APONTAMENTO
SOBRE O VALOR E SIGNIFICADO DA ACÇÃO CULTURAL DE ANTÓNIO FERRO
António Braz Teixeira
Afigura-se culturalmente incompreensível que,
decorridos mais de oitenta anos sobre a morte prematura e trágica de Duarte
Pacheco (1899-1943) e setenta sobre o desaparecimento de António Ferro
(1895-1956), não haja ainda sido reconhecido o papel decisivo que, como
Ministro das Obras Públicas (1932-1943), o primeiro teve na introdução da
arquitectura moderna entre nós e não tenha sido possível, até hoje, proceder a
uma avaliação serena, séria, objectiva e justa da importância da acção cultural
que o segundo desenvolveu, de 1933 a 1949, à frente do Secretariado de
Propaganda Nacional/ Secretariado Nacional de Informação e, de 1941 a 1949,
como presidente da Emissora Nacional (cargo que acumulou com aquele) e o que
essa acção teve de inovador e de antecipador ou precursor de iniciativas e
realizações que, com meios incomparavelmente superiores, a Fundação Calouste
Gulbenkian e outras instituições vieram a levar a cabo décadas mais tarde.
Com efeito, quando, no início da década de 30 do
século passado, Duarte Pacheco iniciou a sua dinâmica política de obras
públicas, em vez de, como pareceria natural, recorrer aos arquitectos ainda
activos, que tinham dominado o panorama arquitectónico português desde o final
de Oitocentos (José Luís Monteiro, Adães Bermudes, Marques da Silva, Norte
Júnior, Álvaro Machado, Raul Lino, Tertuliano Marques), preferiu entregar os
projectos das novas obras a jovens arquitectos modernos da sua geração, como
Pardal Monteiro, Jorge Segurado, Carlos Ramos, Cassiano Branco, Cristino da
Silva, Cottinelli Telmo ou F. Keil do Amaral, inaugurando, deste modo, o ciclo
moderno na história da nossa arquitectura.
Por sua vez, durante os dezassete anos em que esteve à
frente do SPN/SNI e dos oito em que presidiu à Emissora Nacional, António Ferro
promoveu um amplo, diversificado e coerente conjunto de realizações culturais,
no domínio da literatura e da promoção da leitura, das artes plásticas, do
teatro, da música, do bailado e do cinema, visando apoiar, tornar conhecida e
divulgar a arte moderna portuguesa e a nossa arte popular e a permitir o acesso
à leitura, ao teatro e ao cinema do maior número de pessoas, com especial
atenção às que viviam fora ou distantes dos grandes centros culturais de Lisboa
e do Porto, fazendo dele, embora sem esse título, o maior e mais activo
ministro da cultura que Portugal algum dia conheceu, levando a cabo uma ampla,
inovadora e diversificada acção de verdadeira “democratização cultural” sem
paralelo antes e depois de 1974.
