A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

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Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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terça-feira, 26 de agosto de 2008

RENASCIMENTO LUSITANO – EXEMPLO (PROSA)



ESCRITO NA PEDRA QUE O TEMPO APAGOU

Ao valoroso guerreiro que o poente engoliu, muitas grandezas o predestinaram. Na malga de leite, o espelhado oceano, a planura, o céu e a luz sem fim. No ferro, a mão da terra, os primordiais pétreos deuses, o bravo grito lusitano e o favor das batalhas. Por isso chora e brande o dardo no caminho dos mortos. Não mais verá a planície natal, as delícias do Tagus, do Callipus e do Anas [1], as serras e as terras, livres para o homem e o cavalo. Rei, lhe chamaram os ventos e os nascentes e o amor do povo. O tempo não guardará o seu nome, mas os tiranos lembrarão que com valentia usou as vírias. Dux Viriatus, terror Romanorum! [2]





PAPIRO

«Do mesmo modo o assassinato de Viriato justifica uma dupla acusação de perfídia; aos seus companheiros, que pelas próprias mãos o mataram, e ao Cônsul Servílio Cipião, porque foi o verdadeiro autor do crime, por ter prometido a paz e porque, não conseguindo a vitória, a comprou.»

Valério Máximo


«Depois da morte de Viriato, em 139 a.C., muitos Lusitanos renderam-se, outros dispersaram-se em bandos que atacavam sem mando as Legiões e eram rapidamente aniquilados, alguns, que sobreviviam e não aceitavam capitular, fugiam para norte, para junto dos rudes povos dos castros, que também recusavam aceitar o domínio Romano, suicidas a cheirar a cabra, tão civilizacionalmente atrasados que não poderiam opor qualquer resistência eficaz – mas em 136 a.C., com a campanha de Décio Júnio Bruto, Governador da Ulterior, que foi o primeiro a avançar para norte, ao longo do litoral, houve uma grande sublevação de Calaicos, vindos das montanhas do noroeste da Hispânia, entre os quais muitos Lusitanos – que se distinguiam bem dos selváticos Calaicos pelo porte, os cabelos soltos e as vestes negras e pelo facto de onde combatiam muitos deles os ataques serem mais concertados, porque valentia não se pode negar a nenhuns – amargo e amargurado o orgulho de pertencerem ao povo mais importante da região e ansiosos de reconquistar as planícies natais. Foram vencidos pelas Legiões.
Uma das batalhas deu-se próxima de Ponte de Lima. Depois de Júnio Bruto ter passado o Rio dos Mortos sem escolta, aquietou os temores dos soldados [3], que atravessaram também o rio e seguiram em marcha de combate. Pouco tardou para que a retaguarda fosse assaltada de repente por hordas de Calaicos. O recuo de algumas Coortes pô-los em debandada, não sem terem levado muitas das bagagens, mas a dianteira enfrentava já um ataque mais ordenado, com muitos Lusitanos a cavalo, incitando os demais. Foram precisas duas longas horas para lhes quebrar o bárbaro ímpeto, começaram a recuar e eram chacinados na fuga – estas gentes são como crianças, assim que sofrem um revés logo se sentem abandonadas pelos deuses. Apenas os que estavam perto dos Lusitanos conseguiam uma retirada táctica e, como quer a cavalo quer a pé, são mais rápidos do que os nossos, foram perseguidos à vista mas sem os alcançarmos.
A noite caía e procuraram abrigo numa elevação – tal como o ordenaria um general Romano – onde tinham a vantagem do terreno. Montou-se o cerco, erguemos fortificações enquanto outros dormiam por turnos e esperámos pela manhã. Estes lugares estão por cartografar; estavam no cimo de uma pequena colina estes últimos resistentes, ouvimos os seus cânticos – assombravam-nos o sono com o temor primevo que todo o civilizado sente pelo selvagem – à espera que a alba e a glória rasgassem a terra. O astro iluminaria todos, mas a nós menos iluminaria a glória, pois éramos tantos e eles tão poucos.
Eram homens de valor, tanto ou mais que os nossos.


Caturo Constâncio Ibérico»
[4]



CANÇÃO DE BATALHA

Findam fogueiras e noite.
As legiões formam em redor

Um cerco de lanças mil.
Somos duas vezes cem.

Pela manhã bebemos sangue
E tatuámos os braços.

O vento rodeou o monte.
O falcão gritou no céu.

Mais cedo nasceu o Sol
Para nos ver morrer.


Lord of Erewhon


[1] Rios Tejo, Sado e Guadiana. Estranho? – não o nome antigo destes rios, claro, mas esta saudade de além-túmulo de Viriato? Nem por isso. As teses sobre o seu lugar de nascimento não passam de «história salazarenta», sem qualquer fundamento; se a atribuição de Alvega (concelho de Abrantes, distrito de Santarém) como lugar de nascimento do caudilho dos Lusitanos já é sem prova, tal como os arredores de Coimbra… então a alternativa de Loriga (concelho de Seia, distrito da Guarda) é de um absurdo hilariante! Viriato nunca esteve na Serra da Estrela, a não ser no imaginário bairrista de tanto pacóvio nortenho, e os Lusitanos – excepto na recriação ridícula de Manoel de Oliveira – nunca fizeram guerrilha aos Romanos com arremesso de pedregulhos do alto das serranias! Dizimaram, sim, em combate de exércitos, Legiões inteiras nas planícies da Andaluzia e do Alentejo – facto de que poucos povos «bárbaros» se podem gabar e que só civilizações competidoras de Roma alcançaram. Do mesmo modo, a dita «Cava de Viriato», lá para as brenhas de Viseu, não passa de um entrincheiramento romano, de onde as Legiões vigiavam as diversas estradas que ali se cruzavam.
Nos nossos dias a História atribui a Viriato nascimento mais provável no litoral algures entre um pouco acima de Lisboa e um pouco abaixo de Setúbal – e a tese do litoral do Baixo Alentejo, próximo de Sines, não é despicienda. Viriato casou com a filha de Astolpas, um mercador rico destas regiões e demonstra na sua estratégia militar um fundo conhecimento das terras de planície, bem como dos hábitos romanos e da civilização mediterrânica, que só poderia possuir, um, por estar habituado ao chão direito e, outros, por ter vivido em lugares de câmbio de produtos e povos, ou no estuário do Sado ou no do Tejo, ou em ambos.

[2] Chefe Viriato, terror dos Romanos; designação pela qual os Romanos se lhe referiam.

[3] As mitologias antigas acerca da Finisterra povoaram de terrores o imaginário das Legiões; o Rio Lima foi confundido com o Lethes. O episódio é verídico, os soldados de Roma recusaram-se a passar o rio, e só o exemplo de coragem do Procônsul os convenceu a atravessar.

[4] Caturo Constâncio Ibérico é pura invenção minha e o texto que aqui assina não passa de ficção histórica, tal como o poema a que o texto faz introdução; não obstante as datas, os intervenientes e o contexto aconteceram, só esta batalha é imaginária; Júnio Bruto avançou para norte e encontrou forte resistência dos Calaicos e dos derradeiros Lusitanos que se recusaram a entregar as armas após o assassinato de Viriato. O excerto de Valério Máximo é real e traduzido por mim.






THE LADY OF SHALOTT

Toda a beleza se cala quando vagas alva e luminosa pelos pântanos. Barca ou berço, útero das águas, castelo e leito do guerreiro, fonte para o exangue, o faminto, o desterrado, ósculo e cura, do miserável e do louco, alva, toda a beleza se cala, quando vagas. Vem, Dama de Branco, que a tua sombra de luz me dê vergonha da minha força, que o jardim do teu coração me faça ajoelhar e abraçar a terra, que as tuas mãos de neve me façam apagar o inferno negro da minha alma. Vem por entre os pântanos, onde o sangue e a dor e as ignominiosas coisas que rastejam tecem a sua rede de murmúrios na água, vem por entre os pântanos, vem com a tua barca da vida e da morte e acerca-te desta estaca implacável de fogo e chega até mim, a criança orfã que lutou nos bosques. Vem mãe das águas e irmã das ínfimas frágeis criaturas que alegram o mundo, o orvalho na pétala, o grilo no feno, a ave no anil-espírito do céu, vem sobre os pântanos, os pântanos do mundo, e que um grande silêncio se erga do chão, e toda a beleza se cale, e o sopro uivante da minha vida, enfim, cesse. Depois faz de mim uma rosa e, por entre o vagar das águas, coloca-me no teu cabelo… e esvai-te dentro da bruma.


Lord of Erewhon


quinta-feira, 19 de junho de 2008

RENASCIMENTO LUSITANO – EXEMPLO (POESIA)



LUSITÂNIA

O lobo chama. A geada cai. A Lua é negra.
Qual sentinela, o dólmen do cume aguarda
A primeira estrela. Que desperte o seu hóspede.
Que por uma noite mais a sua alma dance
Na planura em fogo como o torso de ferro
Na batalha! Outros deuses nasçam.
Todo o lugar é um lugar de crucificação.
A opressão de Impérios escolhe a morte,
Antes é o destino que a executa – o céu é livre.
Invictos os poderios do mundo e de Roma
Não silenciam a alma da pedra!





RUNA

Fogos no céu vestem de luz o elmo antigo
Que a torrente revelou. A terra é a urna,
A grande pedra em que a vida escreve.
Não morreste em vão, nem és sem nome,
Nobre guerreiro que o Inverno acorda.
Os ossos vencidos verão uma vez mais o dia,
O braço segura ainda a trágula, as vírias.*
A montada caiu a teu lado – a glória não.
Mesmo que a lama e a runa fechem.



Lord of Erewhon


* Trágula: dardo muito aguçado com ponta em forma de anzol; uma das armas mais frequentes entre os guerreiros Lusitanos; eram exímios quer em arremessá-la quer em lutar com ela corpo-a-corpo. Víria: bracelete usada pelos Lusitanos; quanto maior fosse o seu número, maior seria o valor do guerreiro na batalha; «Viriato», muito provavelmente, nem será um nome próprio, mas apenas o designativo de um guerreiro muito valoroso, «um chefe»; apraz-me acreditar que assim é… e que só os mortos conhecem o seu nome!