A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Espírito ou a mente?

"[...] é o Espírito o traço comum de sujeito e objecto, por onde se estabelece todo o diálogo; é o Espírito a fonte indefinível de onde a vida pode fluir sob quaisquer formas, aquelas que eu conheço e venero ou não, e aquelas de que nem sequer posso ter uma ideia; é o Espírito que anima os que estão comigo e os meus adversários; Foi o Espírito quem me trouxe o Cristo e quem a outros trouxe Buda, Maomé e Lao-Tseu; foi o Espírito quem me deu Eckhart e quem me deu a geometria analítica, nele se reconciliam Aristóteles e Platão, nele se acabam as geografias, ou políticas, que separam Ocidente de Oriente"

- Agostinho da Silva, Ecúmena [1964], Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 193-194.

domingo, 29 de agosto de 2010

Próximo Sábado

A Sociedade de Instrução e Recreio Messinense, em S. Bartolomeu de Messines, acolhe, no próximo sábado, dia 4 de Setembro, pelas 21:30, uma sessão de poesia, a propósito do livro Catedral, de Isabel Xavier. A apresentação da obra estará a cargo de Carlos Vargas (Director da Caixa Agrícola de S. Bartolomeu de Messines, patrocinadora da iniciativa), da autora e de Carlos Aurélio, autor da capa e das ilustrações de Catedral.

Por uma “Justiça célere e equitativa”

.
Foi o segundo debate sobre os desígnios nacionais da candidatura presidencial de Fernando Nobre. O primeiro, em prol de uma “Lusofonia global e dinâmica”, realizou-se em Julho – ontem, debateu-se em prol de uma “Justiça célere e equitativa”.

Para uma candidatura que promove tão abertamente o valor da cidadania, este é, decerto, um desígnio fundamental. Não sendo condição suficiente, a existência de uma “Justiça célere e equitativa” é, certamente, condição necessária para uma efectiva cidadania.

Começou-se pelo diagnóstico, tão óbvio quanto verdadeiro: não temos, infelizmente, uma Justiça célere e equitativa. A única dúvida está em saber em que plano a Justiça está pior: se no plano da celeridade se no da equidade. Em qualquer caso, porém, isso mina a Justiça que (não) temos. Se uma Justiça não célere acaba por ser uma Justiça injusta, o mesmo acontece, de forma ainda mais óbvia, quando não há equidade no acesso à Justiça. Isso é algo que, de resto, mina a própria cidadania, dado que, ao não haver equidade no acesso à Justiça, se cria a sensação – mais do que a sensação, a realidade – de haver várias classes de cidadãos: os de primeira e os de segunda, os “filhos” e os “enteados”, etc.

Decerto, como foi também reconhecido, não é ao Presidente da República que cabe, por si só, dar a volta à situação. Mas a sua influência pode ser fundamental. A sua influência e o seu exemplo. Daí, também, a força desta candidatura. Só um Presidente supra-partidário pode ser realmente isento. Só um Presidente realmente isento terá a autoridade suficiente para exigir equidade na Justiça…

Publicado em:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/08/por-uma-justica-celere-e-equitativa.html

sábado, 28 de agosto de 2010

Cada nascimento é a tentativa vã de caber no mundo. Morrer é a prova de que não conseguimos.

DO FUTURO DA FILOSOFIA PORTUGUESA: BREVE NOTA (EM MEMÓRIA DE ANTÓNIO TELMO)

.
“Se admitirmos que o homem é, de algum modo, a sua circunstância – a circunstância orgânica (a par de outras, a família, a sociedade, etc.) é a Pátria ou a Nação.”(1)

O homem não é, ou não é apenas, uma “pura abstracção”, mas um ser concreto, universalmente concreto, um ser que, de resto, será tanto mais universal quanto mais assumir essa sua concretude, a concretude da sua própria circunstância. Dessa circunstância faz axialmente parte a “pátria”, isso que, segundo José Marinho, configura a nossa “fisionomia espiritual”(2). Nessa medida, importa pois assumi-la, tanto mais porque, como escreveu igualmente Marinho, foi “para realizar o universal concreto e real [que] surgiram as pátrias”(3). Ainda nesta esteira, propõe-nos Marinho a distinção entre “universal” e “geral” – nas suas palavras: “O geral tem âmbito mais restrito e insere-se na prossecução de conceitos, o verdadeiro universal está já numa relação da intuição para a ideia e vincula o singular concreto e indefinível com o uno ou o único transcendente.”(4). Daí, enfim, a sua expressa defesa de uma filosofia situadamente portuguesa, não fosse esta “dirigida contra o universalismo abstracto e convencional de escolásticas e enciclopedistas em que têm vivido" (5) ”.
Esta é, contudo, apenas uma possibilidade, não, de modo algum, uma inevitabilidade, nem sequer, muito menos, uma obrigação. Não se trata aqui, com efeito, de instituir um “serviço filosófico obrigatório” de forma a garantir a existência da “filosofia portuguesa”. Esta existirá apenas enquanto existir pelo menos uma pessoa que, de forma inteiramente livre, se assuma na dupla condição de “filósofo” e de “português”.
Que cada um de nós dê pois, se quiser, o passo em frente…

(1) Francisco da Gama Caeiro, in AA.VV., Ao Encontro da Palavra: homenagem a Manuel Antunes, Lisboa, FLUL, 1986, p. 40.
(2) Estudos sobre o pensamento português contemporâneo, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1981, p. 19.
(3) Cf. O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra e outros textos, “Obras de José Marinho”, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001, p. 502
(4)Filosofia: ensino ou iniciação?, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Investigação Pedagógica, 1972, p. 45.
(5) Cf. Filosofia portuguesa e universalidade da filosofia e outros textos, “Obras de José Marinho”, vol. VIII, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2007, p. 553. Essa é, pelo menos, a sua “interpretação”: “…minha interpretação arranca de um sentido da filosofia nacional para uma singularidade de pensar mais autêntica e para uma universalidade mais verdadeira, filosofia [que] se não demonstra por meio de juízos e afirmações, mas por um pensamento que tenha em si próprio o cunho da autêntica universalidade (…).” [ibid., p. 352].

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Passagem de Raimon Panikkar, pensador planetário, colaborador e membro da Comissão de Honra da revista "Cultura ENTRE Culturas"



http://www.corriere.it/cultura/10_agosto_27/panikkar-sacerdote-filosofo_fdbddf64-b1b3-11df-a044-00144f02aabe.shtml

Raimon Panikkar partiu ontem deste mundo. Recebo uma notícia que já aguardava. Estive para me encontrar com ele em 14 de Janeiro deste ano, para o entrevistar para o primeiro número da revista "Cultura ENTRE Culturas", que dirijo. O encontro foi cancelado uns dias antes, devido ao seu extremo cansaço. Ainda enviou um texto, que publiquei no referido número e que deve ter sido uma das últimas, senão a última, das suas intervenções públicas, pois logo a seguir recebi uma circular para os amigos dizendo que se retirava de todas as aparições públicas directas e indirectas e pedindo que nos mantivéssemos em contacto pela oração, na fase final da sua vida. Foi o grande mentor de um verdadeiro diálogo intercultural e inter-religioso, ainda muito longe de acontecer, e deixou uma obra enorme, verdadeira ponte entre Oriente e Ocidente, lamentavelmente muito desconhecida ainda. Admiro-o imenso e tive a honra de prefaciar o seu livro "O diálogo indispensável. Paz entre as religiões" (Zéfiro, 2007), entre nós praticamente ignorado.

Que repouse na Paz e na Luz, transcendentes a todas as religiões e vias!

Do sectarismo ideológico

.
Segundo o que se pode hoje ler nos jornais, a ala mais esquerdista do Bloco de Esquerda denuncia o apoio deste ao candidato Manuel Alegre, dada a sua “demagogia nacionalista” (?), “nostalgia colonial” (??) e “exaltação da disciplina militar” (???), aproveitando ainda para zurzir no Doutor Fernando Nobre, qualificado como um “imitador de Alegre” (???!!!).
Nada de espantar. O sectarismo ideológico dá sempre nisto: numa projecção dos fantasmas interiores. Lêem-se muitas barbaridades nos jornais…

Publicado em:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/08/do-sectarismo-ideologico.html

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

ALEXANDRE HERCULANO E O BRASIL

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA COELHO


No ano do 2º centenário do nascimento de Alexandre Herculano (1810-2010) abordemos as ideias que o introdutor do romance histórico em Portugal tinha acerca da grande nação irmã.

Servem-nos de referência dois artigos escritos pelo autor de O Monge de Cister nos dois primeiros números da Revista O Panorama, datados dos anos de 1837 e 1838.

Pioneiro do intercâmbio entre Portugal e o Brasil, Alexandre Herculano abordando esta problemática, escreve o seguinte no primeiro número da Revista Panorama, de 1837:

Ainda que hoje vasto império, separado de Portugal, forme por si uma nação independente por todos os títulos, não deixam contudo os brasileiros de ser irmãos dos portugueses.”

Explicando a separação entre as duas nações, o autor das Lendas e Narrativas argumenta do seguinte modo:

“Porque uma grande família não pode viver reunida, segue-se, por ventura, daí, que os membros de que ela se componha, sejam entre si estranhos? Se um filho chegado à idade viril, saiu de sob a tutela materna, deverá sua mãe, amaldiçoá-lo por isso? Neste caso está o Brasil, a sua idade viril tinha chegado. Mais rico do que Portugal; com uma civilização sempre progressiva; produzindo génio, e homens extraordinários, era absurdo ou antes impossível que os seus habitantes deixassem de conhecer que Portugal não tinha jus a tratá-los como colonos. A consciência desta verdade, causou a Revolução do Brasil e a revolução era justa. Nós tentámos a sorte das armas porque o orgulho nacional fora ofendido; mas a sorte das armas nos foi contrária e a independência do Brasil foi reconhecida.”

Depois de explicada a separação entre os dois países, Alexandre Herculano não se coíbe de enunciar os caracteres que unem as duas nações irmãs:

“Esses acontecimentos pertencem já à história; os ódios recíprocos estão extintos e os dois povos ligados por laços de sangue, falando a mesma língua, seguindo a mesma fé; habituados a usos e costumes mui semelhantes, nada mais devem ser do que aliados fiéis e amigos sinceros. A razão, a política, e até a religião aconselham estes sentimentos a ambas as nações.”

De seguida, o autor de O Bobo denuncia algumas atitudes nocivas para Portugal:

“O nosso povo não conhece isto inteiramente [as vantagens da aproximação entre os dois países]; ainda não percebe até que ponto a fraternidade com os seus irmãos de além-mar lhe pode ser vantajosa. Afiguram muitas pessoas o Brasil como um país ainda inculto e bárbaro; crêem que a civilização, as artes e os cómodos da vida são apanágio só dos europeus. Erro miserável que cumpre derrubar pelo pé.”

E as atitudes a tomar para combater essas mesmas atitudes:

“Importa fazer saber ao povo a verdade e destruir preocupações vãs que só servem de transviar o espírito público do que lhe pode ser proveitoso. Nós, pela nossa parte trabalharemos nisto com ânimo sincero de ser úteis aos nossos compatriotas; e das pessoas ilustradas do império brasileiro receberemos quaisquer notas ou rectificações, que tiverem a bondade de nos comunicar, sobre o que escrevemos acerca do seu país.”

Alexandre Herculano enuncia então, os sectores de actividade (agricultura, comércio, navegação e indústria) em que a antiga colónia portuguesa se mostra de uma grande fortaleza:

“O Brasil é uma terra de esperanças. As produções quase espontâneas do seu extensíssimo solo, regado por tantos rios caudais que facilitam o trato do comércio, o tornam independente dos outros povos, ao passo que estes dele carecem para muitos objectos que se têm convertido em necessidades da vida. À sombra de boas leis, e se alcançar a tranquilidade interior, aquele império crescerá cada vez mais em navegação e em indústria; assim o horizonte do seu futuro brilhante não é fácil: (difícil) de compreender.”

Como afirmámos atrás, Alexandre Herculano dedicou um segundo artigo à nação irmã, publicado no nº 2 da Revista O Panorama, em 1838, intitulado “População carácter, usos e costumes dos habitantes, produtos”. Assim, começando por caracterizar o povo brasileiro, escreve:

“Se entre eles se considerarem individualmente os homens das raças diferentes e até opostas, de que a Nação é formada, dificultoso empenho será fazer uma ideia apurada do carácter nacional, cujos principais toques são a vivacidade e a agudeza juntas a certa leveza, que nem sempre a reflexão alcança moderar. Têm comummente os brasileiros notável aptidão para o estudo das ciências e das boas letras e é de esperar «que de futuro venham por esta parte a servir de modelo do Novo-Mundo»”.

É de realçar que, muito antes de Stefan Zweig e outros intelectuais que defenderam que o Brasil seria o líder do Novo-Mundo, já Alexandre Herculano entrevia que o país irmão era a nação do futuro, ao mesmo tempo que, chegava ao ponto de caracterizar os comportamentos de alguns habitantes de regiões significativas como, o paulista, o mineiro, o sergipano e o pernambucano.

Saliente-se que Herculano baseava os seus juízos no livro do bispo de Pernambuco, Azeredo Coutinho, intitulado Ensaio Económico sobre o Comércio de Portugal e suas Colónias, e onde se combate a tese de Montesquieu em que o filósofo francês defende a falta de habilidade e de carácter dos povos de países quentes.

Alexandre Herculano defende os brasileiros, salientando a não existência de racismo no Brasil, quando escreve:

“(…) em nenhuma região do Novo-Mundo são mais bem tratados os pretos; e cumpre notar que as distinções que nascem da cor da pele são no Brasil menos sensíveis do que em qualquer outra parte.”

O conhecimento do autor da História de Portugal acerca do Brasil é de tal modo específico que, termina o artigo que vimos referindo, enunciando as várias produções do subsolo brasileiro:

“ (…) pedreiras de granito nas vizinhanças do Rio de Janeiro; pedreiras de pedra calcárea, de pedra de afiar e de amolar, de lousa, de amianto; pedreiras de mármore no distrito de Sabará; pedras preciosas em Minas Gerais e outras partes do Brasil [mas] tem menos valor que as da Índia Oriental. Platina na Serra de Mendanha; chumbo no Rio de S. Francisco, zinco em Tocayos.”

Relativamente ao ferro, Herculano seguindo as informações do Barão de Eschwege, escreve:

“(…) o ferro é tanto em Minas que teria sido suficiente para abastecer todo o mundo, sem que nunca ali se esgotassem as minas dele.”

Antes de terminar o artigo, Herculano refere sumariamente as espécies vegetais com características medicinais e as que servem para construções:

“(…) é grande a abundância de madeiras para navios, transportes e construções de todo o género”

ao mesmo tempo que, cita a importância da pecuária,

“cria-se naquela região maravilhosa [Pernambuco] grande cópia de gado, sendo o vacum tanto que se matam centenas de bois só para lhes aproveitar o couro”

e da pesca:

“Pelos mares e rios do Brasil vivem cardumes de peixes e as pescarias da Nação podem chegar a grande apuro.”

A finalizar, diremos que, Alexandre Herculano ao escrever estes dois artigos sobre o Brasil, revela uma agudeza de espírito e uma capacidade de previsão, que apenas é exclusivo dos grandes génios. Pensamos assim, que esta é a melhor homenagem que podemos fazer ao Homem, ao Intelectual e ao Historiador, na passagem do segundo centenário do seu nascimento.

A morte da "Filosofia Portuguesa" (texto de Miguel Real sobre "Uma Visão Armilar do Mundo", publicado no JL de 25 de Agosto)



O movimento da “Filosofia Portuguesa” nasceu em 1943, em torno da publicação do livro de Álvaro Ribeiro, O Problema da Filosofia Portuguesa, reivindicando o legado espiritual de Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoais, Leonardo Coimbra e Fernando Pessoa. Neste movimento cultural ganhou raízes um dos mais importantes grupos de pensadores portugueses do século XX – José Marinho, António Quadros, Afonso Botelho, Orlando Vitorino, Pinharanda Gomes, António Braz Teixeira… -, que revolucionaram o pensamento filosófico português. Com a recente publicação de Uma Visão Armilar do Mundo, de Paulo Borges, autor cujos primeiros livros operavam o cruzamento entre as teses da “Filosofia Portuguesa” e a filosofia de Agostinho da Silva, pode dar-se por terminado este movimento. As teses fundamentais da “Filosofia Portuguesa” sublinhavam o sentido nacional de um espiritualismo profético firmado na língua portuguesa, um providencialismo vanguardista firmado na cultura portuguesa, um serviço missionário prosélito e messiânico de regeneração de Portugal contra o positivismo, o materialismo e o cientismo europeus. O Império aí estava para garantir e recordar aos cépticos o papel de Portugal no mundo como rosto avançado da espiritualidade cristã. Porventura os mais fortes documentos históricos sintetizadores das teses do grupo serão os números 1 e 2 da revista 57. Movimento de Cultura Portuguesa (dir. António Quadros), o primeiro com o “Manifesto de 57” e o segundo com o “Manifesto sobre a Pátria”, bem como o texto O Espírito da Cultura Portuguesa (1967), de A. Quadros. Assim, em finais da década de 1950, princípios da de 60, o núcleo filosófico das teses aristotélico-cristãs alvarinas, apresentado em 1943, ganhara uma dimensão política patriótica e imperial.

Paulo Borges, sintetizando o núcleo central das teses da “Filosofia Portuguesa” a partir de cinco estudos relativos ao Quinto Império (Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva) e da transformação dos dez mitemas da cultura portuguesa de A. Quadros em “instâncias [ontológicas] de realização de si”, do “nosso ser e consciência mais universais e profundos” (p. 206), propõe uma verdadeira desnacionalização da “Filosofia Portuguesa” [“o conceito de identidade nacional é, pois, tal como o de identidade pessoal (…) uma mera abstracção que em última análise apenas funciona na lógica da ignorância dualista que predomina na mente humana”, pp. 230-231), integrando-a na lógica de um “patriotismo transpatriótico” (p. 232), universalista, superador de Portugal e da lusofonia numa comunidade ecuménica, global, de toda a humanidade.


Para Paulo Borges (cf. Manifesto “Refundar Portugal”, pp. 235 – 243), as “pátrias” fazem parte, hoje, do “círculo vicioso e infernal” (p. 232) que impede a existência de uma “cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, que hoje se sabe não poder visar apenas o bem da espécie humana, mas também a preservação da natureza, da biodiversidade e do direito à vida e ao bem-estar de todas as formas de vida animal, como condição da própria sobrevivência da espécie humana e da qualidade e dignidade ética da sua vida” (p. 236). Dito de outro modo, o nacionalismo, sobretudo o nacionalismo filosófico, é encarado hoje como um prolongamento serôdio (senão uma excrescência) do século XX. De certo modo, o novel conceito de “razão atlântica”, de A. Braz Teixeira, já apontava neste caminho, mantendo, no entanto, um vínculo ontológico forte à língua e à cultura portuguesas. Neste sentido, a uma época de globalização corresponde um pensamento globalizado, no qual, ainda que com sólido respeito pelas filosofias passadas, como o faz Paulo Borges, a busca de novas raízes e novos horizontes de transcendência superam o arreigamento aos clássicos conceitos históricos gerados em torno da rivalidade entre pátrias e nações.

Neste sentido, Uma Visão Armilar do Mundo estatui os cinco grandes autores portugueses acima citados, não como estritos pensadores da identidade nacional, como limitados “pensadores portugueses”, mas, enquanto portugueses, autores que visariam, de um modo universal, as quatro características manifestadas simbolicamente na “esfera armilar”: “perfeição, plenitude, totalidade e infinidade” (p. 10). Como se vê, não se trata de “nacionalizar” Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva, mas, ao contrário, de os universalizar como símbolos passados de um mundo novo português e lusófono, num “ímpeto de ser tudo de todas as maneiras e nisso sacrificar, esquecer e perder a própria identidade, transfigurando-a divina e cosmicamente” (p. 11). Ou seja, para que Portugal ressuscite sob formas superiores, Paulo Borges defende a morte do Portugal do século XX (o Portugal monárquico, republicano, estadonovista, socialista, social-democrata), integrando-se no grande futuro global do mundo, regido por outras e muito diferentes regras, que os antigos designaram por Quinto Império.

Importantíssimo chamar a atenção do leitor que, com este livro, Paulo Borges, sem abandonar a tematização sobre a vocação universal da cultura portuguesa, “despatriotiza” e “desnacionaliza” vincadamente o seu pensamento, marca permanente da sua filosofia desde Do Finistérreo Pensar (2001), sublinhando as características mais fundamente filosóficas (isto é, universais, ontológicas, metafísicas) e minimizando as mais explicitamente circunstanciais ou “nacionais”, ou, melhor, espiritualiza (o primado da consciência) de um modo “armilar” o que restava pertinente ou exclusivo da cultura portuguesa. Face a um pensamento assim tão pujantemente planetário, as teses da “Filosofia Portuguesa”, fundadas num aristotelismo cristão (Alv. Ribeiro), num esoterismo português (A. Telmo) ou numa “patriosofia” (A. Quadros), com uma particular apetência para o repensamento do Deus cristão (Amorim Viana, Cunha Seixas, Sampaio Bruno, Pascoaes), constituem-se como figuras tutelares, avoengos de retrato figurado nas galerias da história passada. Paz à sua alma (a “Filosofia Portuguesa”), que a vida lhe foi farta e, com discípulos como Joaquim Domingues, Paulo Borges, Renato Epifânio, Rui Lopo, António Cândido Franco e Rodrigo Sobral Cunha, a terra não lhe será pesada.

Uma Visão Armilar do Mundo. A Vocação Universal de Portugal em Luís
de Camões, Padre António Vieira, Teixeira
de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva
,
Lisboa, Editora Verbo, 2010, 243 pp., 18 euros.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O que é Portugal? - II

II
Para quem esteja habituado a pensar Portugal como uma id-entidade, seja qual for a determinação fundamental que lhe der – espiritual, material, histórica, cultural, política, sócio-económica, etc. - , a análise anterior parece haver conduzido a uma dissolução de Portugal, a uma anulação da sua existência, que aparenta contradizer o mais elementar senso comum e a evidência de que há efectivamente alguma coisa de diferenciado, singular e concreto nisso que se concebe e designa como Portugal.

Se analisarmos bem, veremos que assim não é e antes pelo contrário. A demonstração da não constituição de Portugal como id-entidade, em si e por si, fora da sua conceptualização e id-entificação mental e emocional, que é uma identificação do construtor com isso mesmo que constrói, a demonstração de que, nesse sentido, nunca houve Portugal como uma entidade separada dos sujeitos em devir que o constroem e se constroem pelo pensamento, pela palavra e pela acção, não pode obviamente ser uma destruição ou anulação do quer que seja, pelo simples facto de não se poder destruir algo que nunca existiu, não existe e jamais pode vir a existir. O despertar de um sonho ou o dissipar de uma miragem não destroem nada de realmente existente e, na verdade, nem sequer destroem uma ilusão: apenas deixam de a alimentar, apenas designam o fim da construção, inconsciente, de uma falsa percepção do real, apenas assinalam o cessar de uma ficção da consciência pelo seu reconhecimento como tal. Do mesmo modo, o despertar do sonho ou da miragem de um Portugal substancial, existente em si e por si, dotado de uma id-entidade autárquica e imutável, um Portugal-ser e essência, não destrói nada, porque nada disso há para destruir. Analisado e revelado na sua natureza autêntica, Portugal não passa do ser ao não-ser, revelando-se antes a impertinência dos conceitos de ser e não-ser para pensar a natureza profunda das coisas, sejam nações ou indivíduos.

O que se revela então como a natureza autêntica disso que designamos, pensamos e vivemos como Portugal e que antes concebíamos de forma identitária? Precisamente a mesma natureza de tudo o mais: um devir, um fluxo, um processo, uma metamorfose. O que não quer dizer que, na trama global do devir do mundo e da consciência, esse devir, fluxo, processo e metamorfose a que chamamos Portugal não assuma, a cada instante e ao longo de períodos mais ou menos contínuos, certas diferenciações e singularizações específicas, sempre em mutação e inseparáveis daquilo de que se destacam e das consciências que as apreendem e vivenciam. Essas diferenciações e singularizações momentâneas, elas mesmas sempre em gestação e metamorfose, não podem, por isso, jamais pensar-se como diferenças e singularidades definidas, definitivas e constitutivas, enquanto propriedades intrínsecas ou modos expressivos de uma alma, espírito ou ser nacional, no sentido da id-entidade substancial e essencial cujo equívoco denunciamos. É aliás livres de todas as categorias e (pre)conceitos identitários que podemos aceder mais intimamente à experiência dessa diferenciação e singularização, diríamos energética, do processo que designamos como Portugal, patente na paisagem, nos animais, nos rostos, nos afectos, nas falas, nos odores, nos sabores, nas tradições, inovações e aspirações, em tudo isso que, livre de o isolarmos como nacional, nos entreabre um Portugal mais profundo, um outro Portugal, trama de cintilações em devir do jogo do mundo. É quando não pensamos identitariamente que se respiram as atmosferas e se revelam as tonalidades mais íntimas e profundas, complexas e múltiplas, sempre em mutação e interacção, dos povos, nações e culturas.

Que Portugal seja um devir, um fluxo, um processo e uma metamorfose é precisamente o que a história política mostra, uma mutação contínua, complexa e interdependente onde o fixismo utilitário demarca períodos cronológicos que na verdade não são senão recortes fotográficos de um mais fundo e complexo fluxo de eventos e vivências que escapam à comum apreensão e ao seu registo convencional (para não falar da história cultural, onde as múltiplas, distintas e simultâneas linhas de mutação são ainda mais evidentes): Fundação, Descobrimentos e Expansão, Domínio Filipino, Restauração, Império Brasileiro e Independência do Brasil, Guerras entre liberais e absolutistas, Regeneração, Implantação da República, Estado Novo, 25 de Abril e restauração da democracia na III República. Na verdade não se pode dizer que qualquer um destes momentos pertença a uma entidade Portugal que supostamente se manteria idêntica a si mesma ao longo da variação dos seus períodos históricos. Esse suposto Portugal, do qual incriticamente falamos, quando não reflectimos sobre o sentido do que pensamos e dizemos, não é com efeito senão uma ilusão de óptica, um filme, coproduzido pela percepção de todos os que conferem uma unidade substancial à sucessão vertiginosa de acontecimentos conexos mas diferenciados. Com efeito, a razão e a experiência não permitem considerar que o Portugal da Fundação, o Portugal dos Descobrimentos ou o Portugal pós-25 de Abril sejam idênticos, nem mostram qualquer entidade Portugal como condição transcendente ou transcendental desses três períodos, embora também não se possa dizer que difiram absolutamente, ao ponto de não haver nenhuma conexão entre si, o que é manifestamente falso. Somente essa conexão não parece obedecer a uma qualquer intencionalidade ou finalidade imanente ou transcendente intrínseca a uma entidade Portugal - interpretação que indevidamente antropomorfiza a vida das nações, à imagem e semelhança da vida psicológica dos sujeitos humanos - , nem se restringe a estes supostos acontecimentos e momentos da história de um Portugal unitário, complexificando-se antes na medida em que se estende, em cada um deles, a diferentes e inumeráveis acontecimentos e momentos da história de vários outros povos, nações e culturas. Que, na Fundação, são diferentes povos e reinos ibéricos, cristãos e muçulmanos, nos Descobrimentos são múltiplos povos, nações e culturas mundiais e, no pós-25 de Abril, são os povos e nações de língua portuguesa, a comunidade das nações europeias e todos os povos e nações com quem mantemos relações mais próximas.

Na história do processo Portugal avulta aliás, pela dimensão mundial assumida a partir dos Descobrimentos, e como temos destacado, na linha dos principais pensadores e poetas deste devir, um entretecimento armilar com os processos de muitos povos, nações e culturas planetários [1]. Um dos aspectos mais salientes que parece diferenciar e singularizar assim o processo Portugal é uma íntima interpenetração com a história do planeta. Ou seja, diferencia-o e singulariza-o o que simultaneamente mais o indistingue da trama em devir do jogo do mundo.
[1] Cf. Paulo Borges, Uma Visão Armilar do Mundo. A vocação universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, Lisboa, Verbo, 2010.

APONTAMENTO DE AGOSTINHO DA SILVA

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA PEDAGOGIA PORTUGUESA

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

“ Em edição policopiada que foi distribuída a professores interessados pelo Centro de Formação Educacional Permanente (CEFEPE) saiu, em língua portuguesa, o artigo de Bonnie Barett Stretch sobre o desenvolvimento da chamada Escola Livre, também frequentemente designada pelos nomes de Escola Nova e Escola Comunitária, talvez menos próprios, visto poderem aplicar-se com mais propriedade a outros movimentos de carácter pedagógico.

Acentuando a sua natureza experimental, marca-lhes nitidamente como filosofia fundamental a de que a liberdade é o bem supremo da pessoa e que o homem, incluindo, naturalmente, a criança, tanto mais se realiza quanto mais livre é, e que só pode dar aborto de gente quem é dirigido, ordenado, manipulado. Por outro lado, e dentro do mesmo critério, não deixa de referir-se ao pensamento de Piaget, o célebre psicólogo de crianças há pouco galardoado com o Prémio Europeu de Cultura, de que brincar é o único assunto sério da infância; ideia que, quanto a nós, ainda deveria ir mais longe; se o trabalho no tempo contado tem sido a base das civilizações, tem sido o jogo, no lazer, o real alicerce das culturas.

O exame que faz da Escola de Santa Bárbara ou da de Santa Fé, uma na Califórnia outra no Novo México, ou da de Harlem, em Nova Iorque, é sempre objectivo, sem que o entusiasmo o arraste, mas também sem que deixe de mencionar os benefícios e sem que ponha em relevo as lições que dão e o muito proveito que tiram de seu estudo e acompanhamento as Fundações e os serviços oficiais de educação. E conclui, nas palavras de Peter Matin: “Alguém deve dar um passo para além das crianças, deve mover-se para além da sua própria alma; ou dar dois passos para além de seus próprios limites para dentro da paisagem de medo e possibilidades que as crianças habitam.” (Agostinho da Silva, Revista “Vida Mundial”, de 19/V/1972, p. 41)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

“Mais parte do problema do que da solução”

.
“A dicotomia esquerda/ direita para mim já está ultrapassada nos tempos contemporâneos. Essa dicotomia, aliás, é hoje mais parte do problema do que da solução. A minha candidatura vai ultrapassar transversalmente todos os quadrantes da vida política nacional. Vou ter eleitores do CDS ao Bloco de Esquerda. Não estou aqui para dividir, mas para unir todos os portugueses, e a minha candidatura é a única de verdadeira mudança. É a candidatura da cidadania, que tem sido o meu pilar há mais de 30 anos. Eu não evoco a cidadania por um mero objectivo conjuntural” (Fernando Nobre).

Há declarações que roçam a perfeição, se é que não a atingem. Num discurso oral, esta é particularmente difícil de atingir, mas, por vezes, consegue-se em cheio. Foi isso que senti quando li esta declaração do Doutor Fernando Nobre numa entrevista publicada este fim-de-semana num jornal (“Público”, 21.08.2010).

Com efeito, nesta declaração, expressa a meio da entrevista, enuncia-se a razão maior desta candidatura, mais do que isso, a sua irredutível diferença face às demais. Esta é, efectivamente, uma candidatura da cidadania, uma candidatura supra-partidária, ou seja, uma candidatura que está para além dos alinhamentos partidários, mais do que isso, dos sectarismos ideológicos, e que, por isso mesmo, “ultrapassa transversalmente todos os quadrantes da vida política nacional”.

Alguns consideram esta visão algo ingénua, quando, ao contrário, o que ela denota é lucidez. O mundo contemporâneo, na sua poliédrica complexidade, deixou de ser apreensível pelas narrativas globalizantes de outrora. Não significa isto que não continuem a existir perspectivas mais de “esquerda” ou de “direita”, se quisermos insistir nessa terminologia. Simplesmente, essa é uma grelha demasiado redutora, porque dicotómica, para sustentar uma visão que esteja à altura dessa poliédrica complexidade do mundo contemporâneo – nessa medida, essa dicotomia é hoje, de facto, “mais parte do problema do que da solução”.

A reafirmação dessa visão afastará, provavelmente, algumas pessoas mais reféns do seu próprio sectarismo ideológico – daí também a indisfarçável aversão por esta candidatura daqueles que, nos partidos e nos “media”, fazem desse sectarismo ideológico a trave-mestra de todos os seus discursos. Mas, em compensação, atrairá muitas mais. Aquelas – muitas, cada vez mais – que já perceberam que não é com as receitas do passado que se cumprirá o caminho do futuro…

Publicado em:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/08/mais-parte-do-problema-do-que-da.html

O que é Portugal ? (início do texto a sair no próximo número da Nova Águia)

I

A melhor resposta a uma pergunta é a interrogação sobre o seu sentido. O que imediatamente nos desorbita dos hábitos e mecanismos cultural e socialmente dominantes. O que imediatamente nos leva a pensar para lá dos conceitos que são a moeda corrente das transacções mentais humanas.

Perguntar “o que é” pressupõe que o objecto em questão seja, no sentido de algo definido, um ser, um ente, uma id-entidade, pré-condicionando assim a resposta, que, seja qual for, sempre se moverá no círculo restrito da id-entificação. É este, porventura, o condicionante maior das línguas de matriz indo-europeia, particularmente activo no logos grego que, desenvolvido na ágora, o espaço público da polis, cedo enfeudou a filosofia ocidental a um projecto político-científico de redução do real a um conjunto de entidades e identidades definidas e determinadas, possibilitando o seu conhecimento conceptual, a sua ordenação mental e política e a comunicação ao serviço da vontade de poder presente em ambos. Com efeito, aquilo que passa por ser realidade, aquilo que passa por ser, resulta de uma instauração linguística e histórico-cultural de significados, sentidos e valores, ou seja, de um mundo ordenado e estável, sobreposto ao devir universal, onde o conhecimento e a acção humanos e antropocêntricos sejam possíveis, mas cuja convencionalidade se esquece nos hábitos de representação e prática que configura, como uma ficção que, pela sua repetida narração e encenação, passasse a considerar-se como a própria e única verdade. Foi este projecto que predominou na cultura mundial, padronizando o actual regime comum de consciência segundo o paradigma do logos ocidental.

Aplicada a Portugal, bem como a qualquer nação ou colectividade, a pergunta “o que é” avulta em problematicidade. Com efeito, se é difícil aplicar a categoria de ser – no sentido substancial, de algo que exista em si e por si, dotado de uma id-entidade própria – aos seres que como tal convencionalmente se designam – coisas, homens, animais - , uma vez que neles apenas verificamos processos, fluxos e metamorfoses contínuos e interdependentes, entre si e das mentes que os percepcionam, mais falacioso será pretender encontrar um ser e uma id-entidade em Portugal, realidade com-posta que a razão e a experiência não mostram dotada de uma existência em si e por si, que não esteja constitutivamente sujeita à mesma metamorfose e interdependência de todos os elementos que nela se agregam: a natureza compreendida no seu território, terra, flora e fauna, a acção e a organização social, económica, política e jurídica, a história, a cultura material e espiritual, a língua e, sobretudo, os factores do conceito de que tudo isto é Portugal, ou seja, todos os que assim o pensam e constroem, portugueses e estrangeiros, habitantes ou não do seu território. Na verdade, é apenas nas e pelas representações e acções dos homens, nacionais e estrangeiros, habitantes de Portugal ou não, que surge o conceito de que há Portugal, de que a agregação dos diferentes elementos referidos constitui uma id-entidade una, substancial e autárquica, existente em si, por si e para si. Todavia, analisado com desassombro, enquanto produto histórico-cultural complexo, constituída por múltiplos elementos tão cambiantes quantas as vidas e as mentes humanas deles indissociáveis, é manifesta a impertinência de se pressupor em Portugal um ser e uma id-entidade no sentido substancial. Uma coprodução histórico-cultural e linguística, que por definição está sempre in-definida e em curso, jamais pode, em rigor, constituir um ser e uma id-entidade fixos e imutáveis, jamais pode id-enti-ficar-se.

Analisar e pensar a fundo a realidade que se designa como Portugal leva-nos assim a vê-lo antes como um devir, um fluxo, um processo e uma metamorfose, interdependente dos devires, fluxos, processos e metamorfoses que são as vidas e as mentes de todos os que, sendo ou não portugueses e habitando ou não o seu território, o pensam e com ele interagem como tal. Livre da abstracção e ficção identitária, surge assim um Portugal simultaneamente mais real, concreto e indeterminado, que extravasa das fronteiras territoriais e administrativas, históricas, linguísticas e culturais, bem como da fronteira conceptual que separa Portugal e mundo, numa osmose com a história do planeta e com o processo em aberto da consciência e da realidade.

O mesmo acontece, naturalmente, com os demais povos, nações e culturas, tal como com todos os seres e coisas. Todos devêm em todos. Todas devêm em todas. A natureza profunda do real é a de uma dinâmica e metamórfica interpenetração universal.

50.º aniversário da morte de Jaime Cortesão


Ao longo deste mês, os Cadernos de Filosofia Extravagante comemoram o 50.º aniversário da morte de Jaime Cortesão, que nos deixou em 14 de Agosto de 1960.
http://www.filosofia-extravagante.blogspot.com/

COMO CONHECI ANTÓNIO TELMO

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

No ano lectivo de 1978/79 fiz o Estágio Pedagógico, numa escola de Setúbal, para me tornar Professor Efectivo.

A orientadora de estágio era uma colega embirrante, com poucos escrúpulos, que não fazia o que apregoava, e que pegava por tudo e por nada, com os seis estagiários.

Um dos meus colegas, havia concorrido para várias cidades do país, onde funcionavam os estágios pedagógicos, e conhecia muito bem dois dos estagiários que, naquele ano, tinham sido colocados em Estremoz, encontrando-se com eles ao domingo.

Assim, à segunda-feira, ouvíamo-lo a contar o que os colegas de Estremoz diziam da benevolência do seu orientador de estágio, e todos lamentávamos não ter concorrido para aquele cidade, quando, inevitavelmente, o comparávamos com as extravagâncias das exigências da nossa orientadora.

Entretanto o ano de Estágio Pedagógico terminou, cada um dos seis professores seguiu o seu nobre caminho e, pessoalmente, a única coisa que retive na memória, foi que o tal colega de Estremoz, que era uma pessoa extremamente humana para com os seus estagiários, se chamava António Telmo.

Alguns anos depois, por aqueles inexplicáveis acasos da vida, conheci dois membros do denominado grupo da Filosofia Portuguesa que, se reuniam em duas pastelarias de Lisboa, à 5º feira à tarde numa da Rua Alexandre Herculano, e ao domingo de manhã, numa outra na Avenida João XXI, a “Munique” se não me falta a memória.

Álvaro Ribeiro e José Marinho já tinham falecido. Dos nomes mais sonantes que conheci então, faziam parte, António Quadros, Afonso Botelho, Brás Teixeira, e outros, a que a memória já não consegue chegar.

De entre eles, havia apenas um que não vivia em Lisboa, mas que, por amor à Filosofia ou ao Filosofar, fazia cerca de quatrocentos quilómetros ao domingo, para vir trocar impressões com os seus amigos. É verdade, vinha expressamente de Estremoz e, chamava-se António Telmo.

Lembra-me que, no dia que me estreei a emitir uma opinião perante tão douta plateia, formulei um juízo acerca da natureza material de Jesus Cristo, considerando-o do ponto de vista material, uma pessoa igual a todos nós, porém, sem negar a divindade da sua natureza espiritual.

O grupo ouviu-me e, em seguida, alguns dos presentes, sem me contradizer ou/e afrontar, deram a sua opinião. Porém, à saída da pastelaria, o António Telmo aproximou-se de mim e disse:

“ – Você hoje, já deu um ar da sua graça, ahn!

Sorri, e cada um foi à sua vida. Encontrámo-nos, posteriormente, algumas vezes naquela pastelaria acerca de tudo e de nada.

Anos depois, comprei e li com agrado o seu livro História Secreta de Portugal.

domingo, 22 de agosto de 2010

A IMPORTÂNCIA DE FERNANDO PESSOA NA CULTURA PORTUGUESA


DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Na biblioteca que tenho aqui no monte alentejano, vim encontrar, escrito numa agenda, o seguinte texto que, por nunca ter sido publicado, faço-o agora, tendo em vista a importância de Pessoa na Cultura Portuguesa.

A pequena entrevista dada por José Blanco ao J.L. nº 980, onde o investigador pessoano anunciava o seu livro sobre os artigos retirados dos media (jornais e revistas) e, posteriormente, a compra e o manuseamento da sua Pessoana, levou-me a fazer uma investigação sobre as referências a Fernando Pessoa e seus heterónimos no nº 983 do J.L., de que passo a apresentar os resultados.

Na p. 2, existem duas referências ao poeta da Mensagem , intitulando-se a primeira, ‘120 anos de Pessoa’, relativa às diversas comemorações a realizar na data, 13 de Junho de 2008, em que se comemoram os cento e vinte anos do nascimento do escritor, e a segunda, ‘Cleonice Berardinelli homenageada’, uma investigadora que tem dedicado a sua vida ao poeta dos heterónimos e cujo cinquentenário do seu doutoramento, se comemora a 17 e 18 de Junho, na Universidade estadual do Rio de Janeiro. Atente-se, então, no nome do colóquio, Meio Século em Pessoa, que comportará quatro mesas-redondas, cujos nomes evocam algumas facetas do poeta: Sou um espalhamento de Cacos; Lisboa e Tejo e Tudo; Deus quer, o homem sonha, a obra nasce; Escrevo meu livro à beira-mágoa.

Na rubrica ‘Destaque’, pp.8-9, dedicada a Bartolomeu Cid Santos (1931-2008), fazem-se duas alusões a Pessoa na introdução ao artigo, a primeira, quando se focam as suas paixões, “a omnipresença de Fernando Pessoa e a poesia”(p.8), e a segunda quando se refere o gosto pela literatura de Cid Santos, “com especial admiração por Álvaro de Campos/Fernando Pessoa”.(p.8). O artigo chama-se ‘Bartolomeu Marinheiro’ e é da autoria de Hélder Macedo. Este, em determinado momento, escreve acerca de Barto, “E fez um retrato de Fernando Pessoa - «Fernando Pessoa Antes de Ser Grande» - como um menino (de nove anos?) com camisa de marujo (emprestada pelo Bartolomeu?)”(p.8), retrato esse que encima a primeira coluna da p.9, onde podemos ver o poeta dos heterónimos pedalando num triciclo.

Das pp. 16 à 23 desenvolve-se o ‘Tema’ deste nº 983 do J.L. que é dedicado a Vieira da Silva. No artigo «Bicho, entre azul e silêncio» da autoria de Maria Leonor Nunes, há a seguinte referência ao autor d’ O Livro do Desassossego, “Gostava particularmente de poesia. Tinha uma enorme admiração por René Char (…) e também por Pessoa e Sophia, (…)”. (p. 17) O ‘Tema’, além de artigos de diversa índole, reproduz inúmeras cartas inéditas. Numa delas, escrita pelo crítico literário João Gaspar Simões e, endereçada a Vieira e ao seu marido Arpad, surge nova referência ao Poeta, “Vou publicar dentro de alguns meses um volumoso livro – Fernando Pessoa – o homem, a época e a obra – estudo biográfico e crítico sobre o grande poeta e o movimento «modernista» em Portugal.” (p. 20)

Na p. 24, inicia-se a rubrica ‘Letras’ e, também nela, vamos encontrar referências a Pessoa. A primeira é da autoria de António Carlos Cortez que, em artigo sobre Bénédicte Houart, intitulado «Desacertar palavras», escreve: “Drummond, mas também Pessoa, que a autora também glosa, promovem um discurso sobre a existência, partindo-se da observação de certos aspectos triviais do quotidiano para reinterpretar, à luz duma metafísica pessoana e duma ironia drummondiana, o mundo que irrompe, misterioso” (p. 24) A segunda pertence a Miguel Real que, em «Três tipos de romance histórico», ao analisar o romance Escola de Validos de Maria João Martins, escreve que esta autora, “polvilha a sua narrativa de «à partes» anacrónicos (citações de ou menções a Haendel, Alexandre O’Neill, Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís …)”.(p. 26)

Na rubrica “Estante”, a propósito do seu livro Já Não Se Escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal, quando lhe perguntam a razão do título do livro, responde:” Quando se escreviam cartas de amor (…) havia um certo romantismo que desapareceu. (…) A certa altura o narrador diz que (…) hoje podemos conhecer a letra de Eça ou de Pessoa, o que nos dá mais um dado sobre eles.” (p. 29)

Na rubrica “Ideias”, Guilherme D’Oliveira Martins no seu artigo “A sombra de Montaigne” (pp.38-9), onde analisa a obra de Miguel Real, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (1949-1997), depois de uma referência à revista Orpheu (p. 38), em que Pessoa e os seus Outros colaboraram, cita explicitamente o poeta dos heterónimos, quando afirma que Real situa o pensamento de Lourenço entre nove balizas do universo cultural e filosófico português, uma das quais leva, “ ao modernismo do Orpheu e à decisiva marca de Sá-Carneiro e de Pessoa”. (p. 39)

A última referência a Pessoa, no nº 983 do J.L., surge no artigo “Acordo Ortográfico e ambiguidades” da autoria de Fernando Cristóvão, quando este membro da Comissão Negociadora do Acordo afirma que, “( nem Gil Vicente, nem Camões, nem Vieira, nem Camilo, nem Eça, nem Pessoa…) escreveu nesta «intangível» ortografia que, aliás, sucedeu a outras, e teve uma guerrilha semelhante à de 1990.” (p. 40)

A acompanhar este número do J.L., encontramos o suplemento nº 126, de 4 – 17 de Junho de 2008, do Instituto Camões, onde no artigo “Exposição no Centro Cultural Português do Luxemburgo – Pomar Gráfico”, surge nova referência a Pessoa, quando se escreve que Pomar, “Pintou ainda painéis de azulejo com desenhos de grandes poetas portugueses, como Camões, Bocage, Fernando Pessoa e Almada Negreiros.” (p. 2) Finalmente, no artigo “Parfums de Lisbonne vão ao cinema”, Pessoa é implicitamente tratado quando é referida a revista Orpheu que, como já referimos, foi uma das em que Pessoa colaborou activamente. Assim, pode ler-se: “O cinema continuará a marcar o evento na sessão La poésie fait son cinema: rimes et sons (Dos poetas de Orpheu à nova poesia portuguesa) (…)”. (p. 2)

No dia do funeral de António Telmo

.
No dia do seu funeral, o MIL: Movimento Internacional Lusófono apresenta aos familiares de António Telmo as suas mais sentidas condolências. Membro do MIL desde a primeira hora, António Telmo foi um dos autores maiores da Filosofia Lusófona. Discípulo de Álvaro Ribeiro, José Marinho e Agostinho da Silva, defendeu sempre o princípio de que “sem autonomia cultural não pode haver autonomia política”. Foi, por isso, de forma coerente e consequente, ainda que de modo muito singular, um patriota. Tal como nós, ele sabia que a autonomia política de todos os países de língua portuguesa só se manterá enquanto se mantiver essa autonomia cultural lusófona. Manter-nos-emos fiéis a esse princípio, assim honrando a memória de António Telmo.

MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO

www.movimentolusofono.org


Publicada em:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/08/declaracao-mil-sobre-o-falecimento-de.html

sábado, 21 de agosto de 2010

ANTERO E JUNQUEIRO FALAM DE HERCULANO





DA MEMÓRIA... JOSÉ LANÇA-COELHO


No ano do 2º centenário do nascimento (1810-2010) de Alexandre Herculano (Lisboa, 28 de Março de 1810-Vale de Lobos, Santarém, 13 de Setembro de 1877), ouçamos o testemunho de dois intelectuais seus contemporâneos.

Comecemos pelo “Santo Antero”, termo com que Eça de Queirós (Póvoa do Varzim, 25 de Novembro de 1845-Paris, 16 de Agosto de 1900) designava o autor das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, e vejamos o que Antero de Quental (Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842- id., 11 de Setembro de 1891) diz sobre a morte do introdutor do romance histórico em Portugal –“é mais do que um luto para a literatura, é um verdadeiro luto nacional” – servindo-nos de um artigo que Antero escreveu no nº2 da revista “Os Dois Mundos”, de 30-9-1877, publicada em Paris, entre 1877 e 1881, por Salomão Sáragga, que esteve ligado às célebres “Conferências do Casino”

Mais adiante, Antero afirma que Herculano é o último representante duma ilustre geração em quem “o forte génio português reverdeceu ainda neste século com uma seiva tardia”, sendo o autor da História de Portugal, “um grande homem (…) representante do génio da sua nação.”

Quanto à estatura ética do autor de Lendas e Narrativas, Antero de Quental escreve: “Na fisionomia moral de Alexandre Herculano, há certas linhas que fazem lembrar o perfil enérgico e simples dos heróis típicos da nacionalidade portuguesa. Pertencia a essa grande linhagem, que acabou com ele – e o seu século, admirando-o, considerava-o todavia com um certo espanto ininteligente, como se sentisse vagamente que aquele homem pertencia a um mundo extinto, um mundo cujo altivo sentir já ninguém compreendia.”

O chefe espiritual da “Geração Nova” continua a traçar-nos o retrato de Herculano, relacionando-o com o período histórico em que ambos viveram: “Não nos cabe a nós ser juízes entre um grande homem e uma época, que tantos aclamam gloriosa, enquanto outros persistem em tê-la por mesquinha. A história (…) dará talvez razão, ao mesmo tempo, à época, que não podia ser maior nem melhor do que as circunstâncias a fizeram, e ao homem nobre e sincero, cuja altiva integridade repugnava invencivelmente a que pactuasse com o abaixamento moral dos contemporâneos, embora tal abaixamento lhe parecesse providencial, preferindo a atitude isolada e austera do protesto e as más vontades que ela provoca nos caracteres vulgares, à influência e dominação alcançada pela conivência com as paixões, os desvarios e os vícios da época.” (sublinhado nosso)

Antero termina a apreciação a Herculano com esta frase que podemos considerar sublime: “Há glórias mais brilhantes e ruidosas: nenhuma pode haver mais pura.”

Notemos de seguida, como o anti-clerical Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, 15 de Setembro de 1850-Lisboa, 7 de Julho de 1923) no popular Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro para 1883, define o carácter de Herculano e, como essa mesma maneira de encarar a vida o conduz ao estado que Camões (Lisboa?, c. 1531-id. 10 de Junho de 1580) contempla na frase, “aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”:

“Alexandre Herculano é uma dessas figuras esculturais que, antes de desaparecerem em pó, reaparecem em bronze. Ainda vivo, nos últimos anos, adquirira na penumbra heróica do seu isolamento, como que a imobilidade sagrada de uma estátua. Desde o dia em que, velho leão ensanguentado, se retirou de uma luta sem tréguas que durara quarenta anos, para se ir esconder na benigna e pacificante tranquilidade da natureza, desde esse dia em que para quase todos começa o esquecimento, começou para Alexandre Herculano a projecção gloriosa do seu génio – a imortalidade.”

Da importância da presença portuguesa no mundo



O Movimento Internacional Lusófono (MIL) vai disponibilizar na internet excertos de programas do professor José Hermano Saraiva, produzidos para a RTP.
«A ideia é mostrar excertos que falem da importância da presença portuguesa no mundo», explicou ao SOL, Sofia Proença, do MIL, explicando que os programas de Hermano Saraiva estarão assim disponíveis «para um universo de 240 milhões de falantes de Português».
«O professor é uma das pessoas que mais divulgou a memória história do país e é isso que queremos divulgar», acrescenta o dirigente do movimento, Renato Epifânio, que assina esta sexta-feira o protocolo que vai permitir a cedência dos direitos de transmissão dos programas produzidos para a RTP.
Com cerca de cinco mil membros inscritos, o Movimento Internacional Lusófono tem desenvolvido várias acções na defesa da Língua. «Fazemos recolha de livros para dar a países lusófonos carenciados, como a Guiné e Timor, elegemos a personalidade lusófona do ano e entregámos no Parlamento uma petição para que as editoras não destruíssem os livros que não são vendidos e os enviem para países de Língua Portuguesa», conta Renato Epifânio.
Os programas de José Hermano Saraiva devem estar disponíveis ainda durante este mês, no site www.movimentolusofono.org.

Fonte: http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=182064

Faleceu hoje António Telmo, um dos autores maiores da Filosofia Portuguesa

Na sua última aparição pública: 8 de de Agosto de 2010, Vale do Infante, no pré-lançamento da obra "O Portugal de António Telmo" (foto de Jesus Carlos).


António Telmo Carvalho Vitorino nasceu no dia 2 de Maio de 1927, em Almeida. Entre os dois e os seis anos, viveu em Angola com a família. Quando esta regressa a Portugal, fixou-se em Alter-do-Chão e, mais tarde, em Arruda-dos-Vinhos. António Telmo viverá por lá até aos seus dezasseis. Antes de ir estudar para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ainda morará em Sesimbra. Na sua infância e juventude, foi um auto-didacta. Estudava em casa e fazia os exames em Lisboa.
Aos vinte e três anos, entra para o grupo da Filosofia Portuguesa, depois de ter conhecido José Marinho (1904-1975) e Álvaro Ribeiro (1905-1981).
A convite de Agostinho da Silva (1906-1994) e de Eudoro de Sousa (1911-1987), foi professor de Literatura Portuguesa, durante três anos, na recém-formada Universidade de Brasília. De lá foi para Granada e, só depois, é que voltou a Portugal. Foi director da Biblioteca de Sesimbra e posteriormente radicou-se em Estremoz como professor de Português. Faleceu hoje, ao princípio da manhã, no Hospital de Évora. Deixa uma extensa obra:

- Arte Poética, Lisboa, Guimarães, 1963.

- Gramática secreta da língua portuguesa, Lisboa, Guimarães, 1981.

- Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Lisboa, Guimarães, 1982.

- O Bateleur, Lisboa, Átrio, 1992.

- Filosofia e Kabbalah, Lisboa, Guimarães., 1989.

- História Secreta de Portugal, Lisboa, Vega, 1977.

- Horóscopo de Portugal, Lisboa, Guimarães, 1997.

- Contos, Lisboa, Aríon, 1999.

- O Mistério de Portugal na História e n’ Os Lusíadas, Lisboa, Ésquilo, 2004.

- Viagem a Granada, Lisboa, Fundação Lusíada, 2005.

- Contos Secretos, Chaves, Tartaruga, 2007.

- Congeminações de um neopitagórico, Vale de Lázaro, Al-Barzakh, 2006/ Lisboa, Zéfiro, 2009.

- A Verdade do Amor, seguido de Adoração: cânticos de amor, de Leonardo Coimbra, Lisboa, Zéfiro, 2008.

- Luís de Camões, Estremoz, Al-Barzakh, 2010.

- A Aventura Maçónica, Lisboa, Zéfiro, 2010.

- O Portugal de António Telmo, Lisboa, Guimarães, 2010.


O seu funeral realiza-se amanhã, 22 de Agosto, em Estremoz, pelas 9 horas.


No próximo número da NOVA ÁGUIA, de que foi colaborador desde a primeira hora, publicaremos um texto seu, datado de 1955: “O ESTILO DA RENASCENÇA PORTUGUESA”.

"Temos que levar gente, não a uma vida cómoda, a uma vida fácil, mas temos que ter a coragem de levá-la a uma vida difícil, a uma vida perigosa"

"Temos que levar gente, não a uma vida cómoda, a uma vida fácil, mas temos que ter a coragem de levá-la a uma vida difícil, a uma vida perigosa, pois só com uma vida difícil, rigorosa e perigosa, dá o homem o melhor de si próprio. É necessário obrigá-lo a saltar obstáculos. A primeira tarefa de educador é procurar varas bem altas e obrigá-lo a saltar. Baden-Powell [...] queria, para todos os rapazes e para todas as moças, quando chegassem a essa idade, uma educação que lhes temperasse a vontade, não mais gente na rua vendo gente passar, não mais gente encostada pelas portas dos cafés, não mais gente de 20 anos vergonhosamente desocupada, passando todo o dia sem fazer coisa nenhuma, fraquíssima de carácter, fraquíssima de corpo, esperando que chegue o tempo de jantar para que chegue o tempo de dormir para que chegue o tempo de se levantar"

– Agostinho da Silva, Baden-Powell, Pedagogia e Personalidade [1961], in Textos e Ensaios Pedagógicos II, pp.26-27.

O TRABALHO SEGUNDO AGOSTINHO DA SILVA (II)



DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Na perspectiva do filósofo português Agostinho da Silva, dentro do tema «Trabalho», há que considerar os «Amadores de Coisas», elemento essencial e, assim definido:

AMADORES DE COISAS

“ «O senhor o que é que gostaria de ser?», talvez ele dissesse «Ai, eu gosto muito de guiar carros.» Muito bem. Pronto, gosta de guiar carros, estupendo. Então, entra numa classe que temos de aproveitar no mundo futuro, que é a classe dos amadores de coisas. Há uma quantidade de gente que é amadora de fazer aquilo que a nós, por exemplo, custaria. Mas eles gostam… (…) Há sujeitos que não gostam de fazer coisa nenhuma senão de estar a olhar para ma nuvem. Eu considero esses tipos utilíssimos, porque ninguém sabe o que sairá dali. Não se conta aquela história de que a lei da gravitação apareceu por ter caído uma maçã na cabeça de Newton? Não era obrigatório que o Newton estivesse a estudar Matemática na altura em que lhe caiu a maçã na cabeça… podia estar a dormir debaixo da árvore, ou ter acordado naquele momento, ou qualquer coisa assim, eu sei lá! Quem me diz que a um homem, cujo ideal é estar de papo para o ar olhando para as nuvens, de repente, não se lhe atravessa na cabeça uma ideia? Por que é preciso intuir isso, hem? É que há pessoas que julgam que fabricam as ideias com a cabeça. (…) O facto da ideia ser secreta, ele conhece-a, eu não, dá-me a ideia de que ele é que está, realmente, a pensar com a cabeça dele. (…) qualquer sujeito que já fez versos, ou fez Matemática, ou qualquer coisa assim, sabe perfeitamente que de vez em quando a cabeça é atravessada por um verso.” (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, pp. 16-17.)

Agostinho da Silva afirma aqui, que, não é pelo facto de se estar deitado e olhando o firmamento que, de um momento para o outro, não se possa ter uma ideia genial, facto que pode ser comprovado, por qualquer pessoa que tenha já feito qualquer tentativa de concreto no campo das Letras ou das Ciências.

Um pouco mais adiante Agostinho da Silva disserta sobre a importância das máquinas para a Humanidade, afirmando que para além delas e da já citada, classe dos amadores, existem as pessoas que estão prontas a sacrificar-se pelos outros, e, o serviço civil.

Este último item leva-o a falar da reforma. Assim, depois de se questionar sobre o que é um homem reformado, responde do seguinte modo:

REFORMADO

“ Quer dizer que esse homem cumpriu um certo número de anos de serviço, civil ou militar. A partir daí é dispensado. Acha-se que já contribuiu o bastante para toda a gente comer – e ele próprio -, de maneira que pode ir para casa e terá de comer. É evidente que se aproveitássemos ao máximo todos os recursos que há hoje, ninguém teria de se reformar aos sessenta ou setenta anos, toda a gente se poderia reformar aos trinta, por exemplo, ou aos quarenta…E muita gente já se reforma. Gente que, por acaso, entrou muito cedo num determinado serviço, ou, noutros casos, lhe contaram em dobro o tempo.” (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, pp. 20-21)

É curioso o modo como Agostinho da Silva termina o presente escrito, intitulado «Elogio do Ócio» (pp. 15-21), referindo como a anterior situação se aplica a ele próprio. Assim, revela que, quando ainda era professor de liceu, concorreu para Moçambique, sabendo que o tempo de magistério exercido naquela antiga colónia, lhe contaria a dobrar para efeito de reforma:

De maneira que ia-me reformar muito cedo, e como havia muita coisa em que pensava e que queria fazer… uma delícia! Porque me libertavam daquela coisa toda de ensinar latim aos meninos, aí aos cinquenta anos, e eu, de acordo!” (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, p. 21).


O SUL - Jornal Cultural e de Debates n.º 7 Mês de Agosto de 2010.

.
O SUL
trata-se de u
m periódico cultural, de periodicidade mensal, que tem distribuição gratuita na região de Setúbal, Azeitão, Sesimbra, Quinta do Conde, Pinhal Novo e Palmela tendo uma tiragem de 10 000 exemplares.

Fazemos notar a Vs. Ex.cias que este jornal é promovido por uma ONG sem fins lucrativos, que tem como objectivos o combate ao analfabetismo e à iliteracia, pelo que todas as colaborações estão abrangidas pelo art. 3.º do Estatuto de Mecenato consagrado na lei 74/99 de 16 de Março.

É um jornal de pessoas para outras pessoas, patrocinado ainda por outras pessoas. Colabora!

O lançamento do número 8 em papel está marcado para a primeira quinzena de Setembro de 2010.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Petição pela abolição das touradas e de todos os espectáculos com touros - quase 3500 assinaturas em 5 dias

Considerando que:

a) a ciência reconhece inquestionavelmente a maioria dos animais, incluindo cavalos e touros, como seres sencientes, capazes de sentir dor e prazer, físicos e psicológicos, bem como sentimentos de medo, angústia, stress e ansiedade;

b) as touradas gozam em Portugal de um injustificado regime de excepção legal, pois o ponto 2 do Artigo 3.º da Lei n.º 92/95 de “Protecção aos animais”, que diz que “As touradas são autorizadas nos termos regulamentados”, contradiz frontalmente o ponto 1 do Artigo 1.º da mesma lei, que declara que “São proibidas todas as violências injustificadas contra animais, considerando-se como tais os actos consistentes em, sem necessidade, se infligir a morte, o sofrimento cruel e prolongado ou graves lesões a um animal”, o que é manifestamente o caso das touradas;

c) a maioria da população portuguesa é contra a tauromaquia, conforme mostra um estudo realizado em 2007 pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE;

d) as touradas ofendem a fé e o sentimento maioritariamente cristãos e católicos do povo português, pois a Bíblia apresenta os animais como criaturas de Deus (Génesis, 1, 24) e o Catecismo Católico declara ser “contrário à dignidade humana fazer com que os animais sofram ou morram desnecessariamente”, doutrina recentemente recordada pelos Papas João Paulo II e Bento XVI;

e) o artigo 9.º da Constituição da República Portuguesa consagra como tarefa fundamental do Estado “promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo”, o que se contradiz pela permissão das touradas, que ofendem o sentimento maioritário da população e contribuem para a degradação moral de quem obtém prazer estético e psicológico com o sofrimento dos animais;

f) as touradas são uma das expressões de uma cultura da insensibilidade e da violência que degrada quem a pratica e promove, o que ofende o Artigo 1.º dos “Princípios fundamentais” da Constituição da República Portuguesa, que proclama Portugal como “uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana”;

g) vários estudos e especialistas concordam que a prática e a aceitação da violência contra os animais predispõe para a prática e a aceitação da violência contra os homens;

h) o progressivo abandono de tradições retrógradas, contrárias a um sentido humanista de cultura como aquilo que contribui para nos tornar melhores seres humanos, é o que caracteriza a evolução mental e civilizacional das sociedades e melhor corresponde à sensibilidade contemporânea;

i) a existência de touradas no século XXI constitui um embaraço para Portugal perante a comunidade internacional, configurando a imagem de um país com pessoas e práticas bárbaras;

j) a abolição das touradas é compatível com a manutenção da sua coreografia, sem a utilização de animais, num espectáculo em que se preserve a estética tradicional e que possa converter-se na atracção turística que as touradas não são e nunca foram, pela repulsa que geram nos cidadãos estrangeiros (a evolução dos costumes ditou o mesmo em muitas culturas, convertendo antigas práticas marciais, com mortes e derramamento de sangue, em artes lúdicas, como no caso do kendo japonês e da capoeira afro-brasileira, entre muitos outros exemplos);

l) a abolição das touradas vem na linha humanista da abolição da pena de morte, em que Portugal foi pioneiro, e promoverá a imagem de Portugal em todo o mundo, sendo um contributo decisivo para o país mais ético que todos desejamos, esse “país mais livre, mais justo e mais fraterno” consagrado no “Preâmbulo” da Constituição da República Portuguesa;

Vimos por este meio solicitar que se aprove legislação no sentido de abolir completamente as touradas e todos os espectáculos com touros, sob qualquer forma, em todo o território nacional, convertendo-se as actuais praças de touros em museus e casas de cultura onde se preserve informação sobre uma prática ultrapassada e onde se promovam actividades humanitárias e de introdução dos jovens e do público em geral a um maior conhecimento e sensibilidade para com a natureza e os seres vivos, criando postos de trabalho onde se podem inserir muitas das pessoas agora dedicadas às actividades tauromáquicas.

www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=010BASTA