Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
A SITUAÇÃO CULTURAL DE HOJE: VAI UMA APOSTA?
1. Todo o povo só tem futuro na medida em que promove a sua auto-consciência colectiva. Essa auto-consciência é, sobretudo, de cariz histórico e cultural. Daí a importância da Cultura. A nível político, por exemplo, ela deveria ser a pasta mais importante. O que, como é sabido, está muito longe de acontecer. E não falo no plano orçamental – o que é importante, mas está longe de ser decisivo –, antes simbólico.
2. Se há países que são sobretudo um “bom negócio”, dado que proporcionam boas condições de vida aos seus concidadãos – e por isso se vêm a si próprios como empresas –, um país como Portugal, que não nasceu em cima de um poço de petróleo, só terá futuro na medida em que recordar, todos os dias, o seu fundamento histórico-cultural. Sem que isso deixe de implicar, obviamente, na medida do possível, proporcionar as melhores condições de vida aos seus concidadãos. De resto, num país como Portugal a coesão social só pode derivar, em última instância, daí: do reconhecimento de uma destinação histórico-cultural comum. Na medida em que nos reconhecemos com comparticipantes de uma mesma destinação – ou seja, na medida em que nos reconhecemos como compatriotas – seremos mais naturalmente justos e solidários uns com os outros.
3. Em Portugal, contudo, cada vez mais, os nossos políticos primam por não terem qualquer visão histórico-cultural do país. Sequer um vislumbre. E por isso olham para o país como uma mera empresa. Apesar de alguma retórica, que apenas serve que temperar os discursos mais pomposos, chegará o dia em que alguém dirá: enquanto mera empresa, Portugal faliu. E renascerá então a panaceia iberista: numa lógica puramente economicista, não há dúvida de que estaríamos bem melhor se fôssemos espanhóis.
4. A razão maior do impasse em que estamos deriva do facto de, para a generalidade da nossa classe política dominante – da dita esquerda à dita direita –, qualquer discurso sobre a nossa destinação histórico-cultural comum soar a “salazarismo”. Nada mais falso e equívoco. Se durante o Estado Novo houve gente que procurou promover essa visão histórico-cultural do país, mobilizando as pessoas da cultura para o efeito – caso, por exemplo, de António Ferro –, o Estado Novo faliu porque, também ele, foi deixando de acreditar nessa visão, tendo-se cada vez mais afundado num beco sem saída, que apenas foi sustentando através da repressão.
5. Escreveu Fernando Pessoa que para a realização desse nosso destino “as colónias já não seriam precisas”. O Estado Novo acreditou até ao fim no contrário – e essa foi a sua perdição. O novo Estado saído da Revolução deixou de acreditar em destinações – em nome da liberdade, assegurou, solene. E por isso deixa que a política de cultura seja determinada pelo Deus-Mercado – no tempo do mais reles relativismo, o que mais vende, vence.
6. Quem melhor percebeu Pessoa foi Agostinho da Silva. E por isso prefigurou, já há mais de meio século, a constituição de uma “comunidade lusófona”, pós-colonial, numa base de liberdade e fraternidade. Eis a nossa destinação . Que tal ainda não esteja na moda, que tal ainda não venda, pouco importa. A História tem o seu tempo próprio. E o seu tempo chegará. Bem mais depressa do que se julga. Vai uma aposta?
Feliz Ano Novo a tod@s, inimigos, indiferentes e amigos!

Desejo um Feliz Ano Novo a tod@s - inimigos, indiferentes e amigos - , um Ano, uma Vida, um Mundo e um Universo livres de fronteiras, sejam mentais, emocionais, nacionais, linguísticas, culturais, religiosas, ideológicas, sociais, de sexo ou de espécie! Desejo-me e desejo-vos isso desejando-me e desejando-vos a Realidade, desde sempre livre de si e de todos os demais muros e ilusões que as nossas pobres mentes inventam para se torturarem a si e aos outros.
Sejamos livres, sagazes, amorosos, felizes e contagiantes, como dizia Agostinho da Silva!
E que Portugal e a Lusofonia se desvendem Universo!
Saudações fraternas
Livro de Horas de "Saudades-do-futuro" - Serpentes de Mar
(Para os da Serpente (e os do Jardim): Livro de Horas de Saudade. Horário e sabor das "poisagens" de alma. Livro das horas de uma entrega às Índias de Alma do Corpo alado dos Poetas não regressados. Poesia e Verdade?:))
"Serpente do Mar"
O Silêncio engole-me os desejos e um deus vivo entra na pele desse extremo arrepio. Corta o silêncio em dois uma fina navalha de bruma!
O que sinto e o que penso: poentes nascidos no avesso do ser. Por regressar!
Quem me dera morrer (me) na inocência azul de uma bola de frescura, na minha testa em febre! A Natureza de uma coroa na cabeça de uma Serpente.
A aura do mar levantou a beleza, a pedir perdão aos céus de dor tão supremamente bela!
Não posso sentir o que penso. Não posso dizer o que sinto. O Silêncio engole-me, como em uroboros(a) serenidade o mar aceita a luz nele entrada.
Uma luz entra nos poros, lisa, luminosa. Ir para onde sopra o vento ou dele desatar o nó que chia no apertar estreito da manhã. Um regresso para passados do futuro.
Escrever é uma paisagem das horas, uma companhia de solidão.
Há litanias na voz. O mar é uma maçã de vento. Não espera o sabor do dia. Há pomos que têm jardins na boca.
Uma baía é um mar fêmea. Atracam nela os barcos como horas de atraso no porto. Deitam-se os sóis, acordam os dias! Não há barcos para a Alegria! Vem ver-me dormir, tristeza! Literatura das horas!
Sem o Real existir não haveria matéria, nem sólida nem rarefeita, para construir castelos que suspendem o próprio ar, sem peso; nem haveria poemas para saudar as coisas que vivem na imaginação do Real.
Crescem nas suas asas: os sonhos! Vejo a aura do sol nas minhas costas!
Há palavras que se comem, outras, desaparecem esbatidas na paisagem, como cinza de neve a derreter no céu-da-boca húmido das palavras mais leves. Com essas e com as outras fazem-se barcas, que são nuvens, desfeitas: sopros de pétalas!
Os barcos estão há tanto tempo parados! As âncoras são poema condenados a navegar: Ulisses de uma Penélope longe dos barcos. As gaivotas atravessam o ar. O instante é perfeito.
Há vento entrado no pescoço do mar. Ainda a beleza da vida brota em luz!
Há um momento em que a vida transborda da taça da palavra. Que seja Azul, lápis-lazúli da alma. Quem tarda?!
A luz, ombro a ombro com o azul, inventa o horizonte. Há barcos desde a véspera. São recortes de não regresso, são poentes olhos na paisagem.
UM ANO CHEIO DE BELEZA, DE BONDADE E DE VERDADE!
FELIZ 2010!
Publicado por Saudadesdofuturo em:
serpenteemplumada.blogspot.com
PERSONALIDADE LUSÓFONA DO ANO (2009)
O MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO elege todos os anos a personalidade que, no nosso entender, mais contribuiu para a convergência lusófona. A personalidade que elegemos referente ao ano de 2009 é a do Embaixador brasileiro junto da CPLP, Lauro Moreira.Fazemo-lo em reconhecimento de todo o seu trabalho em prol da dinamização da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Para além deste seu cargo, que estás prestes a abandonar por limite de idade, Lauro Moreira foi ainda responsável pela ABC (Agência Brasileira de Cooperação), Embaixador em Marrocos e Coordenador nas Comemorações dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil. Em todos esses cargos demonstrou sempre um grande empenhamento no reforço dos laços entre os países lusófonos.
MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (http://www.movimentolusofono.org/)
P.S.: Caso queira participar no processo de eleição da PERSONALIDADE LUSÓFONA DO ANO (2010), deverá sugerir-nos um nome até 01.12.10, com a devida justificação.
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MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (www.movimentolusofono.org)
(blogue: www.mil-hafre.blogspot.com)
(facebook: http://www.facebook.com/group.php?gid=2391543356)
O MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO é um movimento cultural e cívico que conta já com mais de dois milhares de adesões, de todos os países da CPLP.
Se quiser aderir ao MIL, basta enviar um e-mail: adesao@movimentolusofono.org
Indicar: nome, e-mail e área de residência.
MIL-COMISSÃO EXECUTIVA:António José Borges, Casimiro Ceivães, Eurico Ribeiro, José Pires F., Renato Epifânio (porta-voz) e Rui Martins.
MIL-CONSELHO CONSULTIVO:Alexandre Banhos Campo (Galiza), Amândio Silva (Portugal), Amorim Pinto (Goa), Artur Alonso Novelhe (Galiza), Carlos Frederico Costa Leite (Brasil), Carlos Vargas (Portugal), Fernando Sacramento (Portugal), Francisco José Fadul (Guiné-Bissau), Jorge Ferrão (Moçambique), Jorge da Paz Rodrigues (Portugal), José António Sequeira Carvalho (Portugal), José Jorge Peralta (Brasil), José Luís Hopffer Almada (Cabo Verde), José Manuel Barbosa (Galiza), Lúcia Helena Alves de Sá (Brasil), Luís Costa (Timor), Luísa Timóteo (Malaca), Manuel Duarte de Sousa (Angola), Miguel Real (Portugal), Miriam de Sales Oliveira (Brasil), Nuno Rebocho (Portugal), Octávio dos Santos (Portugal), Paulo Daio (São Tomé e Príncipe), Paulo Pereira (Brasil) e Vitório Rosário Cardoso (Macau).
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
"Que não os olhava de cima para baixo"
"Os senegaleses estão dizendo que, pela documentação portuguesa da época, quando eles podem ver como se comportavam os homens que ficavam lá a comerciar e que até ali constituíam família africana entrando na mestiçagem, eles acham que essa gente compreendeu muito bem o africano, que não os olhava de cima para baixo, mas que os achava uma gente, decerto diferente, mas com muita coisa que consistia uma plataforma em que eles se podiam perfeitamente entender uns aos outros e entrar em empreendimentos comuns. Mas quando vem a intervenção armada e organizada de Portugal a coisa muda completamente no Senegal."Acordo Ortográfico: Angola e Moçambique à espera, Cabo Verde já aplicou
Em Moçambique, por exemplo, o acordo é assunto de uns poucos intelectuais, e a maioria das pessoas que têm falado opõe-se a ele. Angola e Moçambique são os dois únicos países dos oito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), incluindo Timor-Leste, que não o ratificaram e não têm data para o fazer.
Em Luanda, garante-se de forma informal que o dossier está avançado. Em Maputo, o sentimento entre os mais relutantes é de que o texto será ratificado sobretudo por pressão de Lisboa e Brasília e não tanto por convicção. Em Bissau, foi ratificado em Novembro. E em Timor-Leste em Setembro.
São Tomé e Príncipe já havia ratificado em 2006, mas - como a Guiné-Bissau e Timor-Leste - não tem data para a implementação.
Alguns gostariam de condicionar a aplicação nos seus países à aplicação nos restantes, para que o acordo não fosse factor de desunião em vezde união. Dizem que era preferível esperar para ver o que fazem Angola e Moçambique. Outros contrapõem e dizem estar certos de que nenhum país quererá ficar isolado e quetodos, mesmo os mais relutantes, acabarão por aprová-lo quando eletiver entrado em vigor nos restantes.
Neste jogo de apostas, em que os Estados podem esperar ou arriscar sozinhos a aplicação, Cabo Verde arriscou. Depois de em 2006 o ter ratificado, em Outubro tornou-se um dos primeiros países a aprovar em Conselho de Ministros a entrada em execução dando um prazo de seis anos para a sua aplicação, e não tornando obrigatório o uso da nova ortografia. "As pessoas não são obrigadas a escrever conforme o acordo, são aconselhadas", disse ao PÚBLICO o ministro cabo-verdiano da Cultura, e também escritor, José Manuel Veiga, que se desdobra na exposição de argumentos favoráveis ao acordo. "Sendo a língua um elemento de união entre os países e querendo nós valorizar a língua no mundo, tínhamos de fazer cedências."
Além disso, está convicto de que as resistências agora existentes relativamente ao acordo são passageiras, como o foram as existentes aquando da aprovação do acordo ortográfico de 1911. Também o ministro da Educação de São Tomé e Príncipe, Jorge Bom Jesus, defende a aplicação rápida do acordo. "Temos de ter a coragem política de avançar antes que seja tarde. Sem o acordo, a afirmação do Português não se fará."
Ana Dias Cordeiro
Fonte: http://jornal.publico.clix.pt/noticia/30-12-2009/angola-e-mocambique-a-espera-cabo-verde-ja-aplicou-18500310.htm
O "admirável" mundo novo...

A Amazon divulgou que o livro mais vendido no seu site durante a época natalícia foi o Kindle, o livro electrónico.
As vendas ultrapassaram as expectativas, tendo a Amazon vendido mais livros electrónicos do que em papel. O Kindle foi o «presente mais oferecido na história da Amazon», segundo um comunicado da empresa. «Pela primeira vez, os nossos clientes compraram mais livros para o Kindle do que em papel», acrescenta a empresa no comunicado.
A Amazon não revela os números relativos às vendas indicando apenas que o pico de maior procura aconteceu a 14 Dezembro, altura em que a empresa registou 110 encomendas por segundo, ou seja, mais de 9,5 milhões de artigos vendidos.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Acerca do Problema da Existência
Do Pensamento Pessoal12. Quando consideramos a grandeza e o imediatismo do problema da existência, desta existência ambígua, atormentada, fugidia, onírica – tão grande e tão imediata que assim que tomamos consciência dela, domina e obscurece todos os outros problemas e alvos; e quando, então, vemos como os homens, com algumas raras excepções, não têm uma consciência clara deste problema, na realidade parecem não ter qualquer consciência, preocupando-se antes com tudo que não este problema, e vivendo a pensar apenas no dia a dia e no espaço de tempo do seu próprio futuro individual, ou recusando-se expressamente a considerar este problema ou contentando-se com algum sistema de metafísica popular; quando consideramos este facto, chegamos à conclusão de que o homem pode ser chamado um ser pensante apenas num sentido muito lato desse termo e já não sente grande surpresa face à ausência de pensamento ou a qualquer idiotice, mas perceberá antes que enquanto o horizonte intelectual do homem normal é mais vasto que o do animal – cuja existência total é, como deve ser, um presente continuo, sem consciência do passado ou do futuro – não é tão imediatamente mais vasto do que em geral se supõe.
Schopenhauer
Publicado no MILhafre, por Antígona:
http://mil-hafre.blogspot.com/2009/12/acerca-do-problema-da-existencia.html
Seminário Aberto: A Filosofia de Epicteto e Marco Aurélio
O Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto informa que de 29 de Março a 9 de Abril de 2010 estarão abertas as inscrições, para o Seminário Aberto:
A Filosofia de Epiteto e Marco Aurélio
Leccionado pelo Prof. Doutor Álvaro dos Penedos (FLUP)
Início: 12 de Abril 2010
Segundas-feiras: 19,30h-20,30h.
Máximo de 30 participantes
Informações e inscrições:
Secretariado do DF:
Torre B, piso 1
Telef./fax: 226077187
e-mail: df@letras.up.pt
Web: www.letras.up.pt/df
Ficha de inscrição em anexo. (A ficha de inscrição, depois de devidamente preenchida, deverá ser entregue no secretariado do DF).
Nota: Os seminário são ministrado por um Professor Jubilado, a título gratuito, sem quaisquer encargos para os participantes
Uma "experiência pedagógica que eu fiz no Porto"
"Deram-me para ensinar, eu ainda era muito jovem, deram-me para ensinar uma classe de meninos do quinto ano, plena adolescência, repetentes, eram sujeitos que nunca tinham estudado, uma turma, sabe, a coisa mais tremenda que eu vi na vida. O meu discurso foi simples. Enquanto o empregado fazia a chamada deles, eles estavam em completa desordem, faziam o que queriam, com aquele rapaz novo como professor, ah, para eles tinha de ser uma coisa… Quando aquilo acabou eu fiz uma coisa simples. Olhei para o número um até ele ficar sério, quando ele ficou sério olhei para o número dois. E fui até ao número 31 da classe, um a um. Quando acabei o silêncio era absoluto naquela aula. Não imagina o que era aquilo. E eu depois disse: os meus amigos vão escolher qual é o processo de ordem que querem, eu tenho dois à escolha – o processo da cavalaria da Guarda Republicana que eu sei aplicar como ninguém e o processo das pessoas estarem contentes umas com as outras e a conversar umas com as outras e a vida se levar alegremente – os meus amigos escolhem e na próxima aula não precisam de dizer, eu olho, vejo como é e aplico aquele que os meus amigos escolheram. Ora, foi uma vida deliciosa até ao fim do ano."Agostinho da Silva, inédito
Publicado no MILhafre:
http://mil-hafre.blogspot.com/2009/12/uma-experiencia-pedagogica-que-eu-fiz.html
“Não posso estar em parte alguma. A minha / Pátria é onde não estou”
Porque será que os grandes pensadores de Portugal - Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva - são todos, cada um a seu modo, pensadores da sua desterritorialização, pensadores do expatriamento? E porque será que muitos dos que deles mais se reclamam tudo fazem para os instrumentalizar no sentido oposto, do nacionalismo e do patrioteirismo?
Heidegger: "Tradição"

"Tradição não é uma pura e simples outorga, mas a preservação do inicial, a salvaguarda de novas possibilidades da língua já falada. É esta que encerra o informulado e o transforma em dádiva. A tradição da língua é transmitida pela própria língua, e de tal maneira que exige do homem que, a partir da língua conservada, diga de novo o mundo e por aí chegue ao aparecer do ainda-não-apercebido. Ora eis aqui a missão dos poetas."
Publicado no MILhafre:
O que é o "diá-logo" entre culturas, um dos maiores desafios do tempo presente?

"Entre, por um lado, o consenso mole do diálogo sempre suspeito de ser um alibi ou de esconder mais insidiosamente as relações de forças sob a sua aparente abertura e, por outro, o clash anunciado - constatado - assim como o apelo à defesa identitária do "Ocidente", que outra via que não tombe para nenhum lado: que não seja nem utópica, nem defensiva, nem de compromisso? Ou "diá-logo" não é algo antes a retomar e repensar, mas decidindo desta vez conferir a sua plena exigência a um e a outro dos seus componentes [...]? Fazendo compreender, por um lado, no diá do diá-logo, a distância do afastamento, entre culturas necessariamente plurais, mantendo em tensão o que está separado: um diálogo, ensinaram-nos os Gregos, é mesmo tanto mais rigoroso e fecundo quanto mais atiça teses antagonistas; e, no logos, por outro lado, o facto de que todas as culturas mantêm entre elas uma comunicabilidade de princípio e que tudo, do cultural, é inteligível, sem perda e sem resíduo. [...] [após afirmar que o diálogo é "operatório"] Mas operatório em quê? Não que quiséssemos a todo o preço conciliarmo-nos com o outro, ou que encontrássemos já nele [no diálogo] prescritas regras formais, mas simplesmente porque, para dialogar, cada um deve imperiosamente abrir a sua posição, colocá-la em tensão e instaurá-la num frente a frente. Não pois porque cada um seria movido por uma finalidade de entendimento, ou porque a lógica do diálogo revelaria um universal pré-estabelecido, mas porque todo o diálogo é uma estrutura eficiente - operativa - que obriga de facto a reelaborar as suas próprias concepções, para entrar em comunicação, e portanto também a reflectir-se"
- François Jullien, De l'universel, de l'uniforme, du commun et du dialogue entre les cultures, Paris, Fayard, 2008, pp.247-248.
arevistaentre.blogspot.com
A ECONOMIA DA CULTURA
Rui Martins*
"Se fosse (Tom Sawyer) um grande e sábio filósofo, como o autor deste livro, teria compreendido então que o trabalho consiste em tudo o que se é obrigado a fazer, e o prazer consiste naquilo que se não é obrigado a fazer."
Tom Sawyer, Mark Twain
O esgotamento iminente de um conjunto essencial de matérias-primas, desde o ferro ao carvão, passando pelos combustíveis fósseis, indica que se aproxima um momento de viragem para a forma de vida que o Homem tem seguido nas suas organizações, vida comunitária e sistemas económicos. O esgotamento das matérias-primas e das formas convencionais de produção energética indicam que a Economia tem que alterar os seus paradigmas essenciais e que passam pela extração bruta de matérias-primas, o seu transporte e armazenamento, transformação e distribuição até ao consumidor final. A escassez que inevitavelmente cairá sobre todos nós – cedo ou tarde – vai forçar a Economia a mudar de objetivos desde a fabricação de "coisas" até uma nova geração de paradigmas em que a produção de serviços, de bens imateriais e virtuais será cada vez mais importante, até se tornar – finalmente – dominante sobre as formas convencionais de produção económica, "coisificadas", tão ao sabor do dogma do "crescimento contínuo", imposto pelos teóricos da maior parte das escolas de pensamento económico, de Adam Smith a Keynes, passando por David Ricardo e Malthus.
Como dizia Agostinho da Silva, "antes de poder filosofar, há que encher a barriga". Sejamos assim claros: uma economia de novo tipo, centrada na produção multiforme e pluritária de bens culturais, só poderá florescer num ambiente em que as condições de sobrevivência mínima estejam plenamente cumpridas. Se na antiga Grécia houve florescimento da Filosofia, tal foi apenas possível devido à existência de uma camada social de abastados proprietários de terras que gozavam os seus lucros enquanto os escravos trabalhavam... Estes escravos hoje são – ou deviam ser – as máquinas. São estas que pela via da automação, da hidropónica e da cibernética deviam assumir a tarefa de nutrir e vestir o Homem, para que este possa Pensar e dedicar-se à verdadeira missão que é a de criar Pensamento, Cultura e Inovação. Deixemos ao Homem a Criatividade e às máquinas as tarefas maquinais, repetitivas, mecânicas e desumanas que hoje dominam ainda o essencial da produção industrial e agrícola. Dir-nos-ão que é Utopia, e eu direi que é Meta. Não temos que chegar a uma sociedade destas num único supetão, nem que estabelecer uma qualquer "ditadura do proletariado" (em que os Fins valem mais que os Meios) para acelerarmos a vinda desse mundo novo, como acreditam os totalitaristas de todas as cores. Deixemos as coisas surgirem de per si, de forma suave e gradual... Plantemos as nossas sementes, formemos comunidades de amigos e familiares no seio das nossas cidades, empresas e escolas que se regem segundo estes novos princípios e depois – pela virtude do extraordinário poder do exemplo – deixemos que a contaminação percorra toda a sociedade.
As sociedades do futuro que assim antevimos serão extremamente frugais e espartanas do ponto de vista material. As sociedades da abundância que existiram depois da Segunda Grande Guerra e até à atualidade no Ocidente encontrarão o seu ocaso inevitável quando os recursos de cujo crescente devoramento dependem chegarem ao fim. E não falamos apenas dos combustíveis sólidos, mas também do carvão e do ferro, que estarão esgotados em pouco mais de 50 anos. Sem recursos naturais para transformar, perante a evidência da impossibilidade da reciclagem e reutilização total das matérias-primas, o modelo de desenvolvimento económico que depende do crescimento eterno do Produto irá esgotar-se. Novos padrões de desenvolvimento, social e humano terão que se impor, inevitavelmente. Se o Desenvolvimento não puder ser medido pelo consumo bruto de bens, então terá que ser medido pelo consumo de serviços culturais e pelo desenvolvimento individual da pessoa humana, que será dotada pela primeira vez na História de meios para realizar plenamente a capacidade criativa, que séculos de Pedagogia castradora – para a Ordem e Disciplina – se esforçaram por reprimir.
Só pelo consumo de bens culturais é que o Homem se poderá realizar e cumprir a sua missão no planeta: Criar. Ter esse prodígio natural chamado cérebro e utilizá-lo apenas para tarefas repetitivas, mecânicas ou animalescas é insultar essa dádiva que a Natureza nos concedeu. Tornemo-nos assim todos – cada qual à sua maneira – em criadores. Sejam obras de marcenaria, esculturas de mármore, contos e poesia ou até ensaios filosóficos ou invenções mecânicas, deixemos a nossa marca no mundo. Passar pela vida sem nunca a marcar é viver de forma passageira e transitiva. Busquemos a eternidade nas nossas realizações e não nas fugidias promessas de "vida para além da Morte" de todas as religiões... Se na economia atual da cidade de Nova Iorque (uma das cidades mais prósperas do mundo) mais de metade da riqueza já é gerada pela Cultura, se em Portugal se estima que a Cultura e a Língua valham já um terço do PIB nacional, então fica demonstrada a viabilidade de um modelo de Economia onde os bens culturais sejam privilegiados em relação aos materiais, mas fazendo sempre a devida ressalva à necessária satisfação das necessidades básicas de qualquer ser humano.
Utilizemos as novas tecnologias a nosso favor. Não para que nos desumanizemos e transformemos em autómatos pós-industriais ou em escravos da máquina, mas para cumprirmos a nossa plena humanidade e utilizando as suas virtualidades que – pela via eletrónica – permitem que um número inédito de criadores, ensaístas, filósofos, poetas e ficcionistas cheguem a custo zero a milhões de leitores, permitindo a instauração da "economia gratuita" de Agostinho da Silva, de uma forma que ele já não pôde antecipar. Nunca – como hoje – houve tantos criadores sendo conhecidos por tantos leitores. Haverá certamente um preço de falta de qualidade a cobrar nesta democratização da Cultura, e tal fenómeno incomoda sobremaneira os meios académicos que ao longo dos séculos se habituaram às suas confortáveis cátedras altaneiras e cobertas de privilégios e "Autoridade". Se a Cultura cair "na rua", se as populações saírem do papel que a "Cultura Académica" reservou para elas, de consumidores passivos e acríticos, então os lugares exclusivistas, transmitidos de geração em geração, por autenticas dinastias de académicos e de outros "proprietários" da Cultura, então essas elites deixarão de gozar da importância a que hoje se arrogam.
Esse é o caminho de um futuro que o presente já deixa antever: um mundo do porvir em que todos terão a sua profissão, e que nos seus tempos "livres" serão consumidores e produtores de bens culturais, gratuitos porque não dependerão, democráticos por produção e origem e de qualidade, porque quando submetidos à opinião dos leitores, estes, através de sistemas de votação como os atualmente existentes em sítios na Internet como o Chuza.org ou Digg.com, aplicariam o seu crivo a estas produções culturais, repelindo aquelas que fossem de má qualidade.
Em Portugal, em 2050, haverá 215 idosos para cada 100 jovens. Estas pessoas, não poderão ter vidas passivas e culturalmente estéreis, se quiserem manter algum tipo de qualidade de vida. Com a massificação de ferramentas de produção cultural pela Internet (redes sociais, blogs, correio eletrónico, etc.), estas pessoas, reformadas e logo com tempo livre, poderão contribuir para uma multiplicação da produção cultural no país.
Se queremos manter esta Terra – a única que temos à nossa disposição até terraformarmos Marte ou a Lua – habitável, temos que a preservar. E para o fazer não temos que ser luditas, nem de repelir toda a tecnologia. Guardemos toda a tecnologia "verde", de reduzir o impacto no meio ambiente e no clima, reduzamos ainda mais essa pegada ecológica e simultaneamente procuremos formas engenhosas e acessíveis de levar o Homem até ao Espaço, a "fronteira final" da Ficção Científica, que é afinal o destino último da humanidade, assim ela saiba compatibilizar a sua existência com o planeta que a viu nascer... Algo que só pode suceder se ultrapassarmos o dogma industrial produtor-consumidor de Bens e assumirmos o paradigma pós-industrial de consumo mínimo de materiais e de produção e consumo máximo de bens culturais.
* Membro do Conselho Editorial da NOVA ÁGUIA e da Comissão Executiva do MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO.
Já em Janeiro, a NOVA ÁGUIA regressa a Cabo Verde...
07.01.10 - 18h30: Centro Cultural Português (Cidade da Praia)
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Agostinho da Silva ou da "Liberdade plena" para tudo e todos
- Agostinho da Silva, “Nota a Cinco Fascículos” [1970], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 262-263.
Agostinho, pensador da libertação universal, foi um notável precursor, em Portugal, da causa ambiental e animal, propondo, desde inícios dos anos 50, a inversão do triste paradigma antropocêntrico, lesivo da harmonia ecológica e do bem de todos os seres sencientes, incluindo o próprio homem. Há que passar do paradigma do homem dominador da natureza, inventado pelos monoteísmos, ao paradigma do homem servidor do bem do mundo.
www.agostinhodasilva.pt
Da liberdade
"a Universidade do Porto, em que eu aprendi realmente a ser livre, livre no interesse do espírito, a não estar preso por nenhuma espécie de preconceitos, a ir para as coisas o mais possível limpo de toda a espécie de intenções e de desejos que tal coisa fosse preta ou fosse branca, de ir para ela livre, e ainda de entender a liberdade dos outros, de se eu no fim de contas achar que é preto poder aceitar que um outro ache que a coisa é branca" "Tu consegues ser cada vez mais bêsta / e a este progresso chamas Civilização!"

[...]
Tu, que te dizes Homem!
Tu, que te alfaiátas em modas
e fazes cartazes dos fatos que vestes
p'ra que se não vejam as nódoas de baixo!
Tu, qu'inventaste as Sciencias e as Philosophias,
as Politicas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectaculo...
Tu, que aperfeiçoas a arte de matar...
Tu que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho-Maritimo da India
e as duas grandes Americas,
e que levaste a chatice a estas terras,
e que trouxeste de lá mais Chatos pr'aqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
p'ra te chateares tambem por debaixo d'agua...
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres...
Tu consegues ser cada vez mais bêsta
e a este progresso chamas Civilização!
[...]
- José de Almada-Negreiros, poeta sensacionista e Narciso do Egypto, A Scena do Odio,14 de Maio de 1915.
serpenteemplumada.blogspot.com
Texto que nos chegou...
Eros Volúsia
A Lua encontrou-se com o Sol em um perfeito alinhamento. Mas antes do primeiro encontro, nada era como seria depois. Lá nos primórdios do Universo, os dois começaram a cultivar um amor, intenso e belo como o crepúsculo. Durante existências, a Lua guardou apenas para si a fagulha de um sentimento inexplicável pelo Sol, o astro dos astros e o mais belo deles em sua concepção de mero corpo celeste infimamente menor que a grande estrela amada. A admiração pelo Sol alardeou desejos e fagulhas arredondadas da Lua.
Amantes enamoraram-se sem jamais poderem se encontrar. Mas eles sabiam que o grande encontro estava por vir. A Lua só conseguia sentir os raios vibrantes do Sol. Se ela pudesse ir contra a força que a impulsionava a executar o mecânico trabalho de rotação e sair rodopiando tangencialmente, viraria o Universo de cabeça para baixo apenas para estar junto de seu amado. A vontade que o Sol tinha era de se expandir cada vez mais até que fosse possível envolver totalmente sua amada em seus raios ardentes do fogo de Eros.
Era a paixão de seres que pela lei da natureza nunca poderiam estar juntos para sempre, mas que irão coexistir antagonicamente. Mas, quando a noite for o dia e o dia for a noite, nada mais será como antes. Os dois pareciam correr juntos com o tempo, transpondo a barreira do espaço, mas apenas a Lua movimentava-se em sua órbita constante ao redor da Terra. Algum dia teriam, inevitavelmente, de se encontrar. Algum dia dentro da sensação de um tempo de volúpia... longo gozo de tão absoluta longevidade. Inquietante.
Por muito tempo, os dois combinaram o desejado encontro, fizeram conjecturas de como seria o célebre momento. Tanto combinaram que decidiram que o encontro deveria ter repercussão universal.
A expectativa estabelecia-se como o motor mais frenético entre os dois astros. Um amor que, realmente, só cabe ao Universo e que estava fora da compreensão tão insignificante, minúscula e imperfeita dos seres humanos, pois, o amor só pode ser sentido pelo mais virginal e límpido ser repleto da matéria cósmica mais primitiva.
Passado um milênio completo, no momento em que a face visível da Lua voltada para a Terra não estava sendo iluminada e um fenômeno de alinhamento estava prestes a acontecer, a Lua sorriu para seu amado, avisando que estava a caminho. Os dois puseram-se a se contemplar mais de perto e cada vez mais perto. A Lua lançou-se indiscretamente para cima de seu venerado amor chamejante.
Estavam prontos para o beijo cósmico mais fascinante do Universo. Inesquecível triscar de energia. Enquanto o calor do Sol era sentido unicamente pela Lua, a Terra teve sua temperatura diminuída. Pouco tempo depois, o espetáculo amoroso entre os dois astros se intensificaria. Os dois dirigiam-se para o início de um abraço, de um juntar de corpos perfeito.
A felicidade do Sol e da Lua foi percebida da Terra pela consumação do amor entre os dois. Uma consumação que deixou perceptível o anel de diamante que circundava a borda da Lua. O beijo cósmico chegou ao seu ápice quando a Terra foi atingida pela sombra da Lua. O céu tornou-se escuro, propício para o amor sem limites do Sol e da Lua. Puderam-se ver os planetas e as estrelas mais brilhantes celebrando a união. Finalmente, a coroa solar apareceu evidenciando o encontro total de dois únicos bacantes. Encontro memorável. O mais intenso e forte delírio lunático e o mais exaltado e entusiasmado eclipse solar.
Lúcia Helena Alves de Sá
AVATAR ou da inevitável derrota da Civilização às mãos do Sagrado natural e animal
AVATAR, um filme bastante interessante, para jovens e não só, que mostra que a civilização ocidental continua a fazer a autocrítica e o processo de si mesma, retratando-se como a inevitável perdedora, enquanto dominada pela ignorância, a vontade de poder e a ganância, em confronto com uma cultura ligada ao sagrado, à natureza e aos animais. Um filme susceptível de muitas leituras, que não se reduz aos espectaculares efeitos visuais a 3D.
A Lingua Madrasta

Dias de palha-de-aço. Pardacentos, transbordantes dum mofo difícil de descrever. Horas marteladas entre papeladas escritas a desgosto. Vidas mastigadas numa orgia de bacantes meio cegas e já perto da última derrota, enfim, não somos todos carne animada duma esperança provisória?
Os conselhos de turma servem para quê? Em princípio, para avaliar os alunos.
Mas avaliar, esse acto pedagógico sublime, difícil, não é julgar a valia antropológica das pessoas que têm a desdita de se verem encerradas na escola no período mais viçoso das suas vidas.
Num conselho de turma típico temos, se tivermos alguma sorte, um açougueiro-mor – mais frequentemente, uma açougueira – a pessoa que lecciona Português.
Português, na escola portuguesa, é a Língua Madrasta. Se fosse Materna conseguira iluminar os corações dos alunos e conduzi-los à descoberta das potencialidades ocultas da sua mente. Mas não. Aquilo que deveria ser o tesouro mais precioso à disposição da pessoa que 'dá' Português, os erros dos seus alunos, as falhas que, com uma ponderada e interessada correcção poderiam conduzi-los à descoberta duma subjectividade criativa, acabam por ser pregos de amortalhar cristos.
É claro que há excepções.E são muitas.
Lembro-me agora duma das situações mais bizarras da minha vida: enquanto director de turma tive que ler o comentário duma pessoa que 'dava' Português no cabeçalho dum teste dum aluno. Quem mo mostrava era o pai. Calmo, mas com uma imensa tristeza nos olhos. O seu filho era apelidado de imbecil pela douta criatura, em quatro linhas de azedume escritas com um despeito fora deste mundo. O aluno era portador duma deficiência profunda, o síndrome de Asperger. O seu maior problema era dar demasiado trabalho aos professores. Tinha uma disgrafia grave, devidamente comprovada por perícias médicas. E mesmo assim a senhora queixava-se que a letra do aluno era ilegível e que ela não se sentia obrigada a ler o que ele escrevia.
O pai perguntou-me o que é que a escola pretendia fazer com o seu filho. Haveria uma lista para extermínio? Eu respondi-lhe que iria perguntar ao primeiro SS que encontrasse.
Quando confrontei a professora do ensino especial com a situação a resposta que me deu é que o pai queria era que lhe passassem o filho de qualquer maneira. Vendo que tinha encontrado a pessoa que procurava, antes de lhe perguntar pela existência da lista, perguntei-lhe como é que ela via a permanência daquele aluno na escola. Respondeu-me que o aluno era imbecil e que não deveria estar numa turma normal do ensino secundário. Haveria outros percursos que lhe seriam mais adequados, mas os pais queriam por força que o filho continuasse na escola.
O pai tinha-me dito que considerava a socialização importantíssima, uma vez que o filho estava a entrar na adolescência e talvez fosse positiva a sua interacção com adolescentes. E isso era algo que não encontraria a não ser na escola secundária.
Para me inteirar da situação do aluno desloquei-me à escola onde ele concluíra o ensino básico. Falei com alguns dos seus antigos professores, mas foi a sua antiga directora de turma que me deixou de rastos. Quando lhe contei o que se passava aquela colega com mais de trinta anos de serviço desfez-se em lágrimas. O “João” fora um dos seus alunos mais queridos. Muito infantil, mas com uma bondade capaz de encher o mundo. A causa das lágrimas fora eu ter-lhe contado que o aluno se auto-agredia violentamente dentro da sala de aula, em frente dos seus colegas, e repetia “tu és burro!”, “tu és burro”, “tu és burro”... Qualquer energúmeno mais letrado consegue perceber que se trata duma reacção à frustração. Mas a Língua Madrasta não brinca em serviço. Às vezes eu brinco e digo que foi a Língua Portuguesa que foi feita para os alunos e não os alunos para a Língua Portuguesa (também digo que o Camões era zarolho, só para ver cara dos alunos incrédulos com o espectáculo dum professor a gozar com o seu principal instrumento de tortura). Mas com coisas sérias não se brinca. O respeitinho é bonito e serve para pôr na ordem quem não preenche os princípios da conformidade marrónica. Não é por acaso que alguns dos 'melhores' alunos parecem chanfrados pela mão do melhor dos torneiros.
Aquela professora que chorou convulsivamente disse-me que a sua tristeza a impedia de manifestar a sua revolta. E disse-me para ter cuidado.
O professor de Matemática mostrou-me alguns trabalhos do João e disse-me que ele por vezes podia ser brilhante. Mas tinha que se sentir aceite pelo professor. Demorou até que desabrochasse.
No conselho de turma disse à pessoa que 'dava' Português que, no meu caso, depois dos testes, pedia ao aluno para me ler o teste e eu passava-o a computador. Levava-o para casa e corrigia-o compaginando-o com o manuscrito do aluno. A senhora disse-me que não lhe pagavam para fazer esse trabalho e que achava uma estupidez o que eu fazia. Se eu tivesse o mesmo sistema de valores da senhora, atendendo a que eu ganhava metade do seu salário, menos tostão , a coisa dava pela metade, aí se poderia medir o tamanho da minha estupidez.
O resultado é que, quando as notas do aluno foram vertidas para a pauta, a minha, e logo a Filosofia, era a única positiva. Eu lavrei uma declaração para a acta na qual me penitenciava por só conseguir dar onze ao aluno, uma vez que, nunca tendo tido formação na área do ensino especial, era a primeira vez que tinha um aluno com Asperguer. E pedia a compreensão do conselho de turma para a necessidade de poder ter que dar notas superiores ao aluno nos próximos períodos e que se deveria ter a nota do primeiro período como uma aproximação e sem que isso pudesse ser visto como um juízo sobre as capacidades do aluno.
Caiu o Carmo e a Trindade. A professora do ensino especial, recém-eleita vice-presidente do conselho executivo, estava na reunião e disse, em frente de todos os professores da turma, que eu estava a prestar um péssimo serviço à educação. Foi um conselho de turma no mínimo agitado.
E dava-se o caso de eu já não estar a presidir àquela reunião, uma vez que fui director de turma por um mês e meio, a substituir um professor que ficara doente. A professora que 'dava' Português achava impossível que aquele aluno, com um 3 na pauta a Língua Madrasta pudesse ter 11 a Filosofia. Eu disse, sem brincar, que a Filosofia tinha sido feita para os alunos e não os alunos para a Filosofia e que o mesmo se passava com a escola.
À professora do ensino especial disse-lhe que não tinha categoria sequer para beijar o chão que os meus alunos pisavam. Entre ameaças de processo disciplinar, os trabalhos lá andaram até ao encerro da reunião.
Nesse dia jurei que faria tudo para destruir a escola, fazê-la implodir. Iria fazer tudo para maravilhar os meus alunos, para os levar a questionarem antes de quererem a santa paz da ruminância. A todo o momento podem acontecer coisas 'estranhas'. Num teste, por exemplo, uma das questões pode ser um desafio de monta: os alunos têm que provar que eu não sou Deus.
A coisa é deveras difícil.
Há também as aulas do contra. Quem me deu esta ideia foi um jovem colega de Filosofia. Comprei-lhe a ideia com um abraço e uma frise de limão. E a coisa funciona assim: durante a aula eu irei transmitir uma informação falsa. O aluno que conseguir descobrir a marosca ganha um prémio. Pode ser, por exemplo, o último álbum do José Cid. Uma coisa de monta.
O resultado é uma aula em que sou bombardeado por perguntas do princípio ao fim. É claro que eu nunca transmito informações erradas, mas tudo o que digo e apresento aos alunos é escrutinado sem piedade. E lá se vai a minha armadura de sumidade. Deixo de me sumir perante os alunos. A coisa torna-se mágica.
Há outra ideia daquele colega que eu também aplico por vezes: o jogo dos sonhos. E funciona assim: cada aluno escreve num papel o sonho que gostaria de ver realizado. Depois, os papéis são baralhados e redistribuídos. Se alguém lhe calhar o seu, volta a pô-lo a circular. Por vezes há que misturar os sonhos de várias turmas para coisa dar certo, ou eu fico responsável por um sonho. Quem recebe um sonho dum colega deve fazer tudo para que ele se realize.
Os sonhos poderão ser realizados de forma indirecta, se alguém sonhar em ir à Lua podem oferecer-lhe um documentário sobre a ida à Lua, ou algo de semelhante. Uma vez um rapaz que queria ter muito dinheiro recebeu um saco com 10 euros em moedas de um cêntimo. Uma coisa bem pensada.
Este ano uma aluna escreveu: “queria ter uma varinha mágica que me permitisse acabar com o sofrimento de todas as pessoas”. Eu li o papel e perguntei-lhe o que é que ela via de mal nos animais e ela pediu-mo de volta, riscou 'todas as pessoas' e escreveu 'todos os que sofrem'.
Isso deu-me a convicção de que ela não precisará de varinha mágica. Mas estou com um problema: como a turma é ímpar cabe-me a mim realizar-lhe o sonho. O meu problema é: o que fazer para não acabar com o sonho?
E pronto, hoje apeteceu-me escrever isto depois de ter participado em dois conselhos de turma. E o meu maior problema é que quase não 'dou' negativas. É estranho.
Talvez não tenha nascido para professor.
Paulo Feitais
umoutroportugal.blogspot.com
domingo, 27 de dezembro de 2009
"[...] os portugueses típicos nunca são portugueses"; "Nenhum povo se despersonaliza de modo tão magnificente"
- Fernando Pessoa, in Sensacionismo e outros ismos, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2009, pp.218-219.
Palavras a ponderar, depurativas do provincianismo identitário, ainda que não plenamente livres dele...
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Passeando a pé pela Lisboa velha...

Passeando a pé pela Lisboa velha, encontrei a antiga igreja de S. Crispim e S. Crispiniano, os primeiros santos padroeiros da cidade (a par de S. Vicente, e depois destronados pelo Santo António agora 'popular'). Havia muita gente à porta: reparei num letreiro onde consegui ler 'igreja ortodoxa romena'. Entrei: corria uma cerimónia litúrgica, que a princípio me pareceu um baptismo. Um padre de vestes douradas e longas barbas cantava uma oração, acompanhado de homens e mulheres (os homens à direita, as mulheres à esquerda). A minha xenofobia instintiva fez-me pensar que os homens tinham um ar ameaçador, cabelos curtos, casacos negros. Havia crianças com a pele dourada dos ciganos, crianças ruivas e loiras de rosto eslavo e de rosto germânico; a lingua era aquela coisa estranha que parece um russo em que de vez em quando percebemos uma palavra; as mulheres usavam lenços na cabeça, saias compridas; ao contrário das missas católicas, as pessoas falavam umas com as outras, sorriam, reconheciam-se: uma criança desenhava no chão com canetas de cores em papel de embrulho. Ícones dourados em material barato, o Cristo senhor do Mundo. Romenos no meu país, imigrantes na Mouraria de Lisboa.
Dois rapazitos, um de cabelo asa-de-corvo e outro ruivo como um irlandês das lendas celtas, cumprimentaram-se. Teriam uns seis ou sete anos. Notei, com estranheza primeiro, que falavam em português. Havia naquilo tudo uma estranha ausência: demorei a perceber que era a ausência da 'cultura' ianque. Não havia bonés de baseball nem t-shirts de publicidade nem cosmética de 'sedução' nem o ar simultaneamente esfomeado e barrigudo a que nos habituou o 'Ocidente'. Estava em Portugal e estava na Roménia e estava na Europa e estava num mundo que reconheço como meu, mesmo que não reconheça a língua e os gestos - o sinal da cruz faz-se da direita para a esquerda, como uma vez aprendi em Atenas.
Pensei em várias coisas ao sair da igreja ortodoxa dos romenos: na Mouraria e em Lisboa e no meu país do Minho e Galiza e em Portugal e no mundo. No que é uma comunidade e no que é ser emigrante. Nesta coisa estranha chamada Europa e nos homens silenciosos de negro. No vazio a que os convidamos.
Casimiro Ceivães
Publicado no MILhafre:
http://mil-hafre.blogspot.com/2009/12/segunda-nota-pessoalissima-sobre.html#comments
O novo voo da Águia sobre o projecto da nova Renascença no século XXI - o português, um estrangeiro dentro de si mesmo?
Após quase cem anos, aqui nos encontramos com a motivação de levantarmos um novo voo e de estabelecermos outros rumos para uma mudança político-ideológica. Ajudados pelo aguçado olhar de uma Águia que, atenta observa do alto, empenhando a sua luta e obstinação pela sobrevivência de um projecto que, convictamente, ainda segura nas suas garras, esforçamo-nos por afirmar o nosso trajecto; um trajecto centenário que, apesar de interrompido nas últimas décadas, devido à dificuldade de abertura e entendimento por parte de algumas facções da sociedade portuguesa, cedente aos modelos europeus, se manteve vivo no desejo de muitos portugueses que o querem fazer renascer.
Desde o ano de 1910, altura em que a Águia fez o seu primeiro voo e se iniciou um período de reestruturação e de acérrima discussão sobre os desígnios do país, que constatamos que Portugal se manteve até hoje, ano de 2009, no que concerne às suas características económicas, sociais e culturais, o mesmo! Completamente alheio a si mesmo, desencontrado, num processo de evolutiva descaracterização. Contradirão as vozes progressistas, que comandaram o país neste entremeio, que o país se modernizou, tendo aderido à Comunidade Económica Europeia, tendo fomentado políticas direccionadas para o desenvolvimento de infra-estruturas e dos sectores necessários para a dinamização económica do país e construção de um Estado moderno: de lá para cá construíram-se muitas estradas, a tecnologia tornou os meios de comunicação extremamente eficazes, o mundo globalizou-se e estamos todos em contacto uns com os outros e a escolaridade já não é mais o privilégio de uma pequena camada da população: é para todos e já obrigatória por mais anos, e, nas escolas, neste momento, até se financiam muitos computadores para que lá fora todos saibam como os portugueses são inovadores e apostam na tecnologia para a educação dos seus jovens. E já agora, como se explica o facto de, nas últimas décadas, o ensino da História não passar, senão muitíssimo superficialmente, pela História de Portugal que surge, apenas, em um pouco mais de duas páginas, num subcapítulo intitulado “o caso português,” dentro da muito explorada unidade dedicada à História da Europa? Nem aos séculos XV e XVI, marco fundamental da História Mundial, é dado um desenvolvimento devido, dentro dos limites do que seria sensato, à História de Portugal! Quais os motivos para tal mortificação de Portugal? Temerão os últimos governos que os portugueses que os elegem, ao conhecerem a sua História, tenham uma opinião mais consciente relativamente às políticas tomadas e se tornem desconfortáveis para a elite governamental? Com certeza não recearão que o conhecimento da nossa História desenvolva uma febre de nacionalismo que ponha a paz, no contexto europeu, em risco? Não se chegaria certamente a tanto, no máximo as políticas nacionais seriam mais bem discutidas e correriam o óbvio risco de serem recusadas! Por outro lado, não seria mais interessante um ensino seriamente preocupado com o cultivo de valores morais e humanos, fundamentais para a formação de relações interpessoais e dirigido para o desenvolvimento da criatividade e das competências reflexivas do que um ensino submergido em formatos tecnológicos e cada vez mais vazios/ estéreis do ponto de vista dos conteúdos? Mas fazer constar dos formulários das estatísticas, exibidos ao país e à Europa, que Portugal é indicado como um país inovador, a isso, sim, se tem dado toda a importância, uma vez que é útil, enquanto estratégia política, apresentar umas percentagens que justifiquem um lugarzinho na corrida atrás da Europa e que tentem evitar que esta não se aborreça, de uma vez por todas, connosco e nos atribua mais umas indemnizações em vez dos cobiçados fundos que nos têm sustentado e ajudado a aprender a viver sem sentido empreendedor e brio. É lamentável que o critério económico e que a maquinação de uma imagem falsa, mas pelos vistos conveniente, seja mais relevante para os nossos governantes do que o desenvolvimento de um trabalho construtivo capaz de olhar, sem vergonha, para os problemas reais da sociedade, definindo planos para os enfrentar, superar ou minimizar. Não seremos nunca uma potência económica, não nos foram dados recursos naturais para fazer uma revolução industrial e nem muita habilidade diplomática e sentido eficiente de oportunidade para acompanhar o ritmo de desenvolvimento seguido por muitos países europeus, pelos Estados Unidos ou Japão. Embora tenhamos andado, nos últimos séculos, a tentar seguir a bússola europeia, saibamos que desafiar a fórmula lógica segundo a qual uma coisa é o que é e não pode deixar de ser igual a si mesma é absoluta e formalmente impossível. Ao violar o princípio da identidade, irrefutável na sua forma, estamos a condenar-nos ao desaparecimento, à contraditória imposição de termos de caminhar no sentido contrário à nossa natureza e entendimento, convivendo com o estranho sentimento de sermos nós e ao mesmo tempo outros: estrangeiros a sentir o estertor da alma portuguesa a vibrar em nós. Quanto mais a elite política impinge a imagem do “Somos Europa,” mais arremessados seremos para o vácuo, intensificando o complexo de culpa, de identidade e, consequentemente, a crise social contra a qual, sem termos devolvida a nossa liberdade e criatividade, sem voltarmos a acreditar na natureza própria das nossas potencialidades, alvo de um processo longo de descrédito, nunca poderemos lutar. A separação entre o poder central e o interesse do povo, evidencia a mentira em que vivemos, a ilusão em que nos querem ver cair, mas que já é incapaz de esconder a inquietação e incredulidade generalizada, deixando, a nu, a real tristeza de vivermos num país doente, desumanizado, sem espírito, tornado egoísta pelas mãos de quem o lidera e se preocupa com a sua ufana imagem e não com as necessidades reais, enquanto os portugueses, fortemente carenciados a todos os níveis, culturalmente lesados e a passar fome, definham rodeados pelos maiores centros comerciais do mundo e por tecnologia avançadíssima de que é exemplo o robot ROV que mergulha a alta profundidade para procurar umas amostras geológicas no fundo do oceano para provar que, afinal, os mapas estão incorrectos e que temos mais espaço marítimo sob a jurisdição portuguesa do que pensávamos. Esperamos nós que, para além da desejada prova que procuram e do deslumbramento causado a alguns que orgulhosamente divulgam que somos dos poucos países do mundo que têm um exemplar do designado robot, seja, sobretudo, de efectiva utilidade e um estímulo para a investigação científica portuguesa, para poder, assim, pelo menos, justificar, com um argumento mais concebível, o seu preço.
Da forma como a política nacional tem sido conduzida, não podemos concluir que os ares europeus nos tenham sido benéficos, pelo contrário, parecem ter feito eclodir uma febre de imitação e colagem ao modelo Europeu que não nos serve, e já não apenas ideologicamente falando, pois é comprovado pela experiência europeia que temos desde a adesão à CCE em 1985 e que não contribuiu, contrariando os fundamentos da ideologia federalista apoiada pelos primeiros republicanos, para a dignidade e enriquecimento de Portugal, mas que feriu, pelo contrário, mais ainda o seu “eu”, asfixiado pela obrigação de ter de fazer como eles, europeus, de ter de ser como eles, de ter de ter o que eles têm. A conduta imposta caracteriza-se pela intenção de humilhar, desprezar, desvalorizar e negar a nossa natureza para que possamos ser o outro. E, como tal, o estado em que nos encontramos, a falta de confiança no governo e nos candidatos a uma nova liderança, enfim, a paralisia, instaurada no seio da sociedade portuguesa, é inevitável, detendo-nos sem esperança, observando imobilizados a decadência. E não se trata de o povo português ser incapaz, mas de ter tido, no comando do seu país, uma elite, sem qualquer sentido de Humanidade, ignorante da nossa História (como é óbvio, pois ninguém a ensina) e que despreza e sente vergonha do povo a que foi chamada para representar: elite de portugueses que, em vez de defenderem e bem representarem a sua sociedade, só demonstram desconhecer o país que dirigem, governando-o para seu proveito, pela ambição exclusiva de poder, empunhando uma política anti-Portugal que sufoca a nossa respiração e pulsar próprios.
Continuamos, pois os mesmos, debatendo-nos por cultura, educação, desenvolvimento económico, numa palavra, por políticas capazes de recuperar o respeito por nós próprios e inspirar orgulho pela nossa identidade. O movimento da Renascença Portuguesa, no qual colaboraram Álvaro Pinto, fundador da Águia em 1910, entre outras notáveis personalidades do meio intelectual português como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Fernando Pessoa, António Sérgio, Leonardo Coimbra e Agostinho da Silva, foi criado com o intuito de cooperar para a reconstrução da identidade cultural e moral do país, assumindo uma atitude de oposição à forte ideologia positivista, baseado na unilateralidade cega de um cientismo progressista, anticlerical e de pendor capitalista. Porém, se hoje testemunhamos a persistência das mesmas dificuldades, ainda que a um nível de desenvolvimento diferente, é porque, em conclusão, não tomámos os caminhos certos, é porque é emergente lançarmo-nos num novo voo, num novo projecto que nos permita renascer.
A ideologia de uma Europa unida não é exclusividade do século XX. Se quisermos, poderemos remontar tão longe como aos anos áureos do império romano, que apesar de deter fronteiras geográficas e políticas alargadas ao norte de África e à Ásia, sempre inspirou a ideia da construção de uma nova unidade política no continente europeu. Ao longo dos séculos, a Europa experienciou acontecimentos dramáticos e com graves custos humanos, em consequência da ambição aliada ao sonho do poder central europeu. Assim, surgiram os projectos imperialistas de Carlos Magno, Napoleão e há bem menos tempo Hitler. Projectos com propósitos imperialistas que ficarão sempre associados a crimes de extrema crueldade contra as populações que foram sacadas, subjugadas, torturadas e vitimadas. Embora, sendo, por razões óbvias, impossível fazer a comparação entre as realidades atrás mencionadas e o mais recente programa de formação dos Estados Unidos da Europa, o facto é que, por outro lado, também, a CEE está longe de se tornar na pacífica comunidade política dos Estados Federados da Europa, traçada por Prouhdon no seguimento do universalismo do pensamento iluminista. O Neoliberalismo, doutrina de base, sobre a qual se erigiu a ideia de uma Europa próspera, cooperante, unida sobre os fundamentos de uma economia de mercado livre, salvaguardada da intervenção ilimitada dos Estados, falha no seu principio abstracto fundamental com as nações fortes a impor regras e a dominar os países de poucos recursos, gerando, não assumidas, mas, subentendidas relações de subalternização; não há um esforço por igualdade ou respeito mútuo, mas vence a lei do mais forte, entendendo-se por “forte”, na lógica dos senhores que governam o mundo, aquele que detém mais recursos económicos. Seguindo esta linha de pensamento, e sublinhando que sem os comportamentos bélicos registados outrora, a situação gerada pela Comunidade Europeia reincide em aspectos já testemunhadas anteriormente pela História: uma ideologia que se destacou pelas suas proposições de carácter universal e democráticas, sendo por isso meritória no seu princípio, mas que pratica um exercício de poder discriminatório e desigual.
Voltando o olhar para nós, sabemos hoje que não é na Europa que nos podemos descobrir, pelo contrário, nela nos perdemos, seriamente, nos últimos séculos e o movimento da Nova Renascença estará hoje, pelo saber da experiência feito, em vantagem para argumentar contra a inserção europeia na defesa pela instituição de um Portugal livre e próprio.
A obsessão pelo pensamento puramente científico, destituído de alma, pelo pragmatismo e a falsa crença na magnificência dos países europeus, nutrida por algumas elites de portugueses, inquieta seriamente Teixeira de Pascoaes. A sua mensagem, muitas vezes, pejorativamente associada ao lirismo, foi convenientemente incompreendida, secundarizada e atingida na grandeza do seu significado. A filosofia da saudade, um ponto frágil da filosofia portuguesa, tantas vezes atacado e subestimado no âmbito das discussões sobre o pensamento filosófico português, não se identifica, em Pascoaes, como muitos possam ter interpretado, com a saudade comummente originada pela falta ou perda de alguma coisa, mas sim com a necessidade de realização ontológica, com o cumprimento do que Somos na unidade do tempo, onde se encontra a totalidade plena de cada entidade. Encontramo-nos decaídos, perdidos na imperfeição, separados da nossa essência mais pura e divina. Os conceitos da filosofia de Pascoaes constituem vivos símbolos com a função de resgatar o verdadeiro sentido histórico e alcançar o Todo. Portugal vive a incoerência de um tempo incompleto, sem continuidade, decaído na impossibilidade de realização da sua essência. Depois de no passado se ter expressado na plenitude das suas emoções e vontade, deixou-se ficar inacabado, na mais total expressão da sua imperfeição e negação do seu sentimento intrínseco para que é exortado. Porém, capaz de um exercício dialéctico que o racionalismo europeu não apreende, naturalmente, concilia e sintetiza, em si, espiritualidade e paganismo, razão e a emoção. Dando resposta ao seu impulso aventureiro, à sua emoção, mas também ao seu avançado conhecimento científico em técnicas de navegação, cartografia e astronomia, volveu os estagnados olho da Europa para a novidade, limpando os empoeirados e dogmáticos princípios do pensamento europeu baseados na concepção cognitiva das essências aristotélicas: revolucionou a ciência, mostrando que a natureza não podia mais ser aristotelicamente explicada, mas redescoberta na sua forma múltipla, desenhou novos continentes na terra e novas estrelas no céu. Falta, agora, fazer redescobrir o espírito! Colonizar a Europa de alma, transmitindo-lhe uma forma de sentir fraterna e universal. Uma vez reconquistada a sua identidade, distanciado do pobre sentimento de ambição que subverte muitas das células desse Ser português, poderá, pela atitude e sentido de doação, agir para a globalização espiritual dos povos. A nossa tradição política, baseada, até ao século XIV numa monarquia de liberdade popular onde as Cortes, representando o povo, tinham um enorme poder de decisão diante do rei, foi ofendida a partir dos séculos das Descobertas com o início de uma política imperial, direccionada para o lucro e pilhagem, e com a ruptura das relações de proximidade e respeito entre o Rei e o seu povo. O povo português não mais recuperou a sua originária liberdade; degredado da sua vida, valores, liberdade e identidade, cultivando sempre no silêncio do seu íntimo, a sua verdade anímica, espera até hoje por aquele Encoberto que lhe possa devolver a pátria e a vida. E àqueles que emigraram para o Brasil, não na lógica imperial de enriquecimento fácil, mas para lá construir o Portugal perdido, devemos a generosidade, criatividade e espiritualidade que reconhecemos no povo brasileiro e que nos acalenta a alma e traz à memória, não fosse a nossa incompletude presente, a saudade daquilo que Somos. Por ambição, por falta de sentimento e consciência histórica, e por inversão de valores, trilhámos, há séculos, por encruzilhadas que nos destituíram da nossa verdadeira essência. Porém, ela vive, não obstante a falta de espaço para se expressar, no recôndito íntimo da alma popular dos portugueses e dos seus filhos espalhados pelo mundo.
A espiritualidade, a natural capacidade de conciliar arquétipos, conduziu Teixeira de Pascoaes ao elogio da genialidade da raça, o que podemos traduzir pela capacidade irrestrita que o português tem para percepcionar o Todo e se fundir com a Verdade, com o desígnio divino que lhe dá a potencialidade de desempenhar no mundo o papel de espiritualização dos povos. Quando na plenitude da sua identidade, cumprirá a sua Unidade, completar-se-á e realizar-se-á, no mais profundo do seu Ser, contribuindo para construção de relações fraternas pelo mundo.
O passado foi consumado, empenhemo-nos, agora, por reaportuguesar Portugal, fazendo-o renascer e revelar-se, do presente à eternidade, na sua singular forma de expressão, a partir de uma sabedoria sentida, que é só sua, e que perde o equilíbrio em espaços estranhos/estrangeiros.
Cristina Leonor Pereira
Esfera Armilar - Da identidade histórico-cultural como limite a superar
A história e a cultura constituem poderosos sistemas de condicionamentos e automatismos mentais, emocionais e práxicos que convidam, por via gregária e irreflectida, a um regime de consciência parcial, incapaz de compreender e aceitar a realidade humana, cósmica e divina na sua totalidade plural e complexa. A fixação de uma dada identidade histórico-cultural é, por isso mesmo, um notável contributo para o estreitamento da consciência e para o sofrimento e conflitos daí resultantes. Por isso mesmo, a cultura mais poderosa é aquela que a si mesma se não vir como um fim em si e antes como um meio para se libertar de si mesma. É esse o projecto da "cultura portuguesa", assumida por Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva como trampolim para a universalidade, mediação para além de todas as mediações, sejam elas lusitanas ou lusófonas. O melhor de Portugal e da lusofonia é o que neles se esquece de se rever e assinar no espelho do mundo. O pior de Portugal e da lusofonia é o que no mesmo acto deixa a mácula da assinatura. Medíocre é o que se afirma. Grande o que se esquece. Supremo o que nunca se nomeou.
umoutroportugal.blogspot.com
Texto que nos chegou...
O sentido da Águia: o seu arquétipo e o seu papel para a construção social
Sam Cyrous
Poucos são os idiomas que conseguem ter, na sua essência, almas dotadas de uma atitude poética tão marcada como a língua portuguesa, aquela pátria de Fernando Pessoa. Se o persa tem um Sháh Náme de Ferdowsí, e o grego um Odýsseia de Homero, o idioma inglês tem em Shakespeare um expoente. Mas a língua portuguesa, por sua vez, sofre influências, em igual peso, de poetas como Antero de Quental e Euclides da Cunha, de escritores tais como Eça de Queiroz, Jorge Amado e José Saramago, de cronistas como António Vieira, de compositores como Tom Jobim, e de inclassificáveis como Fernando Pessoa.
E o que une tais nomes além do idioma de primazia de seus textos, senão uma visão articulada de presente, passado e futuro — a quarta dimensão da física clássica que permite unir conhecimento e vontade em acção?
Carl Gustav Jung poderia dizer que cada cultura — o que inclui a cultura da língua portuguesa — é guiada por arquétipos que nos permitem encontrar uma coerência interna e externa. De carácter universal e comum entre povos, essas imagens totémicas — como as poderiam chamar os antigos — transcendem o simples aqui-e-agora da existência fáctica, ao mesmo tempo que permitem que se empreenda “a busca do centro de si mesmos, que deveria coincidir com o centro do mundo, aonde se gera a vida” (Isabel Allende, 2005, El Zorro, p. 42).
Assim sendo, como na bibliografia de Philip Pullman, existem animais internos que nos acompanham e que nos representam. Seríamos lobos se fossemos professores e guias, corvos se soubéssemos encontrar e aproveitar as oportunidades, cães se fossemos incondicionalmente fiéis, raposas astutas, leões destemidos, corujas sábias, cavalos irrestritos como o vento, pombas de paz e compaixão, conforme o(s) caso(s).
E repare que o nome da revista fundada há um século não é nenhum desses supracitados, mas Águia! É o animal que simboliza força e determinação, que possui uma visão de longo alcance, única capaz de olhar directamente para o Sol sem sofrer dano.
Se olharmos na história da humanidade quantas culturas, religiosas e nacionais, instituições seculares e tradições espiritualistas não a possuem como símbolo! Era a curadora espiritual dos xamãs ameríndios, a mensageira ou representante dos deuses Hórus, Ódin e Zeus, a protectora da Albânia, a águia líder e a restauradora da ordem e justiça do curdo Saladín, a Aquila Romana sob a qual era colocada a cabeça do imperador, a guia para um futuro promissor para os astecas mexicanos.
Afinal, trata-se de um pássaro nobre, com elevado senso de dignidade e honra, que“não caça animal já morto”, como outras aves de rapina (Bahá’u’lláh, Os Sete Vales), fazendo-se a única capaz de conectar a intuição mental a verdades espirituais, permitindo a harmonia e o equilíbrio, pela sua atenção ao meio, pela sua força física, curadora e “epifânica”, ágil na acção.
É talvez por isso que Leonardo Boff (1997, A Águia e a Galinha, p. 29) diz que cada um “tem dentro de si uma águia. Ela quer nascer. Sente o chamado das alturas. Busca o sol”.
Contudo, a verdade é que força física pode ser confundida com força bruta, determinação com tirania, persistência com teimosia, capacidade de resolver problemas com astúcia, magnificência com senso de domínio e posse e, por isso, a águia é criticada por ‘Attar na Conferência dos Pássaros (conforme tradução para o inglês de Raficq Abulla, 2003, p. 20):
“Não tens senso com o teu orgulho de soldado.
“Crês que cear com reis, e fazer-lhes a vontade
“É suficiente para ter-te sob seu favor, sempre ao teu lado?”
Então, a águia, como todas as unidades da existência, possuem virtudes e defeitos que podem (e devem!) ser explorados. Como já preveniram Beck e colegas (1997, Teoria Cognitiva da Depressão), as experiências não podem ser colocadas entre duas categorias opostas, porque as dicotomias dão a clara ideia de que a pessoa é “ou…ou”. Ou boa ou má, ou inteligente ou torpe, ou bela ou feia. Mas, como avaliar tais competências? Já dizia Platão (v. Górgias) que o belo é sinónimo de agradável. Mas o que faz uma realidade agradável, senão a multiplicidade de caminhos que ela poderá desvelar a cada instante?
O que faz uma águia ser agradável, senão a sua capacidade de voar ao infinito e além dele, como líder honrada das aves de rapina?
É por isso que a águia se faz um símbolo presente em tantas culturas. Porque ela representa essa capacidade humana de contínua transcendência. Mas, isso só será possível quando ela for capacitada a voar, com ambas asas bem desenvolvidas. Como pode uma ave voar se uma asa for mais fraca que a outra, se um lado do seu corpo possuir deficiências e estiver em desvantagem em relação a outra?
Então, para lançar o seu voo, precisamos rever o modelo de Águia e criar uma Nova Águia, na qual as duas asas estão equiparadas e igualmente desenvolvidas. A Humanidade não pode lançar-se ao futuro, se apenas a asa do saudosismo estiver desenvolvida e a asa da projecção temporal ignorada, mas também não se consegue transcender se a asa do Passado estiver atrofiada e a única asa potente for o Futuro.
E isso implica mudanças estruturais na forma de pensar da águia social humana. A verdadeira Nova Águia está para além das dicotomias que separam a asa direita da asa esquerda, percebendo que apenas através de uma verdadeira consulta, livre e independente de preconceitos e desejos egoístas, ela poderá levantar-se do lodaçal de uma corrupção endémica global que lhe impede o próprio voo.
Se ignorarmos a asa da pobreza e considerarmos apenas importante a outra asa que excede em peso financeiro, sem eliminar extremos, a águia não se equilibra em seu voo. Quem fala em pobreza e riqueza fala em países do Sul e do Norte, do Ocidente e do Oriente, com ou sem assento permanente em determinadas agências internacionais. Fala-se numa Nova Águia incapaz de poder continuar o seu voo se a asa que representa a metade feminina da humanidade não estiver tão desenvolvida em sectores como a política e o trabalho, como a asa que representa a sua metade masculina.
E estes desafios apenas alcançados sob duas condições. Se as asas da educação afectiva e da instrução académica forem igualmente trabalhadas, podem-se ter medidas educativas que previnam o abandono escolar e o desenvolvimento sócio-afectivo de uma nova geração capaz de intervir para erguer uma civilização cada vez mais avançada. E, da mesma forma, só se o desenvolvimento espiritual, noético, moral e ético ensinados pelas grandes Religiões mundiais e filosofias humanistas forem tidas em igual consideração em relação ao desenvolvimento intelectual, ambiental, e científico, é que poderemos falar em crescimento sustentável.
Apenas assim a Nova Águia poderá lançar o seu voo à plenitude existencial.
sábado, 26 de dezembro de 2009
"Os povos deixaram de ser povos"
“foi a diferença entre Portugal e a Europa, que só se fez sentir a partir dessa época, que causou o 25 de Abril - não a guerra, ou qualquer outra explicação 'política'. Não era possível ouvir Bob Dylan e ver na televisão o Doutor Salazar, ouvir os Rolling Stones e ver na televisão o Professor Marcello (primeiro do nome)” Para ler no MILafre:
Da Arte como libertação dos gregarismos patrióticos e religiosos
- Fernando Pessoa, "Os Fundamentos do Sensacionismo", in Sensacionismo e outros ismos, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2009, p.185.
serpenteemplumada.blogspot.com
A SITUAÇÃO CULTURAL DE HOJE: VAI UMA APOSTA?
1. Todo o povo só tem futuro na medida em que promove a sua auto-consciência colectiva. Essa auto-consciência é sobretudo de cariz histórico e cultural. Daí a importância da Cultura. A nível político, por exemplo, ela deveria ser a pasta mais importante. O que, como é sabido, está muito longe de acontecer. E não falo no plano orçamental – o que é importante, mas está longe de ser decisivo –, antes simbólico.
2. Se há países que são sobretudo um “bom negócio”, dado que proporcionam boas condições de vida aos seus concidadãos – e por isso se vêm a si próprios como empresas – um país como Portugal, que não nasceu em cima de um poço de petróleo, só terá futuro na medida em que recordar, todos os dias, o seu fundamento histórico-cultural. Sem que isso deixe de implicar, obviamente, na medida do possível, proporcionar as melhores condições de vida aos seus concidadãos. De resto, num país como Portugal a coesão social só pode derivar, em última instância, daí: do reconhecimento de uma destinação histórico-cultural comum. Na medida em que nos reconhecemos com comparticipantes de uma mesma destinação – ou seja, na medida em que nos reconhecemos como compatriotas – somos mais naturalmente justos e solidários uns com os outros.
3. Em Portugal, contudo, cada vez mais, os nossos políticos primam por não terem qualquer visão histórico-cultural do país. Sequer um vislumbre. E por isso olham para o país como uma mera empresa. Apesar de alguma retórica, que apenas serve que temperar os discursos mais pomposos, chegará o dia em que alguém dirá: enquanto mera empresa, Portugal faliu. E renascerá então a panaceia iberista: numa lógica puramente economicista, não há dúvida que estaríamos bem melhor se fossemos espanhóis.
4. A razão maior do impasse em que estamos deriva do facto de, para a generalidade da nossa classe política dominante – da dita esquerda à dita direita –, qualquer discurso sobre a nossa destinação histórico-cultural comum soar a “salazarismo”. Nada mais falso e equívoco. Se durante o Estado Novo houve gente que promoveu essa visão histórico-cultural do país, mobilizando as pessoas da cultura para o efeito – caso, por exemplo, do António Ferro –, o Estado Novo faliu porque, também ele, foi deixando de acreditar nessa visão, tendo-se cada vez mais afundado num beco sem saída, que apenas foi sustentando através da repressão.
5. Escreveu Fernando Pessoa que para a realização desse nosso destino “as colónias já não seriam precisas”. O Estado Novo acreditou até ao fim no contrário – e essa foi a sua perdição. O novo Estado saído da Revolução deixou de acreditar em destinações – em nome da liberdade, assegurou, solene. E por isso deixa que a política de cultura seja determinada pelo Deus-Mercado – no tempo do mais reles relativismo, que mais vende, vence.
6. Quem melhor percebeu o Pessoa foi Agostinho da Silva. E por isso prefigurou, já há mais de meio século, a constituição de uma “comunidade lusófona”, pós-colonial, numa base de liberdade e fraternidade. Eis a nossa destinação. Que tal ainda não esteja na moda, que tal ainda não venda, pouco importa. A História tem o seu tempo próprio. E o seu tempo chegará. Bem mais depressa do que se julga. Vai uma aposta?
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
De Renato Epifânio: "Via Aberta: de Marinho a Pessoa, da Finisterra ao Oriente"
Para encomendar: info@movimentolusofono.org
Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/filosofia-nova-aguia
Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/






