A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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terça-feira, 2 de setembro de 2008

RENASCIMENTO LUSITANO – PRIMEIRO MANIFESTO, DE TEIXEIRA DE PASCOAES (PARA UM PAIDEUMA TEÓRICO, I)


Na reunião de Coimbra em 1911, ficou Teixeira de Pascoaes encarregado de redigir um manifesto ao país com os intuitos da «Renascença».

AO POVO PORTUGUÊS. A «RENASCENÇA LUSITANA» *

Estas palavras que dirigimos ao Povo Português têm por fim revelar-lhe qual será a obra patriótica da Renascença Lusitana – , obra em que devem colaborar todos os homens de boa vontade.
A Renascença Lusitana é uma associação de indivíduos cheios de esperança e fé na nossa Raça, na sua originalidade profunda, no seu poder criador de uma nova civilização. Esta fé e esta esperança não resultam de uma ilusão patriótica, mas do conhecimento verdadeiro da alma lusitana, a qual devido a influências estrangeiras de natureza política, artística, literária e sobretudo religiosa, se tem adulterado nos últimos séculos da nossa História, perdendo o seu carácter, a sua fisionomia original e, portanto, as suas forças criadoras e progressivas.
O fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas, para que a alma desta bela Raça ressurja com as qualidades que lhe pertencem por nascimento, as quais, na Idade Média, lhe revelaram os segredos dos mares, de novas constelações e novas terras, e, de futuro, lhe deverão desvendar os mistérios dessa nova vida social mais bela, mais justa e mais perfeita.
Logo que a alma portuguesa se encontre a si própria, reaverá as antigas energias e realizará a sua civilização.
Sonho belo, mas quimérico? Não! Descobrem-se já na alma da nossa Raça alvoroçantes sintomas de renascença. O seu esforço de 5 de Outubro foi o despontar da sua heroicidade que dir-se-ia morta para sempre; foi um sinal de abnegação; houve vidas sacrificadas à Vida.
A sombra de Nun’Álvares saiu do túmulo e vagueou nas ruas de Lisboa; sulcaram o Tejo fantasmas de caravelas em demanda da Índia Ideal, essa Índia que fica em pleno mar do nosso sonho.
Admiráveis presságios! Já brilha a estrela da nova Manhã! Chegou, na verdade, o momento divino de todos os bons portugueses colaborarem na grande obra da nossa Renascença! O morto estremeceu, ao sentir o primeiro hálito de vida. Abramos-lhe a tampa do sepulcro! Eis a nossa obra, a obra do nosso amor e da nossa fé.
Este apelo que fazemos aos portugueses, por isso mesmo que nos sai da alma, há-de ser ouvido. E a Renascença Lusitana, neste instante em que apresenta ao povo a sagrada ideia que a anima, espera firmemente que se reúnam em volta dela todas as almas esperançosas que sentem em si o germinar de uma nova vida, o acordar dum novo alento criador de beleza, de justiça e de bondade, os três elementos constitutivos de uma verdadeira civilização.
Não se exige que se seja artista ou poeta ou sábio para trabalhar nesta obra; tal coisa seria de um exclusivismo ridículo. Todo aquele que acreditar no renascimento lusitano, todo aquele que nos trouxer um clarão de esperança, será recebido de braços abertos como leal e firme camarada.
Estas palavras, como já fica dito, têm por fim mostrar ao povo português qual a ideia que inspira a Renascença Lusitana. Essa ideia, repetimos é reintegrar a alma da nossa Raça na sua pureza essencial, revelar o que ela é na sua intimidade e natureza originária, para que tome conta de si própria, e se torne activa e criadora, e realize, enfim, o seu destino civilizador.
Temos, portanto, em vista: dar ao povo uma educação lusitana e não estrangeira; uma arte e uma literatura que sejam lusitanas, e uma religião no seu sentido mais elevado e filosófico, que seja também lusitana.
Com efeito, quem surpreender a alma portuguesa, nas suas manifestações sentimentais mais íntimas e delicadas, vê que existe nela, embora sob uma forma difusa e caótica, a matéria de uma nova religião, tornando-se a palavra religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da Vida… Ora a alma portuguesa sente esta ansiedade de uma maneira própria e original, o que se nota facilmente analisando os cantos populares, as lendas, a linguagem do povo, a obra de alguns poetas e artistas e, sobretudo, a suprema criação sentimental da Raça – a Saudade!
Sim: na alma lusitana há a névoa duma nova religião; e por isso, o catolicismo, importado de Roma, jamais se tornou português, como se tornou espanhol, por exemplo. Todavia, em virtude da insistência com que tem sido cultivado em Portugal, concorreu para desnaturar o nosso carácter; é necessário, portanto, combatê-lo, como a todos os inimigos invasores, ou sejam de casta pedagógica, artística, literária, religiosa ou filosófica.
Esta luta, assim como a obra reconstrutiva da Renascença Lusitana será feita, além de outros meios, por meio de conferências, livros e duma revista de literatura, filosofia, ciência, crítica social, etc, que se intitulará A Águia e será o órgão da sociedade.
Eis a obra a que vamos dedicar o melhor da nossa actividade e todo o nosso entusiasmo, esperando o concurso dos bons portugueses.
Bem sabemos que é uma obra enorme. Mas é preciso que alguém lhe dê o primeiro impulso. Outros, mais fortes do que nós, terão a glória de a concluir.

Ao ser [este manifesto] levado para Lisboa, o seu autor acrescentou o seguinte [texto].

Diremos, de passagem, que consideramos como os grandes factores do nosso renascimento, a Higiene e a Arte.
Por aquela atingiremos a harmonia física, e por esta a harmonia espiritual.
A Ginástica encerra tanta virtude como a Arte Poética. A guerra ao álcool, ao tabaco, à alimentação carnívora, por exemplo, é uma guerra santa e confunde-se com a glorificação da Beleza moral, com a apoteose dos sentimentos e das ideias mais puras e transcendentes.
A Íliada e os Jogos Olímpicos!


Teixeira de Pascoaes



* Manifesto publicado n’A Vida Portuguesa, nº 22, de 10 de Fevereiro de 1914.


terça-feira, 26 de agosto de 2008

RENASCIMENTO LUSITANO – EXEMPLO (PROSA)



ESCRITO NA PEDRA QUE O TEMPO APAGOU

Ao valoroso guerreiro que o poente engoliu, muitas grandezas o predestinaram. Na malga de leite, o espelhado oceano, a planura, o céu e a luz sem fim. No ferro, a mão da terra, os primordiais pétreos deuses, o bravo grito lusitano e o favor das batalhas. Por isso chora e brande o dardo no caminho dos mortos. Não mais verá a planície natal, as delícias do Tagus, do Callipus e do Anas [1], as serras e as terras, livres para o homem e o cavalo. Rei, lhe chamaram os ventos e os nascentes e o amor do povo. O tempo não guardará o seu nome, mas os tiranos lembrarão que com valentia usou as vírias. Dux Viriatus, terror Romanorum! [2]





PAPIRO

«Do mesmo modo o assassinato de Viriato justifica uma dupla acusação de perfídia; aos seus companheiros, que pelas próprias mãos o mataram, e ao Cônsul Servílio Cipião, porque foi o verdadeiro autor do crime, por ter prometido a paz e porque, não conseguindo a vitória, a comprou.»

Valério Máximo


«Depois da morte de Viriato, em 139 a.C., muitos Lusitanos renderam-se, outros dispersaram-se em bandos que atacavam sem mando as Legiões e eram rapidamente aniquilados, alguns, que sobreviviam e não aceitavam capitular, fugiam para norte, para junto dos rudes povos dos castros, que também recusavam aceitar o domínio Romano, suicidas a cheirar a cabra, tão civilizacionalmente atrasados que não poderiam opor qualquer resistência eficaz – mas em 136 a.C., com a campanha de Décio Júnio Bruto, Governador da Ulterior, que foi o primeiro a avançar para norte, ao longo do litoral, houve uma grande sublevação de Calaicos, vindos das montanhas do noroeste da Hispânia, entre os quais muitos Lusitanos – que se distinguiam bem dos selváticos Calaicos pelo porte, os cabelos soltos e as vestes negras e pelo facto de onde combatiam muitos deles os ataques serem mais concertados, porque valentia não se pode negar a nenhuns – amargo e amargurado o orgulho de pertencerem ao povo mais importante da região e ansiosos de reconquistar as planícies natais. Foram vencidos pelas Legiões.
Uma das batalhas deu-se próxima de Ponte de Lima. Depois de Júnio Bruto ter passado o Rio dos Mortos sem escolta, aquietou os temores dos soldados [3], que atravessaram também o rio e seguiram em marcha de combate. Pouco tardou para que a retaguarda fosse assaltada de repente por hordas de Calaicos. O recuo de algumas Coortes pô-los em debandada, não sem terem levado muitas das bagagens, mas a dianteira enfrentava já um ataque mais ordenado, com muitos Lusitanos a cavalo, incitando os demais. Foram precisas duas longas horas para lhes quebrar o bárbaro ímpeto, começaram a recuar e eram chacinados na fuga – estas gentes são como crianças, assim que sofrem um revés logo se sentem abandonadas pelos deuses. Apenas os que estavam perto dos Lusitanos conseguiam uma retirada táctica e, como quer a cavalo quer a pé, são mais rápidos do que os nossos, foram perseguidos à vista mas sem os alcançarmos.
A noite caía e procuraram abrigo numa elevação – tal como o ordenaria um general Romano – onde tinham a vantagem do terreno. Montou-se o cerco, erguemos fortificações enquanto outros dormiam por turnos e esperámos pela manhã. Estes lugares estão por cartografar; estavam no cimo de uma pequena colina estes últimos resistentes, ouvimos os seus cânticos – assombravam-nos o sono com o temor primevo que todo o civilizado sente pelo selvagem – à espera que a alba e a glória rasgassem a terra. O astro iluminaria todos, mas a nós menos iluminaria a glória, pois éramos tantos e eles tão poucos.
Eram homens de valor, tanto ou mais que os nossos.


Caturo Constâncio Ibérico»
[4]



CANÇÃO DE BATALHA

Findam fogueiras e noite.
As legiões formam em redor

Um cerco de lanças mil.
Somos duas vezes cem.

Pela manhã bebemos sangue
E tatuámos os braços.

O vento rodeou o monte.
O falcão gritou no céu.

Mais cedo nasceu o Sol
Para nos ver morrer.


Lord of Erewhon


[1] Rios Tejo, Sado e Guadiana. Estranho? – não o nome antigo destes rios, claro, mas esta saudade de além-túmulo de Viriato? Nem por isso. As teses sobre o seu lugar de nascimento não passam de «história salazarenta», sem qualquer fundamento; se a atribuição de Alvega (concelho de Abrantes, distrito de Santarém) como lugar de nascimento do caudilho dos Lusitanos já é sem prova, tal como os arredores de Coimbra… então a alternativa de Loriga (concelho de Seia, distrito da Guarda) é de um absurdo hilariante! Viriato nunca esteve na Serra da Estrela, a não ser no imaginário bairrista de tanto pacóvio nortenho, e os Lusitanos – excepto na recriação ridícula de Manoel de Oliveira – nunca fizeram guerrilha aos Romanos com arremesso de pedregulhos do alto das serranias! Dizimaram, sim, em combate de exércitos, Legiões inteiras nas planícies da Andaluzia e do Alentejo – facto de que poucos povos «bárbaros» se podem gabar e que só civilizações competidoras de Roma alcançaram. Do mesmo modo, a dita «Cava de Viriato», lá para as brenhas de Viseu, não passa de um entrincheiramento romano, de onde as Legiões vigiavam as diversas estradas que ali se cruzavam.
Nos nossos dias a História atribui a Viriato nascimento mais provável no litoral algures entre um pouco acima de Lisboa e um pouco abaixo de Setúbal – e a tese do litoral do Baixo Alentejo, próximo de Sines, não é despicienda. Viriato casou com a filha de Astolpas, um mercador rico destas regiões e demonstra na sua estratégia militar um fundo conhecimento das terras de planície, bem como dos hábitos romanos e da civilização mediterrânica, que só poderia possuir, um, por estar habituado ao chão direito e, outros, por ter vivido em lugares de câmbio de produtos e povos, ou no estuário do Sado ou no do Tejo, ou em ambos.

[2] Chefe Viriato, terror dos Romanos; designação pela qual os Romanos se lhe referiam.

[3] As mitologias antigas acerca da Finisterra povoaram de terrores o imaginário das Legiões; o Rio Lima foi confundido com o Lethes. O episódio é verídico, os soldados de Roma recusaram-se a passar o rio, e só o exemplo de coragem do Procônsul os convenceu a atravessar.

[4] Caturo Constâncio Ibérico é pura invenção minha e o texto que aqui assina não passa de ficção histórica, tal como o poema a que o texto faz introdução; não obstante as datas, os intervenientes e o contexto aconteceram, só esta batalha é imaginária; Júnio Bruto avançou para norte e encontrou forte resistência dos Calaicos e dos derradeiros Lusitanos que se recusaram a entregar as armas após o assassinato de Viriato. O excerto de Valério Máximo é real e traduzido por mim.






THE LADY OF SHALOTT

Toda a beleza se cala quando vagas alva e luminosa pelos pântanos. Barca ou berço, útero das águas, castelo e leito do guerreiro, fonte para o exangue, o faminto, o desterrado, ósculo e cura, do miserável e do louco, alva, toda a beleza se cala, quando vagas. Vem, Dama de Branco, que a tua sombra de luz me dê vergonha da minha força, que o jardim do teu coração me faça ajoelhar e abraçar a terra, que as tuas mãos de neve me façam apagar o inferno negro da minha alma. Vem por entre os pântanos, onde o sangue e a dor e as ignominiosas coisas que rastejam tecem a sua rede de murmúrios na água, vem por entre os pântanos, vem com a tua barca da vida e da morte e acerca-te desta estaca implacável de fogo e chega até mim, a criança orfã que lutou nos bosques. Vem mãe das águas e irmã das ínfimas frágeis criaturas que alegram o mundo, o orvalho na pétala, o grilo no feno, a ave no anil-espírito do céu, vem sobre os pântanos, os pântanos do mundo, e que um grande silêncio se erga do chão, e toda a beleza se cale, e o sopro uivante da minha vida, enfim, cesse. Depois faz de mim uma rosa e, por entre o vagar das águas, coloca-me no teu cabelo… e esvai-te dentro da bruma.


Lord of Erewhon


RENASCIMENTO LUSITANO – MODELO (PROSA)



JUNTO AO CHRYSUS

[…]
De repente o grito de «Allah!» retumbou de além do Chrysus: seguiu-se um estridor de poucas frechas, e num instante os atalaias do campo viram alvejar fitas de escuma que se estendiam através do rio para a margem esquerda. Eram os esculcas que o cruzavam a nado, tendo empregado na dianteira dos godos os seus primeiros tiros.
Uma nuvem de setas respondeu ao sibilar das dos esculcas arábes; algumas das fitas de escuma ondearam, derivaram pela corrente e desvaneceram-se no dorso escuro e cintilante das águas. O Chrysus recolhia os primeiros despojos de um terrível combate.
Na principal atalaia dos muçulmanos soou então uma trombeta; centenares delas responderam por todos os ângulos do campo a este convocar para a morte. Os esquadrões uniam-se com a rapidez do relâmpago e, abandonando o recinto das tendas, arrojavam-se para as margens do rio.
Os godos, porém, tinham a vantagem de caminharem ordenados e, por isso, haviam topado com a corrente antes que os seus contrários começassem a atravessar a planície fronteira. As frechas caíam sobre os árabes, que se aproximavam, como saraiva espessa; largas e sólidas jangadas, trazidas em carros puxados por mulas possantes da Lusitânia, baqueavam sobre a água e, desdobrando-se com engenhosa arte, cresciam até entestar com a margem oposta. Então, os melhores cavaleiros godos, curvando-se para diante, com o franquisque erguido, corriam para as pontes, vergadas debaixo do peso dos cavalos e dos homens cobertos de armaduras, e vinham bater em cheio nos corredores árabes, que, no meio das trevas, não podiam esquivar-se aos golpes do ferro inimigo. Já, nas bocas de algumas dessas estradas movediças, os cadáveres amontoados começavam a embargar os passos dos vivos; mas por outras, onde os árabes ainda mal ordenados e menos numerosos não tinham podido resistir ao ímpeto dos godos, golfavam torrentes de guerreiros, que, marchando unidos para uma e outra parte, acometiam de lado os árabes, os quais, feridos pela frente e pelas costas, vacilavam e retrocediam. Debalde a voz retumbante de Táriq sobrelevava por cima dos gritos de furor e de agonia de muçulmanos e cristãos. O número dez vezes maior dos godos tornava impossível a resistência, e a passagem do exército de Roderico para a margem esquerda do Chrysus só Deus a poderia impedir.
[…]


Eurico o Presbítero, Alexandre Herculano, Livraria Bertrand, Lisboa, 1979, pp. 90, 91.



DERRUBADOS OS PORTÕES DA MORTE

[…]
Biddy Early foi uma «sábia» famosa, e a árvore grande de Raheen um ulmeiro majestoso, junto ao qual muitas pravidades e algumas boas graças sucederam a diversas pessoas. Poucos sabem tanta coisa dos «outros» como Mrs. Sheridan, e se alguém a convencesse a revelar os seus conhecimentos e a praticar as curas que com «eles» aprendeu, seria também ela uma «mulher sábia», demandada talvez por peregrinos dos condados vizinhos. É, contudo, muito circunspecta, e foi necessário ganhar a sua confiança para vê-la expandir-se, com algum receio, não obstante, da ira dos «outros», e contar-nos, a mim e a uma amiga, os prodígios que lhes observara. Limitara-se, até aí, a contar-nos histórias que ouvira a terceiros, mas desta vez começou:
«Um dia, viva eu em Cloughauish, afogaram-se dois rapazinhos no rio. Um contava oito anos e o outro onze. E eu saíra pelos campos, enquanto as gentes procuravam os corpos no rio, e vi um homem vir subindo o campo de mãos dadas com os dois rapazinhos e levando-os não sei para onde. E viu o homem que eu me detinha e os observava, e disse: «Tem cuidado, não tentes tirar-mos (pois ele sabia que eu tinha poder para isso), pois tu mesma tens uma filha em casa, e se mos tirares nunca mais a verás a cruzar a porta.» E um dos meninos furtou-se-lhe e deitou a correr na minha direcção, mas pôs-se o outro de gritar-lhe: «Ó Pat, não me deixes sozinho!» Tornou atrás o menino e o homem levou-os consigo. Vi depois outro homem, e muito alto era este, e muito corcovado, que assim me olhava, com a geba mais alta que a cabeça; e trazia com ele dois cães, e vi logo aonde os levava e ao que ia com eles. E quando ouvi dizer que os corpos estavam sendo expostos, acorri à casa onde estavam para mirá-los, e não eram certamente os corpos dos rapazes os que ali jaziam, mas os dois cães que haviam sido postos em seu lugar. Conheci-os por uma espécie de listas que havia neles, quais as que há nas coberturas dos enxergões. E bem sabia eu que os rapazes não podiam estar ali, após ter visto que os levavam. E foi por esses dias que perdi o olho, de algo que lhe sobreveio, e nunca mais me assistiu a vista dele.»
Os «outros» são muitas vezes descritos como envergando roupas às riscas, como é o pêlo dos cães às riscas.
As histórias da gente do campo sobre os homens e as mulheres levados pelos «outros» derramam uma luz claríssima sobre as muitas coisas dos velhos poemas e fábulas celtas e, quando mais histórias forem recolhidas e comparadas, provável é que modifiquemos algumas das nossa teorias sobre a mitologia celta. Os antigos poetas e efabuladores celtas dispuseram de esplêndidos símbolos e analogias, agora defuntos, mas as mesmas coisas sobre que escreveram são as de que os homens e mulheres do campo falam junto à lareira.
[…]


Lady Gregory & W. B. Yeats, 1898

In As Tribos de Danu, Escritos sobre a tradição e a mitologia irlandesa, W. B. Yeats, Usus Editora, Lisboa, 1995, pp. 162, 163. Prefácio, selecção, tradução, notas e glossário de Francisco Luís Perreira.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

RENASCIMENTO LUSITANO – EXEMPLO (POESIA)



LUSITÂNIA

O lobo chama. A geada cai. A Lua é negra.
Qual sentinela, o dólmen do cume aguarda
A primeira estrela. Que desperte o seu hóspede.
Que por uma noite mais a sua alma dance
Na planura em fogo como o torso de ferro
Na batalha! Outros deuses nasçam.
Todo o lugar é um lugar de crucificação.
A opressão de Impérios escolhe a morte,
Antes é o destino que a executa – o céu é livre.
Invictos os poderios do mundo e de Roma
Não silenciam a alma da pedra!





RUNA

Fogos no céu vestem de luz o elmo antigo
Que a torrente revelou. A terra é a urna,
A grande pedra em que a vida escreve.
Não morreste em vão, nem és sem nome,
Nobre guerreiro que o Inverno acorda.
Os ossos vencidos verão uma vez mais o dia,
O braço segura ainda a trágula, as vírias.*
A montada caiu a teu lado – a glória não.
Mesmo que a lama e a runa fechem.



Lord of Erewhon


* Trágula: dardo muito aguçado com ponta em forma de anzol; uma das armas mais frequentes entre os guerreiros Lusitanos; eram exímios quer em arremessá-la quer em lutar com ela corpo-a-corpo. Víria: bracelete usada pelos Lusitanos; quanto maior fosse o seu número, maior seria o valor do guerreiro na batalha; «Viriato», muito provavelmente, nem será um nome próprio, mas apenas o designativo de um guerreiro muito valoroso, «um chefe»; apraz-me acreditar que assim é… e que só os mortos conhecem o seu nome!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

RENASCIMENTO LUSITANO – MODELO (POESIA)



THE VALLEY OF THE BLACK PIG

The dews drop slowly and dreams gather: unknown spears
Suddenly hurtle before my dream-awakened eyes,
And then the clash of fallen horsemen and the cries
Of unknown perishing armies beat about my ears.
We who still labour by the cromlech on the shore,
The grey cairn on the hill, when day sinks drowned in dew,
Being weary of the world’s empires, bow down to you,
Master of the still stars and of the flaming door.


O VALE DO PORCO PRETO

Orvalhos caem lentos e os sonhos reunem-se: ignotas lanças
Súbito chocam ante os meus olhos de sonhador acordado,
E então o embate de cavaleiros a tombar e os gritos
De ignotos exércitos a morrer agridem os meus ouvidos.
Nós que ainda trabalhamos perto do cromlech na costa,
Marco plúmbeo na colina, ao decair o dia afogado na geada,
Cansados dos impérios do mundo, a ti reverenciamos,
Mestre das estrelas estáticas e da porta flamejante.


THE LAKE ISLE OF INNISFREE

I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and wattles made:
Nine bean-rows will I have there, a hive for the honey-bee,
And live alone in the bee-loud glade.

And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings;
There midnight’s all a glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet’s wings.

I will arise and go now, for always night and day
I hear lake water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements grey,
I hear it in the deep heart’s core
.



A ILHA DO LAGO DE INNISFREE

Eu erguer-me-ei e irei agora, irei para Innisfree,
E lá edificarei uma cabana pequena, de barro e caniços:
Nove renques de feijão, uma colmeia para o mel,
E só viverei no silêncio alto das abelhas.

Alguma paz terei, porque a paz vem lenta, gota a gota,
Gotejante dos véus da alba até onde o grilo canta;
Lá a meia-noite é toda fátua, o meio-dia um ardor púrpura,
E o entardecer cheio das asas dos pintarroxos.

Eu erguer-me-ei e irei agora, porque sempre dia e noite
Ouço a água do lago chapinhar baixo na margem;
Esteja eu no meio da estrada, ou nas ruas plúmbeas,
Ouço-a no abismo fundo do coração.


W. B. Yeats
Traduções de Lord of Erewhon


quinta-feira, 29 de maio de 2008

RENASCIMENTO LUSITANO – PREÂMBULO



O que em filosofia política se chama «ideário», em poesia só pode chamar-se «escola».


Se podemos falar de uma «renascença portuguesa» é porque Portugal existe.


A identidade de uma pátria alicerça-se num conjunto de específicos, de traços culturais únicos, de um perfil étnico.


A poesia que assume ser a voz de uma nação é um clarim solitário.


Nem queremos saber dos vossos gozos e das vossas dores se não forem Portugal. Enviem para França os chiliques, o boudoir, as cartas perfumadas. Enviem a quem pertença tudo o que é verme neste chão.


Estes que se adiantam, que esporeiam as montadas e erguem o rosto impoluto diante do que ainda não é, chamamos-lhes poetas, vates, profetas, doidos, proscritos – o que quiserem. Por eles falam as pátrias, as eras que a História não guardou.


Do meu lado estão os bardos dos Lusitanos, mesmo que me digam que não existiram.


Toda a poesia, toda a palavra, o gesto sequer, o olhar, que não se erguer do sangue singular desta Pátria dos Portugueses Ibéricos – é lixo e aqui não pertence.


Os poetas são as antenas da raça.



Lord of Erewhon



«Artists are the antennae of the race but the bullet-headed many will never learn to trust their great artists.» – Ezra Pound.