A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Para a NOVA ÁGUIA 17: "As Teses da Filosofia Portuguesa", de Orlando Vitorino, por Joaquim Domingues...



Sabiam os mais próximos que Orlando Vitorino trabalhava havia muito no livro que, deixado inconcluso, saiu agora, na colecção Filosofia e Ensaios, de Guimarães Editores, graças à diligência da Dr.ª Ivone de Moura e à colaboração de alguns amigos: As Teses da Filosofia Portuguesa. Concebido no âmbito do movimento lançado por Álvaro Ribeiro em 1943, com O Problema da Filosofia Portuguesa, constitui o seu lógico desenvolvimento, fruto da reflexão prosseguida ao longo de toda a vida, em diálogo com as posições discordantes e concordantes. E tendo o mérito de ser a primeira tentativa de sistematização da linhagem de pensamento que remonta às obras compostas desde os finais do século XIX por Bruno, cujo centenário do falecimento ocorreu precisamente em 2015...(excerto)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

De Joaquim Domingues, para a NOVA ÁGUIA 16


SITUAÇÃO DE RAUL LEAL

Raul Leal apenas colaborou no segundo fascículo de Orpheu, mas não há dúvida de que se lhe aplicam, com plena propriedade, os termos com que o amigo caracterizou o fenómeno geracional de que ambos participaram. Por isso apareceria, em Novembro de 1935, no terceiro fascículo do Sudoeste, onde Almada Negreiros aprazara reunir de novo os de Orpheu. Ele mesmo o corroborou, muitos anos depois, asseverando que “os grandes fundadores de Orpheu – Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Luís de Montalvor – não exerceram nem podiam exercer nenhuma influência no meu espírito criador, que se exprimiu, quase inteiramente, antes dessa revista aparecer e sem que eu ainda conhecesse tais sublimes artistas”. Aditando:
“O que se deu, pois, foi uma coincidente comunidade espontânea de espíritos que se formaram, porém, e se desenvolveram separadamente”
(excerto)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

De Joaquim Domingues, para a NOVA ÁGUIA 12

Dilacerado e desmembrado o corpo da Pátria, sofre na alma os efeitos dissolventes da acção infecciosa das forças que, insinuando-se no tecido social, sob os mais variados rótulos e pretextos, fatalmente lhe minam a coesão e o deixam à mercê de um predador mais ousado. O espírito, invisível ou discreto, mas não impassível, permanece à espera de quem o invoque de boa fé e o receba nas formas adequadas à sua manifestação. Por mais sombrios que sejam os tempos, de quando em quando aparece alguém a apontar o caminho perdido a um povo ávido de luz, mas órfão das cabeças que o saibam conduzir.

(excerto)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

De Joaquim Domingues, para o próximo nº da NOVA ÁGUIA

A qualquer um pareceria mal empregado esforço imaginar o que teria acontecido se, em vez do rumo que tomou a partir de 1755, o País tivesse logrado que, a par de um monarca sábio e poderoso, fosse dirigido por um patriarca sábio e piedoso, ambos apostados, ainda que em planos diferentes, no mesmo fito. E contudo houve um poeta que, a seu modo, intuiu o quanto importava que a Igreja e o Estado fossem as duas faces complementares por via das quais o génio português realizasse enfim a sua vocação universal; na qual tanto esperava que redigiu até um guia para o efeito, a Arte de Ser Português. Queimado pelas tropas napoleónicas o solar da família, é de crer que não fosse na biblioteca familiar, mas em Coimbra, nas aulas de Lopes Praça, que Teixeira de Pascoaes ouvisse pela primeira vez encarecer a personalidade e a obra do P.e António Pereira de Figueiredo; de quem Bruno lhe falaria no entanto em termos justificativos da especial menção que lhe faz na derradeira nota daquele livro; cuja leitura tanto me intrigou e à qual estas linhas pretendem ser um mero comentário. 
(excerto)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

De Joaquim Domingues, para o próximo nº da NOVA ÁGUIA

Previsão e profecia

A noção do Quinto Império, que tenho como a fórmula sintética do messianismo português, estabelece a ponte entre o sagrado e o profano. Hoje, como daqui a um século, tal é a meta, a medida e o padrão do que nos cumpre levar a cabo.

(excerto)

domingo, 13 de novembro de 2011

Ontem, digressão NOVA ÁGUIA pelo Alentejo...


Carlos Aurélio no seu Atelier, em Vila Viçosa

Manuel Ferreira Patrício, Joaquim Domingues, Pinharanda Gomes e Samuel Dimas, na sessão em Montargil

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Texto de Joaquim Domingues para o próximo nº da NOVA ÁGUIA



“Apologia de Castilho” (excerto)

Como estamos longe da peregrina noção de que a língua é mero instrumento do pensamento que, esse sim, é que teria de ser claro e distinto! Isto sem falar na impugnação de qualquer mérito de Castilho, afora o da estreita área da literatura convencional! O tópico sugere reflexões mais matizadas acerca do conceito de literatura e dos critérios de valor prevalecentes na conservadora perspectiva de tantos historiadores e críticos literários. Baste-nos, porém, nesta circunstância, exaltar a obra de quem, muito antes de Fernando Pessoa, teve consciência do valor constitucional da língua na formação do homem e em especial de quanto urge libertar a portuguesa língua dos factores de abastardamento cujos efeitos se projectam em quase todos os planos da vida social. O poder integrador da língua, já patente, por contraste, na confusão de Babel, mais brilha ainda na diversidade sem fim dos autores que, cada um a seu modo, como António Feliciano de Castilho, ousam ampliar o comum espírito que anima o seu povo.

Joaquim Domingues

domingo, 31 de outubro de 2010

Diário da NOVA ÁGUIA: 30 de Outubro

Elísio Gala, Joaquim Domingues, Pedro Martins e Luís Paixão

Foi um encerramento com “chave de ouro” do ciclo “Portugal Renascente”, ainda projectado por António Telmo, que se realizou, ao longo do ano, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, com o sempre inestimável apoio da Dra. Maria José Albuquerque, em parceria com os Cadernos de Filosofia Extravagante.

Hoje, numa sessão particularmente cheia, intervieram Pedro Martins, Elísio Gala, Luís Paixão e Joaquim Domingues. Os dois primeiros falando de dois insignes republicanos – Sampaio Bruno e Guerra Junqueiro –, de dois republicanos tão insignes quanto diferentes dos republicanos do seu tempo. E, como foi também dito, de hoje… Luís Paixão falou-nos de alguns arquitectos mais marcantes da época, destacando a figura, tão injustamente vilipendiada (como também salientou António Carlos Carvalho), de Raul Lino. É caso para dizer que não é só na Filosofia que uma pessoa paga um alto preço ao assumir-se como patriota… Por fim, Joaquim Domingues falou-nos da subtil, da abissal diferença entre a república pombalina e república aquilina (lembrando, a esse propósito, a presença simbólica da Águia na Heráldica da Dinastia de Avis). Ou seja, como todos percebemos, entre a República que existe e aquela que mais importa cumprir…

Houve ainda tempo para apresentarmos o presente número da NOVA ÁGUIA. E para prometermos voltar a Sesimbra, um dos locais de eleição do nosso Mapiáguio, para apresentarmos os dois números de 2011...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

"A Via Lusófona": um dos últimos títulos da Colecção NOVA ÁGUIA





Renato Epifânio
A Via Lusófona. Um novo horizonte para Portugal
Zéfiro, Sintra, 2010 (Colecção NOVA ÁGUIA)

Entre as intenções do agir e os efectivos resultados dele muitos factores intervêm (imprevistos uns e imprevisíveis outros) que, se não anulam a responsabilidade pessoal pela iniciativa (antes a encarecem, face aos riscos inerentes), exigem que matizemos o juízo ético em relação às consequências, por vezes inesperadas. Aliás, quanto mais elevado for o plano da acção, ultrapassando a ordem natural, mecânica ou técnica, maior será a incerteza quanto ao acerto das decisões. Assim acontece na política, pelo que, sobretudo a médio e longo prazo, se observam linhas de continuidade e descontinuidade que, escapando talvez aos protagonistas identificados pelo historiador, são motivo de reflexão para o filósofo da história.
A publicação de A Via Lusófona. Um novo horizonte para Portugal, reunindo em livro um conjunto de textos, quase todos muito breves, anteriormente dados a público na internet por Renato Epifânio, suscita questões desta índole. O que logo ressalta da leitura dos documentos, em grande parte redigidos com poucas horas de intervalo sobre os acontecimentos a que se reportam, é a maturidade com que os problemas são tratados. Não obstante a oportunidade e a concisão formal, as tomadas de posição mantêm perfeita coerência, o que faz supor uma doutrina bem definida, embora só explicitada nos traços gerais, bem como um projecto de intervenção amplo e adaptável, mas nem por isso menos ambicioso e de modo algum utópico.
De sublinhar também que o carácter pessoal dos textos, cuja autoria é assumida com toda a frontalidade, se articula a um compromisso transpessoal, o do MIL: Movimento Internacional Lusófono, de que aparece, por mais de uma vez, como a voz autorizada. Estamos perante a expressão de um movimento geracional dos portugueses nascidos e criados depois de 1974, num contexto muito diferente daquele em que se formaram as gerações dos pais e dos avós, pelo que já não obedecem às mesmas palavras de ordem nem se conformam às metas perimidas. Daí a reivindicação de um paradigma novo ou renovado, o de um naciona-lismo radicado no sistema de valores culturais de que a língua portuguesa constitui a chave e a referência essencial.
Alguns politólogos, como o Professor Vamireh Chacon, tinham já constatado que as afinidades culturais tendem a assumir importância decisiva na geografia política que se vai desenhando na sequência do fracasso da solução prosseguida pela União Soviética. Há disso sinais evidentes desde há muito, mormente no âmbito do islamismo, cuja atitude expansiva, de motivação religiosa, se vem sobrepondo passo a passo aos argumentos ideológicos correntes desde 1945 em especial. As mudanças desta natureza são, porém, lentas e sujeitas a recurso, pelo que continuam a surtir efeito as linhas de força antecedentes, não faltando sociedades – entre as quais algumas ditas emergentes… – que almejam imitar e até vencer no seu terreno as potências em declínio, cujo modelo cultural aliás contestam.
No atinente a Portugal não se vislumbra, infelizmente, melhor orientação, já que os homens do poder, moldados pelas ficções ideológicas do século passado, depois de terem desmantelado o projecto multissecular que singularizava Portugal, concluíram não ser viável sustentarmos uma estratégia própria. A última palavra na resolução dos problemas nacionais passou a ser dada pelas instâncias estrangeiras a cuja hegemonia o País se rendeu, numa abdi-cação que afecta já os factores decisivos da identidade do povo português. Compreende-se, pois, que tenha surgido entre as novas gerações um movimento pendular que reivindica o res-peito e a valorização do património que garanta a razão de ser de uma pátria com voz própria no concerto internacional.
Ao sublinhar a capital importância política da cultura e em especial da língua portuguesa – cuja riquíssima literatura oral e escrita, nas suas dimensões pragmática, científica, artística, filosófica e religiosa, move tantos homens por toda a terra –, Renato Epifânio e os militantes do MIL dão prova de uma lucidez e coragem dignas do melhor apreço. Pode mesmo dizer-se que, fazendo da necessidade virtude, como é de regra em circunstâncias análogas, eles resga-tam, superando-os, os erros cometidos outrora – por influxo alheio, umas vezes, por cegueira própria, outras –, reorientando o nosso rumo de acordo com a sua mais genuína inspiração. Daí a invocação, por mais de uma vez, de Agostinho da Silva, um dos que melhor e com mais veemência instou para esse reencontro com a nossa autêntica alma, nos últimos séculos sacri-ficada a um espírito adverso, cuja perversidade atinge hoje as raias do insuportável.
Há uma via lusófona a construir, que não pode ser a de uma parcela ou de um partido, nem mesmo a de um país fechado no avarento egoísmo das economias, porque há-de ser a de todos os que se reconhecem no superior espírito que fala através dos verídicos poetas, como aquele que elegemos para nosso símbolo comum desde que nos deu Os Lusíadas. Não obstante a incerteza que envolve toda a acção humana, mais forte é a esperança que guia quem aspira àquela harmonia humana e cósmica que brindou o Gama e os seus companheiros, depois de cumprida a missão, a que esforçadamente se devotaram, de religar o que estava separado, ven-cidas as tentações para desistirem, face aos perigos iminentes. Pouco depende talvez de cada um de nós, mas tudo por certo depende da generosidade com que cada um de per si contri-buir para a finalidade comum, cujo segredo brilha com lucidez em algumas obras-primas; pois se é próprio do homem errar, essa é também a condição para alcançar aquele porto venturoso que o redimirá e com ele todas as criaturas.
Porque nos instiga a enfrentar os riscos de cumprirmos o nosso mais alto destino como povo, a quem não é legítimo abdicar da autonomia nem da razão que o liga aos demais, o livro de Renato Epifânio merece ser saudado e meditado como luminoso motivo de esperança.

Joaquim Domingues.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sobre "A VIA LUSÓFONA"






O seu livro foi quase uma revelação, não pela orientação, mas pela forma, de notável clareza e pertinência, para já não falar na continuidade e coerência com que desenvolve o seu pensamento. Mas também – e no caso não é o aspecto menos importante – pela lúcida e contida coragem de que dá mostras, não só enfrentado os problemas, mas também as críticas.

Se é verdade que não subscrevo tudo o que diz (…), julgo que só nos matizes e num ou noutro desenvolvimento prático isso não acontece. Por exemplo, mal conheço o Doutor Fernando Nobre para ter opinião acerca da sua candidatura, embora me agradem os argumentos que apresenta a seu favor. No essencial e no conjunto reconheço-me nas posições que assume e sinceramente me alegro por ver que há quem as defenda em público e com tal determinação; fazendo votos por que, para além do meu Amigo, elas representem o pensamento de boa parte da nova geração (…).

Felicito-o também pelo apreço que mostra pelo Professor Adriano Moreira, pessoa com quem nunca falei, mas que tenho como o único político que realmente pensa a nossa situação e os nossos problemas a partir do sistema de valores a que o Renato Epifânio chama a cultura, a nossa cultura. Acontece porém que essa cultura ou sistema de valores tem sido sujeito a tão persistente e violento desgaste que se tornou cada vez mais algo virtual e portanto uma referência dificílima de usar com proveito. Estou mesmo convencido de que as forças que nos são adversas – e elas existem, patentes ou ocultas, agindo sobretudo no interior da sociedade –, essas forças há muito dirigem a barragem de fogo contra os valores culturais que possam sustentar a nossa identidade.

Por mim, que nem sou da geração do Professor Adriano Moreira nem da do Renato Epifânio e tenho a noção dos meus limites, mas combato na mesma hoste, tenho-me limitado à defesa e promoção desses valores culturais. A passagem pela política activa, para a qual não tive vocação, resultou de circunstâncias imperiosas e não teve condições para dar real expressão a esses valores. Por isso mais aprecio a atitude do Renato Epifânio e daqui o incito a continuar, pois urge que haja quem dê forma concreta a uma “república” tanto mais desacreditada quanto mais se tornou a bandeira de partidos, que aliás mais parecem bandos de malfeitores.

A tarefa é muito difícil e crucial, tanto mais porque se a Espanha, por exemplo, não envia as suas forças armadas para conquistar Portugal, não desiste do intento de o conseguir por via económica, como é notório, esperando algo semelhante ao que sucedeu em 1580. Por outro lado, os ressentimentos, mesmo se não forem espontâneos, serão artificialmente cultivados, como ainda hoje se observa em muitos brasileiros, passados quase dois séculos da independência, por sinal protagonizada pelo herdeiro do trono português. Dificuldades estas (como outras) que o Renato Epifânio não subestima decerto, embora compreensivelmente procure reduzi-las à dimensão que convém. Aliás, parece-me muito feliz a opção por valorizar tanto o caso de Timor, para quem as nossas responsabilidades são enormes.

Deixe-me só acrescentar que se Portugal, felizmente, não nasceu sobre um poço de petróleo, dispõe de excepcionais condições naturais e estratégicas que só não usa porque, como diz, não tem projecto próprio e deixou de acreditar em si mesmo (…)

Joaquim Domingues
Braga, 13 de Maio de 2010

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"Pastor de Estrelas"

Nota bibliográfica
Joaquim Domingues

Pastor de Estrelas, de Avelino de Sousa, constitui uma composição poética, sob a forma de tríptico, de que saem agora a lume o primeiro e o segundo livros. O terceiro, sob o título Bosque Cerrado, veio à luz em 2003, em edição assaz restrita. Composição poética em prosa e verso, diga-se, mas também inspirada e meditada; que as discriminações clássicas, académicas ou escolares não têm primazia sobre o livre adejar do espírito.
Embora conhecida e reconhecida, premiada até, a arte de Avelino de Sousa não sacrifica às modas literárias o ofício das musas, o vetusto culto prestado às divindades da roda de Apolo, atributos da luminosa sabedoria descida do alto. O ensurdecedor ruído que nestes dias perturba a clara audição dessa música sublime explicará talvez a discrição do autor. Se o inesperado só se revela a quem o espera, conforme o dito de Heraclito, não basta estar atento, acordado, pois cumpre estar acorde, aperfeiçoar a afinação interior sem a qual nenhuma ressonância sairia das cordas da lira.
Aos cinco títulos publicados em livro por Avelino de Sousa – Nostalgia, edições Vega, Lisboa, 1988; Retratos Apócrifos, seguidos de Doze Canções, Átrio, Lisboa, 1991; Folhagem de Sombras (sob o criptónimo Nuno David Elias), Universitária Editora, 2000; Poemas, edição do autor, Pinhal Novo, 2005; e o já referido Bosque Cerrado, M J Real imo/edição do autor, Setúbal, 2003 –, acrescem os textos dispersos em publicações periódicas dispersas – ‘Arca do Verbo’, de O Setubalense; Sirgo, de Castelo Branco; Colóquio/Letras, de Lisboa; Teoremas de Filosofia, do Porto; Cadernos de Filosofia Extravagante, de Vila Viçosa… Abundante como é a nossa literatura poética, raro se lê uma arte tão rica na forma quão ampla no horizonte e elevada no tom, onde nada falta do que de essencial cumpre atender. Ao sopro da sua voz, a razão se dilata e exalta, sem refugar a natureza e a humanidade, que é como quem diz, a transitória dor e o contingente mal, que são o aguilhão do poeta.
Se os volumes anteriores saíram sóbria, mas cuidadosamente ilustrados – o segundo com um desenho do autor onde a lira se desdobra em fogosa floração ascensional –, a este coube enriquecê-lo Carlos Aurélio. Artista dos mais completos, com notável obra plástica, designadamente no desenho, pintura, escultura e fotografia, também cultiva com mestria as artes da palavra. Além dos textos dispersos, designadamente nos Teoremas de Filosofia, publicou dois volumes de índole reflexiva – Mapa Metafísico da Europa, Fundação Lusíada, Lisboa, 2003, e Considerando os Filósofos, Tartaruga, Chaves, 2008 – tendo pronto para o prelo o terceiro – Cartas de Noé para Nayma.
O Pastor de Estrelas, pela força do verbo, tem a magia poética capaz de se animar de vida própria ao calor de cada leitura compreensiva. Assim às imagens criadas por Avelino de Sousa perfeitamente se casam as de Carlos Aurélio, traçadas entre a terra e o céu, sinal da comum frequência daquele mundo de que os sonhos são feitos. Pela graça geradora e regeneradora do espírito se afirmam as novas gerações, de quem fiamos o nosso futuro, certos de que a cadeia sem fim que tudo liga e religa se movimenta teleologicamente.

Publicado em:
http://filosofia-extravagante.blogspot.com/2010/01/o-pastor-de-estrelas-1.html

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Vidas Portuguesas: Joaquim Domingues (1946)


Joaquim Domingues e Anna Maria Moog Rodrigues no VIII Colóquio Tobias Barreto. Lisboa, Outubro de 2007

“Há na vida cultural portuense duas instituições que, identificadas pelo mesmo nome, têm um carácter tão distinto que se torna desnecessário o cuidado de advertir o leitor para qualquer possível equívoco, pois a Faculdade de Letras do Porto extinta nos alvores do Estado Novo nada tem de comum à Faculdade de Letras do Porto criada na sua fase de decadência. A tal ponto que, nem mesmo o compreensível desejo de fazer valer o presumível direito a herdar o património de valores espirituais que foram timbre da primeira, moveu a segunda a prestar a devida atenção, para já não falar no devido culto, aos homens que, como professores e alunos, distinguiram a escola de ensino superior fundada e dirigida por Leonardo Coimbra. Bem razão tinha Álvaro Ribeiro ao observar que a cidade do Porto não se mostrara especialmente afectada com a perda da sua Faculdade de Letras. E, no entanto, que rica galeria de homens notáveis por ela passaram e deram, à cidade e ao país, quando não a outros países, um contributo inestimável, como foi o caso, singularíssimo, de Agostinho da Silva! Para mais, estando em curso a edição da sua obra, iniciativa a todos os títulos meritória, quanto não seria possível e desejável fazer a partir daí, tanto no âmbito da compreensão do seu pensamento, como da plataforma que ele oferece para o diálogo intercultural, que constitui uma das constantes nossas características?! Não fora a iniciativa individual e, neste caso como em tantos outros, quase tudo estaria por fazer, face à inércia das instituições, para as quais a noção do bem comum, tão cara ao nosso autor, parece destituída de significado”.
Joaquim Domingues, Agostinho da Silva e a Faculdade de Letras do Porto

Apontamento Biográfico
Joaquim Carneiro de Barros Domingues, mais conhecido entre nós como Joaquim Domingues, nasceu, na cidade do Porto, no dia 9 de Abril de 1946. Faz hoje precisamente 62 anos.
Professor, ensaísta e pesquisador da cultura portuguesa, licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Ensinou, durante largos anos, num dos liceus de Braga - cidade que escolheu (ou que por ele escolheram) para viver.
Além dos inúmeros artigos publicados e das múltiplas participações em congressos e seminários, Joaquim Domingues editou, durante seis anos (2000-2005), a revista Teoremas de Filosofia.
Hoje em dia está reformado das suas funções de professor (que já o angustiavam e desmotivavam há uns tempos por causa do empobrecimento do sistema português de educação) e dedica-se exclusivamente ao estudo da tradição portuguesa.

Apontamento Crítico
Figura cultíssima daquilo que se convencionou chamar o movimento de continuação da filosofia portuguesa, Joaquim Domingues dedica-se, desde há muito, ao estudo das obras de Álvaro Ribeiro (1905-1981) e de Sampaio Bruno (1857-1915) em específico (quem sabe se por estes serem dois dos vultos que mais edificaram a questão da filosofia portuguesa), e ao exame do pensamento português como um todo. Conhece, como quase ninguém, a história e a tradição dos nossos literatos, filósofos e ensaístas. Encarna, por isso, mas também porque lhe é característica o afinado rigor, a clareza na palavra escrita e falada, o discurso filosófico e a conversa amável e generosa com todos os que com ele partilham o interesse pela cultura portuguesa e pela reflexão filosófica, a figura do Mestre. Pinharanda Gomes (1939) resume-o assim: “Joaquim Domingues, cujo perfil mental é, a meu ver, análogo ao de Álvaro Ribeiro: idêntico sentido do sacerdócio do pensamento, rigor na escrita e na palavra, em que o signo da razão predomina, a heurística para fundamentar os temas e os problemas e a ética da partilha”, acrescentando ainda que a maior parte das suas obras é um “extenso e sólido painel de assunções ideais, sem o mínimo vestígio de febrilidade porque, elevando a mente ao alto, fixa bem os pés na terra. Como a águia ao preparar o voo”.
O principal objectivo da obra de Joaquim Domingues é a dignificação do legado filosófico que os pensadores portugueses têm deixado às gerações que lhes sucedem e que, durante muito tempo, quase foi desconsiderado e banalizado. E essa dignificação é feita, ainda que com paixão de hermeneuta e de dedicado servo da filosofia, de um modo cauteloso, seguro e, por vezes, até imparcial, uma vez que aquilo que realmente lhe interessa é a busca da verdade sófica. Por isso é que as interpretações que nos chegam das obras e das vidas de Álvaro Ribeiro e de Sampaio Bruno, feitas por Joaquim Domingues, são tão claras e tão perceptíveis, tão extraordinariamente compreensíveis, que não podem ser outra coisa senão o reflexo de um esforço exigente e minucioso de exegese. Sem fundamentalismos ou estados febris, como refere Pinharanda Gomes, as propostas de Joaquim Domingues encaminham-se, então, para um enobrecimento da tradição cultural do seu país, já que nelas valoriza essencialmente a língua portuguesa como pressuposto da nossa autonomia espiritual.
Se, depois de termos meditado acerca das reflexões que Joaquim Domingues tece nos seus ensaios, lermos o primeiro parágrafo de O Problema da Filosofia Portuguesa de Álvaro Ribeiro – “A Sofia é o conhecimento especulativo do absoluto; resulta da actividade criadora da razão que vence infinitamente a pluralidade mortífera e polémica. A filosofia é o esforço para esse conhecimento” -, compreendemos perfeitamente, não só a afinidade que o nosso autor sente com o pensamento do fundador do movimento da filosofia portuguesa, bem como a natureza das categorias que animam a sua hermenêutica filosófica. O Absoluto e o Sagrado (princípios que motivam o homem para busca do ser e para o mistério do universo) são alcançáveis por meio de uma ascese da Razão que, ao fim e ao cabo, se opera através da metodologia filosófica. Se, a par dos pensadores do grupo da filosofia portuguesa, Domingues enaltece a especificidade do pensar português, por outro lado, apela para o sentido do universal, no fim de contas, é ele quem orienta o homem na sua demanda filosófica.
Apesar de Joaquim Domingues não ter pertencido ao grupo fundador da filosofia portuguesa, é hoje um dos seus perpetuadores mais fiéis. Não só porque editou a Teoremas da Filosofia, tentando, de alguma maneira, reconstruir o ambiente reflexivo que, à época, fora promovido por um Álvaro Ribeiro, por um António Quadros (1923-1993) ou por um Afonso Botelho (1919-1996) e interpelar os jovens intérpretes para a urgência da discussão filosófica portuguesa, mas também porque, ideologicamente, na actualidade, é o seu representante mais fidedigno. Afinal, não é por acaso que Pinharanda diz que o perfil mental de Joaquim Domingues é “análogo ao de Álvaro Ribeiro”.

Bibliografia Indicativa
Organização, posfácio e notas de Plano de um Livro a Fazer: Os Cavaleiros do Amor ou a Religião da Razão, de Sampaio Bruno (1996)
Filosofia Portuguesa para a Educação Nacional: Introdução à Obra de Álvaro Ribeiro (1997)
Organização de Cartas para Delfim Santos, de Álvaro Ribeiro (2001)
O Essencial sobre Sampaio (Bruno) (2002)
De Ourique ao Quinto Império. Para uma Filosofia da Cultura Portuguesa (2002)
Organização de O Pensamento e a obra de Pinharanda Gomes (2004)
Organização de Teoria Nova da Antiguidade, de Sampaio Bruno (2004)
Organização e apresentação de Dispersos e Inéditos, vol. I, de Álvaro Ribeiro (2004)
Organização de Dispersos e Inéditos, vol. II, de Álvaro Ribeiro (2004)
Organização e apresentação de Dispersos e Inéditos, vol. III, de Álvaro Ribeiro (2005)
Organização de O Pensamento e a Obra de Afonso Botelho (2005)