A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

DIÁRIO DE MOEMA, VI


Diógenes, Jean-Léon Gérôme, 1860

2006, 2 de Abril.
«(…)Sou o silêncio incompreensível
Sou o proferir do meu nome.»
In Trovão, Mente Perfeita.

Deitei-me na noite, silenciei o mundo em meu redor, calei todas as vozes e esqueci-me de mim. Elevei-me até às estrelas. Escolhi uma, ao acaso, e fundi-me na sua energia.
Um dia, o silêncio dirá o meu nome.

~Ü£w^’€>




Entre os moinhos, a escuridão era cortada por uma fogueira, a alguns metros da autocaravana de Moema. A luz, não se vislumbrava senão da ponte, que, por aquelas horas, era pouco concorrida. As gentes da aldeia estavam à roda da televisão ou entretidas em conversas de café.
O Homem-com-um-tique-na-perna passeava-se pelas ruas, de olhos postos no chão, a imaginar as vidas para lá da luz das janelas. Procurava um canto que lhe deixasse olhar o casario. Ia partir no dia seguinte. Queria levar um pouco da tranquilidade que por ali se escondia e dela fazer segredo, para não a perturbar.
Sentou-se na outra margem e deixou a noite tomá-lo.
Lá em baixo, o brilho da fogueira atraiu a sua atenção. Desejou a presença daquele calor. Sentia-se frio na alma e estranho no mundo.
Levantou-se, saudou as estrelas e partiu.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

DIÁRIO DE MOEMA, V

Christian Coigny, Alekan, s/d


2006, 30 de Março.

Entrei no rio com o vagar do Sol que nasce.
As águas gélidas foram tomando cada centímetro do meu corpo, como quem saúda um amigo esperado.
Deitei-me ao colo do rio e o peso tornou-se leve, e as vozes líquidas. Na eternidade daquele instante senti-me um elo da grande corrente.
Pousada no peito, a minha concha contava-me histórias de errantes que encontraram o caminho de casa. Uns ficaram, outros voltaram a partir. Em todos se acendeu a chama da pertença e a certeza de uma candeia que nunca se apaga.

~Ü£w^’€>



O final da tarde solarenga encheu as ruas e a esplanada. O empregado de tez morena vagueava entre copos e pires de caracóis. Na mesa do canto, Moema escrevinhava num pequeno caderno de capa preta.
Sem aviso, explodiu o sorriso desdentado do Poeta a salpicar versos por quem não o ouvia. O vizinho de mesa de Moema, o Homem-com-um-tique-na-perna, convidou-o a juntar-se-lhe. Num encontro de loucos, ficaram frente a frente, a partilhar uma linguagem desconhecida.
Traga uma cerveja aqui para este amigo.
Por entre tragos de cerveja soltavam-se grandes nomes da literatura. O Poeta, declamando Baudelaire, como o maior de entre os maiores. O Homem-com-um-tique-na-perna sorria e soltava a voz noutro poema.
Um dos copos continuava cheio.
Os olhos azul-água, do velho Poeta, estavam turvos, da embriaguês de um único trago.
Vá bebendo, amigo, se quiser eu peço outra, que essa já está morta.
O Poeta semicerrou o olhar e, num doce rosnar, desabafou.
Como é que eu posso beber mais um gole, se eu já sou um gole, no copo vazio que é a minha vida?!
Olharam-se e deixaram o silêncio tomar conta do tempo.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

PLANÍCIE & PLANALTO

Prom Gown 3, Tom Chambers, 2005

PLANÍCIE

A planície estende-se com um sobro acaçapado,
Um dólmen, uma cruz num monte,
De muitos modos a terra
Sangra a luz. São uma haste onde
O deserto nadifica. Secura entre sarças de fogo.
Onde as searas ficam em sangue. É tudo branco menos
A alma. A solidão é um ofício da pedra
E os olhos uma cal levantada. Água,
Água. Funda, funda piedade para o homem.

Intranscendentes desdobram-se as terras, o vórtice.
As mulheres sentam-se na imensidade, fitando
As coisas passantes e não sei que ermo
Porque à terra pertencem. Os vedores aceitam o desafio.
Aceitam o deserto com uma prece de luz,
O nada cegante, o pó, o exílio. Passam invisíveis
Nas planícies do coração. Abrem-se ao deserto
No fogo sem fim. Repetem as onomatopeias da água,
Proferem as palavras, os sacramentos dos rios subterrâneos
Aos ouvidos do tempo: «Não esqueças estas mulheres,
Estas árvores torcidas, estes cães secos.»
As árvores prostam-se – também os cães.
As mulheres sentam-se com os olhos devorados
Como Moisés diante da terra prometida.


PLANALTO

Trabalha no escuro e cresce no silêncio
A árvore dobrada para as águas. Alta,
Nas profundezas da alma.
Ergue-se, esquálida, entre escuras fragas.
O céu do que se move em fundas águas.

Sombra que escuta o abismo.
Nada a liga a nada; o vazio mais puro,
Guarda uma pureza de talha. É um poço onde
A morte frutifica. As raízes suspensas;
Devorada pela luz.

Fosse a vida esta altura.


Jesus Carlos

terça-feira, 16 de junho de 2009

NIGREDO, IV (o poema é para o Casimiro, mas como ele não é egoísta, compartilha-o convosco; sorte a vossa...)



Don Quijote de La Mancha, Gustave Doré, 1863


Dedicado ao Casimiro Ceivães.


São guerreiros poetas, fogos puros,
Armados de ferro negro. Ferro,
Inconsútil chama; ferro da morte e do sonho,
Ferro que a luz seca do sonho transforma
Em ferro de água. Os mananciais ardentes
Que correm na noite inclinada cantam
A arca da loucura e a amada: ferro
Que torna a carne vulnerável
Ao eterno. A morte brilha.

São guerreiros poetas, mortos puros,
Por plainos e vales galopam na noite,
Por plainos e vales lutam na luz,
Por plainos e vales, para casa,
Para as águas soluçantes.

São esqueletos, são gigantes.


Jesus Carlos

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Nau Nossa Senhora da Vida II

«Porque nesse tempo antigo da Grécia, se teria jugulado lentamente o mito, - até à sua exaustão, pelos romanos. E aqui [em Portugal], ele renasceria de novo, vivo, noutra vida, então agora unido à razão.

Aqui na Península [Ibérica], o Oriente e o Ocidente, a pré-história e a história, o mito e a razão, como coincidência de coordenadas de espaço, tempo e pensamento, no homem e na terra, se unirão no exacto ponto e momento de 1500. No ano de Pedro Álvares Cabral: esse será o sentido dessa falha ou união entre dois séculos; a descoberta do Brasil foi o fechar do círculo, conclusão do novo mar.

E só unindo saber e terra se pode compreender a forma de conhecimento que nasceu nesta civilização e por ela foi ofertada ao mundo e com ele partilhada. Porque tudo se fez, pelos homens, em união com a Terra.
E agora, um meio milénio passado, num mar agora ultrapassado, transfigurado, o do espírito, ou pelo espírito, ou mar interior, novo feito de novos argonautas, se avizinhará, urgirá avizinhar-se: como penetração e desvendamento e desenho nesse outro mar de suas costas e limites e baías as mais profundas e vaus e linhas de orientação: como repetição do primeiro passo de toda a iniciação, e retomar do apelo de Sócrates, ou de mais atrás, do deus da luz, o que estava escrito ao alto no seu templo de Delfos: «Conhece-te a ti mesmo.» De novo trazendo para as costas atlânticas o princípio regenerador do humanismo mediterrâneo.
Será este o feito futuro, renovado, da nova descoberta. Para novo ciclo histórico da pátria lusíada e do Ocidente.

Vês agora a união da saudade com a água? Com a água e com a morte. Bernardim Ribeiro sabia. Era esse o segredo cantado no canto do rouxinol sobre a corrente.

(...) baptismo na água.

Mas agora outra vinda dos Descobrimentos se fará para os homens e para a Terra num homem e numa terra transcendentes, transfigurados, porque na vinda, baptismo no fogo, do Espírito Santo.
O espaço agora a conquistar será o transcendente interior, seu.
E agora pelo homem pelo Cristo novo, na sua Segunda Vinda, tudo passará de terrestre ao cósmico, transcendente.
Para a nova eleição e serviço duma nação, urge pela primeira vez atentar na sua posição no espaço da terra, por uma geografia sagrada. E na sua vinda no tempo, por uma história que nela também se veja de sentido sagrado. Ver aí a sua eleição e serviço, na intercepção do tempo e do espaço. Porque tudo se fará por uma nova visão de tudo que está dada mostrada já.
Seis séculos após, a verdade dos Descobrimentos se abrirá, se libertará. Como seis décadas após, Portugal se libertou do jugo castelhano. E após outras seis décadas, o anúncio da verdade pela Renascença Portuguesa, virá por fim à luz. Como germinações e eclosões de sementes escondidas.
E também então se revelará a verdade da saudade.

Saudade é a polpa do eu eterno.

Porque a saudade não é conclusa em si, mas seu sentido está no seu ultrapassar. Saudade é tempo de gestação.

E a terra finalmente como Virgem, subirá em Assunção ao céu.

E ver que união, como fusão final de fogo e água, se teria dado aqui nestas margens peninsulares: pelo afundamento do disco rubro do Sol, nas águas de Posídon, como fusão do deus dos povos da velha Atlântida e de Apolo o deus dos povos da Grécia (...).

A terra finalmente unida ao céu, ou Apolo a Gaia, ou a Serpente ao Sol, em enlace último, como promessa dum novo mundo, a nascer.

O ser saudoso é o ser livre na necessidade, o ser da eternidade no tempo. O que traz para a lei da terra a lei do céu. Ou a eternidade para o devir.

Porque a poesia terá a mesma origem que a profecia: as Musas são filhas da Memória.

E assim ao discurso se substituirá essa supra-razão e a unidade do paraíso de novo será atingida.

(...) só, aí, na brancura cintilante e doce (a tal inefável), do seu seio último. Semente do fruto. Trono do mundo. Coração do homem.

A saudade é o segredo de Apolo.»
Dalila Pereira da Costa, A Nova Atlântida

«(...) a força da Saudade, criando vida e afogando o sol nas suas lágrimas (...)»
Teixeira de Pascoaes



(Maria Bethânia e Gal Costa)



«Roubam-me Deus
Outros o diabo
Quem cantarei

Roubam-me a Pátria
e a humanidade
outros ma roubam
Quem cantarei

(...)
E de mim mesmo
Todos me roubam


Quem cantarei
Quem cantarei

Roubam-me a voz
quando me calo
ou o silêncio
mesmo se falo

Aqui d'El Rei»

D'El Rei... Amor!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Nau Nossa Senhora da Vida

«XVI
Sonhei, que estava sonhando,
Que passados cem Janeiros
Os Portugueses primeiros
Se levantarão em bando.

XVII
Ergue-se a águia Imperial
Com os seus filhos ao rabo;
E com as unhas no cabo
Faz o ninho em Portugal.»
Bandarra, Trovas

«E dado que o graal significa vaso (grasale) e livro (gradale) e que este representa a Tradição lembremos o lugar eminente, no seu centro, e nas mãos do Santo, que ocupa o livro nos Painéis de Nuno Gonçalves [de S. Vicente]: a significação que aí teria o seu gesto: primeiro, ele o deterá aberto, depois fechado, como em dois momentos ou períodos nos tempos dos homens e do seu reino por que ele se revela, que guarda e zela como desvendamento e ocultamento sucessivos da Tradição como profecia e promessa que o Santo deterá e mostrará a seu reino.

(...) Fernando Pessoa, como o iniciado e eleito do reino, vem nele e por ele, revelá-lo, comunicá-lo, finalmente, como segredo que ele próprio na sua vida terrestre, ainda quis doar-lhe e aos seus homens, segredo a que significativamente deu o nome de Mensagem.
Vejamos assim nessa sua obra como a explosão primeira da revelação desta verdade, tão longamente mantida fechada. Ou como o início da sua segunda vinda sobre a terra.
(...) é um novo mundo o que a Mensagem, com seu criador, partilhadamente anuncia com os poetas profetas da Renascença Portuguesa.
Agora, uma geração passada depois desse portentoso surto da voz pátria (...) incumbiria a estes tempos a obra de desvendar o que nela ficou impresso e confiado (...)

«O pequeno povo ergue o mundo na mão como um Deus-Menino, dele fazendo a sua dádiva à ânsia indagadora, à infinita sede da humanidade» (Jaime Cortesão).

«Vós que à custa de vossas várias mortes
A lei da vida eterna dilataste» [Camões]

(...) ela dirá que a paixão e a morte é a prova necessária para que o grão ressuscite.

Oh amargos palácios reais
(entre altas oliveiras de prata)

Talhas e mendicantes
Secretos tesouros, abri-vos.

Já intruso fruto
de polpa cerrada.
Comer vosso coração
de chama esbrazeada.

Rubro fruto, de mistério carregado.
Rosto de pálpebras cerradas
a que se segue silêncio intacto.

(A história duma Pátria)»
Dalila Pereira da Costa

O Homem semeia a Planta que o sustenta - a Semente;
Deus semeia a Alma que o sustenta - o Homem, a Semente do Amor Infinito.

«(...) a Lua e o Sol, como a prata e o ouro preparados para a fase final, como conclusão da Grande Obra: onde então eles surgirão apresentados cada um em cada palma das mãos do iniciado. Como os dois metais perfeitos, incorruptíveis que, tomados e unidos em casamento vivo, como matérias vivas que são - engendram a transmutação: do homem e da Natureza. Porque o homem é o regenerador do cosmos. Ele, a matéria sobre que é feita a operação espiritual, da alquimia. Como obtenção da carne regenerada, sem passar pela morte. Esse homem, erguendo-se do graal, terá já o corpo do ressuscitado celeste, ou dos Santos, os que habitam as Ilhas encobertas, em demanda das quais partiam as caravelas lusíadas.
É pela mesma aproximação dos dois metais nobres e perenes, como nesta matriz de Vila do Conde, o ouro e a prata, ou pelos dois astros, o Sol e a Lua, o masculino e o feminino, corpos humanos terrestres ou cósmicos celestes, que se atinge a integração aqui, dita nesta frase pictográfica: ou na mesma pátria, quatro séculos mais tarde, através dum poema, O Último Sortilégio, de Pessoa.
Em Portugal, poetas e navegantes, terão trabalhado sempre para o mesmo fim, a redenção da Natureza. Aqui nesta nação, a Grande Obra, como poesia e alquimia, se encontrará identificada. Por isso, a Portugal se poderá chamar terra de poetas: mas não por qualquer razão ou perspectiva destes, sentimental: porque o seu lirismo ultrapassará os limites e significado subjectivo que porventura eles mesmos lhe viram, onde eles o limitaram, porque tudo, por eles, foi feito nesse instante de dar voz à natureza, à terra, - manifestá-la, trazê-la à luz, à sua verdade, desocultá-la e redimi-la - tal como na obra dos navegantes.»
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal

«(...)
Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa,
Tu, Lua, cuja prata converti,
Se já não podeis dar-me essa beleza
Que tantas vezes tive por querer,
Ao menos meu ser findo dividi -
­Meu ser essencial se perca em si,
Só meu corpo sem mim fique alma e ser!

Converta-me a minha última magia
Numa estátua de mim em corpo vivo!
Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
Anónima presença que se beija,
Carne do meu abstracto amor cativo,
Seja a morte de mim em que revivo;
E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!»
Fernando Pessoa, O Último Sortilégio

domingo, 7 de setembro de 2008

Se te incomoda


Se te incomoda ouvir falar da elevação no império posso antes mostrar-te o jardim, e o constrangimento que o jardineiro impõe às ervas. E adivinho já o teu fastio: vais dizer-me que te aborrecem os caminhos programados do Palácio, a disposição geométrica das rosas, a igualitária decapitação das sebes; vais dizer-me que está cheio de tabuletas com proibições e que os teus pés descalços dançam melhor no prado das fadas. E como posso eu não te dar razão? Não tenho culpa do cansaço e da frieza dos príncipes. Ah, mas não é ao jardim deles que te quero levar: não perco tempo a propor-te bailes de máscaras.

Por isso te mostro o jardim, e por ele entendo o que nos espera se deixarmos para trás o Palácio e as ruas arrogantes dos mercadores e generais: aqui a horta humilde que abastece os mercados, mais além a floresta dos lobos, no meio dela o teu prado das fadas; deste lado a montanha coberta de carvalhos e faias, por ali o caminho que conduz ao mar. Em qualquer lugar tu situas-te: apetece-te a solitária companhia das dunas e sabes que cortas à esquerda a seguir ao moinho de água; mas se tens saudades da roda das fadas sabes que tens primeiro que atravessar a encosta dos abetos. E se te perdes na noite de Outono sabes em que direcção vai a lua nascer.

Ainda sentes o constrangimento? Na verdade, os carvalhos não progrediram além da linha da areia, aqui no prado das fadas não ocorreu ao hortelão plantar as suas cebolas. Olha para estes ramos despidos: não é ainda o tempo das maçãs. Em vão procurarias aqui a orquídea dos trópicos, e elas enchem no entanto a orgulhosa estufa dos príncipes. É essa a duríssima lei do jardineiro maior. E, vês? Não recorreu para isso a tabuletas nem a cães de guarda.

Mas as dunas, dirás tu que as dunas hão-de um dia ser morada de lobos e que o hortelão só ganharia se de manhã encontrasse orquídeas em vez de cebolas e que acabas de reparar que então há direcções onde nunca vemos a lua nascer? As dunas, dirás tu que lhes falta a liberdade de ser tudo, dirás que é injusto as fadas elegerem o prado verde para dançar e que serias mais feliz se a partir do moinho de água pudesses escolher qualquer caminho e todos descessem ao mar? Aí, onde irias quando ansiasses pela solidão? Onde, quando o teu coração quisesse dançar?

Entendes porque te afastei dos caminhos geométricos do Palácio? Não há neles sequer a sombra de um jardim, e por isso todos eles vão dar à varanda dos príncipes cansados. E para os construir foi preciso derrubar a cabana e a fonte, e por isso aqueles guardas carrancudos que te ficaram na memória como guardiães do império. Impostores. Não te esqueças de que essa história foi escrita para agradar aos generais, foi paga pelos mercadores que dependem do luxo dos príncipes. Mas tu escapavas-lhes de noite, e saltavas a muralha para brincar com as crias do lobo.

Na verdade, a tua liberdade é constrangimento das ervas: se elas se dispersarem, não terás um prado para dançar. E o teu constrangimento é a liberdade das árvores: que será delas se derrubares quem se interpõe entre ti e o mar? Mas ambos se fundam no jardim, que a tudo situa em hierarquia e poema.

E em ti, quem eu quero fundar é o jardineiro.

DITADURA


99 Cent Store, Andreas Gursky, 1999


Ditadura, sim. Um Império se erga acima do formigueiro de corruptas urbes, das vias rápidas sem destino, das pontes quebradas pelo lixo, das muitas casas, queimadas e escuras, das muitas gentes, robóticas e sem fala. Erga-se, defenda-se, alastre-se, um fogo do espírito, uma lei acima das leis, um costume acima dos costumes, uma justiça acima das justiças, uma assembleia universal igual para todos, iguais no assento da palavra. «Nada farei, ó César, para te agradar, / Nem me interessa se és branco ou preto.»*. O mesmo direi de cada um de vós. Que comeis. Onde, quando. A que deus ou deuses rezais. Ou a nenhum. Que fazeis na cama. Com quem. Que fazeis na casa. Como vestis. Com que entretenimentos ocupais o tempo vosso. A ditadura é o Império, despreza-vos nas vossas diferenças, em todas aquelas pequenas inutilidades onde julgais que acontece a vossa vida, isso é folclore humano, isso é merda, um caos de emoções envolvido em pratas e púrpuras. A lei do Império é universal, só reconhece indivíduos nos atributos comuns da sua humanidade; perante o Império são calados os vossos deuses e o vosso ganir de matilha, as identidades medíocres que julgais acima das dos outros, os vossos tiques de pertença, que quereríeis, megalomanamente, supremos, mas que mais não são que a súmula patológica das vossas insuficiências e mediocridades e vilezas. Nada sois de vosso perante o Império, porque o Império não vos reconhece a propriedade sobre nada que seja a humanidade, sobre nada que pertença a todos, sobre nada que seja a civilização no seu progresso futuro e imparável, sobre nada que seja a manifestação suprema da liberdade como motor da História.
A civilização é a casa da humanidade. O Império, a sua assembleia única. A ditadura, a sua guardiã. Um Rei, o seu autor.


Klatuu Niktos



* XCIII

Nil nimium studeo, Caesar, tibi velle placere,
nec scire utrum sis albus an ater homo.


Gaius Valerius Catullus, poeta do Império Romano, 87 a.C. – 54 a.C.

sábado, 6 de setembro de 2008

O mundo, como um unicórnio


Para a Anita Silva, Anita Soror, retribuindo um comentário que me deixou hoje, deixo aqui em jeito de resposta um pequenino texto que fiz para o meu blog em 2004. A frase destacada é do Padre António Vieira.


A mim, que sou quase todo feito de nada, entristece-me a tua ânsia de prender as palavras frágeis, de te embrulhar nelas como se te agasalhassem do vento mais forte. A mim, que sou quase todo feito de noite, entristece-me a tua ânsia de agarrar a beleza, de te misturar nela como se fosse em ti o véu da noiva ansiosa.

De que te queres proteger? Tu sabes que o perfume das rosas bravas não está na palavra "rosas", e o silêncio do azul claro não vem da palavra "mar". E em quantas coisas não reparaste, absorvido que estavas na beleza inútil da arte que as ocultou?

Olha para mim se não acreditas. Eu sou o primeiro a fraquejar, e por isso não te alegres se me vires dizer as rosas bravas. Para falar ao vento bastam palavras; para falar ao coração são precisas obras. E as obras nascem só do silêncio e da pedra e dos olhos que sabem guiar-se pelas mãos cansadas.

Não, não te alegres se eu cantar o mundo e os seus lugares de beleza. Porque não estarei a fazer mais que a disfarçar as lágrimas, e eu não gosto de chorar. Não te alegres sequer se me vires falar. É só porque calar-me era uma mentira maior.

Nunca aprendi a não ver as coisas tristes. E na vida pouco pude fazer para fazer o mundo sorrir. Mas eu, que sou quase todo feito das coisas que a ribeira arrasta, queria que os teus olhos soubessem que foram feitos para dar forma, que foram feitos para dar sentido. E que só neles poderás ser.

Sim, queria que entre ti e as trevas não houvesse o véu das palavras fáceis. Queria que olhasses cada um dos gritos que te prendem, cada um dos grilhões insustentáveis. Não te escondas atrás de palavras bonitas. Não acendas luzinhas na escuridão. Deixa as tuas mãos serem os teus olhos, e deixa os teus olhos tocar. E então sim, poderás falar. E experimenta dizer baixinho "princesa", como se chamasses a verdade: verás sorrir a beleza frágil, e junto dela o mundo.

O mundo, como um unicórnio.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Senhora (the Lady of Shalott)

The Lady of Shalott, J. W. Waterhouse, 1888


Em recolhido agradecimento a Lord of Erewhon, pela sublime invocação à Senhora de Shalott que nos deu AQUI.


Vinte mundos a arder: estranho fardo
depositou o abismo em meu regaço.
Inteiro nos meus olhos todo o aço
- nas minhas mãos de neve a rosa e o cardo.

Não há outro hoje que este que em mim faço,
mas eu não abandono e nunca tardo.
No silêncio das águas guardo e aguardo.
Ao longe o dia escorre o seu cansaço.

Fez-se barca o meu trono antigo e forte,
fez-se caixão a barca - e não há morte
senão a que dou ao mundo, e ao corpo, e à luz...

Panos bordados de oiro e pedraria,
ribeira negra de núpcias; e é tão fria
a mão do anjo que a barca conduz.


[Antes publicado no meu blog]



Louvo a Pátria... (dedicado ao Paulo Borges)

Louvo a Pátria
E aqueles que a louvam
E deles não me envergonho

Os que connosco gozam
Ou os desprezo em silêncio
Ou com a lança lhes respondo

Assim sou
E não me envergonho disso
Disse



P.S.: Último de uma segunda série de dez epigramas aqui publicados sob o título geral de «Educação da Nova Águia: pós-graduação» (ver etiquetas). Uma vez mais, agradecemos todos os comentários entretanto feitos.

RIMANCE DO CAVALEIRO DAS ESCÓCIAS (IV & V)



AQUELE QUE VAI MORRER


«A guerra é mãe e rainha de todas as coisas; a alguns transforma em deuses, a outros, em homens; de alguns faz escravos, de outros, homens livres.»

Heraclito


O exército parou a marcha e formou em frente à floresta. Esperaram, entre os relinchos das montarias e o calor intenso. Da floresta saiu um Cavaleiro, um só Cavaleiro, de armadura negra e cavalo negro, e parou. A sua posição e atitude no campo não deixavam incertezas, tinha vindo para o combate, para enfrentar aquele imenso exército.
Durante um segundo nada se moveu nas fileiras silentes, depois um quarto dos homens sorriu, um quarto riu alto e metade sentiu um medo inexplicável. Os capitães olharam para o Duque, e o Duque olhou para os capitães; depois os capitães olharam uns para os outros. Nem uma palavra foi proferida.
Para um observador externo a conclusão seria simples e rápida. O Cavaleiro de armadura negra, estático e extático, no seu cavalo estátua, bloco único de rocha da noite, não mais era que um lunático suicida e o destino da batalha estava decidido ainda antes de começar.
No entanto, é avisado acreditar que os instantes em que um homem eleva a matéria vil do mundo à grandeza que o transcende chamam sempre a atenção de observadores estranhos. Deus é esse observador. Superno às tristes criaturas, Ele somente não tem dúvidas que o milagre é uma espada que trespassa, sem dificuldade, a carne pútrida do mundo.





O REINO


Era uma vez um Cavaleiro que jurara lealdade a um Rei e uma Rainha, e um dia o Reino partiu-se e o Rei e a Rainha enviaram exércitos um contra o outro. Nesse dia o Cavaleiro fustigou a montada branca à ponta de um desfiladeiro e apeou-se na beira do precipício. Olhou os céus, olhou o rio de águas prateadas no fundo, muito fundo do abismo. Ficou ali, imóvel, enquanto o cavalo pastava, manhã e tarde, até que o cair do Sol lhe pintou a face de vermelho, e depois de negrume. Tinha feito uma jura, uma Jura de Cavaleiro e não poderia quebrá-la.
Voltou para comandar o exército do Rei e na sua armadura de prata conduziu a Cavalaria Real num movimento audaz, que forçou a retirada do exército da Rainha. Após a ceia recolheu à tenda e deixou ordens para não ser perturbado antes do claror da alba.
Quando tudo estava quieto, a coberto do escuro e com um manto negro, iludiu as sentinelas e caminhou para o centro da floresta densa, entrou numa antiga cabana de bruxa e de lá saiu um Cavaleiro de armadura mais de treva que a mais funérea das noites, que montou um cavalo preto, de longa crina. Qual espectro dos infernos, irrompeu pelo acampamento do exército do Rei e trucidou centenas de homens estremunhados e atónitos, uns que mal o enfrentavam, outros que fugiam em pânico, alguns que ajoelhavam e faziam o sinal da cruz.
Durante um lento e árduo ano, o exército do Rei progredia assim durasse a luz, chefiado pelo Cavaleiro de armadura de prata, mas assim a noite estendia o seu véu sobre o mundo eram duramente sangrados pela fúria do Cavaleiro Negro.
Nos exércitos em conflito militavam, cada um do seu lado, dois capitães que eram primos e que tinham estabelecido o pacto de, enquanto fossem vivos, se encontrar aos domingos numa capela, como amigos e família. Uma manhã, após terem rezado, confessaram as suspeitas que lhes devoravam o coração e escolheram uma noite para se reunir na floresta, cada um com um grupo de dez soldados valentes.
Era Lua cheia e viram nitidamente o Cavaleiro dirigir-se à cabana decrépita, que tinha um cavalo preto, de longa crina, com as rédeas atadas ao alpendre. Aguardaram que o Cavaleiro entrasse, fizeram cerco ao covil infecto e gritaram que se rendesse, uns em nome do Rei, outros em nome da Rainha.
Curta foi a espera, quando de lá saiu o Cavaleiro, equipado com partes de ambas as armaduras, que, ignorando o cavalo, se perfilou em frente da cabana, de escudo erguido e espada preparada, junto a uma lápide nua, sem qualquer inscrição. Os capitães de imediato deram sinal de ataque e um deles gritou «Traidor!», e o outro gritou também «Traidor!».
O combate durou uma interminável hora, o Cavaleiro foi ferido incontáveis vezes, nada parecia poder derrubá-lo e matou muitos, sem dizer palavra. Então, quando já só restavam seis dos soldados e os capitães, e desesperavam de poder vencer, a Rainha surgiu de dentro da noite a galope e atravessou o peito do Cavaleiro com uma flecha. O Cavaleiro deixou cair a espada e o escudo, foi golpeado pelos oito e tombou.
Sempre em silêncio, tentou arrastar-se para a lápide incógnita de pedra cega, mas uma lança pregou-o ao chão e nesse lugar morreu. Os capitães viraram o rosto e não viram a Rainha e nunca mais ninguém a viu e a paz voltou ao Reino.
Dizem os crédulos que quem passa no desfiladeiro, e se aproxima do precipício, ouve a Rainha chorar.


Lord of Erewhon

Terás o pleno, terás a plêiade...

Se preciso for
Entre a plebe, vai a votos
E disso medo não tenhas

Se poucos votos tiveres
A única conclusão que tirar se pode
É que a plebe está ainda demasiado chã

Entre a nobreza, contudo
Dúvidas não tenhas
Terás o pleno, terás a plêiade

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Não confundas Intelectuais com Filósofos...

Não confundas Intelectuais com Filósofos
Os primeiros são aqueles que se te opõem
Os segundos, aqueles que te seguem

Vai à Universidade e busca os melhores
Lá estão as maiores bestas do Universo
Mas também algumas das melhores cabeças

Sai da Universidade para a Polis
O teu voo é para todos, sem excepção
Até quem não sabe escrever pode voar

Sorte a nossa, azar o deles...

Sorte dos que vão a jogo, dos que arriscam
Dos que de peito aberto combatem
Dos que a cabeça no cepo põem

Não dos que a assistir, sentados, ficam
Com ar enfastiado, em “superior” silêncio
Uma boca mandando de quando em vez

Ah! Se eles soubessem
Mas não sabem, nem sonham
Sorte a nossa, azar o deles

Sorte a dos que a carroça puxam...

Há aqueles que a carroça puxam
Há aqueles que nela vão sentados
Há aqueles que só para ela saltarão no fim

Assim mesmo a vida é
Injusta
Mas não como se julga

Sorte a dos que a carroça puxam
Azar dos que nela esperam sentados
Ou à espera de para ela saltar

Há aqueles que à frente vão...

Há aqueles que à frente vão
Com a espada, o machado e a lança
A abrir-te o caminho

Depois virás tu, triunfal
Com a tua doce lira
E o teu alvo lenço

Não nos agradeças o frete
Não é frete, nem por ti o fazemos
Tal como nós, um mero instrumento és

O teu inimigo maior?

O teu inimigo maior?
Ontem como o hoje, o P.C.
Leia-se: o politicamente correcto

Sempre que o vires, atira-lhe à cabeça
Verás que cabeça não tem
Tão-só mil olhos

Mil olhos que tentáculos são
Vê como todos apanha
Todos não, quase

Não temas as más-línguas...

Não sejas só de Esquerda ou de Direita
Sempre com as duas asas voa
De outro modo, cais

Nunca em cima do muro te mantenhas
Em cima do muro, musgo te tornas
Antes cair, preferível, mil vezes, é

Não temas as más-línguas
Tu voas, por mais que caias
Elas rastejam, e daí não passam

terça-feira, 2 de setembro de 2008

RENASCIMENTO LUSITANO – PRIMEIRO MANIFESTO, DE TEIXEIRA DE PASCOAES (PARA UM PAIDEUMA TEÓRICO, I)


Na reunião de Coimbra em 1911, ficou Teixeira de Pascoaes encarregado de redigir um manifesto ao país com os intuitos da «Renascença».

AO POVO PORTUGUÊS. A «RENASCENÇA LUSITANA» *

Estas palavras que dirigimos ao Povo Português têm por fim revelar-lhe qual será a obra patriótica da Renascença Lusitana – , obra em que devem colaborar todos os homens de boa vontade.
A Renascença Lusitana é uma associação de indivíduos cheios de esperança e fé na nossa Raça, na sua originalidade profunda, no seu poder criador de uma nova civilização. Esta fé e esta esperança não resultam de uma ilusão patriótica, mas do conhecimento verdadeiro da alma lusitana, a qual devido a influências estrangeiras de natureza política, artística, literária e sobretudo religiosa, se tem adulterado nos últimos séculos da nossa História, perdendo o seu carácter, a sua fisionomia original e, portanto, as suas forças criadoras e progressivas.
O fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas, para que a alma desta bela Raça ressurja com as qualidades que lhe pertencem por nascimento, as quais, na Idade Média, lhe revelaram os segredos dos mares, de novas constelações e novas terras, e, de futuro, lhe deverão desvendar os mistérios dessa nova vida social mais bela, mais justa e mais perfeita.
Logo que a alma portuguesa se encontre a si própria, reaverá as antigas energias e realizará a sua civilização.
Sonho belo, mas quimérico? Não! Descobrem-se já na alma da nossa Raça alvoroçantes sintomas de renascença. O seu esforço de 5 de Outubro foi o despontar da sua heroicidade que dir-se-ia morta para sempre; foi um sinal de abnegação; houve vidas sacrificadas à Vida.
A sombra de Nun’Álvares saiu do túmulo e vagueou nas ruas de Lisboa; sulcaram o Tejo fantasmas de caravelas em demanda da Índia Ideal, essa Índia que fica em pleno mar do nosso sonho.
Admiráveis presságios! Já brilha a estrela da nova Manhã! Chegou, na verdade, o momento divino de todos os bons portugueses colaborarem na grande obra da nossa Renascença! O morto estremeceu, ao sentir o primeiro hálito de vida. Abramos-lhe a tampa do sepulcro! Eis a nossa obra, a obra do nosso amor e da nossa fé.
Este apelo que fazemos aos portugueses, por isso mesmo que nos sai da alma, há-de ser ouvido. E a Renascença Lusitana, neste instante em que apresenta ao povo a sagrada ideia que a anima, espera firmemente que se reúnam em volta dela todas as almas esperançosas que sentem em si o germinar de uma nova vida, o acordar dum novo alento criador de beleza, de justiça e de bondade, os três elementos constitutivos de uma verdadeira civilização.
Não se exige que se seja artista ou poeta ou sábio para trabalhar nesta obra; tal coisa seria de um exclusivismo ridículo. Todo aquele que acreditar no renascimento lusitano, todo aquele que nos trouxer um clarão de esperança, será recebido de braços abertos como leal e firme camarada.
Estas palavras, como já fica dito, têm por fim mostrar ao povo português qual a ideia que inspira a Renascença Lusitana. Essa ideia, repetimos é reintegrar a alma da nossa Raça na sua pureza essencial, revelar o que ela é na sua intimidade e natureza originária, para que tome conta de si própria, e se torne activa e criadora, e realize, enfim, o seu destino civilizador.
Temos, portanto, em vista: dar ao povo uma educação lusitana e não estrangeira; uma arte e uma literatura que sejam lusitanas, e uma religião no seu sentido mais elevado e filosófico, que seja também lusitana.
Com efeito, quem surpreender a alma portuguesa, nas suas manifestações sentimentais mais íntimas e delicadas, vê que existe nela, embora sob uma forma difusa e caótica, a matéria de uma nova religião, tornando-se a palavra religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da Vida… Ora a alma portuguesa sente esta ansiedade de uma maneira própria e original, o que se nota facilmente analisando os cantos populares, as lendas, a linguagem do povo, a obra de alguns poetas e artistas e, sobretudo, a suprema criação sentimental da Raça – a Saudade!
Sim: na alma lusitana há a névoa duma nova religião; e por isso, o catolicismo, importado de Roma, jamais se tornou português, como se tornou espanhol, por exemplo. Todavia, em virtude da insistência com que tem sido cultivado em Portugal, concorreu para desnaturar o nosso carácter; é necessário, portanto, combatê-lo, como a todos os inimigos invasores, ou sejam de casta pedagógica, artística, literária, religiosa ou filosófica.
Esta luta, assim como a obra reconstrutiva da Renascença Lusitana será feita, além de outros meios, por meio de conferências, livros e duma revista de literatura, filosofia, ciência, crítica social, etc, que se intitulará A Águia e será o órgão da sociedade.
Eis a obra a que vamos dedicar o melhor da nossa actividade e todo o nosso entusiasmo, esperando o concurso dos bons portugueses.
Bem sabemos que é uma obra enorme. Mas é preciso que alguém lhe dê o primeiro impulso. Outros, mais fortes do que nós, terão a glória de a concluir.

Ao ser [este manifesto] levado para Lisboa, o seu autor acrescentou o seguinte [texto].

Diremos, de passagem, que consideramos como os grandes factores do nosso renascimento, a Higiene e a Arte.
Por aquela atingiremos a harmonia física, e por esta a harmonia espiritual.
A Ginástica encerra tanta virtude como a Arte Poética. A guerra ao álcool, ao tabaco, à alimentação carnívora, por exemplo, é uma guerra santa e confunde-se com a glorificação da Beleza moral, com a apoteose dos sentimentos e das ideias mais puras e transcendentes.
A Íliada e os Jogos Olímpicos!


Teixeira de Pascoaes



* Manifesto publicado n’A Vida Portuguesa, nº 22, de 10 de Fevereiro de 1914.