Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.
A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso Manifesto.
Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:
- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.
- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.
- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.
- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.
- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.
- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.
- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).
- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.
- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?
- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.
- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.
- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.
- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.
- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.
- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"
- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.
- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.
- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.
- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.
- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).
- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).
- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).
- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.
- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).
- 25º número (1º semestre de 2020): Pinharanda Gomes: Textos e Testemunhos dos seus Amigos.
Para o 25º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
EDITORIAL NOVA ÁGUIA 24
As personalidades maiores (ou mais aquilinas) são aquelas que mais transcendem fronteiras – culturais, religiosas ou ideológicas. Pela amostra (significativa – mais de uma dúzia) de testemunhos que aqui recolhemos, proferidos numa sessão em sua Homenagem promovida pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no dia 10 de Maio do corrente ano, no Palácio da Independência, João Bigotte Chorão foi, de facto, uma personalidade maior da nossa cultura lusófona.
Personalidade não menor foi a de Afonso Botelho, que completaria no dia 4 de Fevereiro 100 anos. Igualmente por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, realizou-se, nesse exacto dia, também no Palácio da Independência, um Colóquio que abordou as diversas facetas do seu pensamento e obra. São os textos então apresentados (com mais alguns entretanto chegados) que aqui publicamos (mais de uma dezena e meia de textos).
Dois mil e dezanove tem sido um ano especialmente rico em centenários. Para além de Afonso Botelho, evocamos aqui igualmente Jorge de Sena e José Hermano Saraiva. Para o próximo número, fica desde já prometida a evocação de Joel Serrão e de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde iremos também recordar Agustina Bessa-Luís, recentemente falecida, no início deste semestre, que marcou ainda presença na NOVA ÁGUIA – logo no primeiro número, onde publicámos um texto seu intitulado “O fantasma que anda no meu jardim”, que termina desta forma: “Voltaremos a encontrar-nos”. Até sempre, Agustina!
Ainda no vigésimo quarto número da NOVA ÁGUIA, para além do “Poemáguio” e do “Memoriáguio” (duas secções igualmente clássicas), publicamos cerca de uma dezena de “Outros Voos” e, em “Extavoo”, mais um capítulo da segunda parte (inédita) da Vida Conversável, de Agostinho da Silva, bem como a série completa das “Cartas sem resposta” de João Bigotte Chorão –, algumas das quais já publicadas em números anteriores da nossa revista. No “Bibliáguio”, por fim, publicamos mais de meia dúzia de recensões de obras que despertaram a atenção do nosso olhar aquilino.
A Direcção da NOVA ÁGUIA
Post Scriptum: Já na fase final da composição deste número, a 27 de Julho, faleceu, aos oitenta anos, Pinharanda Gomes, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, um dos mais importantes colaboradores da NOVA ÁGUIA, desde o primeiro número (até este que aqui se apresenta, com dois ensaios que nos fez chegar no primeiro semestre deste ano), e, sob todos os pontos de vista, uma das mais relevantes figuras da cultura lusófona do último meio século (facto que só por ignorância ou má-fé pode ser contestado). Por isso, no próximo número da revista, teremos, logo a abrir, uma série de Textos e Testemunhos em sua Homenagem.
NOVA ÁGUIA Nº 24: ÍNDICE
HOMENAGEM A JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Textos e Testemunhos de J. Pinharanda Gomes (p. 8), Alfredo Campos Matos (p. 22), Annabela Rita (p. 22), António Braz Teixeira (p. 24), António Cândido Franco (p. 24), António Leite da Costa (p. 25), António Manuel Pires Cabral (p. 26), Artur Anselmo (p. 27), Eugénio Lisboa (p. 27), Isabel Ponce de Leão (p. 29), Jaime Nogueira Pinto (p. 29), Miguel Real (31), Paulo Ferreira da Cunha (p. 39) e Paulo Samuel (p. 41).
NOS 100 ANOS DE AFONSO BOTELHO
APOLOGIA E HERMENÊUTICA NA OBRA DE AFONSO BOTELHO | António Braz Teixeira…48
AFONSO BOTELHO SEMI-INÉDITO | António Cândido Franco…57
AFONSO BOTELHO NO 57: MOVIMENTO DE CULTURA PORTUGUESA | Artur Manso…59
EDUCAÇÃO E SAUDADE EM AFONSO BOTELHO | Emanuel Oliveira Medeiros…65
HUMANISMO ESPERANÇOSO DE AFONSO BOTELHO | Guilherme d’Oliveira Martins…86
À MEMÓRIA DE AFONSO BOTELHO | J. Pinharanda Gomes…88
AFONSO BOTELHO: TESTEMUNHO BREVE | Joaquim Domingues…90
AFONSO BOTELHO, UM ARISTOCRATA EXEGETA DE D. DUARTE | José Almeida…92
TESTEMUNHO E HOMENAGEM A AFONSO BOTELHO | José Esteves Pereira…97
MITO E MITOS FUNDANTES: A POSSIBILIDADE DO DISCURSO DA SAUDADE | Luís Lóia…98
O TEMA DA SAUDADE NA TEORIA DO AMOR E DA MORTE DE AFONSO BOTELHO | Manuel Cândido Pimentel…104
AFONSO BOTELHO: DA RAZÃO E DO CORAÇÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…108
AFONSO BOTELHO, DO PENSAMENTO À ESCRITA FICCIONAL NO 57: UMA ABORDAGEM DO CONTO O INCONFORMISTA | Maria Luísa de Castro Soares…112
A FICÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Miguel Real…118
DA FILOSOFIA COMO “SABEDORIA DO AMOR”: ENTRE JOSÉ MARINHO E AFONSO BOTELHO | Renato Epifânio…125
A RENÚNCIA DO MAL NA METAFÍSICA CRISTÃ DA REDENÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Samuel Dimas...127
SOBRE A MÓNADA HOMEMULHER EM AFONSO BOTELHO | Teresa Dugos-Pimentel…139
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES: JORGE DE SENA E JOSÉ HERMANO SARAIVA
A CRÍTICA LITERÁRIA EM JORGE DE SENA | Miguel Real…146
JOSÉ HERMANO SARAIVA: HISTORIADOR E DIVULGADOR DA CULTURA PORTUGUESA | Nuno Sotto Mayor Ferrão…151
OUTROS VOOS
A MANEIRA PORTUGUESA DE ESTAR NO MUNDO | Adriano Moreira…162
O PENSAMENTO ESTÉTICO DE EDUARDO LOURENÇO | António Braz Teixeira…165
O SENTIDO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO DA LUZ EM “VIRGENS LOUCAS” DE ANTÓNIO AURÉLIO GONCALVES | Elter Manuel Carlos…170
OS AÇORES E O MAR – O POVO, SOCIEDADE(S) E TERRITÓRIOS | Emanuel Oliveira Medeiros…176
SOBRE OS INÉDITOS DE JUNQUEIRO | Joaquim Domingues…188
VIVÊNCIAS COM MÁRIO CESARINY E FERNANDO GRADE: POETAS E PINTORES | Luís de Barreiros Tavares…194
SENTIDO E VALOR ACTUAIS DA MONARQUIA: UMA PERSPECTIVA TEÓRICO-CONSTITUCIONAL | Pedro Velez…197
CINCO DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS| Renato Epifânio…199
AUTOBIOGRAFIA 6 | Samuel Dimas…204
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…220
CARTAS SEM RESPOSTA | João Bigotte Chorão…227
BIBLIÁGUIO
ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA | Joaquim Domingues…256
A ESCOLA PORTUENSE EM QUESTÃO | Elísio Gala…256
LEONARDO COIMBRA: VIDA E FILOSOFIA | José Esteves Pereira…258
EUDORO DE SOUSA E A PRESENÇA DO MITO NA FILOSOFIA PORTUGUESA | Samuel Dimas…262
TABULA RASA II & ESTUDOS SOBRE HEIDEGGER | Renato Epifânio…263
PEITO À JANELA SEM CORAÇÃO AO LARGO | Onésimo Teotónio Almeida…264
ESPÍRITOS DAS LUZES | Anabela Ferreira…266
POEMÁGUIO
CATATÓNICO; GOLGOTHA | António José Borges…46
SEU HÁBITO MELHOR | Jaime Otelo…47
“NASCERÁ O MAIOR AMOR…” | Catarina Inverno…144
FUNDURA | Maria Leonor Xavier…145
MACAU | António José Queiroz…159
CANÇÃO SUPREMA | Carla Ribeiro…160
COMO PODEM ESPERAR | Delmar Maia Gonçalves…161
PELOS SENTIDOS | Juvenal Bucuane…161
NUME | Luísa Borges…218
STELA | Jesus Carlos…219
MIMNERNO E AS FOLHAS CAÍDAS DE JÚDICE | Susana Marta Pereira…254
LARGO | Joel Henriques…255
PARA O HERBERTO HELDER | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…267
SEGUNDA VARIAÇÃO | José Luís Hopffer C. Almada…268
MEMORIÁGUIO…272
MAPIÁGUIO…273
ASSINATURAS…273
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…274
Lançamento da NOVA ÁGUIA 24
18 de Outubro, no Palácio da Independência (na foto: Abel Lacerda Botelho, Renato Epifânio e António Braz Teixeira). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...
Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.
MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.
PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:
https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas
O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"
Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
MIGUEL REALE: "A FILOSOFIA COMO AUTOCONSCIÊNCIA DE UM POVO" (EXCERTO)
A filosofia é, igualmente, síntese e unidade. Não síntese amorfa e indiferençada, mas síntese orgânica e de processus, unidade de ordem, na qual se preserva a cada parte componente a sua posição específica e própria; nem o todo importa em absorção ou em predomínio avassalador, mas representa antes a coimplicação harmônica de peculiaridades intocáveis. A filosofia é racionalidade, e é racionalidade até mesmo quando o filósofo põe em realce o papel fundamental das fôrças emocionais e intuitivas. Porque a filosofia é também linguagem, pelo menos uma tentativa de expressão rigorosa, tradução em verbo ou em símbolos daquilo que a experiência oferece de essencial e duradouro.
Tôda vez que a humanidade entra em crise, insistem os filósofos em apontar para a única via que resiste ao emaranhado das doutrinas: a renovada busca do permanente, do essencial, daquilo que assinala uma constante no torvelinho das contingências e das mutações repentinas e bruscas, expressando-se na clareza dos conceitos.
É inegável que, nessa procura do essencial, que se oculta sob a capa do secundário e do contingente, imensa é a contribuição das faculdades intuitivas, graças às quais uma verdade pode brilhar no amanhecer das pesquisas, governando, como fulcro primordial, o processo ulterior das análises. Se, porém, aquela intuição inicial ao depois não se desenvolve, nem se insere em uma ordem racional coerente, tem o valor fugaz da luz dos pirilampos, nada representando no desenvolvimento das idéias. Não faltariam, por certo, exemplos de juristas ou filósofos que, em plena mocidade, perceberam algo capaz de dar nôvo sentido à experiência, bastando lembrar que nos escritos juvenis de um Locke, de um Hegel, de um Marx ou de um Savigny já se encontram os germes de suas concepções mais relevantes. Não teriam tido, porém, maior significado na história das idéias, se as intuições originais não houvessem sido aferidas e fecundadas pelo poder sintético e ordenador da razão.
A razão equivale, pois, à plenitude e à maturidade, quando ela não se estiola na abstração formal, mas é, ao mesmo tempo, forma e conteúdo, ou seja, razão concreta e histórica.
Já é tempo de se contrapor aos excessos do intuicionismo lírico, que ameaça converter a filosofia em uma ambígua atividade poético-literária, as exigências do intelecto e da razão. Refiro-me, porém, a uma racionalidade diversa da que tradicionalmente se confunde com meros esquemas formais; penso, ao contrário, na racionalidade concreta, a qual não se separa da experiência senão no que nesta houver de precário ou caduco.
Não devemos, em verdade, esquecer, à luz da história das ciências, que os momentos de abstração mais fecundos coincidem com os instantes de mais profunda captação do real e da vida, dada a complementariedade dialética existente entre fatos, leis e valôres .
A partir da surprêsa e da perplexidade iniciais, que põem os problemas; desde a intuição das perguntas até à maturidade das respostas, na floração unitária de antigas e novas perguntas, desdobra-se o caminho do filosofar, que, no entanto, a todo instante, se enriquece de novas intuições que exigem incessantes reformulações racionais, numa polaridade dinâmica entre o pensamento e a realidade pensável.
Filosofia e nacionalidade
Assim sendo, quando um povo começa a filosofar, a expressar racionalmente o seu sentir e o seu querer, demonstra a si mesmo e ao mundo que está atingindo a fase da maturidade, no processus de sua autoconsciência. A autoconsciência nacional, como é óbvio, não pode resultar de importação, visto dever traduzir algo que vem aos poucos se elaborando no recesso da alma popular, até se revelar, com valôres novos e imprevistos, na palavra de seus intérpretes.
É necessário se lembre que, se a filosofia é universal, nem por isso deixa o filósofo de receber as influências do meio em que vive, o qual condiciona tanto o conteúdo ideológico quanto as formas expressionais. Daí poder-se falar em filosofia alemã, em filosofia italiana ou francesa, assim como dia virá em que nos será dado referir-nos à filosofia brasileira.
Longe de mim a idéia de forjar uma filosofia segundo as circunstâncias do momento, transformando o filosofar em instrumento de ação política, ou de ação social, bitolando o pensamento segundo estas ou aquelas aspirações, imediatas ou mediatas pouco importa, de nosso viver histórico; não é neste sentido que cogito de uma filosofia brasileira. A filosofia é, inegàvelmente, uma só. Os filósofos cultivam a universalidade dos mesmos problemas, o que implica o sentido universal das respostas dadas, muito embora haja inevitáveis discordâncias e conflitos. Não confundamos "universalidade" com "unanimidade": esta é contingência empírica, que poderia existir até mesmo sem aquela, tal como ocorre quando as pseudo-verdades avassalam e obscurecem os espíritos.
Por mais que a filosofia tenha sentido de universalidade, é inegável, todavia, como já assinalara Fichte, que existe a "pessoa" do filósofo condicionando o ritmo de seu pensamento, a tal ponto que já se chegou a afirmar, em tom de paradoxo, que, se Aristóteles nascesse hoje, seria aristotélico, e Platão, vindo ao mundo agora, seria platônico.
Podemos, porém, estar certos de que não se reproduziriam as estruturas mentais do Aristóteles que conhecemos, nem ressurgiria o Plantão dos diálogos memoráveis: a dimensão histórica hodierna seria componente inevitável no filosofar de ambos, tão certo como somos também o que fomos na sucessão das idades. Universalidade dos problemas, por conseguinte, e condicionalidade histórica dos problemas, eis duas coordenadas inamovíveis do pensamento filosófico. Varia, assim, através do processo histórico, o condicionamento dos problemas universais, bem corno o estilo de vida ligado essencialmente à pessoa do filósofo e ao complexo de fatos e valôres culturais em que se situa, assistindo razão a Giovanni Gentile quando diz que o caráter universal não exclui que a filosofia seja nacional, pois "é um axioma lógico que a universalidade não é anulamento, mas adimplemento de tôdas a determinações particulares".
Impossível seria a qualquer de nós libertarmo-nos de nossas circunstâncias mesológicas, sociais, biológicas, históricas, etc., e tal verdade também se estende à vida das nações. Jamais somos apenas vivência, porque somos, perene e necessàriamente, convivência, dependendo o nosso ser pessoal dos múltiplos círculos sociais de que somos partícipes. Dessarte, um problema filosófico, tratado por um pensador da Inglaterra, pode apresentar características e peculiaridades discerníveis ao primeiro contacto, em contraste com as respostas dadas, por exemplo, por um estudioso germânico: algo de peculiar e de próprio se percebe nas linhas com que o problema se põe, ou nas diretrizes segundo as quais a verdade se expressa. Universalidade, repito, da filosofia, mas com um quid de próprio, de inexplicado ou inexplicável, muitas vêzes, nas conjunturas espaço-temporais. É claro que problemas filosóficos há, como os da lógica, independentes de condições espaço-temporais, mas estas podem influir até mesmo nas modalidades de aplicação dos valôres lógico-formais, assim como na hierarquia que lhes é conferida no quadro do saber humano.
Manda a verdade se reconheça que vivemos num mundo de problemas imerso num mundo de mistérios. O "ignoramos, ignorabimus", com que Du Bois-Reymond, em 1880, escandalizou os meios positivistas, enumerando os "sete enigmas do mundo", tem alcance bem mais profundo do que uma simples confissão de insuficiência.
Indo ao âmago da questão, talvez se possa dizer que é o mistério que condiciona os problemas. Aquêle não se reduz ao "problema de amanhã", nem ao resto das perguntas que ainda seja impossível formular como problemas. Sim, porque nem tôda pergunta é problema, mas só aquela que pressupõe "dados", pelo menos hipotéticos, abrindo a possibilidade de uma resposta, muito embora esta só possa vir a ser obtida em futuro remoto. Se o mistério fôsse apenas o reflexo de uma deficiência atual na formulação ou na solução dos problemas, seria apenas a suspensão provisória do juízo ou o produto de uma carência histórica, como se a faixa de mistério diminuísse progressivamente com o alargar-se do domínio dos conhecimentos positivos.
Não bastará, outrossim, dizer que, à medida que avançamos na solução dos problemas, surgem novas perguntas, como se o mistério se confundisse com os renovados horizontes dos problemas, ou, por outras palavras, com a infinitude do cognoscível.
Note-se que, quando me refiro ao "mundo dos problemas", não penso apenas nos que surgem no plano empírico das ciências físico-matemáticas, mas também nos que se situam no plano transcendental da teoria do conhecimento, pois, tanto neste como naquele impõe-se estudar a correlação entre sujeito e objeto, entre pensamento e realidade, nos amplos horizontes ontognoseológicos em que se desenvolve a atividade cognoscitiva. Quem põe um problema, enuncia uma hipótese, e esta sempre se funda em "dados" que representam pelo menos um esquema provável do real, explicado ou compreendido como algo de "objetivo" ou de "objetivável", segundo relações causais, nexos de funcionalidade e proporções, ou, em se tratando de ciências culturais, segundo "conexões de sentido". Só assim se opera a conversão entre verum e factum, consoante a intuição de Vico.
O mistério, ao contrário, é o absoluto, e o ab-solutus como tal "supõe-se" fora da correlação ontognoseológica, permane¬cendo irredutível às tenazes que co-implicam e polarizam o sujeito e o objeto do conhecimento. A ele só podemos nos referir como ao pressuposto lógico da problemática total. Se conhecer é sempre conhecer de algo alguma coisa, e se jamais o nosso conhecimento logrará abranger a plenitude do real, aberto a sempre novas perguntas, mister é concluir que "o insuscetível de conhecimento", por falta de adequação entre o sujeito cognoscente e o objeto cognoscível, é o condicionamento em que se pressupõe imersa a esfera de quanto conhecemos, e é a razão do caráter histórico-dialético do processo cognoscitivo.
Ora, a problemática do ser do homem ou do ser das nações como entidades biopsíquicas, sociológicas, econômicas, étnicas, históricas, etc., enriquece-se dia a dia, multiplicando as esferas das pesquisas positivas, que, ao depois, se entrelaçam e se esclarecem reciprocamente. Mas há algo na dramaturgia dos homens, das raças, dos povos, das nações, que debalde psicólogos e geógrafos, fisiologistas e etnólogos tentarão explicar: é aquilo que assegura a cada homem e a cada povo a sua singularidade, a sua inconfundível e intocável personalidade.
Por que sou o que sou? O "porquê" estas e não aquelas inclinações e tendências marcam o meu ser pessoal, e estruturam e singularizam o meu eu, é um dado para a "problemática" de minha experiência, mas que invoca e pressupõe o "mistério" insondável de meu ser distinto e diverso, irreversível e inefável no cosmos. Consolar-se-ão os positivistas supondo que, se conhecêssemos tôdas as causas, atingiríamos a solução do problema. Mas a "totalidade das causas", o absoluto do conhecimento, a causa causarum, que nos escapa, dada a natural e invencível finitude dos horizontes ontognoseológicos, só é conjeturável como pressuposto lógico do conhecimento possível.
O certo é que, assim como os homens, também os povos se distinguem uns dos outros, por mais que os processos tecnológicos acelerem o ritmo da "massificação" e da uniformidade, — razão pela qual a filosofia não pode deixar de refletir o "gênio dos povos", expressão de que abusaram os românticos, mas que oculta uma irrenunciável verdade.
(...)
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Excerto da Comunicação para o Colóquio dos 60º Anos da Sociedade de Língua Portuguesa: 12 e 13 de Novembro, Sociedade Portuguesa de Autores (Lisboa)
LÍNGUA, FILOSOFIA E IDENTIDADE
(...)
Ao referirmos isto, pretendemos aqui apenas afirmar a nossa “diferença”, a “diferença” que, a nosso ver, é intrínseca a todas as filosofias. Não cremos, aliás, que existam filosofias falsas – todas as filosofias são expressão da “verdade”, da relativa verdade, da sua “situação”. Nessa medida, defendemos pois aqui a relativa verdade de todas as filosofias . E isto sem defendermos, propriamente, a relativização da Verdade. A este respeito, fazemos questão de transcrever as seguintes palavras de António Quadros, que subscrevemos na íntegra: “A verdade é só uma? Talvez. Mas cada homem – e mais largamente cada país, está colocado em situação diferente em relação à verdade, relação da parte para o todo, entenda-se. A verdade é só uma, mas desabrocha em infinita variedade e plasticidade. Reduzir todos os planos da paisagem a uma só, ontem o plano de Florença ou Roma, hoje o plano de Paris, amanhã o plano de qualquer outra cultura igualmente totalitária e exigente, é empobrecer as possibilidades de alargamento de compreensão universal. Pelo contrário, possibilitar o desenvolvimento de tantas estéticas quantos os países, de tantos prismas de observação e de conhecimento quantas as resultantes de um determinado circunstancialismo geográfico, étnico, psicológico, político, social e filosófico, é aumentar em número proporcional as ‘tomadas de contacto’ com a verdade.” .
E por isso acompanhamos ainda António Quadros quando este defende que “ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes”. Se o não fossem, como nos diz ainda, “teríamos todos um único horizonte, um único modo de ver e de contemplar – marcharíamos todos como carneiros, quem sabe se para o abismo?”. Eis porque, com efeito, ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes, eis porque, efectivamente, ainda bem que múltiplas e diferentes são as culturas e as filosofias – ainda nas palavras de António Quadros: “A multiplicação das culturas, a heterogeneidade dos pensadores, pelo contrário, aumenta proporcionalmente as tomadas de contacto com o Ser. A existência das filosofias nacionais garante o enriquecimento e a vivacidade das possibilidades de conhecimento dos humanos.” . Isto, como é óbvio, na premissa de que cada “filosofia nacional”, de que cada “filosofia situada”, traz, efectivamente, algo de novo, de único, isto, como é óbvio, na premissa de que cada cultura, de que cada comunidade, de que cada homem, traz, de facto, algo de singular. Mas essa é, explicitamente, a premissa de que parte António Quadros – daí ainda, a título de exemplo, estas suas palavras: “Pede-se à criatura – humana ou artística – que não se restrinja a repetir, que não aliene a sua singularidade e, mais do que isso, que acrescente à ordem de que herdou a vida: que traga mais verdade, mais justiça, mais beleza – que invente, numa palavra.” . É, aliás, por isso, precisamente, que, para este pensador, a própria “identidade portuguesa” está, ainda e sempre, em aberto – à espera que cada um de nós contribua para o seu “acabamento” .
(...)
terça-feira, 14 de julho de 2009
Ainda sobre António Quadros*
(...)
Nessa medida, defendemos pois aqui a relativa verdade de todas as filosofias. E isto sem defendermos, propriamente, a relativização da Verdade. A este respeito, fazemos questão de transcrever as seguintes palavras de António Quadros, que subscrevemos na íntegra: “A verdade é só uma? Talvez. Mas cada homem – e mais largamente cada país, está colocado em situação diferente em relação à verdade, relação da parte para o todo, entenda-se. A verdade é só uma, mas desabrocha em infinita variedade e plasticidade. Reduzir todos os planos da paisagem a uma só, ontem o plano de Florença ou Roma, hoje o plano de Paris, amanhã o plano de qualquer outra cultura igualmente totalitária e exigente, é empobrecer as possibilidades de alargamento de compreensão universal. Pelo contrário, possibilitar o desenvolvimento de tantas estéticas quantos os países, de tantos prismas de observação e de conhecimento quantas as resultantes de um determinado circunstancialismo geográfico, étnico, psicológico, político, social e filosófico, é aumentar em número proporcional as ‘tomadas de contacto’ com a verdade.”[2].
E por isso acompanhamos ainda António Quadros quando este defende que “ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes”. Se o não fossem, como nos diz ainda, “teríamos todos um único horizonte, um único modo de ver e de contemplar – marcharíamos todos como carneiros, quem sabe se para o abismo?”. Eis porque, com efeito, ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes, eis porque, efectivamente, ainda bem que múltiplas e diferentes são as culturas e as filosofias – ainda nas palavras de António Quadros: “A multiplicação das culturas, a heterogeneidade dos pensadores, pelo contrário, aumenta proporcionalmente as tomadas de contacto com o Ser. A existência das filosofias nacionais garante o enriquecimento e a vivacidade das possibilidades de conhecimento dos humanos.”[3]. Isto, como é óbvio, na premissa de que cada “filosofia nacional”, de que cada “filosofia situada”, traz, efectivamente, algo de novo, de único, isto, como é óbvio, na premissa de que cada cultura, de que cada comunidade, de que cada homem, traz, de facto, algo de singular. Mas essa é, explicitamente, a premissa de que parte António Quadros – daí ainda, a título de exemplo, estas suas palavras: “Pede-se à criatura – humana ou artística – que não se restrinja a repetir, que não aliene a sua singularidade e, mais do que isso, que acrescente à ordem de que herdou a vida: que traga mais verdade, mais justiça, mais beleza – que invente, numa palavra.”[4]. É, aliás, por isso, precisamente, que, para este pensador, a própria “identidade portuguesa” está, ainda e sempre, em aberto – à espera que cada um de nós contribua para o seu “acabamento”[5].
[2] Introdução a uma estética existencial, ed. cit., p. 13. Ao invés, “a posse total e absoluta da verdade suporia uma só língua” [cf. “Da Língua Portuguesa à Filosofia Portuguesa”, in AA.VV., Seminário de Literatura e Filosofia Portuguesas (actas), ed. cit., p. 89].
[3] A Angústia do nosso tempo e a Crise da Universidade, ed. cit., p. 35.
[4] Crítica e Verdade: introdução à actual literatura portuguesa, ed. cit., p. 269.
[5] Como ele próprio o afirmou, supomos que na sua última entrevista, publicada no Diário de Notícias de 11 de Março de 1993, “a identidade portuguesa não é, quanto a mim, qualquer coisa de estático, mas qualquer coisa a construir”.
* In Fundamentos e Firmamentos do pensamento português contemporâneo (no prelo)
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Ainda em diálogo com António Quadros: sobre "filosofias nacionais"
(...) não pretendemos pois aqui refutar nenhuma filosofia, nem, muito menos, afirmar a nossa pretensa “superioridade”. Pretendemos aqui apenas afirmar a nossa “diferença”, a “diferença” que, a nosso ver, é intrínseca a todas as filosofias. Não cremos, aliás, que existam filosofias falsas – todas as filosofias são expressão da “verdade”, da relativa verdade, da sua “situação”. Nessa medida, defendemos pois aqui a relativa verdade de todas as filosofias . E isto sem defendermos, propriamente, a relativização da Verdade. A este respeito, fazemos questão de transcrever as seguintes palavras de António Quadros, que subscrevemos na íntegra: “A verdade é só uma? Talvez. Mas cada homem – e mais largamente cada país, está colocado em situação diferente em relação à verdade, relação da parte para o todo, entenda-se. A verdade é só uma, mas desabrocha em infinita variedade e plasticidade. Reduzir todos os planos da paisagem a uma só, ontem o plano de Florença ou Roma, hoje o plano de Paris, amanhã o plano de qualquer outra cultura igualmente totalitária e exigente, é empobrecer as possibilidades de alargamento de compreensão universal. Pelo contrário, possibilitar o desenvolvimento de tantas estéticas quantos os países, de tantos prismas de observação e de conhecimento quantas as resultantes de um determinado circunstancialismo geográfico, étnico, psicológico, político, social e filosófico, é aumentar em número proporcional as ‘tomadas de contacto’ com a verdade.” .
E por isso acompanhamos ainda António Quadros quando este defende que “ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes”. Se o não fossem, como nos diz ainda, “teríamos todos um único horizonte, um único modo de ver e de contemplar – marcharíamos todos como carneiros, quem sabe se para o abismo?”. Eis porque, com efeito, ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes, eis porque, efectivamente, ainda bem que múltiplas e diferentes são as culturas e as filosofias – ainda nas palavras de António Quadros: “A multiplicação das culturas, a heterogeneidade dos pensadores, pelo contrário, aumenta proporcionalmente as tomadas de contacto com o Ser. A existência das filosofias nacionais garante o enriquecimento e a vivacidade das possibilidades de conhecimento dos humanos.” . Isto, como é óbvio, na premissa de que cada “filosofia nacional”, de que cada “filosofia situada”, traz, efectivamente, algo de novo, de único, isto, como é óbvio, na premissa de que cada cultura, de que cada comunidade, de que cada homem, traz, de facto, algo de singular. Mas essa é, explicitamente, a premissa de que parte António Quadros – daí ainda, a título de exemplo, estas suas palavras: “Pede-se à criatura – humana ou artística – que não se restrinja a repetir, que não aliene a sua singularidade e, mais do que isso, que acrescente à ordem de que herdou a vida: que traga mais verdade, mais justiça, mais beleza – que invente, numa palavra.” . É, aliás, por isso, precisamente, que, para este pensador, a própria “identidade portuguesa” está, ainda e sempre, em aberto – à espera que cada um de nós contribua para o seu “acabamento” .
*Excerto de Fundamentos e Firmamentos do Pensamento Português Contemporâneo (no prelo)