Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.
A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso Manifesto.
Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:
- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.
- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.
- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.
- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.
- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.
- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.
- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).
- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.
- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?
- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.
- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.
- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.
- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.
- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.
- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"
- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.
- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.
- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.
- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.
- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).
- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).
- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).
- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.
- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).
- 25º número (1º semestre de 2020): Pinharanda Gomes: Textos e Testemunhos dos seus Amigos.
Para o 25º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
EDITORIAL NOVA ÁGUIA 24
As personalidades maiores (ou mais aquilinas) são aquelas que mais transcendem fronteiras – culturais, religiosas ou ideológicas. Pela amostra (significativa – mais de uma dúzia) de testemunhos que aqui recolhemos, proferidos numa sessão em sua Homenagem promovida pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no dia 10 de Maio do corrente ano, no Palácio da Independência, João Bigotte Chorão foi, de facto, uma personalidade maior da nossa cultura lusófona.
Personalidade não menor foi a de Afonso Botelho, que completaria no dia 4 de Fevereiro 100 anos. Igualmente por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, realizou-se, nesse exacto dia, também no Palácio da Independência, um Colóquio que abordou as diversas facetas do seu pensamento e obra. São os textos então apresentados (com mais alguns entretanto chegados) que aqui publicamos (mais de uma dezena e meia de textos).
Dois mil e dezanove tem sido um ano especialmente rico em centenários. Para além de Afonso Botelho, evocamos aqui igualmente Jorge de Sena e José Hermano Saraiva. Para o próximo número, fica desde já prometida a evocação de Joel Serrão e de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde iremos também recordar Agustina Bessa-Luís, recentemente falecida, no início deste semestre, que marcou ainda presença na NOVA ÁGUIA – logo no primeiro número, onde publicámos um texto seu intitulado “O fantasma que anda no meu jardim”, que termina desta forma: “Voltaremos a encontrar-nos”. Até sempre, Agustina!
Ainda no vigésimo quarto número da NOVA ÁGUIA, para além do “Poemáguio” e do “Memoriáguio” (duas secções igualmente clássicas), publicamos cerca de uma dezena de “Outros Voos” e, em “Extavoo”, mais um capítulo da segunda parte (inédita) da Vida Conversável, de Agostinho da Silva, bem como a série completa das “Cartas sem resposta” de João Bigotte Chorão –, algumas das quais já publicadas em números anteriores da nossa revista. No “Bibliáguio”, por fim, publicamos mais de meia dúzia de recensões de obras que despertaram a atenção do nosso olhar aquilino.
A Direcção da NOVA ÁGUIA
Post Scriptum: Já na fase final da composição deste número, a 27 de Julho, faleceu, aos oitenta anos, Pinharanda Gomes, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, um dos mais importantes colaboradores da NOVA ÁGUIA, desde o primeiro número (até este que aqui se apresenta, com dois ensaios que nos fez chegar no primeiro semestre deste ano), e, sob todos os pontos de vista, uma das mais relevantes figuras da cultura lusófona do último meio século (facto que só por ignorância ou má-fé pode ser contestado). Por isso, no próximo número da revista, teremos, logo a abrir, uma série de Textos e Testemunhos em sua Homenagem.
NOVA ÁGUIA Nº 24: ÍNDICE
HOMENAGEM A JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Textos e Testemunhos de J. Pinharanda Gomes (p. 8), Alfredo Campos Matos (p. 22), Annabela Rita (p. 22), António Braz Teixeira (p. 24), António Cândido Franco (p. 24), António Leite da Costa (p. 25), António Manuel Pires Cabral (p. 26), Artur Anselmo (p. 27), Eugénio Lisboa (p. 27), Isabel Ponce de Leão (p. 29), Jaime Nogueira Pinto (p. 29), Miguel Real (31), Paulo Ferreira da Cunha (p. 39) e Paulo Samuel (p. 41).
NOS 100 ANOS DE AFONSO BOTELHO
APOLOGIA E HERMENÊUTICA NA OBRA DE AFONSO BOTELHO | António Braz Teixeira…48
AFONSO BOTELHO SEMI-INÉDITO | António Cândido Franco…57
AFONSO BOTELHO NO 57: MOVIMENTO DE CULTURA PORTUGUESA | Artur Manso…59
EDUCAÇÃO E SAUDADE EM AFONSO BOTELHO | Emanuel Oliveira Medeiros…65
HUMANISMO ESPERANÇOSO DE AFONSO BOTELHO | Guilherme d’Oliveira Martins…86
À MEMÓRIA DE AFONSO BOTELHO | J. Pinharanda Gomes…88
AFONSO BOTELHO: TESTEMUNHO BREVE | Joaquim Domingues…90
AFONSO BOTELHO, UM ARISTOCRATA EXEGETA DE D. DUARTE | José Almeida…92
TESTEMUNHO E HOMENAGEM A AFONSO BOTELHO | José Esteves Pereira…97
MITO E MITOS FUNDANTES: A POSSIBILIDADE DO DISCURSO DA SAUDADE | Luís Lóia…98
O TEMA DA SAUDADE NA TEORIA DO AMOR E DA MORTE DE AFONSO BOTELHO | Manuel Cândido Pimentel…104
AFONSO BOTELHO: DA RAZÃO E DO CORAÇÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…108
AFONSO BOTELHO, DO PENSAMENTO À ESCRITA FICCIONAL NO 57: UMA ABORDAGEM DO CONTO O INCONFORMISTA | Maria Luísa de Castro Soares…112
A FICÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Miguel Real…118
DA FILOSOFIA COMO “SABEDORIA DO AMOR”: ENTRE JOSÉ MARINHO E AFONSO BOTELHO | Renato Epifânio…125
A RENÚNCIA DO MAL NA METAFÍSICA CRISTÃ DA REDENÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Samuel Dimas...127
SOBRE A MÓNADA HOMEMULHER EM AFONSO BOTELHO | Teresa Dugos-Pimentel…139
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES: JORGE DE SENA E JOSÉ HERMANO SARAIVA
A CRÍTICA LITERÁRIA EM JORGE DE SENA | Miguel Real…146
JOSÉ HERMANO SARAIVA: HISTORIADOR E DIVULGADOR DA CULTURA PORTUGUESA | Nuno Sotto Mayor Ferrão…151
OUTROS VOOS
A MANEIRA PORTUGUESA DE ESTAR NO MUNDO | Adriano Moreira…162
O PENSAMENTO ESTÉTICO DE EDUARDO LOURENÇO | António Braz Teixeira…165
O SENTIDO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO DA LUZ EM “VIRGENS LOUCAS” DE ANTÓNIO AURÉLIO GONCALVES | Elter Manuel Carlos…170
OS AÇORES E O MAR – O POVO, SOCIEDADE(S) E TERRITÓRIOS | Emanuel Oliveira Medeiros…176
SOBRE OS INÉDITOS DE JUNQUEIRO | Joaquim Domingues…188
VIVÊNCIAS COM MÁRIO CESARINY E FERNANDO GRADE: POETAS E PINTORES | Luís de Barreiros Tavares…194
SENTIDO E VALOR ACTUAIS DA MONARQUIA: UMA PERSPECTIVA TEÓRICO-CONSTITUCIONAL | Pedro Velez…197
CINCO DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS| Renato Epifânio…199
AUTOBIOGRAFIA 6 | Samuel Dimas…204
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…220
CARTAS SEM RESPOSTA | João Bigotte Chorão…227
BIBLIÁGUIO
ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA | Joaquim Domingues…256
A ESCOLA PORTUENSE EM QUESTÃO | Elísio Gala…256
LEONARDO COIMBRA: VIDA E FILOSOFIA | José Esteves Pereira…258
EUDORO DE SOUSA E A PRESENÇA DO MITO NA FILOSOFIA PORTUGUESA | Samuel Dimas…262
TABULA RASA II & ESTUDOS SOBRE HEIDEGGER | Renato Epifânio…263
PEITO À JANELA SEM CORAÇÃO AO LARGO | Onésimo Teotónio Almeida…264
ESPÍRITOS DAS LUZES | Anabela Ferreira…266
POEMÁGUIO
CATATÓNICO; GOLGOTHA | António José Borges…46
SEU HÁBITO MELHOR | Jaime Otelo…47
“NASCERÁ O MAIOR AMOR…” | Catarina Inverno…144
FUNDURA | Maria Leonor Xavier…145
MACAU | António José Queiroz…159
CANÇÃO SUPREMA | Carla Ribeiro…160
COMO PODEM ESPERAR | Delmar Maia Gonçalves…161
PELOS SENTIDOS | Juvenal Bucuane…161
NUME | Luísa Borges…218
STELA | Jesus Carlos…219
MIMNERNO E AS FOLHAS CAÍDAS DE JÚDICE | Susana Marta Pereira…254
LARGO | Joel Henriques…255
PARA O HERBERTO HELDER | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…267
SEGUNDA VARIAÇÃO | José Luís Hopffer C. Almada…268
MEMORIÁGUIO…272
MAPIÁGUIO…273
ASSINATURAS…273
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…274
Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.
MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.
PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:
https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas
O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"
Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
segunda-feira, 26 de março de 2012
domingo, 11 de dezembro de 2011
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Os "três momentos altos" da tradição filosófico-cultural portuguesa
domingo, 31 de janeiro de 2010
Nota evocativa: A Vida Portuguesa – Inquérito à vida nacional
José Gama
Faculdade de Filosofia, Braga – UCP
Em ano de centenário do surgimento da revista A Águia, proponho-me fazer uma breve evocação de uma outra publicação periódica, que de algum modo está ligada ao grupo promotor e ao espírito que promoveu a criação da revista e o seu enquadramento no movimento da Renascença Portuguesa. Trata-se do boletim A Vida Portuguesa, dirigido por Jaime Cortesão, entre Outubro de 1912 e Novembro de 1915.
A Vida Portuguesa (AVP) surge dentro da Associação da Renascença Portuguesa (RP). A revista A Águia, como órgão oficial a partir da 2ª série, iniciada em Janeiro de 1912, é predominantemente doutrinária; à nova publicação AVP, em cadernos de oito páginas, caberia um papel informativo mais próximo da realidade nacional, o que não significa puramente noticioso.
A dimensão que aqui pretendo salientar é o carácter essencialmente conciliador entre as duas principais tendências que se manifestaram na fundação da RP, e que opuseram o grupo do norte e o grupo do sul. Estabeleceu também, desse modo, a ponte de ligação que uniu a tendência manifestada claramente pelo grupo de Lisboa e a orientação do movimento da Seara Nova, lançado em 1921, com a publicação da revista com o mesmo nome, como órgão oficial. Os protagonistas são fundamentalmente os mesmos, cabendo a Jaime Cortesão o papel determinante e omnicompreensivo, enquanto congrega os grupos fundadores da RP, integrando o do norte (Coimbra/Porto), dá corpo ao boletim conciliador AVP, e reúne à sua volta o “Grupo da Biblioteca Nacional” que dá início à Seara Nova. Neste novo grupo encontramos os principais elementos do anterior grupo do sul, na criação da RP, com destaque para Raul Proença.
São bem conhecidas as tendências que opuseram os grupos fundadores da Renascença. Pelo norte/Porto, o espiritualismo patriótico e nacionalista liderado pelo poeta Teixeira de Pascoaes, e pelo sul/Lisboa, o programa reformista de intervenção sócio-política, orientado para um socialismo democrático, liderado pelo escritor Raul Proença. Os respectivos manifestos-programa, elaborados para as reuniões preparatórias da criação da Associação, realizadas em Agosto e em Setembro de 1911, só mais tarde são divulgados, precisamente nas páginas do número 22 de AVP, de 10 de Fevereiro de 1914.
A orientação saudosista que Teixeira de Pascoaes imprimiu à revista A Águia, como órgão da RP, está patente desde o primeiro número, em particular no texto de apresentação “Renascença”. No número seguinte, de Fevereiro de 1912, no artigo “Renascença (O espírito da nossa Raça)”, insiste na “verdadeira interpretação da Saudade, isto é, a verdadeira interpretação do génio, do espírito da alma portuguesa”, e não deixa passar a oportunidade para lançar a observação irónica à “ingenuidade dos que se julgam práticos, modernos…”, e ao “preconceito do senso prático”. Mais tarde, Jaime Cortesão, já em vésperas do lançamento do boletim AVP, no artigo “Da Renascença Portuguesa e seus intentos”, inscreve o projecto da RP num horizonte mais amplo e europeu, que “não é incompatível com as aspirações modernas”, e que “promoverá no Povo português a parte da boa cultura que a Europa lhes possa trazer”.
A ideia fundadora de AVP é situada por Jaime Cortesão na reunião de 2 de Junho de 1912 da Direcção do Conselho de Administração da RP, que decidiu “a publicação dum quinzenário de inquérito à vida nacional sob o quádruplo aspecto do problema religioso, pedagógico, económico e social”. O primeiro caderno é publicado em 31 de Outubro de 1912. Manter-se-á até Novembro de 1915, com a edição de 39 números, em cadernos de 8 páginas cada, e organizados em 2 volumes. A periodicidade foi variando, e daí a mudança do subtítulo da publicação, que se iniciou com “Quinzenário de inquérito à vida nacional”, passou a “Boletim de inquérito à vida nacional”, mensal, e, finalmente, como “Boletim da «Renascença Portuguesa»”, com a periodicidade mensal ou de 3 semanas, com excepção do último caderno, de Novembro de 1915, que sai cinco meses depois do anterior.
A leitura atenta do artigo de apresentação, de Jaime Cortesão, permite perceber a resposta interna à exigência de alargar o horizonte de incidência da reflexão e da intervenção, renovadoras e criativas, na vida nacional. A indicação dos quatro domínios temáticos é acompanhada das comissões respectivas, com atribuição dum programa de acção. O objectivo que este inquérito à vida nacional se propõe, procura conciliar a atenção refundadora do “original espírito da Pátria Portuguesa”, na linha do saudosismo de Pascoaes, com a “harmonia com o espírito moderno, e especialmente em conformidade com as necessidades actuais”. Parece aflorar aqui a tensão latente entre a atitude hostil a todas as “más influências [literárias, políticas e religiosas] vindas do estrangeiro”, apregoada por Pascoaes, e a necessidade urgente de abertura ao “espírito moderno” que Jaime Cortesão propõe, em evidente ressonância do programa do manifesto do grupo de Lisboa, redigido por Raul Proença. Este programa posiciona-se frontalmente em oposição ao nacionalismo cultural do saudosismo. Por exemplo, perante a situação caótica da vida nacional, após a revolução triunfante, a resposta à palavra de ordem “renascença nacional” é a seguinte: “Que fazer então? – Pôr a sociedade portuguesa em contacto com o mundo moderno, fazê-la interessar pelo que interessa os homens lá de fora, dar-lhe o espírito actual, a cultura actual, sem perder nunca de vista, já se sabe, o ponto de vista nacional e as condições, os recursos e os fins nacionais. Temos de aplicar a nós mesmos, por nossa conta, esse espírito do nosso tempo, de que temos estado tão absolutamente alheados”.
E surge A Vida Portuguesa, como inquérito à vida nacional. As grandes questões vão surgindo, em análises das questões económicas, das questões educativas (lançamento de um inquérito a nível nacional), da organização da indústria, da vulgarização científica, e da “menina dos olhos” de Jaime Cortesão, que foi o lançamento e dinamização das Universidades Populares.
Além destas análises das grandes questões, o boletim foi-se recheando cada vez mais com as referências e divulgação das actividades da RP. São as indicações cronológicas de todas as acções realizadas, e que permitem acompanhar a par e passo a vida da Associação; são os documentos e transcrições do eco da RP nos periódicos nacionais e alguns internacionais; são os anúncios e programas dos cursos realizados nas Universidades Populares; são as listas de obras da Biblioteca da RP; são os artigos e as listas relacionadas com a “subscrição nacional a favor de Gomes Leal”…
É a voz da Renascença Portuguesa, como consciência activa do seu papel de rejuvenescimento da Raça e da Pátria, sem trair a linha de rumo delineada por Teixeira de Pascoaes, mas apelando com insistência à intervenção da geração nova que se orienta mais para o Futuro, para uma nova Vida e novo Mundo. Sem esquecer “aqueles que têm aquela experiência, aquele saber, e ponderação, que só o tempo dá”.
É também a voz da crítica, não apenas referenciada nas alusões e nas respostas às críticas públicas, mas sobretudo nas inúmeras páginas do boletim com textos de António Sérgio, preparando e acompanhando a famosa “polémica sobre o saudosismo” com Teixeira de Pascoaes, nas páginas de A Águia, de Outubro de 1913 a Julho de 1914. Para além de outros textos extensos, atendendo à dimensão do boletim, é de destacar o artigo “Golpes de malho em ferro frio – Aos portugueses de 16 anos que não ambicionam ser poetas líricos”, que preenche na quase totalidade as oito páginas do caderno nº 16, de 2 de Agosto de 1913, e que desfere a terrível acusação à RP “de ser uma sociedade do elogio mútuo. Creio que realmente tem havido orgia de elogio mútuo. Reconheçamo-lo, emendemo-nos e sigamos adiante”. É a preparação próxima da polémica com Pascoaes, no órgão oficial. A sua oposição ao saudosismo é directa e frontal: “Só alcançarmos um viver decente quando atirarmos completamente ao diabo o Historismo e o Saudosismo”. A crítica de Jaime Cortesão vai no sentido de apontar os erros e contradições, “para não dizer dispautérios”, de Sérgio, com o texto “O parasitismo e o anti-historismo – Carta a António Sérgio” ; a resposta de Sérgio às objecções sairá no nº 20, de uma forma mais clara, em estilo límpido e em linguagem da ciência e sem imagens, no texto “O parasitismo peninsular – Carta a Jaime Cortesão” .
A colaboração de António Sérgio manter-se-á até aos últimos cadernos, chegando mesmo a assumir a direcção da “Biblioteca de Educação”, nos projectos editoriais da RP, e que permanecerá anunciada nas páginas do boletim até ao penúltimo caderno, em Junho de 1915.
Como nota curiosa, regista-se a ausência de colaboração de Teixeira de Pascoaes nas páginas deste boletim, para além de um breve texto – “Gomes Leal na miséria” , com o apelo ao apoio urgente a um grande Poeta na miséria. O seu domínio era o de A Águia, nos altos voos de inspiração saudosista, sem concessões ao sentido prático dos que viam na intervenção do quotidiano uma exigência inadiável para todo o projecto de renovação cultural.
A partir de Agosto de 1914, o drama da “Guerra Grande” marca presença nas páginas do boletim. Álvaro Pinto escreve a crónica “Portugal e a Guerra Grande” , onde analisa as razões da guerra e os motivos da loucura alemã, e interroga-se sobre a atitude de Portugal, apontando para um apoio à causa da justiça e à vitória do direito. Jaime Cortesão, no mês seguinte, com o texto “A Renascença Portuguesa e a Guerra”, exorta à solidariedade greco-latina, perante o perigo que ameaça a França, e propõe “à meditação e actividade dos nossos amigos este belo motivo a solicitar as suas energias” . E, coerente com a sua posição, em breve se alista nas fileiras dos voluntários como médico, retomando assim a actividade profissional que tinha suspendido havia alguns anos.
As dissidências no seio da Renascença Portuguesa e a dispersão que a Guerra provocou, vão apressar o fim da publicação do Boletim A Vida Portuguesa. Em breve se assistirá ao abandono da direcção da revista A Águia por Teixeira de Pascoaes, às dissidências mais surpreendentes de Jaime Cortesão e de Álvaro Pinto, e à criação do movimento e da publicação da Seara Nova…
Jaime Cortesão desiste dum projecto, mas continua a lutar pelos mesmos ideais de renovação, que o hão-de levar a novos empreendimentos e a longínquas paragens. Por agora, fica a mudança de estratégia, que ele explica em carta ao amigo Álvaro Pinto: “A Renascença, nascida antes da guerra, correspondeu a uma época do mundo e a uma idade nossa que passou. Sob o ponto de vista de ideias, que deram a célebre discussão entre Pascoaes e Sérgio, eu hoje pendo para o lado do último. No túmulo cheio de velhos miasmas, que é a Nação, devem entrar lufadas de ar distante e renovador”.
domingo, 13 de dezembro de 2009
Texto que nos chegou...
“Leonardo Coimbra, a revista ‘A Águia’ e o panorama cultural contemporâneo”
A revista ‘A Águia’ começou a ser publicada a 1 de Dezembro de 1910, poucas semanas após a implantação da República no país, com a colaboração de um vasto conjunto de intelectuais com aspirações de intervenção cívica. Esta publicação periódica teve, assim, uma estratégia de pedagogia cívica junto da população no sentido de “regenerar” a alma portuguesa que padecia dum misantropismo larvar, em especial desde o Ultimato inglês, e de um crónico analfabetismo. Deste modo, esta revista, na sua fase mais criativa e heterogénea, quando se tornou em 1912 órgão do movimento cívico “Renascença Portuguesa” pretendeu facilitar a reificação do ideal Republicano de alfabetizar e de difundir a cultura junto das classes populares.
Esta revista colheu a colaboração entusiástica de jovens poetas, economistas, historiadores, artistas e pensadores que fizeram emergir diversas correntes culturais na sociedade portuguesa do início do século XX . Na dinâmica de crescimento da revista entre 1910 e 1932 afirmaram-se como principais esteios directivos Teixeira de Pascoais e Leonardo Coimbra ao fazerem vingar, ao longo dos anos, o paradigma Místico e Saudosista que levou à dissidência dos Modernistas do “Orpheu” (1915) e dos Funcionalistas da “Seara Nova” (1921). “A Águia” foi, assim, o frutífero embrião da geração de intelectuais que fizeram nascer relevantes movimentos culturais. Designadamente, tornou-se na sua fase inicial, em 1910-1911, no ambiente de reflexão intelectual que fez surgir a “Renascença Portuguesa”.
“A Águia” alicerçou-se, numa matriz nacionalista e neo-romântica, no combate contra a tese da decadência nacional que pairava na mentalidade da sociedade portuguesa desde o fim do século XIX. Com efeito, aos mentores da revista moveu-os este espírito de promoção da auto-estima nacional que os mobilizou contra a tese do declínio da nação portuguesa deixada pairar pelo poeta Antero de Quental desde as Conferências do Casino de 1871 e contra a mentalidade positivista de Auguste Comte que contaminava a intelectualidade Europeia. Deste modo, este grupo eclético de personalidades que, exprimindo-se nesta revista, pretendeu pôr cobro ao atávico complexo de inferioridade nacional, representado pela noção decadentista, teve significativo sucesso. Porquanto, foi deste periódico que fluiu a seiva renovadora do panorama cultural português do início de Novecentos.
De facto, esta revista foi o gérmen criativo das grandes correntes intelectuais que moldaram as primeiras décadas do século XX português. Efectivamente, do grupo inicial, que se reuniu em torno da revista, bastante diversificado, irromperam dissidências que deram origem a revistas com perspectivas filosóficas divergentes do núcleo dirigente. A partir de 1912 assumiu-se como figura central, da revista ‘A Águia’, Teixeira de Pascoais, que exerceu a sua Direcção longo tempo e a plasmou com a sua tese Saudosista, tendo esta situação conduzido à saída de Fernando Pessoa, de António Sérgio e de Jaime Cortesão, que os levaram a desenvolver outras tendências estéticas e filosóficas. Revelou-se, assim, como uma revista cultural eclética nos seus primeiros anos (1910-1918), na qual pontuavam movimentos culturais diversificados (Saudosismo, Simbolismo, Neo-romantismo, Impressionismo, Sobre-realismo, etc ). Todavia, o pendor cultural “absolutista” de Teixeira de Pascoais deu azo às dissidências doutrinárias que ganharam autonomia face ao rumo Saudosista imposto pelo seu obstinado Director.
Leonardo Coimbra, filósofo e político da Primeira República e fundador da revista “A Águia”, acompanhará desde a primeira hora o seu desenvolvimento. Por consequência, desde a sua fundação sustenta uma visão, muito actual, sobre a educação ao declarar que a sua verdadeira missão é a transmissão cultural. Em concomitância, criticou a educação exclusivamente utilitarista que estava na época, como está nos nossos dias, excessivamente absorvida com as preocupações curriculares de adaptação ao mercado de trabalho. Esta tendência incitou-o a reprovar o desprezo, manifestado por este estilo de educação, pela literatura e pela história . Na actualidade, no presente contexto tecnocrático os poderes públicos valorizam cada vez mais a educação técnica em detrimento da educação humanista, que se encontra subvalorizada . Por outras palavras, Leonardo Coimbra procedeu a uma leitura crítica da ascendência positivista sobre o fenómeno educativo.
Na verdade, o panorama cultural contemporâneo, português e internacional, está influenciado pela preponderância da tecnocracia e do consumismo e, por esta razão, os hábitos culturais dos cidadãos estão massificados pelo gosto estético laxista das bases da sociedade e dos “Media”, ao invés de serem incitados pelas elites intelectuais desvalorizadas pelo paradigma pedagógico tecnicista que submerge o mundo de hoje. Este fundamento faz sobressair a pertinência do pensamento de Leonardo Coimbra expresso na revista “A Águia”. Assim, pretendeu como voz militante da “Renascença Portuguesa” contribuir para a concretização do ideal cívico e cultural Republicano. Há, pois, um paralelismo entre estas advertências deste pensador e o presente fenómeno da ‘cultura de massas’ que contamina as classes médias, apartando os cidadãos da fruição de bens culturais mais exigentes em erudição.
O período intelectualmente mais fervilhante desta revista compreende os anos entre 1912 e 1918, porquanto a partir desta data a “Renascença Portuguesa” perderá o dinamismo criativo dos primeiros anos devido às diversas dissidências artísticas e filosóficas, à crise política do país e ao colapso psicológico da Europa saída da 1ª Guerra Mundial. Já em plena Ditadura Militar, nos finais dos anos 20, a actividade repressiva levou alguns dirigentes da revista ao exílio, ou ao desterro, e o movimento cívico que lhe subjaz perdeu fulgor, terminando a sua actividade com o fim da publicação da revista, em 1932.
Convém recordar a distância ideológica que separava os intelectuais, agregados à revista, e os políticos Republicanos, não obstante algumas afinidades políticas existentes. Com efeito, há um inequívoco paradoxo entre o ambiente racionalista que presidiu à instauração do regime Republicano e a mentalidade desta intelectualidade, descrente do linear progresso racional, convicta do valor do progresso espiritual da Humanidade . Na verdade, a “Renascença Portuguesa”, e esta revista como sua extensão mediática, surgiu como associação de artistas e de escritores interessados em influir sobre os decisores políticos mediante a sua matriz ideológica nacionalista e espiritual. É nesta medida que Leonardo Coimbra se assume como charneira de conexão entre as ideias comuns do grupo e a “praxis” política, porque sendo um filósofo idealista procura colmatar os seus dons especulativos com a sua militância no Partido Republicano Português que o conduzirá, duas vezes, a abraçar a Pasta da Instrução Pública (em 1919 e em 1922-1923).
Em suma, a revista “A Águia” reuniu um conjunto de grandes intelectuais, com relações de convivência mútua, que subscreveram um comum paradigma neo-romântico, na combatividade aos pressupostos positivistas e racionalistas, propondo uma atitude espiritual renovadora da pátria portuguesa. Esta publicação periódica ergueu-se, pois, em “voo altaneiro” sobre as concepções deterministas e materialistas dominantes na conjuntura. Leonardo Coimbra, e os seus correligionários, partilham esta visão alternativa que perpassa os seus artigos. Por analogia, no actual contexto tecnocrático faz falta regressar ao ânimo cultural desta inolvidável geração de pensadores para que possamos questionar, com inspiração, a matriz ideológica, consumista e materialista, das nossas sociedades e daí o contributo que a “Nova Águia” pode vir a desempenhar abrindo novos horizontes, repletos de revigorante espiritualidade, aos nossos concidadãos.
Nuno Sotto Mayor Ferrão
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Extracto da Comunicação para o Colóquio sobre a Seara Nova (FLUL, 28-30 de Outubro)
Entre os movimentos da Renascença Portuguesa e da Seara Nova - da Lusitanidade à Lusofonia: o caso de Agostinho da Silva.
Dentre as cisões que animaram a nossa história cultural, a cisão Renascença Portuguesa-Seara Nova é, decerto, uma das mais fracturantes, senão mesmo a mais fracturante.
Perante ela, parece fácil tomar posição. Tanto mais porque, historicamente, foi a Seara Nova que parece ter vencido, pelo menos nesse plano retórico onde muitas vezes, senão sempre, se joga o destino das histórias culturais.
Segundo essa mesma retórica, temos, de um lado – da Renascença Portuguesa –, um movimento saudosista, logo passadista, logo reaccionário, que, alegadamente, pretendia enclausurar Portugal em si próprio[2]; do outro lado – da Seara Nova –, temos um movimento progressista, modernizador, que, ao invés, pretendia abrir Portugal à Europa, a todo o mundo…
Como quase todas as visões caricaturais, também esta é tão substancialmente falsa quanto acidentalmente verdadeira. É verdade que a Renascença Portuguesa – na perspectiva de Pascoaes, em particular – sobrepunha, como veremos, os paradigmas endógenos aos exógenos. Isso não faz dele, contudo, a priori, menos progressista.
O que aqui há são diversas concepções de progresso, e mesmo de modernidade. Se, para Teixeira de Pascoaes, “o fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas”[3], para Raul Proença, por exemplo, o paradigma é de facto outro. Ouçamos, para o atestar estas suas palavras:
“O nosso espírito, a nossa maneira de encarar os problemas, o nosso modo de os resolver, as ideias fundamentais que formamos da vida e do mundo, tudo isso que é o que importa numa sociedade, porque é o que nela há de garantias para uma sociedade melhor, são coisas anacrónicas, sem relação nenhuma com o meio europeu em que nos integramos fisicamente. É como se fossemos uma pústula no meio da Europa, onde circula ininterruptamente sangue sempre novo e sempre vivificante. Como estremunhados pensamos ideias que não são para o nosso tempo, continuamos num sonho distante, estranhos à actividade, estranhos ao pensamento moderno”[4].
De facto, estamos aqui perante dois paradigmas: de um lado, pugnava-se por um progresso a partir de dentro, que fosse fiel à nossa alegada singularidade histórico-cultural; do outro, pugnava-se por uma adequação de Portugal ao que aparentava ser o exemplo máximo de modernidade: a Europa.
Esta divergência – de ordem cultural, filosófica e até ideológica – foi, de resto, assumida, de uma forma tanto mais nobre porquanto não envolveu qualquer desqualificação ético-moral da “outra parte”.
Foi esse, por exemplo, o caso de Raul Proença, que se referiu aos seus “oponentes” do movimento da Renascença Portuguesa como “criaturas de alto valor, de nobre senso moral, credoras da nossa admiração e do nosso respeito”[5]. O que é de enaltecer, pois que, entre nós, o mais habitual é as divergências de ordem cultural, filosófica e até ideológica redundarem em desqualificações ético-morais…
Neste caso, isso não aconteceu, até porque a divergência era de facto clara: entre, por exemplo, alguém como António Sérgio, que “não se pensava sob a categoria do nacional”[6], e alguém como Teixeira de Pascoaes, que pensou a Pátria como “um ser vivo superior aos indivíduos que o constituem, marcando, além e acima deles, uma nova Individualidade”[7], era claramente difícil, senão impossível, haver um caminho comum…
*
Não obstante, houve casos que ultrapassaram essa fronteira aparentemente intransponível: prova de que os percursos pessoais são sempre irredutíveis a todos os rótulos, a todas as etiquetas…
Exemplo máximo disso foi, a nosso ver, o caso de Agostinho da Silva. Não tendo sido propriamente um “renascente” – até por questões de ordem etária: Agostinho da Silva nasceu em 1906, apenas 6 anos antes da criação do movimento da Renascença Portuguesa – alguns textos de juventude aproximam-se, bastante, do ideário da Renascença.
Atentemos, por exemplo, no seguinte texto:
AS RESPONSABILIDADES DE EÇA DE QUEIROZ[8]
(...)
Comparemo-lo agora com o seguinte texto, escrito apenas cinco anos após, quando Agostinho da Silva militava já nas fileiras da Seara Nova[9]:
DA IMITAÇÃO DA FRANÇA[10]
(...)
A diferença, de facto, dificilmente poderia ser maior. No primeiro texto, acusa Eça de Queiroz de ter criado “um ambiente de desprezo pela pátria” – eis, de resto, a acusação que Agostinho da Silva imputou a toda a “Geração de 70”, à excepção de Francisco Manuel de Melo Breyner, conde de Ficalho, que, ao contrário dos outros, “não teve pessimismos, não considerou a nação falida, não troçou de ninguém”[11]. No segundo, conclui com seguinte exortação: “Imitemos a França, imitemo-la inteiramente…”.
Cerca de uma década e meia depois, já no Brasil – para onde parte em 1944 –, vai, contudo, Agostinho da Silva reencontrar a nossa singularidade histórico-cultural – para ele, de resto, como ele próprio escreverá, foi a criação do Brasil que terá “definitivamente livrado Portugal das daninhas influências europeias que não o deixaram ter nem regime cultural nem acção nem política verdadeiramente adequadas à sua mentalidade”[12], antes procuraram “fazer de Portugal uma Dinamarca latina”[13].
Esse reencontro não se constituiu todavia como um regresso. Ainda que tenha retornado a este país, em 1969, aqui permanecendo os últimos vinte e cinco anos da sua vida – Agostinho da Silva faleceu no dia 3 de Abril de 1994 –, o autor da Reflexão à margem da literatura portuguesa jamais verdadeiramente regressou. Desde os anos cinquenta o seu horizonte foi sempre já outro: não já a Lusitanidade, não já Portugal, mas a Lusofonia, a Comunidade Lusófona, da qual Portugal era apenas uma extensão, a extensão europeia. No princípio de um novo século, eis o novo horizonte que se depara aos nossos olhos[14].
[2] Partindo desta perspectiva, mais ou menos expressamente enunciada, inevitável é depois falar-se do “esgotado movimento da Renascença Portuguesa e da revista A Águia” (como, por exemplo, in Seara Nova: Razão, Democracia, Europa, Porto, Campo das Letras, 2001, p. 7). Como visão contrapolar a esta, refira-se, nomeadamente, a de José Marinho, para quem “com a ‘Renascença Portuguesa’, e com tudo quanto se lhe segue em afinidade espiritual ou crítico contraste, surge a mais funda transmutação na vida espiritual portuguesa desde o Renascimento.” [cf. Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, Porto, Lello, 1976, pp. 224-225].
[3] Cf. “Manifesto da Renascença Portuguesa”, in A Vida Portuguesa, ano l, nº 22, 10/2/1914, pp. 10-11.
[4] In A Vida Portuguesa, Ano I, nº 22, 10/ 02/ 1914, p. 12
[5] Idem, ibidem.
[6] Cf. “Prefácio” a O Mundo que o Português criou, de Gilberto Freyre, Lisboa, Livros do Brasil, 1940, p. 10.
[7] In A Arte de Ser Português, Lisboa, Delraux, 1978, p. 33.
[8] In Acção Académica, Porto, 15 de Outubro de 1925, ano I, nº 3, p. 3.
[9] Agostinho da Silva aproximou-se em particular de António Sérgio, a quem inclusivamente chegou a reconhecer como seu “mestre” – isto apesar destas suas considerações: “…Sérgio não ousou afrontar os problemas filosóficos mais profundos, as questões de dúvida. Preferia manter-se na certeza.”; “Mesmo como pedagogo, a sua atitude tendia a ser de grande arrogância intelectual.” [cf. Dispersos, introd. de Fernando Cristóvão, apres. e org. de Paulo A. E. Borges, Lisboa, ICALP, 1988/ 1989 (2ª, revista e aumentada)., p. 55]. Como, contudo, o próprio Agostinho reconhece, o seu discipulato relativamente a Sérgio cumpriu-se, sobretudo, por oposição: “…mas ele [Sérgio] não me ensinou o racionalismo: ensinou-me antes o irracionalismo, por reacção minha.” [cf. Francisco Palma Dias, “Agostinho da Silva, Bandeirante do Espírito”, in AA.VV., Agostinho [da Silva], São Paulo, Green Forest do Brasil Editora, 2000, p. 155]. Nessa medida, ainda que indirectamente, Agostinho terá sido, muito mais do que um “discípulo de Sérgio”, um “discípulo de Leonardo” – António Telmo considerou-o mesmo, de resto, como “o último discípulo de Leonardo Coimbra” [cf. “Testemunho”, in Diário de Notícias, 4/4/1994]. Isto apesar do próprio Agostinho da Silva, na sua expressão algo jocosa, “nunca ter sido leonardesco” [cf. AA.VV., Agostinho [da Silva], ed. cit., p. 155] –, não obstante ter reconhecido a sua “largueza de espírito” [cf. Dispersos, ed. cit., p. 174]. Mais do que discípulo de Leonardo, Agostinho terá permanecido sempre, sobretudo, discípulo da Faculdade de Letras do Porto enquanto “escola de liberdade” [cf. ibid., p. 147].
[10] In Seara Nova, Lisboa, nº 197, 23 de Janeiro de 1930.
[11] Cf. “Desconhecidos, quase”, in Vida Mundial, 12/11/1971, p. 25.
[12] Cf. Reflexão à margem da literatura portuguesa, in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira, Lisboa, Âncora, 2000, vol. I, p. 66.
[13] Cf. “Desconhecidos, quase”, in Vida Mundial, 12/11/1971, p. 25.
[14] A esse respeito, uma breve referência à NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI (www.novaaguia.blogspot.com) e ao MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (www.movimentolusofono.org). Ambos, de diversos modos, procuram, no princípio deste novo século, cumprir esse horizonte.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Entre os movimentos da Seara Nova e da Renascença Portuguesa: breve reflexão (resumo)
Os homens em geral – e, dir-se-ia, os portugueses em particular –, são dados a antíteses. Para cada questão, parece sempre haver uma fronteira intransponível, uma fractura insanável. Face a ela, ou estamos de um lado ou do outro.
Eis a lógica do pensamento sectário, que emerge, em particular, nos momentos revolucionários: ver tudo, como se costuma dizer, “a preto e branco”. Se formos dos “brancos”, nada dos “pretos” se aproveita. Se formos dos “pretos”, tudo dos “brancos” é para renegar. Fácil é de ver que, por via dessa lógica, nunca poderá haver sustentado progresso. Mais cedo ou mais tarde, temos que recomeçar tudo de novo.
Essa nostalgia por uma origem absoluta a partir da qual se pudesse recomeçar tudo de novo, como se isso fosse realmente possível é, de resto, por si, inibidora de progresso. Sem capacidade de aceitar o que está para trás, nunca será realmente possível seguir em frente…
A “fractura” entre os movimentos da Renascença Portuguesa e da Seara Nova é uma das que mais se cimentou na nossa memória histórico-cultural. Na nossa comunicação, procuraremos, sem escamotear as diferenças, desconstruir essa “fractura”, salientando, desde logo, a complexidade de alguns percursos pessoais – como os de Agostinho da Silva e de Jaime Cortesão, e mesmo o de António Sérgio –, os quais, devidamente considerados, transcendem algumas dessas fronteiras.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
A Terra de Deus Cristo: do Amor
(Google)O Símbolo de Uma Nação... Lusitânia - Portugal.
«(...) a Cruz de Cristo, dos Templários, representando o símbolo do «Homem Universal». Como o intermediário entre a Essência e a Substância, ou o Céu e a Terra: propriamente como síntese integral, entre este dois pólos, da manifestação. Representando assim uma forma perfeita da Tríade: Céu, Terra, Homem. Nela, o homem será o Filho do Céu e da Terra, o ponto de união entre ambos. E aí estará ainda, tal como no símbolo do Sol e da Lua, a perfeição da complementaridade, na união do masculino e do feminino, ou do activo e passivo, na linha vertical e horizontal. Ou como na esfera armilar, pela representação do Céu e da Terra. Porque tudo nesses três símbolos lusíadas falará da unidade primeira. E aqui este da cruz de braços iguais, será o símbolo do ser que realizou a sua natureza humana e divina totalmente, no equilíbrio do acto e da potência. (...) O ser que atingiu o centro, como homem primordial (...)
Olhemos esses três símbolos, a esfera armilar, o escudo e a Cruz de Cristo, (...) como união do céu e da terra, pelo homem.»
Dalila Pereira da Costa, A Nau e o Graal
«(...) Este foi o Mundo passado, e este é o Mundo presente, e este será o Mundo futuro; e destes três mundos unidos se formará (que assim o formou Deus) um Mundo inteiro. Este é o sujeito da nossa História, e este o império que prometemos do Mundo. Tudo o que abraça o mar, tudo o que alumia o Sol, tudo o que cobre e rodeia o Sol, será sujeito a este Quinto Império; não por nome ou título fantástico, como todos os que até agora se chamaram impérios do Mundo, senão por domínio e sujeição verdadeira. Todos os reinos se unirão em um ceptro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas se rematarão em uma só diadema, e esta será a peanha da cruz de Cristo.
Todos os que na matéria de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam.»
António Vieira, História do Futuro
«(...) o Reino de Portugal não foi fundado para se estender por Castela, senão para dilatar a fé de Cristo e o reino de Deus pelo mundo.»
Clavis Prophetarum
«E assim como o mundo se chama mundo, porque é imundo, e a morte se chama Parca, porque a ninguém perdoa, assim a nossa terra se pode chamar Lusitânia, porque a ninguém deixa luzir.» Sermões (VII, 85)
Até quando, Povo-Portugal, deixaremos nós roubar a única Cruz que em Nós vive?
A do Amor. A do Amor que é Pai e Filho em Nós. O nosso Ser?
Que nos importará verdadeiramente o resto? Enquanto vivermos a angustiante Ausência do nosso sumo Ser: do Sol em Nós?
Enquanto não formos Nós, de Novo, o Mudo-Amor: o Amor-Mundo!
Nau Nossa Senhora da Vida II
Aqui na Península [Ibérica], o Oriente e o Ocidente, a pré-história e a história, o mito e a razão, como coincidência de coordenadas de espaço, tempo e pensamento, no homem e na terra, se unirão no exacto ponto e momento de 1500. No ano de Pedro Álvares Cabral: esse será o sentido dessa falha ou união entre dois séculos; a descoberta do Brasil foi o fechar do círculo, conclusão do novo mar.
E só unindo saber e terra se pode compreender a forma de conhecimento que nasceu nesta civilização e por ela foi ofertada ao mundo e com ele partilhada. Porque tudo se fez, pelos homens, em união com a Terra.
E agora, um meio milénio passado, num mar agora ultrapassado, transfigurado, o do espírito, ou pelo espírito, ou mar interior, novo feito de novos argonautas, se avizinhará, urgirá avizinhar-se: como penetração e desvendamento e desenho nesse outro mar de suas costas e limites e baías as mais profundas e vaus e linhas de orientação: como repetição do primeiro passo de toda a iniciação, e retomar do apelo de Sócrates, ou de mais atrás, do deus da luz, o que estava escrito ao alto no seu templo de Delfos: «Conhece-te a ti mesmo.» De novo trazendo para as costas atlânticas o princípio regenerador do humanismo mediterrâneo.
Será este o feito futuro, renovado, da nova descoberta. Para novo ciclo histórico da pátria lusíada e do Ocidente.
Vês agora a união da saudade com a água? Com a água e com a morte. Bernardim Ribeiro sabia. Era esse o segredo cantado no canto do rouxinol sobre a corrente.
(...) baptismo na água.
Mas agora outra vinda dos Descobrimentos se fará para os homens e para a Terra num homem e numa terra transcendentes, transfigurados, porque na vinda, baptismo no fogo, do Espírito Santo.
O espaço agora a conquistar será o transcendente interior, seu.
E agora pelo homem pelo Cristo novo, na sua Segunda Vinda, tudo passará de terrestre ao cósmico, transcendente.
Para a nova eleição e serviço duma nação, urge pela primeira vez atentar na sua posição no espaço da terra, por uma geografia sagrada. E na sua vinda no tempo, por uma história que nela também se veja de sentido sagrado. Ver aí a sua eleição e serviço, na intercepção do tempo e do espaço. Porque tudo se fará por uma nova visão de tudo que está dada mostrada já.
Seis séculos após, a verdade dos Descobrimentos se abrirá, se libertará. Como seis décadas após, Portugal se libertou do jugo castelhano. E após outras seis décadas, o anúncio da verdade pela Renascença Portuguesa, virá por fim à luz. Como germinações e eclosões de sementes escondidas.
E também então se revelará a verdade da saudade.
Saudade é a polpa do eu eterno.
Porque a saudade não é conclusa em si, mas seu sentido está no seu ultrapassar. Saudade é tempo de gestação.
E a terra finalmente como Virgem, subirá em Assunção ao céu.
E ver que união, como fusão final de fogo e água, se teria dado aqui nestas margens peninsulares: pelo afundamento do disco rubro do Sol, nas águas de Posídon, como fusão do deus dos povos da velha Atlântida e de Apolo o deus dos povos da Grécia (...).
A terra finalmente unida ao céu, ou Apolo a Gaia, ou a Serpente ao Sol, em enlace último, como promessa dum novo mundo, a nascer.
O ser saudoso é o ser livre na necessidade, o ser da eternidade no tempo. O que traz para a lei da terra a lei do céu. Ou a eternidade para o devir.
Porque a poesia terá a mesma origem que a profecia: as Musas são filhas da Memória.
E assim ao discurso se substituirá essa supra-razão e a unidade do paraíso de novo será atingida.
(...) só, aí, na brancura cintilante e doce (a tal inefável), do seu seio último. Semente do fruto. Trono do mundo. Coração do homem.
A saudade é o segredo de Apolo.»
Dalila Pereira da Costa, A Nova Atlântida
«(...) a força da Saudade, criando vida e afogando o sol nas suas lágrimas (...)»
Teixeira de Pascoaes
(Maria Bethânia e Gal Costa)
«Roubam-me Deus
Outros o diabo
Quem cantarei
Roubam-me a Pátria
e a humanidade
outros ma roubam
Quem cantarei
(...)
E de mim mesmo
Todos me roubam
Quem cantarei
Quem cantarei
Roubam-me a voz
quando me calo
ou o silêncio
mesmo se falo
Aqui d'El Rei»
D'El Rei... Amor!
terça-feira, 2 de setembro de 2008
RENASCIMENTO LUSITANO – PRIMEIRO MANIFESTO, DE TEIXEIRA DE PASCOAES (PARA UM PAIDEUMA TEÓRICO, I)

Na reunião de Coimbra em 1911, ficou Teixeira de Pascoaes encarregado de redigir um manifesto ao país com os intuitos da «Renascença».
AO POVO PORTUGUÊS. A «RENASCENÇA LUSITANA» *
Estas palavras que dirigimos ao Povo Português têm por fim revelar-lhe qual será a obra patriótica da Renascença Lusitana – , obra em que devem colaborar todos os homens de boa vontade.
A Renascença Lusitana é uma associação de indivíduos cheios de esperança e fé na nossa Raça, na sua originalidade profunda, no seu poder criador de uma nova civilização. Esta fé e esta esperança não resultam de uma ilusão patriótica, mas do conhecimento verdadeiro da alma lusitana, a qual devido a influências estrangeiras de natureza política, artística, literária e sobretudo religiosa, se tem adulterado nos últimos séculos da nossa História, perdendo o seu carácter, a sua fisionomia original e, portanto, as suas forças criadoras e progressivas.
O fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas, para que a alma desta bela Raça ressurja com as qualidades que lhe pertencem por nascimento, as quais, na Idade Média, lhe revelaram os segredos dos mares, de novas constelações e novas terras, e, de futuro, lhe deverão desvendar os mistérios dessa nova vida social mais bela, mais justa e mais perfeita.
Logo que a alma portuguesa se encontre a si própria, reaverá as antigas energias e realizará a sua civilização.
Sonho belo, mas quimérico? Não! Descobrem-se já na alma da nossa Raça alvoroçantes sintomas de renascença. O seu esforço de 5 de Outubro foi o despontar da sua heroicidade que dir-se-ia morta para sempre; foi um sinal de abnegação; houve vidas sacrificadas à Vida.
A sombra de Nun’Álvares saiu do túmulo e vagueou nas ruas de Lisboa; sulcaram o Tejo fantasmas de caravelas em demanda da Índia Ideal, essa Índia que fica em pleno mar do nosso sonho.
Admiráveis presságios! Já brilha a estrela da nova Manhã! Chegou, na verdade, o momento divino de todos os bons portugueses colaborarem na grande obra da nossa Renascença! O morto estremeceu, ao sentir o primeiro hálito de vida. Abramos-lhe a tampa do sepulcro! Eis a nossa obra, a obra do nosso amor e da nossa fé.
Este apelo que fazemos aos portugueses, por isso mesmo que nos sai da alma, há-de ser ouvido. E a Renascença Lusitana, neste instante em que apresenta ao povo a sagrada ideia que a anima, espera firmemente que se reúnam em volta dela todas as almas esperançosas que sentem em si o germinar de uma nova vida, o acordar dum novo alento criador de beleza, de justiça e de bondade, os três elementos constitutivos de uma verdadeira civilização.
Não se exige que se seja artista ou poeta ou sábio para trabalhar nesta obra; tal coisa seria de um exclusivismo ridículo. Todo aquele que acreditar no renascimento lusitano, todo aquele que nos trouxer um clarão de esperança, será recebido de braços abertos como leal e firme camarada.
Estas palavras, como já fica dito, têm por fim mostrar ao povo português qual a ideia que inspira a Renascença Lusitana. Essa ideia, repetimos é reintegrar a alma da nossa Raça na sua pureza essencial, revelar o que ela é na sua intimidade e natureza originária, para que tome conta de si própria, e se torne activa e criadora, e realize, enfim, o seu destino civilizador.
Temos, portanto, em vista: dar ao povo uma educação lusitana e não estrangeira; uma arte e uma literatura que sejam lusitanas, e uma religião no seu sentido mais elevado e filosófico, que seja também lusitana.
Com efeito, quem surpreender a alma portuguesa, nas suas manifestações sentimentais mais íntimas e delicadas, vê que existe nela, embora sob uma forma difusa e caótica, a matéria de uma nova religião, tornando-se a palavra religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da Vida… Ora a alma portuguesa sente esta ansiedade de uma maneira própria e original, o que se nota facilmente analisando os cantos populares, as lendas, a linguagem do povo, a obra de alguns poetas e artistas e, sobretudo, a suprema criação sentimental da Raça – a Saudade!
Sim: na alma lusitana há a névoa duma nova religião; e por isso, o catolicismo, importado de Roma, jamais se tornou português, como se tornou espanhol, por exemplo. Todavia, em virtude da insistência com que tem sido cultivado em Portugal, concorreu para desnaturar o nosso carácter; é necessário, portanto, combatê-lo, como a todos os inimigos invasores, ou sejam de casta pedagógica, artística, literária, religiosa ou filosófica.
Esta luta, assim como a obra reconstrutiva da Renascença Lusitana será feita, além de outros meios, por meio de conferências, livros e duma revista de literatura, filosofia, ciência, crítica social, etc, que se intitulará A Águia e será o órgão da sociedade.
Eis a obra a que vamos dedicar o melhor da nossa actividade e todo o nosso entusiasmo, esperando o concurso dos bons portugueses.
Bem sabemos que é uma obra enorme. Mas é preciso que alguém lhe dê o primeiro impulso. Outros, mais fortes do que nós, terão a glória de a concluir.
Ao ser [este manifesto] levado para Lisboa, o seu autor acrescentou o seguinte [texto].
Diremos, de passagem, que consideramos como os grandes factores do nosso renascimento, a Higiene e a Arte.
Por aquela atingiremos a harmonia física, e por esta a harmonia espiritual.
A Ginástica encerra tanta virtude como a Arte Poética. A guerra ao álcool, ao tabaco, à alimentação carnívora, por exemplo, é uma guerra santa e confunde-se com a glorificação da Beleza moral, com a apoteose dos sentimentos e das ideias mais puras e transcendentes.
A Íliada e os Jogos Olímpicos!
Teixeira de Pascoaes
* Manifesto publicado n’A Vida Portuguesa, nº 22, de 10 de Fevereiro de 1914.
sábado, 19 de julho de 2008
TRÊS POEMAS DE ANTÓNIO PATRÍCIO
A UM CADÁVER
Assim, meu pobre mármore transido,
há não sei quê no teu olhar tão baço,
que me fascina e deixa sucumbido
mais do que a luz chorando pelo espaço.
Mais que as asas, as nuvens e as velas,
a tua rigidez me faz cismar
no que serás ao sol e às estrelas
quando o teu corpo em pó for emigrar…
A tua dor, teu sonho, o que serão?
o que será meu pobre irmão, na morte,
teu ódio, teu amor, teu coração?...
Que será agora a vida que eu vivi?
Quem me dera saber qual foi a sorte
de tudo o que eu chorei e do que eu ri…
SPLEEN
No meu cachimbo de urze, fumo, fumo:
o fumo ondeia como eu, sem rumo…
Nada sei, nada sei: nada me importa…
(És noiva doutro, amante doutro ou morta?)
Nem arte, nem amor, nem santidade;
nem heroísmo ou sonho: nem saudade…
A chuva cai: um corvo no jardim…
E nada, nada, nada dentro de mim.
Assim esterilmente me consumo:
no meu cachimbo de urze, fumo, fumo…
Não tem sentido a vida: é este lodo apenas
com estrelas ao longe em música de avenas.
Tudo virá igual e friamente,
eternidade além… Rastejar de serpente.
É o éternel retour de Zaratustra,
ideia de terror que tudo gela e frustra.
E a alma que tem sede de divino
é uma bússola louca, é um leme sem tino.
Assim esterilmente me consumo:
no meu cachimbo de urze, fumo, fumo.
JARDIM DE FADAS
Uma ronda de elfos farandola
em torno de Oberon adormecido:
e Titânia, os pés numa corola,
parece o seu perfume encorpecido…
Nas musselinas de alva, Puck corta
uma veste mais leve e transparente,
e sopra à alma duma folha morta
que voa perto dele subtilmente…
Penumbra gris em que se esfolha a lua.
Ao fundo do jardim, o Mar do Norte
desfez-se em nuvem, como que flutua…
Titânia toca as árvores veladas…
e abrem-se os troncos todos de tal sorte
que saem deles turbilhões de fadas…
António Patrício
segunda-feira, 7 de julho de 2008
INTRODUÇÃO A «O IMPÉRIO COLONIAL PORTUGUÊS» DE C. R. BOXER, POR J. H. PLUMB
[…]
De facto, o Império Português põe uma série de questões embaraçosas ao historiador. Por que razão esta nação pequena, bastante pobre e culturalmente atrasada, situada na costa sudoeste da Europa foi tão dramaticamente bem sucedida nesse grande século de empreendimentos que começou por volta de 1440? E por que razão se tornou este êxito uma pálida sombra de si mesmo no curto espaço de cinquenta anos? E, o que é ainda mais estranho, porque é que a posse deste império não actuou como um catalizador para Portugal? Na Holanda, na Inglaterra, em Espanha e em França a posse de um império actuou como um fermento, não só na vida económica e política da nação, mas também na sua vida cultural, na sua literatura, na ciência e na arte. Em Portugal, Lisboa aumentou e Camões escreveu Os Lusíadas. É evidente que houve maior prosperidade do que a que teria havido se Portugal continuasse apenas dependente dos vinhos e da pesca. Mas, além de Camões, há muito poucos escritores, arquitectos, pintores ou cientistas cujos nomes sejam conhecidos, a não ser por especialistas. O impacto cultural do Império Português, se bem que não possa ser ignorado, é estranhamente superficial. E, à medida que uma pessoa lê a História arrebatadora dos Descobrimentos Portugueses, exposta com brilhantismo pelo prof. Boxer, estes porquês insistentes avolumam-se cada vez mais.
Na realidade, Portugal tinha algumas vantagens naturais. Durante toda a sua existência, havia vivido à custa do mar. A sua costa rochosa, batida pelo Atlântico, aonde vão desaguar os rios que nascem no interior montanhoso, tinha, desde sempre, sido a porta aberta para um mundo mais vasto, criando uma dura e hábil raça de marinheiros, que não se deixava atemorizar pelas tempestades do Oceano.
J. H. Plumb
In O Império Colonial Português, C. R. Boxer, Edições 70, Lisboa, 1977, pp. 13, 14, 15.
NOTA
Existe edição portuguesa mais recente, com o título «O Império Marítimo Português»; entretanto tivemos uma revolução, ergueu-se um determinado modelo de democracia, com uma imensa habilidade para mudar o nome às coisas. Ou melhor dito, temos a mania de traduzir como nos convém. O título original é «O Império Português Transportado no Mar» (The Portuguese Seaborne Empire 1415-1825).
domingo, 22 de junho de 2008
TEIXEIRA DE PASCOAES
Pediram-me há tempos, para um artigo, algumas palavras sobre Teixeira de Pascoaes - e, especialmente, sobre o significado social e humano da sua vida e da sua obra. Encargo embaraçoso, sem dúvida, para quem sempre viu no admirável poeta do «Marânus», como características dominantes, a incurável solidão e o predomínio de uma metafísica panteísta mais ou menos disforme em que os ecos da humanidade concreta e quotidiana repercutem muito longinquamente. Por essas mesmas características se me afiguram explicáveis, durante largo tempo, a versatilidade da sua irradiação na literatura portuguesa contemporânea, que sempre conheceu sucessivas mortes e ressurreições, e o distanciamento a que a sua poesia, de poderosos vislumbres geniais, se manteve perante as últimas gerações renovadoras do lirismo português. Por maior boa vontade que se ponha na apreciação dessa influência, ninguém ousará compará-la com a que tiveram, e têm ainda, Camilo Pessanha, um Fernando Pessoa, um Sá Carneiro, um Régio - para só falar dos grandes poetas nacionais. A qualidade humana de Pascoaes, no entanto, envolve outras questões e perspectivas. Urge, assim, lembrar, sempre, Teixeira de Pascoaes.Paulo Sempre*
* www.filhosdeumdeusmenor.blogspot.com
quarta-feira, 11 de junho de 2008
COMENTÁRIO À CAIXA DE COMENTÁRIOS
DO TEXTO SANGUE NA RUA
Não obstante, quem, de livre vontade, expressa o intuito de aderir a este Movimento aceita uma Declaração de Princípios e Objectivos, que acredito comprometer com um ideário.
Algumas pessoas de Esquerda mais radical que aqui, com plenos e iguais direitos, estão, têm manifestado o seu contributo por: anúncios, comentários anónimos* e um mal disfarçado intuito de nos confundir com não sei que poderes da sociedade a que pertencemos, na leviandade juvenil de quem pinta um qualquer slogan na vivenda do vizinho.
Considero esta atitude sumamente malcriada e enfrentá-la-ei sempre. Por isso não se queixem de um moderado embate de escudos; nem desembainhei a espada.
Desafio-vos à utilidade, à coerência e à pregnância! Na pretérita geração da Renascença Portuguesa o anarquismo e o socialismo foram parte do contributo político e filosófico que inspirou alguns dos seus membros...
Por que razão ainda nada vosso se leu neste blogue acerca?
Klatuu Niktos
* O anonimato na blogosfera é a ausência de uma personalidade virtual.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
O FILÓSOFO
Desta vez dei com um pequeno maço de folhas dactilografadas presas por um laço de tecido negro, amarelecidas qual vestígio de uma civilização antiga: eram as Folhinhas daquele senhor sem idade que voltou do Brasil e tocou a minha vida; as Folhinhas de Agostinho da Silva, muitas delas assinadas. São um tesouro: filosofia, religião, filosofia política, traduções de Heine, de Lenau, de Libai, viagens do sonho e da memória, poemas e um fundo, fundo amor pelos homens e pelos bichos, por África, pelo Brasil e por Portugal. Não existíamos ainda, gaiatos de faculdade que éramos, e então aquele senhor alto, seco, de palavras estranhas como um profeta, voltou de além Atlântico e iluminou as nossas vidas; ele enviava-nos as Folhinhas e nós devolvíamos-lhe o preço dos selos, um pouco mais que o preço dos selos – éramos idealistas e amávamos Portugal e queríamos aquele senhor com a idade dos avôs para sempre junto de nós – e assim o ajudávamos a sobreviver, abandonado que estava por tudo e por todos, menos pelo amor dos gatos e das crianças, ignorado por um Estado idiota e por uma Nação de labregos. Isto foi antes dos programas de televisão, do lambe-cú dos intelectuais auto-promovendo-se na moribundez adiada de Agostinho, do perdão do Estado e da devolução tardia do vencimento devido, das condecorações e da hipocrisia nojenta!
Vinham as Folhinhas e ia o dinheiro dos selos, um pouco mais que o dinheiro dos selos, e por vezes vinha o convite para uma conversa; saíamos para as ruas ao encontro do filósofo da lusofonia e do trans-nacionalismo, solenes, batalhão de jovens soldados do Espírito, orgulhosos do nosso patriotismo precoce e puro – ainda não havia nacionalismos psicóticos e o nome de Portugal não era grunhido nas ruas por traidores a soldo de umas alemanhas e umas américas que nem a Alemanha nem a América aceitam como suas. Vinham as Folhinhas, até pouco antes da morte.
Passaram os anos, o filósofo morreu; sonhámos ideias terríveis, jejuámos, esgrimimos, quisemos ver Agostinho a concorrer às Presidenciais – o Alferes da Pátria dissolveria o Parlamento, convocaria as Cortes, o Senhor D. Duarte voltaria ao Trono – e tornámo-nos uma espécie de apátridas voluntários.
Uma manhã, verde, verde, de nevoeiros sagrados, gritou dentro de nós um coração jovem, incorruptível e alto – e hoje temos que enfrentar o nojo destes dias com papéis mortos, entre as mãos lívidas e trémulas.
Viva Portugal! Viva Portugal! Viva Portugal!
Klatuu Niktos
Caros Amigos,
Vocês nem imaginam como me tem preocupado essa série de incidentes com imigrantes brasileiros. Como base fundamental há o meu sentimento de que sou multinacional, isto é, por ordem alfabética, brasileiro, com minha capital em Itatiaia, mesmo no cimo de seu pico de montanha, e subindo de preferência pelo túnel, lugar bravio e apaixonante, onde comecei a aprender alguma filosofia com o grande mestre que foi, pelo que sabia e pelo que era como pessoa, o grande mestre Vicente Ferreira da Silva.
Por minha mãe, que lá ficou, e por família, e por amigos que família me são, moçambicano, sendo a capital que lhe sonho, como centro pensador de todo o Índico e de vária África interior, a extraordinária Ilha de Moçambique, moradia de poetas que só tem rival na ponta leste de Timor, e eu sempre com lembrança de sua aldeia indígena e dos monumentos e dos contactos com muçulmanos.
Por fim, solidamente de Portugal, o do Porto, onde nasci, modelo de municípios, mas com avós pescadores algarvios e soldados alentejanos, sendo nele minha capital a velha Barca de Alva, a Alva que ainda está por surgir, e que me educou, fui para ela bem pequeno, a ser de aldeia do interior, pão uma vez por semana, e me ensinou a ler com a perna atada à mesa para não fugir a ver lagarto e cobra, muito mais interessantes que o livro da terrível obrigação. De lá, saudades de montes escalvados e do Pereira ferroviário, do tempo em que o comboio nos levava a Salamanca ou nos trazia espanhóis que vinham à festa do «hornazo».
Nítida recordação da cheia do Douro de 1910, que deu como nome de baptismo a uma Amiga minha o de Crescença de Deus, que acho ser o único a poder bater-se com o de outra Amiga minha, a Generosa do Céu; e com a imagem de Junqueiro, de sobretudo mal alinhado, à espera na estação do início de uma das suas viagens de coleccionador antiquário, quem sabe se mais profundo que poeta e republicano.
Quando Portugal manda embora um brasileiro está-se expulsando a si próprio, àquele que embarcou para o Brasil e levou, no navio de Cabral, uma Trindade Portuguesa, levando consigo o Culto do Divino, que se projecta para o futuro, criando o primeiro modelo do que vai ser um mundo de todas as raças e todas as culturas, para que um dia rompa uma cultura verdadeiramente humana. E com firme vontade de realizar através de todas as dificuldades aquilo que projectou.
Mas a verdade é que Portugal está, às vezes, de mau humor, porque a lei é estrangeira e violenta, a cumprir os deveres que tomou, quando voluntariamente, talvez por solidariedade, talvez por gosto de convivência, ingressou numa Europa Comunitária que, ao que parece, ainda se julga dona daquilo a que chamou Terceiro Mundo. É contra isto que o Brasil deve revoltar-se, não contra quem respeita a lei. Adiante se irá. E pode ser que um dia seja o Brasil, com Portugal, guia do mundo, guia do sonho.
Folhinha do Crescente de Lua da primeira semana de Fevereiro de 1993.
Queridos Amigos,
Ouçam então, que a história é simples. Há uns quinhentos ou seiscentos anos fomos expulsos de Portugal, por desagradarmos a Reis mais interessados na Europa do que na Península e a Papas para os quais o que ia importar era o movimento das Descobertas, que fomos expulsos e proibidos de voltar, dizia eu, todos os que éramos felizes com a ideia de que no futuro, o da Era do Espírito Santo, da plenitude de Deus, em sua fusão com o que criara, estaríamos em êxtase diante do Divino que em tudo de concreto íamos ver, sem que, no entanto, deixasse Seu outro Reino do abstracto.
Todos os Meninos seriam então os primeiros dos homens verdadeiramente inspirados, dedicados ao mundo, como aquele que, na Trindade que Cabral levou ao Brasil, a de Belmonte, está no braço da Criatividade Suprema dando de comer à pomba, isto é, ajudando à sacralização do Universo. A vida ficaria gratuita, com símbolo na comida gratuita do dia da Festa.
Finalmente desapareceriam as prisões e estariam libertos seus presos e seus guardas. Só que aquela extraordinária linha de costa que definia Portugal, não uma simples praia para um mar, mas inteiro litoral para um interminável Oceano, era o ponto donde partir à conquista do que não tomara no período clássico aquele Império Romano que teria, portanto, de abordar todas as terras. Navegação esta que foi proeza dos Portugueses, mas não a que teria sido mais importante, a daqueles que, como missionários, teriam implantado em todo o mundo o Reino do Espírito Santo.
Entretanto, guardados no Brasil para o futuro, tinham feito todas as tentativas para chegarem ao Pacífico, mas não como Magalhães, demasiado servidor da Europa. Até Pedro Teixeira o quis, mas já era tarde, com a força espanhola instalada nos planaltos. O tempo dessa navegação, última e perfeita, chegou agora e de alguma parte dela talvez nos traga informe alguma destas Folhinhas para que tendes paciência.
Lua Luar dum Maio de 93.
Um bilhetinho de vosso irmão servidor.
Brasil e China se encontrarão na África, vindo um pelo lado do Atlântico de São Tomé, chegando a outra, depois de Índias e Índico, à ilha que foi outrora capital de Moçambique e será, daí por diante, capital de toda a vaga que se levante no Mar das Índias e de todas as terras que ele, como experiência ou sonho, de algum modo animar. Será, de ambos os povos que vêm, uma invasão de oferta, de solidariedade e de aprendizagem própria. O Brasil trará às Africas do melhor que tiver aparecido na América ou na Europa, não daquilo que serviu no passado para abater e explorar. Também com o que vier do Oriente, com sua economia de produzir e distribuir com igualdade, tudo apurado ainda na travessia que teve de fazer da velha Rússia para chegar ao Atlântico Norte, erguerá a África ao universo uma face livre e nova, com este também iluminado naquela atmosfera de alma que virá de se terem fundido o Taoismo de Lao-tsu e o Franciscanismo do jovial criador de Assis. O mundo, discípulo de África, mestra do ser e do fazer, lhe será fiel e, num fim que se repetirá, a Transporta à criatividade pura, em que cada um de nós mergulhará, ainda porventura com a perfeita paz de não termos consciência do que fomos criando. E talvez, de quando em quando, outro irmão servidor vos diga que assim realizaram o seu ideal, e para tudo o que vive, os portugueses de tempo antigo que só ansiavam pelo êxtase eterno perante o Divino, de existência a um tempo real e imaginária, com o triunfo de toda a Poesia que a criança é ao nascer e a liberdade que será para todos e o gratíssimo prazer de uma vida que não será paga, mas de força criada e de amor gozada.
[rubricado]
Amigos,
Estamos ainda bem longe, talvez a séculos, de que tal suceda, mas um dia se verificará que, depois de tanto tempo, de tanta geração de colonialismos, quer os de potências europeias, quer os de força islâmica, quer os de internacionais entidades americanas, foi a África restituída a si própria pela obstinada, calma, paciente e exigente influência do Brasil e da China, com alguma velha semente ibérica deixada num ponto ou outro do Magrebe, sobretudo, diria eu, no Marrocos ou naquela embaixada que no Cairo pensava em expedições etíopes, e com o Brasil do lado de Angola, a meditar das varandas de São Tomé, no redesenho dos mapas latinos ou germânicos da distribuição pelos novos donos da infinda pluralidade única daquelas novas terras, e a China das bandas de Moçambique, aí com a tarefa algum tanto facilitada, ou guiada, pela tradição do acertado império do Monomotapa. E quando diremos que a África está reentregue a si mesma?
Quando se ouvir ou se souber de algum africano que propôs acrescentos a Einstein ou reprovou Kant na língua que em pequeno falava com sua mãe, sem ter feito o esforço antibiológico de ter de se exprimir noutra língua, de preferência numa do domínio indo-europeu. E na dita língua materna ensinando ao resto do mundo muita coisa que ainda precisa de aprender, com ligação a um correcto comportamento social e solidário. E livre. Mas qual a atitude enquanto se espera? Pois a de achar que ainda se está distante e, ao mesmo tempo, que tudo já aconteceu. O trabalho vai ser o de, sem falta alguma, que ainda está distante o que já aconteceu, juntar a face do adquirido com a face do ambicionado. Querem um exemplo? Pois lembro o que acontecia com os Portugueses que, desrespeitando Tordesilhas e a pontifícia autoridade, iam fazendo mapa falso sobre mapa falso, sabendo que ainda tinham muito que andar, mas, simultaneamente que já descansavam à beira do Pacífico que sempre se lhes negou. Mas o Brasil lá chegará e com inteira obediência à lei com que todos os Povos estejam de acordo. Sabeis o resumo? Ser e não ser são a chave do Ser.
Minguante de Maio. Maio de 93. Ou de qualquer ano em que a tal se volte.
Agostinho








