EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

"a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português. Em tempos de globalização, esta qualidade – a de evidenciar o pensamento nacional – deve ser exaltada"

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra - Razão e Espiritualidade: nos 100 anos de "O Criacionismo (Esboço de um Sistema Filosófico)".

Para o 10º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.


Morada: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais,

Apartado 21, 2711-953 Sintra, Portugal.

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

EDITORIAL

Sendo a NOVA ÁGUIA uma Revista que, de forma assumida e descomplexada, dá o devido destaque aos autores maiores da nossa tradição filosófica e cultural, inevitavelmente teríamos que dedicar um número a Álvaro Ribeiro – depois de já o termos feito a António Vieira, Agostinho da Silva, Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa. A ocasião chegou, agora que se assinalam os trinta anos da sua morte. Que outra Revista o poderia fazer?
Em muitos casos mais referida do que propriamente lida, a obra de Álvaro Ribeiro tornou-se numa espécie de bandeira do que em geral se designa por “Filosofia Portuguesa” – quer para os que a defendem, quer, contrapolarmente, para aqueles que contestam, ainda hoje, a sua existência. Desde logo por isso, o próprio Álvaro Ribeiro acabou por se tornar no autor mais emblemático da dita “Filosofia Portuguesa”.
Por essa mesma razão, a sua figura ainda hoje desperta reacções assaz apaixonadas, num e noutro sentido, o que, se por um lado, lhe tem preservado, trinta anos após a sua morte, uma apreciável notoriedade, por outro, tem impedido, pelo menos nalguns casos, por evidente preconceito, um estudo mais aprofundado da sua obra. Neste número, procurámos colmatar essa falha, convocando os maiores especialistas na obra de Álvaro Ribeiro, dando, ao mesmo tempo, voz àqueles que ainda hoje contestam a existência de “filosofias nacionais”.
Isto apesar de, com este número, não termos querido ressuscitar qualquer polémica em torno da existência de “filosofias nacionais” – polémica que, a nosso ver, está por inteiro ultrapassada, pelo menos nos termos em que emergiu, após a publicação, em 1943, da obra O Problema da Filosofia Portuguesa. Álvaro Ribeiro continua a ser para nós um autor actual pela simples mas suficiente razão de que todo o pensamento filosófico é sempre já – e nunca deixa de o ser, por mais inconsciente que esteja disso – um pensamento radicado, situado: numa Língua, numa História, numa Cultura…
*
Uma vez mais, a NOVA ÁGUIA prova, pois, a sua abertura. Fundando-se numa determinada Visão de Portugal e do Mundo, devidamente expressa no nosso Manifesto, publicado no primeiro número da Revista, a NOVA ÁGUIA nunca foi nem nunca será um “órgão de propaganda”, mas, ao invés, um “órgão plural”, que, dando destaque a algumas figuras – àquelas que, como é óbvio, a nosso ver o merecem –, o faz, porém, de forma crítica, convocando não apenas os hermeneutas que, à partida, lhes são mais próximos, como, igualmente, alguns dos que lhes são mais distantes.
Como sempre, também este número da NOVA ÁGUIA não se debruça apenas sobre um autor. Assim, para além de Álvaro Ribeiro, neste número evocamos ainda José Marinho – autor que, a par de Álvaro Ribeiro, mais chamou a atenção, entre nós, para a importância que a Filosofia deve reconhecer à Língua, à História e à Cultura (daí o seu conceito de “filosofia situada”) –, Álvaro Cunqueiro – no centenário do seu nascimento –, Joaquim Nabuco – no centenário da sua morte – e Domingos Gonçalves de Magalhães – no bicentenário do seu nascimento. Para além disso, temos ainda textos sobre Fernando Pessoa, bem como sobre os 15 anos da CPLP, data que assinalámos no sétimo número da NOVA ÁGUIA.
Como tem acontecido desde o primeiro número, a Revista termina com a referência aos locais onde tem sido apresentada – numa série, iniciada a 19 de Maio de 2008 na Fundação José Rodrigues, que excede já as duas centenas e meia de sessões, em todo o espaço lusófono –, bem como à Colecção de Livros “Nova Águia”, que já vai em mais de duas dezenas e meia de títulos. Na contra-capa, como igualmente tem sido regra, antecipamos o tema do próximo número: “Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?”. Prova, bem cabal, do nosso optimismo: não só acreditamos que Portugal ainda hoje existe, como existirá daqui a 100 anos…

ÍNDICE

Editorial…5
NOS 30 ANOS DA MORTE DE ÁLVARO RIBEIRO
Álvaro Ribeiro, CARTA A ANTÓNIO QUADROS…8
Azinhal Abelho, Orlando Vitorino, António Quadros, António Cândido Franco, Pinharanda Gomes, Miguel Real, António Braz Teixeira, António Telmo, André Veríssimo e José Augusto Seabra, ÁLVARO RIBEIRO EM 10 INSTANTÂNEOS…9
António Cândido Franco, ÁLVARO RIBEIRO NUM RELANCE DE LUZ…13
António Carlos Carvalho, EXILADO DO MUNDO…14
Artur Manso, O QUE É A ESCOLA FORMAL…15
Carlos Aurélio, UMA FILOSOFIA DO MODO…25
Cynthia Taveira, A ACTIVIDADE DE DEUS…32
Elísio Gala, ÁLVARO RIBEIRO E A FILOSOFIA POLÍTICA…35
Filipe Delfim Santos, UM COLÓQUIO AGORA MAIS ÚTIL & CARTA INÉDITA DE ÁLVARO RIBEIRO À VIÚVA DE DELFIM SANTOS…39
Joaquim Domingues, ERUDIÇÃO FILOSÓFICA…45
José da Costa Macedo, FILOSOFIA E SITUAÇÃO…49
Manuel Ferreira Patrício, A LÍNGUA PORTUGUESA E O DESTINO DE PORTUGAL…58
Maria Leonor L.O. Xavier, A QUESTÃO DA UNIVERSALIDADE DA FILOSOFIA…60
Maria Luísa de Castro Soares, CONCEITO E CONTROVÉRSIA DA FILOSOFIA PORTUGUESA: O APOSTOLADO DE ÁLVARO RIBEIRO…66
Paulo Jorge Brito e Abreu, FILOSOFIA PORTUGUESA EM ÁLVARO RIBEIRO…71
Pedro Martins, PÁTRIA, HISTÓRIA E EPOPEIA: ÁLVARO RIBEIRO, JAIME CORTESÃO E A RENASCENÇA PORTUGUESA…75
Pedro Sinde, ÁLVARO RIBEIRO, FILOSOFIA OPERATIVA E ORAÇÃO MENTAL…88
Rodrigo Sobral Cunha, A RAZÃO RÍTMICA (NO PENSAMENTO DE ÁLVARO RIBEIRO)…97
Pinharanda Gomes, ÁLVARO RIBEIRO (1905-1981): A FILOSOFIA COMO ARTE & ADITAMENTO BIBLIOGRÁFICO…105
SOBRE JOSÉ MARINHO: NOS 50 ANOS DA TEORIA DO SER E DA VERDADE
Renato Epifânio, JOSÉ MARINHO, UM FILÓSOFO METAFÍSICO E, POR ISSO, SITUADO…116
Pinharanda Gomes, A TERTÚLIA DE ÁLVARO RIBEIRO E DE JOSÉ MARINHO…117
Manuela Brito Martins, A FILOSOFIA DA HISTÓRIA EM OLIVEIRA MARTINS A PARTIR DE UMA LEITURA DE JOSÉ MARINHO…126
SOBRE ÁLVARO CUNQUEIRO, JOAQUIM NABUCO E DOMINGOS GONÇALVES DE MAGALHÃES
Maria Seoane Dovigo, ÁLVARO CUNQUEIRO, CEM ANOS DEPOIS…132
João Bigotte Chorão, JOAQUIM NABUCO: UM BRASILEIRO EUROPEU…134
António Braz Teixeira, NOS DUZENTOS ANOS DE DOMINGOS GONÇALVES DE MAGALHÃES…140
AINDA SOBRE FERNANDO PESSOA
Giancarlo de Aguiar, TRANSPERSONAS NA ESFINGE DE FERNANDO PESSOA…144
Ruben David Azevedo, PESSOA: UMA SINGULAR PLURALIDADE…151
Samuel Dimas, FERNANDO PESSOA E A ESTÉTICA DA RENASCENÇA PORTUGUESA: D’A ÁGUIA À ORPHEU…152
António Cândido Franco, FERNANDO PESSOA SOB O SIGNO DA PÁTRIA DA LÍNGUA…155
Maria Clara Tavares, PASCOAES E PESSOA…159
Luís Tavares, PESSOA: A ESCRITA E A TERRA DE NINGUÉM…161
Kazufumi Watanabe, PESSOA NO JAPÃO…163
AINDA NOS 15 ANOS DA CPLP: TRAJECTOS LUSÓFONOS
Adriano Moreira, AS CULTURAS DOS POVOS DO MEDITERRÂNEO…166
António José Borges, RUMAR PORTUGAL, CONSIDERAR A EUROPA, PENSAR A LUSOFONIA…169
Delmar Maia Gonçalves, DEAMBULAÇÕES LITERÁRIAS…178
Dirk Hennrich, PORTUGAL, A EUROPA E AS MARGENS DA FILOSOFIA (COM CARTA DE JOAQUIM DOMINGUES)…181
João Pereira de Matos, 17 GEDANKENEXPERIMENTE…187
Joaquim Miguel Patrício, PRESENTE E FUTURO DA LÍNGUA PORTUGUESA NUM QUADRO ESTRATÉGICO GLOBAL…189
Lúcia Helena Alves de Sá, A FILOGONIA DO PENSAMENTO DA CULTURA DE LÍNGUA PORTUGUESA…199
Miguel Real, O FUTURO DA LUSOFONIA…200
Nelson Goulart, LÍNGUA MÃE LÍNGUA FILHA…203
Nuno Sotto Mayor Ferrão, A DINÂMICA HISTÓRICA DO CONCEITO DE LUSOFONIA (1653-2011)…204
Rui Martins, VIAGEM À GUINÉ-BISSAU…209
Sam Cyrous, DO CORAÇÃO DA COOPERAÇÃO À AVALIAÇÃO DA AÇÃO: CPLP ONTEM, HOJE E AMANHÃ…219
Simion Doru Cristea, A ENERGUEIA DAS LÍNGUAS AFRICANAS…221
Ximenes Belo, DISCURSO DA ACADEMIA…226
RUBRICAS
ENTRECAMPOS, de J. Pinharanda Gomes…230
AS IDEIAS PORTUGUESAS DE GEORGE TILL, de Jorge Telles de Menezes…233
DO ESPÍRITO DOS LUGARES, de Manuel J. Gandra…234
LITERATURA ORAL E TRADICIONAL, de Ana Paula Guimarães…239
BIBLIÁGUIO
DIÁLOGOS DE AMOR, DE LEÃO HEBREU, por Celeste Natário…244
MEMORIAL DO CONVENTO, DE JOSÉ SARAMAGO, por Gabriela Lança…245
LEVANTE, 1487 – A VÃ GLÓRIA DE JOÃO ÁLVARES, DE JOSÉ MARIA PIMENTEL…248
ÚLTIMAS OBRAS DA COLECÇÃO NOVA ÁGUIA, por Renato Epifânio…249
EXTRAVOO
António José de Brito, APONTAMENTO QUÁSI SUPERFICIAL SOBRE ÉTICA…252
António Monteiro, ARISTIPO DE CIRENE: UM FILÓSOFO NAS MARGENS DA HISTÓRIA…254
POEMÁGUIO
Eduardo Aroso, ÁLVARO RIBEIRO; UM VELHO PROFETA…7
António José Queiroz, VIAGEM…131
Teresa Dugos, CÁLICE; DA TERRA; MAUSOLÉU…142
Manuel Neto dos Santos, DA PANACEIA…165
Maurícia Teles da Silva, SETE PREMISSAS PARA A LIBERDADE…242
António José Borges, RESILIÊNCIA…242
Maria Luísa Francisco, FOSSE O DIA JÁ NOITE…243
Fernando Esteves Pinto, IDENTIDADE E CONFLITO…250
MAPIÁGUIO…259
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…260
ASSINATURAS…261

NOVA ÁGUIA 8: LANÇAMENTOS

10.10.11 - 18h30: Livraria FNAC Chiado (Lisboa)
12.10.11 - 18h30: Faculdade de Letras da Universidade do Porto
15.10.11 - 16h00: Sociedade da Língua Portuguesa (Lisboa)
15.10.11 - 18h00: Casa Bocage (Setúbal)
21.10.11 - 18h00: Centro Cultural Luso Moçambicano
29.10.11 - 15h00: Biblioteca Municipal de Sesimbra
04.11.11 - 21h30: Espaço Poesis (Porto)
05.11.11 - 17h00: Biblioteca Albano Sardoeira (Amarante)
12.11.11 - 19h00: Auditório da Escola Básica Integrada de Montargil
23.11.11 - 18h30: Livraria FNAC Vasco da Gama (Lisboa)
03.11.11 - 15h00: Casa do Fauno (Sintra)
06.12.11 - 16h00: Palácio da Independência (Lisboa)
09.12.11 - 17h00: Faculdade de Filosofia (Braga)
15.12.11 - 21h30: Art Gallery / Café dos Artistas (Lisboa)
15.01.12 - 16h00: Castelo de Leiria (Sede da ACRENARMO)
27.01.12 - 21h30: Biblioteca Municipal da Lagoa


Em breve, anunciaremos o primeiro lançamento da NOVA ÁGUIA 9

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Almada, Amadora, Amarante, Arraiolos, Aveiro, Bairro Português de Malaca, Barcelos, Batalha, Belo Horizonte, Bissau, Braga, Bragança, Brasília, Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Carnide, Campinas, Cascais, Castro Marim, Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Fortaleza, João Pessoa, Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loures, Luanda, Mem Martins, Messines, Mindelo, Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque, Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense, Ovar, Pangim (Goa), Pisa, Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife, Redondo, Régua, Rio de Janeiro, Sacavém, Santiago de Compostela, São João da Madeira, São João d’El Rei, São Paulo, Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Viana do Castelo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

Lançamentos já noticiados em:

RTP

Diário de Notícias

Diário Digital

Expresso

Jornal de Notícias

Jornal Porto Net

Notícias Lusófonas

Público


E em muitas dezenas de blogues...

FAÇA PARTE DESTE PROJECTO. ASSINE A NOVA ÁGUIA: http://www.zefiro.pt/novaaguia.

À venda nas melhores livrarias do país.
E ainda no Brasil: Espaço Cultural É-Realizações, Rua França Pinto, 498 - Vila Mariana - São Paulo; Livraria Hildebrando (Universidade de Brasília); Via Livros (contacto - Alexandre Santos: alexandresantos@br.inter.net).
E ainda na Galiza: Livraria Couceiro (Praça de Cervantes, 6, Santiago de Compostela/ Enrique Dequit, 12, Corunha; Livraria Torga (Ourense, Rua da Paz, 12); Livraria Andel (Vigo, Rua Pintor Lugrís, 10). E ainda em Cabo Verde: Livraria Semente (Mindelo).

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Domingo, 31 de Janeiro de 2010

Da República: cem anos depois.



1. República significa, “tão-só”, coisa pública: res publica. É por isso, “tão-só”, que, passados cem anos sobre a alegada implantação da República, tenhamos que concluir que ainda não vivemos num regime realmente republicano.

2. Para que vivêssemos em República, ela teria que existir: enquanto res publica, enquanto “coisa pública”, enquanto “coisa comum”. Ora, isso é coisa que, de facto, não existe. A nossa sociedade está demasiado fracturada para se poder dizer que algo verdadeiramente a une, para podermos dizer que ela é uma Comunidade.

3. E o que une uma Comunidade enquanto tal? Desde logo, uma História, uma Cultura, uma Língua. Ora, se é certo que, mal ou bem, ainda que cada vez mais mal do que bem, todos nós falamos a mesma Língua, cada vez menos partilhamos a Cultura que subjaz a essa Língua, nem, muito menos, a História na qual ela, ao longo dos séculos, se foi constituindo.

4. Para que viéssemos a ser uma República, importaria pois, desde logo, reassumir isso – em última instância, essa Pátria comum. Por isso, de resto, gostava de dizer Sampaio Bruno, um dos nossos mais insignes (e, por isso, mais incompreendidos) republicanos, que “a Pátria é um princípio de solidariedade colectiva” e que “se a República se implantasse em Portugal (…), Portugal, porque reaparecesse um vínculo colectivo, voltaria a ser uma Pátria”. Como igualmente gostava de dizer Teófilo Braga, é “o sentimento de Pátria o elo da nossa coesão nacional”.

5. Nada, contudo, disso verdadeiramente existe. E por isso não há também coesão nacional, ou o que hoje em geral se designa por solidariedade social. Porque se perdeu esse sentimento da Pátria – mais imediatamente, da República, da “coisa pública”, da “coisa comum” – cada um, por regra, trata apenas da sua vida, roubando da “coisa pública” o mais que puder. Como em toda a regra, há sempre excepções. Felizmente, ainda muitas.

6. Face a tudo isto, torna-se ridículo discutir a questão da República enquanto antítese ou contraponto da Monarquia. Os nossos maiores Reis sempre foram os primeiros defensores da “coisa comum”, da “coisa pública”, ou seja, sempre foram os maiores defensores da República. De resto, na medida em que se assume, de facto, a República enquanto esse “vínculo colectivo”, o Poder será necessariamente mono-árquico. O Poder e o Regime.

7. Só, pois, tornando-se primeiro republicano o nosso regime poderá vir a tornar-se de novo monárquico. Coisa que, de resto, já não era, há muito, há cem anos atrás…


Publicado no MILhafre:

FERNANDO NAMORA


DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO

A 31 de Janeiro de 1989, faleceu o escritor e médico, Fernando Namora, nascido em Condeixa-a-Nova, a 15 de Abril de 1919.
Após licenciar-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, começou a exercer, primeiro na sua terra natal, e depois na Beira Baixa e no Alentejo. Testemunho desta actividade é o seu livro em dois volumes, Retalhos da Vida de um Médico, 1949-1963.
Estreou-se no universo literário com o livro de poemas Relevos 1938.
Três anos mais tarde, com o seu terceiro livro de poesia – Terra 1941 – deu início à colecção «Novo Cancioneiro», órgão do movimento literário neo-realista.
No campo da prosa, nomeadamente no romance, com o título As Sete Partidas do Mundo 1938, ganhou o Prémio Almeida Garrett.
A sua produção literária é vasta e variada. Assim, além da poesia e do romance, publicou contos, novelas, memórias, narrativas de viagem e biografias romanceadas.
Fernando Namora é dos escritores portugueses contemporâneos mais divulgados em todo o mundo, sendo as seguintes, as suas obras principais:
Casa da Malta 1945; Minas de S. Francisco 1946; Domingo à Tarde 1961; Rio Triste 1982.

***
DIÁRIO DO ESCRITOR

“Coimbra, 31 de Janeiro de 1966 – Os limites da angústia não coincidem obrigatoriamente com os limites da liberdade. Mas há terras onde nada impede que essa harmonia se realize, e deve ser bom ter o sentimento de que assim é. Pelo que me diz respeito, parece que morro sem conhecer o gosto de uma tal experiência humana. Aqui, a liberdade tem os limites do nosso corpo, e a angústia os da nossa alma.”

MIGUEL TORGA, Diário X, Coimbra, 1995, p. 979.

MIL PERPLEXIDADES



Para ler no MILhafre:

http://mil-hafre.blogspot.com/search/label/MIL-Perplexidades

Vem aí uma geração de rapazes frustrados



Em quase todos os países ocidentais, os rapazes abandonam cada vez mais o ensino no final da escolaridade obrigatória. Têm capacidades para ir mais longe, mas as escolas poderão estar a avaliá-los mal, privilegiando as raparigas. Podemos estar a criar (ou já criámos?) uma geração de excluídos e uma nova classe baixa - a dos homens. Por Clara Viana


Um calafrio: investigadores portugueses, ingleses e norte-americanos, entre outros, têm vindo a constatar que as mudanças introduzidas nas últimas duas décadas no sistema de ensino e de avaliação dos alunos estão a contribuir activamente para afastar da escola um número cada vez maior de rapazes.

Produziu-se uma inversão. O fenómeno, que é comum à maioria dos países ocidentais, Portugal incluído, está a alargar o fosso entre rapazes e raparigas no sistema educativo. As raparigas têm hoje melhores notas e vão mais longe; os rapazes desistem, muitos deles logo no fim da escolaridade obrigatória. Nos 27 países da União Europeia, só a Alemanha mantém, no ensino superior, valores equilibrados de participação dos dois sexos.

Para o director do instituto britânico de políticas para o ensino superior (HEPI, na sigla em inglês), Bahram Bekhradnia, estamos já numa corrida contra-relógio. "Penso que corremos o perigo de estar a criar uma nova classe baixa", constituída só por rapazes, diz, depois de um estudo recente daquele organismo ter confirmado a dimensão crescente do fosso entre raparigas e rapazes, e lançado algumas pistas inquietantes sobre os motivos que explicam o fenómeno.

O problema não são os bons resultados alcançados pelas raparigas, mas as fracas classificações obtidas pelos rapazes e aquilo que isso implica: a responsabilidade da escola nesta situação, o que isto está a provocar neles e nelas, e as consequências sociais do insucesso escolar masculino. "Vamos ter uma geração de rapazes frustrados e excluídos dos sistemas escolares e profissionais por incapacidade de rivalizar com o género oposto", prevê a socióloga da educação Alice Mendonça nas respostas que enviou, por e-mail, às questões do P2.

Em países como o Reino Unido e os EUA, mas não só, a questão já entrou na agenda política. Em Portugal não. Existe investigação sobre o tema, há estatísticas à espera de serem interpretadas e... muito silêncio. Alice Mendonça sublinha, porém, que "os pais têm de ser alertados para as consequências" do que se está a passar.

Isto está a acontecer não por os rapazes se terem tornado, de repente, mais estúpidos, mas em grande medida, avisam os investigadores, por eles estarem a ser ensinados e avaliados num sistema que valoriza as características próprias das raparigas e penaliza as dos rapazes.

Zero em comportamento

Nos últimos anos, Alice Mendonça, também docente na Universidade da Madeira, centrou a sua investigação, precisamente, no insucesso escolar na perspectiva do género. Percorreu todos os ciclos escolares. Sustenta que, para os professores, na sua esmagadora maioria mulheres, o modo como as raparigas se comportam e trabalham é "mais conforme com as suas representações do bom aluno ou aluno ideal" - o que poderá conduzir a uma "sobreavaliação" das alunas e a uma "discriminação" dos alunos.

Para a sua tese de doutoramento, a socióloga e investigadora do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa, Teresa Seabra analisou, por seu turno, os resultados escolares de estudantes do 2.º ciclo do ensino básico (11-12 anos). Comprovou que "os resultados dos rapazes e das raparigas se igualavam quando excluía da amostra os alunos com problemas disciplinares", o que a leva a concluir, disse ao P2, que, "como o comportamento afecta de modo significativo o aproveitamento, a pouca conformidade às regras escolares estará na base dos piores resultados dos rapazes". A "atitude", o comportamento dos rapazes, estará a comprometer irreversivelmente os resultados da sua avaliação.

Especialista em assuntos de Educação, o sociólogo francês Christian Baudelot defende que, antes de mais, aquilo que é pedido pela escola é a interiorização das suas regras, mas que estereótipos sociais ainda dominantes valorizam nos rapazes o desafio, a violência e o uso da força - um verdadeiro "arsenal antiescolar". As raparigas, pelo contrário, são socializadas na família em moldes que facilitam a adaptação às exigências escolares: mais responsabilidade, mais autonomia, mais trabalho. "Trata-se de um conjunto de competências que as torna menos permeáveis à indisciplina", observa Teresa Seabra. No ano passado, em Espanha, 80 por cento dos alunos com problemas disciplinares eram do sexo masculino.

Alice Mendonça confirma que as raparigas, "mais conformes às regras escolares", ganham uma "vantagem decisiva" sobre os rapazes quando chega o momento da avaliação. Em Portugal, como também noutros países, o comportamento passou a contar para a contabilização da nota final atribuída aos alunos.

Teresa Seabra defende que se tornou indispensável lançar um debate sobre a actual forma de avaliar. "No momento actual, a escola é chamada a avaliar também o "saber ser", mas nem sempre foi assim e não tem que assim ser", argumenta.

Vida futura afectada

"É perverso que se avaliem instâncias cognitivas com base em comportamentos. Se um aluno indisciplinado aprende, a sua aprendizagem tem de ser reconhecida", sustenta Nuno Leitão, antropólogo, mestre em Ciências da Educação e director da cooperativa A Torre, um colégio de Lisboa que tem a sua matriz inicial no Movimento Escola Moderna, que propõe uma pedagogia alternativa àquela que é comum aos sistemas oficiais de ensino.

No Reino Unido, o estudo divulgado pelo HEPI, que esteve na base do alerta lançado por Bekhradnia, dá conta de que os alunos do sexo masculino poderão estar a ser vítimas da reforma do sistema de avaliação adoptada em 1982. Antes, para a conclusão da escolaridade obrigatória, eram determinantes as classificações obtidas nos exames finais. Depois de 1982, passou a vigorar um sistema misto, com os exames a contribuir apenas com uma parcela, sendo as outras derivadas do trabalho ao longo do ano na sala de aula e fora dela.

Após comparar os resultados antes e depois, o HEPI constatou que os rapazes começaram a ficar sistematicamente atrás das raparigas depois desta reforma. "É preciso reconhecer que o problema existe", alerta. E chama a atenção para o seguinte: "Se o fosso entre os sexos no final da escolaridade obrigatória (e as consequentes diferenças na participação no ensino superior) se deve em grande parte à mudança do tipo de exames e de avaliação - e existem provas de que esta mudança é, pelo menos, parte da razão -, então, nos últimos 20 anos, os rapazes têm alcançado menos do que eram capazes, e isso afectou a sua vida futura."

O dobro dos chumbos

Em Portugal, como em vários países, a entrada maciça do sexo feminino nas escolas e universidades é um fenómeno relativamente recente, tornado possível pela igualização das oportunidades de acesso. Hoje as raparigas são mais numerosas, valorizam mais os estudos, têm mais êxito. "A diferença de resultados entre rapazes e raparigas tem vindo a acentuar-se, aumentando exponencialmente à medida que acrescem os ciclos de escolaridade, e atinge o seu auge no ensino universitário", refere Alice Mendonça.

Logo aos 7 anos, no 2.º ano do ensino básico, há mais rapazes a ficar para trás. À entrada do segundo ciclo, no 5.º ano, as taxas de retenção masculinas têm quase duplicado as femininas. No 7.º, ano de estreia do 3.º ciclo do ensino básico, as percentagens de chumbos entre eles permanecem acima dos 20 por cento. Entre as raparigas, este é também o ano mais complicado, mas nos últimos tempos a taxa de insucesso não foi além dos 17 por cento.

No 9.º ano, o último da escolaridade obrigatória, as taxas de retenção das raparigas têm oscilado entre os 11 e os 16 por cento; as dos rapazes nunca estão abaixo dos 16 por cento e têm ultrapassado os 20 por cento.

Antes de entrar na Torre, em 1996, Nuno Leitão deu aulas no ensino oficial. Começou pelo 12.º ano, acabou no 2.º ciclo. Lembra-se de os ter à frente, alunos com 15 anos a marcar passo no 7.º ano. De como estavam magoados, encurralados: "Já não são repetentes, são resistentes à escola."

Mão-de-obra barata

Continuam a nascer mais rapazes do que raparigas (em cada 100 nascimentos, 105 são do sexo masculino). Por causa disso o seu número é superior nos primeiros anos de escolaridade. Mas, devido a taxas de retenção muito superiores às do género oposto, e também porque são largamente maioritários entre os jovens que abandonam precocemente a escola, em grande parte por causa da experiência de insucesso quando lá estão, em Portugal os rapazes começam logo a estar em minoria no 9.º ano.

Para além de ser uma resposta ao fracasso experimentado na escola, este abandono precoce, maioritário nos rapazes, é também fomentado, em Portugal, por um "mercado de trabalho que procura mão-de-obra barata (desqualificada), especialmente masculina", observa Teresa Seabra.

Pelo contrário, as raparigas vêem nos estudos "um modo de assegurar a sua independência enquanto adultas". É uma forma de emancipação. No conjunto do ensino superior, já representam mais de 50 por cento dos inscritos e ultrapassam os 70 por cento em cursos como os de Direito ou os que estão ligados à saúde. Entre os que conseguem chegar ao fim de um curso e obter uma licenciatura, 60 por cento são mulheres.

Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) confirmam que uma pessoa licenciada tem muito mais hipóteses de vir a auferir um rendimento superior ao de uma que o não seja. Em Portugal, no caso dos homens, aquela organização situou a diferença nos oito por cento.

Num artigo publicado no jornal britânico Observer, Bahram Bekhradnia lembra outras vantagens de ter um diploma: sabe-se que "a educação superior acarreta benefícios sociais e académicos", que "uma pessoa que esteve na universidade tende a apresentar uma melhor saúde física e mental", que esta formação e experiência têm "um enorme efeito socializante".

No passado, estes benefícios foram negados à maioria das mulheres. Agora, são os homens que, "ao não irem para a universidade em tão larga escala", estão a ser privados disto tudo. "Penso que é uma verdadeira desgraça", diz Bekhradnia.

No Reino Unido, para igualar a taxa de participação feminina, teria sido preciso que, s?? no ano passado, entrassem, nas universidades britânicas, mais 130 mil estudantes do sexo masculino.

Diferentes apetências

"Se os professores não aprendem a lidar com as diferenças, os alunos acabam por chumbar. E isto verifica-se sobretudo com os rapazes", avisou, numa entrevista à Visão, o filósofo norte-americano Michael Gurian.

Para além das diferenças entre os géneros que são culturalmente induzidas, vários estudos neurológicos têm demonstrado que as raparigas têm mais apetência para a comunicação verbal e para movimentos finos, "tarefas" a cargo do hemisfério esquerdo do cérebro, que se desenvolve nelas bem mais cedo do que nos rapazes. E os rapazes têm mais apetência para tarefas visuo-espaciais, uma vez que o hemisfério direito, "construtor e geómetra", é mais activo no sexo masculino. "Têm vias e tácticas diferentes para aprender o mesmo", disse ao diário espanhol El País o neurologista Hugo Liano.

O projecto PISA, lançado pela OCDE para medir a capacidade dos jovens, de 15 anos, na literacia em Leitura, Matemática e Ciências, demonstrou, com a série de três provas já realizadas nos 32 países-membros, que os melhores resultados a Matemática tendem a ser alcançados por alunos provenientes de famílias em que os níveis de educação e o status profissional são mais elevados. Mas, em média, foram os rapazes que apresentaram melhores resultados em Matemática e Ciências e as raparigas em Leitura.

Os exames nacionais do 9.º e 12.º ano têm, em Portugal, confirmado esta tendência. Mas no ano passado a média das raparigas nos exames de Matemática do secundário foi superior à dos rapazes. E esta inversão poderá não ser esporádica, avisa Alice Mendonça: "O aumento da discrepância na capacidade de leitura entre os sexos faz com que as raparigas comecem a ultrapassar os rapazes nestas matérias." Por enquanto, e apesar de maioritárias no ensino superior, elas continuam a ser franca minoria nos cursos de Informática, Arquitectura e nos de Engenharia Técnica.

Separá-los resulta?

Para conter a maioria feminina, em Portugal, há alguns anos, houve quem chegasse a propor a introdução de quotas para homens nas faculdades de Medicina. Em países onde o debate está lançado, há quem defenda o regresso às escolas separadas. Mas são mais os que propõem estratégias de ensino diferenciado que coabitem no mesmo espaço. Seja através de aulas separadas para as disciplinas onde as diferenças são maiores, seja através de reforços específicos de certos conteúdos pedagógicos.

Nos Estados Unidos, onde os rapazes estão a abandonar o equivalente ao ensino secundário a um ritmo superior ao das raparigas (em cerca de 30 por cento), as escolas oficiais foram autorizadas a abrir turmas diferenciadas.

No Reino Unido, as escolas do pré-escolar receberam instruções do Governo para, a partir deste mês, reforçarem os exercícios de escrita com "materiais engraçados", junto dos rapazes de 3/4 anos, de modo a reduzir as fortes diferenças entre os sexos na escrita e leitura, que se fazem sentir pouco depois, à entrada na primária.

Esta iniciativa está a ser contestada por especialistas de desenvolvimento infantil que chamam a atenção, entre outros factores, para o facto de muitas crianças, e especialmente as do sexo masculino, não terem ainda adquirido, nestas idades, as capacidades de motricidade fina necessárias ao desenvolvimento da escrita.

Alice Mendonça vê a adopção de estratégias diferenciadas nas escolas como "um novo desafio social" a que urge deitar a mão. Em Portugal, não fazem parte do programa do Governo. Resposta ministerial ao P2: "Não existe qualquer orientação expressa pelo Ministério da Educação sobre a abordagem diferenciada por género, como estratégia de aprendizagem."

O ministério lembra que a Lei de Bases do Sistema Educativo, aprovada em 1986, atribui ao Estado a responsabilidade de "assegurar a igualdade de oportunidade para ambos os sexos", e que, no ensino pré-escolar, "cada educador tem autonomia e responsabilidade para gerir o currículo", devendo "estimular o desenvolvimento da criança tendo em conta as suas características individuais".

Nuno Leitão concorda que, no geral, e não só no pré-escolar, os programas oficiais deixam um bom espaço de manobra: "É o professor quem decide, na sala de aula, a organização das aprendizagens. Pode fazê-lo optando pela que lhe dá mais jeito, mas também pode escolher, em vez disso, a que é melhor para os alunos."

Defende que os professores devem estar sensibilizados para as diferenças entre os dois géneros, mas não apoia a adopção de estratégias diferenciadas. Na sua escola, que funciona do pré-escolar ao 2.º ciclo, incentivam-se as perguntas dos alunos (uma "pedagogia preciosa"), o debate colectivo, as experiências feitas pelas próprias crianças (em vez de estarem a ver o professor a fazê-las), a curiosidade, a memorização. "Dá-se a oportunidade aos alunos de conseguirem, de forma autónoma, construir um sentido para as coisas, que é o que eles procuram antes de mais, criando assim uma motivação intrínseca que os leva a querer saber mais."

É quase uma ilha. E não só pelo facto de não se registar ali o hiato de resultados entre raparigas e rapazes que anda a sobressaltar meio mundo. Esse hiato, frisa Teresa Seabra, é também fomentado pelos modelos veiculados pelos media: "Ser bom aluno, sendo rapaz, funciona, em alguns grupos de pares, como um handicap."

Se os rapazes passarem a interiorizar, maioritariamente, a ideia de que desafiar a escola e ser mau aluno é "normal", estarão criadas as condições para que os homens sejam, amanhã, uma nova classe baixa das sociedades desenvolvidas ocidentais.

Fonte: Público

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Há que mudar a escola pública. Isso é incontestável.

A escola tal como funciona actualmente está a contribuir para criar desigualdades que se mantêm pela vida fora. A forma como os alunos são catalogados e objecto duma intervenção pedagógica desligada duma relação profunda com o seu eu profundo.

Não estamos a aproveitar os avanços da tecnologia para tornar o ensino mais personalizado e mais virado para o fomento da curiosidade e da criatividade. Não se atende a que as crianças vivem o corpo duma forma muito mais livre e completa do que os adultos e desde muito cedo se lhes impede um crescimento harmonioso. Só um pequeno exemplo: no terceiro ciclo do ensino básico num mesmo bloco de 90 minutos os alunos podem ter duas aulas, de 45 minutos cada, uma pode ser educação visual, a outra, educação física, ou história e educação física, as combinações são inúmeras. Isto significa que, sem um intervalo entre as aulas, os alunos são obrigados a ir duma sala de aula para o ginásio, tendo, entretanto, que vestir o equipamento. O resultado é nenhuma das aulas acaba por render o que deveria.

Mesmo os tempos de 90 minutos levantam sérios problemas, uma vez que, muitas vezes, se tem que ter um grupo de miúdos dentro duma sala insípida, obrigados a tarefas que contrariam as suas tendências naturais para o movimento e a expansão vital. O que dá sempre mais resultados.

Quem dá aulas ao ensino básico, no segundo e terceiro ciclo, pode ver-se a braços com turmas completamente caóticas, 'indisciplinadas', como se diz na gíria. O problema é que a 'disciplina' é um conceito que não tem aplicabilidade em muitos contextos educativos. Os alunos na escolaridade obrigatória quase não têm um enquadramento disciplinar: não podem chumbar por faltas, a não ser em casos muito especiais; não podem ser objecto de medidas disciplinares de integração na comunidade - o novo estatuto do aluno acabou com esse tipo de medidas disciplinares que, em muitos casos, eram muito positivas, sem bem aplicadas; também não têm nenhuma autoridade dentro da escola que possa obstaculizar os comportamentos desviantes - as medidas de suspensão só servem para agravar os problemas. Na prática, um aluno indisciplinado pode ir aumentando a gravidade das suas infracções sem que sem implementem medidas eficazes que, de facto, não existem. Se a família for disfuncional, mas não cair no âmbito da intervenção das comissões de protecção de menores, o aluno fica entregue a si próprio, o que é sempre trágico.

Por outro lado, as escolas debatem-se com a falta de auxiliares da acção educativa e a maior parte dos que existem não tem formação adequada (a escassez de funcionários é gritante, ainda mais se atendermos ao actual quadro de desemprego a que assistimos na nossa sociedade), há muito poucos psicólogos, quase nenhuns assistentes sociais, não há sequer animadores culturais, profissionais de saúde formados e dedicados em exclusivo à população escolar, para não falar de bibliotecários (as escolas precisam deles e não de professores sem formação de base na área) ou, simplesmente, de técnicos de informática - as escolas estão, neste momento, a saque por parte das empresas de informática, quando o Ministério poderia criar serviços especializados que criassem e fornecessem software livre às escolas, bem como hardware reciclado, por exemplo, das empresas públicas e dos serviços governamentais - o nível de desperdício nesta área é escandaloso.

Mas atendendo à notícia do Público: é natural que os rapazes sofram este tipo de discriminação, atendendo ao actual contexto educativo. Têm mais tendência para a indisciplina, são deixados mais entregues a si próprios pela família. E a nossa escola pública não gosta de alunos problemáticos. Dadas as deficiências estruturais que existem os professores têm que atender a solicitações que os desviam da via do aprofundamento da relação pedagógica, ou têm demasiados alunos a seu cargo, ou pura e simplesmente não têm consciência da importância sócio-afectiva da profissão - e há casos assim, verdadeiramente revoltantes, da pura intolerância.

É urgente que se devolva a escola à cidadania.

As escolas devem ter uma gestão democrática que envolva as comunidades locais. O conceito de autarquia local deve ser repensado: uma escola deve ser considerada, não dependente do poder autárquico camarário, mas uma autarquia local. As Freguesias em muitos casos não cumprem o seu papel de dar corpo à vida das comunidades, há que devolver aos cidadãos certas instituições que prestam serviços públicos, como as escolas e os centros de saúde, por exemplo. Não se trata duma privatização dos serviços, mas duma civilização dos mesmos, uma republicação, o voltar a dar ânimo novo à res pública. Só há verdadeira República se toda a sociedade se mobilizar para a cidania integral: a todos os cidadãos devem ser dadas as condições para alcançarem a sua autonomia espiritual. O que terá que levar a que se assuma duma vez por todas que não são os cidadãos que são feitos para as instituições, mas as instituições para, e pelos, cidadãos.



Publicado por Paulo Feitais em:
umoutroportugal.blogspot.com

O olhar de Andrómeda - O espelho, a alma do rochedo

Perseu libertou-a, mas o rochedo ensinou a Andrómeda que não era o sacrifício a sua libertação. Só lançaria à terra o olhar azul e iluminado, quando o tempo fosse essa coluna de fogo. Não saberemos verdadeiramente porque dançam no mar duas colunas de fogo entrelaçadas. Antes disso, perderíamos a boca no abismo do silêncio que a cola ao céu de uma palavra que imobiliza.
Chegados a Argos, haveriam de formar, tempos depois, uma galáxia no azul do olhar, nas pedras preciosas dos seus cabelos negros, quando a noite vem lançar os seus prantos e os seus sossegos, na barca do desassossego.
Os dias abriam-se sobre as noites, como se nos devorassem o sentido, até que vimos que tem do nosso olhar o gesto e os cabelos são as mesmas ondas onde navegam barcos e sonhos amarados nos dedos. Fenícia de nós, em sua beleza dormiam as ninfas e a sua mãe já a tinha avisado que não se desafia o mar, esse gigante de humorosas águas!
O mar tem os seus rugidos, as suas zangas e tempestades, o mar não é só o fio azul que nos nasce no pulso e leva, coração aberto e fervente a Amores dado, o Mar é som saudoso, azul cobalto e doido. O mar do fim dos mares, trazia, no início dos tempos um olhar mais cruel, um sangue mais rápido a deslizar nas águas ancestrais. Esse animal era nosso parente e escrevia os nossos nomes sobre a pedra que a onda açoitava. Mais tarde, depois de entregue à paz do azul, viria o monstro agitar as águas desse imenso oceano.
Haveria de ser nos olhos da filha do orgulho, que morreria o monstro, ou ela desapareceria no ar: a mais bela das ninfas que o não era! Acorrentado à grande rocha, o olhar de Andrómeda era cristal que se abria como espuma. Que se partia na tristeza líquida de uma ampulheta de areias. Não tardaria a chegar o que chovia ouro sobre o corpo da que nada era, antes das eras que viriam. Perseu deixou cair no mar os cabelos de uma medusa e o rochedo chorou, dentro do olhar da acorrentada, a pedra em lume do seu amor. Foi nesse rochedo que contou à beleza de Andrómeda a história de Danae, filha de Argos. A pedra tinha sido, diziam, a cabeça do rival que hoje lança o olhar e a boca ao vasto firmamento. Ela que tinha visto o azul, enquanto esperava transformar-se em chuva de prata, olhar de lua sobre o agitado dorso do imenso mar. Ela tinha colhido o desejo de ver os cavalos a correr sobre a espuma da espera. A mesma que tinha visto o seu olhar deitar-se com o sol, na direcção do mar, na direcção da partida, da ausência. Ela que haveria de ter escrito a tinta azul e salgada, sobre a face do mistério, o nome de uma Saudade inominada. Saudade da neve sobre os rios; saudade do brilho que as coisas têm quando carregadas de oiro e divino olhar estrelado.
Andrómeda lançou de Perseu o olhar, e onde a vemos nos olha, oceano do mais alto olhar, poisar sobre nós as estrelas encantadas dos seus brilhos e das suas memórias. O que Andrómeda viu no mar, o que ela sentiu, antes de ser devorada em chamas arrefecidas na pedra do jardim líquido do grande senhor dos mares nem mesmo os poetas o saberão, ou talvez só eles.


Publicado por saudadesdofuturo em:
serpenteemplumada.blogspot.com

MIL DATAS: 31 DE JANEIRO DE 1891


Para ler no MILhafre:

"A Pátria é um princípio de solidariedade colectiva"



“Noite de esperança, noite de angústia, menos caliginosa e turva do que o claro dia subsequente, ensolelhado, em demoníaco sarcasmo.
Noite entenebrecida e cruel, onde o clangor amarelo do rebate, afeiçoando-as, pôs nas almas em sobressalto a nota romanesca das catástrofes. Noite densa, noite escura, ai de nós, a noite luminosa e viva.
Noite de sonho, noite de anelo, em que pelo ar perpassou a cândida imagem da liberdade e fulgurou, crepitante, o clarão sagrado do futuro. Noite de pesadelo, noite de agonia, em que rangeram os ferrolhos das prisões, ávidas da pitança, e o anjo-da-guarda da pátria, soluçando, escondeu o rosto, na dor, desesperada e alucinante, da derrota.
O anjo-da-guarda da pátria! Da pátria? Sem ela não podemos subsistir, na verdade. Mas será esta bem a nossa?
Assim como se não pode viver sem pão, diz o poeta que também se não pode viver sem pátria.
Porém entendamo-nos: – a Pátria não é uma zona qualquer onde acidentalmente nascêssemos, povoada por gente que connosco não participe ideias e sentimentos, que ria da nossa aflição e rejubile com a nossa desdita! Um homem não está preso pelo pé ao húmus como uma hortaliça, e a terra donde proveio é-lhe bem indiferente, se essa leira, dura e ingrata, nem sequer se deixa infiltrar de suas corrosivas lágrimas.
A Pátria é um princípio de solidariedade colectiva. A Pátria é uma religião. Ora, se no templo não temos ingresso, consoante no campo não sofrem que construamos a tenda, somos, evidentemente, de mais. A hostilidade moral expulsa os que escapem à intimação económica de pronto despejo. Para outros é que luz o Sol; escorraçados como leprosos infectos, mendigos morais, teremos de deitar a sacola aos ombros, volver as costas, partir.
Nós, republicanos, estamos hoje, na sociedade portuguesa legal, proximamente como nela se achavam os cristãos-novos no século XVII. Curiosa contradição, que a nossa pusilanimidade explica. Constituímos, de secção consciente, a maioria, e não temos direitos; somos provisoriamente permitidos, por tolerância e como que por caridade. Mas não falaremos, não escreveremos, não nos associaremos, sob pena de purgarmos na cadeia o delito de possuir sangue na cabeça para conceber ideias, sangue no coração para as propagandear.”

Sampaio Bruno, in O Brasil Mental, Lello & Irmão, 1898

Publicado em:

http://filosofia-extravagante.blogspot.com/2010/01/ao-redor-do-31-de-janeiro-6.html

Nota evocativa: A Vida Portuguesa – Inquérito à vida nacional

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José Gama
Faculdade de Filosofia, Braga – UCP

Em ano de centenário do surgimento da revista A Águia, proponho-me fazer uma breve evocação de uma outra publicação periódica, que de algum modo está ligada ao grupo promotor e ao espírito que promoveu a criação da revista e o seu enquadramento no movimento da Renascença Portuguesa. Trata-se do boletim A Vida Portuguesa, dirigido por Jaime Cortesão, entre Outubro de 1912 e Novembro de 1915.
A Vida Portuguesa (AVP) surge dentro da Associação da Renascença Portuguesa (RP). A revista A Águia, como órgão oficial a partir da 2ª série, iniciada em Janeiro de 1912, é predominantemente doutrinária; à nova publicação AVP, em cadernos de oito páginas, caberia um papel informativo mais próximo da realidade nacional, o que não significa puramente noticioso.
A dimensão que aqui pretendo salientar é o carácter essencialmente conciliador entre as duas principais tendências que se manifestaram na fundação da RP, e que opuseram o grupo do norte e o grupo do sul. Estabeleceu também, desse modo, a ponte de ligação que uniu a tendência manifestada claramente pelo grupo de Lisboa e a orientação do movimento da Seara Nova, lançado em 1921, com a publicação da revista com o mesmo nome, como órgão oficial. Os protagonistas são fundamentalmente os mesmos, cabendo a Jaime Cortesão o papel determinante e omnicompreensivo, enquanto congrega os grupos fundadores da RP, integrando o do norte (Coimbra/Porto), dá corpo ao boletim conciliador AVP, e reúne à sua volta o “Grupo da Biblioteca Nacional” que dá início à Seara Nova. Neste novo grupo encontramos os principais elementos do anterior grupo do sul, na criação da RP, com destaque para Raul Proença.
São bem conhecidas as tendências que opuseram os grupos fundadores da Renascença. Pelo norte/Porto, o espiritualismo patriótico e nacionalista liderado pelo poeta Teixeira de Pascoaes, e pelo sul/Lisboa, o programa reformista de intervenção sócio-política, orientado para um socialismo democrático, liderado pelo escritor Raul Proença. Os respectivos manifestos-programa, elaborados para as reuniões preparatórias da criação da Associação, realizadas em Agosto e em Setembro de 1911, só mais tarde são divulgados, precisamente nas páginas do número 22 de AVP, de 10 de Fevereiro de 1914.
A orientação saudosista que Teixeira de Pascoaes imprimiu à revista A Águia, como órgão da RP, está patente desde o primeiro número, em particular no texto de apresentação “Renascença”. No número seguinte, de Fevereiro de 1912, no artigo “Renascença (O espírito da nossa Raça)”, insiste na “verdadeira interpretação da Saudade, isto é, a verdadeira interpretação do génio, do espírito da alma portuguesa”, e não deixa passar a oportunidade para lançar a observação irónica à “ingenuidade dos que se julgam práticos, modernos…”, e ao “preconceito do senso prático”. Mais tarde, Jaime Cortesão, já em vésperas do lançamento do boletim AVP, no artigo “Da Renascença Portuguesa e seus intentos”, inscreve o projecto da RP num horizonte mais amplo e europeu, que “não é incompatível com as aspirações modernas”, e que “promoverá no Povo português a parte da boa cultura que a Europa lhes possa trazer”.

A ideia fundadora de AVP é situada por Jaime Cortesão na reunião de 2 de Junho de 1912 da Direcção do Conselho de Administração da RP, que decidiu “a publicação dum quinzenário de inquérito à vida nacional sob o quádruplo aspecto do problema religioso, pedagógico, económico e social”. O primeiro caderno é publicado em 31 de Outubro de 1912. Manter-se-á até Novembro de 1915, com a edição de 39 números, em cadernos de 8 páginas cada, e organizados em 2 volumes. A periodicidade foi variando, e daí a mudança do subtítulo da publicação, que se iniciou com “Quinzenário de inquérito à vida nacional”, passou a “Boletim de inquérito à vida nacional”, mensal, e, finalmente, como “Boletim da «Renascença Portuguesa»”, com a periodicidade mensal ou de 3 semanas, com excepção do último caderno, de Novembro de 1915, que sai cinco meses depois do anterior.
A leitura atenta do artigo de apresentação, de Jaime Cortesão, permite perceber a resposta interna à exigência de alargar o horizonte de incidência da reflexão e da intervenção, renovadoras e criativas, na vida nacional. A indicação dos quatro domínios temáticos é acompanhada das comissões respectivas, com atribuição dum programa de acção. O objectivo que este inquérito à vida nacional se propõe, procura conciliar a atenção refundadora do “original espírito da Pátria Portuguesa”, na linha do saudosismo de Pascoaes, com a “harmonia com o espírito moderno, e especialmente em conformidade com as necessidades actuais”. Parece aflorar aqui a tensão latente entre a atitude hostil a todas as “más influências [literárias, políticas e religiosas] vindas do estrangeiro”, apregoada por Pascoaes, e a necessidade urgente de abertura ao “espírito moderno” que Jaime Cortesão propõe, em evidente ressonância do programa do manifesto do grupo de Lisboa, redigido por Raul Proença. Este programa posiciona-se frontalmente em oposição ao nacionalismo cultural do saudosismo. Por exemplo, perante a situação caótica da vida nacional, após a revolução triunfante, a resposta à palavra de ordem “renascença nacional” é a seguinte: “Que fazer então? – Pôr a sociedade portuguesa em contacto com o mundo moderno, fazê-la interessar pelo que interessa os homens lá de fora, dar-lhe o espírito actual, a cultura actual, sem perder nunca de vista, já se sabe, o ponto de vista nacional e as condições, os recursos e os fins nacionais. Temos de aplicar a nós mesmos, por nossa conta, esse espírito do nosso tempo, de que temos estado tão absolutamente alheados”.
E surge A Vida Portuguesa, como inquérito à vida nacional. As grandes questões vão surgindo, em análises das questões económicas, das questões educativas (lançamento de um inquérito a nível nacional), da organização da indústria, da vulgarização científica, e da “menina dos olhos” de Jaime Cortesão, que foi o lançamento e dinamização das Universidades Populares.
Além destas análises das grandes questões, o boletim foi-se recheando cada vez mais com as referências e divulgação das actividades da RP. São as indicações cronológicas de todas as acções realizadas, e que permitem acompanhar a par e passo a vida da Associação; são os documentos e transcrições do eco da RP nos periódicos nacionais e alguns internacionais; são os anúncios e programas dos cursos realizados nas Universidades Populares; são as listas de obras da Biblioteca da RP; são os artigos e as listas relacionadas com a “subscrição nacional a favor de Gomes Leal”…
É a voz da Renascença Portuguesa, como consciência activa do seu papel de rejuvenescimento da Raça e da Pátria, sem trair a linha de rumo delineada por Teixeira de Pascoaes, mas apelando com insistência à intervenção da geração nova que se orienta mais para o Futuro, para uma nova Vida e novo Mundo. Sem esquecer “aqueles que têm aquela experiência, aquele saber, e ponderação, que só o tempo dá”.
É também a voz da crítica, não apenas referenciada nas alusões e nas respostas às críticas públicas, mas sobretudo nas inúmeras páginas do boletim com textos de António Sérgio, preparando e acompanhando a famosa “polémica sobre o saudosismo” com Teixeira de Pascoaes, nas páginas de A Águia, de Outubro de 1913 a Julho de 1914. Para além de outros textos extensos, atendendo à dimensão do boletim, é de destacar o artigo “Golpes de malho em ferro frio – Aos portugueses de 16 anos que não ambicionam ser poetas líricos”, que preenche na quase totalidade as oito páginas do caderno nº 16, de 2 de Agosto de 1913, e que desfere a terrível acusação à RP “de ser uma sociedade do elogio mútuo. Creio que realmente tem havido orgia de elogio mútuo. Reconheçamo-lo, emendemo-nos e sigamos adiante”. É a preparação próxima da polémica com Pascoaes, no órgão oficial. A sua oposição ao saudosismo é directa e frontal: “Só alcançarmos um viver decente quando atirarmos completamente ao diabo o Historismo e o Saudosismo”. A crítica de Jaime Cortesão vai no sentido de apontar os erros e contradições, “para não dizer dispautérios”, de Sérgio, com o texto “O parasitismo e o anti-historismo – Carta a António Sérgio” ; a resposta de Sérgio às objecções sairá no nº 20, de uma forma mais clara, em estilo límpido e em linguagem da ciência e sem imagens, no texto “O parasitismo peninsular – Carta a Jaime Cortesão” .
A colaboração de António Sérgio manter-se-á até aos últimos cadernos, chegando mesmo a assumir a direcção da “Biblioteca de Educação”, nos projectos editoriais da RP, e que permanecerá anunciada nas páginas do boletim até ao penúltimo caderno, em Junho de 1915.
Como nota curiosa, regista-se a ausência de colaboração de Teixeira de Pascoaes nas páginas deste boletim, para além de um breve texto – “Gomes Leal na miséria” , com o apelo ao apoio urgente a um grande Poeta na miséria. O seu domínio era o de A Águia, nos altos voos de inspiração saudosista, sem concessões ao sentido prático dos que viam na intervenção do quotidiano uma exigência inadiável para todo o projecto de renovação cultural.
A partir de Agosto de 1914, o drama da “Guerra Grande” marca presença nas páginas do boletim. Álvaro Pinto escreve a crónica “Portugal e a Guerra Grande” , onde analisa as razões da guerra e os motivos da loucura alemã, e interroga-se sobre a atitude de Portugal, apontando para um apoio à causa da justiça e à vitória do direito. Jaime Cortesão, no mês seguinte, com o texto “A Renascença Portuguesa e a Guerra”, exorta à solidariedade greco-latina, perante o perigo que ameaça a França, e propõe “à meditação e actividade dos nossos amigos este belo motivo a solicitar as suas energias” . E, coerente com a sua posição, em breve se alista nas fileiras dos voluntários como médico, retomando assim a actividade profissional que tinha suspendido havia alguns anos.
As dissidências no seio da Renascença Portuguesa e a dispersão que a Guerra provocou, vão apressar o fim da publicação do Boletim A Vida Portuguesa. Em breve se assistirá ao abandono da direcção da revista A Águia por Teixeira de Pascoaes, às dissidências mais surpreendentes de Jaime Cortesão e de Álvaro Pinto, e à criação do movimento e da publicação da Seara Nova…
Jaime Cortesão desiste dum projecto, mas continua a lutar pelos mesmos ideais de renovação, que o hão-de levar a novos empreendimentos e a longínquas paragens. Por agora, fica a mudança de estratégia, que ele explica em carta ao amigo Álvaro Pinto: “A Renascença, nascida antes da guerra, correspondeu a uma época do mundo e a uma idade nossa que passou. Sob o ponto de vista de ideias, que deram a célebre discussão entre Pascoaes e Sérgio, eu hoje pendo para o lado do último. No túmulo cheio de velhos miasmas, que é a Nação, devem entrar lufadas de ar distante e renovador”.

Manifesto Refundar Portugal e Movimento Outro Portugal




Estão a surgir solicitações para apresentar noutros lugares do país o Manifesto Refundar Portugal e o Movimento Outro Portugal, inspirados na visão de Agostinho da Silva de um país e de um mundo melhor para todos.

Quem desejar organizar uma sessão de apresentação, pode contactar-me directamente: pauloaeborges@gmail.com

Saudações amigas

umoutroportugal.blogspot.com

Já começaram a chegar textos para o nº 6 da NOVA ÁGUIA...

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Rodrigo Sobral Cunha
TEÓFILO O JOVEM

(excerto)

Entre nós os da língua portuguesa, o provérbio Vox populi, vox Dei – que todos os Cristãos do Sacro Império Romano-Germânico conheceram, como aliás os antecessores da Christianitas do Império Romano – mantém de certo modo duas traduções, ou tradições, que enunciam duas leituras consoante queiramos escutá-lo do lado de Deus ou do lado do Povo. Digamos que uma versão do provérbio – Voz do povo, voz de Deus – é teocrática ou teológica, o que equivale a dizer conforme o desígnio do alto: posto que o povo escuta a Deus, escutando o povo escuta-se Deus, que é assim como a voz do povo; ou seja – a voz de Deus soa na voz do Povo. A outra versão do provérbio – A Voz do povo é a voz de Deus – permite já uma interpretação antropológica ou democrática, isto é, segundo o humano desígnio: escutar a voz do povo confunde-se de tal modo com escutar a voz de Deus, pois tanto fala Deus ao povo, como fala o povo a Deus, que se vai a ponto de se escutar Deus no falar do Povo; ou seja – a voz do Povo soa como voz de Deus. Claro que a interpretação maior do sábio provérbio é a que, colocando os dois como em um, não distingue versões, para melhor unir o que Deus e Povo não quiseram separado.
Procuramos assim, entretanto, aproximar-nos em obnubilada homenagem do sentido do nome próprio de Teófilo Braga (1843-1924) – o Amigo de Deus – cujo operoso amor ao Povo Português haveria de erigir pai da Pátria, “um dos últimos pais da Pátria”, segundo Álvaro Ribeiro, que em 1977 o exarava também “o último romântico”; especificando: “na exactidão histórica de quem defendeu o princípio cultural das nacionalidades, inspirado na tradição do medievalismo.” [1]
Segundo a caracterologia do exegeta da filosofia portuguesa, “Teófilo Braga pertenceu muito mais à família espiritual de Alexandre Herculano e de Almeida Garrett do que à de Antero de Quental, Oliveira Martins e Eça de Queiroz” [2] . Notou, com efeito, Álvaro Ribeiro que “em Portugal foram Teófilo Braga, Sampaio Bruno e Teixeira Rego os escritores que nos ensinaram a extrair da nossa história da literatura uma história de filosofia […]” [3]. Para Álvaro Ribeiro, é Teófilo Braga “o mais poderoso obreiro da literatura portuguesa na segunda metade do século XIX”, cujo pensamento “surge na configuração propícia de um precursor da filosofia portuguesa”, ensaiando a expressão inaugural de “uma visão filosófica da História da Literatura Portuguesa” [4]. Na assunção das raízes populares portuguesas, bem como das ramagens da verdadeira teoria, virá a propósito recordar ainda o comentário de Álvaro Ribeiro – até porque ajuda a elucidar a dualidade característica do pensamento português – de que “Agostinho da Silva concorda com Teófilo Braga em atribuir ao povo uma resistência de ordem maravilhosa e de sinal profético”, posto que “a diferença notável entre os dois historiadores da literatura está em que o doutrinador positivista procurou fundamento na lei dos três estados, formulada por Augusto Comte, enquanto o intérprete franciscanista considera por firmamento o dogma da Santíssima Trindade” [5].
A singularidade romântico-positivista do pensamento de Teófilo condu-lo a assertivas como esta: “No organismo social, a consciência é conhecida pelo nome de Nacionalidade; ela está ligada a impressões profundas, de uma persistência tenacíssima, até ao ponto de já não existir nenhuma forma material de nação, e ainda se conserva esse sentimento, como se vê com o Judeu. As impressões que perpetuam essa consciência nacional são o objecto das tradições, são o proselitismo religioso, são a dedicação altruísta do civismo, por onde se revela a vida histórica de um povo.” [6]
Uma ritmanálise do pensamento de Teófilo Braga mostra-o, porém, inconciliavelmente dividido, como ele mesmo confessa no mês dos seus quarenta e um anos, entre “a serenidade contemplativa da Arte” e “a crítica, a erudição, a ciência, a filosofia”. E se nesse mesmo texto acrescenta: “só muito tarde é que consegui conciliar em mim estas duas tendências do espírito”; na verdade, um passo de linhas aí à frente vai situar-se a si mesmo, com sinceridade maior, “neste dilema dos dois amores, em que ainda se debate o espírito, atraído para a arte e seduzido pela ciência.” [7] Ora, um tal dilema, como é sabido, reflectiu-se muito especialmente nas opções que Teófilo Braga tomou em relação ao pensamento de Giambattista Vico e em relação ao sistema de Auguste Comte. Ninguém ignora qual destes dois modos de compreensão do movimento histórico se tornaria vigente no tempo dos homens e sua mentalidade, até nós.
Escutemos o que em torno disto mesmo pensou Álvaro Ribeiro:
“Lamentamos hoje que Teófilo braga não tivesse permanecido fiel à inspiração de Vico para aplicar ao pensamento do seu tempo e ao estudo das coisas do nosso país. Vico era o representante de uma filosofia peninsular em reacção a uma filosofia continental que, no século XVII com o cartesianismo como no século XVIII com o enciclopedismo, sempre tem pretendido assumir hegemonia na cultura europeia. O anticartesianismo dos povos insulares e peninsulares, orientado segundo o pensamento de Vico, seria a libertação fecunda de um falso e abstracto universalismo.
“Correspondia o pensamento de Vico às tendências próprias do liberalismo romântico, quer pela sua predilecção teológica, quer pelo estudo das tradições, quer pelo sentido da liberdade humana. A obra de Michelet, muito lida pelos escritores portugueses, ainda mantém pura a inspiração do filósofo napolitano. Só mais tarde foi o humanismo de Vico interpretado num sentido pragmatista e ateu, por quem não soube ler o contexto das suas obras admiráveis.”
“A poesia é, para Aristóteles, mais verdadeira do que a história. Mas a filosofia da história, nas grandes linhas traçadas por Vico, é propícia à formação de grandes poemas e à epopeia da humanidade. A Visão dos Tempos, de Teófilo Braga, como audaciosa e original concepção deste tipo, tem o alto mérito de ser uma concepção nova, embora imperfeitamente realizada.” [8]
Assente, por conseguinte, que houve um Teófilo romântico e um Teófilo positivista e que essa dualidade atravessará a sua obra, na qual se há-de contar decerto a República Portuguesa, importa agora reparar bem que durante uma década permaneceu ele em linha directa da obra de Vico, onde, segundo conta na Autobiografia, “recebeu a primeira iniciação”, precisamente pelo verdadeiro sentido da poesia.


[1] Álvaro Ribeiro, Dispersos e Inéditos (Organização e apresentação de Joaquim Domingues), III, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, p. 287. São ainda palavras de Álvaro Ribeiro acerca de Teófilo Braga: “Ninguém, como o último romântico, soube interpretar a História do Povo Português nos seus aspectos fonético, prosódico, versicular, ortográfico, literário, político, científico, filosófico e religioso como o Mestre admirado, venerado e respeitado do Curso Superior de Letras” (ibid., pp. 291-292). E na transição para a política, observa Álvaro Ribeiro: “Teófilo Braga viu que o problema social português consistia em doutrinar um amplo escol que estivesse apto a exercer as funções governativas logo que fosse proclamada a República” (ibid., p. 580). Num texto intitulado “Vicissitudes da filosofia portuguesa”, de 1952, Álvaro Ribeiro regista: “Como é sabido, foi Teófilo Braga quem conseguiu transformar a propaganda romântica e messiânica de um regime político melhor, - melhor do que o regime da Carta Constitucional, - na severa doutrinação positivista que conduziu logicamente à proclamação da república” (Álvaro Ribeiro, Dispersos e Inéditos [Organização e apresentação de Joaquim Domingues], I, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, p. 472).
[2] Dispersos e Inéditos, III, ob. cit., p. 288.
[3] Álvaro Ribeiro (1957), in Dispersos e Inéditos (Organização e apresentação de Joaquim Domingues), II, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, p. 356.
[4] Álvaro Ribeiro, Os Positivistas – Subsídios para a história da filosofia em Portugal, Lisboa, s.e., 1951, pp. 58-59, 64. “Uma teoria das morfologias culturais talvez fosse a mais conveniente para o trabalho que Teófilo Braga se propôs fazer entre nós e que em grande parte realizou. […] Assim deixou-nos Teófilo Braga uma obra que podemos admirar com sinceridade, que podemos utilizar com proveito, mas que serve principalmente de modelo e exemplo para quem quiser reconstituir, à luz da filosofia especulativa, a teoria da cultura portuguesa” (ibid., p. 77).
[5] Ibid. (1958), p. 455.
[6] Teófilo Braga, Traços Gerais de Filosofia Positiva, Lisboa, 1877, p. 8 (citado por Álvaro Ribeiro, Os Positivistas, ob. cit., p. 72).
[7] Preliminar dos Contos Phantasticos (2ª edição), em Fevereiro de 1894. Nos Contos tradicionais do Povo Português, cita Teófilo, sintomaticamente, o poemeto de Filinto Elísio “Defeitos da Filosofia”: “Que cousa há nas matas espinhosas / Dessa magra e subtil Filosofia / Que emparelhar se atreva c’um bom Conto / De Fadas, c’o condão de uma varinha? […] Oh ricas Fadas, rico encantamento, / Enleio dos sentidos agradável, / Com que saudade crua, e com que pena / Vos choro, de entre nós afugentadas / Por esses maus Filósofos esquivos / De todo o bom saber […]!”
[8] Álvaro Ribeiro, Os Positivistas – Subsídios para a história da filosofia em Portugal, ob. cit., pp. 59, 60, 163. Dedicámos há mais de uma década um estudo ao pensamento de Giambattista Vico e à sua recepção na Europa e em Portugal, sob o título “Giambattista Vico e Europa: Ciência da Lira e das Nações”, publicado em Gepolis - Revista de Filosofia e Cidadania, nº 6, Lisboa, Universidade Católica Portuguesa, 1999 (pp. 50-61).

Sábado, 30 de Janeiro de 2010

MIL PERPLEXIDADES

Diário da NOVA ÁGUIA: 30 de Janeiro...

Foi mais uma tarde memorável na Biblioteca Municipal de Sesimbra, um dos locais de eleição do Mapiáguio (graças, em particular, à sua responsável, Dra. Maria José Albiquerque). Hoje, a Câmara Municipal inaugurou um extenso ciclo relativo ao Centenário da República – daí a presença do próprio Presidente da Câmara: Arquitecto Augusto Pólvora.

A sessão iniciou-se com duas magníficas palestras sobre duas insignes figuras da nossa História, Guerra Junqueiro e Teófilo Braga – por Pedro Sinde e Rodrigo Sobral Cunha, respectivamente.

Depois, seguiu-se o lançamento de mais um título da Colecção NOVA ÁGUIA: “Cartas de Noé para Nayma”, de Carlos Aurélio.

A sessão acabou já bem depois da hora. Ficou a promessa de lá voltarmos em Março, no dia 27: já com o quinto número da NOVA ÁGUIA. A NOVA ÁGUIA regressa sempre a todos os muitos locais onde é bem recebida…





(Rodrigo Sobral Cunha, falando sobre Teófilo Braga)


(Pedro Sinde, apresentando a obra de Carlos Aurélio)


(aspecto da assistência)

P.S.: Por razões logísticas, por motivo de obras no espaço, o anunciado lançamento na Casa Bocage, em Setúbal, foi adiado para o dia 27 de Março.

O ASSASSINATO DE GANDHI

DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
O ASSASSINATO DE GANDHI

De seu nome completo Mohandas Karamchand Gandhi, nasceu em Porbandar, golfo de Omã, a 2 de Outubro de 1869, e faleceu a 30 de Janeiro de 1948, assassinado por um fanático hindu.
Gandhi, pertencendo a uma família abastada, foi educado por um brâmane no culto da seita de Jai, que preconiza a independência indiana e tem por base os mandamentos do Ahimsã, isto é, a resistência passiva. Depois de frequentar várias escolas da sua terra natal, e ingressar aos dezassete anos na Universidade de Ahmedabah, tendo passado nesse momento por uma grave crise religiosa. Ele próprio confessou: “Pela minha revolta contra a idolatria hindu fui durante algum tempo um mísero ateu!”
No início do segundo ano da Universidade, decidiu partir para Inglaterra e começou a estudar Direito em Londres, entre 1888 e 1891. Regressou à Índia e passou a exercer as funções de advogado no Supremo Tribunal de Bombaim, porém, anos mais tarde, abandonou este cargo, que considerava imoral.
De seguida, viveu na África do Sul, onde lutou pela igualdade de direitos da minoria indiana, durante o período que se estende de 1893 ao ano do início da 1ª Grande Guerra, 1914.
Em 1915, regressou à Índia, onde, durante o conflito que assolou o mundo, defendeu a colaboração com os Britânicos. Entendimento que terminou após a tragédia de Amritsar (13 de Abril de 1919), iniciando a sua actividade política que tinha como finalidade a expulsão dos Ingleses da Índia.
Por inúmeras vezes, foi processado e preso, por proclamar abertamente a vontade de independência do povo indiano, nomeadamente, na conferência de mesa-redonda realizada em Londres, em Setembro de 1931.
Retirou-se da política no período compreendido entre 1934 e 1939, para neste último ano, voltar e impor como presidente do Partido da Independência o seu discípulo Rajendra Prasai.
Entre 1939-1945, isto é, durante o período da II Guerra Mundial, manteve-se neutral, inclusivamente no que respeita à Inglaterra.
Quando a Guerra terminou, viu a sua luta de uma vida coroada de êxito, com a saída da Inglaterra da Índia, o que sucedeu no ano de 1947. Porém, outro problema de semelhante monta surgiu, quando a minoria muçulmana do país se recusou a permanecer no novo estado independente.
Gandhi reconheceu a independência do Paquistão em 15 de Agosto de 1947. No início do ano seguinte, mais propriamente a 30 de Janeiro de 1948, seria assassinado por um fanático hindu, que lhe desferiu três tiros, quando o “Mahatma”, acompanhado da sua neta Avah e alguns amigos, se dirigia para uma habitual reunião de preces.
“O Pai morreu”, foi com estas palavras que, um amigo de Gandhi, informou a multidão que esperava ansiosamente por notícias sobre o estado de saúde do “Mahatma”
A luta de Gandhi contra o colonialismo britânico e as injustiças das suas leis, é célebre em todo o mundo pelo princípio da resistência passiva, onde se incluem a não cooperação e a desobediência civil. Gandhi definiu assim a sua luta: “A não cooperação completa carece de uma organização completa. A desordem vem da cólera e é necessária a ausência total da violência. Antes de tudo é preciso que a ordem seja mantida e rigorosamente observada. À força brutal devemos responder apenas com o sacrifício, o amor e a fé.”
Em 1948, foi dado ao prelo o único livro que nos deixou, The Story of my experiment with Truth.
Entre outros, foram seus contemporâneos, políticos como, o português Óscar Carmona (1869-1951), o britânico Winston Churchill (1874-1965), ou o brasileiro Getúlio Vargas (1883-1954), e escritores como Rabindranath Tagore (1861-1941), Rudyard Kipling (1865-1936) ou Edward M. Forster (1879-1970).

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DIÁRIO DO ESCRITOR
“É fácil falar de Deus depois de um bom pequeno-almoço e na perspectiva de um almoço melhor. Mas, como posso falar de Deus a milhares de homens que se vêem obrigados a prescindir de duas refeições diárias? Para eles, Deus não poderá assumir melhor forma do que a de um pão com manteiga.”

MAHATMA GANDHI (1869-1948)

Manifesto Refundar Portugal e Movimento Outro Portugal em Alhos Vedros



Apresentei ontem, com a Sofia Costa Madeira, na Escola Aberta Agostinho da Silva, em Alhos Vedros, o Manifesto Refundar Portugal, do Movimento Outro Portugal, que foi entusiasticamente recebido pela assembleia. Está constituído o núcleo de Alhos Vedros do MOP, que vai organizar sessões para debater aspectos específicos do Manifesto e divulgá-lo na imprensa regional e na rádio. A nossa gratidão ao Edgar Cantante, ao Joaquim Raminhos, ao Manuel João Croca e ao Luís Santos.

Apelo a que outros núcleos se formem em todo o país, sempre com o critério de defender um país e um mundo melhor para todos os seres sencientes, não só para alguns. É necessário instaurar nas nossas vidas um novo paradigma mental, ético e cultural, com as devidas consequências sociais, políticas, económicas e ecológicas. É necessário despertar desta "apagada e vil tristeza" e do deserto de ideias em que andamos.

umoutroportugal.blogspot.com

Hoje, dia 30, sessão dupla:

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- 15h00: Biblioteca Municipal de Sesimbra
- “Entre Guerra Junqueiro e Teófilo Braga”, por Pedro Sinde e Rodrigo Sobral Cunha (Nos 100 anos da República: Ciclo Portugal Renascente)
- Apresentação de CARTAS DE NOÉ PARA NAYMA, de Carlos Aurélio (Colecção NOVA ÁGUIA)

- 18h00: Casa Bocage (Setúbal)
- Apresentação da NOVA ÁGUIA
- Apresentação de A VERDADEIRA HISTÓRIA DE ALADINO E A LÂMPADA MARAVILHOSA, de Rodrigo Sobral Cunha (Colecção NOVA ÁGUIA)

Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Entre em 2010 recordando a presença portuguesa em Macau...

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Mais de mil post's retratam (4 mil imagens...) quase 5 séculos de história.

Cerca de de 80 mil visitantes em apenas 9 meses!

http://macauantigo.blogspot.com/

Para ler o resto, vai ter que esperar pelo nº 5 da NOVA ÁGUIA...

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Luís de Araújo
SÍNTESE INTERPRETATIVA E CRÍTICA DO SAUDOSISMO
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Teixeira de Pascoaes divulgou o seu ideário saudosista, fundamentalmente, em algumas conferências realizadas no Norte de Portugal, entre 1912 e 1915 (são as seguintes: “O espírito lusitano e o Saudosismo”, “O génio português na sua expressão filosófica, poética e religiosa” e “A era lusíada” (duas conferências) e, também, num pequeno manual cívico intitulado “A arte de ser português”. Toda esta campanha em prol da restauração da “alma portuguesa” encontrou na “Saudade” a sua primordial intuição e foi divulgada nas páginas de “A Águia” – a revista do movimento da Renascença Portuguesa, animado por Pascoaes.
Mistura de recordação e ideal ou projecto, a “Saudade” definiria não apenas a verdadeira essência do pensar e sentir portugueses, mas significa, por outro lado, como que uma ideia-sentimento que tenta explicar o ser humano como resultante da queda de uma alma, cuja origem seria divina e que agora aspirasse incessantemente ao Absoluto, aceitando-se que Deus e o Mundo se interligavam na consciência humana. Tratar-se-ia, como Pascoaes sugere, de um “misticismo naturalista, idealismo saudoso”. Por consequência, é evidente toda uma mundividência de carácter panteísta em que o Poeta, através da sua intuição, como que revela ou pretende revelar a alma da Natureza, buscando descobrir hipotéticos significados escondidos nas coisas e nos seres. Entre o homem e a natureza estabelece-se uma amorosa simpatia que nada tem a ver com a atitude dedutiva e científica. Assim, é toda uma gnoseologia assente na “simpatia”, origi¬nária de uma posição de cariz sentimental que, por vezes, acabará por ocasionar uma sequência de sínteses mais ou menos arbitrárias e caprichosas – destino, afinal, de todas aquelas filosofias originadas em intuições, quase sempre, imaginárias.
Importa realçar ou abordar o “Saudosismo” como doutrina social, com ideário político para o ressurgimento nacional. Em 1914, na conferência intitulada “A era lusíada”, Pascoaes afirmou categoricamente que, desde 1820, a alma lusitana “emudecera” e toda a sua teoria da decadência resulta da constatação de um excesso de es¬trangeirismo vigente na vida portuguesa. Por um lado, o clero sempre obediente a Roma, por outro, os políticos sempre fiéis a Paris e, também, a influência da crítica, que considera anti-nacional, da chamada Geração de 70, têm sido “os obreiros da nossa desnacionalização, os inimigos do nosso espírito e, por isso, da nossa independência” (Alexandre Herculano e Antero de Quental são, para ele, símbolos do desânimo; os Positivistas são “gente lastimosa” – tal como afirmou na Póvoa de Varzim, “a nossa pretensa elite intelectual, composta, na sua maior parte, de estreitas cabeças endurecida sob a pressão de duas ou três ideias sem alcance, tem cortado as asas às tendências mais nobres e sublimes da raça portuguesa – essa águia de outrora, reduzida a misérrima ave doméstica, rastejante, esquecida de voar... Esta gente lastimosa tem a obsessão da Realidade, a qual, segundo o seu critério quase culinário, vai muito pouco além da¬quilo que se come (...) ora, nós estamos fartos da palavra cientifico” ; por outro lado, Pascoaes manifesta-se violentamente contra o que ele considerou a educação estrangeirada que já vinha do Constitucionalismo Monárquico e, em 1913, exaltar-se-á, a dado momento de uma conferência, louvando “o feliz isolamento em que o povo do campo tem vivido, longe dos grandes centros onde tudo se adultera: o pão do corpo e o pão d espírito” , e afirmaria adiante que “se a instrução que para aí se dá nas cidades, houvesse atingido o povo dos campos, nada restaria já de Portugal, além das suas paisagens” .
Paisagem, Tradição e Esperança – eis no que se resume toda uma campanha que procurava, em última análise, uma plataforma de convivência harmónica entre Tradição e Revolução.
Teixeira de Pascoaes sublinhará constantemente o amor da Pátria, porém não numa perspectiva de simples aceitação de uma concepção de vida, mas sim numa exaltação poética, por vezes quase irreal, como que cego pela ideia absurda de que certas formas gerais de pensar e de sentir de uma época são maneiras absolutas a imporem sujeição para o futuro. Preconizou algumas reformas para revitalizar a alma portuguesa e logo em 1912, na sua primeira conferência sobre o tema que nos ocupa, afirmou o desacordo profundo que existiria entre o Constitucionalismo e o espírito português – as leis não passavam de imitações estrangeiradas e os governantes são “bacharéis desnacionalizados” e impunha-se a criação de uma Igreja Lusitana, unida e dirigida pelo Estado, mas separada de Roma, já que, na opinião de Pascoaes, o alto clero também não passava de uma casta desnacionalizada, “nódoa estrangeira na nossa Pátria”, como escreveu em dado momento. E, para o renascer da autêntica portugalidade, defenderá a organização municipalista e o regresso às tradições camponesas, agrárias, e definiria o que deveria ser a República, ou seja, pelas suas próprias palavras, “uma democracia religiosa e rural” .
Nas suas outras conferências, o doutrinador amarantino sublinha constantemente a originalidade da visão panteísta e saudosista da alma lusitana, afirmar-se-á visceralmente anti-cosmopolita, considerando, por exemplo, o progresso técnico como a “forma burguesa da Civilização” , o seu entranhado tradicionalismo irá ao ponto de profetizar o regresso do Encoberto – “religião” anterior ao Bandarra e a certos comentários de Vieira, mas que passa pela Renascença Portuguesa e, em certa medida, a encontramos em alguns pensadores do movimento auto-proclamado de “Filosofia Portuguesa”. A profunda insatisfação de Pascoaes levá-lo-á a anunciar aos portugueses que há-de vir alguém realizar a grande obra necessária ao nosso ressurgimento . Neste sentido, ele apontará as finalidades do movimento da Renascença Portuguesa, basicamente dirigidas para uma intensa educação nacional que preparasse aquilo a que ele chamou o “advento da Era Lusíada” . Reuniu as linhas de rumo do seu pensamento saudosista numa pequena obra que considerou dever ser estudada nas aulas oficiais de Literatura e de História – refiro-me à “Arte de ser português”, publicada em Junho de 1915, curiosamente no momento em que aparecia a revista que iniciou o movimento modernista em Portugal – a “Orfeu”. Naquele pequeno livrinho, Pascoaes esclareceu um pouco melhor o sentido de toda a sua campanha, mormente no que respeita à organização municipalista, defendendo claramente que os municípios deveriam ser o elemento de contacto entre as Famílias e a Pátria e, deste modo, o Estado resultaria directamente da organização municipalista, “sem serem precisos”, como escreveu, “os terríveis intermediários que têm o nome de partidos” . O país seria, assim, uma espécie de confederação de municípios com autonomia, semelhante ao que Alexandre Herculano preconizara, cujos presidentes constituiriam as Cortes e teriam por função, entre outras, a de eleger o Governo.
(...)

ATÉ DOMINGO

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ESTÃO ABERTAS AS INSCRIÇÕES ATÉ DIA 31 JANEIRO DE 2010 PARA O 13º COLÓQUIO DA LUSOFONIA (5º ENCONTRO AÇORIANO) QUE TERÁ LUGAR NO

Teatro Pedro Ivo Campos, ao lado do Centro Administrativo do Estado de Santa Catarina (Saco Grande, Floripa. Brasil).

http://www.hagah.com.br/locais/jsp/default.jsp?action=detail&uf=2&local=18&regionId=2&locale=C18&ingrid=369378&category=&genre=&filter=&what=

ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA FUNDA O TEMPO E O MODO


DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO

A 29 de Janeiro de 1963, António Alçada Baptista, nascido na Covilhã a 29 de Janeiro de 1927, funda a revista de cultura O Tempo e o Modo, da qual foi director na sua primeira fase, até 1969.

António Alçada Baptista formou-se em advocacia na Faculdade de Direito de Lisboa. Dedicou-se ao jornalismo, tendo sido director do jornal O Dia, e à difusão cultural através da editora Moraes.

Em 1984 exerceu o cargo de presidente do Instituto Português do Livro.

A sua produção literária é multifacetada, passando pelo ensaio, crónica, memorialismo e narrativa, tendo como característica principal, a tentativa da transformação do homem e da sociedade por imperativo interior de uma forte vinculação à transcendência, sendo a sua obra mais significativa, Peregrinação Interior.

Animado por este espírito, António Alçada Baptista funda a revista de cultura O Tempo e o Modo, com um grupo de estudantes universitários que participavam na «Acção Católica». A revista segue o modelo da Esprit, tornando-se um símbolo da geração de 60.

No dizer de João Bénard da Costa, a grande novidade da revista foi “institucionalizar historicamente o diálogo entre crentes e não-crentes”

Mário Soares, numa homenagem a António Alçada Baptista confessou que, este último, o convidou, e também a Salgado Zenha, para integrarem o quadro de redactores da revista, ao que Soares terá respondido que era agnóstico. Mesmo assim, os redactores da revista foram a votos, tendo, porém, rezado antes da votação um Pai-Nosso.

Após a votação, Soares e Zenha foram admitidos nos quadros da revista.

DIÁRIO DO ESCRITOR

29 de Janeiro de 2009

A PRIMEIRA DESILUSÃO

Logo que soube que ias à festa,

Passei a noite no desatino do ata, desata.

Apesar de jeitoso não me safei,

Sem pedir ajuda para o nó da gravata.

Com a lâmina rapei a pouca barba,

Penteei a trunfa, vesti o domingueiro fato.

E já que por ti pusera a odiada coleira,

Cuspindo, engraxei o bicudo sapato.

Os rapazes levavam altas bebidas,

As meninas comida para os tolos.

Ao meu pai surripiei uma garrafa de whisky,

Para te impressionar comprei uma dúzia de bolos.

Logo que tocou o primeiro slow,

Fui-te buscar para dançar.

Sentir todo o teu corpo no meu,

Foi tão bom que não deu para acreditar.

Disseste ires ao WC no fim do salão,

De mão dada com outro te vi a sair.

Tornaste-te na minha primeira desilusão,

E fizeste-me embebedar até cair.

Os rapazes levavam altas bebidas,

As meninas comidas para tolos.

Ao meu pai surripiei uma garrafa de wihsky,

Para te impressionar comprei uma dúzia de bolos.

JOSÉ LANÇA-COELHO

"Afinal quem é que manda neste país?"

Lúcio Pinheiro dos Santos: o homem da "ritmanálise"


Para ler o resto, vai ter que esperar pelo nº 5 da NOVA ÁGUIA...


(...)
Fundada em 1912, análoga da «Renaixença» catalã, a «Renascença Portuguesa», cujo carácter regeneracionista inspirou outras iniciativas posteriores, incluindo as tradicionalistas, veio com o propósito de revelar a alma portuguesa e de a integrar nas suas originais qualidades (conforme Pascoaes escreveu a Unamuno em 23 de Setembro de 1911), em síntese, para levar a efeito a educação para a República, algo em que os «revolucionários» jamais tinham dado provas de terem pensado, propondo a maior cultura do povo português em geral e em particular. Estes propósitos são assumidos como efectivos e primordiais, da missão se incumbindo diversas iniciativas, entre as quais avultou, pelo significado e influência, a revista A Águia, em que abunda o primado da educação e da procura dos fundamentos. Esse problema abonou as tendências maiores do movimento, desde o Criacionismo de Leonardo Coimbra, ao Saudosismo de Pascoaes e aos pragmatismos sócio-políticos de Raul Proença e de António Sérgio.
O breve escrito de Laranjeira vem como que em admonição às futuras acções, para além do evolucionismo social de Spencer, e apresenta ainda (não tanto como na sua obra posterior) a junção de um estoicismo e de um pessimismo, absorvidos dos Gregos e de Schopenhaeur, à paradigmática sugestão, haurida em Nietzsche, do Superhomem (Uebermensch) – atribuindo ao homem a construção de um destino, já que, no seu entendimento, Deus é o inexistente – ideia com a qual ele se não conformava, pondo o homem na situação de providência operativa.
Essa perspectiva envolve a ideia de «homem perfeito», em que as superiores qualidades da vida se manifestem, não para, qual besta, dominar as minorias (como ocorre nos totalitarismos, um dos quais agora reivindica ter tido papel importante na instauração da liberdade em Portugal, esse mesmo que tentou subjugar em nova ditadura…) – mas para delas elevar o maior número à superioridade, o que desde logo enuncia a díade maioria/minoria e, por redução, a díade mediocridade/superioridade, massa/elite. A alma das maiorias é o homem superior, estando para além do seu tempo e cuja razão paira acima das maiorias. No entanto, são as maiorias que sustentam as Democracias, o poder do tipo médio de cada época, quando seria de esperar que a Democracia fosse regida por uma alta aristocracia do espírito, por cidadãos superiores em vez de pessoas eleitas para baterem palmas no Parlamento. É isso que acontece em Portugal? Se não é, deveria sê-lo, não obstante ser evidente que várias revoluções se reivindicam do sucesso. Convém, a uma fria lucidez, entender que, de revoluções portuguesas só houve três: a de 1385, que garantiu a independência, a revolução dos Descobrimentos que mostrou os mundos ao mundo e a de 1640. Tudo o mais não passou de motins, cujos actores têm sido os militares, a que se costumam acoplar os que se julgam aristocratas da política.
A razão das maiorias reduz-se a uma energia passiva, enquanto «a razão dos homens superiores é uma força criadora» – o perpetum mobile do progresso, segundo Laranjeira. E, segundo Proença, elas só evoluem «lentamente, caminhando para o futuro e para o progresso devagar». Na luz de Zaratustra, abomina-se o «rebanho escravo», que a demagogia pode aclamar como o «superhomem colectivo».
No ideário aquilista, educação e instrução correspondem às duas rodas de um veículo girando num eixo, – a axialidade, ou a teoria dos valores.
O confronto social não se reduz à esfera dos interesses sociais; é o confronto das políticas de espírito – a supremacia das deficiências das maiorias perante a qualidade das minorias. Ora, ainda que «o direito dos homens superiores […] seja proclamar a verdade», as maiorias são felizes nas aparências. Facilmente se deslumbram e se deixam levar por quem lhes fale ao coração. E, na história da Humanidade, o governo dos Povos é feita por minorias elevadas a aristocracias pelas maiorias a uma áurea mediocritas, na sua corrupta acepção, depois de sacada da concepção clássica[1].
A professa integração de Teófilo Braga no Positivismo, não lhe fechou os olhos para estabelecer o diagnóstico do Estado, diagnóstico esse tornado público em livro, já depois do novo regime implantado. De acordo com ele, o país estava doente de três moléstias: a anarquia intelectual (desorientação política, partidos sem ideias, mal estar social); anarquia moral (carência de hombridade, impreparação para conviver em República); e anarquia económica (os sistemas financeiros, os sistemas tributários e a ditadura governista dos impostos). Em convergência com os pensadores não-positivistas, Teófilo advertiu para que uma educação filosófica prevalecesse sobre a acção considerada política[2].
Cem anos se passam sobre a aparição de A Águia e outros cem sobre a proclamação da República. Aquela, espaço de reflexão e de pesquisa de uma epistemologia política; esta, avançando todo o terreno, sem saber onde iria ter. Neste caso, que mudou? Antes se aprofundou a falta de graça, mesmo considerando, como atenuante para os agentes dos factos, a teoria da relatividade do sofrimento segundo Paulo Orósio: o sofrimento presente é mais intenso e mais extenso do que o sofrimento passado, que o tempo esmaeceu e deliu.
O justo juízo carece das coordenadas de longidade, da presentidade e da posteridade, como Orósio escreveu, na História contra os Pagãos (Livro III), mas já hoje não podemos ignorar que, na prática prolongada, a República foi um desencanto para os sérios pensadores dela. Veio como um regime de violência, de fome, e de esbulho, sobretudo do património eclesial[3]. Quando metade do país vive no limiar da pobreza e, pelo menos dois milhões em pobreza total, constitui um sacrilégio gastar dez milhões de Euros (fora os que as autarquias gastarão de suas contas) para celebrar a efeméride[4], num acto de agravamento àqueles a quem foi prometida uma sociedade justa e feliz.
Estamos pobres. Resta-nos, todavia, o que ninguém pode tributar-nos: a Esperança num mundo novo, em cujo horizonte A Águia voe em liberdade, na verdade, fora das trevas.

[1] Cf. A Escola e a República, in A Águia, n.º 1, pp. 10-11. Na mesma edição, cf. os artigos de Leonardo Coimbra, «Sobre Educação» e de Pascoaes, «Os Lavradores Caseiros». Cf. Aristóteles, Ética a Nicómaco, 1106 a, 27-32.
[2] T. Braga, Soluções Positivas de Política Portuguesa, Porto, 2 vols., 1912-1913.
[3] Cf. P. Gomes, Entre Filosofia e Teologia, ed. cit., os capítulos sobre Bruno e o 31 de Janeiro, A tensão doutrinal na «Renascença Portuguesa», etc.
[4] Cf. Declarações de Paulo Teixeira Pinto ao Correio da Manhã, 11.12.09, p. 44.

"Portugal, porque reaparecesse um vínculo colectivo, voltaria a ser uma Pátria"



“É que decididamente, havia então, há hoje só uma palavra: – República!Hesita ainda, apesar de tudo, uma parte da nossa população letrada. E, inquieta, pergunta a si-mesmo o que seria, se em Portugal se implantasse a República.Há pouco mo perguntaram, para que em público à pergunta respondesse.Respondi começando por advertir que o pedido que me era feito me recordara certo incidente da história anedótica, literária e política, nossa contemporânea.Com efeito, quando aqui há anos exerceu o seu efeito sobre a poesia portuguesa o simbolismo francês, uma das composições que apareceram e mais impressão causaram tinha o título fúnebre Quando a morte vier, e dizia os filosóficos desenganos das vaidades mundanais que no pó das sepulturas liquidam.Logo nas colunas literárias duma folha política lisbonense se leu uma paródia a essa peça de versos, e esta paródia por título tinha: Quando a República vier, e dizia o descalabro dos egoísmos devoristas, que na igualdade democrática finalizam e concluem. Havia um ritornello típico. Era este:

Quando a República vier,
Ireis cavar pés de burro;
Ireis cavar pés de burro,
Quando a República vier.

E não teriam direito de queixumes aqueles que fossem dispensados por haverem gozado até ali do favoritismo que vive, parasitariamente, do trabalho nacional. Pois que só esses é que receio possam nutrir de que de os prejudique o advento da República. Visto como a República não é o governo dum partido nem o monopólio de tal ou tal casta de gente. A República é, pelo contrário, o governo de todos, por todos e para todos. A causa da República compreende todo o país e, no fim e ao cabo, a República é a Nação.Se, pois, a República se implantasse em Portugal, o povo português adquiriria a consciência da soberania e ganharia as virtudes políticas que fundamentam a dignidade cívica. Ele tomar-se-ia a sério. Respeitar-se-ia, e o verdadeiro patriotismo faria pulsar os corações. Se a República se implantasse em Portugal, o progresso da civilização portuguesa seria ininterrupto e logo de início se assinalaria pelo timbre de grandíssimos avances efectuados. Se a República se implantasse em Portugal, o povo português viria novamente a contar na história do mundo, onde hoje, quando não é desprezado, passa despercebido.Se a República se implantasse em Portugal, Portugal deixaria de ser aquele «sítio onde cinco milhões de egoísmos se exploram reciprocamente e se aborrecem em comum», consoante da definição pretérita de Eça de Queiroz. Portugal, porque reaparecesse um vínculo colectivo, voltaria a ser uma Pátria. E essa Pátria novamente se integraria na Civilização.Consequentemente, ontem como hoje, hoje como ontem, ainda e sempre uma só palavra havia, uma só palavra há: - República!
FIM”


Sampaio Bruno, in A Dictadura, Lello & Irmão, 1909

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