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Aqui há dias escreveu o Paulo (Borges) que o MIL se deveria tornar também num movimento de indignação, mais precisamente, num movimento que desse voz à indignação que se sente um pouco por todo o lado…
Não poderia estar mais de acordo. Para mais, o MIL está numa situação “privilegiada”. Como não depende de subsídios estatais ou de quaisquer outras benesses, não tem qualquer mordaça…
O mesmo não acontece, como todos sabemos, com muitas outras entidades da dita sociedade civil. Em Portugal continua a haver censura – decerto, não tão óbvia como no anterior regime. Ainda assim, vai havendo mais liberdade do que em muitos outros locais do espaço lusófono…
Obviamente, o MIL não se deverá tornar num simples movimento de protesto – daqueles que berram muito alto mas de forma inconsequente, sem apresentarem qualquer proposta. Em momento algum o MIL deve perder a singularidade da sua voz, que também já vai sendo, cada vez mais, reconhecida…
Um exemplo: volta e meia, recebemos e-mails a denunciarem a situação escandalosa dos ordenados e reformas das pessoas que ocupam os mais altos cargos na função pública. O “argumento” é sempre o mesmo: se não lhes damos essas “benesses”, eles não vêm para a função pública…
A esse respeito, importa decerto protestar e dar voz a toda a indignação. Mas isso não chega. Mais do que isso, importa fazer um discurso que recupere alguns valores – pois é aí, desde logo, nos valores (ou na falta deles) que a actual crise radica…
Em primeiro lugar, o valor do “serviço público”. Dizer que “os melhores de nós” não estão dispostos a trabalhar na função pública se não lhes dermos as tais benesses da privada é afrontoso e denota uma completa inversão de valores. Se são de facto “os melhores de nós”, deveriam ser os primeiros a sacrificar-se pelo bem comum…
Obviamente, tudo isso começa antes. Perdeu-se, quase que inteiramente, esse valor do serviço público, do serviço à comunidade, diria mesmo, do serviço à Pátria. O PC (Politicamente Correcto) diz-nos que é demasiado reaccionário…
Uma ideia “herética”: já que se acabou com o serviço militar obrigatório, porque não instituir um serviço cívico obrigatório? Um ano em que, no final do ensino secundário, todos os nossos jovens dedicassem parte substantiva do seu tempo à comunidade…
A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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domingo, 15 de março de 2009
domingo, 25 de janeiro de 2009
Algumas notas sobre o Debate relativo ao "Futuro da CPLP"
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1. Mais de 12 anos após a sua criação, é um facto que a CPLP avançou pouco. Isso deve-se, essencialmente, à já aqui (MIL vezes) denunciada falta de “consciência lusófona”. No dia em que houver essa consciência, no dia em todos (em que muitos MIL de) nós nos afirmarmos como “cidadãos lusófonos”, aí a CPLP avançará bem mais depressa…
2. É certo que os respectivos governos da CPLP poderiam “estimular” essa consciência/ cidadania lusófona. Mas não me parece que isso venha a acontecer (se não aconteceu até agora…). Os governos que temos (nomeadamente, o português) não abrem caminhos, muito menos horizontes – andam apenas a reboque da “opinião pública”. Daí a importância que dão às sondagens…
3. Nessa medida, o caminho tem que ser aberto pela sociedade civil. É a esta que cabe promover essa consciência/ cidadania lusófona. Quando esta estiver devidamente cimentada, os governos virão a reboque…
4. Eis toda a tarefa do MIL. Tanto mais porque agora é a hora: mais de 34 anos após a descolonização, é tempo de enterrarmos de vez os fantasmas e os traumas dos ex-colonizadores e dos ex-colonizados…
5. Mais há ainda um longo caminho a percorrer – basta ver o número de imbecis que ainda acham que o projecto do MIL é “neo-colonialista”. Gente cujos quadros mentais cheiram a mofo, gente que só consegue olhar para trás, ainda que se achem muito "modernos" e "progressistas". Ora, o nosso caminho é em frente. Subtil, abissal diferença...
1. Mais de 12 anos após a sua criação, é um facto que a CPLP avançou pouco. Isso deve-se, essencialmente, à já aqui (MIL vezes) denunciada falta de “consciência lusófona”. No dia em que houver essa consciência, no dia em todos (em que muitos MIL de) nós nos afirmarmos como “cidadãos lusófonos”, aí a CPLP avançará bem mais depressa…
2. É certo que os respectivos governos da CPLP poderiam “estimular” essa consciência/ cidadania lusófona. Mas não me parece que isso venha a acontecer (se não aconteceu até agora…). Os governos que temos (nomeadamente, o português) não abrem caminhos, muito menos horizontes – andam apenas a reboque da “opinião pública”. Daí a importância que dão às sondagens…
3. Nessa medida, o caminho tem que ser aberto pela sociedade civil. É a esta que cabe promover essa consciência/ cidadania lusófona. Quando esta estiver devidamente cimentada, os governos virão a reboque…
4. Eis toda a tarefa do MIL. Tanto mais porque agora é a hora: mais de 34 anos após a descolonização, é tempo de enterrarmos de vez os fantasmas e os traumas dos ex-colonizadores e dos ex-colonizados…
5. Mais há ainda um longo caminho a percorrer – basta ver o número de imbecis que ainda acham que o projecto do MIL é “neo-colonialista”. Gente cujos quadros mentais cheiram a mofo, gente que só consegue olhar para trás, ainda que se achem muito "modernos" e "progressistas". Ora, o nosso caminho é em frente. Subtil, abissal diferença...
sábado, 3 de janeiro de 2009
Sobre os “ventos da História”
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Há, à partida, duas posições antitéticas: a dos que, por oportunismo, estão sempre a favor dos “ventos da História” e a dos que, por feitio, estão sempre contra…
Se abomino os primeiros (que costumo nomear como “cata-ventos”), também não sacralizo os segundos. Para mim, qualquer pessoa deve, simplesmente, ser coerente e consequente com as suas convicções – quer os ventos da História estejam a favor, quer estejam contra…
Sabemos como, em particular nas “revoluções”, muita gente muda, de um dia para o outro, de “convicções”. E como se estigmatiza quem prefere cair de pé, resistindo no “lado errado”. Antes cair de pé, do que passar a vida a dar cambalhotas…
Chegados aqui, perguntar-se-á: e o MIL, está a favor ou contra os “ventos da História”? Neste momento, ainda contra. Mas, cada vez mais, segundo o que me parece, já a favor. Os “ventos da História” estão a mudar…
Há, à partida, duas posições antitéticas: a dos que, por oportunismo, estão sempre a favor dos “ventos da História” e a dos que, por feitio, estão sempre contra…
Se abomino os primeiros (que costumo nomear como “cata-ventos”), também não sacralizo os segundos. Para mim, qualquer pessoa deve, simplesmente, ser coerente e consequente com as suas convicções – quer os ventos da História estejam a favor, quer estejam contra…
Sabemos como, em particular nas “revoluções”, muita gente muda, de um dia para o outro, de “convicções”. E como se estigmatiza quem prefere cair de pé, resistindo no “lado errado”. Antes cair de pé, do que passar a vida a dar cambalhotas…
Chegados aqui, perguntar-se-á: e o MIL, está a favor ou contra os “ventos da História”? Neste momento, ainda contra. Mas, cada vez mais, segundo o que me parece, já a favor. Os “ventos da História” estão a mudar…
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Resposta a Renato Epifânio em "SOBRE O PENSAMENTO POLÍTICO DE AGOSTINHO DA SILVA"
"SOBRE O PENSAMENTO POLÍTICO DE AGOSTINHO DA SILVA
Para o Clavis, em jeito de comentário geral à última série de textos que ele aqui publicou. E em homenagem ao seu grande empenhamento neste projecto."
Obrigado, Renato, mas o meu maior empenhamento será sempre uma fração daquele que lanças sobre os projetos da Nova Águia e do MIL.
"1. Que Agostinho da Silva teve um pensamento político, isso é inegável. Esse pensamento político decorre, muito simplesmente, da sua visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo. Ora, como sabemos, Agostinho da Silva foi um homem coerente e consequente – logo, não poderia ficar apenas no plano “cultural” e “espiritual”. Para mais, porque ele foi tanto um homem de pensamento quanto um homem de acção. E o melhor contra-exemplo para quem acha que há alguma incompatibilidade entre esses dois planos…"
Sejamos claros: existem várias interpretações e visões para aquilo que o MIL é ou pode ser. Para mim, é uma forma de procurar realizar a visão política de Agostinho que sumariamente comentei nestes dez artigos. Agostinho agiu, em Portugal e, sobretudo no Brasil. Não teve uma interpretação do Pensamento como sendo algo que esterilmente se move apenas nos domínios do intelecto ou das abstracções, trabalhando no terreno no Brasil, entre as populações locais e aconselhando políticos e até o presidente do Brasil.
"2. Tendo tido um pensamento político, esse pensamento não se encaixa nos mais vulgares quadros mentais – que tudo dividem entre “esquerda” e “direita”. E, por isso, de facto, Agostinho foi olhado com profunda desconfiança e suspeição quer pela “direita” quer pela “esquerda”. Porque, em última instância, estava para além de uma e de outra. Porque, desde logo, conseguia ser simultaneamente de esquerda – sobretudo, no plano social – e de direita – sobretudo, no plano cultural…"
Por isso não vejo o movimento consubstanciado no MIL como um movimento ou "protopartido" de Direita ou de Esquerda. Se é o pensamento de Agostinho da Silva que lhe serve de propulsor essencial e este não pode ser facilmente encapsulado nesta clássica mas anacrónica estratificação política então não podemos encaixar o MIL em qualquer um destes locais virtuais do espectro político. Talvez resulte daqui alguma da ira que pela blogoesfera mais ligada à Extrema Direita se sente em relação ao MIL e à Nova Águia: a frustração por não terem aqui...
"3. Desde logo por isso, o seu comprometimento com o jogo político nunca foi muito efectivo. Mas também não exageremos – no Brasil, Agostinho da Silva foi assessor do Presidente Jânio Quadros, tendo antes apoiado um concorrente deste. Em Portugal, é certo que nunca apoiou expressamente nenhum candidato e/ ou partido. Mas o próprio explicou porquê: tinha regressado a Portugal depois de 25 anos fora; não se queria indispor com ninguém (há uma “Conversa Vadia” em que ele diz isso claramente). E por isso também chegou a recusar uma candidatura própria à Presidência da República…"
O Professor era um arquitecto, no sentido de que sempre se preocupou mais com estabelecer alicerces, lançar ideias e conceitos novos ou adormecidos, do que em correr a alistar-se a qualquer partido ou em alinhar em qualquer disputa por qualquer cargo de poder. Verdadeiro filósofo, sempre optou por terçar no plano das ideias e não dos diretos - e tantas vezes sujos ou promíscuos - combate estritamente políticos. Preferiu plantar a colher e se hoje podemos encarar o seu pensamento político como uma alternativa ao obsoleto, decadente e cada vez menos representativo sistema partidário português, tal deve-se também ao facto de o Professor ter sabido manter-se distante de um simples alinhamento político.
"4. E quanto ao MIL? O MIL tem uma visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo. Logo, tem uma perspectiva política. Em que medida será coerente e consequente com ela, isso, depois, ver-se-á. Acho que não nos devemos precipitar a esse respeito. O MIL, enquanto tal, não tem sequer um ano de vida…"
É impossível pensar Portugal e a comunidade lusófona sem a pensar politicamente. Não advogo contudo que o MIL se deva transmutar imediatamente num puro movimento ou partido político. Para isso seria necessário refundar o próprio movimento, fazer sufragar a mudança de orientação entre todos os atuais membros do MIL e, sobretudo, seria preciso ganhar uma "massa crítica" de intervenção social, cultural e cívica que ao fim de apenas um ano de existência ainda não lográmos obter. O MIL tem tomado (e tomará) varias posições políticas e/ou cívicas e nesse sentido JÁ é até um movimento político... E não poderá deixar-se encastrar no mero enclave da defesa da "cultura lusófona" ou de outros temas académicos e intelectuais. Para ser efetivo, para ser capaz de interferir nos destinos do mundo e cumprir ainda que parcialmente os sonhos de Vieira, Pessoa e Agostinho, tem que ser atuante. E esse espaço de ação tem que ser político, hoje e amanhã. Em formas diferentes de acordo com as circunstâncias e condicionantes de cada momento. Neste momento sob a forma de "movimento cultural e cívico", amanhã sob a forma que for mais adequada, seja ela qual for...
"5. Algo, contudo, posso desde já antecipar, com toda a certeza (porque te conheço, e porque, conhecendo-te, sei que és uma pessoa coerente e consequente). Se algum dia chegarmos a esse patamar mais declaradamente político, tu serás um daqueles que estarás a bordo…"
A coerência de pensamento não deve ter o valor de um Dogma, mas mudar de opinião quanto a questões fundamentais não é de facto a minha política... Mudo naquilo que deriva delas e sempre que os factos apontam para o erro da posição inicial, mas neste contexto da defesa da Lusofonia, da União lusófona, da primazia das Economias Locais e das moedas locais, do Municipalismo, das economias comunalistas e "gratuitas", assim como na abolição do "Estado Central", da Partidocracia e da saída de Portugal da União Europeia não vejo como hei de mudar, sem mudar algo de essencial em mim... Estou nesses combates e estarei sempre, ao lado do MIL, onde essas posições forem consistentes com as do Movimento e à frente ou ao lado dele quando não o forem. Nesse sentido, estarei sempre "a bordo", ainda que possa navegar no navio do lado ou no galeão da frente...
Para o Clavis, em jeito de comentário geral à última série de textos que ele aqui publicou. E em homenagem ao seu grande empenhamento neste projecto."
Obrigado, Renato, mas o meu maior empenhamento será sempre uma fração daquele que lanças sobre os projetos da Nova Águia e do MIL.
"1. Que Agostinho da Silva teve um pensamento político, isso é inegável. Esse pensamento político decorre, muito simplesmente, da sua visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo. Ora, como sabemos, Agostinho da Silva foi um homem coerente e consequente – logo, não poderia ficar apenas no plano “cultural” e “espiritual”. Para mais, porque ele foi tanto um homem de pensamento quanto um homem de acção. E o melhor contra-exemplo para quem acha que há alguma incompatibilidade entre esses dois planos…"
Sejamos claros: existem várias interpretações e visões para aquilo que o MIL é ou pode ser. Para mim, é uma forma de procurar realizar a visão política de Agostinho que sumariamente comentei nestes dez artigos. Agostinho agiu, em Portugal e, sobretudo no Brasil. Não teve uma interpretação do Pensamento como sendo algo que esterilmente se move apenas nos domínios do intelecto ou das abstracções, trabalhando no terreno no Brasil, entre as populações locais e aconselhando políticos e até o presidente do Brasil.
"2. Tendo tido um pensamento político, esse pensamento não se encaixa nos mais vulgares quadros mentais – que tudo dividem entre “esquerda” e “direita”. E, por isso, de facto, Agostinho foi olhado com profunda desconfiança e suspeição quer pela “direita” quer pela “esquerda”. Porque, em última instância, estava para além de uma e de outra. Porque, desde logo, conseguia ser simultaneamente de esquerda – sobretudo, no plano social – e de direita – sobretudo, no plano cultural…"
Por isso não vejo o movimento consubstanciado no MIL como um movimento ou "protopartido" de Direita ou de Esquerda. Se é o pensamento de Agostinho da Silva que lhe serve de propulsor essencial e este não pode ser facilmente encapsulado nesta clássica mas anacrónica estratificação política então não podemos encaixar o MIL em qualquer um destes locais virtuais do espectro político. Talvez resulte daqui alguma da ira que pela blogoesfera mais ligada à Extrema Direita se sente em relação ao MIL e à Nova Águia: a frustração por não terem aqui...
"3. Desde logo por isso, o seu comprometimento com o jogo político nunca foi muito efectivo. Mas também não exageremos – no Brasil, Agostinho da Silva foi assessor do Presidente Jânio Quadros, tendo antes apoiado um concorrente deste. Em Portugal, é certo que nunca apoiou expressamente nenhum candidato e/ ou partido. Mas o próprio explicou porquê: tinha regressado a Portugal depois de 25 anos fora; não se queria indispor com ninguém (há uma “Conversa Vadia” em que ele diz isso claramente). E por isso também chegou a recusar uma candidatura própria à Presidência da República…"
O Professor era um arquitecto, no sentido de que sempre se preocupou mais com estabelecer alicerces, lançar ideias e conceitos novos ou adormecidos, do que em correr a alistar-se a qualquer partido ou em alinhar em qualquer disputa por qualquer cargo de poder. Verdadeiro filósofo, sempre optou por terçar no plano das ideias e não dos diretos - e tantas vezes sujos ou promíscuos - combate estritamente políticos. Preferiu plantar a colher e se hoje podemos encarar o seu pensamento político como uma alternativa ao obsoleto, decadente e cada vez menos representativo sistema partidário português, tal deve-se também ao facto de o Professor ter sabido manter-se distante de um simples alinhamento político.
"4. E quanto ao MIL? O MIL tem uma visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo. Logo, tem uma perspectiva política. Em que medida será coerente e consequente com ela, isso, depois, ver-se-á. Acho que não nos devemos precipitar a esse respeito. O MIL, enquanto tal, não tem sequer um ano de vida…"
É impossível pensar Portugal e a comunidade lusófona sem a pensar politicamente. Não advogo contudo que o MIL se deva transmutar imediatamente num puro movimento ou partido político. Para isso seria necessário refundar o próprio movimento, fazer sufragar a mudança de orientação entre todos os atuais membros do MIL e, sobretudo, seria preciso ganhar uma "massa crítica" de intervenção social, cultural e cívica que ao fim de apenas um ano de existência ainda não lográmos obter. O MIL tem tomado (e tomará) varias posições políticas e/ou cívicas e nesse sentido JÁ é até um movimento político... E não poderá deixar-se encastrar no mero enclave da defesa da "cultura lusófona" ou de outros temas académicos e intelectuais. Para ser efetivo, para ser capaz de interferir nos destinos do mundo e cumprir ainda que parcialmente os sonhos de Vieira, Pessoa e Agostinho, tem que ser atuante. E esse espaço de ação tem que ser político, hoje e amanhã. Em formas diferentes de acordo com as circunstâncias e condicionantes de cada momento. Neste momento sob a forma de "movimento cultural e cívico", amanhã sob a forma que for mais adequada, seja ela qual for...
"5. Algo, contudo, posso desde já antecipar, com toda a certeza (porque te conheço, e porque, conhecendo-te, sei que és uma pessoa coerente e consequente). Se algum dia chegarmos a esse patamar mais declaradamente político, tu serás um daqueles que estarás a bordo…"
A coerência de pensamento não deve ter o valor de um Dogma, mas mudar de opinião quanto a questões fundamentais não é de facto a minha política... Mudo naquilo que deriva delas e sempre que os factos apontam para o erro da posição inicial, mas neste contexto da defesa da Lusofonia, da União lusófona, da primazia das Economias Locais e das moedas locais, do Municipalismo, das economias comunalistas e "gratuitas", assim como na abolição do "Estado Central", da Partidocracia e da saída de Portugal da União Europeia não vejo como hei de mudar, sem mudar algo de essencial em mim... Estou nesses combates e estarei sempre, ao lado do MIL, onde essas posições forem consistentes com as do Movimento e à frente ou ao lado dele quando não o forem. Nesse sentido, estarei sempre "a bordo", ainda que possa navegar no navio do lado ou no galeão da frente...
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
SOBRE O PENSAMENTO POLÍTICO DE AGOSTINHO DA SILVA
Para o Clavis, em jeito de comentário geral à última série de textos que ele aqui publicou. E em homenagem ao seu grande empenhamento neste projecto.
1. Que Agostinho da Silva teve um pensamento político, isso é inegável. Esse pensamento político decorre, muito simplesmente, da sua visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo. Ora, como sabemos, Agostinho da Silva foi um homem coerente e consequente – logo, não poderia ficar apenas no plano “cultural” e “espiritual”. Para mais, porque ele foi tanto um homem de pensamento quanto um homem de acção. E o melhor contra-exemplo para quem acha que há alguma incompatibilidade entre esses dois planos…
2. Tendo tido um pensamento político, esse pensamento não se encaixa nos mais vulgares quadros mentais – que tudo dividem entre “esquerda” e “direita”. E, por isso, de facto, Agostinho foi olhado com profunda desconfiança e suspeição quer pela “direita” quer pela “esquerda”. Porque, em última instância, estava para além de uma e de outra. Porque, desde logo, conseguia ser simultaneamente de esquerda – sobretudo, no plano social – e de direita – sobretudo, no plano cultural…
3. Desde logo por isso, o seu comprometimento com o jogo político nunca foi muito efectivo. Mas também não exageremos – no Brasil, Agostinho da Silva foi assessor do Presidente Jânio Quadros, tendo antes apoiado um concorrente deste. Em Portugal, é certo que nunca apoiou expressamente nenhum candidato e/ ou partido. Mas o próprio explicou porquê: tinha regressado a Portugal depois de 25 anos fora; não se queria indispor com ninguém (há uma “Conversa Vadia” em que ele diz isso claramente). E por isso também chegou a recusar uma candidatura própria à Presidência da República…
4. E quanto ao MIL? O MIL tem uma visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo. Logo, tem uma perspectiva política. Em que medida será coerente e consequente com ela, isso, depois, ver-se-á. Acho que não nos devemos precipitar a esse respeito. O MIL, enquanto tal, não tem sequer um ano de vida…
5. Algo, contudo, posso desde já antecipar, com toda a certeza (porque te conheço, e porque, conhecendo-te, sei que és uma pessoa coerente e consequente). Se algum dia chegarmos a esse patamar mais declaradamente político, tu serás um daqueles que estarás a bordo…
Bom Natal para ti. E para todos os membros e amigos do MIL e da NOVA ÁGUIA…
1. Que Agostinho da Silva teve um pensamento político, isso é inegável. Esse pensamento político decorre, muito simplesmente, da sua visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo. Ora, como sabemos, Agostinho da Silva foi um homem coerente e consequente – logo, não poderia ficar apenas no plano “cultural” e “espiritual”. Para mais, porque ele foi tanto um homem de pensamento quanto um homem de acção. E o melhor contra-exemplo para quem acha que há alguma incompatibilidade entre esses dois planos…
2. Tendo tido um pensamento político, esse pensamento não se encaixa nos mais vulgares quadros mentais – que tudo dividem entre “esquerda” e “direita”. E, por isso, de facto, Agostinho foi olhado com profunda desconfiança e suspeição quer pela “direita” quer pela “esquerda”. Porque, em última instância, estava para além de uma e de outra. Porque, desde logo, conseguia ser simultaneamente de esquerda – sobretudo, no plano social – e de direita – sobretudo, no plano cultural…
3. Desde logo por isso, o seu comprometimento com o jogo político nunca foi muito efectivo. Mas também não exageremos – no Brasil, Agostinho da Silva foi assessor do Presidente Jânio Quadros, tendo antes apoiado um concorrente deste. Em Portugal, é certo que nunca apoiou expressamente nenhum candidato e/ ou partido. Mas o próprio explicou porquê: tinha regressado a Portugal depois de 25 anos fora; não se queria indispor com ninguém (há uma “Conversa Vadia” em que ele diz isso claramente). E por isso também chegou a recusar uma candidatura própria à Presidência da República…
4. E quanto ao MIL? O MIL tem uma visão de Portugal, da Comunidade Lusófona e do Mundo. Logo, tem uma perspectiva política. Em que medida será coerente e consequente com ela, isso, depois, ver-se-á. Acho que não nos devemos precipitar a esse respeito. O MIL, enquanto tal, não tem sequer um ano de vida…
5. Algo, contudo, posso desde já antecipar, com toda a certeza (porque te conheço, e porque, conhecendo-te, sei que és uma pessoa coerente e consequente). Se algum dia chegarmos a esse patamar mais declaradamente político, tu serás um daqueles que estarás a bordo…
Bom Natal para ti. E para todos os membros e amigos do MIL e da NOVA ÁGUIA…
domingo, 30 de novembro de 2008
Os "estados novos" - Portugal

Em Portugal, depois do golpe de estado de 1926, Gomes da Costa, implantou uma ditadura que há muito vinha a ser pedida pela burguesia mais radical Sidonista, cujo líder tinha sido morto em 14 de Dezembro de 1918.
O jornal "A Dictadura" tinha veementemente exigido essa ditadura anos a fio e aí estava ela.
A verdade é que a primeira república tinha sido um fracasso, como revolução burguesa de carácter maçónico, apenas pretendeu substituir uma classe no poder por outra, ou seja substituir a nobreza pela burguesia.
Mesmo na época monárquica já os burgueses compravam os títulos nobiliárquicos, por isso a mudança não foi quase nenhuma, houve sim uma inversão dos símbolos e dos ícones.
O anticlericalismo criou o endeusamento da figura da república, chegando-se a fazer procissões em que a e imagens dos Santos eram substituídas pela imagem da santa república.
O próprio espaço das Igrejas Católicas foi reutilizado, como em Alhos Vedros onde a Igreja Matriz foi usada como garagem para os Bombeiros da Moita. Outras igrejas foram destruídas e também alguns mosteiros. As ordens monásticas foram ilegalizadas e todo esse dinheiro saqueado a saqueadores, foi para onde?
Não foi seguramente para o Povo, pois não havia uma política de segurança social ou de defesa da classe dos trabalhadores por parte do estado.
A entrada de Portugal na I guerra foi um despesismo mais na depauperada economia e também o destroçar de uma geração.
A primeira república nada melhorou para 99% dos Portugueses em relação à monarquia...
Aliás havia muito mais liberdade no final da monarquia do que na I república, basta lembrar o grande Bordallo e as revistas que fez, em sucessão libertária, pois assim que o governo encerrava uma, ele criava outra, essa liberdade só tem paralelo agora na blogosfera, bem hajam os blogues por isso.
Com o golpe de 28 de Maio de 1926, veio depois o estado novo português, que foi beber aos sacramentos do fascismo Italiano, mas, ao invés deste, que era de natureza urbana, e revolucionário o estado novo tinha características rurais e era anti-revolucionário e conservador, acabou por isso com os nacional-sindicalistas de Rolão Preto, esses sim revolucionários e verdadeiramente pró-fascistas.
O que sobrou da direita conservadora Sidonista republicana e antigos monárquicos do Integralismo Lusitano, foi integrada na grande União-Nacional corporativa e conservadora com forte pendor clerical.
O estado novo português teve 2 épocas, a primeira até ao começo da II guerra mundial, a outra após o final da II guerra.
Na minha opinião esta primeira fase conseguiu organizar minimamente o caos, pensou pequeno, tendo um vasto império colonial, ainda.
Estabilizou a economia por baixo, tornando os pobrezinhos asseados e felizinhos, dando-lhes entretenimentos vários que se tornaram muito populares, especialmente os filmes portugueses dessa época, mas também a rádio, os jornais de histórias em quadrinhos, o Futebol, Fátima e o Fado.
Foi, uma época feliz e o sistema corporativo escolhia as empresas a dedo, quase não existindo sistema de mercado, as empresas eram sectoriais, havia a empresa das cervejas, a empresa das massas alimentícias, dos vinhos de mesa e assim sucessivamente...era o tempo do mono, em tudo, até nas cores dos edifícios públicos, tudo era monocolor, era um Portugal a preto e branco.
Apesar do colorido artístico dado pela exposição do Mundo Português...
...se não fossem os artistas.
Esta fase teria de ser aproveitada para redimensionar toda a política colonial, implementando a colonização do interior de Angola e Moçambique, investindo em infra-estruturas, na educação dos povos e na misceginização das populações, assim como deveria ter investido na auto-gestão dos seus habitantes em todos os termos, inclusive políticos, dando autonomia gradual às colónias até que se criasse uma federação de estados lusófonos em que a capital tanto pudesse ser na Europa como em África.
A segunda fase estado novo, passou do preto e branco, para a gama de cinzas, tudo ficou cinzento e triste, a PIDE endureceu, o inimigo ficou bem explícito, porque também tudo ficou mais linear, dum lado o mal, simbolizado pelo PCP, mero bode expiatório que o Salazar pretendeu diabolizar para poder continuar no poder sem nada de relevante ser feito para desenvolver Portugal, do outro o bem simbolizado pela União Nacional, e os pseudo bons costumes e virtudes públicas, cheias de vícios privados.
Enfim um paraíso de servilismo sem criminalidade, a não ser a que estava no poder, à beira-mar plantado, onde realmente era muito bom pertencer à classe dominante que vivia em Lisboa com possibilidade de ir ver as paisagens de vez em quando no resto do país.
A emigração foi reconstruir a Alemanha e França, em vez de ir construir o interior de Angola e Moçambique, só em 1961, depois do ataque da UPA, Salazar esboçou estas ideias, mas aí já era tarde.
A estagnação continuou, até que Portugal entrou em guerra nas três frentes africanas, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, com a Europa, os EUA e a URSS a apoiarem os movimentos (in)dependentistas e Portugal orgulhosamente só a fazer frente ao mundo inteiro. De louvar as forças armadas que conseguiram fazer frente tantos anos a esses movimentos, mas de lamentar que tenha sido necessário a eclosão desses movimentos para Salazar finalmente ter reparado que existiam essas colónias.
Com a guerra perdida na Guiné-Bissau, aliado a uma oposição interna anti-guerra colonial e a diáspora dos portugueses pelo mundo, mesmo com possibilidades de vencer os movimentos nas colónias de Angola e Moçambique mas num futuro distante e num cenário de um Portugal decadente e extenuado e completamente isolado, as forças armadas saturadas de tanta guerra sem fim à vista, fizeram o golpe de estado de 25 de Abril de 1974, trazendo Portugal para o seu cantinho europeu e adiando 30 anos a restauração da nossa missão atlântica e mundial que antes com o regime Salazarista já tinha perdido quase 50 anos de desenvolvimento.
Ainda anteriormente, a possibilidade de se formarem novos Brasis em Angola e Moçambique no final do século XIX, apenas colonizadas então em alguns portos de mar, investindo na colonização dos seus interiores nessa altura, foi uma opção logo destruída pela ideia insensata de expansão territorial com a ligação destas duas colónias.
A quantidade ao invés da qualidade foi o apanágio dessa época de imperialismos que estavam na moda e Portugal foi ficando adiado, depois veio a república e adiou-se mais uns anos, com o Salazarismo idem, agora com esta pseudo-democracia, mais 30 anos de adiamento...mas o que é isso para uma nação como Portugal que tem 1000 anos de história !
Nada nos resta senão o futuro e esse começou agora, o MIL pode ser a pedrada no charco deste adiamento consecutivo da missão de Portugal e da missão do Mundo Lusófono em que nos inserimos. Luís Cruz Guerreiro
O jornal "A Dictadura" tinha veementemente exigido essa ditadura anos a fio e aí estava ela.
A verdade é que a primeira república tinha sido um fracasso, como revolução burguesa de carácter maçónico, apenas pretendeu substituir uma classe no poder por outra, ou seja substituir a nobreza pela burguesia.
Mesmo na época monárquica já os burgueses compravam os títulos nobiliárquicos, por isso a mudança não foi quase nenhuma, houve sim uma inversão dos símbolos e dos ícones.
O anticlericalismo criou o endeusamento da figura da república, chegando-se a fazer procissões em que a e imagens dos Santos eram substituídas pela imagem da santa república.
O próprio espaço das Igrejas Católicas foi reutilizado, como em Alhos Vedros onde a Igreja Matriz foi usada como garagem para os Bombeiros da Moita. Outras igrejas foram destruídas e também alguns mosteiros. As ordens monásticas foram ilegalizadas e todo esse dinheiro saqueado a saqueadores, foi para onde?
Não foi seguramente para o Povo, pois não havia uma política de segurança social ou de defesa da classe dos trabalhadores por parte do estado.
A entrada de Portugal na I guerra foi um despesismo mais na depauperada economia e também o destroçar de uma geração.
A primeira república nada melhorou para 99% dos Portugueses em relação à monarquia...
Aliás havia muito mais liberdade no final da monarquia do que na I república, basta lembrar o grande Bordallo e as revistas que fez, em sucessão libertária, pois assim que o governo encerrava uma, ele criava outra, essa liberdade só tem paralelo agora na blogosfera, bem hajam os blogues por isso.
Com o golpe de 28 de Maio de 1926, veio depois o estado novo português, que foi beber aos sacramentos do fascismo Italiano, mas, ao invés deste, que era de natureza urbana, e revolucionário o estado novo tinha características rurais e era anti-revolucionário e conservador, acabou por isso com os nacional-sindicalistas de Rolão Preto, esses sim revolucionários e verdadeiramente pró-fascistas.
O que sobrou da direita conservadora Sidonista republicana e antigos monárquicos do Integralismo Lusitano, foi integrada na grande União-Nacional corporativa e conservadora com forte pendor clerical.
O estado novo português teve 2 épocas, a primeira até ao começo da II guerra mundial, a outra após o final da II guerra.
Na minha opinião esta primeira fase conseguiu organizar minimamente o caos, pensou pequeno, tendo um vasto império colonial, ainda.
Estabilizou a economia por baixo, tornando os pobrezinhos asseados e felizinhos, dando-lhes entretenimentos vários que se tornaram muito populares, especialmente os filmes portugueses dessa época, mas também a rádio, os jornais de histórias em quadrinhos, o Futebol, Fátima e o Fado.
Foi, uma época feliz e o sistema corporativo escolhia as empresas a dedo, quase não existindo sistema de mercado, as empresas eram sectoriais, havia a empresa das cervejas, a empresa das massas alimentícias, dos vinhos de mesa e assim sucessivamente...era o tempo do mono, em tudo, até nas cores dos edifícios públicos, tudo era monocolor, era um Portugal a preto e branco.
Apesar do colorido artístico dado pela exposição do Mundo Português...
...se não fossem os artistas.
Esta fase teria de ser aproveitada para redimensionar toda a política colonial, implementando a colonização do interior de Angola e Moçambique, investindo em infra-estruturas, na educação dos povos e na misceginização das populações, assim como deveria ter investido na auto-gestão dos seus habitantes em todos os termos, inclusive políticos, dando autonomia gradual às colónias até que se criasse uma federação de estados lusófonos em que a capital tanto pudesse ser na Europa como em África.
A segunda fase estado novo, passou do preto e branco, para a gama de cinzas, tudo ficou cinzento e triste, a PIDE endureceu, o inimigo ficou bem explícito, porque também tudo ficou mais linear, dum lado o mal, simbolizado pelo PCP, mero bode expiatório que o Salazar pretendeu diabolizar para poder continuar no poder sem nada de relevante ser feito para desenvolver Portugal, do outro o bem simbolizado pela União Nacional, e os pseudo bons costumes e virtudes públicas, cheias de vícios privados.
Enfim um paraíso de servilismo sem criminalidade, a não ser a que estava no poder, à beira-mar plantado, onde realmente era muito bom pertencer à classe dominante que vivia em Lisboa com possibilidade de ir ver as paisagens de vez em quando no resto do país.
A emigração foi reconstruir a Alemanha e França, em vez de ir construir o interior de Angola e Moçambique, só em 1961, depois do ataque da UPA, Salazar esboçou estas ideias, mas aí já era tarde.
A estagnação continuou, até que Portugal entrou em guerra nas três frentes africanas, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, com a Europa, os EUA e a URSS a apoiarem os movimentos (in)dependentistas e Portugal orgulhosamente só a fazer frente ao mundo inteiro. De louvar as forças armadas que conseguiram fazer frente tantos anos a esses movimentos, mas de lamentar que tenha sido necessário a eclosão desses movimentos para Salazar finalmente ter reparado que existiam essas colónias.
Com a guerra perdida na Guiné-Bissau, aliado a uma oposição interna anti-guerra colonial e a diáspora dos portugueses pelo mundo, mesmo com possibilidades de vencer os movimentos nas colónias de Angola e Moçambique mas num futuro distante e num cenário de um Portugal decadente e extenuado e completamente isolado, as forças armadas saturadas de tanta guerra sem fim à vista, fizeram o golpe de estado de 25 de Abril de 1974, trazendo Portugal para o seu cantinho europeu e adiando 30 anos a restauração da nossa missão atlântica e mundial que antes com o regime Salazarista já tinha perdido quase 50 anos de desenvolvimento.
Ainda anteriormente, a possibilidade de se formarem novos Brasis em Angola e Moçambique no final do século XIX, apenas colonizadas então em alguns portos de mar, investindo na colonização dos seus interiores nessa altura, foi uma opção logo destruída pela ideia insensata de expansão territorial com a ligação destas duas colónias.
A quantidade ao invés da qualidade foi o apanágio dessa época de imperialismos que estavam na moda e Portugal foi ficando adiado, depois veio a república e adiou-se mais uns anos, com o Salazarismo idem, agora com esta pseudo-democracia, mais 30 anos de adiamento...mas o que é isso para uma nação como Portugal que tem 1000 anos de história !
Nada nos resta senão o futuro e esse começou agora, o MIL pode ser a pedrada no charco deste adiamento consecutivo da missão de Portugal e da missão do Mundo Lusófono em que nos inserimos. Luís Cruz Guerreiro
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Qual o caminho para o MIL?

. 1.Pensar estrategicamente, pensar em triângulo.
O MIL (Movimento Internacional Lusófono) deve fazer tudo o que a NA (Nova Águia) e a AAS (Associação Agostinho da Silva) não "puderem" fazer.
Dito pela negativa: o que a AAS e a NA "puderem" fazer, isso, a ser feito pelo MIL, será redundante...
(a continuar)
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Alguns esclarecimentos
.
Em resposta a alguns comentários/ pedidos de esclarecimento que aqui têm sido publicados, ou que me têm chegado por e-mail, ou, ainda, que me têm sido colocados pessoalmente, tenho a esclarecer que:
1. O MIL continuará a ser o que é: como se diz no ponto 1 da sua Declaração de Princípios e Objectivos, um “movimento cultural e cívico (que visa mobilizar a sociedade civil para repensar e debater amplamente o sentido e o destino de Portugal e da Comunidade Lusófona)”. Ou seja, o MIL não será refundando nem como movimento político, nem como movimento ético-espiritual, nem como qualquer outra coisa. Sem que isto implique, obviamente, que qualquer um de nós renuncie às suas crenças ético-espirituais e/ ou às suas convicções políticas.
2. Nessa medida, o MIL não renega nenhuma das posições públicas que tomou. O último comunicado que emitiu (sobre a actual situação na Guiné-Bissau) foi, de resto, aprovado na última reunião da Comissão Coordenadora do MIL. Não só não renega como continuará a tomar posições públicas sobre todos os assuntos que lhe parecerem relevantes no quadro da sua “Declaração de Princípios e Objectivos”.
3. Para que o MIL não se torne, contudo, apenas num movimento “inter-naútico”, estamos a agendar uma série de encontros na nossa sede (Associação Agostinho da Silva), para debate dos temas que nos pareçam mais adequados. Estes encontros terão ainda a vantagem de propiciarem um maior conhecimento mútuo das pessoas que a este projecto já aderiram. Ainda que isso já venha acontecendo nos múltiplos lançamentos da NOVA ÁGUIA…
4. Nesse mesmo sentido, iremos igualmente em breve enviar a todas as pessoas que aderiram entretanto a este projecto um inquérito, de modo a auscultar a sua opinião.
5. Por fim, um esclarecimento mais de ordem pessoal: não mais farei apelos públicos a quaisquer “recentramentos nos debates”. Ao contrário do que algumas pessoas julgam, não tenho vocação para censor… Dito isto, continuarei fiel ao apelo que aqui fiz: neste blogue e no âmbito deste projecto, só discutirei questões que, a meu ver, lhe digam directamente respeito.
Em resposta a alguns comentários/ pedidos de esclarecimento que aqui têm sido publicados, ou que me têm chegado por e-mail, ou, ainda, que me têm sido colocados pessoalmente, tenho a esclarecer que:
1. O MIL continuará a ser o que é: como se diz no ponto 1 da sua Declaração de Princípios e Objectivos, um “movimento cultural e cívico (que visa mobilizar a sociedade civil para repensar e debater amplamente o sentido e o destino de Portugal e da Comunidade Lusófona)”. Ou seja, o MIL não será refundando nem como movimento político, nem como movimento ético-espiritual, nem como qualquer outra coisa. Sem que isto implique, obviamente, que qualquer um de nós renuncie às suas crenças ético-espirituais e/ ou às suas convicções políticas.
2. Nessa medida, o MIL não renega nenhuma das posições públicas que tomou. O último comunicado que emitiu (sobre a actual situação na Guiné-Bissau) foi, de resto, aprovado na última reunião da Comissão Coordenadora do MIL. Não só não renega como continuará a tomar posições públicas sobre todos os assuntos que lhe parecerem relevantes no quadro da sua “Declaração de Princípios e Objectivos”.
3. Para que o MIL não se torne, contudo, apenas num movimento “inter-naútico”, estamos a agendar uma série de encontros na nossa sede (Associação Agostinho da Silva), para debate dos temas que nos pareçam mais adequados. Estes encontros terão ainda a vantagem de propiciarem um maior conhecimento mútuo das pessoas que a este projecto já aderiram. Ainda que isso já venha acontecendo nos múltiplos lançamentos da NOVA ÁGUIA…
4. Nesse mesmo sentido, iremos igualmente em breve enviar a todas as pessoas que aderiram entretanto a este projecto um inquérito, de modo a auscultar a sua opinião.
5. Por fim, um esclarecimento mais de ordem pessoal: não mais farei apelos públicos a quaisquer “recentramentos nos debates”. Ao contrário do que algumas pessoas julgam, não tenho vocação para censor… Dito isto, continuarei fiel ao apelo que aqui fiz: neste blogue e no âmbito deste projecto, só discutirei questões que, a meu ver, lhe digam directamente respeito.
domingo, 12 de outubro de 2008
Mais sete breves notas: agora sobre o nacionalismo...
Para a Ariana
1. Em Portugal, o “nacionalismo” é dos conceitos mais estigmatizados pelo PC (Politicamente Correcto).
2. Isto, obviamente, para uso doméstico, porque para fora as coisas tendem a inverter-se. Historicamente, sempre se valorizaram os “nacionalismo africanos”, na sua luta pela independência, o “nacionalismo timorense”, antes e depois da descolonização, e, actualmente, o PC não esconde a sua simpatia pelos nacionalismos hispânicos: catalão e basco, sobretudo (o galego é demasiado suspeito de lusofilia…).
3. Na sua luta contra a anexação indonésia, por exemplo, Xanana Gusmão era apresentado, nos media, como o “líder dos nacionalistas timorenses”. Pelos mesmos media, tenho ouvido e lido que o “líder dos nacionalistas portugueses” é o Mário Machado…
4. Outro exemplo curioso: quando o Fidel Castro diz (dizia) “Pátria ou Morte!”, o PC acha(va) bem. Mas as mesmas palavras noutra boca…
5. Como sou instintivamente anti-PC, seria levado a assumir-se como nacionalista por isso, mas a verdade é que nem por isso me assumo. Seria uma razão demasiado curta…
6. A meu ver, só faz sentido ser-se “nacionalista” quando a nação está ainda por se concretizar – nomeadamente, enquanto Estado. Nessa medida, decerto, se fosse da Catalunha, seria nacionalista catalão, se fosse do País Basco, seria nacionalista basco (ainda que não necessariamente terrorista…), se fosse da Galiza, seria nacionalista galego, defendendo ou não a (re)união com Portugal (ponto a desenvolver).
7. Em Portugal, contudo, por ser uma nação (quase) perfeita – no plano do Estado, território, população, etc. –, a questão não se põe, de todo, com a mesma pertinência. Portugal, como aqui tenho defendido, só faz (mais) sentido dentro do espaço lusófono e, nessa medida, é sobretudo a essa luz que deve ser (re)pensado. Ora, a essa luz, sob esse enfoque, ser-se nacionalista é demasiado pouco, demasiado curto… A meu ver, importa pois ser “não nacionalista” por excesso. Importa ser, como já aqui em tempos me assumi (em boa companhia, de resto) minho-timorense…
1. Em Portugal, o “nacionalismo” é dos conceitos mais estigmatizados pelo PC (Politicamente Correcto).
2. Isto, obviamente, para uso doméstico, porque para fora as coisas tendem a inverter-se. Historicamente, sempre se valorizaram os “nacionalismo africanos”, na sua luta pela independência, o “nacionalismo timorense”, antes e depois da descolonização, e, actualmente, o PC não esconde a sua simpatia pelos nacionalismos hispânicos: catalão e basco, sobretudo (o galego é demasiado suspeito de lusofilia…).
3. Na sua luta contra a anexação indonésia, por exemplo, Xanana Gusmão era apresentado, nos media, como o “líder dos nacionalistas timorenses”. Pelos mesmos media, tenho ouvido e lido que o “líder dos nacionalistas portugueses” é o Mário Machado…
4. Outro exemplo curioso: quando o Fidel Castro diz (dizia) “Pátria ou Morte!”, o PC acha(va) bem. Mas as mesmas palavras noutra boca…
5. Como sou instintivamente anti-PC, seria levado a assumir-se como nacionalista por isso, mas a verdade é que nem por isso me assumo. Seria uma razão demasiado curta…
6. A meu ver, só faz sentido ser-se “nacionalista” quando a nação está ainda por se concretizar – nomeadamente, enquanto Estado. Nessa medida, decerto, se fosse da Catalunha, seria nacionalista catalão, se fosse do País Basco, seria nacionalista basco (ainda que não necessariamente terrorista…), se fosse da Galiza, seria nacionalista galego, defendendo ou não a (re)união com Portugal (ponto a desenvolver).
7. Em Portugal, contudo, por ser uma nação (quase) perfeita – no plano do Estado, território, população, etc. –, a questão não se põe, de todo, com a mesma pertinência. Portugal, como aqui tenho defendido, só faz (mais) sentido dentro do espaço lusófono e, nessa medida, é sobretudo a essa luz que deve ser (re)pensado. Ora, a essa luz, sob esse enfoque, ser-se nacionalista é demasiado pouco, demasiado curto… A meu ver, importa pois ser “não nacionalista” por excesso. Importa ser, como já aqui em tempos me assumi (em boa companhia, de resto) minho-timorense…
sábado, 11 de outubro de 2008
Mais sete breves notas: agora sobre a relação com Espanha...
1. Portugal não deve ter qualquer atitude que hostilize abertamente a Espanha. Não por receio de sermos invadidos por ela (já superámos essa fase), mas, muito simplesmente, porque não é do nosso interesse.
2. Dito isto, Portugal deve, “subterraneamente”, reforçar os laços com a Galiza, sobretudo na vertente cultural. Olivença já me parece um caso (quase) perdido…
3. Não sei se para Portugal seria bom ou não que a Espanha se desagregasse. Tenho discutido o assunto com várias pessoas e, como se costuma dizer, as doutrinas dividem-se. Sou sensível ao(s) argumento(s) de quem acha que seria mau: é preferível que os nossos vizinhos (para mais, o nosso único vizinho) não façam muito “barulho”…
4. Independentemente de ser ou bom mau para Portugal, acho que a tendência é para que a Espanha se desagregue. Exactamente por causa dessa tendência maior (ver "post" anterior) da revalorização das línguas, das culturas…
5. Apesar do nacionalismo catalão ter muito de burguês (se me passares o cheque, eu calo-me), é cada vez mais provável que seja pela Catalunha que o processo de desagregação comece. Depois virá o país basco (que, por causa do terrorismo, nunca poderá ser o primeiro). Depois, enfim, a Galiza…
6. Actualmente, a Espanha ainda não chegou ao estado da Bélgica (que seria trágico, se não fosse apenas anedótico), mas o que a mantém enquanto tal é cada vez mais fraco: a Igreja já não é o que era, e em Espanha ainda menos (exemplos: liberalização do aborto, dos casamentos gays, etc.); a Monarquia ainda mantém algum prestígio (dada a história do actual rei, apesar de alguns escândalos abafados), mas esse prestígio (melhor, essa autoridade) não passará para o filho e para a sua encantadora nora). O que sobra? O futebol (não se riam: o facto de a Espanha ter sido campeã europeia de futebol foi a melhor notícia para os “espanholistas” nesta última década). E, sobretudo, a Economia: a Espanha tem sido um “bom negócio”. Quando deixar de o ser…
7. Se (quando) isso acontecer, haverá uma tendência para que Portugal se desagregue igualmente, em nome de uma Ibéria das regiões. Mas não acredito, de todo, que isso aconteça. Ao contrário de Espanha, Portugal é efectivamente uma nação…
2. Dito isto, Portugal deve, “subterraneamente”, reforçar os laços com a Galiza, sobretudo na vertente cultural. Olivença já me parece um caso (quase) perdido…
3. Não sei se para Portugal seria bom ou não que a Espanha se desagregasse. Tenho discutido o assunto com várias pessoas e, como se costuma dizer, as doutrinas dividem-se. Sou sensível ao(s) argumento(s) de quem acha que seria mau: é preferível que os nossos vizinhos (para mais, o nosso único vizinho) não façam muito “barulho”…
4. Independentemente de ser ou bom mau para Portugal, acho que a tendência é para que a Espanha se desagregue. Exactamente por causa dessa tendência maior (ver "post" anterior) da revalorização das línguas, das culturas…
5. Apesar do nacionalismo catalão ter muito de burguês (se me passares o cheque, eu calo-me), é cada vez mais provável que seja pela Catalunha que o processo de desagregação comece. Depois virá o país basco (que, por causa do terrorismo, nunca poderá ser o primeiro). Depois, enfim, a Galiza…
6. Actualmente, a Espanha ainda não chegou ao estado da Bélgica (que seria trágico, se não fosse apenas anedótico), mas o que a mantém enquanto tal é cada vez mais fraco: a Igreja já não é o que era, e em Espanha ainda menos (exemplos: liberalização do aborto, dos casamentos gays, etc.); a Monarquia ainda mantém algum prestígio (dada a história do actual rei, apesar de alguns escândalos abafados), mas esse prestígio (melhor, essa autoridade) não passará para o filho e para a sua encantadora nora). O que sobra? O futebol (não se riam: o facto de a Espanha ter sido campeã europeia de futebol foi a melhor notícia para os “espanholistas” nesta última década). E, sobretudo, a Economia: a Espanha tem sido um “bom negócio”. Quando deixar de o ser…
7. Se (quando) isso acontecer, haverá uma tendência para que Portugal se desagregue igualmente, em nome de uma Ibéria das regiões. Mas não acredito, de todo, que isso aconteça. Ao contrário de Espanha, Portugal é efectivamente uma nação…
Dez breves notas à “longa nota” do Casimiro Ceivães…
1. Antes de mais, saúdo-te pelo texto. Para mim, este projecto tem uma “missão” maior: repensar Portugal e o espaço lusófono em geral. Nessa medida, o teu texto é dos melhores que já aqui foram publicados (sem sabujices, pois que, como já percebeste, não sou dado a isso).
2. Repensar Portugal e o espaço lusófono em geral significa pensar “geo-estrategicamente”, vendo o que na História se mantém e o que, a partir disso, se pode projectar para o futuro.
3. Reflexão particularmente pertinente numa altura em que o mundo está como está…
4. Sem qualquer espécie de sentimentalismo, continuo a achar que, entre os povos, as alianças mais fortes são aquelas que derivam da língua e da cultura.
5. Daí esse caminho que o MIL tem defendido, ainda que em aparente contra-corrente, do reforço dos laços entre os países lusófonos.
6. Como também já aqui escrevi, esse caminho não se podia ter iniciado antes: com as feridas e os complexos dos ex-colonizadores e dos ex-colonizados.
7. Obviamente, esse é um caminho no duplo sentido: de Portugal para todos os países da CPLP, daqueles para este…
8. Isso não, significa, porém, a meu ver, “libertarmo-nos da Europa”. Significa apenas re-estarmos livremente na Europa. O que, cada vez mais, não é o caso. Mas a dita “União Europeia” também se está a desagregar. Por isso…
9. Posso estar completamente errado, mas acho que os ventos da História vão nesse sentido: revalorização das línguas, das culturas, e das alianças geo-estratégicas que daí decorrem…
10. Tudo isto é de facto muito sério. E também é muito seriamente que eu aqui estou. Parafraseando o outro, se não fosse para ser a sério, não estaria aqui. Nem andaria por todo o país a lançar a NOVA ÁGUIA...
Abraço MIL
2. Repensar Portugal e o espaço lusófono em geral significa pensar “geo-estrategicamente”, vendo o que na História se mantém e o que, a partir disso, se pode projectar para o futuro.
3. Reflexão particularmente pertinente numa altura em que o mundo está como está…
4. Sem qualquer espécie de sentimentalismo, continuo a achar que, entre os povos, as alianças mais fortes são aquelas que derivam da língua e da cultura.
5. Daí esse caminho que o MIL tem defendido, ainda que em aparente contra-corrente, do reforço dos laços entre os países lusófonos.
6. Como também já aqui escrevi, esse caminho não se podia ter iniciado antes: com as feridas e os complexos dos ex-colonizadores e dos ex-colonizados.
7. Obviamente, esse é um caminho no duplo sentido: de Portugal para todos os países da CPLP, daqueles para este…
8. Isso não, significa, porém, a meu ver, “libertarmo-nos da Europa”. Significa apenas re-estarmos livremente na Europa. O que, cada vez mais, não é o caso. Mas a dita “União Europeia” também se está a desagregar. Por isso…
9. Posso estar completamente errado, mas acho que os ventos da História vão nesse sentido: revalorização das línguas, das culturas, e das alianças geo-estratégicas que daí decorrem…
10. Tudo isto é de facto muito sério. E também é muito seriamente que eu aqui estou. Parafraseando o outro, se não fosse para ser a sério, não estaria aqui. Nem andaria por todo o país a lançar a NOVA ÁGUIA...
Abraço MIL
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
MANIFESTO "NOVA ÁGUIA" REESCRITO AO AGRADO DE ALGUMAS PESSOAS...
1. A “Pátria” não existe. É uma mera invenção para as massas ignorantes.
2. Não existe, igualmente, qualquer “vocação histórico-cultural da comunidade lusófona”. Todas as “vocações” são irredutivelmente individuais. Todas as pretensas “vocações” colectivas são fascizantes.
3. Não existe, de resto, qualquer “comunidade lusófona”. A língua que as pessoas falam não afecta o pensar (pois que a língua é um mero instrumento do pensar) nem, muito menos, caracteriza a identidade de cada um.
4. Aliás, a "identidade" de cada um também não existe.
2. Não existe, igualmente, qualquer “vocação histórico-cultural da comunidade lusófona”. Todas as “vocações” são irredutivelmente individuais. Todas as pretensas “vocações” colectivas são fascizantes.
3. Não existe, de resto, qualquer “comunidade lusófona”. A língua que as pessoas falam não afecta o pensar (pois que a língua é um mero instrumento do pensar) nem, muito menos, caracteriza a identidade de cada um.
4. Aliás, a "identidade" de cada um também não existe.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
A CULTURA PRIMEIRO
O Fundamento de Portugal é a Cultura.
Geográfica, económica e politicamente, Portugal é um absurdo.
Sem essa visão axialmente cultural do país, mais vale defender a nossa plena dissolução na Europa ou em Espanha. Como já aqui defendi, viveríamos bem melhor…
Ao assumir como princípio “A Cultura Primeiro”, o MIL relembra pois o (único) Fundamento de Portugal.
E assume-se, por isso, como uma Voz necessária, tanto mais necessária porquanto essa Voz não existe, publicamente, de forma estruturada.
No plano político, nomeadamente, não há nenhum partido que assuma essa visão cultural do país: à esquerda, porque se continua a considerar, apesar de toda a retórica, que Cultura é o que vem da Europa, em Paris de particular (não por acaso, o Manuel Maria Carrilho, tido como o grande ministro da Cultura do pós-25 de Abril, tinha como modelo o Jack Lang…); à direita, porque se continua a defender, igualmente apesar de toda a retórica, que tudo deve ser decidido, em última instância, pelo Deus-Mercado…
Ao defender que a Língua e a Cultura devem ser o eixo de toda a Política, ao contrário do que acontece actualmente, em que a pasta da Cultura é a menos importante de todas, não vamos certamente defender que o orçamento da Cultura passe a ser financeiramente maior do que o da Saúde ou o da Segurança Social. Não é disso, como é óbvio, que se trata. Trata-se apenas de defender que todas as políticas sectoriais se devem subordinar a essa visão axialmente cultural do país…
* Texto aqui publicado a 7 de Fevereiro de 2008
Geográfica, económica e politicamente, Portugal é um absurdo.
Sem essa visão axialmente cultural do país, mais vale defender a nossa plena dissolução na Europa ou em Espanha. Como já aqui defendi, viveríamos bem melhor…
Ao assumir como princípio “A Cultura Primeiro”, o MIL relembra pois o (único) Fundamento de Portugal.
E assume-se, por isso, como uma Voz necessária, tanto mais necessária porquanto essa Voz não existe, publicamente, de forma estruturada.
No plano político, nomeadamente, não há nenhum partido que assuma essa visão cultural do país: à esquerda, porque se continua a considerar, apesar de toda a retórica, que Cultura é o que vem da Europa, em Paris de particular (não por acaso, o Manuel Maria Carrilho, tido como o grande ministro da Cultura do pós-25 de Abril, tinha como modelo o Jack Lang…); à direita, porque se continua a defender, igualmente apesar de toda a retórica, que tudo deve ser decidido, em última instância, pelo Deus-Mercado…
Ao defender que a Língua e a Cultura devem ser o eixo de toda a Política, ao contrário do que acontece actualmente, em que a pasta da Cultura é a menos importante de todas, não vamos certamente defender que o orçamento da Cultura passe a ser financeiramente maior do que o da Saúde ou o da Segurança Social. Não é disso, como é óbvio, que se trata. Trata-se apenas de defender que todas as políticas sectoriais se devem subordinar a essa visão axialmente cultural do país…
* Texto aqui publicado a 7 de Fevereiro de 2008
sábado, 20 de setembro de 2008
Ainda sobre o Quinto Império*
A nosso ver, o tão vilipendiado “Quinto Império” de que fala Agostinho da Silva não é senão isso: o espaço-tempo em que todas as comunidades, todos os povos, possam, de forma inteiramente livre, assumir, de modo pleno, a sua cultura. Não, longe disso, um império apenas português – também português, na medida em que nele a cultura portuguesa deve também poder afirmar-se, mas não apenas, ou sequer hegemonicamente, por mais que de forma dissimulada, português. Eis o que, na nossa perspectiva, nunca será demais salientar, dado o facto da valorização agostiniana da “cultura portuguesa” ter sido muitas vezes entendida de forma igualmente errónea. Como aqui defendemos, ela deve ser entendida, sobretudo, como uma via para a plena realização espiritual.
Contestarão, alguns, a possibilidade de a cultura ser uma via para a plena realização espiritual, defendendo que esta se cumpre, ao invés, na superação daquela. Provavelmente, defendem também que a filosofia se cumpre para além de todas as culturas, de qualquer vinculação a uma língua em particular. Na nossa perspectiva, porém, passa-se exactamente o contrário: é no aprofundamento das virtualidades de uma língua que o discurso filosófico pode emergir enquanto tal. De outro modo, ele será sempre apenas um discurso comum: mais facilmente comunicável, mas não muito mais do que isso. Analogamente, a via da plena realização espiritual passa, na nossa perspectiva, pelo aprofundamento do sentido de uma cultura, da mundividência que lhe subjaz. De outro modo, ela será apenas uma via geral: mais facilmente generalizável, mas não muito mais do que isso.
De resto, a valorização da cultura tem também virtualidades materiais ou, mais especificamente, sociais. Só ela pode ser o elo que sustenta uma sociedade. Se uma sociedade se baseia apenas num elo económico, cedo se desagregará. Por muito que isso repugne a alguns, é também através dela, da cultura, que se cimentam as solidariedades internacionais. Se, em geral, os portugueses foram tão solidários com a causa timorense, apenas para dar um exemplo relativamente recente, foi, em grande medida, porque havia, porque há, um elo entre Portugal e Timor: um elo cultural, precisamente. Dir-se-á que o nosso móbil deveria ser sempre o amor pela humanidade em geral e não por nenhuma cultura em particular. É defensável, mas não é isso que, na nossa perspectiva, acontece. Daí que devamos agir em consequência. Só assim poderemos, na Sociedade de Hoje, efectivamente realizar o Homem de Sempre.
* Últimos três parágrafos de: Visões de Agostinho da Silva, Zéfiro, 2006.
Contestarão, alguns, a possibilidade de a cultura ser uma via para a plena realização espiritual, defendendo que esta se cumpre, ao invés, na superação daquela. Provavelmente, defendem também que a filosofia se cumpre para além de todas as culturas, de qualquer vinculação a uma língua em particular. Na nossa perspectiva, porém, passa-se exactamente o contrário: é no aprofundamento das virtualidades de uma língua que o discurso filosófico pode emergir enquanto tal. De outro modo, ele será sempre apenas um discurso comum: mais facilmente comunicável, mas não muito mais do que isso. Analogamente, a via da plena realização espiritual passa, na nossa perspectiva, pelo aprofundamento do sentido de uma cultura, da mundividência que lhe subjaz. De outro modo, ela será apenas uma via geral: mais facilmente generalizável, mas não muito mais do que isso.
De resto, a valorização da cultura tem também virtualidades materiais ou, mais especificamente, sociais. Só ela pode ser o elo que sustenta uma sociedade. Se uma sociedade se baseia apenas num elo económico, cedo se desagregará. Por muito que isso repugne a alguns, é também através dela, da cultura, que se cimentam as solidariedades internacionais. Se, em geral, os portugueses foram tão solidários com a causa timorense, apenas para dar um exemplo relativamente recente, foi, em grande medida, porque havia, porque há, um elo entre Portugal e Timor: um elo cultural, precisamente. Dir-se-á que o nosso móbil deveria ser sempre o amor pela humanidade em geral e não por nenhuma cultura em particular. É defensável, mas não é isso que, na nossa perspectiva, acontece. Daí que devamos agir em consequência. Só assim poderemos, na Sociedade de Hoje, efectivamente realizar o Homem de Sempre.
* Últimos três parágrafos de: Visões de Agostinho da Silva, Zéfiro, 2006.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Ainda sobre Ética e Política
1. Toda a Política deve estar, decerto, fundada numa procura do bem-comum, mas a Ética não chega para definir a Política.
2. Prova disso é, desde logo, o multipartidarismo. Não sendo faccioso, acredito que a maior parte das pessoas dos diversos partidos, da extrema-esquerda à extrema-direita, procuram o bem-comum. E, contudo, divergem politicamente.
3. Daí que, de facto, apelar ao bem-comum não seja, de longe, suficiente.
2. Prova disso é, desde logo, o multipartidarismo. Não sendo faccioso, acredito que a maior parte das pessoas dos diversos partidos, da extrema-esquerda à extrema-direita, procuram o bem-comum. E, contudo, divergem politicamente.
3. Daí que, de facto, apelar ao bem-comum não seja, de longe, suficiente.
domingo, 7 de setembro de 2008
Sobre a alegada presença de uma “linguagem nacionalista-passadista” neste blogue.
1. Nunca neste blogue se fez a apologia do Estado Novo ou de Salazar, ou algo de próximo. Mesmo quem fez a apologia do conceito de Império (como o Casimiro Ceivães), o que poderia despertar algumas suspeitas, fê-lo num sentido não nacionalista-passadista (a ponto de ter sido elogiado pelo Paulo Borges). E também por mim, já agora.
2. A única pessoa que temos entre nós que publicamente esteve ligada ao Estado Novo é o Professor Adriano Moreira, primeiro nome do Conselho de Direcção da NOVA ÁGUIA. Isso foi, de facto, contestado por algumas pessoas, mas tanto eu como o Paulo Borges defendemos essa opção. Tal como a de o termos convidado para apresentar a NOVA ÁGUIA no 10 de Junho deste ano (na Feira do Livro de Lisboa), convite igualmente contestado por algumas pessoas.
3. Sei que há pessoas que têm reacções pavlovianas sempre que se fala de Pátria: “se fala de Pátria, é nacionalista-passadista”, para não usar outro palavrão. Mas isso não me complexa ou me faz mudar de opinião relativamente à justeza do tema do primeiro número da revista*. Como tenho ido a quase todos os lançamentos da revista, sei que o conceito desperta, a priori, algumas suspeitas. Em todas essas ocasiões, tenho salientado que o nosso conceito de Pátria não se inscreve em qualquer paradigma “nacionalista-passadista”. Tal como o Paulo Borges, sempre que ele também tem estado presente.
4. Por último, para quem acha que nós temos de facto algo a ver com qualquer corrente “nacionalista-passadista”, basta ir à blogosfera e verificar o que essas correntes dizem de nós. Só não digo mais porque não lhes quero fazer publicidade.
5. A única crítica que me parece pertinente em relação ao nosso blogue é a desproporcionada presença de figuras portuguesas em relação a figuras de outros países da CPLP. A esse respeito, relembro o que escrevi aqui ontem: “Já, aliás, nos fizeram alguns justos reparos em relação a isso – nomeadamente neste blogue, onde também predominam as referências a figuras portuguesas, desde logo em relação ao Brasil. Mas isso é algo que só se irá ajustar com o tempo, à medida que cada vez mais brasileiros participem neste projecto em prol do valor comum da Lusofonia. De resto, para quem quiser fazer uma análise justa a esse respeito, reconhecerá que, devido ao contributo de várias pessoas (permito-me salientar o nome de Adriana Costa, o primeiro nome que me ocorre), o blogue NOVA ÁGUIA é, cada vez mais, um BLOGUE DA LUSOFONIA. Ainda que haja muito caminho a percorrer a esse respeito. A Lusofonia não se esgota em Portugal e no Brasil. Queremos que, cada vez mais, pessoas dos outros países da CPLP aqui colaborem.”
CONCLUSÃO: A ALEGAÇÃO É POIS DESPROPOSITADA E, NO QUE ME DIZ DIRECTAMENTE RESPEITO, INSULTUOSA.
* A composição da revista, sobretudo na sua parte relativa à Poesia, também foi transtornada por causa disso (se for preciso, também relembrarei os factos).
Renato Epifânio
Co-Director da NOVA ÁGUIA
Membro da Comissão Coordenadora do MIL
Resposta a Casimiro Ceivães e aos demais
Caro Casimiro Ceivães, perdoe-me a sinceridade, mas esperava bem mais da sua inteligência, bem como da de muitas outras pessoas que prezo... Na verdade, pergunto-lhe, e aos outros, onde é que digo que "o mundo não é senão a ilusão e o nada", onde é que falo de atingir o "não-ser" ou o "vazio" como "Pátria" comum, onde é que falo de ondas, Oceanos ou Abdicação!?... E onde é que falo de querer converter alguém a uma religião, ao budismo ou ao vegetarianismo!? Se soubessem alguma coisa de budismo saberiam que é um dos seus princípios fundamentais não fazer proselitismo e aconselhar as pessoas, pelo contrário, e em princípio, a aprofundarem a sua própria tradição religiosa.
O problema, creio, é que vocês sabem que sou budista e, como não percebem nada de budismo, continuam a repetir os lugares-comuns dos intérpretes ocidentais do séc.XIX, que identificam budismo com niilismo... Ora é o próprio budismo que formulou a mais antiga crítica e denúncia do niilismo como um erro paralelo ao essencialismo!
Mas eu não falei de budismo no meu texto, falei apenas da convergência de milenares tradições sapienciais, que recorrem à introspecção meditativa - como ainda Descartes, por exemplo, o pai do racionalismo moderno - , e da microfísica contemporânea, para nos darem um quadro do mundo onde a noção de relação prima sobre a de substância e a de interdependência prima sobre a de existência em si e por si. Parti daí para aplicar isto à questão das identidades nacionais e lembrar que os povos, as culturas, as nações e as pátrias não podem ser abstractamente pensados como entidades ou coisas independentes, mas antes como processos inscritos na trama de interdependências que é a história e o próprio universo.
E para quê ? Apenas para recordar o que está presente na Declaração de Princípios e Objectivos do MIL, ou seja, que Portugal e a Lusofonia não são um fim em si, mas que o melhor da sua tradição cultural visa pô-los ao serviço do desenvolvimento da consciência e do bem comum de todos os homens e de todos os seres, ou seja, do universo. Isto, também, para contrapor a um nacionalismo ou patriotismo autocentrado a ideia de um novo patriotismo, que defini como trans-patriótico e universalista.
Se falei de meditação, não foi de meditação budista, mas do indispensável exercício de observação introspectiva e de auto-conhecimento que se requer quando queremos superar as nossas tendências egocêntricas e colocar as nossas energias ao serviço não só dos amigos, dos compatriotas ou de grupos restritos, mas de projectos generosos e universais, como pretendo que seja o do MIL. Esta auto-observação da mente foi praticada por todas as escolas de filosofia gregas - chamavam-lhe "meleté" - , foi praticada na tradição cristã (por Vieira, por exemplo, segundo as instruções de Inácio de Loyola) e, comum a religiões e irreligiões, é hoje redescoberta em todo o mundo e alvo da pesquisa de vanguarda no domínio das neurociências, estando a ser proposta nos EUA para substituir o consumo de Prozac.
Ao falar da sua relação com a política - onde não invento nada, porque já há em todo o mundo quem fale disto há muito tempo - , poderia ir muito longe, mas basta-me dar um exemplo da sua grande utilidade: se a maioria dos actuais políticos, em todo o mundo, praticassem sinceramente esta introspecção meditativa, verificando sinceramente se iam para a política por engodo da fama, da riqueza e do poder, ou para servir o bem comum, decerto tinham desistido, para seu bem e nosso!...
Espero que estas reacções à flor da pele, ao falar-se de política e meditação, não indiquem haver no MIL quem queira, por recusa de observar a própria mente, ir no mesmo caminho de sempre...
Aprendi muito ao ler os vossos comentários e fico-vos imensamente grato por isso. Mas também algo céptico, relativamente à possibilidade de se cumprir verdadeiramente a Declaração de Princípios e Objectivos do MIL: vejo em vocês muita coisa, menos aspiração à compreensão de ideias novas e diferentes e ao bem universal...
Ainda bem que vos incomodo!
O problema, creio, é que vocês sabem que sou budista e, como não percebem nada de budismo, continuam a repetir os lugares-comuns dos intérpretes ocidentais do séc.XIX, que identificam budismo com niilismo... Ora é o próprio budismo que formulou a mais antiga crítica e denúncia do niilismo como um erro paralelo ao essencialismo!
Mas eu não falei de budismo no meu texto, falei apenas da convergência de milenares tradições sapienciais, que recorrem à introspecção meditativa - como ainda Descartes, por exemplo, o pai do racionalismo moderno - , e da microfísica contemporânea, para nos darem um quadro do mundo onde a noção de relação prima sobre a de substância e a de interdependência prima sobre a de existência em si e por si. Parti daí para aplicar isto à questão das identidades nacionais e lembrar que os povos, as culturas, as nações e as pátrias não podem ser abstractamente pensados como entidades ou coisas independentes, mas antes como processos inscritos na trama de interdependências que é a história e o próprio universo.
E para quê ? Apenas para recordar o que está presente na Declaração de Princípios e Objectivos do MIL, ou seja, que Portugal e a Lusofonia não são um fim em si, mas que o melhor da sua tradição cultural visa pô-los ao serviço do desenvolvimento da consciência e do bem comum de todos os homens e de todos os seres, ou seja, do universo. Isto, também, para contrapor a um nacionalismo ou patriotismo autocentrado a ideia de um novo patriotismo, que defini como trans-patriótico e universalista.
Se falei de meditação, não foi de meditação budista, mas do indispensável exercício de observação introspectiva e de auto-conhecimento que se requer quando queremos superar as nossas tendências egocêntricas e colocar as nossas energias ao serviço não só dos amigos, dos compatriotas ou de grupos restritos, mas de projectos generosos e universais, como pretendo que seja o do MIL. Esta auto-observação da mente foi praticada por todas as escolas de filosofia gregas - chamavam-lhe "meleté" - , foi praticada na tradição cristã (por Vieira, por exemplo, segundo as instruções de Inácio de Loyola) e, comum a religiões e irreligiões, é hoje redescoberta em todo o mundo e alvo da pesquisa de vanguarda no domínio das neurociências, estando a ser proposta nos EUA para substituir o consumo de Prozac.
Ao falar da sua relação com a política - onde não invento nada, porque já há em todo o mundo quem fale disto há muito tempo - , poderia ir muito longe, mas basta-me dar um exemplo da sua grande utilidade: se a maioria dos actuais políticos, em todo o mundo, praticassem sinceramente esta introspecção meditativa, verificando sinceramente se iam para a política por engodo da fama, da riqueza e do poder, ou para servir o bem comum, decerto tinham desistido, para seu bem e nosso!...
Espero que estas reacções à flor da pele, ao falar-se de política e meditação, não indiquem haver no MIL quem queira, por recusa de observar a própria mente, ir no mesmo caminho de sempre...
Aprendi muito ao ler os vossos comentários e fico-vos imensamente grato por isso. Mas também algo céptico, relativamente à possibilidade de se cumprir verdadeiramente a Declaração de Princípios e Objectivos do MIL: vejo em vocês muita coisa, menos aspiração à compreensão de ideias novas e diferentes e ao bem universal...
Ainda bem que vos incomodo!
POST SCRIPTUM AO MEU TEXTO «DITADURA»
Na sequência de dois e-mails que recebi faço este esclarecimento, a dois membros do MIL bem intencionados e que, com toda a legitimidade, me colocaram questões, pessoas que considero honestas, de quem sou amigo, mas menos informadas acerca de muito que tenho feito na tentativa de erguer uma nova ideologia, para além do maniqueísmo Esquerda e Direita e da morte das ideologias:
1. A ditadura de que falo não é nenhuma apologia ao fascismo ou a qualquer outro regime limitador das liberdades fundamentais e que desrespeite os direitos humanos.
2. O rei de que falo não é um mero conceito monárquico.
Oportunamente voltarei a estes temas, no quadro da nova ideologia que tenho vindo a conceber e que designei por transnacionalismo.
Klatuu Niktos
1. A ditadura de que falo não é nenhuma apologia ao fascismo ou a qualquer outro regime limitador das liberdades fundamentais e que desrespeite os direitos humanos.
2. O rei de que falo não é um mero conceito monárquico.
Oportunamente voltarei a estes temas, no quadro da nova ideologia que tenho vindo a conceber e que designei por transnacionalismo.
Klatuu Niktos
Esclarecimento geral
Caros Amigos da NOVA ÁGUIA e do MIL.
O texto de ontem do Paulo Borges deu origem a alguns equívocos que importa desfazer por inteiro:
1. Como é sabido, o Paulo Borges é budista, sendo mesmo o Presidente da União Budista Portuguesa. É um budista convicto e honesto e, por isso, no seu texto de ontem, fez a apologia da “meditação”. Essa apologia, contudo, apenas o vincula a ele, não o MIL enquanto tal. O MIL não é um movimento budista. Aqui, tanto se pode ser budista como não (é, desde logo, o meu caso).
2. De igual modo, a apologia que o Paulo Borges e outras pessoas aqui têm feito da alimentação vegetariana também não vincula o MIL enquanto tal. Aqui, tanto se pode ser vegetariano como não (é também, desde logo, o meu caso).
Não confundamos pois os planos.
O MIL não é o MIB: Movimento Internacional Budista.
O MIL não é o MIV: Movimento Internacional Vegetariano.
O MIL é o MIL: Movimento Internacional Lusófono. É, tão-só, a defesa da convergência lusófona aquilo que nos une. Em prol do bem-comum, como é óbvio.
Renato Epifânio
Co-Director da NOVA ÁGUIA
Membro da Comissão Coordenadora do MIL
O texto de ontem do Paulo Borges deu origem a alguns equívocos que importa desfazer por inteiro:
1. Como é sabido, o Paulo Borges é budista, sendo mesmo o Presidente da União Budista Portuguesa. É um budista convicto e honesto e, por isso, no seu texto de ontem, fez a apologia da “meditação”. Essa apologia, contudo, apenas o vincula a ele, não o MIL enquanto tal. O MIL não é um movimento budista. Aqui, tanto se pode ser budista como não (é, desde logo, o meu caso).
2. De igual modo, a apologia que o Paulo Borges e outras pessoas aqui têm feito da alimentação vegetariana também não vincula o MIL enquanto tal. Aqui, tanto se pode ser vegetariano como não (é também, desde logo, o meu caso).
Não confundamos pois os planos.
O MIL não é o MIB: Movimento Internacional Budista.
O MIL não é o MIV: Movimento Internacional Vegetariano.
O MIL é o MIL: Movimento Internacional Lusófono. É, tão-só, a defesa da convergência lusófona aquilo que nos une. Em prol do bem-comum, como é óbvio.
Renato Epifânio
Co-Director da NOVA ÁGUIA
Membro da Comissão Coordenadora do MIL
DITADURA
99 Cent Store, Andreas Gursky, 1999
Ditadura, sim. Um Império se erga acima do formigueiro de corruptas urbes, das vias rápidas sem destino, das pontes quebradas pelo lixo, das muitas casas, queimadas e escuras, das muitas gentes, robóticas e sem fala. Erga-se, defenda-se, alastre-se, um fogo do espírito, uma lei acima das leis, um costume acima dos costumes, uma justiça acima das justiças, uma assembleia universal igual para todos, iguais no assento da palavra. «Nada farei, ó César, para te agradar, / Nem me interessa se és branco ou preto.»*. O mesmo direi de cada um de vós. Que comeis. Onde, quando. A que deus ou deuses rezais. Ou a nenhum. Que fazeis na cama. Com quem. Que fazeis na casa. Como vestis. Com que entretenimentos ocupais o tempo vosso. A ditadura é o Império, despreza-vos nas vossas diferenças, em todas aquelas pequenas inutilidades onde julgais que acontece a vossa vida, isso é folclore humano, isso é merda, um caos de emoções envolvido em pratas e púrpuras. A lei do Império é universal, só reconhece indivíduos nos atributos comuns da sua humanidade; perante o Império são calados os vossos deuses e o vosso ganir de matilha, as identidades medíocres que julgais acima das dos outros, os vossos tiques de pertença, que quereríeis, megalomanamente, supremos, mas que mais não são que a súmula patológica das vossas insuficiências e mediocridades e vilezas. Nada sois de vosso perante o Império, porque o Império não vos reconhece a propriedade sobre nada que seja a humanidade, sobre nada que pertença a todos, sobre nada que seja a civilização no seu progresso futuro e imparável, sobre nada que seja a manifestação suprema da liberdade como motor da História.
A civilização é a casa da humanidade. O Império, a sua assembleia única. A ditadura, a sua guardiã. Um Rei, o seu autor.
Klatuu Niktos
* XCIII
Nil nimium studeo, Caesar, tibi velle placere,
nec scire utrum sis albus an ater homo.
Gaius Valerius Catullus, poeta do Império Romano, 87 a.C. – 54 a.C.
Ditadura, sim. Um Império se erga acima do formigueiro de corruptas urbes, das vias rápidas sem destino, das pontes quebradas pelo lixo, das muitas casas, queimadas e escuras, das muitas gentes, robóticas e sem fala. Erga-se, defenda-se, alastre-se, um fogo do espírito, uma lei acima das leis, um costume acima dos costumes, uma justiça acima das justiças, uma assembleia universal igual para todos, iguais no assento da palavra. «Nada farei, ó César, para te agradar, / Nem me interessa se és branco ou preto.»*. O mesmo direi de cada um de vós. Que comeis. Onde, quando. A que deus ou deuses rezais. Ou a nenhum. Que fazeis na cama. Com quem. Que fazeis na casa. Como vestis. Com que entretenimentos ocupais o tempo vosso. A ditadura é o Império, despreza-vos nas vossas diferenças, em todas aquelas pequenas inutilidades onde julgais que acontece a vossa vida, isso é folclore humano, isso é merda, um caos de emoções envolvido em pratas e púrpuras. A lei do Império é universal, só reconhece indivíduos nos atributos comuns da sua humanidade; perante o Império são calados os vossos deuses e o vosso ganir de matilha, as identidades medíocres que julgais acima das dos outros, os vossos tiques de pertença, que quereríeis, megalomanamente, supremos, mas que mais não são que a súmula patológica das vossas insuficiências e mediocridades e vilezas. Nada sois de vosso perante o Império, porque o Império não vos reconhece a propriedade sobre nada que seja a humanidade, sobre nada que pertença a todos, sobre nada que seja a civilização no seu progresso futuro e imparável, sobre nada que seja a manifestação suprema da liberdade como motor da História.
A civilização é a casa da humanidade. O Império, a sua assembleia única. A ditadura, a sua guardiã. Um Rei, o seu autor.
Klatuu Niktos
* XCIII
Nil nimium studeo, Caesar, tibi velle placere,
nec scire utrum sis albus an ater homo.
Gaius Valerius Catullus, poeta do Império Romano, 87 a.C. – 54 a.C.
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