A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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domingo, 9 de janeiro de 2011

Agostinho da Silva e a CPLP



"Se a Comunidade por vontade política só foi passada ao papel rubricado dos tratados internacionais no ano de 1996, culturalmente falando ela estava criada desde os finais da década de cinquenta, no momento em que Agostinho e Judite Cortesão se separam em Santa Catarina.

Assim, quando Agostinho da Silva funda em 1959 na Bahia o CEAO (Centro de Estudos Afro-Orientais), e depois em Brasília o CBEP (Centro Brasileiro de Estudos Portugueses), passando daí a condicionar positivamente a política externa de Jânio Quadros, a CPLP é já o pano de fundo em que se move qualquer destas acções. Só a política cega e violentamente colonialista do governo português da época, bem como o golpe militar de Abril de 1964 no Brasil, adiaram por trinta anos a sua efectivação factual. Não deixa de ser altamente significativo que o estratega que foi capaz de levar a CPLP ao papel, José Aparecido de Oliveira, tenha sido o mesmo que trinta e cinco anos antes secretariou Jânio Quadros, tendo sido ele que mediou os encontros entre este e o autor de Reflexão."

António Cândido Franco, ESTADOS GERAIS DA LUSOFONIA

(excerto; a publicar na íntegra no próximo número da NOVA ÁGUIA)

domingo, 31 de outubro de 2010

Declaração MIL sobre a eleição de Dilma Rousseff



Não tendo tomado posição nas eleições presidenciais brasileiras, o MIL: Movimento Internacional Lusófono saúda a eleição de Dilma Rousseff, a primeira mulher a ser eleita para o mais alto cargo político brasileiro.

Esperamos que dê continuidade aos aspectos mais positivos do mandato do seu antecessor, Lula da Silva – em particular, o combate às desigualdades sociais, ainda tão gritantes neste nosso país irmão.

Esperamos igualmente que reforce a aposta na CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, onde o Brasil, dada a sua cada maior importância geo-estratégica à escala global, tem decerto um papel decisivo.

MIL: Movimento Internacional Lusófono
www.movimentolusofono.org

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Declaração MIL sobre a VII Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa

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O MIL saúda a realização da VII Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), que decorreu em Luanda, na passada sexta-feira, 23 de Julho, fazendo votos para que Angola, que sucedeu a Portugal na Presidência da CPLP, dinamize esta instituição tão vital para a difusão e consolidação da Lusofonia no mundo. Um bom sinal foi já a nomeação do diplomata Júlio Hélder Moura Lucas como embaixador extraordinário angolano junto da CPLP. A esse respeito, recordamos o papel do embaixador extraordinário brasileiro junto da CPLP, Lauro Moreira, por nós homenageado como a Personalidade Lusófona de 2009.

Sabemos que a aposta CPLP não tem sido, até hoje, uma prioridade estratégica da maior parte dos países da comunidade lusófona, mas há sinais de que essa situação está, finalmente, a mudar. A própria CPLP, apesar dos poucos meios operacionais de que continua a dispor, tem-se tornado cada vez mais atractiva: prova disso é o interesse manifestado por diversos países em se vincularem a esta Comunidade. Sintoma inequívoco da cada vez maior importância da Lusofonia à escala global – no plano cultural, mas também económico, social e político.

Quanto às conclusões desta Cimeira, saudamos a prioridade dada à lusofonia e à expansão do português como língua, no seguimento do Plano de Acção de Brasília, que prevê a introdução do português nas Nações Unidas e respectivas agências, bem como parcerias com as organizações regionais e sub-regionais integrados pelos Estados-membros. Saudamos também o tanto se ter falado de “cidadania lusófona”, esperando, contudo, que este conceito, por nós tão reiteradamente defendido, tenha alguma concretização substantiva – nomeadamente, através da criação do Passaporte Lusófono, prefigurado em vida por Agostinho da Silva, em prol da livre circulação no Espaço da Lusofonia. Saudamos ainda a decisão, tomada por consenso, de não aceitar, de imediato, a adesão da Guiné Equatorial, dado o seu défice em dois requisitos fundamentais: ser um País Lusófono e um Estado de Direito.

Por outro lado, lamentamos que, uma vez mais, a CPLP não tenha dado uma resposta efectiva à dramática situação que se vive na Guiné-Bissau. A esse respeito, apesar do MIL apoiar a candidatura presidencial do Doutor Fernando Nobre, não podemos deixar de registar positivamente a Declaração do também candidato presidencial português Manuel Alegre, que defendeu “a necessidade de uma componente militar para a CPLP, que permitiria até resolver alguns problemas que têm surgido na Guiné-Bissau sem que sejam forças fora da comunidade a terem interferência nisso”. Recordamos que o MIL tem defendido, de forma reiterada, a criação de uma “Força Lusófona de Manutenção de Paz”, tendo já, inclusive, lançado uma Petição a esse respeito:

http://www.petitiononline.com/mil1001/petition.html

MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO

www.movimentolusofono.org

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Os logros da suposta lusofonia

"Muitos Estados falhados de África são o resultado das políticas de dominação que lhes foram impostas pelo imperialismo colonial e o seu sucedâneo actual, o tráfico de droga e os outros tráficos nojentos em que assenta muito da economia especulativa mundial que, no seu amplexo de anaconda, constitui um dos esteios da actual configuração do mundo globalizado. E os conflitos étnicos são alimentados por essas políticas de dominação conduzidas por pessoas desenraizadas e corrompidas pelo poder do dinheiro e pelo dinheiro do poder.

Que a morte, a fome, a miséria, o sofrimento, o sem-futuro, das crianças de Angola, por exemplo, venha aos mercados lusófonos comprar acções de empresas-chave da economia globalizada é apenas um reflexo natural deste estado de coisas. Confundir a lusofonia com isto não é só um logro histórico, é participar de forma activa na sua manutenção e legitimação.

Vistas as coisas deste prisma, a CPLP acaba por ser uma estrutura de legitimação do terrorismo de Estado e da cleptocracia que o olhar hipócrita da diplomacia vê como emergência da democracia. Isto consuma a destruição da Cultura como elevação de todos os homens à condição de senhores do mundo e como comunhão universal do fluxo da Vida que a tudo engloba. E é nisto que em verdade consiste a Cultura: a exaltação de cada um, a elevação de todos, a resistência à opressão e à criação de desigualdades acéfalas"

- Paulo Feitais, "A lusofonia não é lusófona, mas universal", Cultura ENTRE Culturas, nº1 (Lisboa, 2010).

arevistaentre.blogspot.com

terça-feira, 9 de março de 2010

Estatuto do Cidadão Lusófono ainda é complicado para Angola

O deputado da Assembleia Nacional de Angola, Cristóvão da Cunha, reconheceu, sábado, em Lisboa, que vai ser muito difícil a adopção de um Estatuto do Cidadão Lusófono na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), mas assegurou que os Estados estão a trabalhar para que isso seja possível.
Em declarações à imprensa angolana que cobre a Assembleia Parlamentar da CPLP, Cristóvão da Cunha, que integra a delegação angolana que participa na reunião, admitiu também não ser matéria fácil o Acordo Ortográfico e a criação de um Estatuto do Cidadão Lusófono, principalmente para países que acabaram de sair de um longo período de conflito interno, como é o caso de Angola.
Depois da primeira Assembleia Parlamentar da CPLP, em Abril do ano passado, em São Tomé, foram criados dois grupos técnicos para tratar das questões do Acordo Ortográfico e do Estatuto do Cidadão Lusófono.
Cristóvão da Cunha lembrou que, até ao momento, Angola não apresentou uma proposta de Estatuto do Cidadão Lusófono porque estava dependente da aprovação de uma nova Constituição. “É preciso que os cidadãos da CPLP entendam que estamos em presença de uma comunidade de países soberanos, cujos governos, por si só, não podem ditar, por exemplo, o Estatuto do Cidadão Lusófono. É preciso que os parlamentos se pronunciem”, esclareceu o deputado, antes de assegurar que as casas das leis dos Estados membros estão a trabalhar sobre o assunto.
Um grupo técnico foi criado na CPLP para encontrar, em cada um dos Estados, aspectos comuns que facilitem a concepção do Estatuto do Cidadão Lusófono. “Reconhecemos que não estamos em presença de uma matéria de fácil tratamento. É uma matéria que deve ser bem cuidada, principalmente para os países que acabaram de se libertar de uma guerra, como é o caso de Angola. Mas os cidadãos lusófonos podem acreditar que é uma matéria que está a ser estudada e poderemos ter uma saída airosa”, concluiu Cristóvão da Cunha.
O Acordo Ortográfico e o Estatuto do Cidadão Lusófono estão na agenda da II Assembleia Parlamentar da CPLP, que começa amanhã no Palácio de São Bento, sede da Assembleia da República (Parlamento) portuguesa. O presidente da Assembleia Nacional, António Paulo Kassoma, está já em Lisboa para chefiar a delegação angolana à II Assembleia Parlamentar da CPLP que inicia hoje. A comitiva angolana é integra pelos deputados Cristóvão da Cunha, do MPLA e Lukamba Paulo “Gato”, da UNITA.
A sessão solene de abertura é antecedida de cumprimentos e assinatura do livro de honra no Secretariado Executivo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Às 13 horas, o presidente da Assembleia da República portuguesa, Jaime Gama, oferece um almoço aos seus homólogos, para duas horas mais tarde manterem um encontro.

O discurso de abertura é proferido por Francisco da Silva, presidente cessante da Assembleia Parlamentar da CPLP e líder da Assembleia Nacional de São Tomé e Príncipe. Como anfitrião, Jaime Gama, que assume a nova presidência da Assembleia Parlamentar, dá as boas-vindas aos delegados. Depois da sessão de abertura, o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, vai dissertar sobre os “Desafios e horizonte da Presidência Portuguesa da CPLP”.
A sessão plenária do primeiro dia tem como tema “A CPLP e a situação política e económica e internacional” e tem como oradores o presidente da Câmara dos Deputados Brasileiros e o governador do Banco de Portugal.
Durante a plenária de amanhã, o presidente da Assembleia Nacional de Angola, Paulo Kassoma, vai falar do “Reforço da Cooperação no âmbito da CPLP”. Fazem parte da CPLP, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Publicado no MILhafre:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/03/estatuto-do-cidadao-lusofono-ainda-e.html

domingo, 7 de março de 2010

Entrevista de Domingos Simões Pereira secretário executivo da CPLP

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"Português está a tornar-se uma mais-valia económica"

por Abel Coelho de Morais

A CPLP está em movimento e a ganhar peso a nível internacional, defende o seu secretário executivo, Domingos Simões Pereira, que destaca, por outro lado, alguns passos na consolidação interna nesta comunidade de oito Estados.

Principia amanhã em Lisboa a Assembleia Parlamentar da CPLP – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Que matérias vão ser abordadas?

A Assembleia Parlamentar da CPLP é um órgão novo, criado em Abril de 2009 e esta é primeira reunião de trabalho. Espera-se que os participantes façam um ponto da situação no domínio da legislação e que reflictam sobre o papel que podem desempenhar numa organização multilateral. Espera-se que abordem a questão de circulação de pessoas e de cidadania. Está na mesa a aprovação do estatuto de cidadão da CPLP e a abertura das fronteiras no espaço da comunidade...

O que implicaria a harmonização de legislações...

Pelo menos que cada um dos países fizesse as adaptações necessárias nas suas leis de forma a não comprometer a promulgação do estatuto de cidadão da CPLP.

Ainda nesta semana decorre em Lisboa a reunião dos pontos focais. Que projectos de cooperação mais relevantes estão a ser desenvolvidos? Este mecanismo de cooperação não entra em choque com os projectos bilaterais de cooperação?

A reunião discute a aprovação de projectos e todos os mecanismos de cooperação que os oito Estado entendem levar em conjunto. Quanto à segunda questão, um projecto é considerado válido para o conjunto dos Estados membros se merecer o consenso dos oito. Fizemos uma revisão do aproveitamento dessas oportunidades e concluímos que falta alguma articulação entre os Estados membros e também aproveitamento de sinergias. Por exemplo, as lições aprendidas num país nem sempre são utilizadas noutro; por outro lado, o Secretariado deveria apoiar mais e assistir o processo de identificação até à implementação dos projectos. Mas não há riscos de colisão com projectos bilaterais; em nenhum momento a CPLP se posiciona para concorrer a programas de carácter bilateral.

Quais são neste momento os principais pontos focais?

Aquilo que representar o interesse dos oito passa a entrar na agenda CPLP. Encontra-se na lista de projectos uma variedade muito grande, desde a área ambiental à nossa ligação ao PAM, programas na área da saúde, nomeadamente o plano estratégico de cooperação para a saúde.

Que se concretiza de que forma?

Cada um dos Estados tem sempre uma mais valia. Por exemplo, no caso do dengue, por razões infelizes, Cabo Verde acumula toda uma memória relacionada com esta doença, mas que é um contributo a nível mundial e, em especial, entre os Estados da CPLP, ao nível da prevenção, tratamento e identificação. Quem acompanhou a situação em Cabo Verde, apercebeu-se que o principal problema foi chegar ao diagnóstico correcto, e isto hoje está adquirido devido ao trabalho feito em Cabo Verde. E é um património adquirido para todos.

No capítulo da saúde, a CPLP realiza a partir de 16 de Março em Lisboa o 3.º Congresso sobre sida. Esta é uma prioridade da organização?

Tem havido desde 2000 atenção ao tema e a partir de 2009 passámos a ter um plano estratégico, sendo objectivo do congresso estabelecer um programa de intervenção...

Com medidas práticas?

Sem dúvida. Por exemplo, o Brasil decidiu apoiar a criação de um laboratório para o fabrico de antiretrovirais em Moçambique. O mesmo esforço está a ser feito em Cabo Verde pelo Brasil como parte da CPLP, disponibilizando meios para um objectivo comum importante: cada mais-valia criada irradia para todos os membros.

Ainda em Março decorre em Lisboa a 1.ª Reunião dos Ministros dos Mar da CPLP. Espera-se a aprovação da estratégia dos Oceanos que está em discussão?

Essa reunião vai abordar o documento e espera-se a formulação de uma visão estratégica para a gestão dos nossos recursos marítimos. Isto não vai salvar a totalidade destes recursos, mas cada um dos Estados membros vai ter um conhecimento claro do que está em jogo.

Os oceanos não são apenas uma questão económica, são também um factor estratégico e diplomático. Essa é uma dimensão contemplada?

Todos os domínios estão em consideração. O domínio diplomático é importante e quando dispomos de um organismo multilateral como a CPLP, devemos fazer uso desta para entendermos as questões e pesarmos mais nos conflitos que possam surgir. Por outro lado, pretende-se que haja uma visão estratégica concertada entre os oito deste património que são os oceanos.

Essa visão estratégica tem de passar também pela afirmação do português nas organizações internacionais, na ONU por exemplo, e no reforço do ensino do português nos Estados membros?

A utilização do português na ONU é uma exigência e não posso deixar de referir o particular esforço feito pelos Chefes de Estado, tendo o Presidente Cavaco Silva à cabeça, quando em 2008, à margem da 63.ª Assembleia Geral promoveu um encontro para debater o tema. Assisti ao encontro e posso dizer que os Presidentes questionaram de forma directa os embaixadores da ONU sobre as estratégias a seguir e entraram em detalhes específicos para saber como colocar o português como língua oficial da ONU. Na 63.ª Assembleia Geral, como na 64.ª, todos os Presidentes falaram em português.

Mas esse objectivo continua distante?

Não podemos olhar apenas às Assembleias Gerais da ONU. A utilização do português já se verifica em organizações regionais como a União Africana, mas não basta isso. O problema é que chegamos às reuniões e, por vezes, não há tradutores.

Como ultrapassar esse problema?

A solução passa pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), que está em fase de reestruturação e uma das vertentes a privilegiar é a formação de tradutores.

Que papel pode ter o IILP na afirmação do idioma comum no mundo?

Achei muito interessante uma constatação feita por um especialista inglês em que este afirmava que a maioria das línguas quer concorrer com o inglês, quando isso já não faz sentido. O inglês é algo básico. Assim, devemos pensar, em termos da CPLP, que aquele que recruta no mercado de trabalho procura para além do inglês. O português tem uma oportunidade muito grande; além do número de pessoas que o falam, é a sua localização geográfica em todos os continentes. E há coisas extraordinárias, por exemplo, no Senegal, há permanentemente 15 mil pessoas a aprenderem o português...

Por motivos económicos....

Ainda bem que é assim. Isto significa que temos algo que desperta a atenção dos mercados. O português está a tornar-se uma mais-valia económica. E podemos falar disso com mais propriedade: em 2009, o Instituto Camões promoveu um estudo sobre o valor económico da língua e concluiu que 17% do Produto Interno Bruto de Portugal está relacionado com ganhos da língua. São transacções económicas dependentes da língua. Por isso, é importante que os decisores e a sociedade civil entendam que a língua não é só uma questão de nostalgia, de afecto, é mais do que isso, são ganhos económicos efectivos. E ainda há muito que não sabemos aproveitar, por exemplo, os Estados da CPLP continuam em muitos casos a praticar a dupla tributação, continuamos a ter problemas com a exportação de capitais, não temos liberdade de circulação generalizada de pessoas que procuram trabalho. Por exemplo, pode existir aqui mão-de-obra em excesso enquanto essa mesma especialidade falta num outro Estado e não temos uma solução para isso no âmbito da CPLP.

O Brasil é actualmente membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas; Portugal prepara uma candidatura. Seria importante a CPLP ter sempre um membro presente neste órgão da ONU?

Seria excelente. Uma das coisas que a CPLP tem conseguido nos últimos é a concertação política de esforços, seja a nível da ONU seja a nível das organizações regionais, seja ao nível de candidaturas a cargos de entidades internacionais, é importante compreendermos que valemos mais quando falamos a uma só voz. Oito votos é um peso importante em reuniões internacionais e não é por acaso que a Austrália, Marrocos, a Ucrânia e a Indonésia, por exemplo, procuram a aproximação à CPLP. O princípio de que uma oportunidade para um é uma oportunidade para todos, é algo a preservar. Por exemplo, Angola e Brasil foram convidados a estarem presentes na recente reunião do G20 e pouco depois vimos a Guiné-Bissau a presidir a uma Assembleia Geral da ONU. Quem é que nos diz que uma coisa não teve a ver com a outra?

Publicado no MILhafre:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/03/entrevista-de-domingos-simoes-pereira.html

sábado, 13 de fevereiro de 2010

NOS 104 ANOS DE AGOSTINHO DA SILVA


No dia em que faria 104 anos, o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO evoca Agostinho da Silva, um dos maiores inspiradores da CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA, um dos maiores mentores da criação de uma verdadeira Comunidade Lusófona, alguém que, de forma coerente e consequente, pensou e agiu em prol desse Horizonte. Daí, a título de exemplo, a sua defesa do Passaporte Lusófono, uma das causas mais reconhecivelmente agostinianas, que ele defendeu ainda em vida, em prol da livre circulação das pessoas em todo o espaço lusófono – causa que, entre muitas outras, o MIL tem também assumido de forma expressa.
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O MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO é um movimento cultural e cívico que conta já com mais de dois milhares adesões, de todos os países da CPLP.
Se quiser aderir ao MIL, basta enviar um e-mail:
adesao@movimentolusofono.org
Indicar: nome, e-mail e área de residência.
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MIL-COMISSÃO EXECUTIVA:António José Borges, Casimiro Ceivães, Eurico Ribeiro, José Pires F., Renato Epifânio (porta-voz) e Rui Martins.
MIL-CONSELHO CONSULTIVO:Alexandre Banhos Campo (Galiza), Amândio Silva (Portugal), Amorim Pinto (Goa), Artur Alonso Novelhe (Galiza), Carlos Frederico Costa Leite (Brasil), Carlos Vargas (Portugal), Fernando Sacramento (Portugal), Francisco José Fadul (Guiné-Bissau), Jorge Ferrão (Moçambique), Jorge da Paz Rodrigues (Portugal), José António Sequeira Carvalho (Portugal), José Jorge Peralta (Brasil), José Luís Hopffer Almada (Cabo Verde), José Manuel Barbosa (Galiza), Lúcia Helena Alves de Sá (Brasil), Luís Costa (Timor), Luísa Timóteo (Malaca), Manuel Duarte de Sousa (Angola), Miguel Real (Portugal), Miriam de Sales Oliveira (Brasil), Nuno Rebocho (Portugal), Octávio dos Santos (Portugal), Paulo Daio (São Tomé e Príncipe), Paulo Pereira (Brasil) e Vitório Rosário Cardoso (Macau).

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A CPLP e a diversidade

Gilvan Müller de Oliveira (UFSC)

O Conselho de Ministros da CPLP, a Comunidade dos Países da Língua Portuguesa, solicitou ao Brasil que realize a Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial em Brasília, no final de março e início de abril de 2010. Esta conferência tentará focalizar estratégias conjuntas para a chamada promoção da língua, hoje realizada de maneira separada por Portugal e Brasil, e em menor monta pelos outros países da comunidade, com poucas áreas efetivas de cooperação.

A CPLP é um organismo internacional criado em 1997 por iniciativa do Brasil, e que aglutina todos os países que tem o português como língua oficial: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Ou seja, aglutina países em 4 continentes: América, Europa, África e Ásia. Recentemente um nono país oficializou também o português, a Guiné Equatorial, situada no Golfo da Guiné e grande exportador de petróleo, o único país falante de espanhol da África. A Guiné Equatorial pediu sua filiação à CPLP e aguarda a resposta dos países-membros.

O objetivo máximo da Conferencia será o de conceber estratégias que viabilizem ao português passar a ser língua das Nações Unidas, em pé de igualdade com o inglês, o francês, o espanhol, o chinês, o russo e o árabe.

Para que isso possa acontecer dentro de um quadro político contemporâneo, entretanto, é preciso que a promoção do português já não seja vista como a continuidade de políticas de eliminação das outras línguas faladas no espaço da CPLP, e que, grosso modo, ultrapassa o número de 300.

Especialmente nos países de língua oficial portuguesa da África, os PALOPs, fala-se em promoção externa mas também em promoção interna da língua portuguesa, já que uma parte significativa dos cidadãos de Moçambique, Guiné Bissau ou Cabo Verde, para citar apenas alguns, não falam a língua oficial do país.

O português sairá fortalecido neste âmbito da promoção interna da língua se a conferência puder recomendar, com êxito, políticas em que o conhecimento do português não signifique o abandono das demais línguas, e sim um bilinguismo aditivo, no qual o individuo possa utilizar adequadamente as suas línguas, em âmbitos específicos

Para estes casos a UNESCO recomenda, desde 1958, a educação bilíngue, em que duas línguas sejam utilizadas ativamente na escola como línguas de ensino. Para isso, é necessário preparar as outras línguas do espaço da CPLP, muni-las de alfabetos, elaborar normas escritas, para que elas possam funcionar na escola. Para que o ensino bilíngue seja viável é preciso criar o quadro jurídico adequado para a ofilcialização das línguas nacionais, como elas são chamadas nos países da CPLP (menos no Brasil).

De todos os países de língua oficial portuguesa há apenas um oficialmente bilíngue, o jovem Timor Leste, onde o tetum e o português compartilham este espaço jurídico. O Brasil tem já dois municípios oficialmente bilíngues, São Gabriel da Cachoeira (AM) e Santa Maria de Jetibá (ES). Portugal, seguindo a Carta Europeia das Linguas, reconheceu estatuto de oficialidade ao mirandês em região próxima à fronteira com a Espanha. Por outro lado, Cabo Verde acabou de postergar mais uma vez a oficialização do Kaboverdianu, língua falada por toda a população, num momento, como o atual, em que se realiza uma reforma constitucional que permitiria a normalização linguística do país com relativa facilidade.

Neste quadro, é interessante que a Conferência Internacional sobre O Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial conceba instrumentos modernos de gestão de todas as línguas do espaço da CPLP, línguas parceiras do português, para usar um conceito já instalado na francofonia, o de ‘langues partenaires’.

Afinados com as políticas contemporâneas de direitos culturais e linguísticos, os países da CPLP poderão promover com mais propriedade a língua portuguesa. É uma cidadania forte, que possa se relacionar com o português como um direito, e não como uma obrigação (quase) colonial, o que fará a língua portuguesa entrar pela porta da frente no clube das grandes línguas do século XXI.

Publicado no MILhafre:

http://mil-hafre.blogspot.com/2010/01/cplp-e-diversidade.html

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

PERSONALIDADE LUSÓFONA DO ANO (2009)

O MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO elege todos os anos a personalidade que, no nosso entender, mais contribuiu para a convergência lusófona. A personalidade que elegemos referente ao ano de 2009 é a do Embaixador brasileiro junto da CPLP, Lauro Moreira.

Fazemo-lo em reconhecimento de todo o seu trabalho em prol da dinamização da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Para além deste seu cargo, que estás prestes a abandonar por limite de idade, Lauro Moreira foi ainda responsável pela ABC (Agência Brasileira de Cooperação), Embaixador em Marrocos e Coordenador nas Comemorações dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil. Em todos esses cargos demonstrou sempre um grande empenhamento no reforço dos laços entre os países lusófonos.

MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (http://www.movimentolusofono.org/)

P.S.: Caso queira participar no processo de eleição da PERSONALIDADE LUSÓFONA DO ANO (2010), deverá sugerir-nos um nome até 01.12.10, com a devida justificação.

--
MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (www.movimentolusofono.org)
(blogue: www.mil-hafre.blogspot.com)
(facebook: http://www.facebook.com/group.php?gid=2391543356)

O MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO é um movimento cultural e cívico que conta já com mais de dois milhares de adesões, de todos os países da CPLP.

Se quiser aderir ao MIL, basta enviar um e-mail: adesao@movimentolusofono.org
Indicar: nome, e-mail e área de residência.

MIL-COMISSÃO EXECUTIVA:António José Borges, Casimiro Ceivães, Eurico Ribeiro, José Pires F., Renato Epifânio (porta-voz) e Rui Martins.

MIL-CONSELHO CONSULTIVO:Alexandre Banhos Campo (Galiza), Amândio Silva (Portugal), Amorim Pinto (Goa), Artur Alonso Novelhe (Galiza), Carlos Frederico Costa Leite (Brasil), Carlos Vargas (Portugal), Fernando Sacramento (Portugal), Francisco José Fadul (Guiné-Bissau), Jorge Ferrão (Moçambique), Jorge da Paz Rodrigues (Portugal), José António Sequeira Carvalho (Portugal), José Jorge Peralta (Brasil), José Luís Hopffer Almada (Cabo Verde), José Manuel Barbosa (Galiza), Lúcia Helena Alves de Sá (Brasil), Luís Costa (Timor), Luísa Timóteo (Malaca), Manuel Duarte de Sousa (Angola), Miguel Real (Portugal), Miriam de Sales Oliveira (Brasil), Nuno Rebocho (Portugal), Octávio dos Santos (Portugal), Paulo Daio (São Tomé e Príncipe), Paulo Pereira (Brasil) e Vitório Rosário Cardoso (Macau).

Com os melhores votos para o ano de 2010!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Texto que nos chegou...

ASSENSO DA FÉ:
O PORTUGUÊS COMO LÍNGUA OFICIAL NOS QUATRO CONTINENTES
[1]

Enilde Faulstich[2]


No Sermão de Santo Antônio, também conhecido como “Sermão de Santo Antônio aos peixes”, pregado na cidade de São Luís do Maranhão, no ano de 1654, o Padre Vieira escreve uma alegoria - um tipo de metáfora - por meio da qual compara uma realidade de caráter abstrato com uma expressão concreta, visível, a fim de atingir uma percepção plástica do objeto, uma personificação daquilo que não é pessoa. Neste Sermão, Vieira louva que “ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.”[3] – eis uma das alegorias, se não a principal, do Sermão citado.
Em continuação diz Vieira que:

Oh grande louvor verdadeiramente para os peixes, e grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a António[4], querendo-o lançar da terra, e ainda do mundo, se pudessem, porque lhes repreendia seus vícios, porque lhes não queria falar à vontade, e condescender com seus erros, e no mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à sua voz, atentos, e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio, e com sinais de admiração e assenso (como se tivessem entendimento) o que não entendiam. Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados, e no mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem razão.[5]

Bem, fizemos um recuo no tempo — fomos ao séc. XVII — para, a partir dessa alegoria de Vieira, estabelecer uma conversa política — de Política Linguística, melhor ainda, de Política da Língua Portuguesa. Vejamos.
A chegada dos portugueses aos portos, tocados pelos navegantes, criou o mundo da Língua Portuguesa transplantada, em que, por meio de missões, a língua foi implantada. Depois disso, criados os Estados nacionais, o Português desenhou o espaço geopolítico do que seria a Lusofonia no mundo. Séculos já decorridos, as Nações constituídas por embates internacionais e locais fixaram comunidades de fala, com línguas resistentes, que não se deixaram assimilar pela política missionária que tomou conta da terra, onde passaram a habitar nativos e portugueses. Mesmo subjugado ao veio capitalista dos colonizadores, cada um dos Estados se manteve original e, assim, angolano, caboverdiano, bissau-guineense, moçambicano e santomeense são africanos, brasileiro é sul-americano, timorense é asiático e português é europeu. Ninguém virou o outro, e, tampouco, os outros viraram um. O certo é que, na contemporaneidade, uma forma de aproximar culturas de povos que tão distantes vivem surgiu da vontade política do Brasil a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — CPLP —, constituída por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Talvez essa tenha sido motivada por uma nova intenção de reinterpretar Lusofonia, nos moldes dos blocos de economia política, que vigem no mundo. No entanto, duas questões, que procuraremos relacionar, direta ou indiretamente, ao título desta palestra, merecem nossa reflexão. A primeira questão que trazemos à mesa do debate é se a CPLP é uma comunidade de assenso. E a segunda, tomando de empréstimo a alegoria do PE. Antônio Vieira, é saber se nós, participantes da CPLP, somos PEIXES.
Assenso, relembremos, quer dizer concordância, consentimento, adesão mental, e, ainda, do ponto de vista da filosofia moderna, aceitação da verdade de uma proposição. Isso posto, concordamos que a CPLP é uma comunidade de assenso. Mas, para além desse sentido genérico, cabe questionar se a CPLP é uma comunidade de assenso de fé ou de assenso pela fé. Eis que continuamos com a questão aberta. Adiantemos que não estamos fazendo um jogo de palavras, mas querendo discutir a ordem política da CPLP, por meio do papel que a Língua Portuguesa representa no Estado supranacional em que está inserida e que tem efeitos significativos na cultura de cada país da Comunidade. Para melhor esclarecer o que queremos aqui dizer, retomemos os estatutos da CPLP.
Nos Estatutos da CPLP, documento originário do ato de criação, três são os objetivos gerais: 1) «concertação político-diplomática entre os seus Membros em matéria de relações internacionais, nomeadamente para o reforço de sua presença [da CPLP] nos fóruns internacionais»; 2) «a cooperação, particularmente nos domínios económico, social, cultural, jurídico e técnico-científico»; 3) «a materialização de projectos de promoção e difusão da Língua Portuguesa»[6]. Nosso entendimento é o de que até o momento a língua portuguesa no espaço da CPLP tem sido muito mais uma representante da latinidade do que da lusofonia. A distinção se faz justamente pelo plurilinguismo de cada um dos países, em que uma língua de origem latina — o português — se mantém no contraste e no contato com línguas não latinas, de tal forma que a CPLP não sabe muito bem o que fazer com a promoção e a difusão da Língua Portuguesa. Para que a CPLP materialize, de fato, o uso da língua portuguesa, a “implantação” da Língua deverá ser maior do que a “difusão” e do que a “promoção”, sob pena de se manter como uma metáfora, uma alegoria, em que os “comunitários” são “peixes de duas boas qualidades: ouvem e não falam.”
O que temos visto para a promoção e difusão da língua são projetos que falam sobre a língua portuguesa e sobre as línguas locais, mas não vemos a execução de projetos de ensino e de aprendizagem que levem os cidadãos a exercitarem a fala em Língua Portuguesa, na variedade do Estado, e nas variantes resultantes, bem como em línguas locais, ao lado do português. Projetos operacionais de fala e de escrita implantarão o bilinguismo ou o plurilinguismo necessário, desde que fundamentados na linguística das línguas e executados por linguistas que saibam o que precisa ser feito. No âmbito dessas reflexões, é preciso compreender que, do ponto de vista de política de língua, o binômio Estado-Nação não funciona, porque o Estado, que contém o conceito de Nação, possui soberania como país, com estrutura e organização política próprias, com controle financeiro e administração autônomos. Por sua vez, a Nação é percebida na abstração de território, que tem limites definidos e símbolos nacionais exclusivos, que sobrelevam o espírito cívico e, de certo, cultural. Entre estes símbolos, se encontram as línguas, sejam elas quais forem. Cabe inserir, ainda, nesse conjunto de conceitos, o de política linguística, que, no dizer de Calvet[7], é o conjunto de escolhas conscientes no que diz respeito às relações entre língua(s) e vida social.
Para finalizar, retornemos à questão posta anteriormente: a CPLP é uma comunidade de assenso de fé ou de assenso pela fé?
Digamos que, até então, como língua oficial nos quatro continentes, o Português mantém uma Comunidade de assenso pela fé, quando deve, pelos princípios sociais, históricos, linguísticos, políticos e comunitários, manter o assenso de fé, porque, enquanto aquele (pela fé) é um caminho, este (de fé) materializa a constituição do objeto de análise. A CPLP é, pela sua natureza, um importante veículo de manutenção do vigor da Língua Portuguesa nos quatro continentes. Porém, as qualidades de promoção e difusão, enunciadas em um dos objetivos gerais, precisam, de fato, fazer parte de um escopo funcional cujos fundamentos sejam capacitar os indivíduos a falar e a escrever não só em português, mas também nas primeiras línguas, porque estas se desenvolvem naturalmente, no processo de aquisição da linguagem, que não pode se perder, tendo em vista que é a linguagem que mantém as especificidades culturais de cada povo.

Referências bibliográficas

CALVET, Louis-Jean. Le marché aux langues. Les effets linguistiques de la mondialisation. Paris, Plon, 2002
CHACON, Vamireh. A grande Ibéria. Convergências e divergências de uma tendência. São Paulo/Brasília: UNESP/Paralelo 15, 2005
FAULSTICH. Enilde. Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: um lugar de falas múltiplas. In: SARAIVA, J. F. S. (org.) Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Solidariedade e Ação Política. Brasília: IBRI, 2001, p. 105-43
FAULSTICH, Enilde. A língua portuguesa como fator de integração. A cooperação na área de educação. In: CARDIM, C. H. e CRUZ, J. B. (orgs.). CPLP: Oportunidades e Perspectivas. Brasília, FUNAG, IPRI, Col. Países e Regiões, 2002, p. 279-298
FAULSTICH, Enilde. A dinâmica do plurilinguismo na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. In: MOTA, K. e SCHEYERL, D. (orgs.). Espaços Lingüísticos: Resistências e Expansões. Salvador: EDUFBA, 2006, p. 179-206
FIRMINO, Gregório. A “questão linguística da África pós-colonial: o caso do português e das línguas autóctones em Moçambique. Moçambique, Promédia, 2002
MARTINS, Estevão C. de Rezende. Consciência histórica, práxis e cultura. Transformações na Europa da integração da segunda metade do século XX. In: SZESZ, C. M.; RIBEIRO, M. M. T.; BRANCATO, S. M. L ; LEITE, R. L.; ISAIA, A. C. (orgs.). Portugal-Brasil no século XX: sociedade, cultura e ideologia. Bauru, SP, EDUSC, 2003, p. 403-442
SIGUAN, Miquel. A Europa das línguas. Lisboa, Terramar, 1996


[1] Texto da palestra proferida no Ciclo de Debate “Convergência da Língua Portuguesa: Agostinho da Silva e a CPLP”, em 29 de novembro de 2009, 28ª Feira do Livro de Brasília.
[2] Professora Doutora do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas – LIP, Instituto de Letras – IL, Universidade de Brasília – UnB.
[3] Extraído de Sermão de Santo António, in Obra completa do Padre António Vieira SERMÕES, vol. III, Tomo VII, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1959, p. 248.
[4] Santo Antônio
[5] Extrato de Sermão de Santo António, op. cit., p. 250.
[6] Em DOCUMENTOS. Comunidade dos países de língua portuguesa. Secretariado Executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, 1999.
[7] ... politique linguistique (ensemble des choix conscients concernant les rapports entre lengue(s) et vie sociale). CALVET, Louis-Jean. Le marché aux langues. Les effets linguistiques de la mondialisation. Paris, Plon, 2002: 16.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Do trans-nacionalismo lusófono

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É fatal como o destino: sempre que se fala de “união lusófona”, ou mesmo, tão-só, de “convergência lusófona”, aparece sempre alguém do clã dos palermas a guinchar: “Colonialistas!”. É gente que, de tal modo refém dos seus fantasmas e preconceitos ideológicos, não sabe senão pensar à luz dos paradigmas passados…

Pensar entre aspas. Porque da mesma forma que guincham contra tudo o que consideram ser “nacionalismo português”, já aplaudem o nacionalismo moçambicano, angolano, etc. Da mesma forma que, passada a fronteira, já aplaudem o nacionalismo basco ou catalão (já o galego lhes parece mais suspeito). Mas já se sabe que a coerência não é ponto forte do clã dos palermas: por isso, de facto, são eles tão divertidos…

O caminho prefigurado pelo MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO, como é sabido, é o do trans-nacionalismo lusófono. E por isso esse é um caminho que só é concretizável na medida em que for partilhado por todos os países da CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA. De forma paritária e fraterna, em prol de uma efectiva Comunidade…

Também publicado no MILhafre: http://mil-hafre.blogspot.com/2009/11/do-trans-nacionalismo-lusofono.html

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ninguém acredita mas é bom sinal que eles se tenham sentido obrigados a proclamá-lo...

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por LusaHoje

A criação do Estatuto do Cidadão da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a promoção e difusão do português são as prioridades do programa do XVIII Governo Constitucional na Cooperação, hoje entregue no parlamento, em Lisboa.

No documento, que será debatido quinta e sexta-feira pelos deputados, afirma-se ainda que o Governo vai "promover a aplicação dos Acordos de Brasília - relativos à livre circulação de pessoas no espaço CPLP -, bem como a actualização de acordos para a concessão de vistos".

No domínio da internacionalização da língua portuguesa, tendo em vista a promoção e difusão do idioma, o programa do Governo privilegiará, entre outras iniciativas, o "apoio à expansão dos sistemas de ensino do Estados-membros da CPLP onde o português funciona como língua veicular de alfabetização e do sistema de ensino em geral".

Ainda neste domínio, o programa refere que privilegiará, em "estreita coordenação" com os restantes Estados-membros da CPLP, "a promoção do português como língua oficial ou de trabalho em organizações internacionais e, em particular, no sistema das Nações Unidas".

A "reestruturação profunda do funcionamento e dos objectivos do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP)", em colaboração com a CPLP e "em estreita articulação" com os Estados-membros da organização lusófona, é outra das prioridades do Governo.

Nesse sentido, a reestruturação do IILP será submetida para aprovação na próxima cimeira de Chefes de Estado e de Governo da organização lusófona, a realizar em meados de 2010, em Luanda.

EL.

Fonte: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1408455

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Primeiro concurso para atribuição de bolsas de investigação dirigido a estudantes de países da CPLP/ ÁFRICA

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CONCURSO PARA ATRIBUIÇÃO DE
Bolsas de Investigação para Doutoramento e Pós- Doutoramento
A INVESTIGADORES DE ANGOLA,CABO-VERDE, GUINÉ-BISSAU, MOÇAMBIQUE, S. TOMÉ E PRÍNCIPE,TIMOR-LESTE PARA PROGRAMAS DE INVESTIGAÇÃO A REALIZAREM EM INSTITUIÇÕES CIENTÍFICAS E UNIVERSIDADE PORTUGUESAS EM ASSOCIAÇÃO COM INSTITUIÇÕES DE ENSINO,INVESTIGAÇÃO OU DESENVOLVIMENTO DOS PAISES MENCIONADOS
As Candidaturas decorrem até 15 de Novembro de 2009
No âmbito do "Programa Ciência Global", foi lançado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) um primeiro concurso para atribuição de bolsas de investigação dirigido a estudantes de países da CPLP/ ÁFRICA para doutoramento e pós-doutoramento em Universidades e Centro de Investigação em Portugal.

Os candidatos devem remeter currículo e carta de motivação para a Fundação para a Ciência e a Tecnologia até dia 15 de Novembro de 2009.

Aos candidatos pré-seleccionados serão solicitados elementos adicionais e, em caso de aceitação, ser-lhes-á dado apoio na escolha da instituição científica de acolhimento em Portugal e na definição final do plano de trabalho. A selecção é efectuada por um painel independente de cientistas, baseia-se exclusivamente no mérito científico dos candidatos e das instituições participantes e na aceitação por parte da instituição de acolhimento e

do orientador.

O Programa Ciência Global é lançado no âmbito da preparação do Centro UNESCO para as Ciências no âmbito da CPLP, iniciativa apresentada por Portugal junto da UNESCO com o apoio e a participação de todos os países da CPLP.

Reunidos em Lisboa em 29 de Agosto de 2009, os ministros responsáveis pala Ciência e pelo Ensino Superior de cada um dos países da CPLP decidiram saudar, apoiar e acompanhar a iniciativa pioneira de criação de um Centro Unesco para a formação avançada em Ciências, como entidade distribuída, aliando formação científica avançada de alto nível com educação para a responsabilidade científica, a comunicação pública da Ciência, o conhecimento das condições da actividade científica no país de origem, a participação em redes e projectos internacionais e a avaliação científica independente (www.mctes.pt/declaracaocplp).

Os candidatos e as instituições participantes na sua formação assumem conjuntamente esses objectivos.

Uma parte da formação deverá, em princípio, realizar-se no país de origem. O programa visa formar capacidades científicas de alto nível, contribuir para combater a fuga de cérebros e reforçar a cooperação científica internacional sustentável.

Em 18 de Setembro de 2009, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, José Mariano Gago, assinou e entregou ao Director-Geral da UNESCO a carta do governo português que formaliza a proposta de criação do Centro UNESCO (www.mctes.pt/cplp-unesco), acompanhada da declaração de Lisboa dos ministros dos países da CPLP, e comunicou a intenção de lançar de imediato um programa inicial de formação avançada conforme aos seus objectivos e princípios.

O Programa Ciência Global, agora lançado, visa antecipar o funcionamento do Centro UNESCO em preparação, promovendo junto das instituições e dos cientistas a experiência necessária à concretização dos seus objectivos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

CPLP cria rede sobre gestão de zonas costeiras

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Tema de congresso a realizar no Brasil

Os países de língua portuguesa vão criar uma rede electrónica para troca de experiências sobre a gestão de zonas costeiras, informou um responsável pelo processo. Marcus Polette, investigador da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), na região sul do Brasil, disse que a rede terá um portal na Internet com o objectivo de “promover o intercâmbio e a capacitação profissional”.

“O intuito da rede é ser referência na investigação e na discussão mais ampliada de temas relacionados à gestão de zonas costeiras”, salientou o investigador.

A criação da rede será um dos temas do 5.º Congresso de Planeamento e Gestão das Zonas Costeiras dos Países de Expressão Portuguesa (CZCPP), que decorrerá esta semana, na Univali, no Estado de Santa Catarina.

O encontro reunirá cerca de 200 técnicos, gestores e investigadores de todos os países de língua portuguesa, com ausência apenas de Timor-Leste, avançou Polette.

“Será uma troca de experiência em temas referentes às mudanças climáticas, urbanização, turismo, desenvolvimento sustentável e legislação em zonas costeiras”, afirmou o responsável.

Trata-se da segunda edição do evento no Brasil, depois da primeira realizada no Recife, na região Nordeste do país, em 2005. Promovido a cada dois anos, o congresso já foi realizado também em Portugal e Moçambique.

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=35447&op=all

Centro UNESCO para formação de cientistas da CPLP

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Projecto inovador será sedeado em Portugal

Será sedeado em Portugal um Centro UNESCO dedicado à formação doutoral e pós doutoral de cientistas de países e regiões de expressão oficial portuguesa.

Trata-se de uma iniciativa inovadora que tem como objectivo principal evitar a “fuga de cérebros”, oferendo-lhes os meios necessários para a sua permanência nas Comunidades dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

A formação que se pretende dar aos investigadores deste centro consistirá na aprendizagem das condições específicas do trabalho de investigação nos seus países de origem e a sua educação no domínio da responsabilidade social dos cientistas.

Além disso ambiciona-se incutir a disseminação do conhecimento por parte dos cientistas e das suas organizações. É também um objectivo avaliar os investigadores de acordo com critérios internacionais, de modo a ficarem aptos para operar num contexto universal, através da integração em programas e redes internacionais de investigação.

A ideia foi formalmente proposta ao Director-geral da UNESCO por José Mariano Gago, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, em Paris, no passado dia 18 de Setembro. Os seus homólogos das CPLP, ou os seus representantes, já haviam aprovado unanimemente a iniciativa, numa cimeira realizada em Lisboa no mês de Agosto. Consideraram o projecto um contributo pioneiro para a criação e consolidação de capacidades científicas em países em vias de desenvolvimento. A UNESCO exprimiu também o seu empenho e interesse na concretização desta iniciativa.

Portugal assumiu a responsabilidade de garantir o funcionamento inicial do Centro assim como assegurar o seu secretariado, que será financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). A este organismo competirá a gestão da iniciativa, futuramente sujeita a uma avaliação internacional independente.

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=35453&op=all

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

" A Beleza da Mulher Africana "

Os corpos e as caras são de uma beleza indiscutível ; mas os olhos !...
Observem bem os olhos !...

Podem ver este video em "Rosa dos Ventos" « http://rosadosventos1.blogspot.com/



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Acerca de "Pátria Madrasta e Vil"


No passado dia 21, publiquei neste blogue um texto que incluía a redacção de uma estudante brasileira que foi premiado num concurso da UNESCO entre 50.000 concorrentes.
No dia seguinte, foi publicada, no mesmo blogue, uma carta de um leitor que insinuava que a redacção e a decisão da UNESCO eram parte de uma conspiração tendente a desprestigiar o Brasil.
Embora não o fizesse directamente, a carta sugeria que quem tinha publicado a redacção estaria a colaborar na conspiração.

Recordo que o meu texto começava do seguinte modo:
“O texto que se segue chegou-me às mãos e não resisti em publicá-lo, por várias razões que deixo ficar ao espírito critico dos leitores, sem, no entanto, poder deixar de salientar a forma como a autora joga com as palavras e o domínio que tem sobre elas, escolhendo termos simples mas de enorme riqueza de significado.O texto refere-se ao Brasil, mas sou de opinião que há toda a conveniência em o tornar conhecido em Portugal, principalmente em vésperas de eleições, onde estas assumem irresponsável e inconscientemente carácter clubista.”
e terminava com o seguinte
“P.S.- Vejam quantas afirmações destas se podem aplicar a Portugal e ficarão com uma ideia mais clara da situação em que nos encontramos.

O Senhor Peralta pode ser brasileiro mas não ama mais o Brasil do que eu. A diferença que deve haver entre nós, é que o Snr. Peralta quer ignorar o que de mau existe na sua terra, enquanto eu amo o Brasil com as suas qualidades e com os seus defeitos, mas não os ignoro.
Apesar do teor crítico da redacção não ter agradado ao Snr. Peralta, é inegável a sua qualidade e deveríamos felicitar-nos por ela ter prestigiado a Lusofonia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

" Pátria Madrasta Vil "


O texto que se segue chegou-me às mãos e não resisti em publicá-lo, por várias razões que deixo ficar ao espírito critico dos leitores, sem, no entanto, poder deixar de salientar a forma como a autora joga com as palavras e o domínio que tem sobre elas, escolhendo termos simples mas de enorme riqueza de significado.
O texto refere-se ao Brasil, mas sou de opinião que há toda a conveniência em o tornar conhecido em Portugal, principalmente em vésperas de eleições, onde estas assumem irresponsável e inconscientemente carácter clubista.

A autora chama-se Clarice Zeitel, uma estudante brasileira de 26 anos, na altura aluna do curso de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro
O texto é uma redacção que a autora enviou para o concurso com o tema “como vencer a pobreza e a desigualdade”, organizado pela UNESCO, ao qual concorreram 50.000 estudantes universitários.
O texto de Clarice foi premiado e incluído num livro com outros que se distinguiram e pode ser encontrado no sítio da Biblioteca Virtual da UNESCO.



“PÁTRIA MADRASTA VIL
Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência. .. Exagero de escassez... Contraditórios? ? Então aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.
Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.
O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições.
Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil.', mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil está mais para madrasta vil.
A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira'. Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome. Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir. Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade. Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa.
A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade. Uma segue a outra... Sem nenhuma contradição!
É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem!
A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar. E a educação libertadora entra aí.
O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não aprendeu o que é ser cidadão. Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura. As classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)... Mas estão elas preparadas para isso?
Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.
Afinal, de que serve um governo que não administra? De que serve uma mãe que não afaga? E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?
Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo.
Sem egoísmo.
Cada um por todos.
Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas. Pergunte-se:
quero ser pobre no Brasil?
Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil?
Ser tratado como cidadão ou excluído?
Como gente... Ou como bicho? “


P.S.- Vejam quantas afirmações destas se podem aplicar a Portugal e ficarão com uma ideia mais clara da situação em que nos encontramos.