamos, de Paulo Borges às páginas da nossa Revista, com o ensaio “O infinito no espírito do lugar: para uma fenomenologia mítico-simbólica e profética da cultura galaico-portuguesa”. Finalmente, depois da rubrica “Periódicos Eternos”, destacamos ainda uma dúzia de publicações recentes, começando por seis obras com a chancela do MIL (Movimento Internacional Lusófono) publicadas nos últimos seis meses, sem esquecer mais uma edição do nosso Caderno Poético e Visual – desta vez com poemas de Manuel Cândido Pimentel e ilustrações de Cláudia Guerreiro –, bem como todos os demais poemas que aqui publicamos. Na poesia e, sobretudo, no ensaio, número após número (e estamos já a caminho dos quarenta), a NOVA ÁGUIA confirma-se assim, nas palavras também lapidares de Miguel Real, como, provavelmente, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
NOVA ÁGUIA Nº 37:
ÍNDICE
Editorial…5
Entrega
do Prémio MIL Personalidade Lusófona de 2025…6
Regulamento
do Prémio Adriano Moreira…11
JOSÉ MARINHO, 50
ANOS DEPOIS
APROXIMAÇÃO DA REFLEXÃO
ESTÉTICA DE JOSÉ MARINHO | António Braz Teixeira…12
O SIGNIFICADO DA ARCANA
SAPIENZA EM JOSÉ MARINHO | Alexandre Teixeira Mendes …17
JOSÉ
MARINHO: EM TORNO DA EDUCAÇÃO, CULTURA E FILOSOFIA | Artur Manso…30
LENDO
JOSÉ MARINHO, OU DA FILOSOFIA | João Luís
Ferreira…40
JOSÉ MARINHO E ÁLVARO RIBEIRO:
A VIRTUDE FILOSÓFICA DA AMIZADE | Joaquim Domingues…44
JOSÉ MARINHO E MICHEL HENRY: A
“DOCTA IGNORANTIA” E A “SOBRIA EBRIETAS” | Jorge Teixeira da Cunha…52
A INSUBSTANCIALIDADE SUBSTANTE MARINHIANA DO SUJEITO
METAFÍSICO WITTGENSTEINIANO | Marco António Dias…55
SUPRA-INDIVIDUAL INDIVIDUADO E INSUBSTANCIAL
SUBSTANTE: ENCOBRIMENTO E DESENCOBRIMENTO NA PNEUMATOLOGIA DE ANTERO DE QUENTAL
E JOSÉ MARINHO | Paulo Borges…59
A FILOSOFIA DA HISTÓRIA DE
JOSÉ MARINHO | Renato Epifânio…66
A NOÇÃO MONISTA E
PANTITEÍSTA DA CISÃO EM DEUS NA METAFÍSICA DE JOSÉ MARINHO | Samuel Dimas…73
CORRESPONDÊNCIA
ENTRE JOSÉ MARINHO E JOSÉ RÉGIO: UM ASPECTO RELEVANTE | Teresa Líbano Monteiro…87
OUTROS VULTOS
ANTÓNIO
FERRO | António
Braz Teixeira…94
ANTÓNIO
JOSÉ DE BRITO | Jóni Coelho…96
ANTÓNIO
TELMO | Alexandre Teixeira Mendes…111
FRANCISCO DA CUNHA LEÃO |
Artur Manso…122
GILBERTO DE MELLO KUJAWSKI | António Braz Teixeira…130
JOSÉ CARLOS CRAVEIRO LOPES | José Almeida e Jorge Camanho…133
JOSÉ
MARIA AMORIM DE CARVALHO | Júlio Amorim de
Carvalho…134
SILVESTRE PINHEIRO FERREIRA | Joaquim Domingues…148
OUTROS VOOS
O FUTURO DAS CULTURAS DE
LÍNGUA PORTUGUESA | António de Abreu Freire…158
13 %, CASUS BELLI | J.A. Alves Ambrósio…169
ENTRE
CINEMA, ENSINO DA FILOSOFIA E FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO | Elter Manuel Carlos…171
REFLEXÃO
SOBRE O DIA DE REIS | João
Luís Ferreira…176
A
ESCOLHA DAS PALAVRAS | João Seabra Botelho…177
A
PALAVRA PERDIDA E A MÚSICA QUE RESTAURA |
Jorge Chaminé…179
A LÍNGUA DEVE SER UM PALCO DE
PAZ, NÃO DE GUERRA | Jorge Chichorro Rodrigues…181
APONTAMENTOS SOBRE A LETRA MINÚSCULA:
DEUS – POESIA – FILOSOFIA | Luís de Barreiros Tavares…185
REVISITAR PENSAMENTOS SOMBRIOS
| Manuel Curado…188
DEAMBULAÇÕES
PRÓ-LUSÓFONAS | Renato Epifânio…194
AUTOBRIOGRAFIA
17 | Samuel Dimas…199
EXTRAVOO
O
INFINITO NO ESPÍRITO DO LUGAR: PARA UMA FENOMENOLOGIA MÍTICO-SIMBÓLICA E
PROFÉTICA DA CULTURA GALAICO-PORTUGUESA | Paulo Borges…212
PERIÓDICOS ETERNOS
MOTIM LITERÁRIO EM FORMA DE
SOLILÓQUIOS & EXAME CRÍTICO AO MOTIM LITERÁRIO | Pedro Vistas…224
BIBLIÁGUIO
TEÓFILO BRAGA, HOJE: NO CENTENÁRIO DA SUA MORTE | Manuel Cândido Pimentel…232
QUESTÕES DE ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA |
António Braz Teixeira…233
O ADVENTO DO QUINTO IMPÉRIO | Paulo Rola…234
DA SAUDADE – DE
ENDOVÉLICO POR ATÉGINA: MITOS & MISTÉRIOS DA PORTUGALIDADE | Renato Epifânio…235
O SENTIDO DAS FORMAS: PÁGINAS DE
ESTÉTICA LUSO-BRASILEIRA | Alexandre Teixeira Mendes…236
COMPREENDER,
VERDADE E POLÍTICA EM HANNAH ARENDT | Giovanni
Damele…239
PERCURSOS DE HISTÓRIA DAS IDEIAS II |
António Braz Teixeira…240
PORTUGAL E A INVENÇÃO DE UM MUNDO NOVO | Maria Leonor Xavier…242
GEOPOLÍTICA E GEOESTRATÉGIA:
OS DESTINOS MANIFESTOS, AS REALIDADES E O RESTO | Jóni Coelho…247
SABER O REAL | Luís G. Soto…249
DIAS
MENORES | Pedro
Arrifano…251
AUTOBIOGRAFIA DE JESUS | António José Borges…252
POEMÁGUIO
O PORTUGUÊS DE SERVIÇO | Renato
Epifânio…11
TÚNEL | Fernando de Moraes
Gebra…92
O SONHO DE
ULISSES
| Alexandra Barreiros…92
NYNEVE OU A DAMA DO LAGO | Manuel Dugos
Pimentel…93
SENHOR,
VOSSOS RIOS
| Manoel Tavares Rodrigues-Leal…156
UTOPIA; LAR; INQUIETO | João Franco…157
VOZ PASSIVA | Jaime Otelo…230
DO AMOR CELESTE | Paulo Jorge Brito e Abreu…230
ENQUANTO A NOITE FOR A NOITE |
Joel Henriques…231
GANZFELD | António José
Borges…254
GRANITO
& MÁRMORE; TORGA | Jesus Carlos…257
MORADAS: CADERNO POÉTICO E VISUAL
Poemas de Manuel
Cândido Pimentel; ilustrações de Cláudia Guerreiro…258
MEMORIÁGUIO…280
MAPIÁGUIO…281
ASSINATURAS…281
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284
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APROXIMAÇÃO DA REFLEXÃO
ESTÉTICA DE JOSÉ MARINHO | António Braz Teixeira
O SIGNIFICADO DA ARCANA SAPIENZA
EM JOSÉ MARINHO | Alexandre Teixeira Mendes
JOSÉ
MARINHO: EM TORNO DA EDUCAÇÃO, CULTURA E FILOSOFIA | Artur Manso
LENDO
JOSÉ MARINHO, OU DA FILOSOFIA | João Luís
Ferreira
JOSÉ MARINHO E ÁLVARO
RIBEIRO: A VIRTUDE FILOSÓFICA DA AMIZADE | Joaquim Domingues
JOSÉ MARINHO E MICHEL HENRY:
A “DOCTA IGNORANTIA” E A “SOBRIA EBRIETAS” | Jorge Teixeira da Cunha
A
INSUBSTANCIALIDADE SUBSTANTE MARINHIANA DO SUJEITO METAFÍSICO WITTGENSTEINIANO
| Marco António Dias
SUPRA-INDIVIDUAL INDIVIDUADO E INSUBSTANCIAL SUBSTANTE:
ENCOBRIMENTO E DESENCOBRIMENTO NA PNEUMATOLOGIA DE ANTERO DE QUENTAL E JOSÉ
MARINHO | Paulo Borges
A FILOSOFIA DA HISTÓRIA DE JOSÉ MARINHO | Renato Epifânio
A NOÇÃO MONISTA E PANTITEÍSTA DA CISÃO EM DEUS NA
METAFÍSICA DE JOSÉ MARINHO | Samuel Dimas
CORRESPONDÊNCIA
ENTRE JOSÉ MARINHO E JOSÉ RÉGIO: UM ASPECTO RELEVANTE | Teresa Líbano Monteiro
O INFINITO
NO ESPÍRITO DO LUGAR: PARA UMA FENOMENOLOGIA MÍTICO-SIMBÓLICA E PROFÉTICA DA
CULTURA GALAICO-PORTUGUESA
Paulo Borges
Apresentamos aqui os prolegómenos de uma teoria geral
do mistério a que chamamos realidade como o processo de manifestação do
infinito nas ilimitadas possibilidades da sua experiência pelas metamórficas
potências de consciência, vida e existência, humanas e não-humanas, desdobrada
numa cosmologia e numa teoria e axiologia do modo de constituição das culturas,
povos e civilizações no seu devir histórico e supra-histórico. Esta teoria, de
matriz fenomenológica e não metafísica, fundada na experiência contemplativa,
articula-se com uma fenomenologia mítico-simbólica e profética da cultura
galaico-portuguesa, que desenvolvemos num livro em preparação, a partir das
sugestões mitopoéticas das mais antigas designações da faixa atlântica do
extremo-ocidente ibérico e europeu e dos temas profético-messiânicos emergentes
na cultura portuguesa.
FRANCISCO DA
CUNHA LEÃO (1907-1974): TRAÇOS DISTINTIVOS DE PORTUGAL E DOS PORTUGUESES
Artur Manso
Cunha Leão entende que a nação portuguesa vive como nenhum outro povo essa angústia do inacabado e, consciente da sua tarefa resgatadora, coloca na variedade múltipla a asserção do Uno:
A História de Portugal, para que continue a ser de Portugal, só pode prosseguir fiel às determinativas que a informaram, pelas quais, numa processão do futuro, logrou a sua originalidade e em interesse do Mundo inteiro por ser de toda a Ecúmena. […]. Realizando-nos conformes, construiremos Filosofia e redenção...
(excerto)
Alexandre Teixeira Mendes
É sobretudo a kabbalah a referência subterrânea aos noemas do (grande) Oriente, a cidade santa de Jerusalém e o cenáculo de Safed, que se encontram previamente na filosofia de António Telmo. O rememorar como o (re)percorrer, no sentido decisivo, dos grandes momentos da história da metafísica judaico-oriental, tal como se exprime na teoria da palavra poética ou, de modo recorrente, nas figuras do homem-em-exílio e do Deus-em-exílio. O nosso mestre ousou, durante uma vida consagrada à reflexão, infundir um tipo particular de ensinamento e de dialéctica escrita, como Platão, dominado pelo daimon literário e por um instinto dramático, onde está presente a perfeição formal de uma obra, como nenhuma outra, tendo em conta, por exemplo, as potencialidades da linguagem e os modelos não igualados de ensino filosófico? Como situar a relação de António Telmo com a fé cabalística do repensar a questão da linguagem, remontando à dimensão dativa ou vocativa, o entrelaçamento da voz e da letras da Thora? Mas sobre este poder de eclosão que se revela na desdobragem do texto de um ensinamento esotérico, ao nível dos assentimentos prévios, a fixação de um método de decifração do texto, nas suas subestruturas de mapeamento, como, por exemplo, o imperativo do registro da realidade que é conduzida pela palavra e portanto o fluxo mais vasto das coisas que existem na medida em que são nomeadas? Essa noção de “arcaísmo” é crucial para o nosso argumento. Prende-se com a sua relação com os procedimentos de caráter filosófico ou literário, de uma religiosidade heterodoxa e mística da busca abrangente do «verdadeiro oriente»? E onde a ideia abrangente de exílio e de redenção, concebida como desterro, continua num outro momento o seu hebraísmo, uma escrita interrogante centrada no enigma do mal e uma filosofia que se mantém na área fronteiriça da poesia, no (trans)curso então da magia salvadora e da reminiscência do paraíso, (in) apreensível)? O segredo da ars (arte) de António Telmo, a partir da qual se poderia discernir o primado délfico, que fez notavelmente de omphalos o centro do mundo, onde assinalamos a crucial importância atribuída ao ciclo da terra e da serpente, é a reivindicação do hermetismo e do conhecimento secreto?
(excerto)
NO 50.° ANO DA MORTE DE AMORIM DE CARVALHO
Júlio Amorim de Carvalho
Desviando-me dos habituais assuntos a que me tenho dedicado[1], abordarei aqui o caso duma entidade que, pelas prόprias características da sua fundação, do seu funcionamento e da sua organização interna, se apresenta como facto muito original, único, nesta faixa litorânia de Entre-Minho-e-Guadiana e suas adjacências: refiro-me à Casa Amorim de Carvalho, sediada na cidade do Porto. O objectivo da presente exposição é o de levar melhor e mais vasta informação, a seu respeito, a uma elite, aos espíritos cultos e inteligentes, aos que se sentem naturalmente interessados pela temática que nestas linhas será desenvolvidamente tratada.
[1] Em estudos relacionados com o significado da criação
poética, da teorização estética, do pensamento filosόfico amorinianos, e em
trabalhos de investigação genealógica, publicados ora uns, ora outros em
Espanha, no Brasil e por cá.
A TRANSIÇÃO FRUSTRADA OU O DISCURSO INTERROMPIDO: A PROPÓSITO DA TEODICEIA DE SILVESTRE PINHEIRO FERREIRA
Joaquim Domingues
Filósofo de transição foi como António Braz Teixeira
qualificou quem é considerado uma das personalidades mais representativas do
pensamento luso-brasileiro da primeira metade do século XIX. A seu juízo, a
“figura singular e complexa de filósofo e homem público, cujo saber
enciclopédico abarcou todo o conhecimento do seu tempo, da matemática à
pedagogia, do direito à economia, da mineralogia à botânica, representa, de forma
particularmente expressiva, no pensamento português, o trânsito da fácil e
serena confiança do século XVIII para a austera e dramática inquietação do
século XIX.”[1]. Na verdade, se todas as
épocas são de transição, aquela terá sido uma das mais profundas de toda a
nossa história, como ruptura na continuidade dos princípios, dos valores e das
instituições, que lhe davam feição própria e distinta.
Entre a expulsão dos jesuítas por D. José e a extinção
de todas as ordens religiosas por D. Pedro, ocorreu uma radical mudança da
ordem vigente em Portugal. Num contexto marcado pelas invasões francesas, com
as doutrinas revolucionárias a precederem os exércitos napoleónicos, pelo
“protectorado” britânico, assim como pela independência do Brasil, onde,
afinal, vingaram as mesmas ideias e se impuseram os mesmos estratos sociais.
Processo assaz complexo, onde se cruzaram dinamismos vários, cujos efeitos por
vezes só nas gerações posteriores se patentearam, em luta com a normal inércia
social, assente em muitos séculos de fidelidade a outros valores.
Aliás, não faltara quem, prevendo a tormenta, que se
avizinhava, de um modo ou de outro tivesse procurado identificar os problemas
em causa e antecipar as soluções adequadas. Quer em termos críticos e
divergentes da tradição, como António Ribeiro Sanches (1699-1783), Luís António
Vernei (1716-1792) e os reformadores dos estudos, mormente os universitários;
quer procurando integrar no essencial e permanente as novas aquisições,
transitórias ou não, como os franciscanos Frei José Mayne (1723-1792) e Dom
Frei Manuel do Cenáculo (1724-1814), o jesuíta Padre Inácio Monteiro
(1724-1812) ou os oratoristas Padres Teodoro de Almeida (1722-1804) e António
Pereira de Figueiredo (1725-1797). Bastaria, aliás, atentar na acção e na obra
de Teodoro de Almeida, a quem a Academia das Ciências de Lisboa concedeu a
honra de proferir a sua Oração de abertura, a 4 de Julho de 1780, para
constatar não só a viabilidade teórica como a larga aceitação dessa perspectiva
de transição fecunda e harmónica, apurada precisamente na fase da formação de
Silvestre Pinheiro Ferreira.
[1] História do
Pensamento Filosófico Português, dir. Pedro Calafate, vol. IV, t. 1,
Lisboa, 2004, p. 28.
APONTAMENTO
SOBRE O VALOR E SIGNIFICADO DA ACÇÃO CULTURAL DE ANTÓNIO FERRO
António Braz Teixeira
Afigura-se culturalmente incompreensível que,
decorridos mais de oitenta anos sobre a morte prematura e trágica de Duarte
Pacheco (1899-1943) e setenta sobre o desaparecimento de António Ferro
(1895-1956), não haja ainda sido reconhecido o papel decisivo que, como
Ministro das Obras Públicas (1932-1943), o primeiro teve na introdução da
arquitectura moderna entre nós e não tenha sido possível, até hoje, proceder a
uma avaliação serena, séria, objectiva e justa da importância da acção cultural
que o segundo desenvolveu, de 1933 a 1949, à frente do Secretariado de
Propaganda Nacional/ Secretariado Nacional de Informação e, de 1941 a 1949,
como presidente da Emissora Nacional (cargo que acumulou com aquele) e o que
essa acção teve de inovador e de antecipador ou precursor de iniciativas e
realizações que, com meios incomparavelmente superiores, a Fundação Calouste
Gulbenkian e outras instituições vieram a levar a cabo décadas mais tarde.
Com efeito, quando, no início da década de 30 do
século passado, Duarte Pacheco iniciou a sua dinâmica política de obras
públicas, em vez de, como pareceria natural, recorrer aos arquitectos ainda
activos, que tinham dominado o panorama arquitectónico português desde o final
de Oitocentos (José Luís Monteiro, Adães Bermudes, Marques da Silva, Norte
Júnior, Álvaro Machado, Raul Lino, Tertuliano Marques), preferiu entregar os
projectos das novas obras a jovens arquitectos modernos da sua geração, como
Pardal Monteiro, Jorge Segurado, Carlos Ramos, Cassiano Branco, Cristino da
Silva, Cottinelli Telmo ou F. Keil do Amaral, inaugurando, deste modo, o ciclo
moderno na história da nossa arquitectura.
Por sua vez, durante os dezassete anos em que esteve à
frente do SPN/SNI e dos oito em que presidiu à Emissora Nacional, António Ferro
promoveu um amplo, diversificado e coerente conjunto de realizações culturais,
no domínio da literatura e da promoção da leitura, das artes plásticas, do
teatro, da música, do bailado e do cinema, visando apoiar, tornar conhecida e
divulgar a arte moderna portuguesa e a nossa arte popular e a permitir o acesso
à leitura, ao teatro e ao cinema do maior número de pessoas, com especial
atenção às que viviam fora ou distantes dos grandes centros culturais de Lisboa
e do Porto, fazendo dele, embora sem esse título, o maior e mais activo
ministro da cultura que Portugal algum dia conheceu, levando a cabo uma ampla,
inovadora e diversificada acção de verdadeira “democratização cultural” sem
paralelo antes e depois de 1974.