EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).

- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).

- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.

- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).

Para o 24º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 22

Capa da NOVA ÁGUIA 22

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 22

Em todos os seus números, a Revista NOVA ÁGUIA tem assumido o propósito de, sem qualquer complexo histórico, dar voz às várias culturas lusófonas. Eis o que neste número uma vez mais acontece, de forma particularmente eloquente, desde logo na secção de abertura, onde publicamos uma selecção de textos apresentados no V Congresso da Cidadania Lusófona, promovido pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono.

Na secção seguinte, publicamos uma dezena de textos sobre Dalila Pereira da Costa, cujo centenário do nascimento se comemora em 2018. Depois de já a termos homenageado no ano do seu falecimento (2012), promovemos este ano um Ciclo Evocativo sobre a sua Obra no Palacete Viscondes de Balsemão, no Porto, sua cidade natal, onde alguns dos textos que aqui publicamos foram apresentados em primeira mão.

A par de Dalila Pereira da Costa, Francisco de Holanda é a grande figura em destaque neste número da NOVA ÁGUIA. Em 2017 assinalaram-se os quinhentos anos do seu nascimento e o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em parceria com outras entidades, promoveu, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, um Colóquio sobre a sua “Pintura e Pensamento”. No essencial, são os textos apresentados nesse Colóquio que aqui publicamos: dezena e meia de textos, que dão conta das diversas facetas de uma obra absolutamente singular no âmbito da cultura lusófona.

Temos depois uma série de outras “Evo(o)cações”, naturalmente mais breves: de Albano Martins, que nos deixou neste ano, até Dora Ferreira da Silva e Manuel Antunes (que completariam igualmente cem anos em 2018), passando por outras figuras não menos relevantes – nomeadamente, Ferreira Deusdado, falecido há cem anos (e que será o autor de referência do IV Colóquio do Atlântico, por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, da Universidade dos Açores e da Universidade Católica Portuguesa).

Na secção seguinte, “Outros voos”, mantemos essa senda lusófona, começando por dois ensaios: um sobre a “Expressão e Sentido da Saudade na poesia angolana e moçambicana”, outro sobre o “Ensino da Filosofia em Cabo Verde”. Como igualmente tem sido hábito, publicamos, em “Extravoo”, mais alguns inéditos – nomeadamente, de Agostinho da Silva e António Telmo, dois autores de referência para a NOVA ÁGUIA. Por fim, em “Bibliáguio”, publicamos uma série de recensões de algumas obras recentemente lançadas (parte das quais publicadas também com a nossa chancela), e, em “Memoriáguio”, registamos fotograficamente alguns eventos para memória futura.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Dedicamos este número, no plano pessoal, a Manuel Ferreira Patrício, que completou em Setembro oitenta anos (particularmente fecundos) de vida – no próximo número, publicaremos um extenso ensaio, de Emanuel Oliveira Medeiros, sobre a sua Obra. No plano institucional, dedicamos este número à Academia Internacional da Cultura Portuguesa, que, em Junho deste ano, honrou o MIL: Movimento Internacional Lusófono (e, por extensão, a NOVA ÁGUIA) com a distinção de “Instituição Honorária”. À Academia Internacional da Cultura Portuguesa, na pessoa de Adriano Moreira, o nosso público reconhecimento por tão honrosa distinção.

NOVA ÁGUIA Nº 22: ÍNDICE

NOVA ÁGUIA Nº 22: ÍNDICE

Editorial…5

CIDADANIA LUSÓFONA: V CONGRESSO

Intervenções de Adriano Moreira (p. 8), Braima Cassamá (p. 10), Delmar Maia Gonçalves (p. 11), Elter Manuel Carlos (p. 12), Isabel Potier (p. 15), Ivonia Nahak Borges (p. 16), Luísa Timóteo (p. 18), Maria Dovigo (p. 18), Mariene Hildebrando e Paulo Manuel Sendim Aires Pereira (p. 21), Valentino Viegas (p. 23), Zeferino Boal (p. 26) e Carlos Mariano Manuel (p. 27).

DALILA PEREIRA DA COSTA, 100 ANOS DEPOIS

DALILA PEREIRA DA COSTA: NOTA BIO-BIBLIOGRÁFICA | Rui Lopo…32

IN VOCAÇÃO | Alexandre Teixeira Mendes…35

DALILA PEREIRA DA COSTA E A MITOLOGIA PORTUGUESA | António Braz Teixeira…36

DALILA PEREIRA DA COSTA E A NATUREZA MATRIARCAL DE PORTUGAL | Artur Manso…42

A COROGRAFIA SAGRADA NA OBRA DE DALILA PEREIRA DA COSTA | Joaquim Domingues…51

ENCONTRO NA NOITE: ACERCA DO ONIRISMO MÍSTICO DE DALILA PEREIRA DA COSTA | José Rui Teixeira…56

COM DALILA NO REEGA…GAÇO DE ATAEE…GINA | Maria José Leal…61

DA SUBLIMAÇÃO DA MULHER NO PENSAMENTO DE DALILA PEREIRA DA COSTA | Maria Luísa de Castro Soares…67

DALILA: O PANO DE FUNDO OU UMA PREMISSA INTERPRETATIVA ESSENCIAL | Pedro Sinde…74

LEMBRANÇA DE UMA TESE DE DALILA | Pinharanda Gomes…76

FRANCISCO DE HOLANDA, 5 SÉCULOS DEPOIS

O SENTIDO METAFÍSICO DA CRIAÇÃO EM FRANCISCO DE HOLANDA: ARTE E SER | Américo Pereira…80

FRANCISCO DE HOLANDA, OU DE COMO DESENHAR OS NOVOS MUNDOS POR ACHAR | António Moreira Teixeira…83

FRANCISCO DE HOLANDA, O VARÃO ILUSTRE, CENSURADO E ESQUECIDO | Delmar Domingos de Carvalho…93

FRANCISCO DE HOLANDA: DA IMITAÇÃO À IDEIA | Idalina Maia Sidoncha…94

FRANCISCO DE HOLANDA E O DIÁLOGO LUSO-ITALIANO NO CONTEXTO DO RENASCIMENTO EUROPEU DO SÉC. XVI | José Almeida…101

FRANCISCO DE HOLANDA E O FUROR DIVINO | José Eliézer Mikosz…106

A VISÃO DE LIMA DE FREITAS SOBRE O OLHAR DE FRANCISCO DE HOLANDA | Lígia Rocha…113

A TEORIA ESTÉTICO-METAFÍSICA DA PINTURA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Manuel Cândido Pimentel…121

A CIDADE DA ALMA EM FRANCISCO DE HOLANDA | Manuel Curado…126

FRANCISCO DE HOLANDA E A ARTE | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…134

OS MEDALHÕES NA OBRA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Maria Teresa Amado…127

APONTAMENTO SOBRE FRANCISCO DA HOLANDA | Mário Vítor Bastos…143

FRANCISCO DE HOLANDA: A CIRCULAÇÃO DO SABER EM ARQUITETURA NO SÉCULO XVI | Paulo de Assunção…153

A NOÇÃO DE ARTE COMO PARTICIPAÇÃO DA CRIAÇÃO DIVINA, NO MISTICISMO MANEIRISTA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Samuel Dimas…165

A TEORIA DO PINTOR NA OBRA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Teresa Lousa…170

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AGOSTINHO DA SILVA | Pedro Martins…176

ALBANO MARTINS | António Fournier e António José Borges…181

ANTÓNIO BRAZ TEIXEIRA | Samuel Dimas…184

ANTÓNIO CABRAL | Manuela Morais…195

ANTÓNIO QUADROS | José Lança-Coelho…196

CASAIS MONTEIRO | António Braz Teixeira…197

DORA FERREIRA DA SILVA | Constança Marcondes César…200

FERREIRA DEUSDADO | Artur Manso…202

MANOEL TAVARES RODRIGUES-LEAL | Luís de Barreiros Tavares…212

MANUEL ANTUNES | Nuno Sotto Mayor Ferrão…216

MÁRCIA DIAS | Zeferino Boal…218

OUTROS VOOS

EXPRESSÃO E SENTIDO DA SAUDADE NA POESIA ANGOLANA E MOÇAMBICANA DA GERAÇÃO DE 1985 | António Braz Teixeira…220

BREVE REFLEXÃO SOBRE O ENSINO DA FILOSOFIA EM CABO VERDE | Elter Manuel Carlos…224

PARA UMA DECLARAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DA MÃE | José Eduardo Franco…231

A FISSURA NA MURALHA OU O “PRINCÍPIO DA AUTODETERMINAÇÃO” | Pedro Sinde…233

DOZE DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS | Renato Epifânio…235

AUTOBIOGRAFIA 5 | Samuel Dimas…248

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…262

DIÁLOGOS DO MÊS DE OUTUBRO (EXCERTO) | António Telmo…264

BIBLIÁGUIO

A VIA LUSÓFONA III | Miguel Real…270

AMADEO DE SOUZA-CARDOSO: A FORÇA DA PINTURA & A “RENASCENÇA PORTUGUESA”: PENSAMENTO, MEMÓRIA E CRIAÇÃO | Renato Epifânio…272

NO REGAÇO DE ATAEGINA | José Almeida…274

MESTRES DA LÍNGUA PORTUGUESA | Jorge Chichorro Rodrigues…275

POEMÁGUIO

RENASCER A SUL | Maria Luísa Francisco…30

EXPRESSAR UM ISMO; PROVA DEVIDA | António José Borges…31

ABORRECIMENTO | Arthur Grupillo…174-175

DOM SEBASTIÃO, O QUE NÃO DESCANSA; IBN QASI, TODA A VIDA NA MORTE | Jesus Carlos…215

FAZEMOS METÁFORAS; PEREGRINAÇÃO | Samuel Dimas…261

ROSTO; RESIDUAL; ARRAIS; CUNEIFORME; ANJO | Luísa Borges…268-269

CRONOS & KAIROS; PRINCIPIUM SAPIENTIAE | Paulo Ferreira da Cunha…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 22

Apresentação da NOVA ÁGUIA 22
24 de Outubro, no Palácio da Independência (Lisboa). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:

https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
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domingo, 26 de setembro de 2010

Prémio de Ensaio Filosófico da SPF

Estão abertas as candidaturas para a edição de 2010 do Prémio de Ensaio Filosófico da SPF. Este prémio é uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Filosofia, que conta com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e que tem como objectivo eleger o melhor ensaio, redigido em língua portuguesa e submetido anonimamente a concurso, sobre uma questão considerada relevante numa determinada área da investigação filosófica. Nesta edição, a área seleccionada é a Filosofia da Percepção e a questão proposta é a seguinte: Pode a percepção justificar as nossas crenças acerca da realidade? O prémio terá um valor de 3.500 euros e o ensaio vencedor será depois publicado na Revista Portuguesa de Filosofia. O regulamento pode ser consultado no sítio da Sociedade Portuguesa de Filosofia, em http://www.spfil.pt. As candidaturas poderão ser apresentadas até ao dia 31 de Dezembro de 2010.

AGRADECE-SE DIVULGAÇÃO

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

"[…] não seria mau que a filosofia deixasse de ser apenas uma disciplina ensinável para voltar a constituir um engrandecimento e uma razão de vida"

[…] não seria mau que […] a filosofia deixasse de ser apenas uma disciplina ensinável para voltar a constituir um engrandecimento e uma razão de vida; correria talvez melhor o mundo se escolas de existência filosófica agissem como um fermento, fossem a guarda da pura ideia, dessem um exemplo de ascetismo, de tenacidade na calma recusa da boa posição, de alegria na pobreza, de sempre desperta actividade no ataque de todas as atitudes e doutrinas que significassem diminuição do espírito, ao mesmo tempo se recusando a exercer todo o domínio que não viesse da adesão

– Agostinho da Silva, “Aspecto interior do sacrifício”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 94.

terça-feira, 29 de junho de 2010

DIAMANTINO MARTINS – Colóquio/Jornada de Filosofia


02 de Julho de 2010

Programa:

08.45 – Abertura do Secretariado

09.00 – Sessão de Abertura

09.15 – DM, Jesuíta e “director espiritual”: Dário Pedroso SJ

09.45 – DM e a Escola de Braga: António Braz Teixeira

10.15 – DM e a Metafísica / Neotomismo: Manuel Cândido Pimentel

10.45 – Intervalo / Café

11.00 – Pensar o Homem, Formar o homem: Da antropologia à antropagogia em DM filósofo: Manuel Ferreira Patrício

11.30 – Um conceito de direito existencialista: Maria Clara Calheiros

12.00 – DM e os Existencialismos: Cassiano Reimão

12.30 – Lançamento das obras:

- Actas do Colóquio sobre a Escola de Braga;

- A Filosofia da Escola Bracarense, de António Braz Teixeira;

- Revista Nova Águia, nº 5.

13.15 – Intervalo / Almoço

15.00 – DM e o conhecimento: Manuel Guedes Miranda

15.30 – DM e o pensamento português: José Gama

16.00 – Diamantino Martins e a Filosofia Existencial Francesa: M. Lourdes

Sirgado Ganho

16.30 – Entre Diamantino Martins e José Marinho: “há problemas em relação a Deus, mas Deus não é um problema”: Renato Epifânio

17.00 – Intervalo / Café

17.15 – A Estética no Pensamento de DM - Para uma Estética da Unidade: José Acácio Castro

17.45 – DM e a psicanálise: Cristiana Soveral

18.15 – DM, a Psicologia e a Psicanálise: João Carlos Major

18.45 – Encerramento

domingo, 13 de junho de 2010

Entrevista dada a Gisela Martins, sobre a Filosofia, para um trabalho no Ensino Secundário

1 - Para si, como professor, como pessoa, como filósofo, o que significa a filosofia e qual é a sua grande utilidade?

A filosofia, como o seu nome indica, é o “amor da sabedoria”, que entendo como conhecimento global dos vários aspectos da realidade e prática do melhor modo de viver, para o bem de todos os seres sencientes, humanos e não humanos. Isto inclui o respeito pela natureza e pelo equilíbrio ecológico. Creio ser importante recuperar a tradição da filosofia como “modo de vida”, como acontecia na Grécia antiga e hoje ainda acontece na Índia. A filosofia degenerou ao tornar-se um exercício meramente intelectual, escolar e livresco, que muitas vezes não transforma a vida de quem a supõe exercer.

2 - Pode afirmar-se a existência de uma filosofia portuguesa?

A filosofia, na sua essência e no seu exercício pelos filósofos, nunca será portuguesa, francesa, alemã ou chinesa, nunca será nacional, mas, na sua expressão histórico-cultural, é legítimo falar-se de tradições específicas e algo diferenciadas em cada nação, também devido ao modo como a língua condiciona até certo ponto o modo de pensar. É o que acontece em Portugal.

3 - Quais os filósofos portugueses que mais se notabilizaram na época moderna e contemporânea?

Sem esquecer o medieval Pedro Hispano e o renascentista Leão Hebreu, recordo Francisco Sanches, que pode ter influenciado Descartes, e depois Amorim Viana, Antero de Quental, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Raul Brandão, António Sérgio, Raul Proença, Fernando Pessoa, Raul Leal, José Marinho, Álvaro Ribeiro, Delfim Santos, Agostinho da Silva, Eudoro de Sousa, Vergílio Ferreira, Vasco de Magalhães-Vilhena, Abel Salazar, Vieira de Almeida, António Quadros, Orlando Vitorino, Afonso Botelho e Fernando Gil. Isto entre muitos outros e não falando dos que estão vivos. Alguns expressaram o seu pensamento poeticamente, o que é frequente em Portugal.

4 - A filosofia tem uma utilidade em diversos contextos ou é redutível a um conjunto de especulações teóricas?

A filosofia tem a grande utilidade de questionar e indagar o que é útil nos diversos contextos e até de questionar se algo tem de ser útil para ser valioso. As especulações teóricas nunca são redutíveis a si próprias, pois o que pensamos traduz-se sempre no modo como vivemos e agimos. Uma especulação teórica já é uma acção, que não nos deixa mentalmente iguais e que tende a expressar-se no mundo.

5 - O que significa para si a dimensão da filosofia?

Não sei bem o que quer dizer com “dimensão da filosofia”, mas diria ser a da experiência da visão, do espanto, da interrogação perante o haver algo e da busca de compreender tudo isso.

6 - Qual é o melhor argumento para se seguir e ter gosto por filosofia?

Duvido que se siga e tenha gosto pela filosofia devido a argumentos. A filosofia é uma vocação com que se nasce ou algo que se pode cultivar na medida em que sejamos capazes de não nos conformar com opiniões, tradições e ideias feitas, ousando a experiência de pensar por si mesmo em diálogo com os grandes pensadores e, mais importante, com a experiência profunda da vida.

7 - Em que medida a lógica formal é importante no âmbito da actividade filosófica?

É um bom instrumento para pensar conceptualmente e expressar rigorosamente o que pensamos, mas devemos precaver-nos de reduzir a isso a filosofia, que deve abrir os conceitos e a sua lógica ao impensado que surge em múltiplas formas da experiência humana: religiosa, estética, ética, política.

8 - Que importância tem o budismo na sua vida?

O chamado budismo é a via que sinto mais adequada ao que busco, realizar plenamente as minhas potencialidades cognitivas e afectivas, aceder ao estado de Buda, pois é a que mais me exige: ver as coisas tal qual, para além de véus conceptuais e emocionais, e amar incondicional e imparcialmente todos os seres vivos. É a via para além de todas as vias e de todos os “ismos”, incluindo o “budismo”. É a via sem via para se ser o que no fundo desde sempre se é.

9 - Poderão os filósofos contribuir para a resolução dos problemas que actualmente a sociedade portuguesa atravessa?

Todos os problemas, agora e sempre, onde quer que surjam, apenas se devem à falta de sabedoria vivida e praticada, que não seja um mero conhecimento intelectual. Um filósofo que realmente o é, na medida em que viva filosoficamente, como foi o caso de um Agostinho da Silva, é o melhor conselheiro de uma sociedade, que deve tomá-lo como exemplo. O problema é que os homens dificilmente estão disponíveis para reconhecer e escutar os filósofos e ainda menos os sábios, pois estes nada prometem e antes tudo exigem, e o mais difícil, de cada um de nós. Os homens preferem dar ouvidos a todo o tipo de promessas dos comerciantes, dos publicitários e desses outros comerciantes e publicitários que são hoje os políticos, mesmo sabendo, lá bem no fundo, que são sempre falsas e que só visam enganá-los. Ou então preferem anestesiar-se com tóxicos, incluindo esses tóxicos lentos e invisíveis que são o consumismo e o futebol, entre outros. Esse é um dos grandes problemas da sociedade portuguesa actual e do mundo em geral, que caminha anestesiado para a catástrofe económica e ecológica. A sua solução implica uma profunda mudança, que será dolorosa pois implica a renúncia involuntária aos nossos hábitos mais enraizados.

10 - Caso possa, gostaria de deixar alguma mensagem para os jovens?

Tomem consciência de que não serão jovens para sempre e, antes que vocês próprios, a sociedade, a doença, a velhice e a morte vos corrompam, não vão atrás das propagandas oficiais familiares, escolares, sociais e políticas, despertem das ilusões que regem o mundo, antecipem em vocês a mudança que desejam, sejam felizes e tornem-se contagiantes! Nunca pensem a uma escala estreita: não queiram só o vosso bem, nem o dos vossos parentes, amigos, concidadãos ou membros da mesma espécie. Esforcem-se por um mundo melhor para todos os seres! É isso que abre a mente e o coração e torna a vida digna de ser vivida.

sábado, 10 de abril de 2010

A FILOSOFIA DO SÉCULO XX

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Caros Colegas,

Pareceu-nos boa ideia assinalar o ano de 2010 com um olhar retrospectivo sobre o século XX. Julgamos ter um sido um século bastante rico quanto à filosofia que produziu. Foi o século em que viram a luz do dia obras tão significativas como “On Denoting” de Russell, “Der Gedanke” de Frege, Tractatus Logico-Philosophicus e Investigações Filosóficas de Wittgenstein, Investigações Lógicas de Husserl, Sein und Zeit de Heidegger, Wahrheit und Methode de Gadamer, “Two Dogmas of Empiricism” de Quine, “Truth and Meaning” de Davidson, Naming and Necessity de Kripke, L’Être et le Néant de Sartre, Le Conflit des Interprétations de Ricoeur, As Palavras e as Coisas de Foucault, entre tantas outras. Mas foi também o século em que foram dados a conhecer trabalhos importantes de Moore, Austin, Gödel, Popper, Carnap, Cassirer, Merleau-Ponty, Derrida, Deleuze, Putnam, Rorty, Habermas, Searle, Dummett, entre muitos outros. Um século marcado pela qualidade da sua produção filosófica, mas também pela sua grande diversidade: fenomenologia, positivismo lógico, materialismo dialéctico, filosofia analítica, neokantismo, hermenêutica e existencialismo foram porventura as principais ‘correntes’ que nele se desenvolveram. Encerrado o século há apenas dez anos, não sabemos quais destas contribuições irão perdurar nos seus efeitos e impor-se como referências centrais do património histórico-filosófico. Mas precisamos muitas vezes de fazer apostas a esse respeito: por exemplo, quando se trata de propor obras importantes para tradução na nossa língua ou quando se trata de redigir uma história da filosofia contemporânea ou de seleccionar possíveis entradas para um enciclopédia ou de compor o programa de uma disciplina de Filosofia Contemporânea ou até, mais especificamente, de Filosofia do Século XX. Diferenças de formação, de conhecimento e de orientação filosófica impõem escolhas diferentes, como é óbvio.

Recentemente, numa das sessões de trabalho conjunto na Sociedade Portuguesa de Filosofia, esta questão surgiu entre nós e foi ocasião para confrontarmos escolhas pessoais. Animados pela discussão gerada, ocorreu-nos alargá-la a mais intervenientes. Seria interessante interrogar especialistas de diferentes áreas sobre quais seriam as suas escolhas. Mas, sobretudo, seria também muito interessante e talvez útil conhecer a escolha típica da comunidade filosófica portuguesa. Sendo a LEKTON o instrumento que neste momento mais facilmente permite o acesso directo aos membros dessa comunidade, concebemos então a ideia de empreender uma sondagem de opinião junto dos membros da LEKTON sobre as melhores vinte obras de filosofia do século vinte.

Falamos de «obras» para incluir quer livros quer artigos, de um ou mais autores. Desde que a sua data de publicação se situe entre 1901 e 2000, a interpretação do que seja uma obra «de filosofia» e do critério de qualidade subjacente à selecção fica inteiramente a cargo de cada respondente.

Caro membro da LEKTON, participe nesta sondagem, enviando, até ao dia 30 de Abril de 2010, uma mensagem de correio electrónico para o endereço spfil@spfil.pt, inscrevendo como assunto «Século XX». No corpo da mensagem, forneça os seus dados de identificação: nome completo, instituição a que está ligado e função ou cargo exercido. Em documento anexo (word ou pdf), sem nenhuma identificação pessoal, envie uma lista de até 20 títulos de obras de filosofia publicadas no século XX que represente a sua escolha. O modo de referência às obras pode seguir qualquer dos estilos habituais de citação em trabalhos académicos, como por exemplo:

Simon Blackburn, Ruling Passions: A Theory of Practical Reasoning, Oxford: Clarendon Press, 1998.

David Lewis, “How to Define Theoretical Terms”, Journal of Philosophy 67 (13), 1970, pp. 427-446.

A sua participação nesta sondagem será mantida anónima. Os resultados serão divulgados unicamente sob a forma de uma lista das vinte obras mais referidas e respectiva percentagem de escolhas.

Agradecemos desde já a sua colaboração.

Com os melhores cumprimentos,

Ricardo Santos
Pedro Galvão
António Lopes
Faustino Vaz
Rui Daniel Cunha

segunda-feira, 5 de abril de 2010

MIGUEL REALE: "A FILOSOFIA COMO AUTOCONSCIÊNCIA DE UM POVO" (EXCERTO)

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A filosofia é, igualmente, síntese e unidade. Não síntese amorfa e indiferençada, mas síntese orgânica e de
processus, unidade de ordem, na qual se preserva a cada parte componente a sua posição específica e própria; nem o todo importa em absorção ou em predomínio avassalador, mas representa antes a coimplicação harmônica de peculiaridades intocáveis. A filosofia é racionalidade, e é racionalidade até mesmo quando o filósofo põe em realce o papel fundamental das fôrças emocionais e intuitivas. Porque a filosofia é também linguagem, pelo menos uma tentativa de expressão rigorosa, tradução em verbo ou em símbolos daquilo que a experiência oferece de essencial e duradouro.
Tôda vez que a humanidade entra em crise, insistem os filósofos em apontar para a única via que resiste ao emaranhado das doutrinas: a renovada busca do permanente, do essencial, daquilo que assinala uma constante no torvelinho das contingências e das mutações repentinas e bruscas, expressando-se na clareza dos conceitos.
É inegável que, nessa procura do essencial, que se oculta sob a capa do secundário e do contingente, imensa é a contribuição das faculdades intuitivas, graças às quais uma verdade pode brilhar no amanhecer das pesquisas, governando, como fulcro primordial, o processo ulterior das análises. Se, porém, aquela intuição inicial ao depois não se desenvolve, nem se insere em uma ordem racional coerente, tem o valor fugaz da luz dos pirilampos, nada representando no desenvolvimento das idéias. Não faltariam, por certo, exemplos de juristas ou filósofos que, em plena mocidade, perceberam algo capaz de dar nôvo sentido à experiência, bastando lembrar que nos escritos juvenis de um Locke, de um Hegel, de um Marx ou de um Savigny já se encontram os germes de suas concepções mais relevantes. Não teriam tido, porém, maior significado na história das idéias, se as intuições originais não houvessem sido aferidas e fecundadas pelo poder sintético e ordenador da razão.
A razão equivale, pois, à plenitude e à maturidade, quando ela não se estiola na abstração formal, mas é, ao mesmo tempo, forma e conteúdo, ou seja, razão concreta e histórica.
Já é tempo de se contrapor aos excessos do intuicionismo lírico, que ameaça converter a filosofia em uma ambígua atividade poético-literária, as exigências do intelecto e da razão. Refiro-me, porém, a uma racionalidade diversa da que tradicionalmente se confunde com meros esquemas formais; penso, ao contrário, na racionalidade concreta, a qual não se separa da experiência senão no que nesta houver de precário ou caduco.
Não devemos, em verdade, esquecer, à luz da história das ciências, que os momentos de abstração mais fecundos coincidem com os instantes de mais profunda captação do real e da vida, dada a complementariedade dialética existente entre fatos, leis e valôres .
A partir da surprêsa e da perplexidade iniciais, que põem os problemas; desde a intuição das perguntas até à maturidade das respostas, na floração unitária de antigas e novas perguntas, desdobra-se o caminho do filosofar, que, no entanto, a todo instante, se enriquece de novas intuições que exigem incessantes reformulações racionais, numa polaridade dinâmica entre o pensamento e a realidade pensável.

Filosofia e nacionalidade

Assim sendo, quando um povo começa a filosofar, a expressar racionalmente o seu sentir e o seu querer, demonstra a si mesmo e ao mundo que está atingindo a fase da maturidade, no processus de sua autoconsciência. A autoconsciência nacional, como é óbvio, não pode resultar de importação, visto dever traduzir algo que vem aos poucos se elaborando no recesso da alma popular, até se revelar, com valôres novos e imprevistos, na palavra de seus intérpretes.
É necessário se lembre que, se a filosofia é universal, nem por isso deixa o filósofo de receber as influências do meio em que vive, o qual condiciona tanto o conteúdo ideológico quanto as formas expressionais. Daí poder-se falar em filosofia alemã, em filosofia italiana ou francesa, assim como dia virá em que nos será dado referir-nos à filosofia brasileira.
Longe de mim a idéia de forjar uma filosofia segundo as circunstâncias do momento, transformando o filosofar em instrumento de ação política, ou de ação social, bitolando o pensamento segundo estas ou aquelas aspirações, imediatas ou mediatas pouco importa, de nosso viver histórico; não é neste sentido que cogito de uma filosofia brasileira. A filosofia é, inegàvelmente, uma só. Os filósofos cultivam a universalidade dos mesmos problemas, o que implica o sentido universal das respostas dadas, muito embora haja inevitáveis discordâncias e conflitos. Não confundamos "universalidade" com "unanimidade": esta é contingência empírica, que poderia existir até mesmo sem aquela, tal como ocorre quando as pseudo-verdades avassalam e obscurecem os espíritos.
Por mais que a filosofia tenha sentido de universalidade, é inegável, todavia, como já assinalara Fichte, que existe a "pessoa" do filósofo condicionando o ritmo de seu pensamento, a tal ponto que já se chegou a afirmar, em tom de paradoxo, que, se Aristóteles nascesse hoje, seria aristotélico, e Platão, vindo ao mundo agora, seria platônico.
Podemos, porém, estar certos de que não se reproduziriam as estruturas mentais do Aristóteles que conhecemos, nem ressurgiria o Plantão dos diálogos memoráveis: a dimensão histórica hodierna seria componente inevitável no filosofar de ambos, tão certo como somos também o que fomos na sucessão das idades. Universalidade dos problemas, por conseguinte, e condicionalidade histórica dos problemas, eis duas coordenadas inamovíveis do pensamento filosófico. Varia, assim, através do processo histórico, o condicionamento dos problemas universais, bem corno o estilo de vida ligado essencialmente à pessoa do filósofo e ao complexo de fatos e valôres culturais em que se situa, assistindo razão a Giovanni Gentile quando diz que o caráter universal não exclui que a filosofia seja nacional, pois "é um axioma lógico que a universalidade não é anulamento, mas adimplemento de tôdas a determinações particulares".
Impossível seria a qualquer de nós libertarmo-nos de nossas circunstâncias mesológicas, sociais, biológicas, históricas, etc., e tal verdade também se estende à vida das nações. Jamais somos apenas vivência, porque somos, perene e necessàriamente, convivência, dependendo o nosso ser pessoal dos múltiplos círculos sociais de que somos partícipes. Dessarte, um problema filosófico, tratado por um pensador da Inglaterra, pode apresentar características e peculiaridades discerníveis ao primeiro contacto, em contraste com as respostas dadas, por exemplo, por um estudioso germânico: algo de peculiar e de próprio se percebe nas linhas com que o problema se põe, ou nas diretrizes segundo as quais a verdade se expressa. Universalidade, repito, da filosofia, mas com um quid de próprio, de inexplicado ou inexplicável, muitas vêzes, nas conjunturas espaço-temporais. É claro que problemas filosóficos há, como os da lógica, independentes de condições espaço-temporais, mas estas podem influir até mesmo nas modalidades de aplicação dos valôres lógico-formais, assim como na hierarquia que lhes é conferida no quadro do saber humano.
Manda a verdade se reconheça que vivemos num mundo de problemas imerso num mundo de mistérios. O "ignoramos, ignorabimus", com que Du Bois-Reymond, em 1880, escandalizou os meios positivistas, enumerando os "sete enigmas do mundo", tem alcance bem mais profundo do que uma simples confissão de insuficiência.
Indo ao âmago da questão, talvez se possa dizer que é o mistério que condiciona os problemas. Aquêle não se reduz ao "problema de amanhã", nem ao resto das perguntas que ainda seja impossível formular como problemas. Sim, porque nem tôda pergunta é problema, mas só aquela que pressupõe "dados", pelo menos hipotéticos, abrindo a possibilidade de uma resposta, muito embora esta só possa vir a ser obtida em futuro remoto. Se o mistério fôsse apenas o reflexo de uma deficiência atual na formulação ou na solução dos problemas, seria apenas a suspensão provisória do juízo ou o produto de uma carência histórica, como se a faixa de mistério diminuísse progressivamente com o alargar-se do domínio dos conhecimentos positivos.
Não bastará, outrossim, dizer que, à medida que avançamos na solução dos problemas, surgem novas perguntas, como se o mistério se confundisse com os renovados horizontes dos problemas, ou, por outras palavras, com a infinitude do cognoscível.
Note-se que, quando me refiro ao "mundo dos problemas", não penso apenas nos que surgem no plano empírico das ciências físico-matemáticas, mas também nos que se situam no plano transcendental da teoria do conhecimento, pois, tanto neste como naquele impõe-se estudar a correlação entre sujeito e objeto, entre pensamento e realidade, nos amplos horizontes ontognoseológicos em que se desenvolve a atividade cognoscitiva. Quem põe um problema, enuncia uma hipótese, e esta sempre se funda em "dados" que representam pelo menos um esquema provável do real, explicado ou compreendido como algo de "objetivo" ou de "objetivável", segundo relações causais, nexos de funcionalidade e proporções, ou, em se tratando de ciências culturais, segundo "conexões de sentido". Só assim se opera a conversão entre verum e factum, consoante a intuição de Vico.
O mistério, ao contrário, é o absoluto, e o ab-solutus como tal "supõe-se" fora da correlação ontognoseológica, permane¬cendo irredutível às tenazes que co-implicam e polarizam o sujeito e o objeto do conhecimento. A ele só podemos nos referir como ao pressuposto lógico da problemática total. Se conhecer é sempre conhecer de algo alguma coisa, e se jamais o nosso conhecimento logrará abranger a plenitude do real, aberto a sempre novas perguntas, mister é concluir que "o insuscetível de conhecimento", por falta de adequação entre o sujeito cognoscente e o objeto cognoscível, é o condicionamento em que se pressupõe imersa a esfera de quanto conhecemos, e é a razão do caráter histórico-dialético do processo cognoscitivo.
Ora, a problemática do ser do homem ou do ser das nações como entidades biopsíquicas, sociológicas, econômicas, étnicas, históricas, etc., enriquece-se dia a dia, multiplicando as esferas das pesquisas positivas, que, ao depois, se entrelaçam e se esclarecem reciprocamente. Mas há algo na dramaturgia dos homens, das raças, dos povos, das nações, que debalde psicólogos e geógrafos, fisiologistas e etnólogos tentarão explicar: é aquilo que assegura a cada homem e a cada povo a sua singularidade, a sua inconfundível e intocável personalidade.
Por que sou o que sou? O "porquê" estas e não aquelas inclinações e tendências marcam o meu ser pessoal, e estruturam e singularizam o meu eu, é um dado para a "problemática" de minha experiência, mas que invoca e pressupõe o "mistério" insondável de meu ser distinto e diverso, irreversível e inefável no cosmos. Consolar-se-ão os positivistas supondo que, se conhecêssemos tôdas as causas, atingiríamos a solução do problema. Mas a "totalidade das causas", o absoluto do conhecimento, a causa causarum, que nos escapa, dada a natural e invencível finitude dos horizontes ontognoseológicos, só é conjeturável como pressuposto lógico do conhecimento possível.
O certo é que, assim como os homens, também os povos se distinguem uns dos outros, por mais que os processos tecnológicos acelerem o ritmo da "massificação" e da uniformidade, — razão pela qual a filosofia não pode deixar de refletir o "gênio dos povos", expressão de que abusaram os românticos, mas que oculta uma irrenunciável verdade.

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quarta-feira, 24 de março de 2010

Prémio Internacional Fernando Gil

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A criação do Prémio Internacional Fernando Gil em Filosofia da Ciência foi anunciada pelo Governo português na ocasião do seu falecimento, no intuito de homenagear o seu trabalho e memória (1937-2006).

O Prémio é anunciado como uma iniciativa conjunta do Governo português, representado pela FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior), e a FCG, Fundação Calouste Gulbenkian.

O Prémio Internacional Fernando Gil será doado todos os anos em Lisboa.

O Prémio tem como intenção reconhecer um trabalho de particular excelência, no domínio da Filosofia da Ciência, produzido por um investigador de qualquer nacionalidade ou afiliação profissional, publicado nos três anos transactos.

É solicitado ao recipiente do Prémio que profira uma palestra original pública que será publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian e que conduza um seminário especializado para estudantes e investigadores em Lisboa na ocasião da cerimónia de entrega do Prémio.

A quantia a ser paga ao laureado será 125.000 €.

Júri
O Júri do Prémio Internacional Fernando Gil 2010 inclui os seguintes membros:

Henri Atlan

Hadassah University Hospital, Jerusalem & École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris.

Per Aage Brandt

Case Western Reserve University.

Marcelo Dascal

Tel Aviv University.

Vincent Descombes

École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris.

Donald Gillies

University College, London.

Giulio Giorello

Università degli Studi di Milano.

Eberhard Knobloch

Institut für Philosophie, Technische Universität Berlin.

Maria Filomena Molder

Departamento de Filosofia, Universidade Nova de Lisboa.

Frédéric Nef

École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris.

Jean Petitot

École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris.

Massimo Piattelli–Palmarini

University of Arizona, Tucson & MIT.

Bertrand Saint–Sernin

Institut de France.

Manuel Silvério Marques

Centro de Filosofia, Universidade de Lisboa.

Nomeações
Nomeações para o Prémio Internacional Fernando Gil 2010 deverão incluir uma pequena descrição do trabalho nomeado e uma justificação da sua relevância em Filosofia da Ciência. Devem ser recebidas, entre 19 de Março e 30 de Junho de 2010, às 12h00 UTC, no seguinte endereço:

premio–filosofia@fernando–gil.org.pt


Nomeações pelos próprios não podem ser consideradas.
http://alfa.fct.mctes.pt/apoios/premios/fernando_gil/

segunda-feira, 15 de março de 2010

PRÉMIO DE ENSAIO FILOSÓFICO SPF 2009

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O concurso para a edição de 2009 do Prémio de Ensaio Filosófico lançado a público pela Sociedade Portuguesa de Filosofia, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, versou a questão seguinte: Podem as razões subjacentes a uma acção ser as causas (eficientes) dessa acção?

Concluído o concurso, a Sociedade Portuguesa de Filosofia anuncia que o júri decidiu atribuir o Prémio SPF 2009, no valor de 3.500 euros, ao ensaio intitulado «Podem as razões subjacentes a uma acção ser as causas (eficientes) dessa acção? O labirinto do descontínuo: Gramática, fenomenologia e ontologia da acção», da autoria de Paulo Renato de Jesus.

A composição do júri foi a seguinte: Ricardo Santos (Presidente da SPF e Professor Auxiliar da Universidade de Évora), Sofia Miguens (Professora Associada da Universidade do Porto), António Zilhão (Professor Auxiliar da Universidade de Lisboa) e Paulo Tunhas (Professor Auxiliar Convidado da Universidade do Porto).

Os documentos que fundamentam a decisão do júri ficam depositados na sede da SPF e estarão disponíveis para consulta pública.

De acordo com o protocolo celebrado com a Revista Portuguesa de Filosofia, o ensaio de Paulo Renato de Jesus deverá ser publicado num dos próximos números desta revista.

Paulo Renato de Jesus, nascido em Leiria em 1974, é licenciado em Psicologia pela Universidade de Coimbra e doutorado em Filosofia e Ciências Sociais pela Ecole des hautes études en sciences sociales (EHESS, Paris), sob orientação do Professor Fernando Gil, com uma dissertação sobre a unidade e identidade da consciência (sobretudo a partir da análise da doutrina kantiana da apercepção empírica e transcendental). Da investigação de doutoramento resultou a obra "Poétique de l'ipse: étude sur le 'Je pense' kantien" (Peter Lang, 2008). Entre os diversos artigos, destacam-se dois ensaios: um sobre os operadores de verdade em Leibniz e Kant (Kant Studien, 2010) e outro sobre a fenomenologia da intersubjectividade (Revue philosophique de Louvain, 2009). Beneficiou de bolsas de Doutoramento e de Pós-Doutoramento da FCT, tendo sido Visiting Scholar nas Universidades de Columbia e de Nova Iorque. Pertence, desde 2006, ao corpo de investigadores do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, grupo de Filosofia Moderna. Foi co-organizador (com Soraya Nour e Nuno Proença) de um seminário bi-anual sobre a "construção da verdade" em Kant e Freud, no Collège international de philosophie (Paris) e "Maître de conférences invité" na EHESS para colaborar no Seminário "Temporalité et expérience" da Professora Sabina Loriga. Lecciona actualmente no Departamento de Psicologia da Universidade Lusófona do Porto. Desenvolve ainda alguma actividade literária, salientando-se o "Prémio Daniel Faria" com a publicação de "Órbitas primitivas" (Quasi, 2007).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A Recepção do Budismo na Cultura Europeia Oitocentista



- Paul-Élie Ranson, "Christ et le Bouddha" (c.1880)

No próximo dia 25 de Fevereiro, pelas 17h, Rui Lopo, investigador do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, dará uma prelecção subordinada ao tema: "A Recepção do Budismo na Cultura Europeia Oitocentista" (Anf.IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

Paul-Élie Ranson, "Christ et le Bouddha" (c.1880)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pequenez em bicos de pés

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Há decerto alguma justeza em que a grandiosidade se manifeste – desse afã individual de ser reconhecido, desse apego ao mundo, se faz a cultura humana. A cultura é um exercício de poderio, mas até no poder pode haver asseio. A um grande homem colocam-se duas possibilidades de se relacionar com os outros homens: rodear-se de lacaios, ou rodear-se de iguais. Nesta diferença se manifesta se um grande homem quer ser obedecido, ou compreendido. No primeiro grupo estão os conspiradores de todos os fanatismos, políticos e religiosos, que têm assolado a humanidade; no segundo grupo, estão os obreiros espirituais da civilização humana, que souberam encontrar no desacordo dos seus pares os meios para combater as suas próprias imperfeições, éticas e sapienciais.Os primeiros caracterizam-se pela manipulação: transformam o que não têm por certo num teatro da verdade. Os segundos caracterizam-se pela ironia em relação às suas fortes convicções: expõem publicamente as contradições que encontram na sua verdade, reconhecendo que esse é o caminho que permite incentivar a crítica dos seus pares, que somente colocar-se na situação de abertura a essa oposição dialéctica é o garante de progredirem a uma verdade maior, arrastando outros nessa demanda. A esta via, que tem tanto de superior quanto de humilde, chamamos sabedoria, porque o sábio é aquele que assume, renovada e diligentemente (com alegria e entusiasmo, direi) a sua evolutiva condição de aprendiz.

Publicado no MILhafre:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/02/pequenez-em-bicos-de-pes.html

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Amanhã e depois, em Lisboa: A Filosofia e as suas Questões II - Colóquio

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FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

7 / 8 de Janeiro de 2010

Sala 5.2 - ENTRADA LIVRE

PROGRAMA:

7/Janeiro

9h Abertura

Moderador: Leonel Ribeiro dos Santos

Metafísica

9h15 Joana Luís, A filosofia russa como precursora do vitalismo: reflexão em torno do conceito de integralidade

10h Lavínia Pereira, A duração bergsoniana: experiência e significação

Ética /Bioética

11h Manuel João Pires, Se pudéssemos, viveríamos a nossa vida outra vez? Princípios de uma Ética Trágica

11h 45 Margarida Abenta Roque, O Testamento Vital

Moderador: Carlos João Correia

Política

14h 30 Francisco Felizol, A Liberdade na Filosofia do Dinheiro de Georg Simmel

15h 15 Gonçalo Zagalo, As noções de Justiça em Derrida e Deleuze

16h Nuno Castanheira, Hannah Arendt: liberdade e política

16h 45 José Luis Pérez, Albert Camus ou o retrato do artista enquanto homem

17h 30 Bruno Peixe Dias, Situação e Acontecimento: pode a revolução ser pensada?

8 /Janeiro

Moderadora: Maria Luísa Ribeiro Ferreira

Filosofia da Arte

9h30 Catarina Coelho, O Denkraum em Aby Warburg: o Intermedio warburguiano

10h15 Ana Mantero, Paul Klee, a linha que desenha a Natureza

11h Teresa Quirino, Catástrofe e Viagem em Vieira da Silva

11h 45 Ana Cravo, Da beleza do drama

Moderador: José Quaresma

Estética

14h30 Dirk Hennrich, Elementos para uma Paisagem Europeia

15h 15 Ana Rita Ferreira, O carácter dual da experiência estética

16h Ana Nolasco, O conceito de Kinismo de Peter Sloterdijk e a subversão do ideal clássico do Belo

Organização: Adriana Veríssimo Serrão/Seminário de Investigação dos cursos de pós-graduação do Departamento de Filosofia da FLUL

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Da liberdade

"a Universidade do Porto, em que eu aprendi realmente a ser livre, livre no interesse do espírito, a não estar preso por nenhuma espécie de preconceitos, a ir para as coisas o mais possível limpo de toda a espécie de intenções e de desejos que tal coisa fosse preta ou fosse branca, de ir para ela livre, e ainda de entender a liberdade dos outros, de se eu no fim de contas achar que é preto poder aceitar que um outro ache que a coisa é branca"
(inédito)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Prémio de Ensaio Filosófico da SPF

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Estão abertas as candidaturas para a edição de 2009 do Prémio de Ensaio Filosófico da SPF. Este prémio é uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Filosofia, que conta com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e que tem como objectivo eleger, sob um critério de mérito absoluto, o melhor ensaio, submetido anonimamente a concurso, sobre uma questão considerada relevante numa determinada área da investigação filosófica. Nesta edição, a área seleccionada é a Filosofia da Acção e a questão proposta é a seguinte: Podem as razões subjacentes a uma acção ser as causas (eficientes) dessa acção? O prémio terá um valor de 3.500 euros e o ensaio vencedor será depois publicado na Revista Portuguesa de Filosofia. O regulamento pode ser consultado no sítio da Sociedade Portuguesa de Filosofia, em http://www.spfil.pt. As candidaturas poderão ser apresentadas até ao dia 31 de Dezembro de 2009.



AGRADECE-SE DIVULGAÇÃO

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Filosofia

Observada a racionalidade, olhando para os seres, deve-se fazer a análise atenta e discernir quem a possui. Ela é coisa livre, saudável e mágica. Porque se as escolhas são infinitas e se de facto a vida é uma coisa assim tão excepcional, então por que será que a humanidade não faz outra coisa que não seja deambular pela morte? Destruindo-se e limitando os destinos dos demais! Numa pintura isto seria descrito através de uma paisagem sombria onde todos caminham acorrentados, com uma venda nos olhos, calcando-se e ferindo os demais com os seus movimentos desmedidos e insensatos. A justiça, o amor, a sabedoria e a verdade, quando a partir do divino, são caminhos firmes e férteis, de prosperidade. Mas quando humanas, são pântanos inseguros e traiçoeiros! Que promessas são essas que a democracia nos faz, essa assassina de democratas e que ecos são esses das ditaduras lá atrás, essas castradoras de homens livres? Ainda que se queimem livros, oculte informação e se silencie quem a verdade quer divulgar, nenhuma informação ficará perdida! Pois toda a informação encontra-se nas almas dos viventes. Toda a informação que é transmitida não passa de um mero fragmento, por vezes é só um esboço mal acabado de tudo aquilo que desejaríamos transmitir. As comunicações tornaram-se diálogos de surdos, duas pessoas sentadas, sem mais ninguém, de fim-de-semana, mas cheias de pressa! As pessoas mesmo durante o sono estão cheias de pressa, correm para apanhar o comboio do despertar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

7.º ENCONTRO NACIONAL DE PROFESSORES DE FILOSOFIA

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A Sociedade Portuguesa de Filosofia, em colaboração com a Escola Secundária Alves Martins (Viseu) e com o apoio, entre outros, da Câmara Municipal de Viseu e da Escola Superior de Tecnologia de Viseu, organiza este ano o 7.º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, um evento que visa facultar o intercâmbio de ideias e de práticas, quer do ponto de vista da Filosofia enquanto disciplina académica, quer do ponto de vista didáctico-pedagógico.

As comunicações e sessões práticas serão apresentadas e organizadas por investigadores, docentes universitários e docentes do ensino secundário, no âmbito do tema «Filosofia e Religião».

Para a edição deste ano contaremos com um orador internacional convidado, o Professor Richard Swinburne (Emeritus Nolloth Professor of the Philosophy of the Christian Religion, Oxford; Fellow of the British Academy), um dos mais destacados especialistas mundiais no domínio da filosofia da religião, de quem está traduzida em português a obra Is There a God? (OUP 1996 / Será que Deus Existe? Gradiva, 1998).

Serão também oradores, entre outros, os Professores José Meirinhos (U. Porto), António Pedro Mesquita (U. Lisboa) e Peter Stilwell (U. Católica), tendo sido ainda seleccionadas, mediante um processo de arbitragem sob anonimato, duas comunicações propostas.

O encontro terá lugar na Escola Superior de Tecnologia de Viseu, nos dias 4 e 5 de Setembro de 2009.

O programa e a descrição dos procedimentos de inscrição encontra-se em anexo.
Todas as informações relevantes vão sendo disponibilizadas na página da Sociedade Portuguesa de Filosofia, em http://www.spfil.pt/


AGRADECE-SE A DIVULGAÇÃO.

sábado, 18 de julho de 2009

A cobardia e a coragem nunca estão isentas de uma parcela de vaidade. Nem o amor. Os sentimentos nunca são verdadeiros. Brincam com os seus espelhos.

Jean Baudrillard



Jean Baudrillard: A verdade oblíqua
O pensador que inspirou a trilogia "Matrix" não gosta do filme e acha que a cultura americana impõe padrões banais. Por Luís Antônio Giron, Revista Época, 7 junho 2003


O professor baixo e mal-humorado é hoje uma das figuras mais populares do novo século. O pensador francês Jean Baudrillard, de 74 anos, recusa-se a falar em inglês. Mesmo assim, é tão popular nos Estados Unidos por causa de suas análises sobre a cultura de massa que foi convidado a fazer um show de filosofia em Las Vegas. E seu nome está na boca dos espectadores da trilogia Matrix. No primeiro filme dos irmãos Wachowski, o hacker Neo (Keanu Reeves) guarda seus programas de paraísos artificiais no fundo falso do livro Simulacros e Simulação, de Baudrillard. Keanu leu o livro e costuma mencionar o autor em todas as suas entrevistas sobre Matrix Reloaded, o novo filme da trilogia. Até porque o ensaio sobre como os meios de comunicação de massa produzem a realidade virtual inspirou os diretores de Matrix a criar o roteiro.

Baudrillard não parece ligar para a fama. Ele esteve no Brasil para lançar seu novo livro, Power Inferno (Sulina, 80 páginas, R$ 18), e participar da conferência 'A Subjetividade na Cultura Digital', na Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, onde falou com ÉPOCA. Sempre pautado por assuntos atuais, ele analisa no ensaio os atentados de 11 de setembro de 2001 como um ato simbólico contra o Ocidente. Nesta entrevista, ele fala sobre seu pensamento turboniilista, 11 de setembro e arte. Se a realidade já não existe e vivemos um permanente e conspiratório espetáculo de mídia, como quer Jean Baudrillard, o pensador exerce a função de entertainer às avessas. Ele decreta o fim dos tempos, e todo mundo vibra.

ÉPOCA - Suas idéias demolidoras estão mais em moda do que nunca. O mundo ficou mais parecido com o senhor?
Jean Baudrillard - Não aconteceu nada. O resultado de um consumo rápido e maciço de idéias só pode ser redutor. Há um mal-entendido em relação a meu pensamento. Citam meus conceitos de modo irracional. Hoje o pensamento é tratado de forma irresponsável. Tudo é efeito especial. Veja o conceito de pós-modernidade. Ele não existe, mas o mundo inteiro o usa com a maior familiaridade. Eu próprio sou chamado de 'pós-moderno', o que é um absurdo.

ÉPOCA - Mas pós-modernidade não é um conceito teórico racional?
Baudrillard - A noção de pós-modernidade não passa de uma forma irresponsável de abordagem pseudocientífica dos fenômenos. Trata-se de um sistema de interpretações a partir de uma palavra com crédito ilimitado, que pode ser aplicada a qualquer coisa. Seria piada chamá-la de conceito teórico.

ÉPOCA - Se não é pós-moderno, como o senhor define seu pensamento em poucas palavras? Os críticos o chamam de pensador terrorista, ou niilista irônico.
Baudrillard - Sou um dissidente da verdade. Não creio na idéia de discurso de verdade, de uma realidade única e inquestionável. Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento, como um fotógrafo. Aliás, sou um fotógrafo.

ÉPOCA - Como o senhor explica a espetacularização da realidade?
Baudrillard - Os signos evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje o dominam. Os sistemas de signos operam no lugar dos objetos e progridem exponencialmente em representações cada vez mais complexas. O objeto é o discurso, que promove intercâmbios virtuais incontroláveis, para além do objeto. No começo de minha carreira intelectual, nos anos 60, escrevi um ensaio intitulado 'A Economia Política dos Signos', a indústria do espetáculo ainda engatinhava e os signos cumpriam a função simples de substituir objetos reais. Analisei o papel do valor dos signos nas trocas humanas. Atualmente, cada signo está se transformando em um objeto em si mesmo e materializando o fetiche, virou valor de uso e troca a um só tempo. Os signos estão criando novas estruturas diferenciais que ultrapassam qualquer conhecimento atual. Ainda não sabemos onde isso vai dar.

ÉPOCA - A disseminação de signos a despeito dos objetos pode conduzir a civilização à renúncia do saber?
Baudrillard - Alguma coisa se perdeu no meio da história humana recente. O relativismo dos signos resultou em uma espécie de catástrofe simbólica. Amargamos hoje a morte da crítica e das categorias racionais. O pior é que não estamos preparados para enfrentar a nova situação. É necessário construir um pensamento que se organize por deslocamentos, um anti-sistema paradoxal e radicalmente reflexivo que dê conta do mundo sem preconceitos e sem nostalgia da verdade. A questão agora é como podemos ser humanos perante a ascensão incontrolável da tecnologia.

ÉPOCA - Seu raciocínio lembra os dos personagens da trilogia Matrix. O senhor gostou do filme?
Baudrillard - É uma produção divertida, repleta de efeitos especiais, só que muito metafórica. Os irmãos Wachowski são bons no que fazem. Keanu Reeves também tem me citado em muitas ocasiões, só que eu não tenho certeza de que ele captou meu pensamento. O fato, porém, é que Matrix faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade. Os diretores se basearam em meu livro Simulacros e Simulação, mas não o entenderam. Prefiro filmes como Truman Show e Cidade dos Sonhos, cujos realizadores perceberam que a diferença entre uma coisa e outra é menos evidente. Nos dois filmes, minhas idéias estão mais bem aplicadas. Os Wachowskis me chamaram para prestar uma assessoria filosófica para Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, mas não aceitei o convite. Como poderia? Não tenho nada a ver com kung fu. Meu trabalho é discutir idéias em ambientes apropriados para essa atividade.

ÉPOCA - Quanto à arte, o senhor se dedicou a analisar o fenômeno artístico ao longo dos anos. Em que pé se encontra a arte contemporânea?
Baudrillard - A arte se integrou ao ciclo da banalidade. Ela voltou a ser realista, a desejar a restituição da reprodução clássica. A arte quer cumplicidade do público e gozar de um status especial de culto, situação prefigurada nas sinfonias de Gustav Mahler. Claro que há exceções, mas, em geral, os artistas se renderam à realidade tecnológica. Desde os ready-mades de Marcel Duchamp, a importância da arte diminuiu, porque a obra de arte deixou de ter um valor em si. Os signos soterraram a singularidade. Os artistas se submetem a imperativos políticos, e não mais seguem ideais estéticos. A arte já não transforma a realidade e isso é muito grave.

ÉPOCA - Por que o senhor escreveu tanto sobre a cultura americana mas nunca refletiu sobre o Brasil, que o senhor tanto adora visitar?
Baudrillard - Já me cobraram um livro sobre o Brasil. Cito-o em minhas Cool Memories (trabalho no quinto volume) e em outros textos, mas a cultura brasileira é muito complexa para meu alcance teórico. Ela não se enquadra muito em minhas preocupações com a contemporaneidade, não tem nada a ver com a americana, com seus dualismos maniqueístas, um país que se construiu a partir das simulações, um deserto da cultura no qual o vazio é tudo. Os Estados Unidos são o grau zero da cultura, possuem uma sociedade regressiva, primitiva e altamente original em sua vacuidade. No Brasil há leis de sensualidade e de alegria de viver, bem mais complicadas de explicar. No Brasil, vigora o charme.

ÉPOCA - O que o senhor pensa da civilização americana depois dos atentados de 11 de setembro? O mundo mudou mesmo por causa deles?
Baudrillard - Claro que mudou. Nunca mais seremos os mesmos depois da destruição do World Trade Center. Abordo o tema em Power Inferno, uma coletânea de artigos sobre o império americano e a política. Considero os atentados um ato fundador do novo século, um acontecimento simbólico de imensa importância porque de certa forma consagra o império mundial e sua banalidade. A Guerra do Iraque apenas dá seqüência às ações imperiais. Os terroristas que destruíram as torres gêmeas introduziram uma forma alternativa de violência que se dissemina em alta velocidade. A nova modalidade está gerando uma visão de realidade que o homem desconhecia. O terrorismo funda o admirável mundo novo. Bom ou mau, é o que há de novo em filosofia. O terrorismo está alterando a realidade e a visão de mundo. Para lidar com um fato de tamanha envergadura, precisamos assimilar suas lições por meio do pensamento.



JEAN BAUDRILLARD
Nascimento: Reims, na França, 27 de julho de 1929 [faleceu em Paris, a 6 de março de 2007]
Trajetória: Sociólogo e fotógrafo. Em 1966 começou a lecionar na Universidade de Paris X-Nanterre. Atualmente, dedica-se a escrever e fazer palestras.
Livros principais: O Sistema dos Objetos (1968), À Sombra das Maiorias Silenciosas (1978), Simulacros e Simulação (1981), América (1988), Cool Memories I (1990), A Troca Impossível (1999), O Lúdico e o Policial (2000).


Fonte: http://www.consciencia.net/2003/06/07/baudrillard.html

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Texto que nos chegou...

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SAUDADE DA FILOSOFIA: A SAUDADE DÁ FILOSOFIA.

Willis Santiago Guerra Filho

Em homenagem a Pinharanda Gomes, no transcurso de seus setenta anos.

Certa vez, uma dessas enquetes que não se sabe bem como são feitas, anunciou algo de que intuitivamente desconfiamos: a palavra (galego-)portuguesa “saudade” é uma das cinco palavras mais intraduzíveis, dentre todas de todos os idiomas (!). Ora, isso nos dá o que pensar, tanto que se pode até chegar a fazer uma “filosofia da saudade”, como muitos autores, expressando-se nessa língua, de fato tentaram, quando a filosofia era algo mais almejado, desejado. E mais do que uma filosofia da saudade, houve quem falasse em “metafísica da saudade” e, até, “teologia da saudade”, à qual corresponderiam, como religião, o saudosismo sebastianista, messiânico. É o que podemos depreender da leitura da antologia feita por Dalila L. Pereira da Costa e Pinharanda Gomes, intitulada “Introdução à Saudade”. Mas para saber o que seria isso, uma vez que, saudade, os que nascemos na língua portuguesa, sabemos o que é, precisaríamos saber mais sobre o que é isso de filosofia, metafísica e teologia. Vamos lá, então. A filosofia, como indica a própria etimologia da palavra, surge, na antiga Grécia, como uma tal desejar (philein), um anelo, uma intenção (philia), que era uma nostalgia – mas não uma saudade - da sabedoria “sobrehumana”, divina (sophia), de que dispunham – ou dispuseram - os sábios (sophian), para nós perdida, e perdida já naquela época em que surgiu, pelo aparecimento das doutrinas, as mais diversas e em conflito, dos que estudavam a physis, a natureza (de todas as coisas), os “físicos” ou “fisiólogos” (de physis + logoi = “discursos sobre a natureza”). Uma das acusações contra Sócrates, no processo que os atenienses moveram contra ele – e, também, contra a filosofia, que com ele propriamente se iniciava -, foi a de ele praticar a física, sendo esta acusação a que ele repudiou com mais veemência. Já aquela, de que apregoava a substituição dos deuses oficiais, por se referir sempre ao seu daimon pessoal, foi descartada com a costumeira (e sábia) ironia, lembrando a contradição que havia entre essa acusação e uma terceira, a de que corrompia a juventuda ateniense ensinando-lhe o ateísmo...Para Platão, seu discípulo mais famoso, a filosofia seria "epistéme epistemés", "ciência da ciência", enquanto o mais célebre discípulo deste, Aristóteles, na "Metafísica" (Livro VII ou zetha, 1), a define como "epistéme ton próton arkhôn kaì aítion theoretiké", conhecimento dos primeiros princípios e causas explicativos de tudo. Comentando essa passagem, Heidegger, no texto "Que é isto, a filosofia?", recorda que epistéme deriva de epistámenos, que seria aquela pessoa vocacionada e competente para uma determinada atividade - no caso da filosofia, a atividade de teorizar, sendo a theoria o que os gregos considerariam propriamente a ciência, saber contemplativo das verdades universais, eternas e transcendentes, para além do saber mundano, habitual, a doxa, e que, no princípio do livro apenas citado de Aristóteles, é considerado um conhecimento através do qual os homens se ombreariam com os deuses, devendo, por isso, temer a inveja deles. Uma outra forma de conhecimento, mais próprio das contingências da vida, é aquele que os gregos denominavam techné, a técnica, um conhecimento operativo, instrumental e produtivo, limitado e finito, por voltado ao atendimento de finalidades específicas, mas sempre revelador de potencialidades, donde sua tradução para o latim como ars.
Então, a epistéme seria algo intermediário entre essas duas formas de conhecimento, por referir-se à atividade de conhecer a partir das necessidades de um certo tipo de explicação, isto é, não as explicações que se fazem necessárias e úteis à manutenção da vida, inclusive no convívio social e político, mas sim aquelas que, a rigor, são desnecessárias, inúteis, embora sejam elas o que desejamos, anelamos, quando nos maravilhamos, sentindo o assombro, o espanto, o thaumatzein, quando, no duplo sentido dessas palavras, negativo e positivo, nos espantamos e assombramos diante do universo ao nosso redor e em nós mesmos, o cosmos, sendo desse sentimento (pathos) que nasceria a filosofia, segundo os dois filósofos gregos citados - de certa forma os primeiros, por ter chegado até nós o registro de seu pensamento, e até hoje maiores entre todos: Platão, no seu diálogo "Teeteto" (155 d), e Aristóteles, na já citada "Metafísica” (Livro I ou alfa, 2).
Eis que se agora retornamos ao nosso princípio, percebemos que se falarmos em uma filosofia da saudade, isso seria mais para explicar a saudade aos que a sentem sem saber, por não ter uma palavra para sintetizar esse sentimento, tão grande e tão plural, a que chamamos, simplesmente, saudade. E podemos aventar a hipótese de que é um sentimento desses o que acomete a quem passar pela experiência do thaumatzein, a qual nos lança para a filosofia.
Saudade não é o desiderium, que um clássico latino definiu como libido videndi eius qui non adsist, ou seja, a vontade de ver aqueles que não estão presentes, já porque saudade sentimos muita saudade de coisas e lugares, sentimos muito saudade da terra natal, mais do que dela gostamos quando nela estamos, o que demonstra haver na saudade algo de desejo de um futuro melhor realizado do que foi o passado próximo. Saudade não é a nostalgia, que tem a língua castelhana, porque a nostalgía é a tristeza pelo que passou e não volta mais, mas isso também tem na saudade, só que ela é mais: é também uma alegria suave, por saber que o futuro poderá trazer o retorno do que se foi, ainda que sob outras formas, e nesse sentido se assemelha à Sehnsucht alemã. A saudade não nos mata, como o banzo matava os heróicos africanos, brutalmente forçados à emigração para as Américas; nós, ao contrário, matamos a saudade, ainda que por um breve instante, pois ela logo renasce, para depois ser morta novamente, por os que morrem de saudade, sem ser mortos por ela. A saudade não é a Angst depressiva, parente da agonia, que, nos lançando de cara com o nada, revela o ser a parte de todo ente, como propõe a metafísica existencial heideggeriana, tentando pensar o que ficou de fora de toda metafísica anterior, e com isso pretendendo descartar até a própria metafísica, tragada também no buraco negro do nada. A saudade do ser é serenidade, Gelassenheit: deixa o ser, ser, esperando que venha a nós, ao invés de nos precipitarmos em busca desesperada d'Ele.
Saudade pode corresponder melhor do que a qualquer outra à palavra catalã anyoransa, mas só alguém com boa vivência nas duas línguas pode julgar. Ao mesmo tempo, temos a palavra añoranza, em galego, que é nossa língua irmã (xifópaga), e ela não substitui a também galega saudade, sendo aquela mais do registro espacial, horizontal, do que temporal, vertical, como a Heimweh alemã ou o souvenir, francês - portanto, mais sofrida do que a audade, com a qual mais nos animamos do que padecemos.
A philia grega, que está na filo-sofia, não deixa de se aproximar da saudade, no que ela tem de uma perspectiva de reencontrar no futuro o que já esteve no passado - no caso, a sabedoria, considerada, a rigor, para sempre perdida, para quem, como Sócrates, se dizia filósofo, com sua costumeira ironia, por só saber que nada sabia, e ainda assim saber mais do que quem se dizia sábio, sabedor de muitas coisas, se não,de tudo, como certos sofistas, que para Sócrates não passavam de sabidos, espertos, experts, como se diz hoje em dia, ou seja, no máximo, especialistas, com a arrogância de por isso, por saberem muito de um pouco, saberem também o bastante sobre tudo. É assim que, ao invés de filosofia da saudade, metafísica da saudade, teologia da saudade, a mim parece que nos carece mais a saudade da filosofia, saudade da busca desejante de sabedoria, assumindo que ela nos falta; a saudade da metafísica, da meditação sobre o ser de tudo que é, sobre o que é ser; a saudade da teologia, do estudo, ainda que impossível, mas necessário, do que não nos deixa solitário em nosso ser, singular, inexplicado, ínfimo, precário e, ao mesmo tempo, infinito. Eis que a palavra “saudade” tem parentesco com o nome da flor sucena ou cecém, de assucena, como dizemos no nosso sertão imemorial, a Susana dos hebreus, a flor real dos latinos, assim chamada por ser a mais linda e de odor mais doce dentre todas as outras. Os trovadores medievais diziam ssuydade, vindo de soedade, passando por soidade, de sonoridade mais provençal, referindo-se ao que é de si, mais do que ao que se dá coom quem está só, como na matriz latina solitudo, donde veio por derivação, soletate, a soledad castelhana, que é nossa solidão. Antes de ser saudade, a palavra soou sódade e, em Lisboa, particularmente, soudade, como ainda hoje se pode ouvir das bocas mais ciosas da língua que aprenderam de seus antepassados, aquelas das classes populares de lugares como a eterna Bahia: há mesmo um samba-lamento, clássico, em que Clementina de Jesus canta “soudade, meu bem, soudade”. Em saudade há saúde, saudação e salvação.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

''Riten'', Ingmar Bergman, 1969



"O poderio é uma coisa magnífica, e útil para muitos propósitos; porque 'vai-se mais longe com uma mão cheia de poder do que com uma mala cheia de verdades'."

Max Stirner