EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" - 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” .

Para o 15º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).

Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.


EDITORIAL NOVA ÁGUIA 13

A NOVA ÁGUIA sempre se assumiu como um “órgão plural” e este número é, uma vez mais, prova cabal disso mesmo. Desde logo a respeito do “Balanço de Abril, quarenta anos depois”, recolhemos visões das mais diversas tonalidades, o que perfaz um balanço em grande medida ambivalente, na esteira, de resto, do balanço feito ainda em vida por Agostinho da Silva, a figura em maior destaque neste número, por ocasião dos 20 anos do seu falecimento, que considerou o 25 de Abril de 1974 como “um pronunciamento militar sem grande largueza política”, desde logo porque levou a que Portugal apostasse apenas na Europa e tivesse, em grande medida, voltado as costas a todo o espaço lusófono, erro geostratégico que só agora, enfim, quarenta anos depois, se está a começar a emendar.

Como sempre, também este número da NOVA ÁGUIA não se detém apenas num tema ou num autor. Uma vez mais, é o que neste número acontece. Assim, evocamos, de forma mais detida, Raul Lino – figura maior da nossa arquitectura, nos 40 anos da sua morte –, António Ramos Rosa e António José de Brito – figuras maiores da nossa Poesia e da nossa Filosofia, respectivamente, ambos falecidos no mês de Setembro do ano transacto. Para além disso, debruçamo-nos ainda sobre autores tão diversos como Albert Camus, Amadeo de Sousa-Cardoso, Baltasar Lopes da Silva, Cerqueira Gonçalves, Dora Ferreira da Silva, Fernando Pessoa, Gama Caeiro e Manuel Antunes, João de Deus, José Enes, Natália Correia e Teixeira Rego – este último por Jesué Pinharanda Gomes, que, na sua Rubrica habitual, Entrecampos, evoca ainda a figura singular de Raul Leal, por ocasião dos 50 anos do seu falecimento.

Como sempre, houve ainda espaço para “Outros Voos” e para as “Rubricas” habituais, não esquecendo os já clássicos “Poemáguio” e “Bibliáguio”. No “Noticiáguio”, por fim, registamos o discurso proferido por Manuel Ferreira Patrício no terceiro aniversário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, a 15 de Outubro de 2013, data em que se lançou, no Salão Nobre do Palácio da Independência, o décimo segundo número da NOVA ÁGUIA, e onde foram igualmente ditas as seguintes palavras:

«Há quem considere que é por má vontade mas nós, talvez por sermos demasiado ingénuos, consideramos que é sobretudo por ignorância. A maior parte das pessoas ignora os “rostos da Filosofia Portuguesa” – o que não admira, dado que todo o nosso sistema de ensino (e mediático) continua, salvo as sempre honrosas excepções, a promover essa ignorância.

Aí sim, a esse nível, há uma má vontade deliberada em promover essa ignorância. O que se compreende: se uma das teses maiores da Filosofia Portuguesa é a de que “sem autonomia cultural não há independência política”, então, julga a nossa classe (des)governante, para dissolver de vez a nossa independência política, nada melhor do que minar o mais possível as raízes da nossa autonomia cultural. Nisso, a nossa pseudo-elite político-cultural tem sido lúcida: sabe que é no plano cultural que se ganham (ou perdem) as grandes lutas políticas.

Por isso, coerentemente, as revistas culturais da situação desprezam a Filosofia Portuguesa, promovendo antes um oco e bacoco universalismo à McDonald’s. Para tal, cometem até as maiores falsificações históricas, continuando a atribuir, por exemplo, a Sócrates a célebre asserção “Não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo”. Na Grécia, porém, nem todos parecem seguir esta “progressista” lógica do hamburger: há quem ainda se afirme como grego e lute pela independência e dignidade política do país.

Como o próprio Sócrates explicaria, a única forma de um grego se afirmar, a jusante, cidadão do mundo, passa por se afirmar, a montante, como um grego. Obviamente, o mesmo vale para nós, portugueses. Por isso, não desistimos de nos afirmar como portugueses e de, através da NOVA ÁGUIA, cultivar a nossa singular autonomia cultural. Não em prol de um qualquer nacionalismo estrito, como, amiúde, nos acusam os estreitos de vista. Tanto mais porque, como temos insistido, a afirmação da nossa singularidade cultural não poderá senão levar ao reforço gradual dos laços com os restantes países e regiões de língua portuguesa. Ou seja: ao trans-nacionalismo lusófono, que o MIL tanto tem defendido. »

ÍNDICE

Editorial…5

NOS 20 ANOS DA MORTE DE AGOSTINHO DA SILVA | O BALANÇO DE ABRIL: QUARENTA ANOS DEPOIS

Luís Lóia, GEORGE AGOSTINHO BAPTISTA DA SILVA…8

Manuel Ferreira Patrício, AGOSTINHO DA SILVA E MARGARIDA SANTOS CARVALHO…10

Paula Oleiro, AGOSTINHO DA SILVA SEGUNDO RUBEN A….13

António Cândido Franco, AGOSTINHO DA SILVA E JOSÉ MARIA CARRIEDO…17

Artur Manso, A EUROPA E A LUSOFONIA SEGUNDO AGOSTINHO DA SILVA…24

Carminda H. Proença, AGOSTINHO DA SILVA E Portugal…29

Jorge Janeiro, AGOSTINHO DA SILVA: DA COMUNIDADE LUSÍADA À COMUNIDADE LUSÓFONA…38

Maria Luísa de Castro Soares, AGOSTINHO DA SILVA E OS VALORES DO MUNDO A HAVER…40

Lúcia Helena Alves de Sá, A OUTRORA AURORA PRIMAVERIL…44

Luís G. Soto, ABRIL EM INVERNO…47

Octávio dos Santos, DA TERCEIRA REPÚBLICA…53

Nuno Sotto Mayor Ferrão, BALANÇO DIACRÓNICO (1974-2014) DA REVOLUÇÃO DE 25 DE ABRIL…57

Miguel Real, O 25 DE ABRIL DE 1974…64

Joaquim Miguel Patrício, ITINERANDO E VIAJANDO PARA A LIBERDADE APÓS ABRIL DE 1974…68

Duarte Branquinho, PORTUGAL: UMA NAÇÃO COM FUTURO…71

Bernardo Theotónio Pereira, O NOSSO ESTADO DESDE 1974…74

António Carlos Carvalho, SEM ILUSÕES…90

EPISTOLÁGUIO

CARTAS DE AGOSTINHO DA SILVA PARA ANTÓNIO TELMO…94

NOS 40 ANOS DA MORTE DE RAUL LINO

Rodrigo Sobral Cunha, RAUL LINO NA CURVA DO TEMPO…116

Raul Lino, ARQUITECTURA, PAISAGEM E A VIDA…118

SOBRE ANTÓNIO RAMOS ROSA

O TEMPO. A PALAVRA. O SILÊNCIO, coordenação de Fernando Esteves Pinto e Gisela Ramos Rosa…128

SOBRE ANTÓNIO JOSÉ DE BRITO

Renato Epifânio, ELOGIO DE UM VENCIDO DA HISTÓRIA (NÃO DA VIDA)…140

José Almeida, SOBRE A SUA BIBLIOTECA E ESPÓLIO PESSOAL…141

Bruno Oliveira Santos, EM BUSCA DA VERDADE…146

Pedro Jacob Morais, O HOMEM E O DEVIR…149

António Braz Teixeira, A ÉTICA DIALÉCTICA…154

DE ALBERT CAMUS A TEIXEIRA REGO

ALBERT CAMUS, por José Lança-Coelho…162

AMADEO DE SOUSA-CARDOSO, por António José Queirós…164

BALTASAR LOPES DA SILVA, por Elter Manuel Carlos…167

CERQUEIRA GONÇALVES, por Samuel Dimas…172

DORA FERREIRA DA SILVA, por Constança Marcondes César…176

FERNANDO PESSOA, por Luís Tavares…179

GAMA CAEIRO E MANUEL ANTUNES, por Renato Epifânio…184

JOÃO DE DEUS, por António Manuel Alves Martins…186

JOSÉ ENES, por Eduardo Ferraz da Rosa…197

NATÁLIA CORREIA, por Fernando Dacosta…200

TEIXEIRA REGO, por J. Pinharanda Gomes…204

OUTROS VOOS

Adriano Moreira, CONCILIAR O MUNDO…210

Casimiro Jesus Lopes de Pina, CONSTITUIÇÃO, CONSENSO E LEGITIMIDADE…215

Jesus Carlos, AL-GHARB…218

João Pereira de Matos, O RÉPROBO…220

José António Alves, O CONTRIBUTO DA Escola de Braga…222

José Eduardo Franco, A EXPULSÃO DOS JESUÍTAS…231

Rui Martins, DA IMPORTÂNCIA DA SOCIEDADE CIVIL…232

António Telmo, O NÚMERO 13: PÁGINA DE AUTOBIOGRAFIA ESPIRITUAL…234

RUBRICAS

ENTRECAMPOS, de J. Pinharanda Gomes…236

AS IDEIAS PORTUGUESAS DE GEORGE TILL, de Jorge Telles de Menezes…240

REGISTOS, de Eduardo Aroso…241

DO ESPÍRITO DOS LUGARES, de Manuel J. Gandra…242

LITERATURA ORAL E TRADICIONAL, de Ana Paula Guimarães…243

CARTAS SEM RESPOSTA, de João Bigotte Chorão…245

BIBLIÁGUIO

SETE SÁBIOS PORTUGUESES, por Joaquim Domingues…248

A VOZ E A OBRA DE AGOSTINHO DA SILVA, por José Almeida…249

NOVEMBRO, por Bruno Oliveira Santos…250

LEIS DA SEPARAÇÃO, por Victor Oliveira Mateus…252

INTENSIDADES, por Amélia Vieira…254

NOTICIÁGUIO

3º ANIVERSÁRIO DO MIL | LANÇAMENTO DA NOVA ÁGUIA Nº 12, por Manuel Ferreira Patrício…258

2º CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA, por Renato Epifânio…259

POEMÁGUIO

Joaquim Carvalho, A ETERNIDADE PODE SER UM SEGUNDO…6

Maurícia Teles da Silva, NAVEGA BARCA D’ALVA…7

Luís Coelho, MAL PURO…92

Jaime Otelo, SONETOS…92

António José Borges, TALVEZ NO FIM…93

Delmar Maia Gonçalves, AUSÊNCIA…127

Jorge Viegas, PROGRESSO…127

Abé Barreto Soares, APRENDER COM AS CRIANÇAS…127

Manoel Tavares Rodrigues-Leal, FERNANDO PESSOA…160

Eduardo Aroso, MANDALA NOSTRUM…161

Maria Leonor Xavier, SILÊNCIO...209

Gabriela Correia, AS TORRES ESGUIAS ELEVAM-SE NO AR | PRECE…247

Samuel Dimas, O SABOR DO MUNDO | PROVIDÊNCIA | AMIZADE…256

MAPIÁGUIO…260

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…260

ASSINATURAS…261


Apresentação da NOVA ÁGUIA 13

Apresentação da NOVA ÁGUIA 13
Para ver o vídeo, clique sobre a imagem...

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Bairro Português de Malaca, Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte, Bissau, Braga, Bragança, Brasília, Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Carnide, Campinas, Cascais, Castro Marim, Chaves, Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Fortaleza, João Pessoa, Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loures, Luanda, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo, Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque, Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense, Ovar, Pangim (Goa), Pisa, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife, Redondo, Régua, Rio de Janeiro, Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela, São João da Madeira, São João d’El Rei, São Paulo, Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

Lançamentos já noticiados em:

RTP

RTP África

Diário de Notícias

Diário Digital

Expresso

Jornal de Notícias

Jornal Porto Net

Notícias Lusófonas

Público


E em muitas dezenas de blogues...

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas

À venda nas melhores livrarias do país.

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

sábado, 2 de Agosto de 2014

"Há uma solução geopolítica para Portugal, sem vergonhas e sem preconceitos"

"O Diabo", 13.11.12

Edição revista e actualizada - para encomendar:
info@movimentolusofono.org
 

17-21 Novembro | X Colóquio Tobias Barreto

Ver Programa:

Testemunho de Manuel Ferreira Patrício para a NOVA ÁGUIA 14



Luís de Barreiros Tavares: Sei que tem dedicado grande parte da sua longa carreira à questão complexa da Pedagogia. Inclusive, já li alguns textos seus sobre este tema. Mas é do conhecimento de todos que se entregou e ainda se entrega à questão do Pensamento, da Linguagem e da Filosofia. Como conjuga estas várias dimensões e como é que elas contribuem umas para as outras no plano, quer académico, quer vivencial, quer dizer, para a vida dos homens em sociedade e no seu habitar o Mundo?
1. O pensamento, mais precisamente o pensamento filosófico, interessou-me desde criança. Em minha casa não havia biblioteca, mas os meus pais gostavam visivelmente de pensar e revelavam capacidade para o fazer. A sua escolaridade reduzia-se ao ensino primário de então (eu nasci em Setembro de 1938 e entrei na escola primária em Outubro de 1945). O meu pai concluíra o ensino primário, tal como julgo que a minha mãe. O meio era pequeno e pobre. Frequentar a escola oficial já era só por si um privilégio. Devo dizer que foram ambos excelentes alunos: o meu pai vocacionado para as artes e ofícios, a minha mãe claramente apelada para o saber de humanidades. A minha mãe deve ter sido naquela vila a criança mais dotada do seu tempo. Foi-o ao longo de toda a sua vida. Quanto ao meu pai, aprendeu o ofício de carpinteiro, no qual atingiu para aquele meio verdadeiramente a excelência. Somos três irmãos e todos pudemos prosseguir estudos. Eu sou o mais velho. A nossa primeira escola foi a nossa família, que incluiu a casa dos avós paternos e algo aproveitámos dos avós maternos. O meu interesse pelo pensamento reflexivo manifestou-se mais claramente em casa dos avós paternos, a partir das histórias da tradição popular portuguesa que me contavam e que me fascinavam. Suscitavam-me imensas questões, respondendo à minha exigência pessoal de racionalidade. Devo dizer, que de racionalidade profunda. Manifestou-se em mim desde logo a paixão pelas questões das ultimidades. Essa paixão tem-me acompanhado toda a vida. Comprei o meu primeiro livro aí pelos meus sete ou oito anos. Comprei-o na escola, no contexto de uma iniciativa do meu professor - que, curiosamente, era natural da aldeia natal do Pinharanda Gomes, Quadrazais... Foi uma escolha de certo modo fortuita; as outras crianças foram mais céleres do que eu e escolhi, perante o que havia ainda disponível, O Livro dos Sonhos. Durante muito tempo li e consultei esse livro, que era uma espécie de dicionário, ordenado alfabeticamente. A minha mãe acompanhava-me muitas vezes na leitura e foi sempre uma hermeneuta empenhada e exigente. Mais tarde, quando pude estudar um pouco o pensamento de Freud, acabei por verificar que aqueles sonhos eram os que constituíam o saber do Egipto antigo sobre o assunto. Foi-me útil essa experiência numas provas de Mestrado que arguí na Universidade do Minho. Foi-me útil sempre. Freud conhecia aqueles sonhos. O meu avô materno era um leitor apaixonado da Bíblia e essa circunstância veio a pesar na atenção que veio a ser prestada àquele livro. A Bíblia deu-me indicações fundamentais para pensar no horizonte das ultimidades. Aí a meio da minha adolescência, descobri um escritor, um romancista, de pendor filosófico e argumentativo: Aldous Huxley. Alguns dos seus romances eram por essa época traduzidos em Portugal e editados por uma importante editora portuguesa, a Livros do Brasil. O primeiro que li foi Sem Olhos em Gaza (Eyeless in Gazza). Li com entusiasmo esse romance. Era como se Huxley me provocasse persistentemente para argumentar filosoficamente, com ele mas sobretudo com os problemas que os personagens do romance colocavam e as discussões que tinham. Problemas concretos, vivos, que punham em causa tudo o que eu vivia e pensava. Vim em continuação a ler outros romances e novelas de Huxley, na atmosfera empirista e inglesa que era a sua. Por exemplo: Contraponto; O macaco e a essência. Muitos anos depois, vim a saber pelo António Telmo que o lado empirista do Huxley era travejado com outros lados, mais congruentes com o meu gosto pelas ultimidades, que fazem parte do problema fundamental para mim que é o problema do sentido. Durante quatro anos (1950-1954) eu frequentei o Seminário Menor de Vila Viçosa, de onde saí por ter reconhecido a falta de vocação. O apelo das ultimidades, sempre presente e sempre forte, não passava por ali. Depois d'O Livro dos Sonhos, já depois da saída do Seminário, eu viera a ler outro livro marcante, A Morgadinha dos Canaviais, do nosso Júlio Dinis, em que num certo episódio venho a saber da hipótese da metempsicose. Era de novo o universo dos sonhos que vinha ter comigo. Assim, quando concluí os exames do antigo 7º Ano do Liceu eu dirigi-me decididamente para o Curso de Filosofia, na Faculdade de Letras de Lisboa. Mas entretanto eu fizera o Curso do Magistério Primário na Escola de Évora. No mesmo mês em que ingresso na Faculdade eu começo a trabalhar como professor do ensino primário na cidade de Lisboa.
2. A experiência pedagógica com as crianças tornou-se apaixonante para mim. Afinal, eu amava o mergulho no pensar e fui apanhado pelo amor de ensinar. Cheguei a casar na minha Escola os dois amores: o amor da filosofia com o amor da educação. Foi desse casamento que veio a nascer o meu projecto de filosofia para crianças, que se relaciona com as histórias tradicionais que a minha avó me contava e nada deve ao projecto do Professor norte-americano Mathew Lipman, de que só vim a saber no final da década de oitenta. Como já percebeu, tudo isto que lhe conto tem que ver com o gosto do pensamento e da acção formadora do ser humano, a que conjugadamente tenho dedicado a minha vida. Fui a partir de 1967 professor liceal de Filosofia e a partir de 1976 professor de Pedagogia e Filosofia na Universidade. Esta conjugação levou-me a certa altura a substituir a ideia de pedagogia pela ideia de antropagogia. Do que se trata realmente não é, de facto, apenas de educar (ou formar) a criança, mas o homem, o ser humano na sua integralidade e integridade. Antropagogia é a ciência disso. Ela inclui, na plenitude da sua unidade, o compreender o homem e o formá-lo. Kant reduz a certa altura a filosofia a uma única pergunta. Esta: Que é o Homem? A minha dupla ligação ao pensamento e à acção coloca em outra pergunta o problema essencial: Como formar o Homem na sua Humanitas? É a pergunta que define o meu cuidado vital. Ela implica tudo: desde as principialidades até às ultimidades.
3. Este itinerário compreende ainda as medialidades e as performatividades. Aprendi, por mim próprio e por grandes mestres - como é o caso de Leonardo Coimbra, Delfim Santos, José Marinho e José Ortega y Gasset -, que o pensar filosófico é situado, ou circunstanciado. A fixação pensante na situação explica muito da minha fidelidade à situação portuguesa e lusófona. Quer estritamente filosófica, quer mais largamente antropagógica. É essa fidelidade que explica o combate em que a certa altura me envolvi em prol do que designei por "Escola Cultural", a partir da Comissão de Reforma do Sistema Educativo, que integrei oficialmente. No livro Lições de Axiologia Educacional, à educação cultural dei o nome de educação axiológica, entendendo a cultura como sistema vivo de valores. É nesta linha teórica que me encontro com o entendimento brunino da educação como demopedia, ou seja, como demopaideia, paideia do e para o povo.
4. O meu abraço demopaidêutico, antropagógico e assumidamente filosófico ao Luís de Barreiros Tavares. Abraço de vida una e diversa. A vida é diversa e una.

Vídeos do II Congresso da Cidadania Lusófona

Para ver:

Plataforma de Associações Lusófonas



No rescaldo dos dois Congressos da Cidadania Lusófona, que decorreram em Abril de 2013 e 2014, na Sociedade de Geografia de Lisboa, foi lançada a PALUS: Plataforma de Associações Lusófonas, visando agregar as Associações da Sociedade Civil (independentes nos planos governativo, partidário e religioso) de todo o Espaço da Lusofonia. Como já foi mil vezes reiterado, todos teremos a ganhar com a afirmação da Sociedade Civil. A nosso ver, essa afirmação será tanto mais forte quanto mais se realizar em rede, à escala de todo o Espaço da Lusofonia. Assim se afirmará, em última instância, a Sociedade Civil Lusófona, grande desígnio estratégico do Século XXI.   
Para mais informações:

MILhafre: o grande fórum da Lusofonia



Já com mais de 255 MIL visitas:
www.mil-hafre.blogspot.com

sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

De Fernando Dacosta, para a NOVA ÁGUIA 14

A língua portuguesa foi feita pelo mar. Sobreviveu e universalizou-se porque se tornou língua de viagens — por oceanos, continentes, povos. 
Aproveitando os contactos com os mundos onde desembarcou, acrescentou-se, miscigenou-se. Em África, no Brasil, na Ásia, na Europa. Ontem como hoje — como amanhã.
A escrita, a criatividade, o convívio são valores que levámos aos outros. Os únicos que, desfeitos os impérios, perdidos os engenhos, os comércios, as fazendas, as matérias, as fábricas, as frotas, as instituições, persistem vivos e superiores.  (excerto)

De Miguel Real, para a NOVA ÁGUIA 14

Mensagem foi o único livro escrito em língua portuguesa publicado em vida por Fernando Pessoa. O tema da totalidade do livro reside em Portugal e na sua história. Porém, não se trata de uma simples história de Portugal em verso. Diferentemente, trata-se de revelar o sentido sagrado, providencial e messiânico da história de Portugal como país e povo eleito por Deus para, após êxitos (os Descobrimentos e a criação do Império) e fracassos (decadência posterior à perda da independência em 1580), atingir o momento hierofântico, sagrado, de criação do Quinto Império, um império cultural e espiritual. (excerto)

De Duarte Ivo Cruz, para a NOVA ÁGUIA 14

Pretende-se neste texto proceder a uma mera reflexão - o título assim o indica - sobre a “Mensagem” de Fernando Pessoa, na perspectiva dominante da análise de conteúdos históricos: o que significa desde logo, nesta ponderação, a tentativa de um texto não académico, afastado de citações e análises estilísticas e literárias, e isto a partir da opção assumida e indiscutida da genialidade do poema em si, e do significado ímpar da sua expressão poética e filosófica no contexto da obra pessoana e da criação literária respetiva.  (excerto)

De António Cândido Franco, para a NOVA ÁGUIA 14

A recepção de Fernando Pessoa pelos surrealistas portugueses, e, entre eles, por Mário Cesariny, é um dos casos mais proveitosos da cultura portuguesa da segunda metade do século XX. A desatenção que o caso tem merecido, os equívocos a que tem dado lugar, todos facilmente identificáveis que nem paga a pena apontá-los aqui, ainda não se sabe o que significam, ou a feliz ignorância que nos caracteriza, ou a voluntária má vontade, em tudo natural, para com um movimento que deu de mão, conceda-se que com péssima vontade, aos que então contavam.  (excerto)

De António Braz Teixeira, para a NOVA ÁGUIA 14

A primeira voz lírica verdadeiramente significativa surgida em Moçambique foi a de Rui de Noronha (1909-1943), filho de pai goês e mãe africana, precocemente falecido e cuja obra só viria a ser publicada, embora parcialmente, após a sua morte e apenas há meia dúzia de anos objecto de uma criteriosa edição crítica integral.
Escritos entre 1930 e 1941 e em grande parte publicados na imprensa periódica laurentina, os poemas do malogrado poeta são, maioritariamente, constituídos por sonetos, de recorte anteriano e, formalmente, de assinalável inspiração parnasiana, em que se exprime uma dimensão metafísica de índole pessimista e em que perpassam dramáticas e vívidas interrogações sobre a dor e o mal, o sentido da vida, a existência de Deus ou o problema da imortalidade pessoal e se exprime a solidão do poeta, a nostalgia da fé da infância, a saudade de amores frustrados ou perdidos ou um ironia triste e desencantada e em que a morte surge como algo libertador do mal, do sofrimento ou do sem sentido da existência. (excerto)

De Manuel Gandra, para a NOVA ÁGUIA 14

Languedoque Português
Leitor, o capítulo que ides ler é o corolário de uma perplexidade, que perdurou dormente durante cerca de três décadas.
O seu despertar ocorreu quando fui abordado por uma ex-aluna que se preparava para encetar os seus estudos de mestrado, no sentido de me tornar seu orientador.
Disse-me ela que tencionava focar-se num dos tipismos da terra da sua naturalidade, isto é, as rendas de Nisa.
- Ah! As rendas de Nisa?! Terei respondido, algo surpreso. Precisa, então – continuei – de começar por interrogar-se sobre o motivo porque existem rendas nessa região interior de Portugal!
- Professor, estou a perceber que o tema é mais complexo do que eu suspeitava…
- Nem mais, nem menos. Apenas necessita de averiguar os motivos porque as rendas, um património característico das regiões ribeirinhas e piscatórias, terão ido parar ao Alto Alentejo profundo!  (excerto)

De Pinharanda Gomes, para a NOVA ÁGUIA 14

Se o culto exprime a essência da cultura, e se o rito é um modo de reapresentação viva do mito, a liturgia designa a palavra anunciada em benefício do povo, sendo, ela mesma, liturgia, a proclamação da palavra (leiton) ou trabalho (ergon) em serviço do povo. Tal como as artes, a liturgia é também uma arte, constituída por palavras, gestos e coisas, arte essa que, em cada momento do caminho, recorre às demais artes (literárias, plásticas, musicais) desenhando assim o corpo místico da cultura, mesmo da considerada apenas como fenómeno profano. (excerto)

De João Bigotte Chorão, para a NOVA ÁGUIA 14

Lembra-se de, um dia, manifestar a sua surpresa ao receber uma carta minha e manuscrita? Hoje, no tempo do fax e do e-mail e do computador, já quase ninguém escreve cartas e pelo próprio punho. Daí a sua surpresa. Estamos a escamotear aquilo que o passado nos legou com prodigalidade: epistolários de interesse histórico e de interesse íntimo, para não falar na qualidade literária de muitos deles. (excerto)

quinta-feira, 31 de Julho de 2014

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA: JÁ COM MAIS DE 40 TÍTULOS


Para ver:

Vídeos do Lançamento da NOVA ÁGUIA 13

Para ver:

Na NOVA ÁGUIA 14...

INTERVENÇÕES DOS REPRESENTANTES DAS VÁRIAS ASSOCIAÇÕES LUSÓFONAS DA SOCIEDADE CIVIL - II CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA: QUE PRIORIDADES NA COOPERAÇÃO LUSÓFONA?



ANGOLA | Liga Africana: Victor Fortes

BRASIL | Casa Agostinho da Silva e Instituto Mukharajj Brasilan: Lúcia Helena Alves de Sá e Loryel Rocha

CABO VERDE | Organização de Técnicos e Quadros Cabo-Verdianos: Alberto Rui Machado

GALIZA | Associação Pró-Academia Galega de Língua Portuguesa e Fundação Meendinho: Maria Dovigo e Alexandre Banhos Campo

GUINÉ-BISSAU | Associação Balodiren: Djarga Seidi

MACAU | Instituto Internacional de Macau: Jorge Rangel

MALACA | Associação Coração de Malaca: Luísa Timóteo

MOÇAMBIQUE | Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora: Delmar Maia Gonçalves

PORTUGAL | Associação Mares Navegados: Amândio Silva

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De Pedro Teixeira da Mota, para a NOVA ÁGUIA 14...

A Mensagem de Fernando Pessoa é um livro com muitos níveis de vida e de leitura, e exige uma penetração profunda, tanto em nós mesmos como na sua obra, para revelar os seus mistérios ou arcanos, o que muito poucos conseguem. Daí que muitas das interpretações da Mensagem sejam pouco profundas, com pouca ligação clarividente à grande alma Portuguesa que Fernando Pessoa tanto sentira e teorizara. Oitenta anos passados, com alguns espectros que a afectavam diminuídos embora outros surgidos, tentemos colaborar com alguma luz...

(excerto)

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quarta-feira, 30 de Julho de 2014

DESAFIOS DE PORTUGAL: A IDENTIDADE NACIONAL | De Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 14

 
Numa data em que é evidente a crise de mais de um Estado, designadamente na área ocidental, e particularmente no Norte do Globo onde residiu durante séculos a hegemonia global, no sentido de evoluírem para a categoria de Estados Exíguos, isto é, com relação deficitária entre as suas capacidades e objectivos, parece-nos do maior interesse e actualidade meditar sobre a relação entre a Nação e o Estado, que apenas em 1918 foram proclamados como realidades que devem coincidir.
Tendo por segura a ideia de que a identidade da Nação Portuguesa, é uma das mais antigas, senão a mais antiga europeia, as Cortes de Coimbra, reunidas entre 3 de Março e 10 de Abril de 1385, também podem entender-se como consagrando, em vésperas de uma guerra longa com Castela, a união entre a Nação e o Estado querido pela primeira, entendido aqui o Estado como o enquadramento institucional da governança soberana.
Esta união entre a Nação e o Estado, no sentido que viria a ser afirmado nos lembrados 18 Pontos de Willson em 1918, foi quebrada pela Dinastia dos Habsburgos Espanhóis, que governaram Portugal entre 1580-1640, com violação das leis do Reino, pelo uso das armas e da corrupção, dando origem à consolidação do mito do Sebastianismo, que alimentou a vontade de regressar a uma dinastia também nacional, o que é lembrado e celebrado por esta Sociedade Histórica da Independência de Portugal no 1.º de Dezembro de cada ano, no Palácio que abrigou os Conjurados. O facto que historicamente marca esta alteração gravosa do estatuto do Reino de Portugal é sempre identificado com a Batalha de Alcácer-Quibir, travada em 14 de Agosto de 1578, onde morreu talvez metade dos efectivos do exército português, foram aprisionados milhares de combatentes incluindo os representantes da nobreza mais destacada; na base do desastre, além da inexperiência e impetuosidade do jovem Rei, que diz respeito à condução das operações, a situação de o Estado exíguo ficou demonstrada, e a primeira questão importante que as circunstâncias evidenciaram foi a de preservação da identidade nacional, ponto de apoio para a resistência ao infortúnio e recuperação de um Estado nacional.
Não deixaram de existir motivações menores, quer para acompanhar os riscos da Restauração, quer para evitar os riscos consequentes do levantamento, quer para reivindicar o êxito seguro da conspiração e revolta, mas o que interessa e releva é a determinação com que “sábado, primeiro de Dezembro de 1641, dia memorável para as idades futuras, a nobreza da Cidade de Lisboa, para remédio da ruína em que se via, e ao Reino todo, aclamou por Rei o Duque de Bragança Dom João, príncipe benigníssimo, magnânimo, fortíssimo, piedoso, prudente, nos trabalhos incansável, no governo atento, no amor da república cuidadoso, do seu acrescentamento ardentíssimo, e vigilante, legítimo sucessor do Império Lusitano”. [1]
A crítica contemporânea, apoiada nos adiantamentos da ciência política, na mudança de perspectivas, e no progresso da metodologia e fontes da história, separa a definição, como que mitológica, do evento, das realidades dominantes na área das legitimidades jurídicas da época, na distância de então entre o princípio tardio da exigente coincidência entre Nação e Estado e as vigências do legitimismo.
Mas do ponto de vista da identidade nacional, e do que isso significa e crescentemente importa na conjuntura que vivemos nesta entrada do terceiro milénio, é que a História de Portugal Restaurado, escrita pelo Conde da Ericeira D. Luís de Meneses, a persistente doutrinação do Padre Vieira, o sobrevivente sebastianismo a adaptar-se a cada época, é finalmente, (Ramos, 2010) o facto de que “no ambiente nacionalista da viragem para o século XX, não só se ampliou o interesse pelo estudo do acontecimento, como o mesmo foi elevado ao estatuto de uma das datas essenciais da afirmação da identidade nacional”. As dificuldades da mobilização militar, as dificuldades financeiras, a designação das chefias militares competentes, e os condicionamentos adversos da circunstância internacional, não impediriam que a mais longa guerra em que Portugal esteve envolvido, de 1640 a 1668, vencesse os Habsburgos, recuperasse o império com perdas limitadas, recuperando igualmente o lugar independente na cena internacional. Como lembrou D. Manuel Clemente, em 1810 o Estado estava falido e foi necessário refundar o Estado, em 1910 o Estado estava falido e foi necessário refundar o Estado, em 2010 o Estado está em circunstância de desastre, e, com base na identidade, é necessário de novo reconciliar a Nação com o Estado, com base no espírito que vive nesta instituição. As evidências não parecem discutíveis.
Na dificílima circunstância em que se encontra Portugal, amarrado à séria circunstância do globalismo sem regras, começa a ganhar enorme relevo o facto de ter sido negociado um acordo internacional de auxilio financeiro, com regras severas e vigilantes atentos, e tudo parece remetido para futuriveis incertos pelos debates que antecedem necessariamente as eleições.
Não se trata apenas de ter um povo para governar, dentro de um território limitado e excessivamente abandonado, com escassos recursos próprios a dinamizar, e leis da Republica a observar, também acresce nesta data um compromisso internacional que estrutura o limite da criatividade sem regras que a soberania usou demasiadas vezes, ao longo da história e para além das capacidades e das leis.
O debate sobre as personalidades, e sobretudo envolvendo as ambições incompatíveis dos interlocutores, ultrapassa facilmente a capacidade de o eleitorado finalmente ver a realidade que permanece para além do que se consegue ouvir. Disse o Padre Vieira, no Sermão para o dia de S. Bartolomeu, que “não há coisa mais difícil, que eleger um homem outro homem”, porque “com a paixão, ou ainda sem ela, nenhum homem conhece o outro”, e o alarido em que frequentemente se transformam os debates e comentários não contribuem para vencer esta barreira. Do que se trata é do futuro, se possível aceitável, porque do passado todos conhecem o suficiente pelos efeitos que atingem a terra e as gentes, situação que não melhora com reinterpretações e voz forte.
Voltando ao Padre Vieira, e agora ao Sermão da Quarta Feira da Quaresma do ano de 1669, parece apropriado lembrar este texto: “Estais Cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra, vedes as obrigações, que se descarregam sobre o vosso cuidado, vedes o povo, que carrega sobre as vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos grandes, e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores, e gemidos de todos? Ou os vedes, ou os não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se não remediais, como os vedes? Estais cegos”.
O Padre não viveu os tempos em que os meios de comunicação consentissem que o Estado Espectáculo, em todas as suas vertentes da soberania, sem distinguir entre detenção do poder e oposição, se tornou no modelo mais cultivado, de modo que nem o eleitorado, não fora medir as circunstâncias pelos efeitos que sofre, não conseguiria ver, ao menos parte da realidade, pela cortina de palavras que tem de ouvir. De algum modo, a própria Europa no seu todo, tendo por alarme algumas anunciadas reacções não efectivadas contra o auxilio a Portugal, designadamente da Finlândia, da Alemanha, ou da Inglaterra, está a por em causa a percepção da debilidade colectiva em que se encontra perante o resto do mundo, supondo que o regresso aos atomismos dos interesses próprios de cada país não atinge gravemente a debilidade colectiva de um agregado que, com as suas guerras interiores, destruiu o império que tinha sobre o que chamou “resto do mundo”, que é onde se encontram as matérias primas, as energias não renováveis, e até os suplementos da alimentação que não produz.
E também a nova vaga dos que crescem de poder e não diminuem a memória de submissões passadas. A política não tem a gratidão como uma das suas virtudes fundamentais, mas a solidariedade de um espaço que decaiu de poder, e que pretende não apenas salvaguardar o que ainda tem, mas progredir, se possível, no equilíbrio mundial, é com base nos interesses, que moveram a sabedoria dos fundadores, que tem de basear decisões bem definidas para salvaguardar não apenas o espaço europeu, mas de facto o espaço ocidental. Os ditos de espírito, ou falta dele, podem aliviar tensões individuais, mas não resolvem problemas. Precisamos sobretudo de vozes que ajudem a ver a realidade, que promovam as solidariedades cívicas, que tenham o bem comum como paradigma. Com isto preservam as diferenças.
Quando, em 1890, a humilhação do Ultimato feito pela Inglaterra, colocando um ponto final na ambição excessiva do Mapa Cor de Rosa, as manifestações patrióticas que tiveram expressão no apelo à vontade nacional com A Portuguesa de Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, mas também de desânimo expresso com o Finis Patriae de Junqueiro, não foi o regime político o valor a salvar, não foi o declínio desse regime o inspirador, tratou-se da identidade nacional, do seu paradigma apoiado como sempre em realidades e mitos, mas proclamado, ou com esperança e projecto, ou com desânimo e lamentos, de facto animando finalmente a constituição do Terceiro Império, o africano, que terminaria, acompanhando o fim do Império Euromundista em que participava, em 1974.
Neste ano, parece-me oportuno referenciar, relembrando D. Manuel Clemente, esta permanência da identidade nacional como valor directivo da mobilização das vontades cívicas, não subordinadas à estrutura política como demonstrou no passado, consolidado progressivamente o princípio de que o Estado, como estrutura de governança, que na convicção do Lord Acton em regra precedeu a Nação, é definitivamente um servidor dela, e que deve ser reformulado sempre que a função o exige.
A esta tendência impulsionada pelo globalismo, que é um factor externo, acrescenta-se em vários casos, numa das integrações em regionalismos como o da União Europeia, a evolução do Estado para Estado Exíguo, isto é, para uma situação de relação acentuadamente negativa entre os recursos e os objectivos dessa entidade, já submetida à evolução da soberania renascentista para a soberania cooperativa que implica transferência de competências para centros de poder do novo espaço integrador. É nesta situação que se encontra o Estado Português, abrangido com os parceiros da União nas transferências de competência do Tratado de Lisboa, mas também fortemente atingido pela crise financeira e económica mundial, sendo objecto da crise de confiança que lavra por toda a União, quer na relação da sociedade civil com o Poder político, quer na vida privada em que, ao lado da sociedade civil, cuja estrutura de solidariedade e confiança, expressa no património imaterial da sua cultura específica, sofre deteriorações várias, quer na sequência da transformação das fronteiras geográficas em apontamentos administrativos, quer pelo descontrolo das migrações, uma realidade não absorvida pelo tecido cultural da sociedade civil, e que corresponde ao conceito de multidão, com as implicações de conflitos que se multiplicam em várias grandes cidades europeias.
Nesta crise, com certamente raros exemplos passados de referência, a questão do valor fundamental das identidades emergiu entre as inquietações que interpelam grandes e pequenos Estados.
Nos EUA, a chegada das antigas minorias ao poder, que inquietou Huntington, foi sublinhada pela proclamação de Obama quando afirmou – somos todos americanos –, uma temática que começa a ter réplicas preocupantes dentro da superpotência sobrante. Mas é o globalismo, de efeitos colaterais insuficientemente identificados, que obriga a acompanhar com atenção preocupada, indagações como a levada a cabo por François Jullien, sobre os conceitos de universal, uniforme e comum, em confronto com realidades a que correspondem os conceitos de alteridade, heterogéneo, e singular.[2]
É nesta categoria do singular que a questão da identidade dos povos tem um lugar principal e uma exigência de meditação inadiável.
Voltando à relação actual de Portugal com a sua circunstância, interna e externa, tudo aponta para o imperativo de olhar com sentido histórico, cívico, e de futuro, para relação entre identidade e Estado, numa data em que o Estado dá sinais irrecusáveis de evolução para Estado Exíguo, com o valor básico da confiança atingido na vida civil e na relação entre a Nação e o Estado, para assumir que a crise do Estado não é a crise da identidade nacional, que no passado graves crises do Estado foram resolvidas e ultrapassadas pelo dinamismo cívico derivado da solidez da identidade nacional. Seria inteiramente falso e abusivo, e talvez agravante da crise, imaginar ou sugerir que é a natureza filosófica e jurídica dos regimes que estas crises inevitavelmente atingem. De facto é a crise do valor da confiança que leva ao apelo urgente à autenticidade, à exigência de vozes capazes de elucidar sobre a realidade desafiante e mobilizar para respostas inovadoras com os sacrifícios indispensáveis. É a própria soberania, que não pode deixar de evoluir respondendo à mudança imperativa das circunstâncias mundiais, mas que não é imperativo que nessa evolução perca o sentido da igualdade na tomada de decisão e a noção da exigência de assegurar a capacidade de a manter. Recentemente, o professor Jonh Crowley escrevia que “longe de ser um “repli”, a identidade é, para o melhor e o pior, um avanço. Para o pior se tomarmos à letra a sua pretensão de ser “naturelle”; para o melhor se os particularismos puderem ser o ponto de apoio para um universalismo coerente”.
Voltando aos conceitos de François Jullien, no globalismo que nos envolveu sem projecto e largamente construído com efeitos colaterais, o particularismo da identidade nacional não se confunde nem com as interdependências desses efeitos colaterais, nem com a uniformidade dos consumismos que resulta da teologia de mercado: a identidade nacional é um institucionalismo criado pela história, é uma célula irredutível da marcha para a articulada unidade da governança mundial a construir, e por isso mesmo a titular da vontade de reorganizar o Estado em crise para o habilitar a servir a comunidade. Foi o que aconteceu no 1.º de Dezembro de 1640, uma celebração que não é apenas um exercício de veneração do passado, é um exercício de inspiração no passado a pensar na responsabilidade cívica de reabrir o futuro.
No caso português, sem poder ignorar o processo evolutivo do Brasil, que prudentemente avalia a escolha de futuros entre os compromissos com o regionalismo sul-americano e a sua própria afirmação de grande potência, a solidariedade procurada entre os países de língua portuguesa, na organização que espera mais atenção e desenvolvimento, que é a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), é uma contribuição sua. Não apenas para a racionalização do globalismo, e para o património imaterial de que se ocupa a UNESCO, mas também para o interesse desta Europa, à procura de objetivo estratégico convictamente partilhado, de governança finalmente racionalizada, com imaginação criadora e lideranças credíveis. Tudo para que a Euráfrica não seja apenas um sonho que a realidade semeie de pontos de interrogação, a que lembranças revitalizadas do passado impeçam de encontrar respostas construtivas. Na circunstância atual, não é fazendo renascer o espirito de cidadelas na União que a fraqueza desta encontrará remédio, porque não poderá dispensar os esforços ordenados para dominar a irracionalidade do globalismo.
Finalmente, sempre lembrarei que não se escolhe o país em que se nasce, mas que decidir ficar é um ato voluntário e de amor. Uma decisão que não se toma a benefício de inventário do passado, torna-se, com esperança, a benefício do futuro da maneira portuguesa de estar no mundo.

[1] In Rui Ramos (coord.), História de Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, pg. 295.
[2] François Jullien, O Diálogo entre as culturas, do universal ao multiculturalismo, ZAHAR, Rio de Janeiro, 2009.

Tema do 15º número da NOVA ÁGUIA (1º semestre de 2015)

 
- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” .

Para o 15º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

5 e 6 Setembro | 1º Congresso Português de Filosofia


Mais informações:

Balanço do II Congresso da Cidadania Lusófona: uma pequena grande “semente”

Para ver:

Congresso "100 Orpheu" (Lisboa/São Paulo - 2015)

CONGRESSO INTERNACIONAL 100Orpheu

Triénio Pascoalino 2014 | 2015 | 2017


segunda-feira, 28 de Julho de 2014