A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
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sexta-feira, 11 de março de 2016
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
domingo, 25 de outubro de 2015
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Na NOVA ÁGUIA 16 | Entrevista a Eduardo Lourenço, por Luís de Barreiro Tavares
L.B.T. : O
Pascoaes diz qualquer coisa crítica relativamente à questão poética no
Pessoa...
E.L. : Uma das primeiras coisas que me aconteceram foi ficar muito
indignado com uma frase numa entrevista ao Pascoaes, onde a dada altura lhe
perguntaram: "o que é que pensa do poeta Fernando Pessoa?" E ele
respondeu: "mas ele não é poeta." Não é poeta? Eu fiquei muito
indignadíssimo. Mas sei o que ele queria dizer com aquilo.
L.B.T. : O
professor estava lá?
E.L. : Não, li num
texto. Acho que foi n’O Primeiro de
Janeiro[1].
Não sei se já o tinha conhecido naquela altura. Porque uma das coisas mais
bonitas que aconteceram em Coimbra quando lá estive foi uma homenagem que nós
fizemos ao Teixeira de Pascoaes. E eu pensava que ele já tinha morrido há muito
tempo, se não, não mandavam livros, não é [risos]. Então, nós estudantes,
fizemos uma festa muito bonita. Então ele apareceu e eu pensava que já tinha
morrido há muito tempo [de novo risos]. Eu tinha lido uns versos dele quando
tinha, para aí, catorze anos, nuns papéis arrancados numa revista qualquer. Era
um poema de um livro famoso chamado As Sombras... "Ah se não fosse a névoa (...) // Eu não era
o que sou" [do poema "Canção duma sombra" do livro As
Sombras de 1907].
Há muitas coisas que são de dois poetas imensos, ele e o Pessoa. Mas
dois poetas completamente diferentes. A poética do Pascoaes é uma poética
romântica e mesmo hiper-romântica. A inspiração não é ele, não é? E o Fernando
Pessoa trocou isso por miúdos. Faz uma análise sobre essa própria inspiração. E
ele [Pascoaes] não, ele considera que tudo o que não sai da inspiração no
sentido clássico do termo - propriamente do termo - não é propriamente poesia,
é outra coisa. Logo que a inteligência começa a controlar isso, a coisa que é
dada pelos deuses, pela musa, etc., já não é realmente a poesia. E é isso que
ele queria dizer. Mas eu naquela altura não li isso assim [relativamente ao seu
comentário sobre Pessoa]: Mas afinal o que é que o homem quer dizer? Fiquei-lhe
com uma raiva [risos]. Só mais tarde é que eu recuperei para mim o Pascoaes,
que considero um dos maiores poetas portugueses de sempre.
(excerto)
[1] “O que
nós vemos das cousas são as cousas”, verso do poema XXIV de O Guardador de Rebanhos (Alberto Caeiro).
Este verso citado por Pascoaes na sua última entrevista teve o seguinte
comentário: “veja o poema (o poema?!) que
começa ‘O que nós vemos das coisas são as coisas’… isto não é poesia nem
filosofia, nem nada.” (n’ O Primeiro de
Janeiro, 25 de Maio de 1950, republicada in Teixeira de Pascoaes, Ensaios
de Exegese Literária e vária escrita: opúsculos e dispersos, Lisboa,
Assírio & Alvim, 2004, pp. 249-253). Contextualizando e analisando várias
perspectivas, favoráveis e desfavoráveis, de Pascoaes sobre Pessoa, leia-se,
por exemplo, o artigo de Renato Epifânio
intitulado «Entre “Orpheu” e a “Águia”, entre Fernando Pessoa e Teixeira de
Pascoaes» (Nova Águia 15). Também: Luís
Tavares, “Escrever, descrever e sensações em Álvaro de Campos”, in Revista
Nova Águia, nº14, 2º semestre, Zéfiro, 2014, pp. 152-159.
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
Sobre Herberto Helder, na NOVA ÁGUIA 16...
António José Borges, HERBERTO HELDER: ESTADO DE VIGÍLIA OU O SONO DA
RAZÃO
Sobre Herberto
Helder podemos dizer muito, pouco ou nada, mas nunca tudo. Depende da forma
como o lemos. Se compreendermos a sua poesia, conheceremos o homem. O poeta
Herberto Helder era original, o que mais importa num artista, criador, autor,
como aliás considerava Vladimir Maiakovski ser o dever do poeta: afirmar a sua
originalidade, na perspetiva do poeta russo mais no sentido de inovar; ou
destacar-se com uma linguagem própria, na perspetiva, por exemplo, do cineasta
Manoel de Oliveira, também este ano falecido.
(excerto)
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Evocação de José Pedro Machado, na NOVA ÁGUIA 16
José Pedro Machado, tendo-se demitido de
Assistente da Faculdade de Letras de Lisboa, no final do ano lectivo de
1942-43, enveredou depois pela carreira de Professor Efectivo do Ensino
Técnico, nela atingindo invulgar notoriedade e geral simpatia, como o
testemunham os milhares de alunos e professores que com ele aprenderam,
trabalharam e conviveram.
Ultrapassando múltiplos e por vezes
inesperados obstáculos, JPM soube construir, ao longo dos anos, uma frutuosa
carreira de investigador, no exigente campo da Filologia.
Por
incontestável relevância, de entre as principais obras da sua vasta
bibliografia, cumpre destacar :
·
O Dicionário
Etimológico da Língua Portuguesa, em cinco volumes, começado a publicar em 1952
e concluído no início dos anos 60 ;
·
O Dicionário
Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, em três tomos;
·
Analogamente, a sua
tradução, directamente do árabe para português, do livro sagrado dos
muçulmanos, o Alcorão, obra enriquecida com abundantes notas explicativas em
matérias afins da Filologia, como a História, a Geografia, a Literatura e a
Religião, quer do mundo islâmico, quer do cristão ;
·
A sua elaboração ou
coordenação, ao longo de decénios, de muitos Dicionários afamados da Língua
Portuguesa, entre eles o sempre referenciado Dicionário de Morais, da autoria
de um brasileiro, António de Morais Silva, Bacharel em Direito, pela
Universidade de Coimbra, considerado o primeiro dicionário inteiramente
dedicado à Língua Portuguesa, continuamente actualizado, desde 1789, tendo a
sua 10ª e última edição, a de 1959, saído em 12 grossos volumes, profundamente
revista, corrigida e muito aumentada, com abundantíssima cópia de abonações de
escritores clássicos para explicação dos termos aí compilados, num trabalho em
que colaboraram também os estudiosos credenciados do idioma pátrio Augusto Moreno
e Cardoso Júnior ;
·
O Grande Dicionário
da Sociedade da Língua Portuguesa, igualmente em vários volumes, etc.
(excerto)
Por António Blanco
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Um inédito de José Enes para a NOVA ÁGUIA 16...
Tematizar
as literaturas insulares numa perspectiva de teorização surge logicamente na
dialéctica do discurso cuja peripécia se vem desenrolando desde que Rebelo de
Bettencourt publicou, no Diário dos
Açores em 1923, a entrevista com Vitorino Nemésio, com o título
questionante “Porque não temos literatura
açoriana?" Precisamente 60 anos mais tarde, Onésimo Teotónio de Almeida
publicava, como texto inaugural de uma colectânea de outros anteriores, um
livro intitulado A questão da literatura
Açoriana...
(excerto)
(excerto)
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Nos 20 anos da sua morte: Torga na NOVA ÁGUIA 16
Carlos Carranca, “AQUI, DIANTE DE MIM”: Tempos de aprendizagem na vida e na obra de Miguel Torga
Foi na idade dos
doze anos que, acompanhado por meu Pai, subi, pela primeira vez, ao andar
superior da Livraria Atlântida, na rua Ferreira Borges da cidade de Coimbra,
com o propósito de adquirir alguns livros do poeta que adoptara como meu –
Miguel Torga. Até aos dias de hoje, que o autor de Poemas ibéricos me vem ajudando a abrir alguns cenários literários,
assim como orientando muito do que sou ética e politicamente. Que isto da
Literatura não se basta a si mesma.
(excerto)
terça-feira, 15 de setembro de 2015
sábado, 5 de setembro de 2015
De Richard Zenith, para a NOVA ÁGUIA 16...
É mais do que curioso que o último poema escrito em
nome de Álvaro de Campos tenha sido “Todas as cartas de amor são / Ridículas”,
e não foi certamente por acaso que o poema saiu na sua voz, com o seu ritmo e a
sua emoção. Supõe-se que as cartas de amor inspiradoras do poema foram aquelas
que Fernando Pessoa escreveu a Ofélia Queiroz e sabe-se que Campos, sempre
impetuoso e por vezes malicioso, intervinha nessa correspondência, inserindo
comentários parentéticos nas cartas de Fernando e chegando a escrever uma carta
inteira, em que ofereceu conselhos à namorada. Sugiro, no entanto, que todas aquelas cartas de amor ridículas
partiam de Álvaro de Campos. Ou melhor: se não existisse o engenheiro-poeta,
Fernando Pessoa não conseguiria ter escrito nenhuma carta a Ofélia Queiroz, nem
ter namorado com ela. Proponho que, sem Álvaro de Campos, Pessoa também não
poderia ter defendido o direito de António Botto e de Raul Leal à sua
homossexualidade. Como talvez não conseguisse ter tido a coragem — a chutzpah — para se opor com veemência,
na primeira página do Diário de Lisboa,
a um projecto de lei predestinado a ser aprovado pela assembleia-fantoche de
António de Oliveira Salazar. Refiro-me à lei contra as associações secretas,
aprovada por unanimidade em Abril de 1935.
A minha proposta é simplesmente esta: a poesia, tal
como se realizou em Álvaro de Campos, todo ele um grande poema, transformou
Fernando Pessoa.
(excerto)
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
De Pinharanda Gomes, para a NOVA ÁGUIA 16...
“Quando
estejas em sociedade, segue o tom e o porte dos outros, e não trates de impor o
teu, porque é de mau gosto. Busca não contares histórias e anedotas, nada há
tão aborrecido quando se conversa, e nunca empregues a palavra eu que está sempre a saltar nos lábios
dos tolos”. (Carta do Conde de Chesterfield a seu filho, mencionada e traduzida
pelo Cavaleiro de Oliveira, e registada por Ferreira Deusdado na obra Educadores Portugueses, nova edição, p.
341). Regra assumida e levada à prática nos convívios dos mestres Álvaro
Ribeiro/ José Marinho.
Entrecampos (excerto)
sábado, 22 de agosto de 2015
De Manuel Ferreira Patrício, para a NOVA ÁGUIA 16...
NOME DE GUERRA, DE ALMADA NEGREIROS: UM GRANDE ROMANCE DE FORMAÇÃO
Só pude ver
Almada Negreiros em presença física uma vez. Curiosamente, em Lisboa, na
companhia do Álvaro [Ribeiro]. Dirigíamo-nos os dois para a Cidade Universitária,
partindo de Entrecampos para encetarmos a subida para o Campo Grande. Eu ia
para a Faculdade de Letras. O Álvaro não sei se não iria para a Faculdade de
Direito. O Álvaro morava então num quarto de um prédio da última linha de
Entrecampos, a abrir para o Campo Grande, do lado da entrada na Avenida dos
Estados Unidos da América. Quando vamos a olhar, indo já na rua a iniciar a entrada
no Campo Grande, vemos Almada a atravessar o largo espaço que ladeava a rotunda
em direcção ao Campo Grande, portanto de baixo para cima: aquele Almada alto,
ginástico, longitudinal, uma linha vertical a andar. Dissemos os dois qualquer
coisa um ao outro e ficou-me a lembrança para durar até ao resto da vida.
Depois lá subimos o Campo Grande e depois lá nos dirigimos à Cidade
Universitária. O Álvaro sabia melhor quem era o Almada do que eu. Mas eu ia
aprendendo. Estávamos nos últimos meses de 1959. Eu acabara de entrar na
Faculdade.
(excerto)
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
De Joaquim Domingues, para a NOVA ÁGUIA 16
SITUAÇÃO DE RAUL LEAL
Raul Leal apenas
colaborou no segundo fascículo de Orpheu,
mas não há dúvida de que se lhe aplicam, com plena propriedade, os termos com
que o amigo caracterizou o fenómeno geracional de que ambos participaram. Por
isso apareceria, em Novembro de 1935, no terceiro fascículo do Sudoeste, onde Almada Negreiros aprazara
reunir de novo os de Orpheu. Ele mesmo
o corroborou, muitos anos depois, asseverando que “os grandes fundadores de Orpheu – Fernando Pessoa, Mário de
Sá-Carneiro e Luís de Montalvor – não exerceram nem podiam exercer nenhuma
influência no meu espírito criador, que se exprimiu, quase inteiramente, antes
dessa revista aparecer e sem que eu ainda conhecesse tais sublimes artistas”.
Aditando:
“O que se deu, pois, foi uma coincidente comunidade espontânea de espíritos
que se formaram, porém, e se desenvolveram separadamente”
(excerto)
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
De João Bigotte Chorão, para a NOVA ÁGUIA 16...
É esse Torga que lembro na hora crepuscular do adeus. Um Torga que o
leitor talvez tenha dificuldade em reconhecer no Diário. O diário nem
sempre é o espelho mais fiel do autor, que, em geral, não regista os momentos
felizes porque esses não têm história. De sorte que só abre o caderno para lhe
confiar o que é negativo — as horas e os dias de abandono, solidão e incompreensão. Que é a literatura
— e mais do que todas a literatura intimista — senão a tentativa de preencher o
vazio da vida e
de sublimar carências afectivas, morais, intelectuais?
Cartas sem Resposta (excerto)
domingo, 2 de agosto de 2015
De Carlos H. do C. Silva, para a NOVA ÁGUIA 16...
COSMOFANIA OU MITOPOIESE? A INTERPRETAÇÃO DO MITO EM EUDORO DE SOUSA
Estas
considerações poderiam aplicar-se ao todo da interpretação do Mito em Eudoro de
Sousa: uma necessidade de sair de si mesmo para se fundir no que ele não é, e,
assim sendo, vir a descobrir uma englobância
especular, uma complementaridade transcendente. Mas isso equivale a declarar o pensamento de Eudoro de Sousa um erotismo filológico e não uma
‘filo-sofia’ meditativa, isto é, voluntariamente indutora da vida, capaz de ser
realizante do seu sentido.
E é essa
fixidez, essa cósmica permanência de tal êxtase, agora consciencializado como o
de puramente o dizer, ou o escrever, reorientando aliás psiquicamente o que são
energias de outra etiologia, que há-de neste seu supremo amor de o declarar
absolver o mito da sua enigmática força deixando-o no habitual, quase diríamos
ridículo, trovadorismo da cultura mental como tão só Mitologia.
(excerto)
terça-feira, 28 de julho de 2015
De António Braz Teixeira, para a NOVA ÁGUIA 16...
A SAUDADE NA POESIA DE RUI KNOPFLI
A publicação, na
última década e meia, da obra poética, em boa parte dispersa ou inédita, de
autores como Rui de Noronha, João Fonseca Amaral, José Craveirinha, Noémia de
Sousa, Glória de Sant’Anna, Rui Knopfli ou Virgílio de Lemos possibilita, hoje,
uma visão do valor relativo de cada uma delas e esboçar um quadro da poesia
moçambicana da segunda metade de Novecentos diverso e mais compreensivo do que
aqueles que prevaleceram ou foram aceites até há algum tempo.
Com efeito, se
continua intocado o significado e o alto valor da obra lírica de Reinaldo
Ferreira, José Craveirinha ou João Pedro Grabato Dias, em contrapartida,
afigura-se, hoje, menos relevante a poesia de Fonseca Amaral ou Noémia de
Sousa, ao mesmo tempo que reclama nova compreensão e diversa avaliação o labor
poético de Rui de Noronha e avultam como figuras maiores autores como Glória de
Sant’Anna, Rui Knopfli ou Virgílio de Lemos, até há pouco incompletamente
atendidos e valorizados na sua singular originalidade e superior qualidade
literária.
(excerto)
quarta-feira, 22 de julho de 2015
De Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 16
O facto de a língua não
ser nossa, ser também nossa, e transportar valores, faz com que, espalhada por
todas as latitudes, tenha recolhido um pluralismo que a enriquece, como que a
torna transversal em relação a culturas diferenciadas, inscrevendo-se no
património Imaterial da Humanidade, com forte contribuição para viabilizar o
diálogo entre as diferenças, e colocar o respeito e a cooperação no lugar da
simples tolerância ou da indiferença. Fortalecendo a maneira portuguesa de
estar no mundo, mesmo na atribulada época que atravessamos.
(excerto)
sábado, 18 de julho de 2015
De Abel de Lacerda Botelho, para a NOVA ÁGUIA 16...
OS LUSÍADAS, BÍBLIA LUSITANA
Realmente, o
conceito Camoniano do Amor constitui aquela “energia luminosa”, a Luz da
Glória. É a “aurora ou aura”, é a “cousa amada”. É a Energia Universal que nos
próprios termos de Camões é a “flama viva”, “o nunca morto lume, do desejo que
queima e não se consome, é a potência de que se investe o Feminino, sem o qual
nada é, nada existe”. É o fascínio que envolve deuses e humanos, e que preside
ao “solve et coagula” das almas. Então o nauta (que é o viajante ou peregrino
que todos nós somos) senta-se no mesmo banco da sua Ninfa – ou Nereida, e
formando um só casal, comungam do mesmo amor, e… tudo isto, tendo por cenário,
a “Ilha Angélica Pintada”. É nessa visão (do fim da viagem) e após ela, que o
Nauta tem a “apreensão” e “compreensão” do Puro Amor. E a partir daí já não há
“retorno terrestre” para a alma insuflada à nascença no Ser, pois ela tendo-se
“unido” ao “seu gémeo” ou “dídimo” de Luz (ou aura) eterna, ela já é matéria
subtil, e sublimada, e não mais pó ou argila. E assim, a “Ilha alegre namorada”
e já sublimada, faz “logo movimento” e nela “levam a companhia desejada das
Ninfas”.
(excerto)
sexta-feira, 17 de julho de 2015
De Miguel Real, sobre Sampaio Bruno, na NOVA ÁGUIA 16
SAMPAIO BRUNO: UMA SÍNTESE DO SEU PENSAMENTO NOS 100
ANOS DA SUA MORTE
Sampaio Bruno, sendo um dos autores mais esquecidos da cultura
portuguesa, é, simultaneamente um dos autores de maior culto entre um reduzido
grupo de intelectuais numa linha que vai de Leonardo Coimbra a Joaquim
Domingos, passando por Álvaro Ribeiro, António Telmo, José Marinho e António
Quadros, isto é, de autores que privilegiam as teses da “Filosofia Portuguesa”.
Para além destes autores, excessivamente encomiásticos, possuímos um bom estudo
de Joel Serrão,[1] exterior ao ideário do
biografado, desenvolvido numa vertente cultural racionalista, de pendor
sergiano, o clássico Amorim de Carvalho, O Positivismo Metafísico de Sampaio
Bruno. As Influências de Comte e Hartmann. Crítica e Reflexões Filosóficas
(1960),[2] útil
e investigativo livro, que não deve ser lido sem as correcções explicitadas por
António Telmo em “Prefácio” a O Brasil Mental. Esboço Crítico,[3] e,
principalmente, as advertências muito lúcidas feitas por Joaquim Domingues nos
artigos “A Ética Cósmica de Bruno” e “Bruno e Euclides da Cunha no contexto do
positivismo finissecular”, insertos em De Ourique ao Quinto Império. Para
uma Filosofia da Cultura Portuguesa,[4] bem
como o livrinho do mesmo autor, muito justo na apreciação da evolução e da
filosofia de Sampaio Bruno, O Essencial sobre Sampaio (Bruno).[5].
Descuidada na apreciação crítica da filosofia de Sampaio Bruno é a de José
Barata-Moura, no seu livro Estudos de Filosofia Portuguesa, no capítulo
“Tópicos para um panorama da filosofia em Portugal no século XX”.[6]
Porém, a verdade é que Barata-Moura restringe a filosofia de Sampaio Bruno à
análise do livro A Ideia de Deus (1902), olvidando tanto as anteriores
ideias filosóficas de Sampaio Bruno quanto, principalmente, a sua marcante
superação do positivismo, ficando a supor o leitor, pelos extractos apresentados,
ser a teoria de Sampaio Bruno uma espécie de nefalibatismo espiritual pairando
no céu da filosofia mística sobre um térreo vendaval político entre
republicanos e monárquicos.
(excerto)
[1] Joel Serrão, Sampaio Bruno, O Homem e o Pensamento,
Lisboa, Livros Horizonte, 19862. De aconselhável a leitura de Manuel
Gama, O Pensamento de Sampaio Bruno. Contribuição para a História da Filosofia
em Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994, bem como AA. VV.,
Colóquio Antero de Quental dedicado a Sampaio Bruno, Aracaju, Secretaria
de Estado da Cultura, 1995, com um conjunto de importantíssimas comunicações,
cujo leque teórico fornece uma das melhores introdução ao todo do pensamento de
Sampaio Bruno.
[2] Amorim de Carvalho, O Positivismo Metafísico de
Sampaio Bruno. As Influências de Comte e Hartmann. Crítica e Reflexões
Filosóficas; Lisboa, Sociedade de Expansão Cultural, 1960.
[3] António Telmo, “Prefácio” a Sampaio Bruno, Brasil
Mental. Esboço Crítico, [1898], Porto, Lello & Irmãos, 1997.
[4] Cf. Joaquim Domingues, De Ourique ao Quinto
Império. Para uma Filosofia da Cultura Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional
– Casa da Moeda, 2002, respectivamente, pp 85 ss e 97 ss.,
[5] Joaquim Domingues, O Essencial sobre Sampaio
(Bruno), Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2002.
[6] Cf. José Barata-Moura, Estudos de Filosofia
Portuguesa, Lisboa, Ed. Caminho, 1998, pp. 249 – 281.
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