A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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domingo, 30 de novembro de 2008

Os "estados novos" - Portugal


Em Portugal, depois do golpe de estado de 1926, Gomes da Costa, implantou uma ditadura que há muito vinha a ser pedida pela burguesia mais radical Sidonista, cujo líder tinha sido morto em 14 de Dezembro de 1918.
O jornal "A Dictadura" tinha veementemente exigido essa ditadura anos a fio e aí estava ela.
A verdade é que a primeira república tinha sido um fracasso, como revolução burguesa de carácter maçónico, apenas pretendeu substituir uma classe no poder por outra, ou seja substituir a nobreza pela burguesia.
Mesmo na época monárquica já os burgueses compravam os títulos nobiliárquicos, por isso a mudança não foi quase nenhuma, houve sim uma inversão dos símbolos e dos ícones.
O anticlericalismo criou o endeusamento da figura da república, chegando-se a fazer procissões em que a e imagens dos Santos eram substituídas pela imagem da santa república.
O próprio espaço das Igrejas Católicas foi reutilizado, como em Alhos Vedros onde a Igreja Matriz foi usada como garagem para os Bombeiros da Moita. Outras igrejas foram destruídas e também alguns mosteiros. As ordens monásticas foram ilegalizadas e todo esse dinheiro saqueado a saqueadores, foi para onde?

Não foi seguramente para o Povo, pois não havia uma política de segurança social ou de defesa da classe dos trabalhadores por parte do estado.

A entrada de Portugal na I guerra foi um despesismo mais na depauperada economia e também o destroçar de uma geração.
A primeira república nada melhorou para 99% dos Portugueses em relação à monarquia...
Aliás havia muito mais liberdade no final da monarquia do que na I república, basta lembrar o grande Bordallo e as revistas que fez, em sucessão libertária, pois assim que o governo encerrava uma, ele criava outra, essa liberdade só tem paralelo agora na blogosfera, bem hajam os blogues por isso.

Com o golpe de 28 de Maio de 1926, veio depois o estado novo português, que foi beber aos sacramentos do fascismo Italiano, mas, ao invés deste, que era de natureza urbana, e revolucionário o estado novo tinha características rurais e era anti-revolucionário e conservador, acabou por isso com os nacional-sindicalistas de Rolão Preto, esses sim revolucionários e verdadeiramente pró-fascistas.
O que sobrou da direita conservadora Sidonista republicana e antigos monárquicos do Integralismo Lusitano, foi integrada na grande União-Nacional corporativa e conservadora com forte pendor clerical.

O estado novo português teve 2 épocas, a primeira até ao começo da II guerra mundial, a outra após o final da II guerra.

Na minha opinião esta primeira fase conseguiu organizar minimamente o caos, pensou pequeno, tendo um vasto império colonial, ainda.
Estabilizou a economia por baixo, tornando os pobrezinhos asseados e felizinhos, dando-lhes entretenimentos vários que se tornaram muito populares, especialmente os filmes portugueses dessa época, mas também a rádio, os jornais de histórias em quadrinhos, o Futebol, Fátima e o Fado.
Foi, uma época feliz e o sistema corporativo escolhia as empresas a dedo, quase não existindo sistema de mercado, as empresas eram sectoriais, havia a empresa das cervejas, a empresa das massas alimentícias, dos vinhos de mesa e assim sucessivamente...era o tempo do mono, em tudo, até nas cores dos edifícios públicos, tudo era monocolor, era um Portugal a preto e branco.
Apesar do colorido artístico dado pela exposição do Mundo Português...
...se não fossem os artistas.

Esta fase teria de ser aproveitada para redimensionar toda a política colonial, implementando a colonização do interior de Angola e Moçambique, investindo em infra-estruturas, na educação dos povos e na misceginização das populações, assim como deveria ter investido na auto-gestão dos seus habitantes em todos os termos, inclusive políticos, dando autonomia gradual às colónias até que se criasse uma federação de estados lusófonos em que a capital tanto pudesse ser na Europa como em África.

A segunda fase estado novo, passou do preto e branco, para a gama de cinzas, tudo ficou cinzento e triste, a PIDE endureceu, o inimigo ficou bem explícito, porque também tudo ficou mais linear, dum lado o mal, simbolizado pelo PCP, mero bode expiatório que o Salazar pretendeu diabolizar para poder continuar no poder sem nada de relevante ser feito para desenvolver Portugal, do outro o bem simbolizado pela União Nacional, e os pseudo bons costumes e virtudes públicas, cheias de vícios privados.
Enfim um paraíso de servilismo sem criminalidade, a não ser a que estava no poder, à beira-mar plantado, onde realmente era muito bom pertencer à classe dominante que vivia em Lisboa com possibilidade de ir ver as paisagens de vez em quando no resto do país.
A emigração foi reconstruir a Alemanha e França, em vez de ir construir o interior de Angola e Moçambique, só em 1961, depois do ataque da UPA, Salazar esboçou estas ideias, mas aí já era tarde.
A estagnação continuou, até que Portugal entrou em guerra nas três frentes africanas, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, com a Europa, os EUA e a URSS a apoiarem os movimentos (in)dependentistas e Portugal orgulhosamente só a fazer frente ao mundo inteiro. De louvar as forças armadas que conseguiram fazer frente tantos anos a esses movimentos, mas de lamentar que tenha sido necessário a eclosão desses movimentos para Salazar finalmente ter reparado que existiam essas colónias.
Com a guerra perdida na Guiné-Bissau, aliado a uma oposição interna anti-guerra colonial e a diáspora dos portugueses pelo mundo, mesmo com possibilidades de vencer os movimentos nas colónias de Angola e Moçambique mas num futuro distante e num cenário de um Portugal decadente e extenuado e completamente isolado, as forças armadas saturadas de tanta guerra sem fim à vista, fizeram o golpe de estado de 25 de Abril de 1974, trazendo Portugal para o seu cantinho europeu e adiando 30 anos a restauração da nossa missão atlântica e mundial que antes com o regime Salazarista já tinha perdido quase 50 anos de desenvolvimento.

Ainda anteriormente, a possibilidade de se formarem novos Brasis em Angola e Moçambique no final do século XIX, apenas colonizadas então em alguns portos de mar, investindo na colonização dos seus interiores nessa altura, foi uma opção logo destruída pela ideia insensata de expansão territorial com a ligação destas duas colónias.
A quantidade ao invés da qualidade foi o apanágio dessa época de imperialismos que estavam na moda e Portugal foi ficando adiado, depois veio a república e adiou-se mais uns anos, com o Salazarismo idem, agora com esta pseudo-democracia, mais 30 anos de adiamento...mas o que é isso para uma nação como Portugal que tem 1000 anos de história !

Nada nos resta senão o futuro e esse começou agora, o MIL pode ser a pedrada no charco deste adiamento consecutivo da missão de Portugal e da missão do Mundo Lusófono em que nos inserimos.
Luís Cruz Guerreiro

sábado, 29 de novembro de 2008

Do "fascismo" e da (in)coerência...

.
R: Achas então que o Estado Novo foi um regime fascista?

L: Claro! Não impôs a censura?

R: Sim, sem dúvida.

L: E não praticou a perseguição política?

R. Inquestionavelmente.

L: Logo…

R: Mas então: e os outros regimes que o fizeram, que ainda o fazem, como por exemplo, o chinês?

L: Esse não é fascista!!!

R: Mas não impõe a censura, e não pratica a perseguição política?

L: (…).

P: Pois, de facto.

L: Bom, se tu assim pensas, concordo contigo.

A: E eu ainda mais!

terça-feira, 24 de junho de 2008

EUROPA

.

O despojo, um crânio sobre pneus,
Confunde a esfinge e o seu escriba
Sentado. (O búzio
Perdeu a ressonância,
Não canta por si,
É preciso soprá-lo.)
O deserto derrete as páginas.


Ecos, cópias, luzes falsas.

Lucrécio atormenta-se em casa,
Trancado com o Universo… enigmas
Prenhes de enigmas prenhes
De enigmas... Lucrécio não tem fundo.
E, de noite, o deus
Fá-lo cantar.

Imundície, pestes, mentiras.

(Quem comanda os meus passos?
As vielas, o tear de túneis,
Mergulham no Hades.)

Telémaco no bordel.
Penélope no secador.

As parcas douradas que tecem as ruas
Tecem o labirinto. Os sinais. Os corvos
De Zeus devoraram-se
No ar. Ulisses,
Não encontra o caminho de volta.
As vagas e os campos
São martelados pela tempestade.

As tochas dançam sem faunos,
Nem música. A nudez,
A beleza, etc, são agora crime.
Os lagos foram abandonados.
A populaça em fúria
Persegue o Minotauro,
Os cegos, o rapaz
De braços de gafanhoto que nasceu
Com seios, o chiador,
Os disformes; mongolóides, anões.
Os centauros são abatidos nas praças.

Teseu de ariana espada vem para nós
A 120 km/h da hidra subterrânea.

(Livros, rosas, seios, não sei,
Faltam-me as palavras.
A guerra – em breve
Os poetas serão um luxo.)

Chegou o mensageiro, falou:
«Prodígios no mar.
____A ira da noite nos ares.
A muralha Este ameaça derrocar.
____A pítia pariu um monstro,
Dizem que fala
____Com a voz de Péricles.
Uma praga de ratos no centro da cidade.
____César está doente.»

Segunda-feira de manhã, aguaceiros.
O espelho recusou-se a reflectir o rosto
Da mulher do cozinheiro.
Não sei onde meti as chaves,
Procurei, procurei,
Nada.



Klatuu Niktos

domingo, 22 de junho de 2008

PÁTRIA




«Quando os Escoceses se reúnem para celebrar a sua identidade nacional, fazem-no de formas ancoradas na tradição. Os homens vestem o kilt, cada clã usa o tartan com as suas cores próprias e as cerimónias são acompanhadas pela música das gaitas-de-foles. Através destes símbolos, demonstram que se mantêm fiéis aos rituais de antanho, cujas origens são antiquíssimas.
Só que isso não é verdade. Como é o caso com muitos símbolos da identidade escocesa, todas estas coisas são de criação recente. O kilt curto parece ter sido inventado por um industrial inglês do Lancashire, Thomas Rawlinson, no início do século XVIII. Decidiu alterar o vestuário que as gentes das terras altas então usavam para lhes facilitar a vida como trabalhadores.
Os kilts foram um produto da Revolução Industrial. Com eles, não se pretendia honrar uma tradição; a ideia era absolutamente contrária: permitir que as gentes das terras altas abandonassem o vestuário de couro para poderem trabalhar nas fábricas. O kilt não começou por ser o traje nacional da Escócia. Os habitantes das terras baixas, que constituem a maioria dos Escoceses, consideravam que os das montanhas se vestiam de uma forma bárbara, que muitos olhavam com desprezo. E quanto aos tartans agora usados, muitos deles foram elaborados, em pleno período vitoriano, por alfaiates empreendedores, que correctamente viram neles uma boa fonte de negócios.
Muitas das coisas que consideramos tradicionais, alicerçadas na neblina dos tempos, não passam, na verdade, de produtos do último par de séculos, e por vezes são ainda mais recentes. O caso do kilt dos Escoceses consta de uma obra célebre dos historiadores Eric Hobsbawm e Terence Ranger, The Invention of Tradition.»

Anthony Giddens, O Mundo na Era da Globalização



Ao longo da história da Civilização Ocidental quase nunca os políticos foram o ápice da cultura dos povos. Nem em nenhuma outra civilização, diga-se, mas tem-lhes sido confiada a condução concreta dos destinos da Humanidade. Os seus conluios raramente foram com o saber, mas profusamente com a religião e todas as formas de manipulação das consciências.
O maior apelo que se pode fazer à identidade de um povo é invocar a sua Tradição – ter o domínio dos mecanismos que permitem a sua difusão e permanência nas memórias colectivas sempre foi uma das maiores tentações, quer da Esquerda quer da Direita.
O desmoronamento dos impérios do Antigo Regime foi substituindo a hipostasiação expansionista de identidades nacionais (todas assentes na crença em mitosofias predestinativas) por ideologias internacionalistas, radicadas numa igualdade de todos os homens escorada no velho conceito universal, helénico, de Homem. Este conceito sempre foi uma ideologia mutável e, com o fim do modelo genérico da sociedade oitocentista, o Homem deixou de estar enraizado no conceito de Nação – como o estava para Aristóteles – e passou a ser a mais abstracta das ideias… neste Homem cabem: o Indonésio e o Guineense, o Espanhol e o Americano, mas não há Indonésios nem Guineenses nem Espanhóis, há Austronésios e Papuas, Manjacos, Papéis, Fulas, Flupes, Galegos, Andaluzes, Catalães, Bascos, Castelhanos, etc, e Americanos não existem, nem sequer para os próprios Ameríndios do continente americano, existem é Sioux, Borórós e muitos outros (só a percepção da eficácia política de um termo, os faz afirmarem-se Americanos).
Esta ideia-armazém universal de Homem rapidamente se tornou na grande disputa das ideologias que emergiram em luta nos princípios do séc. XX, na batalha acérrima de determinar o futuro da Humanidade num século que se adivinhava fértil de mudanças, políticas, tecnológicas, culturais e sociais. Mais do que o Alemão ou o Russo, o Novo Homem seria um Nacional-Socialista ou um Comunista – mas, mesmo as ideologias futuristas, não podiam ignorar de todo a Tradição que pretendiam reconstruir e, por isso, se reivindicaram de um património mítico, sempre mais ou menos religioso: o Ariano, o Proletário – remetendo para identidades imaginárias, há muito construtoras de narrativas imemoriais, em que inúmeros povos se têm revisto, numa cumplicidade com guerreiros vitoriosos de fábula e pobres de espírito ávidos do Paraíso.
A utopia comunitária europeia não deixa, ainda assim, de renovadamente se alimentar do mesmo sustento litúrgico: a Cristandade, a Herança Helénica ou o Espaço do Império Romano – não é por acaso que, depois da Turquia, já há quem fale em Marrocos como futuro membro da Comunidade Europeia e, quem sabe, daqui a 100 anos todas as nações mediterrânicas estarão integradas nessa coligação económica e política.
Tal como nas convulsões da primeira metade do séc. XX, neste novo século, muito mais rápido, assistimos quer ao anúncio da morte do Estado-Nação – de que a Comunidade Europeia e a Globalização são os grandes obreiros – quer ao recuperar de velhos mitos nacionais, ou internacionais; só a noção identitária é mutante, consoante se reivindica o espaço rácico de um Povo-Nação ou espaços transnacionais, sejam rácicos, igualmente, religiosos, culturais, económicos ou políticos, sendo o Capitalismo e a Democracia os estandartes do Ocidente e os seus exércitos a supremacia tecnológica e o monopólio dos media e de todas as formas de comunicação, a que se acresce o imenso poderio da sua propaganda cultural e a eficácia dos seus intelectuais, incansáveis na escritura de inventadas narrativas sapienciais, com ambição hegemónica a primados.
A diferença das diversas propostas não têm como chão outro solo senão o património cultural específico de cada povo. Há motivo histórico para que na Alemanha ressurjam velhas ideologias fundamentadas na Raça, alguns Alemães ainda se podem gabar de ser um grupo rácico; foram de todos os Europeus um dos povos que menos se misturou e dispersou fora do seu espaço territorial, ao contrário dos seus primos nórdicos, que fundaram cidades na Rússia, na Península Ibérica e foram os primeiros Europeus a desembarcar nas costas americanas. Se compararmos a história dos Alemães – que formam um dos mais jovens estados modernos – com a dos Portugueses, percebemos perfeitamente porque em Portugal regulamos a nacionalidade pelo jus solis e na Alemanha a filtram pelo jus sanguis. Embora Portugal tenha encolhido muito, principalmente de espírito, é Português quem nasça em território nacional e, no meu entender, esse território deveria ser, não apenas um avião, um navio ou uma Embaixada, mas todos os territórios que já estiveram sob administração dos Portugueses – se um natural de Goa chegar a este país invocando um direito de nacionalidade portuguesa… eu dar-lha-ia de imediato.

Portugal foi devassado por todo o séc. XX por tentativas ideológicas de lhe inventar uma Tradição, ao sabor de desígnios políticos obscuros. Somos um dos mais antigos e estáveis Povos-Nação europeus, mas nunca fomos uma Raça, e sempre uma saudável mistura de gentes, vindas dos quatro cantos do mundo. Portugal é um Povo-Terra desde os temores mais remotos da Antiguidade acerca da Finis Terrae, o fim do mundo antigo a Ocidente. Portugal é uma Arca de Chão, para onde têm confluído sucessivas vagas de almas em busca de uma Pátria e inúmeros indivíduos que perderam a sua e, aqui, nesta Terra de Esperança, vieram erguer uma Pátria de Pátrias. Esta é a antiquíssima e primordial Tradição dos Portugueses e o sangue da Alma de Portugal.
Dom Afonso Henriques, um Borgonhês de ascendência, inaugurou esta utopia excelsa e o Infante Dom Henrique, um mestiço ibero-britânico, deu a esse sonho uma marca na História… chama-se Civilização Portuguesa.

Sou um Transnacionalista e, como tal, a minha Pátria não está prisioneira de linhas imaginárias num mapa, que partem as terras… e todos os Homens são Portugueses… basta-lhes, para isso, quererem sê-lo e virem até este Fim do Mundo para erguer a sua Casa.



Klatuu Niktos


sábado, 14 de junho de 2008

ÁLVARO DE CAMPOS ESCREVE SOBRE «O BANQUEIRO ANARQUISTA»


Álvaro de Campos, fotografado pelo seu amigo K, a evitar
que o vento escocês lhe roube o chapéu.


De Álvaro de Campos, «engenheiro naval jubilado», recebeu o director do «JL» a carta que – por razões evidentes... – de seguida se publica na íntegra.


Não fora o motivo desta carta, para mim, um superior imperativo, e não daria eu a V. Ex.ª o trabalho de me ler, pois que, após o prematuro desaparecimento físico de Fernando Pessoa (de que eu sou a vingança), me remeti a um total silêncio literário e social. Silêncio que, no entanto, me não privou em ocasião alguma de acompanhar, minuciosamente, a vindicação plena e o pleno triunfo da obra do Fernando, da do meu querido mestre Alberto Caeiro, e da do Dr. Ricardo Reis, assim como da minha própria. Do meu posto de observação da acidentada vida nacional e da paupérrima vida literária do mesmo país – o nosso – tenho seguido com atenção e regozijo íntimo a edição do nosso espólio literário. Dedico especial atenção aos prólogos das edições, aos artigos e estudos que sobre nós e a nossa obra se escrevem, porque me divertem e me ilustram, sobretudo, acerca das coisas que nunca nos passou pela cabeça lá deixar e que dizem esses senhores que deixámos. Se o Fernando fosse vivo, faço ideia a quantidade de cartas e artigos que escreveria, a uns e outros, rebatendo e criticando, demonstrando o contrário de tais teses, ele que tinha a mania de demonstrar até o indemonstrável, só para demonstrar quão indemonstrável era. Pela minha parte, nonagenário como já sou, e totalmente cego de alguns anos para cá, sigo agora, com mais convicção do que nunca, os ensinamentos do meu mestre Caeiro, e deixo simplesmente as cousas como elas estão, ou as colocam. Mas tudo tem um limite, como é o caso do motivo que me inspira esta carta, e me força a abandonar, por vez única, o meu longo silêncio.

Como é do conhecimento de V. Ex.ª, veio a lume há dias, sob a chancela de Edições Antígona (?), uma re-edição do opúsculo-história de Fernando Pessoa «O Banqueiro Anarquista», publicado pela 1.° vez em 1922, não sem as minhas oportunas reservas, na altura, acerca da construção silogística da história, inevitavelmente sofistica, filosoficamente insustentável e socialmente inócua. Recordo que não logrei demovê-lo, e o opúsculo saiu mesmo, porque, isso sim, está bem escrito e é um exemplo acabado do que eram as veredas mentais do Fernando.

Ora, sucede que a tal re-edição contém um prólogo nefando, que me fez saltar de raiva na poltrona, quando o meu habitual colaborador mo leu. Assinado, ou antes, não-assinado por um tal «k.» seguido do epíteto «sine nomine vulgus» (naturalmente o energúmeno julga que impressiona alguém com esse latim), o prólogo está dividido em dois apartados.

No primeiro se vertem conceitos discutíveis e alguns disparates comentáveis até; mas no segundo... o «k.» (será k. de «kaputt» ou antes de «kamelo»?) ultrapassa com absoluta puerilidade os limites da elementar decência e mergulha no insulto gratuito, improfícuo, lastimoso, indo ao ponto de chamar fascista a Fernando Pessoa!... Fascista!...

Tenho visto e ouvido de tudo nesta longa vida que o Fado me reservou, e a única coisa que me restava para ouvir, agora que já não vejo nem leio de todo, era, realmente, que Fernando Pessoa é um reaccionário fascista! - além de várias outras lindezas de índole semelhante.

Se o Fernando fosse fisicamente vivo, ele próprio daria a merecida resposta ao kamelo belga, ou talvez não desse cousa nenhuma e risse como quem nunca riu. Mas não podendo eu ficar indiferente perante tamanho desaforo, peço de V. Ex.ª a lealdade pessoana de publicar na íntegra, no jornal que proficientemente dirige, esta carta. Quanto ao «k.» é patente a limitação na que se debate, e óbvia a sua ignorância da vida, obra, personalidade e ideias de Fernando Pessoa, ignorância tanto mais profunda quanto atrevida – como todas elas o são – que só me inspira, agora que em público desabafei, a gargalhada sadia: ó menino kapa: estude, viaje e cale-se. Sobretudo cale-se. Fernando Pessoa é para adultos com imaginação.

Resta-me agradecer a V. Ex.ª, senhor Director, a paciência de me ler e a atenção dispensada.


De V. Ex.ª
Cdo. Venr. e obrigado.

Álvaro de Campos
Engenheiro Naval jubilado.



In JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 16 de Março de 1982.