A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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terça-feira, 31 de maio de 2022

Pensar de novo, pensar o novo: em tempos de pandemia

 


Dizem os clássicos que a Filosofia chega sempre demasiado tarde – daí a conhecida imagem de Hegel: “a ave de Minerva levanta-se ao entardecer”. Quanto a esta pandemia que nos assolou nos últimos anos, apenas podemos dizer, com alguma certeza, que este foi, até ao momento, o acontecimento mais relevante, à escala global, do século XXI – a par, quanto muito, da guerra em curso na Ucrânia... Quanto ao mais, tudo permanece ainda demasiado incerto. Há ainda, para usarmos uma outra imagem, “demasiada poeira no ar”.

Como dissemos algures, vivemos um “interregno”. Os mais providencialistas têm sugerido que este “interregno” foi como que “programado”. De forma mais imanente ou transcendente, este “interregno” teria sido pois – passe o anglicismo – um “reset” necessário. Tal como os nossos computadores por vezes bloqueiam, também o próprio mundo estaria de tal modo bloqueado que teria precisado de um “interregno”, de um “reset”, de um “reinício”.

Há ainda demasiada “poeira no ar” para conseguirmos antever o futuro que irá emergir deste “interregno”. Até ao momento, o único factor indubitavelmente positivo foi a diminuição substancial da poluição à escala global. As consequências sociais e económicas têm sido, porém, até ao momento, indubitavelmente negativas, para não dizer catastróficas. Em Portugal e no Brasil, como em todos os restantes países do mundo, houve muita gente a ficar, de um momento para o outro, sem emprego, sendo que muitos desses empregos não irão, previsivelmente, regressar. Pelo menos, tão cedo.

A prometida vacina, entretanto chegada em 2021, irá decerto antecipar esse necessário futuro pós-interregno. Seja pelo seu poder real sobre o vírus, seja “apenas” pelo seu efeito psicológico em todos aqueles que mais o temem, com a vacina o mundo parece, finalmente, em condições de virar, progressivamente, a página deste interregno de confinamento pandémico e de medo generalizado. Com ou sem vacina, teríamos, mais cedo ou mais tarde, de virar esta página. Um interregno é, por definição, um estado transitório. Um estar, não o ser…

Os textos que se coligem neste livro – mais de uma dezena e meia de textos, do universo de colaboradores da NOVA ÁGUIA, uma revista de Filosofia e Cultura lusófona – não nos dizem qual será esse futuro pós-interregno. Foram textos escritos no “olho do furacão”, quando nem sequer era visível, como agora já é, essa “luz ao fundo do túnel”. Em todos eles, porém, pulsa uma esperança – atente-se, por exemplo, neste excerto do texto de Miguel Real: “Eduardo Lourenço, quando jovem, na sua estada em Paris, escreveu um texto (que não consigo identificar agora) em que falava da personagem de um romance (salvo erro, de Somerset Maugham) que, nos últimos dias de vida, se levanta da cama, vai ao quintal e planta uma bolota de carvalho. É a realização concreta do princípio da esperança (…)”.

Como acrescenta: “…ele nunca verá o carvalho elevar-se sobre a paisagem, mas foi o seu contributo para que a vida continuasse. Que cada um de nós, hoje, neste tempo suspenso, perante um futuro vazio, plante a sua bolota – uns escrevendo, outros pintando, outros compondo música, outros fazendo teatro, cinema, animação, jornalismo, outros trabalhando nas suas profissões.”. Este livro é também uma “bolota” – a nossa “bolota” para o futuro, em particular para o futuro das relações luso-brasileiras, que igualmente têm sido afectadas por esta pandemia. Em tempos de crise, a tendência natural é que para cada país se feche em si próprio. Passada esta crise, esperemos que a ponte trans-atlântica renasça, ainda mais forte.

domingo, 20 de setembro de 2020

Na NOVA ÁGUIA 26: 12 Apontamentos inéditos de António Telmo...


[1.] É costume explicar as relações hostis entre os irmãos pelo desejo de cada um deles ocupar o primeiro lugar no amor dos pais. Assim, o mais velho, durante algum tempo sozinho no seio da família, teria visto os seus privilégios de unigénito divididos pelo segundo e, depois, pelo terceiro irmãos. O benjamim aparece numa altura em que o primeiro já tem idade suficiente para sentir a deslocação do afecto. Daqui uma mais profunda hostilidade do primeiro para com o último. Os relatos bíblicos de Isaac, Jacob ou José, os contos tradicionais, como a Gata Borralheira ou o Pequeno Polegar, descrevem esta constante de hostilidade dos irmãos ou irmãs mais velhos para com o último ou a última das filhas. Este é umas vezes o terceiro, outras o sétimo, outras o décimo.
Não creio que a explicação psicológica seja definitiva. Há aqui uma lei que reflecte relações entre princípios. A força do catolicismo reside em grande parte no facto de ver o filho como Unigénito. Na ideia da Santíssima Trindade, não há elemento de conflito, mas uma harmoniosa processão de Pessoas que constitui o fundamento inabalável de um universo harmonioso. As heresias medievais ou opuseram o Filho ao Pai, ao Pai no qual ofitas e carpocracianos viram o demiurgo do mal criador do Mundo, ou identificaram o Espírito Santo com Santa Maria. A ideia de queda em Deus, inaceitável na visão católica do mundo, é defendida pelos gnósticos que, significativamente, põem no princípio sete ou oito arcanjos entre os quais se gera uma desarmonia, causadora da queda.
Ao primogénito, corresponde o princípio de conservação, a Tradição do Pai. O mais novo é o elemento de revolta, representado mitologicamente por Satan. Todavia, na Bíblia, o pai abençoa consciente ou enganado o filho mais novo em lugar do mais velho. Os restantes irmãos seguem, em geral, o mais velho. Nos chineses, onde a tradição familiar é poderosíssima, o mais velho é que traz a luz, o cavalo fogoso, enquanto o mais novo é a porta de outro mundo. É mais um sinal de que as relações entre os pais e os filhos e destes entre si constituem a projecção dos primeiros princípios o facto do I King fazer corresponder os oito trigramas principais ao Pai e à Mãe, aos Três irmãos e às Três irmãs.
Abro esta autobiografia com estas reflexões, porque a lei de acção e reacção que liga o benjamim ao primogénito é um dos elementos simples que constituem a grande lei que rege a minha existência e a dos outros homens.
Nasci com o sol no segundo decano do signo do Touro. O meu Pai nasceu no segundo decano do signo da Virgem; minha Mãe no signo Escorpião a 14 de Novembro. O segundo dos meus irmãos nasceu também em Escorpião, primeiro decano, 25 de Outubro, a quatro dias do primeiro dos meus irmãos, que ainda é do signo da Balança, mas já sofre enorme influência do signo seguinte.
Nasci, pois, do outro lado da família.
É este o destino mais difícil de cumprir, se quisermos manter, apesar da zenital oposição, a totalidade das relações.
O indivíduo que eu sou beneficia da posição do Sol na casa nona, a casa da gnose e da Viagem, do esplendor da Lua em Touro no Zénith, do favor de Vénus na décima casa. Júpiter está benigno em Peixes. Urano na casa oitava, em Carneiro, Marte retrógrado e desacompanhado em Cancer, Saturno, também desacompanhado na casa dos ancestrais, parecem ser inquietantes sinais de desarmonia. Neptuno na casa XII avisa contra “inimigos ocultos”.
Vieram sete fadas… e a má…
Assim começam todas as histórias verdadeiras. Mas sem a má não se manifestariam os dons concedidos pelas outras.

domingo, 30 de agosto de 2020

Em destaque, na NOVA ÁGUIA 26: "O PENSAMENTO E A OBRA DE MANUEL A. FERREIRA DEUSDADO"


O PENSAMENTO E A OBRA DE MANUEL A. FERREIRA DEUSDADO[1]

José Almeida
“Manuel A. Ferreira Deusdado: Pensamento e Obra”, um volume colectivo publicado pelo MIL - Movimento Internacional Lusófono, em parceria com o IHIT - Instituto Histórico da Ilha Terceira, reúne as comunicações apresentadas no IV Colóquio do Atlântico, dedicado ao legado deste ilustre trasmontano, adoptado pelas gentes dos Açores. Organizado por Manuel Cândido Pimentel, Carlos E. Pacheco Amaral e Renato Epifânio, este livro contou com as colaborações de Pinharanda Gomes, António Braz Teixeira, Samuel Dimas, Luís Lóia, Artur Manso, Isabel Maria Freitas Valente, Maria Fernanda Enes, Berta Pimentel, Leandro Ávila, Maria Manuela Tavares Ribeiro, Maria do Céu Fraga, José Manuel Teixeira da Costa, Rosa Maria B. Goulart e Mário Viana.   
Através da leitura desta obra, é possível perspectivarmos a natureza multímoda da obra de Deusdado, aqui analisada criticamente através dos vários artigos apresentados. Este é um importante subsídio para o seu estudo e divulgação parte da análise biográfica do autor, passado pelo enquadramento do seu pensamento à luz do neotomismo e da nossa tradição filosófica. Para além das abordagens às componentes pedagógica e educacional que perfazem uma importante parte da sua obra, este livro contempla também a hermenêutica da sua “Teoria da Religião”, assim como do seu posicionamento religioso e ideário político.
Aristocrático, tanto pelo porte físico, como na elevação do seu carácter e espírito, mereceu do ilustre Padre Ernesto Ferreira a seguinte observação: “Manuel António Ferreira Deusdado é um dos homens que em Portugal mais se distinguem pelo coração e pela inteligência. Tipo de genuíno português, verdadeiro cavaleiro da Idade Média.” O livro “Manuel A. Ferreira Deusdado: Pensamento e Obra” resgata este ilustre pensador nacionalista no esquecimento a que foi votado, reacendendo o interesse pela sua obra.  



[1] Organização de Manuel Cândido Pimentel, Carlos E. Pacheco Amaral e Renato Epifânio (Ed. MIL, 2019).

(excerto)

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Em destaque, na NOVA ÁGUIA 26: O SÉCULO DOS PRODÍGIOS...


O SÉCULO DOS PRODÍGIOS: A CIÊNCIA NO PORTUGAL DA EXPANSÃO
De Onésimo Teotónio Almeida

José Luís Brandão da Luz

Um título mais consentâneo com as matérias versadas no livro, que o teria tornado certamente menos atrativo, haveria de resultar da mistura de palavras, como viagens marítimas, séculos XV e XVI, emergência do espírito científico, modernidade, experiência ou, até mesmo, escárnio da autoridade e da cultura livresca. A veia ficcionista de Onésimo sobrepôs-se, com sucesso, ao peso de uma certa ortodoxia académica que não deixou de marcar presença no subtítulo da obra. Esta concessão, porém, não tolheu a ampla difusão do livro, que, pese embora o seu carácter especializado, rapidamente conheceu nova reimpressão. As ondas de propagação de O Século dos Prodígios fixaram o olhar de várias academias e sociedades portuguesas, que, por meio de merecidas e relevantes distinções, reconheceram a sua centralidade nos estudos da cultura portuguesa. No decorrer do ano de 2019, a obra foi distinguida com os seguintes galardões: Prémio Gulbenkian "Portugal no Mundo", da Academia Portuguesa de História, a primeira a tomar a iniciativa, Prémio Mariano Gago, da Sociedade Portuguesa de Autores; Prémio D. Diniz, da Fundação Casa de Mateus; Prémio John Dos Passos, da Secretaria da Educação e Cultura do Governo da Madeira.
O tema geral que, no conjunto, confere unidade à obra centra-se no que Francisco Bacon designou, no início do século XVII, como sendo o arrojo e pioneirismo das navegações portuguesas na «posterior proficiência e desenvolvimento das ciências» (p. 234). Mas, ao contrário de Bacon, que não se deteve a conferir sustentação ao que afirmou, Onésimo Teotónio Almeida adota a tese como também sua e investe, em força, no seu esquadrinhamento. A sua abordagem mobiliza vasta bibliografia, que é alinhada como frentes de um combate, travado em campo aberto, em várias etapas. Num lado, perfilam-se as hostes guarnecidas pelas obras dos autores do Renascimento português, como Duarte Pacheco Pereira, Pedro Nunes, D. João de Castro, Garcia de Orta, Fernando Oliveira e ainda outros, como Camões e Francisco Sanches que refletiram nas suas obras o novo espírito difundido pelos primeiros escritores. Em todas se respira a atmosfera do conflito desencadeado pelo desfasamento entre a mundividência medieval e os conhecimentos que a exploração dos mares, a observação dos céus e o encontro de culturas provocavam. Ainda na linha avançada deste flanco, o autor conta com o apoio de destacadas referências da historiografia portuguesa, que se ocuparam do tema e a quem voltaremos mais à frente. No outro lado da guarnição, perfila-se uma bibliografia de história da ciência, maioritariamente de expressão anglo-americana, a qual, salvo muito raras exceções, mostra total alheamento do contributo que os portugueses trouxeram para modelar uma nova mentalidade científica.
(excerto)





segunda-feira, 27 de julho de 2020

Em destaque, na NOVA ÁGUIA 26: PORTUGAL, RAZÃO E MISTÉRIO: A TRILOGIA


PORTUGAL, RAZÃO E MISTÉRIO: A TRILOGIA[1]

Annabela Rita




[1] De António Quadros (Alma dos Livros, 2020).


Foi a minha última aquisição bibliográfica antes do confinamento. No topo de uma ilha de livros, erguia-se como um bastião, convidando à posse, correspondendo ao já longo questionamento sobre o 3.º vol. da obra, anunciado e nunca editado, resolvendo o mistério.
Agora, a obra surge completada e emoldurada por um paratexto que lhe potencia a sedução, encenando um colóquio entre desaparecidos e colegas ‘de pena’, com modalizações que não comento para evitar alongar-me, mas que constituem importante moldura desta obra notável: de Mafalda Ferro, Joaquim Domingues, Pinharanda Gomes e Francisco da Cunha Leão, em pórtico, e, no fim, de Pedro Martins, encerrando com a última entrevista do autor por Antónia de Sousa (Diário de Notícias, 11/3/1993). Nesta, a última fala replica-se em epígrafe ao volume como “mensagem” aos concidadãos, recuperando a que encerra a Mensagem (1934) de Fernando Pessoa aos seus Fratres. 86 anos depois de Pessoa, 33 anos depois de se instalar “o fantasma do terceiro livro de Portugal, Razão e Mistério” (cf. Carta a António Telmo, Janeiro de 1987).
E é António Quadros que me acolhe em chiaroscuro: a escrever e a assinar a obra, informal e jovem (primeira foto) e formal e marcado pelo tempo (segunda foto), imerso no projecto e assumindo-o publicamente em dedicatória indecifrável, voltado para um antes e depois dele e de cada um de nós, leitores, de olhar fixo nessa mensagem que lega aos leitores, contemporâneos e vindouros. Entre ambas as fotografias, foi o tempo da obra e do mistério. Em jeito de cerimonial de iniciação que o Anjo do Reino de Portugal de Diogo Pieres, o Moço (séc. XVI), replicará no limiar do texto.
Seguiu-se a leitura. Apetece dizer: a revisitação de um imaginário identitário nacional longamente (re)configurado numa perspectiva messiânica, providencialista, de missão, a mais prolongada e assente na cristofania de Ourique.
Como trilogia, organiza uma visita em 3 etapas a um conhecimento da identidade nacional portuguesa sistematizado: desde a génese e fundamentos (“Uma Arqueologia da Tradição Portuguesa | Introdução ao Portugal Arquétipo | A Atlântida Desocultada | O País Templário”), passando pela definição da razão de ser, estar e fazer de Portugal no Mundo, da sua funcionalidade (“O Projecto Áureo ou O Império do Espírito Santo | O Império segundo Dinis e Isabel | O Império segundo Avis | Os Painéis de Nuno Gonçalves e a «religião de Avis»”), e concluindo-se com o eucarístico rito graálico (“O Cálice da Última Tule”) erguido para nossa comunhão 33 crísticos anos depois dos dois primeiros volumes da obra (I-1986 e II-1987).
Do passado ao futuro que o rememore, esta trilogia constitui-se como um Livro do Apocalipse (etimologicamente: de ‘revelação’) de António Quadros, o centro do seu cânone, o desvelador, mas também o lugar de chegada de toda uma tradição vocalizada e escrita desde as lendas às crónicas de Alcobaça e Santa Cruz, passando pela bibliografia providencialista (de Bandarra a António Vieira), pela iconografia emblemática (com especial destaque para os Painéis ditos de S. Vicente, encenando uma enigmática e simbólica representação nacional que muitos têm tentado decifrar, adensando-a, com eles fazendo Quadros dialogar a sua hipótese de leitura), etc., tradição revisitada pelo grupo da Filosofia Portuguesa e que António Quadros sistematiza quase heraldicamente nesta obra. “O seu mais ambicioso projecto”, como diz Joaquim Domingues, “que se lhe terá revelado cada vez mais premente em face do agravamento, nos anos 70, da crise de identidade que afectava o País” (p. 12).
Numa espécie de ‘aviso à navegação’ a acompanhar a entrada de Portugal na CEE-UE (1985-86), ergue o estandarte dessa sua memória identitária, evocando toda uma tópica que Fernando Pessoa organizou em espectral e heráldica galeria de convocações simbólicas e que Quadros vivifica com a sua omnipresença perspéctica, enunciativa. Como se Anjo da História (Walter Benjamin) ou Custódio de Portugal “no dealbar de um mundo disposto a transcender as ilusões, as alienações, as ligeirezas intelectuais e ideológicas destes últimos cem anos de positivismo e de materialismo, redutores da complexidade e da profundidade do espírito humano” (p. 44).
Num tempo de globalização em que as referências nacionais tendem a ser contrariadas (Benedict Anderson, Ernest Gellner, Eric Hobsbawm, Patrick J. Geary, etc.) e/ou sombreadas por uma sociedade do espectáculo (Guy Debord) e pela espectacularidade manipuladora do visível ou a dissolver-se na liquidez (Zygmunt Bauman) e no relativismo (Franz Boas e seguintes) culturais, na perda de referencialidade, Portugal, Razão e Mistério: a Trilogia, de António Quadros, oferece-se como o tratado ou a Bíblia dessa hermenêutica da História de Portugal, dando, em grande angular, quer a leitura e a tópica em que ela se organiza como caso “sui generis” (sic), à margem de projectos imperiais estritamente políticos (europeus) e religiosos (Roma), quer a sua própria fundamentação disciplinar.
Assim, este “Palácio da Memória” colectiva, do “projecto áureo português”, justifica-se nessa singularidade confluente (Graal, Ourique, V Império) como a única ilação relacional da memória colectiva que embebe a diversidade das suas expressões, inencontrável “nos documentos de chancelaria, nas ordenações ou nas crónicas” (p. 356), os únicos que a História positivista elegia e aceitava. Leitura, portanto, com uma metodologia própria, diferente da do paradigma positivista, como esclarece:
Toda a escrita é composta de sinais ou de signos, formando as palavras e as locuções que, por seu turno, no contexto da frase, do período, do poema, do livro, ascendem gradualmente do signo para a metáfora, para a alegoria e para o símbolo. (p. 357)
Assumindo esta posição, António Quadros oferece-se como exemplo geracional de amadurecimento “de quem, como nós, frequentou o Curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras de Lisboa nos anos 40, dominado pelo império do positivismo” (p. 490): o historiador aspirando “ao voo livre de uma filosofia do espírito” (p. 490) suficientemente iluminadora, desveledora, enfrentando o “preconceito de uma história científica” (p. 491). Em “A História: ciência positiva ou conjugação filosófica de saberes?” (pp. 491-499), enuncia, quiçá, a melhor argumentação a favor de uma História- “conjugação filosófica de saberes”:
Em nome de uma positividade que julga segura, mas é limitada e limitativa, não pode descartar saberes que a priori considera herméticos ou incertos, devido ao seu preconceito positivista, como por exemplo os de ordem religiosa, mística e teológica, sagrada e mítica, metafísica e gnoseológica, artística e simbólica.
Para descobrir, desentranhar e revelar o substrato espiritual de uma estrutura cultural ou civilização em seu ser e movimento, o historiador, cuja preparação tem de ser pois multifacetada, há-de recorrer a uma heterogeneidade de fontes, escritas e não escritas, paleográficas e tradi­cionais, filológicas e iconológicas.
A história ser-lhe-á não uma exposição de factos, mais ou menos coloridos por uma teoria ou ideologia ordenadora, mas uma conjugação de saberes articulados pela razão, uma conjugação filosófica de saberes positivos e supra-positivos. (pp. 498-499)
Uma História com diferentes cartografias: a “oculta” ou “secreta” de António Telmo e do grupo da Filosofia Portuguesa, mas também dos seus seguidores (Manuel J. Gandra e outros), que perscruta o imaginário colectivo (Lucien Boia. Pour Une Histoire de L’Imaginaire, 1999) e as Histórias ‘Sagradas’, ‘Lendárias’, ‘Míticas’, a ‘Intra-História’ e a ‘História não contada’ (desde os velhos cronistas a autores actuais como Juan G. Atienza)…
Eis-nos, pois, a escutar esse canto das Sereias-Sibilas que nos arrastam para um vórtice em que o processo de conhecimento exige outro GPS que não o mecânico, documental… António Quadros oferece-nos o seu erguendo-o como libelo, em jeito de Arauto de um Delfos nacional. Que assim seja lido!


quarta-feira, 22 de julho de 2020

Na NOVA ÁGUIA 26: PENSAR DE NOVO, PENSAR O NOVO: EM TEMPOS DE PANDEMIA…

SEM BÚSSOLA | Adriano Moreira

A CRISE ESTABELECIDA E A AVERSÃO AO ESTRANHO: O NOVO DESPERTAR DA VIVÊNCIA RACIONAL | António Duarte Santos

A PANDEMIA VENCERÁ O HEDONISMO? NÃO, NÃO VENCERÁ! | Artur Manso

LENDO COM DUAS CRIANÇAS | Elter Manuel Carlos

EDUCAÇÃO, SAÚDE E LITERACIA CÍVICO-JURÍDICA: REFLEXÕES EM TEMPOS DE PANDEMIA | Emanuel Oliveira Medeiros

DA IDENTIDADE ÔNTICA DO TEMPO | J. A. Alves Ambrósio

REFLEXÕES SOBRE O CORONAVÍRUS | Luís de Barreiros Tavares

PANDEMIA, CONFINAMENTO E DEPOIS: TEM ALGUMA UTILIDADE A FILOSOFIA? | Luís G. Soto & Miguel Ángel Martínez Quintanar

UMA VIDA EM TELETRABALHO | Maria Afonso Sancho

ESPERO PERDURAR POR VIA DOS QUE FICAM VIVOS | Maria de Sousa

SOMOS TUDO, SOMOS NADA | Mário Carneiro

AS PESSOAS E AS MÁSCARAS | Mário Forjaz Secca

A CULTURA, O MAL E A ESPERANÇA | Miguel Real

UMA REFLEXÃO SOBRE A PANDEMIA: PASSADO, PRESENTE E FUTURO | Nuno Sotto Mayor Ferrão

PALAVRAS CRUZADAS: PALAVRAS E COISAS EM TEMPO DE CORONAVÍRUS | Paulo Ferreira da Cunha

PERPLEXIDADES PANDÉMICAS | Renato Epifânio

COVID–19 E AS CRIANÇAS | Rodrigo Sobral Cunha

terça-feira, 7 de julho de 2020

Sobre Fernanda de Castro, na NOVA ÁGUIA 26...



Textos e Testemunhos de:
António Quadros
António Roquette Ferro
Carmen Dolores
Eduardo Pitta
Fernando de Castro Ferro
Fernando Dacosta
Helena Marinho
Joana Leitão de Barros
José Carlos Seabra Pereira
Madalena Ferreira Jordão
Mafalda Ferro
Manuela Dâmaso
Margarida de Magalhães Ramalho
Paula Mourão
Rita Ferro
Vasco Rosa

Outros Testemunhos:
Alfredo Guisado
Álvaro Ribeiro
Amália Rodrigues
Aquilino Ribeiro
Ary dos Santos
Augusto Santa-Rita
Cecília Meireles
Delfim Santos
Germana Tânger
João de Barros
João Bigotte Chorão
Joaquim Paço d'Arcos
Joaquim Veríssimo Serrão
Jorge Segurado
José Leitão de Barros
Margarida Homem de Sousa
Maria Helena Ferro da Cunha de Matos
Natália Correia
Raul Lino
Teixeira de Pascoaes

terça-feira, 30 de junho de 2020

Sobre Mário Bigotte Chorão, na NOVA ÁGUIA 26...

Mário Bigotte Chorão (à direita, no foto), em 2012, na anterior Sede do MIL, na Sociedade de Língua Portuguesa, apresentando uma obra de António Braz Teixeira (à esquerda, no foto): “Breve Tratado da Razão Jurídica” (Zéfiro, Colecção NOVA ÁGUIA).

BREVE PERFIL DE MÁRIO BIGOTTE CHORÃO (1931-2020) | Paulo Ferreira da Cunha
HOJE E SEMPRE, MÁRIO BIGOTTE CHORÃO | Miguel Pedrosa Machado
MÁRIO BIGOTTE CHORÃO: MEMENTO BRASILEIRO | Francisco Amaral

domingo, 28 de junho de 2020

Convite para textos: Pensar de modo novo em tempos de pandemia...



Se pode parecer estranho o desafio de pensar uma pandemia, mais estranho ainda é não a pensar, já que ela parece paralisar o pensamento e deixar o homem entregue à mera condição biológica da sobrevivência e à situação de fragilidade. Mas o pensamento é aquela actividade libertadora pela qual o homem se eleva acima da sua condição biológica para procurar compreender o universo e regressar a si mesmo e à permanente novidade da existência. Ao desânimo e ao abandono devem responder o sentido de um renovado ânimo impulsionado pela coragem, a inteligência e a imaginação inventiva. Se nunca a palavra pandemia teve tanto significado como na época da comunicação à escala planetária, infelizmente, nenhuma idade parece estar tão alheia ao pensamento como esta da contemporânea globalização. As alterações produzidas pelo efeito Covid-19 sobre as diversas comunidades humanas e sobre a relação destas com a natureza, convidam-nos a repensar, de novo, a vida e a civilização, o conhecimento, a saúde, a tradição, a tecnologia, o destino do homem, as nossas próprias circunstâncias. Não é, por certo, da ignorância activa, mas do activo pensamento que decorrerá uma sadia reinvenção do futuro. 
A revista Nova Águia vem lançar este convite, aguardando para o seu 26º número as reflexões que desejem subscrever o pensamento de Leonardo Coimbra: «O homem não é uma inutilidade num mundo feito, mas o obreiro de um mundo a fazer.» A entrega dos textos (a enviar para novaaguia@gmail.com) deve ser feita até ao final de Junho de 2020.

Cordiais saudações,

Renato Epifânio e Rodrigo Sobral Cunha

Autor em destaque na NOVA ÁGUIA 26 (2º semestre de 2020)

António Telmo, uma década após a sua partida
Para o 26º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

De Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 26...

Muitos analistas concordam que, em tão pouco tempo, este 2020 apareça como sendo de um mundo sem bússola, marcado pelo desastre global da pandemia, que atinge o género humano, sem distinguir grandes ou pequenos países, com a ordem mundial jurídica atingida por rivalidades, por enquanto verbais, entre, por exemplo, os emergentes EUA e China, um mundo político com pouca atenção à pregação de Francisco, Papa dos católicos, que chama a atenção para a América Latina, uma criação dos dois Estados ibéricos, Portugal e Espanha. Existe ali o atribuído privilégio da primeira elaboração das teorias do populismo desde 1960, mas, nesta data, a desordem, a pobreza e a violação dos direitos humanos, destacando premissas do livro de Mélenchon Qu'ils s'en aillent tous!, partindo da crise na Argentina de 2001.
Mas o Brasil, subitamente, é o principal inspirador das perplexidades e dos deveres portugueses. Não apenas pelo passado, mas também pela desordem que atinge o espaço abrangente da história e da responsabilidade marítima do Atlântico Sul. Também nos pertencerá recriar a bússola. E não é apenas pelo compromisso assumido na Assembleia Geral da ONU, fortalecido pela autoridade da voz portuguesa que assumiu o compromisso. É também pelo valor histórico da América Latina, que lembrou a Gilberto, sem que o fim da vida lhe permitisse, escrever sobre o iberotropicalismo (...)

excerto

terça-feira, 9 de junho de 2020

De Paulo Ferreira da Cunha, para a NOVA ÁGUIA 26...


Em tempos de pandemia, mudam palavras e coisas[1]. Como é sabido, a ligação entre a Palavra, a reta e adequada palavra, e o bom governo foi, desde logo, estabelecida por Confúcio. Perguntado qual a primeira coisa que faria se lhe fosse confiado o Governo, declarou que primeiro curaria de “retificar a linguagem”[2]. Grande sabedoria há nessas palavras e nesse projeto, hoje ingentíssimo, porquanto a linguagem se abastarda, e mesmo os meios de comunicação social, que a poderia tentar endireitar, promovendo na sociedade uma sã imitação[3], resvalam frequentemente para o esquecimento das regras e a adoção de modismos de mau gosto e um laxismo despreocupado com a sacralidade da Palavra. Os malefícios de palavras inadequadas, mal pensadas, impróprias, vão corroendo as mentes...


(excerto)




[1] Alusão, evidentemente ao clássico de FOUCAULT, Michel — Les mots et les choses, Paris, Gallimard, 1966.
[2] CONFÚCIO — Lun-yu, ou Analectos, XIII, 3. Cf., v.g., CONFUCIUS — Entretiens de..., trad. do chinês de Anne Cheng, Seuil, 1981, p. 102 Comentários, v.g. in LEYS, Simon (dossier coordenado por Minh Tran Huy) — De -551 à Aujourd'hui. Confucius les voies de la sagesse, in "Le Magazine Littéraire", novembro de 2009, n.° 491, p. 66. CHENG, Anne — Histoire de la Pensée Chinoise, Paris, Seuil, 1997, pp. 82 ss..
[3] DE TARDE, Gabriel   Les Lois de l'imitation, Paris, 1895, trad. port., As Leis da Imitação, Porto, Rés, s/d..

segunda-feira, 1 de junho de 2020

De Miguel Real, para a NOVA ÁGUIA 26...



O coronavírus, e o medo dele, que hoje esvazia as ruas, criando o terror à nossa volta, não é superior à esperança que sempre acalentou o homem e se cada um em sua casa, hoje, cria uma nova rotina forçada, os artistas, os escritores, os pintores, os músicos, homens como os outros, animados por emoções insólitas ligadas ao mal e ao medo, encontrar-se-ão já imbuídos desse húmus caótico do qual nascerão doravante grandes obras de arte. Como dizia Hegel, “a ave de Minerva levanta-se ao entardecer”, isto é, é possível que após a passagem desta pandemia se vejam os resultados culturais e, quem sabe, uma nova visão do homem que há muito está a ser preparada, um homem mais amigo da natureza e do Outro.
Eduardo Lourenço, quando jovem, na sua estada em Paris, escreveu um texto (que não consigo identificar agora) em que falava da personagem de um romance (salvo erro de Somerset Maugham) que, nos últimos dias de vida, se levanta da cama, vai ao quintal e planta uma bolota de carvalho. É a realização concreta do princípio da esperança: ele nunca verá o carvalho elevar-se sobre a paisagem, mas foi o seu contributo para que a vida continuasse. Que cada um de nós, hoje, neste tempo suspenso, perante um futuro vazio, plante a sua bolota – uns escrevendo, outros pintando, outros compondo música, outros fazendo teatro, cinema, animação, jornalismo, outros trabalhando nas suas profissões. Aqui à minha frente, vejo da janela a senhora da câmara, solitária, fardada de verde, a recolher o pouco lixo das ruas de Colares e na casa ao lado, do Exército de Salvação, um rapaz ou uma rapariga ensaia tocando tuba (pelo som que ouço à distância parece uma tuba). É a bolota deles.

(excerto)

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Igualmente em destaque na NOVA ÁGUIA 26: António Sérgio, meio século depois...


O PROGRESSO NACIONAL NA OBRA SERGIANA | Carlos Mota 
ANTÓNIO SÉRGIO: MORAL, CAPITALISMO, COOPERAÇÃO, TÉCNICA E O LIMIAR DE UMA NOVA ERA | João Príncipe 
A ATITUDE MENTAL DO ENSAIO-PROÉMIO DA “HISTÓRIA DE PORTUGAL” DE ANTÓNIO SÉRGIO: ALGUMAS DIVAGAÇÕES | José Eduardo Reis 
ANTÓNIO SÉRGIO, O (NÃO) MESTRE DE AGOSTINHO DA SILVA | Renato Epifânio