EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).

- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).

- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.

- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).

- 25º número (1º semestre de 2020): Pinharanda Gomes: Textos e Testemunhos dos seus Amigos.

Para o 25º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 24

Capa da NOVA ÁGUIA 24

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 24

As personalidades maiores (ou mais aquilinas) são aquelas que mais transcendem fronteiras – culturais, religiosas ou ideológicas. Pela amostra (significativa – mais de uma dúzia) de testemunhos que aqui recolhemos, proferidos numa sessão em sua Homenagem promovida pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no dia 10 de Maio do corrente ano, no Palácio da Independência, João Bigotte Chorão foi, de facto, uma personalidade maior da nossa cultura lusófona.

Personalidade não menor foi a de Afonso Botelho, que completaria no dia 4 de Fevereiro 100 anos. Igualmente por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, realizou-se, nesse exacto dia, também no Palácio da Independência, um Colóquio que abordou as diversas facetas do seu pensamento e obra. São os textos então apresentados (com mais alguns entretanto chegados) que aqui publicamos (mais de uma dezena e meia de textos).

Dois mil e dezanove tem sido um ano especialmente rico em centenários. Para além de Afonso Botelho, evocamos aqui igualmente Jorge de Sena e José Hermano Saraiva. Para o próximo número, fica desde já prometida a evocação de Joel Serrão e de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde iremos também recordar Agustina Bessa-Luís, recentemente falecida, no início deste semestre, que marcou ainda presença na NOVA ÁGUIA – logo no primeiro número, onde publicámos um texto seu intitulado “O fantasma que anda no meu jardim”, que termina desta forma: “Voltaremos a encontrar-nos”. Até sempre, Agustina!

Ainda no vigésimo quarto número da NOVA ÁGUIA, para além do “Poemáguio” e do “Memoriáguio” (duas secções igualmente clássicas), publicamos cerca de uma dezena de “Outros Voos” e, em “Extavoo”, mais um capítulo da segunda parte (inédita) da Vida Conversável, de Agostinho da Silva, bem como a série completa das “Cartas sem resposta” de João Bigotte Chorão –, algumas das quais já publicadas em números anteriores da nossa revista. No “Bibliáguio”, por fim, publicamos mais de meia dúzia de recensões de obras que despertaram a atenção do nosso olhar aquilino.


A Direcção da NOVA ÁGUIA


Post Scriptum: Já na fase final da composição deste número, a 27 de Julho, faleceu, aos oitenta anos, Pinharanda Gomes, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, um dos mais importantes colaboradores da NOVA ÁGUIA, desde o primeiro número (até este que aqui se apresenta, com dois ensaios que nos fez chegar no primeiro semestre deste ano), e, sob todos os pontos de vista, uma das mais relevantes figuras da cultura lusófona do último meio século (facto que só por ignorância ou má-fé pode ser contestado). Por isso, no próximo número da revista, teremos, logo a abrir, uma série de Textos e Testemunhos em sua Homenagem.

NOVA ÁGUIA Nº 24: ÍNDICE

Editorial…5
HOMENAGEM A JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Textos e Testemunhos de J. Pinharanda Gomes (p. 8), Alfredo Campos Matos (p. 22), Annabela Rita (p. 22), António Braz Teixeira (p. 24), António Cândido Franco (p. 24), António Leite da Costa (p. 25), António Manuel Pires Cabral (p. 26), Artur Anselmo (p. 27), Eugénio Lisboa (p. 27), Isabel Ponce de Leão (p. 29), Jaime Nogueira Pinto (p. 29), Miguel Real (31), Paulo Ferreira da Cunha (p. 39) e Paulo Samuel (p. 41).
NOS 100 ANOS DE AFONSO BOTELHO
APOLOGIA E HERMENÊUTICA NA OBRA DE AFONSO BOTELHO | António Braz Teixeira…48
AFONSO BOTELHO SEMI-INÉDITO | António Cândido Franco…57
AFONSO BOTELHO NO 57: MOVIMENTO DE CULTURA PORTUGUESA | Artur Manso…59
EDUCAÇÃO E SAUDADE EM AFONSO BOTELHO | Emanuel Oliveira Medeiros…65
HUMANISMO ESPERANÇOSO DE AFONSO BOTELHO | Guilherme d’Oliveira Martins…86
À MEMÓRIA DE AFONSO BOTELHO | J. Pinharanda Gomes…88
AFONSO BOTELHO: TESTEMUNHO BREVE | Joaquim Domingues…90
AFONSO BOTELHO, UM ARISTOCRATA EXEGETA DE D. DUARTE | José Almeida…92
TESTEMUNHO E HOMENAGEM A AFONSO BOTELHO | José Esteves Pereira…97
MITO E MITOS FUNDANTES: A POSSIBILIDADE DO DISCURSO DA SAUDADE | Luís Lóia…98
O TEMA DA SAUDADE NA TEORIA DO AMOR E DA MORTE DE AFONSO BOTELHO | Manuel Cândido Pimentel…104
AFONSO BOTELHO: DA RAZÃO E DO CORAÇÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…108
AFONSO BOTELHO, DO PENSAMENTO À ESCRITA FICCIONAL NO 57: UMA ABORDAGEM DO CONTO O INCONFORMISTA | Maria Luísa de Castro Soares…112
A FICÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Miguel Real…118
DA FILOSOFIA COMO “SABEDORIA DO AMOR”: ENTRE JOSÉ MARINHO E AFONSO BOTELHO | Renato Epifânio…125
A RENÚNCIA DO MAL NA METAFÍSICA CRISTÃ DA REDENÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Samuel Dimas...127
SOBRE A MÓNADA HOMEMULHER EM AFONSO BOTELHO | Teresa Dugos-Pimentel…139
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES: JORGE DE SENA E JOSÉ HERMANO SARAIVA
A CRÍTICA LITERÁRIA EM JORGE DE SENA | Miguel Real…146
JOSÉ HERMANO SARAIVA: HISTORIADOR E DIVULGADOR DA CULTURA PORTUGUESA | Nuno Sotto Mayor Ferrão…151
OUTROS VOOS
A MANEIRA PORTUGUESA DE ESTAR NO MUNDO | Adriano Moreira…162
O PENSAMENTO ESTÉTICO DE EDUARDO LOURENÇO | António Braz Teixeira…165
O SENTIDO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO DA LUZ EM “VIRGENS LOUCAS” DE ANTÓNIO AURÉLIO GONCALVES | Elter Manuel Carlos…170
OS AÇORES E O MAR – O POVO, SOCIEDADE(S) E TERRITÓRIOS | Emanuel Oliveira Medeiros…176
SOBRE OS INÉDITOS DE JUNQUEIRO | Joaquim Domingues…188
VIVÊNCIAS COM MÁRIO CESARINY E FERNANDO GRADE: POETAS E PINTORES | Luís de Barreiros Tavares…194
SENTIDO E VALOR ACTUAIS DA MONARQUIA: UMA PERSPECTIVA TEÓRICO-CONSTITUCIONAL | Pedro Velez…197
CINCO DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS| Renato Epifânio…199
AUTOBIOGRAFIA 6 | Samuel Dimas…204
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…220
CARTAS SEM RESPOSTA | João Bigotte Chorão…227
BIBLIÁGUIO
ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA | Joaquim Domingues…256
A ESCOLA PORTUENSE EM QUESTÃO | Elísio Gala…256
LEONARDO COIMBRA: VIDA E FILOSOFIA | José Esteves Pereira…258
EUDORO DE SOUSA E A PRESENÇA DO MITO NA FILOSOFIA PORTUGUESA | Samuel Dimas…262
TABULA RASA II & ESTUDOS SOBRE HEIDEGGER | Renato Epifânio…263
PEITO À JANELA SEM CORAÇÃO AO LARGO | Onésimo Teotónio Almeida…264
ESPÍRITOS DAS LUZES | Anabela Ferreira…266
POEMÁGUIO
CATATÓNICO; GOLGOTHA | António José Borges…46
SEU HÁBITO MELHOR | Jaime Otelo…47
“NASCERÁ O MAIOR AMOR…” | Catarina Inverno…144
FUNDURA | Maria Leonor Xavier…145
MACAU | António José Queiroz…159
CANÇÃO SUPREMA | Carla Ribeiro…160
COMO PODEM ESPERAR | Delmar Maia Gonçalves…161
PELOS SENTIDOS | Juvenal Bucuane…161
NUME | Luísa Borges…218
STELA | Jesus Carlos…219
MIMNERNO E AS FOLHAS CAÍDAS DE JÚDICE | Susana Marta Pereira…254
LARGO | Joel Henriques…255
PARA O HERBERTO HELDER | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…267
SEGUNDA VARIAÇÃO | José Luís Hopffer C. Almada…268
MEMORIÁGUIO…272
MAPIÁGUIO…273
ASSINATURAS…273
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…274

Lançamento da NOVA ÁGUIA 24

Lançamento da NOVA ÁGUIA 24
18 de Outubro, no Palácio da Independência (na foto: Abel Lacerda Botelho, Renato Epifânio e António Braz Teixeira). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:

https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
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sábado, 11 de dezembro de 2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

ESTE SÁBADO, ÀS 15:00, NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE SESIMBRA

Lançamento da edição fac-similada da 1.ª série da revista A Águia, com a chancela da Al-Barzahk, com a presença do editor M. N. Vieira. Apresentação de Pedro Martins.

terça-feira, 9 de março de 2010

Hoje, no Porto...




A Universidade do Porto, em parceria com a Universidade Católica Portuguesa, a Câmara Municipal do Porto e a Câmara Municipal de Amarante, tem a honra de convidar Vossa Excelência para o primeiro evento do Ciclo de Comemorações do Centenário da Revista A ÁGUIA:

“Nos 100 anos d’ A Águia e da República”

Palacete dos Viscondes de Balsemão

9 de Março de 2010, 18h30

Pedro Baptista: “A REPÚBLICA: DO PENSAMENTO À ACÇÃO”

José Carlos Seabra Pereira: “OS NINHOS E OS VOOS D’A ÁGUIA

Fernando Guimarães: APRESENTAÇÃO DO Nº 5 DA NOVA ÁGUIA

Instituto de Filosofia da FLUP

Research Group

“RAÍZES E HORIZONTES DA FILOSOFIA E DA CULTURA EM PORTUGAL”


domingo, 31 de janeiro de 2010

Nota evocativa: A Vida Portuguesa – Inquérito à vida nacional

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José Gama
Faculdade de Filosofia, Braga – UCP

Em ano de centenário do surgimento da revista A Águia, proponho-me fazer uma breve evocação de uma outra publicação periódica, que de algum modo está ligada ao grupo promotor e ao espírito que promoveu a criação da revista e o seu enquadramento no movimento da Renascença Portuguesa. Trata-se do boletim A Vida Portuguesa, dirigido por Jaime Cortesão, entre Outubro de 1912 e Novembro de 1915.
A Vida Portuguesa (AVP) surge dentro da Associação da Renascença Portuguesa (RP). A revista A Águia, como órgão oficial a partir da 2ª série, iniciada em Janeiro de 1912, é predominantemente doutrinária; à nova publicação AVP, em cadernos de oito páginas, caberia um papel informativo mais próximo da realidade nacional, o que não significa puramente noticioso.
A dimensão que aqui pretendo salientar é o carácter essencialmente conciliador entre as duas principais tendências que se manifestaram na fundação da RP, e que opuseram o grupo do norte e o grupo do sul. Estabeleceu também, desse modo, a ponte de ligação que uniu a tendência manifestada claramente pelo grupo de Lisboa e a orientação do movimento da Seara Nova, lançado em 1921, com a publicação da revista com o mesmo nome, como órgão oficial. Os protagonistas são fundamentalmente os mesmos, cabendo a Jaime Cortesão o papel determinante e omnicompreensivo, enquanto congrega os grupos fundadores da RP, integrando o do norte (Coimbra/Porto), dá corpo ao boletim conciliador AVP, e reúne à sua volta o “Grupo da Biblioteca Nacional” que dá início à Seara Nova. Neste novo grupo encontramos os principais elementos do anterior grupo do sul, na criação da RP, com destaque para Raul Proença.
São bem conhecidas as tendências que opuseram os grupos fundadores da Renascença. Pelo norte/Porto, o espiritualismo patriótico e nacionalista liderado pelo poeta Teixeira de Pascoaes, e pelo sul/Lisboa, o programa reformista de intervenção sócio-política, orientado para um socialismo democrático, liderado pelo escritor Raul Proença. Os respectivos manifestos-programa, elaborados para as reuniões preparatórias da criação da Associação, realizadas em Agosto e em Setembro de 1911, só mais tarde são divulgados, precisamente nas páginas do número 22 de AVP, de 10 de Fevereiro de 1914.
A orientação saudosista que Teixeira de Pascoaes imprimiu à revista A Águia, como órgão da RP, está patente desde o primeiro número, em particular no texto de apresentação “Renascença”. No número seguinte, de Fevereiro de 1912, no artigo “Renascença (O espírito da nossa Raça)”, insiste na “verdadeira interpretação da Saudade, isto é, a verdadeira interpretação do génio, do espírito da alma portuguesa”, e não deixa passar a oportunidade para lançar a observação irónica à “ingenuidade dos que se julgam práticos, modernos…”, e ao “preconceito do senso prático”. Mais tarde, Jaime Cortesão, já em vésperas do lançamento do boletim AVP, no artigo “Da Renascença Portuguesa e seus intentos”, inscreve o projecto da RP num horizonte mais amplo e europeu, que “não é incompatível com as aspirações modernas”, e que “promoverá no Povo português a parte da boa cultura que a Europa lhes possa trazer”.

A ideia fundadora de AVP é situada por Jaime Cortesão na reunião de 2 de Junho de 1912 da Direcção do Conselho de Administração da RP, que decidiu “a publicação dum quinzenário de inquérito à vida nacional sob o quádruplo aspecto do problema religioso, pedagógico, económico e social”. O primeiro caderno é publicado em 31 de Outubro de 1912. Manter-se-á até Novembro de 1915, com a edição de 39 números, em cadernos de 8 páginas cada, e organizados em 2 volumes. A periodicidade foi variando, e daí a mudança do subtítulo da publicação, que se iniciou com “Quinzenário de inquérito à vida nacional”, passou a “Boletim de inquérito à vida nacional”, mensal, e, finalmente, como “Boletim da «Renascença Portuguesa»”, com a periodicidade mensal ou de 3 semanas, com excepção do último caderno, de Novembro de 1915, que sai cinco meses depois do anterior.
A leitura atenta do artigo de apresentação, de Jaime Cortesão, permite perceber a resposta interna à exigência de alargar o horizonte de incidência da reflexão e da intervenção, renovadoras e criativas, na vida nacional. A indicação dos quatro domínios temáticos é acompanhada das comissões respectivas, com atribuição dum programa de acção. O objectivo que este inquérito à vida nacional se propõe, procura conciliar a atenção refundadora do “original espírito da Pátria Portuguesa”, na linha do saudosismo de Pascoaes, com a “harmonia com o espírito moderno, e especialmente em conformidade com as necessidades actuais”. Parece aflorar aqui a tensão latente entre a atitude hostil a todas as “más influências [literárias, políticas e religiosas] vindas do estrangeiro”, apregoada por Pascoaes, e a necessidade urgente de abertura ao “espírito moderno” que Jaime Cortesão propõe, em evidente ressonância do programa do manifesto do grupo de Lisboa, redigido por Raul Proença. Este programa posiciona-se frontalmente em oposição ao nacionalismo cultural do saudosismo. Por exemplo, perante a situação caótica da vida nacional, após a revolução triunfante, a resposta à palavra de ordem “renascença nacional” é a seguinte: “Que fazer então? – Pôr a sociedade portuguesa em contacto com o mundo moderno, fazê-la interessar pelo que interessa os homens lá de fora, dar-lhe o espírito actual, a cultura actual, sem perder nunca de vista, já se sabe, o ponto de vista nacional e as condições, os recursos e os fins nacionais. Temos de aplicar a nós mesmos, por nossa conta, esse espírito do nosso tempo, de que temos estado tão absolutamente alheados”.
E surge A Vida Portuguesa, como inquérito à vida nacional. As grandes questões vão surgindo, em análises das questões económicas, das questões educativas (lançamento de um inquérito a nível nacional), da organização da indústria, da vulgarização científica, e da “menina dos olhos” de Jaime Cortesão, que foi o lançamento e dinamização das Universidades Populares.
Além destas análises das grandes questões, o boletim foi-se recheando cada vez mais com as referências e divulgação das actividades da RP. São as indicações cronológicas de todas as acções realizadas, e que permitem acompanhar a par e passo a vida da Associação; são os documentos e transcrições do eco da RP nos periódicos nacionais e alguns internacionais; são os anúncios e programas dos cursos realizados nas Universidades Populares; são as listas de obras da Biblioteca da RP; são os artigos e as listas relacionadas com a “subscrição nacional a favor de Gomes Leal”…
É a voz da Renascença Portuguesa, como consciência activa do seu papel de rejuvenescimento da Raça e da Pátria, sem trair a linha de rumo delineada por Teixeira de Pascoaes, mas apelando com insistência à intervenção da geração nova que se orienta mais para o Futuro, para uma nova Vida e novo Mundo. Sem esquecer “aqueles que têm aquela experiência, aquele saber, e ponderação, que só o tempo dá”.
É também a voz da crítica, não apenas referenciada nas alusões e nas respostas às críticas públicas, mas sobretudo nas inúmeras páginas do boletim com textos de António Sérgio, preparando e acompanhando a famosa “polémica sobre o saudosismo” com Teixeira de Pascoaes, nas páginas de A Águia, de Outubro de 1913 a Julho de 1914. Para além de outros textos extensos, atendendo à dimensão do boletim, é de destacar o artigo “Golpes de malho em ferro frio – Aos portugueses de 16 anos que não ambicionam ser poetas líricos”, que preenche na quase totalidade as oito páginas do caderno nº 16, de 2 de Agosto de 1913, e que desfere a terrível acusação à RP “de ser uma sociedade do elogio mútuo. Creio que realmente tem havido orgia de elogio mútuo. Reconheçamo-lo, emendemo-nos e sigamos adiante”. É a preparação próxima da polémica com Pascoaes, no órgão oficial. A sua oposição ao saudosismo é directa e frontal: “Só alcançarmos um viver decente quando atirarmos completamente ao diabo o Historismo e o Saudosismo”. A crítica de Jaime Cortesão vai no sentido de apontar os erros e contradições, “para não dizer dispautérios”, de Sérgio, com o texto “O parasitismo e o anti-historismo – Carta a António Sérgio” ; a resposta de Sérgio às objecções sairá no nº 20, de uma forma mais clara, em estilo límpido e em linguagem da ciência e sem imagens, no texto “O parasitismo peninsular – Carta a Jaime Cortesão” .
A colaboração de António Sérgio manter-se-á até aos últimos cadernos, chegando mesmo a assumir a direcção da “Biblioteca de Educação”, nos projectos editoriais da RP, e que permanecerá anunciada nas páginas do boletim até ao penúltimo caderno, em Junho de 1915.
Como nota curiosa, regista-se a ausência de colaboração de Teixeira de Pascoaes nas páginas deste boletim, para além de um breve texto – “Gomes Leal na miséria” , com o apelo ao apoio urgente a um grande Poeta na miséria. O seu domínio era o de A Águia, nos altos voos de inspiração saudosista, sem concessões ao sentido prático dos que viam na intervenção do quotidiano uma exigência inadiável para todo o projecto de renovação cultural.
A partir de Agosto de 1914, o drama da “Guerra Grande” marca presença nas páginas do boletim. Álvaro Pinto escreve a crónica “Portugal e a Guerra Grande” , onde analisa as razões da guerra e os motivos da loucura alemã, e interroga-se sobre a atitude de Portugal, apontando para um apoio à causa da justiça e à vitória do direito. Jaime Cortesão, no mês seguinte, com o texto “A Renascença Portuguesa e a Guerra”, exorta à solidariedade greco-latina, perante o perigo que ameaça a França, e propõe “à meditação e actividade dos nossos amigos este belo motivo a solicitar as suas energias” . E, coerente com a sua posição, em breve se alista nas fileiras dos voluntários como médico, retomando assim a actividade profissional que tinha suspendido havia alguns anos.
As dissidências no seio da Renascença Portuguesa e a dispersão que a Guerra provocou, vão apressar o fim da publicação do Boletim A Vida Portuguesa. Em breve se assistirá ao abandono da direcção da revista A Águia por Teixeira de Pascoaes, às dissidências mais surpreendentes de Jaime Cortesão e de Álvaro Pinto, e à criação do movimento e da publicação da Seara Nova…
Jaime Cortesão desiste dum projecto, mas continua a lutar pelos mesmos ideais de renovação, que o hão-de levar a novos empreendimentos e a longínquas paragens. Por agora, fica a mudança de estratégia, que ele explica em carta ao amigo Álvaro Pinto: “A Renascença, nascida antes da guerra, correspondeu a uma época do mundo e a uma idade nossa que passou. Sob o ponto de vista de ideias, que deram a célebre discussão entre Pascoaes e Sérgio, eu hoje pendo para o lado do último. No túmulo cheio de velhos miasmas, que é a Nação, devem entrar lufadas de ar distante e renovador”.

domingo, 24 de janeiro de 2010

RAUL PROENÇA, COLABORADOR D’ A ÁGUIA

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Maria Celeste Natário

Foi neste órgão de importante projecção cultural no tempo (e também fora dele) que Raul Proença, um pensador que não é portuense, se liga ao grande escol de intelectuais que do Porto e no Porto pensaram, fizeram escola, intervieram na vida da cidade e do País, e estiveram sempre atentos aos ventos que de fora chegavam, desde que daí en­tendessem poder retirar ensinamentos e melhor pudessem fundamentar posições assumidas.
A criação da Associação Renascença Portuguesa foi tam­bém um dos momentos de grande importância na vida de Raul Proença, tendo sido desde a primeira hora a pessoa escolhida por Jaime Cortesão (homem que sonhara esta Associação) para pôr em prática esse sonho. Por isso, e de forma directa, a ligação de Raul Proença à Renascença Portuguesa explica-se, quanto a nós, pela amizade que se estabelece em Lisboa com Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão em 1908-1909, a que se seguiu o convite dos homens do Norte para a sua colaboração em A Águia (l.a série). Este acontecimento teve, segundo pen­samos, importantes repercussões na evolução do pensamento deste autor, principalmente a partir de 1910 (data em que a sua matriz positivista, iniciada ainda como estudante do Ins­tituto Comercial e Industrial em Lisboa, por volta de 1904-1905, começa a ser ultrapassada), para em 1912 constituir já a primeira fase do seu pensamento.
A colaboração em A Águia inicia-se assim numa época (1910) em que o seu pensamento passa por substanciais alte­rações, constituindo, pensamos, uma especial e acrescida im­portância, quer no plano global do seu trabalho, quer especi­ficamente no contexto em causa, não sendo despiciendo referir o novo leque de amizades e diferentes posicionamentos filosó­ficos com que passa a conviver.
A temática política, sempre muito presente no seu pensa­mento, é nesta época tratada na Alma Nacional, revista de António José de Almeida, a qual inicia a sua publicação em 10 de Fevereiro de 1910 e onde Raul Proença colaborou assi­duamente ao longo de trinta e quatro números.
Porém, e no mesmo ano, a colaboração em A Águia é de natureza bem diferente e também menos assídua do que na Alma Nacional.
Em A Águia (l.a série) são publicados, no total, cinco ar­tigos[1], sendo o tema de maior relevo aí tratado a questão da Arte. Não foi contudo ao acaso que o pensador de Lisboa, convidado para colaborar na Revista do Norte, se debruça sobre esta questão. A base para o interesse deste tema, o qual é exposto pelo nosso autor em dois artigos com o mesmo títu­lo — «A arte é social?» —, decorre de uma proposta do poeta belga Verhaeren, que aos leitores de A Águia se dirige sobre tal questão, ou seja, «A arte é social?». E, se o não é na sua essência, deve ou pode sê-lo? Mais do que na qualidade de leitor, mas também como colaborador, Raul Proença vai ence­tar as suas respostas, começando por discordar da pergunta. Entendendo que esta não estava «muito nitidamente delimita­da nem muito claramente expressa», resolve o crítico atento «sobre questão tão vaga» separar os diferentes aspectos da temática e tratá-los por partes, significando para o nosso au­tor que seria necessário discernir primeiro sobre cada um dos seus aspectos. Respondendo à primeira questão, Proença con­sidera que a obra de arte faz parte e é uma característica da vida social, podendo individualizar um povo e uma cultura. Psicologicamente, entende que a obra de arte reflecte a alma e o ideal comum de uma cultura no que ela tem de mais profundo e humano, afirmando que «a arte bastaria para de­finir psicologicamente um povo ou desenterrar das ruínas uma esquecida época»[2]. Como exemplo, Raul Proença refere a pi­râmide de Keops ou a esfinge de Gize como sendo «o espelho da alma egípcia», ou ainda o Coliseu e Ariana adormecida testemunhos da grandeza de Roma, assim como o Pártenon, Diana ou Vénus, os quais nos transmitem a harmonia da vida do espírito helénico.
Também a música, a pintura, a arquitectura e as letras são o reflexo de um tempo e de um espaço onde, segundo o nosso autor, os seus mestres transmitem os mesmos sentimen­tos e ideias de um povo e cultura. Com a filosofia o mesmo acontece, pois «os pensadores filosofam com a alma do seu povo», dando também soluções a «problemas transcendentes com o sangue das nossas veias», aludindo ainda tanto ao pragmatismo francês como ao anglo-saxónico, em que o pri­meiro revela a tradição racionalista e o gosto pela harmonia e o segundo se inclina pelo «empirismo absoluto e as suas tendências utilitárias».
Na arte, o que se verifica, segundo Raul Proença, é que a penetração do social e a sua envolvência (mais do que no domínio do pensamento científico ou da especulação científica) são mais fortes, estando em causa os sentimentos mais do que as ideias, sendo que «muitas vezes já os homens estão de acordo pelo que sentem e ainda lutam pelo que sentem». A obra de arte, que antes de tudo é social (ainda que possa provocar sentimentos anti-sociais, nunca deixando de ser social, exalta, ilumina e «acrescenta valor à vida humana» nas suas várias formas, pois a arte espiritualiza, «afastando as almas da ma­téria bruta».
Quanto ao papel do criador e da realização do ideal de beleza, Proença refere que são «as sensibilidades mais desper­tas que fixam na linguagem humana, na linha, no verso, tudo o que há de desconhecido em roda de nós e em nós mesmos», e que, ao contrário daqueles que vivem a vida sem a senti­rem, esses vivem-na sentindo-a.
Também as dimensões do conhecimento e da moral são atribuídas à obra de arte, dimensões estas cumpridas aqui mais do que em qualquer outra ciência, pois «ensina sem didactismo e moraliza sem dogma», dando um mais elevado sentido à vida, sendo «um fenómeno sagrado formado de coi­sas sagradas». A arte terá também assim a função de fazer despertar, dar mais valor à vida, pois o homem educado pela arte «habitua-se a considerar a vida de joelhos», produzindo simpatia e sensibilidade. Por isso, e independentemente «dos intuitos surajoutées, a arte não só é social, como eminente­mente moral».
Mas se a natureza da arte é social, também o seu objecto o é, ainda que algumas expressões de arte aparentemente o possam não parecer. No íntimo do seu objecto, a «arte socioló­gica, de costume, psicológica ou cósmica» é social (o que de­corre da «porção de universalidade que contém»), sendo tam­bém capaz de nos fazer desprender da prisão humana e de nos transportar para as «regiões da unidade inefável».
O ideal de beleza e a inspiração estética do criador (dois dos aspectos mais considerados por aqueles que defendem a ideia de «arte pela arte») é também resolvida pela análise de Proença. Considerar o intuito estético do criador da obra de arte como não sendo, de modo algum, adverso do intuito moral (antes bem pelo contrário) possibilitará uma visão mais íntima da realidade, sendo necessário que, «para que nada se sacri­fique, nem o desejo de perfeição moral nem a sede de perfei­ção artística», o artista crie, «vibrando sob um único impulso», ou seja, que «o artista se confunda com o homem de coração para que nele se forme uma nova criatura espiritual, única, duma espiritualidade mais alta»[3].
O Bem e o Belo serão criados na obra de arte, na opinião do pensador de Lisboa, se, de forma conjugada, o seu criador escutar a voz da moralidade e da Beleza. «Tudo o que é hu­mano vale na medida em que satisfaz a maior porção do ho­mem», possibilitando uma maior proximidade do mistério da vida, onde o artista pode ser uma espécie de «apóstolo» que dá mais vida à vida.
Porém, pensa também que não constitui uma obrigação que o artista, na produção da sua obra de arte, se inspire de um intuito social, pois a sua missão «é emover [sic] pela Be­leza e fazendo-o já satisfaz». Mas «quase sempre ganha se se inspirar dum alto intuito humano, porque aumenta então em profundeza o seu omnipotente encanto, porque não satisfaz apenas o nosso intuito originário de Beleza, mas congraça todas as aspirações, todos os desejos, todos os intuitos, na integridade da alma humana». Estas obras sim, são aquelas que Proença chama «obras de perfeição eterna».
A questão dos fins da arte (que por volta dos anos 30 e início dos anos 40 conhece em Portugal aceso debate), Proença deixa expressa a sua posição vinte anos antes, salvaguardan­do, em certa medida, a sua ideia de «arte pela arte» e da «arte social».
Não obstante, reconhece o artista (embora como autónomo e como génio, imbuído de «uma certa superioridade psíquica») defende também que ele é um ser «heterónomo» (sic) porque dependente do mundo social que o envolve, onde a estética pode (ou deve) estar presente. Simultaneamente, o homem (animal social) desenvolve a sua característica de ser comuni­tário, vivendo em comunhão com. Por isso, o dentro de si e c fora de si unem-se na obra de arte, levando a que o fenómeno estético deva ser entendido numa atitude omnicompreensiva que Proença defendeu.
Na confluência do Bem e da Beleza, a sua concepção de estética aproxima-se de um pendor ético-material, sendo a arte um acto vital[4] que tem como finalidade dar mais vida à vida porque capaz de a elevar a uma vida que «tenha de Apoio e de Dioniso e de Jesus Olímpico, fervorosa, entusiasta, séria, profunda, grave»[5].
A síntese dos valores pagãos e cristãos (presente na maio­ria dos homens de A Águia, como Pascoaes, Leonardo Coim­bra e Jaime Cortesão) também parece ter sido inspiradora de Proença.
O positivismo materialista e naturalismo estético, por onde inicialmente Proença fora conduzido, ia dando lugar a um cada vez mais acentuado espiritualismo, inspirado numa intuição da vida como fonte de permanente criação, Bondade e Beleza.
A tese de licenciatura em Medicina que Jaime Cortesão apresentara em Lisboa em 1910, intitulada A Arte e a Medici­na— Antero de Quental e Sousa Martins[6], leva também Proen­ça à redacção de um artigo, fazendo uma recensão da obra[7], e onde também a questão da arte é retomada, desta vez sobre­tudo mais na dimensão do artista. Cortesão, a quem se refere como «poeta da Águia»[8] e que realizou com este trabalho «uma obra de simpatia», é também por ele considerado como um artista. À semelhança de Antero, também Cortesão era para Proença um «poeta da profundidade», pois, «com o amor que nós pomos a defender o que constitui a melhor parte de nós mesmos», levou a cabo, mais do que com simpatia, «a condição primária na crítica de uma obra de arte», o que o nosso autor designou como «comunicação com as almas»[9].
Jaime Cortesão fora sobretudo também movido pela preo­cupação de reabilitação do grande poeta Antero, que muito admirava, deixando, de certo modo, falar o coração, porque (es­crevia Proença neste texto, citando o próprio Cortesão) «o meu coração – disse ele um dia – só pode amar e admirar com paixão». E, continuando a citar o autor da dissertação, afirma que a sua atitude fica patente numa nota do trabalho quando diz «nós outros (artistas) escrevemos as mais das vezes à custa do amor e do sofrimento, do entusiasmo e da indignação».
Esta circunstância, em que «o autor começa a sua obra de crítica condenando-se desde logo como crítico», merece a Proen­ça o agradecimento por essa sinceridade e, embora o rigor e a desinteressada observação possam ser postos em causa, isso não obstacularizará a que mesmo assim Cortesão, na opinião de Proença, não tenha acertado nas linhas gerais.
Este texto, visando fundamentalmente a análise do traba­lho de Cortesão, fornece-nos simultaneamente não só a com­provação da sua perspectiva acerca da arte (que nos artigos anteriores explanara), mas também a sua oposição ao materia­lismo da doutrina positivista a que se ligara.
Assentindo na ideia de criação artística que brota do im­pulso interior da alma do artista, onde o amor e a paixão se podem impor, não deixa contudo de considerar, neste caso concreto de Cortesão, que a sua preocupação decorria afinal de uma questão moral (a da reabilitação de Antero de Quen­tal), com ele concordando na atitude do artista, que decorria muitas vezes do amor, sofrimento, entusiasmo e indignação que as circunstâncias envolventes provocam.
Por isso, «arte pela arte» e «arte social» ficam concebidas, e de certo modo justificadas, ocupando, no entanto, o domínio dos afectos e das emoções um papel extremamente importan­te, não fosse a arte reflexo da vida e a vida podendo ser tam­bém reflexo da arte.
Por isso a vida (valor por Proença considerado como o mais importante de todos) não podia dispensar a arte e a filosofia, que devem entender-se como sendo a própria vida, onde a universalidade e expansão criadora existem. O «torpe positivismo» de Sousa Martins caía, na perspectiva do nosso autor, num estreito dogmatismo, pelo que a ciência assim entendida teria que falhar necessariamente porque dela se esperou «o último milagre» e dela se fez «o último Deus». E Sousa Martins, na sua Nosografia de Antera, cai nessa ar­madilha.
A alucinação e superstição científicas que os progressos nas ciências provocaram induziram a uma falsa crença no seu poder, considerado absoluto. Também o intelectualismo daí decorrente levou «à confiança mais ingénua no seu poder revelador da inteligência humana»[10], e nessa perniciosa in­fluência caíram os espíritos mais profundos e originais, como foi o caso de F. Nietzsche, ainda que, «na sua segunda fase [afirma Proença], se afaste mais do Dionísio para se aproxi­mar mais de Sócrates»[11].
«A doutrina comtiana defensora da ordem e da Razão do Estado», assim como «o determinismo que nega a liberdade criadora e a doutrina da Evolução, que subordina a Revolução ao movimento evolutivo»[12], vão surgir exactamente neste pe­ríodo de crença desmesurada na ciência, numa fase que Proen­ça designaria como «período da intelectualidade petulante», a que chama também «Reino da Burguesia»[13]. Aqui, a vida hu­mana na sua verdadeira dimensão era esquecida, porque uma «razão estreita que tudo intelectualiza» constituía o único ins­trumento de análise. Definitivamente Proença condena essas crenças redutoras na razão, ou seja, aquelas que dela faziam «o novo Prometeu».
A compreensão da vida afigurava-se-lhe, fundamentalmen­te a partir desta época, como algo bem mais complexo, a que a «ilusão ao suficientismo positivista» não podia dar respos­tas.
Comte, Zola, Strauss, Berthelot, Haeckel, Le Dantec, eram autores com os quais, de um ou outro modo, Proença encon­trara afinidades e que agora critica, porque afinal «profana­ram a vida», reduzindo-a à visão científica. Escalando «o céu com o intelecto», com uma «Razão estreita» e não com a «Ra­zão larga que sintetiza as experiências da vida», tudo ficaria reduzido a uma espécie de cousismo, em que a vida, com to­das as suas expressões, seria profanada. A afirmação lapidar de Proença que sintetiza bem o seu pensamento racionalista, espiritualista e vitalista e que mais claramente começa a aprofundar e desenvolver desde a sua colaboração em A Águia (l.a série) e na Alma Nacional, e que prossegue e acentua em A Águia (2.a série) a partir de 1912, e em quase todos os seus textos até ao final da vida é esta: «Porque, acima de tudo e além de tudo, eu fiz da vida o meu culto e fiz da liberdade uma paixão.»




[1] A colaboração de Raul Proença em A Águia (1.ª série) inicia-se com o n.° l, em l de Dezembro de 1910, publicando o texto intitulado «Carta perdida». Segue-se o artigo «A arte é social?», no n.° 2, de 15 de Dezembro de 1910, «A arte é social? II», no n.° 3, de l de Janeiro de 1911, «Carta a Álvaro Pinto», sem título, no n.° 5, de l de Fevereiro de 1911, e «Jaime Cortesão — A Arte e a Medicina — Antera de Quental e Sousa Martins (crí­tica)», no n.° 9, de 1 de Maio de 1911. Porém, Raul Proença continuará a colaborar em A Águia (2." série), a partir de 1912, desta vez como órgão da Associação Renascença Portuguesa. Aqui, ainda que a temática política te­nha também lugar, inclusivamente com um artigo intitulado «A situação po­lítica» (no n.° 2, de 5 de Fevereiro de 1912), o tema de maior importância que vamos ver surgir é o do seu estudo sobre o Eterno Retorno, onde de­monstra de forma inequívoca quer a sua capacidade de estudioso especula­tivo, quer a sua mais clara vertente de filósofo e pensador que, «às mãos» com a vida, se confronta com ela de forma mais radical e em que o seu pensamento espiritualista vitalista mais se acentua também como uma filo­sofia da existência.
[2] Raul Proença, «A arte é social?», in A Águia, 1.ª série, n.° 2, 15 de Dezembro de 1910. Até à próxima nota, todas as citações se referem a este artigo, assim como ao artigo com o mesmo título de l de Janeiro de 1911.
[3] O espiritualismo vitalista de que o pensamento de Proença estava impregnado começa desde bem cedo a evidenciar-se. Nos textos a que nos vimos referindo, «A arte é social?», é notória a cada vez maior importância da dimensão espiritual do homem, que se prolongará sempre e cada vez mais até ao final da sua vida, em 1941. Guyau, Verron e mesmo Tolstoi eram autores que em 1910 Raul Proença parece já conhecer, não só por al­gumas referências que lhes vai fazendo, mas também por excertos de algu­mas das obras destes autores, que constam em «apêndices» do seu espólio, na Biblioteca Nacional. Embora algumas sejam posteriores a 1910, também é verdade que, já nesta data, conhecia Tolstoi, a ele se referindo no segundo artigo de «A arte é social?» (p. 8), o mesmo acontecendo em relação a Guyau no artigo também já referido, «Jaime Cortesão—A Arte e a Medicina — Antero de Quental e Sousa Martins», A Águia, l de Maio de 1911, p. 14. Neste último caso, Proença demonstra conhecer mesmo com alguma profun­didade a obra de Guyau, pois neste artigo, ao falar da «simpatia» como «condição primária na crítica de uma obra de arte», afirma que «só ela nos põe em comunicação com as almas», o que, segundo pensa o nosso autor «Guyau viu — o bem» (p. 15).
[4] Talvez o papel que atribui à arte tenha algumas semelhanças corr J. M. Guyau, in Les problèmes de 1'esthétique contemporaine, 11.ª ed., Paris Libraire Pelix Alcan, 1925, pp. 32 e 35, 37, 181, 65-75, 140. Raul Proença irá citar Guyau por diversas vezes nesta fase, mas principalmente no seu estudo sobre o Eterno Retorno. Se pensarmos também em Nietzsche, cuja ética estético-formal pode ser vista (segundo alguns estudiosos) como estan­do para além do Bem e do Mal, Proença está em oposição.
[5] Idem, ibidem.
[6] Esta dissertação versava sobre o estudo nosológico que Sousa Mar­tins fizera no In Memoriam sobre Antero de Quental, na tentativa de dar resposta aos problemas de saúde de Antero de Quental, considerando-o um caso de «degenerescência superior». Jaime Cortesão, terminado o seu curso de Medicina, apresenta um trabalho refutando essa posição. A tese que Sousa Martins defendia na sua obra Nosografia de Antero — In Memoriam, Porto, 1896, demonstra a sua sedução pelas teorias de Lombroso e Nordau, então muito na moda, acerca da «gestão mórbida do génio» (expressão de Sant'Anna Dionísio, «Antero», in Seara Nova, Lisboa, 1934, p. 98), onde um critério materialista e redutor o leva a falar de Antero como de uma «degenerescência hereditária» (in Sousa Martins, ibidem, p. 244), concluin­do que, embora tivesse laivos de génio, era um desequilibrado, o mesmo seria dizer, em linguagem comum, que era um doido. Sobre este assunto, consulte-se também Sottomayor Cardia, «O pensamento filosófico do jovem Sérgio», in História e Filosofia, vol. l, Lisboa, 1982, pp. 12-13 e 424-425.
[7] In A Águia, 1.ª série, n.° 9, de l de Maio de 1911. Refira-se, como curiosidade, que este artigo tinha já sido publicado no n.° 5, l de Fevereiro de 1911, da mesma revista, mas com bastantes incorrecções devido à falta de revisão do autor.
[8] Idem, idibem.
[9] O artigo assinalado contém certos laivos panegíricos, estando Proen­ça constantemente a elogiar Cortesão (o qual conhecera pouco antes, como já atrás referimos), o que não obsta à isenção do autor na análise levada a cabo. A amizade entre ambos parece ter sido quase imediata, prolongando-se até ao fim da vida.
[10] Idem, ibidem.
[11] Idem, ibidem.
[12] Idem, ibidem.
[13] Idem, ibidem.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O contributo d’ A Águia para a educação integral

Samuel Dimas

«A educação dá a medida da liberdade humana» .
Esta é a primeira frase do artigo de Leonardo Coimbra editado no primeiro número da revista quinzenal A Águia. No voo atlântico da águia, pelos horizontes infinitos do Universo, o arguto olhar do filósofo português penetra as cavernosas resistências do logos da abstracção com a luz do verbo da Vida. Eleva aos planaltos celestiais da Alegria e da Graça, na afectiva e inesperada incomensurabilidade da verdade do Amor, as saudosas e dolorosas veredas do pensamento chão, que na exterioridade da realidade fenoménica, se amesquinha nas determinações mensuráveis da certeza e se encastela na arrogância da instrução e do endoutrinamento.
A liberdade salvífica, que se revela na docilidade à integral experiência do ser, pela gratuita presença da sua excessiva e exuberante acção criadora, arranca-nos das petrificadas seguranças da ignorância que o passado biológico e a necessitante herança sociológica nos armadilham. O impulso da inquieta interrogação e da inconformada visão, lança-nos para o abismo desconcertante do Mistério do ser que se revela e oculta no arco-íris cultural da língua, da ciência, da filosofia, da arte e da religião.
A educação doa-nos a riqueza da cultural tradição histórica e desenha o alcance da nossa liberdade na irreverência criadora do bem comum e do progresso. Na família, na escola e na rua, vai-se constituindo a educação, que para se efectivar como experiência libertadora, implica uma filosófica escolha dos elementos essenciais da cultura, para que a verdade não seja desvirtuada pelo pragmatismo dos interesses económicos e políticos. A educação não pode ser reduzida à instrução utilitária e instrumental, assente num princípio de acumulação de saber e centrada no saber-fazer, mas deve ser promotora de uma dinâmica atitude capaz de actualizar, aprofundar e enriquecer os conhecimentos adquiridos num mundo sempre em mudança. A educação deve atender à realização integral da pessoa no dinâmico desenvolvimento das suas diversas dimensões de espírito e corpo, inteligência e sensibilidade, liberdade e responsabilidade.
Desta forma, a pedagogia deve fundamentar-se em quatro dimensões estruturantes. Em primeiro lugar, no aprender a conhecer. Num mundo de múltiplos saberes que evoluem infinitamente, mais importante que adquirir conhecimento, é adquirir a capacidade de dominar os instrumentos de conhecimento, exercitando a atenção, a memória selectiva e o pensamento, na sua criadora e dialéctica dinâmica de actividade intuitiva e dedutiva, emotiva e racional. Em segundo lugar, no aprender a fazer, isto é, aprender a aplicar os conhecimentos no desenvolvimento da vida profissional, para tarefas de gestão, concepção, comando e manutenção de máquinas. Em terceiro lugar, no aprender a viver em comunidade, pelo saudável exercício da cidadania. Uma educação capaz de promover os valores da tolerância, da multicultural idade, zelando pela defesa dos direitos humanos; capaz de promover a solidariedade, pelo desenvolvimento das acções humanitárias; capaz de promover a defesa do meio ambiente, pela criativa e equilibrada exploração dos recursos naturais. Em quarto lugar, aprender a ser. Este aspecto assume todos os outros anteriores, sublinhando a necessidade de o ser humano aprender-se naquilo que o constitui ontologicamente, enquanto ser, que se desvela nas suas dimensões biológica, psicológica, inteligente e espiritual. Um ser aberto à amplitude transcendental do Amor divino, como resposta última para o sentido da vida, do sofrimento, do mal e da morte.
Crescer no auto-conhecimento de si mesmo, exercitando também a imaginação e a criatividade, significa, consequentemente, adquirir a capacidade de elaborar pensamentos autónomos e críticos. Significa adquirir a capacidade de formular os seus próprios juízos de valor para poder decidir por si mesmo e para saber a maneira mais adequada de agir nas diferentes circunstâncias da vida. Conhecer-se a si mesmo e ao mundo que o rodeia de uma maneira intelectualmente e emocionalmente esforçada e honesta é a única forma de o homem poder comportar-se nesse mundo como actor responsável e justo. A educação deve dar o homem a si mesmo.
Pela educação o homem liberta-se da escravatura da ignorância, rasgada nas trevas do preconceito ilegítimo e dos ritos mágicos. Pela educação o homem voa para o imponderável azul da sua própria lonjura. Uma educação que não seja estritamente científica, desprezando a realidade espiritual em nome de formulas abstractas e estéreis, mas que mergulhe no oceano da Vida. Na literatura vivem os sentimentos e os sonhos: por ela esvoaça a vida real na aragem dos sorrisos e na dureza das lágrimas.
Como diz Leonardo Coimbra, que pobre é a alegria de saber classificar uma planta se não se puder sentir a sua beleza e adivinhar o seu oculto sentido . O abraço do Universo no voo da águia consuma-se a partir do encontro do homem consigo mesmo.
A liberdade de voar pelo azul das reflexões e das emoções, ao encontro do conhecimento pessoal, da identidade nacional e da Alegria original do Paraíso Celestial, também se proporciona na ousadia de movimentos culturais como o da Renascença Portuguesa. Através da colaboração na revista A Águia muitos espíritos ilustres, como Leonardo Coimbra, contribuíram para a educação integral do homem. Que a nossa colaboração na revista Nova Águia seja digna desta nobre herança, voando para os horizontes infinitos da divina sabedoria, cuja verdade do bem e da beleza se revela no silêncio saudoso da Vida.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Texto que nos chegou...

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Afonso Rocha

NO CENTENÁRIO DE A ÁGUIA:
QUE PORTUGAL O DA NOVA ÁGUIA?

Ainda hoje, quer o facto de Sampaio (Bruno) não ter pertencido à A Águia e à «Renascença Portuguesa», quer o facto de Raul Proença, Fernando Pessoa, António Sérgio e outros... se terem afastado de tal projecto, não poderá deixar de fazer pensar...
E, a meu ver, quer a atitude de um, quer a atitude de outros, deverá ser tida em tanto mais atenção quanto é possível constatar que a divergência ou afastamento do projecto em apreço não só não foi impeditivo da continuação dum certo relacionamento posterior entre uma parte e outra, como não tolheu que, posteriormente, a generalidade dos que divergiram se servisse uma ou outra vez d’A Águia para escrever um ou outro artigo .
E, porque, como outros, sou dos que valorizam as razões que terão estado na base do procedimento destes homens, também, naturalmente, não foi sem uma certa hesitação que anuí ao convite-pedido que me foi dirigido pela direcção da Nova Águia, para que colaborasse com um artigo neste seu número, de comemoração do centenário d’A Águia.
Obviamente que, ao aceitar o pedido de uma tão honrosa colaboração, também desde logo se apossou de mim a percepção de que, para um esforço de abordagem justa, se imporia entrar em linha de consideração, quer com os aspectos de divergência, quer com os aspectos de convergência, já que, hoje como ontem, sempre foi inquestionável que, entre os dois lados, nunca deixou de se dar uma essencial e comum preocupação... Isto, obviamente, para além duma postura que significasse de forma inequívoca o reconhecimento do mérito das pessoas que corporizam o tão importante projecto da Nova Águia...
Assim sendo, haverá que ter antes de mais em boa nota duas coisas: em primeiro lugar, que todos, quer os que integraram o projecto d’A Águia e da «Renascença Portuguesa», quer os que dissentiram dele ou nem mesmo lhe chegaram a pertencer, foram adeptos da República; em segundo lugar, que todos quiseram a República, mas com a «renascença» de Portugal, ou seja, com um Portugal que, «renascendo» para a sua «alma» e para a sua história, rompesse com a sua situação de país «desnacionalizado» e «estrangeirado».
Só que, sob o aspecto duma posição completamente idêntica, sucedia que, enquanto o projecto d’A Águia e da «Renascença Portuguesa» liderado por Pascoaes significava a expressão dum país que, «para crear uma nova vida» e/ou para fazer «renascer» Portugal para a sua «alma», subsumia que os portugueses teriam que «regressar às fontes originárias» e/ou à «Saudade revelada» , Bruno, Proença, Pessoa, Sérgio e outros... subsumiam que o «renascimento» de Portugal, no âmbito duma inequívoca «renascença» ou recuperação da «alma portuguesa», deveria consistir num projecto pautado por parâmetros de universalismo e de abertura ao exterior, por conseguinte um «renascimento» baseado no universalismo indispensavelmente situado, que tanto guardasse e desenvolvesse a memória histórica do Portugal de Quinhentos como integrasse na actual identidade de Portugal o exterior, o estrangeiro, a Europa e o Mundo.
E o certo é que, enquanto A Águia e/ou a «Renascença Portuguesa», conforme Pascoaes o faz supor no seu projecto de manifesto sobre a «Renascença Portuguesa» e no texto que publica sob o título «Renascença» no número de Janeiro de 1912 (2.ª série) , declaram que a perdição da «alma portuguesa» e/ou a «confusão cahotica» do país se deve às «más influências literárias, politicas e religiosas vindas do estrangeiro [Europa]», de sorte que Portugal, para «poder cumprir o destino que por natureza, nascimento e sangue lhe pertence», não tem outra solução que não seja a de fazer com que «todos os portugueses» «regressem» à sua «realidade essencial» e/ou às «fontes originárias» da «Saudade revelada», em contrapartida, Bruno, Pessoa, Proença, Sérgio e outros..., sem prejuízo de defenderem também um Portugal de identidade «nacional» (na história, no pensamento e na cultura), não deixarão, no entanto, de afirmar com ênfase o carácter imperscriptivelmente aberto, cosmopolita e universal do «Portugal novo» a construir .
De uma tal perspectiva da «Renascença» e do «renascimento» de Portugal, serão por antonomásia expressões, quer Sampaio (Bruno), quer Fernando Pessoa: o primeiro, porque, contestando de forma categórica o carácter histórico, material e pessoal do messianismo português, do messianismo judaico e do messianismo do Quinto Império do padre António Vieira, se apresenta como um defensor inquebrantável do carácter ontologicamente espiritual, impessoal do messianismo e/ou da perspectiva aberta, cosmopolita e universal do Portugal do futuro; o segundo, porque, fazendo supor o questionamento quer do «espírito» «lusitanista» e «saudosista» do messianismo de Pascoaes , quer do carácter histórico-milenarista do messianismo do Quinto Império do padre António Vieira, se apresenta como alguém que, por um lado, concebe e afirma o messianismo do Quinto Império de Portugal em termos substantivamente mítico-simbólicos, e como alguém que, por outro lado, concebe e afirma o messianismo do Quinto Império em termos de um misticismo gnóstico-cristão-pagão, de natureza tão «espiritual» e «universal» como «racional» e «anti-católica», de cuja concepção não só resulta ser impossível subsumir o messianismo do Quinto Império de Pessoa em termos de um «Império» histórico e «português», como até só resulta ser possível subsumir o Quinto Império de Portugal em termos de Quinto Império do Mundo, o mesmo é dizer, como um «imperialismo» místico-messiânico de essência «espiritual», «racional», «anti-católica» e «universal».
Bom, mas se a «renascença» d’A Águia e da «Renascença Portuguesa» hegemonizada por Pascoaes labora nos aludidos pressupostos, então, também não deixará de ser oportuno que se formulem as seguintes questões: primeira, por que razão, quando se escreve ou quando se fala d’A Águia e da «Renascença Portuguesa», se assiste a que, com frequência, mesmo no âmbito da Nova Águia, se refira Bruno, Pascoaes, Leonardo, Cortesão, Proença, Pessoa, Sérgio e outros... como se todos tivessem pertencido, ou todos tivessem pertencido do mesmo modo, à A Águia e à «Renascença Portuguesa»? Segunda, por que razão pretender afirmar que a concepção do Portugal d’A Águia e/ou da «Renascença Portuguesa» é, por exemplo, segundo a interpretação de António Cândido Franco , é a de um país «geo-estrategicamente» europeu e universal, análoga ou mesmo idêntica à de Bruno, Pascoaes, Leonardo, Cortesão, Proença, Pessoa, Sérgio e outros..., como se o ideal destes últimos quanto à «renascença» de Portugal, nomeadamente de Bruno e Pessoa, fosse no essencial o mesmo que A Águia e o movimento da «Renascença Portuguesa», mormente de Pascoaes, consagram?
De resto, se porventura esta segunda questão for considerada como susceptível de suscitar estranheza, nada, a nosso ver, como, sem que entretanto se percam de vista nomeadamente os textos de Pascoaes já mencionados, ter em atenção os quatro primeiros números da Nova Águia, e muito designadamente o último, com o qual, apesar do esforço empreendido para demonstrar o teor europeu da geo-estratégia de Pascoaes e d’A Águia, se não logra evitar a ideia de que A Águia e a «Renascença Portuguesa» terão efectivamente consistido num projecto de cariz fechado e de sabor nacionalista...
Aliás, no tocante a esta questão, independentemente de não se excluir de todo a possibilidade de alguma imprecisão no âmbito do afirmado, não deixa de se nos configurar como indispensável o aparecimento de um estudo monográfico (ou estudos), devidamente objectivo e fundamentado (coisa que, no nosso ponto de vista, ainda não existe), sobre o pensamento filosófico, político-messiânico e místico-religioso de Pascoaes, através do qual se torne possível esclarecer e avaliar de forma adequada e justa as questões em apreço.
Contudo, não obstante tudo, não somos dos que consideram descabido que a Nova Águia tenha surgido e exista. De modo algum!
Bem ao contrário, somos dos que pensam que hoje, comparativamente com os tempos d’A Águia e da «Nova Renascença», existem mesmo razões acrescidas, para que os portugueses se interroguem de forma especial sobre o problema da sua identidade e futuro como povo e país. E isto, porque, se, nos tempos d’A Águia e da «Renascença Portuguesa», a ideia que existia sobre a identidade de Portugal e o seu futuro era a de um Portugal-Império, hoje, tal ideia de Portugal já não tem qualquer adesão à realidade, porque nós já não somos um Império, mas sim um país e um povo integrado a corpo inteiro na Europa, de tal decorrendo em consequência que a Europa não possa deixar de constituir o fundamento natural e primacial da nossa actual ideia de Portugal e do seu futuro, ainda que sem nunca incorrermos no erro de enjeitar, quer a memória histórica materializada sobretudo na época de Quinhentos e que tem a ver com o carácter aberto, cosmopolita e universal que nos caracteriza, e que Pessoa identificou com a idiossincrasia do «ser tudo, de todas as maneiras» , quer o relacionamento privilegiado de Portugal com o Mundo lusófono, embora sempre a partir da Europa e com a Europa.
Bom, mas, porque toda esta reflexão e reformulação continua praticamente por fazer, então, um projecto como o da Nova Águia não só terá que ser considerado como oportuno e justificado, como deverá ser considerado em termos de um projecto que é não só urgente como mesmo mais complexo do que o que ontem mobilizou os homens d’A Águia e/ou da «Renascença Portuguesa».
Só que, nesta medida, para que logre cumprir com a missão que a nova situação orgânica e geo-estratégica confronta o país, a Nova Águia não poderá limitar-se a assumir e a reafirmar os problemas e as perspectivas d’Águia de Pascoaes como se a questão da identidade de Portugal continuasse a poder ser equacionada essencialmente à luz dum país e dum povo que ainda sejam, respectivamente, um Império sob o ponto de vista orgânico e um Povo «estrangeirado» e «desnacionalizado» sob o ponto de vista político-cultural, mas ela deverá, sim, olhar para a nova situação orgânica e/ou geo-estratégica de Portugal e adoptá-la como fundamento e parâmetro de equacionação do problema da identidade e do futuro do país, passando, por conseguinte, não só a afirmar Portugal como um país e um povo europeu, mas também como uma entidade que deverá continuar a dar provas de um povo e de um país por excelência aberto, cosmopolita e universal, muito designadamente em relação ao Mundo da lusofonia, porém, agora, a partir da Europa e com a Europa.
E, então, sim, a Nova Águia, projecto essencial do Portugal que está para cá da descolonização e da sua integração na União Europeia, fazendo prova de ser capaz de integrar os Brunos, os Pascoaes, os Leonardos, os Proenças, os Pessoas, os Sérgios e todos os demais..., não só se revelará um projecto à altura de contribuir para que o Portugal de hoje se cumpra em coerência com o enquadramento orgânico e geo-estratégico que o define actualmente, como se revelará mesmo um projecto com condições para corresponder à ânsia da maioria dos portugueses que, porventura sem o verbalizarem, estarão querendo um Portugal bem diferente do que lhes estão dando...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Portugal, Europa e universalidade em Fernando Pessoa: das vantagens da desnacionalização e algumas ambiguidades



Após o afastamento d’A Águia, Pessoa alimentou pelo menos dois projectos de outras revistas antes do Orpheu: Ibis ou Lusitânia e Europa. Nalgumas notas dispersas para a revista Europa, alude-se à “nova orientação que é preciso tomar”, que reage contra a limitação da mente pela “nacionalidade” e deseja a europeização como forma de dilatar os seus horizontes ao “meio internacional”: “O que é preciso ter é, além de cultura, uma noção do meio internacional, de não ter a alma (ainda que obscuramente) limitada pela nacionalidade. Cultura não basta. É preciso ter a alma na Europa” [1]. Contudo, nos apontamentos para um Programa para os trabalhos da geração nova, que significativamente retoma o título do projecto e manuscrito destruído por Antero de Quental, Pessoa mostra manter-se fiel ao essencial do espírito dos ensaios anteriores, ao considerar que o objectivo não é meramente elevar o povo “até ao nivel da actual civilização”, mas “leval-o para além della na orientação que ella vae tomar”. Para tal devem-se educar no povo, em paralelo, as qualidades que o capacitam para “produzir civilização contemporanea” e “as que hão de crear civilização futura”, havendo que criar “uma classe culta e agitada pelas idéas modernas, mas transcendendo-as”. A “fraternização com as correntes intelectuais” estrangeiras, mais conformes com a “ideação dos Novos, do que com a tacanhez e mesquinhez dos nossos compatriotas dominantes”, não deve assim consistir num mero mimetismo daquelas, mas antes, como veremos, num incorporá-las como ingredientes da sua própria superação [2].


É precisamente isso que Pessoa assume na corrente literária surgida com Orpheu, para a qual reclama a “originalidade, não relativa, senão absoluta”, de não só englobar mas ainda exceder todas as correntes literárias nacionais, estrangeiras e contemporâneas, manifestando “uma nova forma litteraria, uma nova visão da Realidade e da Vida, uma nova forma de dar expressão ás sensações e aos pensamentos” [3]. Sem rejeitar que, “desde o “saudosismo” de Teixeira de Pascoaes, qualquer cousa de novo, difficil ainda de definir, surgiu em Portugal”, Pessoa considera que “Orpheu” ultrapassa a estreiteza daquele, enquanto “pensamento humano” e “moderno”, na medida em que “não pretende ser senão portuguez”, ao passo que a “escola de “Orpheu”” é original e cosmopolita, “internacionalista por excelência”, fruto “de uma synthese de todas as correntes modernas, e de alguma coisa mais, que lhe é próprio”, residindo aí “o seu maior valor e interesse”. Assumindo semelhanças com o simbolismo, o saudosismo, o cubismo e o futurismo, “a nova escola portugueza é comtudo qualquér cousa mais do que todas essas escolas” [4]. Ao contrário do “regionalismo” da Renascença Portuguesa e do saudosismo, que só evoluiria “intra muros, com matéria apenas lusitana”, havendo perdido “o contacto com a poesia do século, lá de fora”, a “Escola de Lisboa”, “unico centro portuguez onde entrou um grau superior de cosmopolitismo”, “fala em voz alta, para que toda a Europa oiça”, com “uma bagagem de vistas e de attitudes que é a de quem sabe que está creando arte, não para um paiz, mas para uma época e para uma civilização”. Não se nega com isto “um nacionalismo mais largo e verdadeiro” que, em vez de se afastar, “marca o seu logar na civilização contemporânea” [5]. E o lugar que nela ocupa é precisamente o da sua vanguarda, o que confirma o Pessoa de Orpheu rigorosamente fiel, neste aspecto, ao Pessoa d’A Águia. Constatando que o próprio saudosismo levou “até ao seu máximo” e transcendeu o romantismo europeu, embora tardiamente, Pessoa celebra e exorta a que se dilate esse “impulso nacional que até no seu ponto mais baixo passa além do que a Europa fez” e assim “cria, é novo, original, grande, realmente grande!” [6].


A explicação desta só aparente contradição entre nacionalismo e cosmopolitismo é feita pelo próprio autor no esboço de um texto sobre o facto de alguém ligado a uma “theoria […] nacionalista” dirigir Orpheu, revista “de cultura cosmopolita”. Começando por afirmar “a adhesão completa e a manutenção integral” das “suas theorias expostas n’A AGUIA”, ou seja, o “nacionalismo fundamental” presente na convicção de que “o período de máxima vitalidade nacional é aquelle em que uma nação mais se entrega a si própria e á sua alma”, Pessoa distingue “trez generos de nacionalismo”: 1 – o “inferior” é “aquelle que se prende ás tradições nacionaes e é incapaz de se adaptar ás condições civilizacionaes geraes”, estando “sempre em atrazo” em relação a elas (é, em literatura, o caso de “Bocage e dos arcades em geral, até Castilho”); 2 – o “medio” é “aquelle que se prende, não ás tradições, mas á alma directa da nação, aprofundando-a mais ou menos” (o caso de “Bernardim Ribeiro, no seu grau inferior, e de um Teixeira de Pascoaes no seu alto grau”); 3 – o “supremo” é “o que num nacionalismo real integra todos os elementos cosmopolitas” (o de Camões, “no seu grau inferior”, não havendo ainda em Portugal quem represente o “seu alto grau”, como Shakespeare, Goethe e “todos os representantes supremos das culminancias literarias das nações que ahi chegaram”) [7].


Mantendo que “a vida da nacionalidade é a substancia dynamica da vida da civilização”, Pessoa considera, noutro texto, existirem “trez especies de nacionalismo”: 1 – o “nacionalismo tradicionalista”, “que faz consistir a substancia da nacionalidade em qualquer poncto do seu passado, e a vitalidade nacional na continuidade histórica com esse poncto do passado” (seria o caso do Integralismo Lusitano); 2 – o “nacionalismo integral, que consiste em attribuir a uma nação determinados attributos psychicos, na permanencia dos quaes e fidelidade social aos quaes, reside a vitalidade e a consistencia da nacionalidade” (seria o caso de Teixeira de Pascoaes, que diz não se apoiar na “tradição”, mas num “psychismo collectivo concebido como determinado”); 3 – o “nacionalismo synthetico, que consiste em atribuir a uma nacionalidade, como principio de individuação, não uma tradição determinada, nem um psychismo determinadamente tal, mas um modo especial de synthetisar as influencias do jogo civilizacional”. Ao contrário do “nacionalismo integral” de Teixeira de Pascoaes, que supõe existente uma “alma nacional”, para este último tipo de nacionalismo “não há propriamente uma alma nacional”, “apenas uma direcção nacional”. Precisando, num trecho que consideramos decisivo: “Uma nação não tem, como um individuo, uma personalidade psychica que, embora sujeita a alterações e a desvios, permanece, na sua essencia, auto-identica. Uma nação tem apenas, dados os factores inalienaveis de situação geographica, um determinado papel no conjuncto das nações, de que é formada uma civilização” [8].


Assim, se “o nacionalista tradicionalista repelle o presente e o estrangeiro” e o “nacionalista integral repelle o estrangeiro”, já “o nacionalista synthetico acceita um e outro, buscando imprimir o cunho nacional não na matéria, mas na forma, da obra”. Se cada um tem uma razão parcial, só “o nacionalista integral [no que parece um lapso evidente, onde só faz sentido estar “synthetico”] a tem supremamente, porque só elle está em todos os campos ao mesmo tempo” [9]. Sendo o “papel de uma nação forte e civilizada […] imprimir um cunho seu aos elementos civilizacionaes communs a todas as nações do seu tempo”, ou seja, plasmar uma forma sua que sintetize esses múltiplos elementos civilizacionais contemporâneos, e verificando-se que “o conflicto cultural é que produz civilização”, se Portugal está estagnado é porque “temos sido escravos de uma nação estrangeira de cada vez”. A possibilidade de libertação reside assim em abrir-se simultaneamente a várias correntes de influência estrangeira, o que na época passaria por “não eliminar a cultura franceza” mas acrescentar-lhe pelo menos outra “em conflicto com ella”, alemã ou inglesa [10].


Estes esboços de reflexão sobre o sentido de Orpheu e do afastamento d’A Águia e do projecto saudosista-renascentista de Pascoaes, em relação ao qual assinalam uma continuidade em ruptura e mutação, são extremamente importantes, pois mostram uma ideia nova para a saída da decadência e estagnação nacional, alternativa quer à mera europeização proposta por Antero e pela Geração de 70, quer à refontalização na tradição pátria projectada por Pascoaes: trata-se de abrir a nação o mais possível a diferentes e contrastantes influências culturais internacionais para se libertar do domínio exclusivo por uma delas e afinal as aglutinar, sintetizar e transcender numa nova forma civilizacional que, procedente desse impulso sintetizante que seria não a “alma” identitária, mas a “direcção” funcional da nação portuguesa, nasça ao mesmo tempo da própria tensão e acção-reacção interna entre esses díspares elementos culturais, que adiante veremos claramente definidos. É esse o espírito do que Pessoa designa como “nacionalismo cosmopolita” ou “synthetico”, bem expresso no final de um projecto de anúncio de Orpheu: “Comprar ORPHEU é, emfim, ajudar a salvar Portugal da vergonha de não ter tido senão a litteratura portugueza. ORPHEU é todas as litteraturas” [11].


É esse mesmo espírito que Pessoa assume no “sensacionismo”, cujo órgão é Orpheu. Única arte “propria” e “representativa” da sua “epocha”, o sensacionismo seria “uma arte synthese de nações e de ephocas e de artes”, pois Pessoa, consciencializando o que hoje se chama “globalização” eurocêntrica, considera que “a nossa ephoca é typicamente, a grande epocha do internacionalismo”, na qual “aquillo a que se chama civilização agora, pela primeira vez abrange todo o mundo, de norte a sul, de leste a oeste”, na qual “todos os paizes, mais materialmente do que nunca, e pela primeira vez intellectualmente, existem todos dentro de cada um, em que a Asia, a America, a Africa e a Oceania são a Europa, e existem todos na Europa”, uma vez que é a Europa “a fons et origo d’este typo civilizacional, a região civilizada que dá o typo e a direcção a todo o mundo”. O sensacionismo deve colher assim de todas as correntes, aceitando de cada época o que nela haja de “eterno e differente” e rejeitando o que “tenha de proprio, de seu”, considerado como “o limite, a barreira, á sua contribuição para a civilização”. Esta ideia, extremamente fecunda, mostra que o que há a extrair de cada época (e, supostamente, de cada cultura) é o que a leva a transcender as suas características próprias, eternizando-a e universalizando-a. É isso que alimenta o sensacionismo não só de todas as correntes artísticas e literárias, simbolistas, decadentistas, cubistas, futuristas e outras “dynamistas”, genericamente designadas como “whitmanistas”, mas ainda do que houver de melhor e diferente nos múltiplos aspectos e momentos fundamentais da experiência humana, seja o panteísmo, a santidade, a intuição dos homens do Renascimento, a construtividade grega e latina, a harmonia clássica, o egotismo romântico, o misticismo indiano e asiático, a ritualidade esotérica egípcia, o primitivismo africano, o cosmopolitismo americano, o exotismo da Oceânia e o maquinismo europeu… “A verdadeira arte moderna tem de ser maximamente desnacionalizada – accumular dentro de si todas as partes do mundo”, sem perder nada do “esforço das differentes epochas passadas” [12].


“Sensacionismo” é o “resultado d’esta Grande Synthese, d’este Magnum Opus da alchimia espiritual”, que funda “todas as terras”, “tempos” e “artes”. Perante a questão de se esse “genero de arte” é passível de “ser produzido nos grandes centros europeus, nos grandes centros de civilização”, Pessoa responde que não, pois tal arte “é supremamente portugueza”. A razão é que cada povo contribui para a civilização com aquilo de que a sua “índole” é capaz, “em contacto com o typo e direcção geraes d’essa civilização”, e uma arte totalizante e sintética, como o sensacionismo, “só pode ser dada á Europa por um povo cujo caracter seja cosmopolita, e não cuja vida o seja – por um povo cujo caracter seja sensivelmente desnacionalizado, antipatriotico”. É o caso do português, pois nenhum povo “é como o português temperamentalmente desnacionalizado, aberto a todos [sic] as influencias, recebedor fácil de todas as novidades”, inepto para o “misoneismo”, “único povo cosmopolita-nato”. Assim o comprovam as Descobertas, “a única cousa portugueza, typicamente portugueza, que houve em Portugal” e “a obra mais gloriosamente internacional, cosmopolita, e desnacionalizada” que houve na história do mundo. E é por isso que só agora, na única “epocha cosmopolita”, que é o tempo presente, pode haver literatura ou arte portuguesa. Pessoa termina assim sob o mesmo signo com que encerra os ensaios sobre a “nova poesia portuguesa” n’A Águia: se aí proclama, com o advento da nova síntese civilizacional implícita no “transcendentalismo panteísta”, a partida da “Raça” “em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço”, cumprindo “divinamente” o seu “verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo” [13], proclama agora ter chegado enfim a “Hora da Raça”, porém a “hora espiritual”, pois a “material” passou com a chegada de Vasco da Gama a Calecut. Se aí se enterrou “o destino material da Raça” [14], esta morte histórica de Portugal no apogeu da sua obra civilizacional exterior - semelhante, por outra via, ao “salto para fora da história” que Oliveira Martins adverte no sebastianismo - , é todavia a condição de possibilidade da sua ressurreição a outro nível, como um sopro espiritual e cultural animador de um novo ciclo civilizacional. É apenas na medida em que Portugal se desterritorializar e passar “a ser não propriamente um determinado país, […] mas sim uma ideia a difundir pelo mundo”, como o diz Agostinho da Silva a propósito de Vieira [15], que se pode cumprir plenamente o impulso paradoxal que Pessoa assinala e assume como a sua verdadeira característica específica: a de perder toda a especificidade e característica própria para se converter na síntese do melhor e mais universal de todas as configurações do humano, em todas as culturas, tempos e lugares.


Este Portugal-movimento-para-o-Universo, este Portugal-(des)feito-Universo, não deixa todavia de incorrer nalgumas ambiguidades, decorrentes até da própria teoria pessoana, que, como vimos, recusa uma visão identitária da nação, negando que haja uma “alma nacional”, com “personalidade psychica” tal como os indivíduos [16]. Perguntamo-nos assim o que são este “Portugal” e esta “Raça” que se movem para o universal, qual o seu estatuto ontológico e existencial, e se isto não será ainda nacionalizar, ainda que para imediatamente e em última instância sacrificar essa mesma nacionalização, algo que porventura só no íntimo processo da consciência individual se pode realizar, embora o meio cultural possa ser mais ou menos convidativo e favorável a isso. A questão prende-se, quanto a nós, com o excessivo lugar que Pessoa ainda confere à “vida da nacionalidade”, identificando-a como “a substancia dynamica da vida da civilização” [17]e esquecendo que na verdade a vida da nação não existe senão enraizada nessa vida dos indivíduos e dos grupos que sempre, e sobretudo no mundo globalizado em que vivemos, extravasa dos limites da vida nacional e é susceptível de configurações e dinâmicas infra e supranacionais, irredutíveis mesmo a espaços de afinidades histórico-culturais e linguísticas entre várias nações. Mesmo nesta apologia de um Portugal desterritorializado e expatriado, Pessoa permanece ainda refém, como Agostinho da Silva, de uma última forma de messianismo nacionalista ou patriótico, ao afirmar Portugal como a única nação que tem como missão deixar de o ser para se converter no próprio universal… Este messianismo nacionalista-patriótico latente e reiterado na cultura portuguesa é algo que tem de ser crítica e rigorosamente ponderado, pois dá azo, na melhor hipótese, a toda a espécie de ingénuos erros de óptica e, na pior, a todo o tipo de perversos aproveitamentos, manipulações e instrumentalizações político-ideológicas. E as duas hipóteses tendem a acompanhar-se. A verdadeira sabedoria consiste porém no discernimento capaz de, sem nos enredarmos nestas seduções, sermos ao mesmo tempo capazes de colher todo o proveito de um meio cultural favorável ao universalismo como é manifestamente, no seu melhor, o português.


1] Fernando Pessoa, Sensacionismo e outros ismos, Edição crítica de Fernando Pessoa, X, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009, p.29.
[2] Cf. Ibid., pp.29-31.
[3] Cf. Ibid., pp.46-47.
[4] Cf. Ibid., p.49.
[5] Cf. Ibid., pp.58-59.
[6] Cf. Ibid., pp.59 e 61.
[7] Cf. Ibid., pp.66-67.
[8] Cf. Ibid., pp.67-68.
[9] Cf. Ibid., p.68. Cf. p.471, onde Jerónimo Pizarro adverte o possível “lapso”.
[10] Cf. Ibid., pp.68-69.
[11] Cf. Ibid., p.70.
[12] Cf. Ibid., pp.75-76.
[13] Cf. Id., “A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada”, Obras, II, organização, introduções e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão, 1986, pp.1194-1195.
[14] Cf. Id., Sensacionismo e outros ismos, p.77.
[15] Agostinho da Silva, Reflexão, Lisboa, Guimarães Editores, s.d., p.104.
[16] Cf. Ibid., p.68.
[17] Cf. Ibid., p.67.



Publicado em vários blogues, entre os quais:

umoutroportugal.blogspot.com

domingo, 3 de janeiro de 2010

SEMENTES E CLARIDADE da ÁGUIA

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Quando contemplamos a claridade da revista A Águia, publicada sobretudo no Porto entre 1910 e 1932, e a qualidade dos seus intervenientes, discernimos que muitas das sementes lançadas então no húmus das páginas estão ainda hoje prontas a frutificar.
Tal como na agricultura as sementes, sobretudo dos cereais, têm um ciclo longo para germinarem, também a Logocultura detém em si e permite que, passados tantos anos do aparecimento da Águia (com os seus 205 números), não só outras revistas e projectos se tenham erguido na sua senda, tal como a Seara Nova (1921), Portucale (1928), Princípio (1930), 57 (1957), Espiral (1964), Nova Renascença (1980), Leonardo (1988) e agora esta Nova Águia (2008), mas que sobretudo nós seres do 3º milénio possamos levar mais adiante intuições e impulsões dos mestres da Águia, que nos contemplam agora da Terra lúcida e esperam animicamente aperfeiçoamentos e finalizações.
É em verdade na comunhão com a história criativa portuguesa, com o Espírito Divino e a sua Teologia ou Filosofia Perene, e com os que já partiram e os espíritos angélicos, que se consubstancia a Tradição espiritual portuguesa e a sua grande Alma e ordem. É neste sentido que ideias, intuições, interrogações e desafios lançados por mestres ou discípulos como Leonardo Coimbra, Pascoaes, Jaime Cortesão, António Carneiro, Sampaio Bruno, Fernando Pessoa, Junqueiro, Jaime Magalhães de Lima, Gomes Leal,Teixeira Rêgo, Rafael Ângelo, António Sérgio, Sant'Anna Dionísio e Agostinho da Silva permanecem, no corpo místico de Portugal e da Humanidade, abertos ao aprofundamento e realização...
As linhas que se seguem são também uma homenagem aos principais animadores da hoje centenária revista (entre os quais, Álvaro Pinto, o fundador, director e proprietário da 1ª série) e que dando o que deram merecem a nossa gratidão e evocação divina, onde quer que estejam...
Como sabemos, as vicissitudes do movimento da Renascença Portuguesa e da sua revista foram muitas, marcadas pelas cinco séries e respectivas direcções, destacando-se as dificuldades causadas pela Grande Guerra e a instabilidade política, passando mesmo a impressão e edição para o Brasil, de 1920 a 1921, iniciando-se a 3ª série em 1922, no Porto, já não dirigida por Teixeira Pascoaes e Álvaro Pinto mas por Leonardo Coimbra.
Ao lermos os primeiro textos, e sobretudo os manifestos fundadores da 2ª série, observamos uma forte consciência de que a Pátria estava a renascer e que era preciso congregar as energias genésicas de alguns pensadores para darem dignidade, sentidos e orientações. Certamente que no século XXI, com Portugal cada vez mais empobrecido pelos partidos e dirigente políticos que o têm governado, a ideia de Pátria ou mesmo de grande Alma Portuguesa, inserida na Comunidade Europeia uniformizadora e dissolutora das especificidades salvíficas nacionais, é em muitos aspectos cada vez menos substancial e profunda, pelo que o nosso horizonte terá de ser o de um esforço permanente contra a grande massificação e manipulação a que estamos sujeitos enquanto cidadãos governados, receptores e transmissores de informação e trabalhadores-consumidores. Dentro do quadro actual de falência do modelo de sociedade, salvaguardado pelo bode expiatório da crise, realcem-se porém as tentativas de resistência, renovamento ou alternativa, entre as quais as que a Nova Águia lidera nos nossos dias, em projectos bem definidos e difundidos...
Ora se desde logo, na 1ª série da Águia, em 1910, Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão, entre outros, revelam-se nas suas intensas e profundas virtudes e impulsos, é clara também a inexistência de um forte programa doutrinário veiculado como tal por eles, nesse advento caótico da República e quase espontâneo da revista, que em breve, por ideação de Cortesão e Leonardo (já juntos, com Álvaro Pinto na revista Nova Silva, de 1907) se iria tornar o porta voz da Associação da Renascença Portuguesa. Recolhamos então algumas dessas sementes centenárias mais valiosas: Leonardo, no nº 1 da revista, mostrando já o seu forte pendor para a iluminação interior e o dinamismo cósmico do Amor escreve Sobre a Educação, que «deve dar o homem a si mesmo, envolvendo-o de claridade interior; dá-lo à família pelo enternecimento, à humanidade pelo amor, ao Universo pelo deslumbramento e pelo sacrifício. Partindo de si, o homem deve abraçar o Universo».
Jaime Cortesão, no mesmo nº 1, surje como inspirado poeta e luminoso teorizador da Poesis apelando fortemente ao « ver para além, mas muito para além da superfície de cada coisa...», comparando «a nossa alma superficial que balbucia apenas em galreios infantis o que para a Alma imersa, profunda e transcendente é já linguagem calorosa e omnipotente da Verdade (…) Ser poeta é libertar todas as almas, é vê-las com o líquido olhar de enternecidas lágrimas, chorando, falar com elas, fazer Cânticos sublimes desses tácitos colóquios e entregá-las depois ao som de ritmos sugestivos (...) Poeta é o que faz dentro de si as novas experiências do Amor e do Mistério, para depois trazer ao Mundo uma mais alta verdade (...) Poeta é o que reflui sobre si mesmo, e interiorizando-se segue por esses misteriosos caminhos a encontrar—se em fraterna comunidade com tudo quanto na Vida anseia (…) O verdadeiro Poeta é o que nessas abismais imersões vai acender novas estrelas nos recantos da Alma até então obscuros, e volta de lá à superfície, transfigurado, alucinado, com uma centelha de Infinito nos olhos pávidos para cantar a sua visão numa ebriedade divina (...) Quando o meu Deus sobre mim desce na sua sarça de inspiração ardente, meu ser comunga o ritmo dos astros, atravessa-o um arrepio de Infinito e Eternidade, e embebido, encharcado, diluído num luar de sonho, sinto afluir à minha boca numa aluvião tempestuosa de gritos, vozes e hinos formidáveis, todas as vidas do Universo», e eis-nos com alguns ensinamentos germinais do original historiador dos Descobrimentos, adepto do Espírito Santo e da espiritualidade franciscana e que tanta influência teve, por exemplo, em Agostinho da Silva.
Teixeira de Pascoaes é só no nº 2 que lança a sua prodigiosa imaginação e palavra inflamada a propósito da morte de Tolstoi, cuja vida e obra é fortemente comemorada na Águia (nomeadamente por Veiga Simões e Sampaio Bruno), escrevendo: «A pena mística de Tolstoi e a lança heróica de Quixote, presas num abraço, são as extremidades dos últimos raios deste foco imenso de luz espiritual que o sangue e a carne do Homem alimentam, e que explende e brilha, sem um fim, sem um destino talvez, como os lírios florescem e como os astros gravitam...»
No nº 3, Leonardo, escrevendo sobre o Natal e novo ano, valoriza essa expansão de vida nova que é «o Amor cósmico, o amor perfeito, sem egoísmos nem exclusões. O Reino espiritual existe na virtualidade do nosso poder criador. Ele existirá na efectividade das nossas obras de ternura e bondade. Natal? Natal contínuo e permanente de vida nova a sangrar dedicação, a estremecer de afectos! Novo ano? A Terra em novas paragens do cosmos a aquecer e a iluminar o Universo com as fulgurações do novo homem, intérprete de Deus, fecundador da vida!»
Dos dez números dessa rara e pouco estudada 1ª série realcemos ainda as colaborações bem espiritualistas e utópicas de Rafael Ângelo e Veiga Simões, as teorizações de Leonardo: «ser poeta é eternizar o instante, é fazer da vida um contínuo deslumbramento, um permanente convívio com Deus», ou ainda (no nº 4) os discernimentos e desmascaramentos (tão actuais) de Pascoaes: «é na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se, como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc. (…) Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita (...) A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensaguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Boudha, Pascal, Spartacus, Voltaire Rousseau, Hugo Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc, etc...» Um tempo revoluto mas sempre actual, quando o próprio Teixeira Pascoaes (o saudosista e contemplativo para os seus críticos...) desmascarava a mentira política e apelava à revolução popular...
No nº 5, Leonardo escreve a 2ª parte Sobre a Educação, realçando a verdade importantíssima ainda hoje pouco assumida: «A atitude religiosa depende da realidade, isto é, da ciência e da filosofia. Por isso ou se recebe de olhos fechados uma ciência e uma filosofia e então pode caír-se dentro de uma Igreja: ou se procura a verdade, e então cada indíviduo para ser religioso tem de criar a sua religião, porque ela depende dos seus valores e da realidade, cujas últimas hipóteses tem de participar do individualismo. Cada indivíduo é, sob este ponto de vista, uma mónada. Nele actua todo o Universo e ele é um espelho original e inconfundível, onde o Universo se olha... Para ser religioso, isto é, para unir o eu com o Universo, para colocar a consciência no Infinito é preciso ser sábio sem ser escravo da ciência, filósofo sem ser escravo da filósofia, simples sem ser escravo ignorância, bondoso e humilde sem cálculo, regra ou prevenção. E como traduz a religião esse estado emotivo do eu em contacto com o Infinito? Pelas artes. O primeiro sentimento religioso é o do sublime. O sentimento do sublime é o desvairamento, o assombro perante o infinito...» De destacar neste texto a afirmação «cada ser para ser religioso tem de criar a sua religião», que podemos aprofundar com a de que Deus tem de renascer em cada um de nós, íntima ou monadicamente, e que a Religião Universal (como já sinalizámos num artigo do nº 3 da Nova Águia) está a desvelar-se nas consciências livres, acima dos escombros e as egrégoras dos fanatismos e exclusivismos das principais religiões e suas seitas.
No nº 6 um belo louvor ao amor da língua portuguesa por Antero de Figueiredo e a intensa homenagem a Victor Hugo, por Pascoaes, destacam-se. Realcemos no nº 7 um novo artigo monadológico de Leonardo e um conto sobre os mistérios desse subtil Japão, a contraparte oriental do Portugal finistérrico, e no nº 8 um valioso retrato psíquico de Pascoaes por Jaime Cortesão, com uma das mais significativas descrições de conversas espirituais portuguesas, quando vogavam «à beira-mar, numa maré crescente de entusiasmos, ao debater palestras intermináveis.../ Como duas ondas, duas labaredas, ou duas rajadas, que chocando-se, mais se elevam, os nossos pensamentos, à força de embates constantes, tanto se erguiam e volativizavam que por fim rebatiam apenas espumas, névoas, hálitos de ideias, e chegavam a atingir um tal poder de abstração, que nos supunha num contacto espiritual directo, para lá das palavras, comunicando só por gritos, gestos, exclamações, a telegrafar tempestades...» As Noches Claras, Divinas y Humanas Flores, de que Faria e Sousa, e Sampaio Bruno falavam, resplandecem aqui bem vivas...
No nº 10, o final, para além da homenagem a António Nobre e de mais referências a Antero de Quental, Leonardo Coimbra oferece Aos poetas portugueses religiosos, Uma Monadologia (fragmento) bem merecedora de meditação e vivificação, nos nossos tempos de crescente redução da vida ao trabalho de sobrevivência e a lazeres alienantes, afirmando que «quando classificamos de calhaus certos homens, dizemos mais do que uma metáfora. Quando, respondendo às acções mecânicas, biológicas e sociais, sinto ainda um excedente de actividade, a presença do Ideal, sou um homem livre e superior. Sem esse excedente de actividade nunca se teria pensado na liberdade, na alma e em Deus. Os seres medem, pois, a realidade pela amplitude do seu ritmo, excedente psíquico, alma ou liberdade. Assim compreende-se o conhecimento. Cada ser contém materialmente os outros de menor ritmo ou alma. O homem, compreendendo os outros, conhece a actividade livre e vivendo nessa actividade, sente e concebe Deus. Cada ser tem por limite o gasto de energia a que o obrigam os outros seres, ou o Mundo. Deus seria a perfeita actividade, a omnipresente liberdade». E eis-nos com valiosas ideias sobre energias e ritmos (para equacionarmos...) de Leonardo, certamente um dos portugueses que mais acertou no que intuíu, viveu e escreveu sobre a alma humana, o Universo, o Espírito, Deus e o Amor, mas que por erros, má fortuna ou amor ardente prematuramente morreu...
É de novo a Teixeira Pascoaes, a Leonardo Coimbra e a Jaime Cortesão que devemos os textos mais fortes, e agora doutrinários ou programáticos (fundada que foi em 1911 a associação Renascença Portuguesa), expressos na 2ª série da Águia (retomada em 1912), onde logo no nº 1 Pascoaes lança o objectivo de «dar um sentido às energias intelectuais (…) colocá-las em condições de
se tornarem fecundas de poderem realizar o ideal que neste momento histórico abrasa todas as almas sinceramente portuguesas: Criar um novo Portugal, ou melhor ressuscitar a Pátria Portuguesa».
Ora hoje ainda que sejam poucas tais almas, capazes de colher no passado as raízes «para dar à nova luz do futuro a sua flor espiritual», pois «renascer é dar a um antigo corpo uma nova alma fraterna, em harmonia com ele», há ainda assim que tentar chamar a sociedade portuguesa ou, já alargada, a lusófona «desperta à sua própria realidade essencial, ao sentido da sua própria vida, para que ela saiba quem é e o que deseja. E então poderá realizar a sua obra de perfeição social, de amor, de justiça, e poderá gritar entre os povos: Renasci!» Há que lutar por «esta obra sagrada», que compete sobretudo aos «portugueses que encerrem no seu ser uma parcela viva da alma da nossa Pátria». Mas haverá ainda muitos e capazes de se unirem criativa e libertadoramente? Quantos já não se desiludiram dela pelas caricaturas ou mentirosas figuras que os diversos representantes nacionais têm feito?
E se Pascoaes apela à união de «um certo número de operários congregados e harmónicos, ligados pelo mesmo sonho» que «vivam, além da sua vida egoista e individual, a vida mais vasta e profunda, porque é abstracta e trancendente, da Pátria Portuguesa», este chamamento, que ainda hoje ecoa em alguns movimentos ou iniciativas, como os que a Nova Águia lançou nos nossos dias, tem contudo encontrado sempre a dificuldade das individualidades portuguesas ou lusófonas necessárias no momento histórico do aqui e agora saberem congregar-se com pouco ego e em grupos verdadeiramente abertos ao Espírito santo, à busca da verdade, ao eixo cósmico que liga céu e terra e une em fraterna companhia...
Se em 1912 Pascoaes podia afirmar tanto sobranceira como clarividente e prometaicamente que «se não existisse uma alma portuguesa, teriamos de evolucionar conforme as almas estranhas, teríamos de nos fundir nessa massa amorfa da Europa; mas a alma portuguesa existe (...) e o seu perfil é eterno e original. Revelemo-la agora a todos portugueses...» e o seu objectivo era «um novo Portugal, mas português», hoje isto será cada vez mais relegado para brumas alcantiladas nas montanhas do Marão, ou remansadas em vales do que vai restando ecologica e antropologicamente do Portugal profundo, se não houver os que continuarem a manter a ligação com a grande Alma portuguesa, ou a Tradição espiritual, que é intrínsecamente universal, e a consigam efectivar interna, cultural, ecologica, local e internacionalmente, contrapondo à primazia do homem económico, manipulado e sectário, o ser humano espiritual, liberto e solidário...
Contudo, certamente, as sementes da Águia, da Nova Renascença e da Nova Águia frutificarão aqui e acolá, tanto mais que são de qualidade luminosa, como por exemplo, no mesmo nº 1 da 2ª série, de 1912, Jaime Cortesão denunciando os perigos da vida citadina (onde não se contemplam as estrelas nem se pisa a terra) e dando testemunho da teoria da alma-gémea e da Unidade primordial no poema “Esta História é para os Anjos”: «Pois vi-lhe, quando a fitava,/Com os meus olhos nos seus/A parte que me faltava/ Para chegar a Deus. // Oh, olhos extasiados,/Criando um novo sentido,/ Oh, segredos revelados/ No silêncio surpreendido, // Quando as almas estremecem/ à maior profundidade,/Porque enfim se reconhecem/ Na sua eterna Unidade! //(…) Amar é ser a semente,/ Num árido chão sepulta,/ Que germina de repente,/ Transbordando seiva oculta.»
Oiçamos também nesse fundamental nº 1 da 2ª série, Leonardo num diálogo original e unitivo entre Prometeu, o espectro da Terra, e o de Cristo: « a natureza sofre e é impotente, mas o homem possui o fogo do espírito e, com ele, irá acender consciências pelo Espaço. Desperta e luta Natureza! Já não pesa sobre ti a Fatalidade, mas, como amor e o espírito, começa a liberdade, o consentimento mútuo, o auxílio, a fraternidade, a ascenção moral! Deus é o foco invisível das almas, a fonte inesgotável do heroísmo e do amor», ou num Excerto em que nos doa valiosas sementes de meditação e criacionismo, ao considerar as relações das pessoas como mónadas que procuram harmonizar os seus ideais:«ao necessitarismo da matéria é substituído o determinismo moral; e é, de beleza e amor, a atmosfera cósmica. Assim a nossa filosofia será a estética da liberdade e a moral da beleza. A liberdade é o poder do espírito criar beleza, isto é, entendimento, transparência, comunhão, fraternidade. Dominando a matéria, o inerte ou o necessário, pode o espírito afirmar-se com eficácia e valor concreto. A beleza é a graça da transparência, do entendimento entre os seres, o acréscimo contínuo dum novo sol cósmico, que, em luz de amor e recíproca penetração, vai consumindo a matéria. Convém a esta filosofia o nome de criacionismo. Criação de beleza e amor.»
E se ainda soletrarmos, por exemplo, o magma do jorro emanado no ano de 1915, encontraremos, para além das críticas ao pangermanismo e à guerra, ou dos muitos artigos de arte e ciência, alguns escritos marcadamente espirituais e perenes, como os de Sampaio Bruno e Teixeira Rêgo, que pensam pioneiramente as opções a uma leitura demasiado conformista e literal da história das religiões e do catolicismo, propondo antes seja a via iniciática seja a da etimologia, gramática e comparativismo mitológico, para que se possa extrair o essencial dos ensinamentos que nos chegaram. Eis-nos com afloramentos da Filosofia Perene, ou da Religião Universal, entre nós...
É significativa a confissão de Sampaio Bruno de tentar executar o que o pai do notável pintor Dante Gabriel Rossetti cumprira em relação à literatura italiana: encontrar o muito que nela respirava de doutrinas ou mesmo agremiações secretas ou não institucionalizadas, tal como já o nosso Faria e Sousa nos séc. XVII afirmara na suas Noches claras, Divinas y Humanas Flores. Nesses artigos, Bruno, algo movido pelo seu pendor maçónico e anti-papal, dá mesmo quanto aos Fiéis do Amor a prevalência do sentido de anti-Roma, anagrama de Amor, preterindo o simples e mais essencial de serem fiéis verdadeiramente do Amor, do Logos, da Unidade fraterna e sábia, sem dúvida a mais viva e perene corrente iniciática ao abrir as portas do coração que dão acesso ao templo, aos mestres, à grande alma ou corpo místico, ao Divino.
É sabido como Fernando Pessoa se dirigiu a Bruno para saber do Sebastianismo, mas não se pode quantificar a influência em Pessoa destes artigos escritos na Águia em 1915, e que só vieram a ser publicados por Joel Serrão em livro em 1960, Os Cavaleiros do Amor, e em 1996, mais completos, por Joaquim Domingues, Plano de um Livro a Fazer. Neles Bruno retoma o dito de Faria e Sousa («Que es noche, y la conveniencia que tiene com el estudio. Para las Academias, y nueva Cavalleria») e entendo-o numa linha que será desenvolvida por Pessoa e que ainda hoje não está clara: a de um nova Cavalaria com os seus Fiéis do Amor. Aliás, as hesitações de F. Pessoa quanto ao nome a dar-lhe, mostram bem o limiar iniciático potencial: Ordem Templária de Portugal, Ordem de Cristo de Portugal, Ordem Secretíssima, etc., embora assuma em 30 de Março de 1935, no seu famoso testamento, a iniciação nos 3 graus menores da Ordem Templária de Portugal...
Há que aprofundar-se a história das repercussões dos números da Águia nos colaboradores e leitores, na correspondência epistolar e nas páginas da Águia (nomeadamente em polémicas à volta de Sousa Martins e Antero Quental, Saudosismo e Sebastianismo), ou mesmo dos encontros e desenvolvimentos ocorridos entre os que se sentiriam mais da Águia ou da Renascença Portuguesa. Há memórias que deixam entrever alguns níveis internos, como as reuniões mais íntimas na sede da Renascença Portuguesa e lideradas por Leonardo, que Álvaro Ribeiro referencia e que o Joaquim Domingues me sinalizou, ou as que já citámos entre Cortesão e Pascoaes. Sabemos como Leonardo Coimbra, além das tertúlias de cafés, estava sensível aos movimentos espíritas e psíquicos da época e como tentou usar a força do pensamento seja para induzir transes ou mesmo ressurreições nos outros, como o seu discípulo Sant'Anna Dionísio presenciou e me confidenciou.
Quanto aos muitos artistas que colaboraram na beleza gráfica da Águia relembremos o que Ronaldo Carvalho escreveu então sobre António Carneiro (que foi também director): «Pela sua variedade, pelo modelado místico e torturado dos retratos, pela nostalgia doente da paisagem, pelo aspecto longínquo dalgumas figuras é como se Antero renascesse na alma de Ruysbroeck para perpetuar o ignoto e a distância na sua obra evocadora e isolada.» Realcemos aqui a evocação de duas linhas de força valiosas em Portugal: a de Antero de Quental, sem dúvida no séc. XIX um dos que mais cristalizou carismaticamente o sentir e o pensar português face ao Absoluto e em magistral epistolografia, mas que deixou apressar o seu término terreno com dois tiros, e a dos místicos europeus – Ruysbroeck -, de grande profundidade e que influenciou não só os Irmãos da Vida Comum onde Erasmo foi educado, como também muitos portugueses que buscavam, acima de Roma ou das cerimónias, obediências e letras que matam, o Amor no coração, no próximo e em Deus, através da oração não só vocal e na consciencialização ou ligação directa ao Espírito.
Quando no Outono de 1980 há um novo afloramento da Renascença Portuguesa e da Águia, com a fundação da revista Nova Renascença (que se alongará por 19 anos e 73 números e que trará, por exemplo, do Brasil, da Índia e do Japão testemunhos vividos e na linha ecuménica e universalista que nos caracteriza), com outra vez alguns pensadores a congregarem-se (pelo menos na escrita para a revista) e a lançarem sementes valiosas, destacam-se fazendo a ponte com a Águia, no nº 1, Agostinho da Silva, Sant'Anna Dionísio (estes tendo sido da direcção da Águia, nas suas últimas séries) e Dalila Pereira da Costa. Oiçamo-los: se para Agostinho a primeira Renascença procurara «um centro a Portugal e o encontrado num indefinível vivido, aquele a que José Marinho, em alargamento total, chamou insubstancial substante», e a segunda Renascença como «desejando definir a periferia portuguesa... aquela vida conversável, sempre renovada e aberta», agora «gosto de imaginar uma terceira [talvez a da Nova Águia...] (...) em que periferia e centro se confundam, (…) em que o Deus que adoremos seja o de Tudo e Nada, sempre em nós, de nós, a nós, por nós, voltando, num perpétuo e momentâneo e parado mover-se de imanência e transcendência, como em simultâneas sístole e diástole: só então Portugal, por já não ser, será.»
Para Sant'Anna Dionísio, talvez o discípulo mais marcado por Leonardo, num texto sugestivamente intitulado Instantes de mística catálise e de sibilina profecia, a Renascença Portuguesa «foi um movimento, poderemos talvez dizer, de carácter religioso, ao mesmo tempo hermético e ecuménico», no qual «não diremos que todos os que participaram da sua eclosão possuissem a consciência clara dos imperativos e objectivos, digamos de ordem mística que os concitara a proclamar a certeza no advento de uma espécie de redenção (…) pois muitos seriam simples simpatizantes ou pacatos aderentes (...) Os verdadeiros focos de ardor místico, ou quase místico, seriam dois ou três vultos dotados de incontestável ardor apostólico: o nocturno vidente (...) e perseguidor incansável do fantasma da Saudade [Pascoaes], o vulto agigantado e loiro de wiking [Jaime Cortesão] (…) [e Leonardo] misto de filósofo e de tribuno, (...) de palavra clara, inspirada, pronta...»
Já Dalila Pereira da Costa, no seu contributo (sobre o Marânus, de Pascoaes), afirma que «o ultrapassamento, ou libertação, dos limites e condicionamentos do positivismo e racionalismo unívocos, realizado pela Renascença Portuguesa, nos mostrará e abrirá para nós, agora, o caminho a uma nova Descoberta portuguesa. A evocação profética e preparação para essa nova aventura, como descoberta no mundo transcendente do espírito, vem ao encontro de um facto dos mais importantes de nossos dias no pensamento ocidental: a valorização da experiência espiritual». Apela então à abertura ao Logos ou Razão Cósmica, para que o poeta profeta e clarividente seja capaz de prescrutar não só o psiquismo como chegar ao nível espiritual, numa vivência interior noética e transcendendo os limites da pessoa. Discerne lucidamente o ideal do progresso e do bem estar ilimitado como causador do círculo fechado delirante e infernal da sociedade em que vivemos, na qual a excessiva usufruição de bem estar material causa «uma atrofia das suas forças espirituais e do seu ideal de perfeição pessoal como auto-realização», forças (detidas «pelos filósfos pré-socráticos, poetas e taumaturgos, chamanes e yoguis dos nossos tempos e pelos santos») que devemos recuperar e nas quais predomina o Amor Conhecimento e que permitem a participação na Supra-Humanidade espiritual.
Realçar hoje esta assunção da experiência e da vivência espiritual interior, da meditação, da revelação interna, e da posterior partilha e colóquio (ao modo erasmiano, e de conversa convergente...) com outros seres e povos nas suas várias dimensões, parece-me então essencial para que as primícias pedagógicas, monadológicas e divinas da Renascença e da Nova Renascença dêem mais frutos de ressurreição nas mulheres e homens da Nova Águia e nos seus leitores.
Oxalá possam então surgir mais noites claras, o sol a meio da noite (seja ela de injustiça, carência ou aspiração), encontros e partilhas de seres e haveres (como a Nova Águia tem procurado dinamizar no grande espaço anímico lusófono), que façam crescer a harmonia das pessoas e sociedades, a libertação e o vôo de águias e a comunhão com a Verdade, os Mestres e Deus em cada vez mais seres, que se auto-conhecem como mónadas ou estrelas de cinco pontas, quais corpos espirituais ou as formas geométricas estilizadas por Leonardo da Vinci ou Cornélio Agripa, ou entre nós por Francisco de Holanda, Almada Negreiros e Fernando Pessoa.
E que Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão e Leonardo de Coimbra, entre vários outros da Águia, tão pioneiramente viveram, intuíram e transmitiram. Assim se melhorará o nosso alinhamento, participação e comunhão na harmoniosa Unidade cósmica e Divina...

Pedro Teixeira da Mota