A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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domingo, 23 de outubro de 2022

segunda-feira, 15 de junho de 2020

De Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 26...

Muitos analistas concordam que, em tão pouco tempo, este 2020 apareça como sendo de um mundo sem bússola, marcado pelo desastre global da pandemia, que atinge o género humano, sem distinguir grandes ou pequenos países, com a ordem mundial jurídica atingida por rivalidades, por enquanto verbais, entre, por exemplo, os emergentes EUA e China, um mundo político com pouca atenção à pregação de Francisco, Papa dos católicos, que chama a atenção para a América Latina, uma criação dos dois Estados ibéricos, Portugal e Espanha. Existe ali o atribuído privilégio da primeira elaboração das teorias do populismo desde 1960, mas, nesta data, a desordem, a pobreza e a violação dos direitos humanos, destacando premissas do livro de Mélenchon Qu'ils s'en aillent tous!, partindo da crise na Argentina de 2001.
Mas o Brasil, subitamente, é o principal inspirador das perplexidades e dos deveres portugueses. Não apenas pelo passado, mas também pela desordem que atinge o espaço abrangente da história e da responsabilidade marítima do Atlântico Sul. Também nos pertencerá recriar a bússola. E não é apenas pelo compromisso assumido na Assembleia Geral da ONU, fortalecido pela autoridade da voz portuguesa que assumiu o compromisso. É também pelo valor histórico da América Latina, que lembrou a Gilberto, sem que o fim da vida lhe permitisse, escrever sobre o iberotropicalismo (...)

excerto

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

De Adriano Moreira para a NOVA ÁGUIA 21...

O SAGRADO NA VIDA DE CADA UM DE NÓS

Este tema, na visão cristã que domina este lugar de Fátima, é especialmente posto a cristãos, particularmente ocidentais, e, pela evolução dos tempos, e conjunturas políticas, culturais, e científicas, a crentes, e até a não crentes cujo comportamento não pode cortar com a circunstância porque, como tão incisivamente enunciou Ortega, a admitirem que o homem não tem natureza, mas história, encaminhando para repensar a vida humana tendo presente que “o humano escapa à razão físico-matemática como a água por uma peneira”.

Intervenção de Abertura do II Festival Literário de Fátima (excerto inicial)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

De Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 17

A LUSOFONIA E AS DIÁSPORAS

Não podemos deixar de lembrar o visionário Agostinho da Silva, que depois de ajudar a formar o Brasil Moderno, imaginou uma sementeira de centros culturais ao redor da Terra – Ceuta, Índia, Malaca, Goa, Macau, Brasília. Amarras da cultura portuguesa miscigenada pelas distâncias, pelos tempos, pelas políticas. Nesta data, as comunidades de origem e cultura portuguesa marcam presença sobretudo na Europa em crise, porque esta não tem conceito estratégico, não teve política consistente do alargamento, está a aprender que mediu mal a capacidade de ter uma política de segurança e defesa autónomas (excerto).

quarta-feira, 22 de julho de 2015

De Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 16


O facto de a língua não ser nossa, ser também nossa, e transportar valores, faz com que, espalhada por todas as latitudes, tenha recolhido um pluralismo que a enriquece, como que a torna transversal em relação a culturas diferenciadas, inscrevendo-se no património Imaterial da Humanidade, com forte contribuição para viabilizar o diálogo entre as diferenças, e colocar o respeito e a cooperação no lugar da simples tolerância ou da indiferença. Fortalecendo a maneira portuguesa de estar no mundo, mesmo na atribulada época que atravessamos.

(excerto)

quinta-feira, 26 de março de 2015

De Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 15



Finalmente, pensando na outra janela de liberdade que possuímos, que é a CPLP, imagino que na gestão da sua consistência, que deve ser cuidado nosso, por exemplo na área do ensino e da investigação, também pudesse ser incluída a ambição de uma frota com bandeira da CPLP, superando pela cooperação a falta de recursos financeiros, mas por enquanto guardando ainda o capital do saber fazer. Todos os países da CPLP são marítimos, todos são pobres, com a exceção crescente do Brasil, e a pertença à União Europeia não é impedimento português para assumir outras obrigações. Tendo presente que, nesta data, ao mesmo tempo que cresce a importância do tráfego marítimo, cresce a insegurança, incluindo o Atlântico Sul, a organização, segurança, e fortalecimento da maritimidade da CPLP, é um serviço à reorganização da ordem mundial. (excerto)

sábado, 20 de setembro de 2014

DESAFIOS DE PORTUGAL: A IDENTIDADE NACIONAL | De Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 14

 
Numa data em que é evidente a crise de mais de um Estado, designadamente na área ocidental, e particularmente no Norte do Globo onde residiu durante séculos a hegemonia global, no sentido de evoluírem para a categoria de Estados Exíguos, isto é, com relação deficitária entre as suas capacidades e objectivos, parece-nos do maior interesse e actualidade meditar sobre a relação entre a Nação e o Estado, que apenas em 1918 foram proclamados como realidades que devem coincidir.
Tendo por segura a ideia de que a identidade da Nação Portuguesa, é uma das mais antigas, senão a mais antiga europeia, as Cortes de Coimbra, reunidas entre 3 de Março e 10 de Abril de 1385, também podem entender-se como consagrando, em vésperas de uma guerra longa com Castela, a união entre a Nação e o Estado querido pela primeira, entendido aqui o Estado como o enquadramento institucional da governança soberana.
Esta união entre a Nação e o Estado, no sentido que viria a ser afirmado nos lembrados 18 Pontos de Willson em 1918, foi quebrada pela Dinastia dos Habsburgos Espanhóis, que governaram Portugal entre 1580-1640, com violação das leis do Reino, pelo uso das armas e da corrupção, dando origem à consolidação do mito do Sebastianismo, que alimentou a vontade de regressar a uma dinastia também nacional, o que é lembrado e celebrado por esta Sociedade Histórica da Independência de Portugal no 1.º de Dezembro de cada ano, no Palácio que abrigou os Conjurados. O facto que historicamente marca esta alteração gravosa do estatuto do Reino de Portugal é sempre identificado com a Batalha de Alcácer-Quibir, travada em 14 de Agosto de 1578, onde morreu talvez metade dos efectivos do exército português, foram aprisionados milhares de combatentes incluindo os representantes da nobreza mais destacada; na base do desastre, além da inexperiência e impetuosidade do jovem Rei, que diz respeito à condução das operações, a situação de o Estado exíguo ficou demonstrada, e a primeira questão importante que as circunstâncias evidenciaram foi a de preservação da identidade nacional, ponto de apoio para a resistência ao infortúnio e recuperação de um Estado nacional.
Não deixaram de existir motivações menores, quer para acompanhar os riscos da Restauração, quer para evitar os riscos consequentes do levantamento, quer para reivindicar o êxito seguro da conspiração e revolta, mas o que interessa e releva é a determinação com que “sábado, primeiro de Dezembro de 1641, dia memorável para as idades futuras, a nobreza da Cidade de Lisboa, para remédio da ruína em que se via, e ao Reino todo, aclamou por Rei o Duque de Bragança Dom João, príncipe benigníssimo, magnânimo, fortíssimo, piedoso, prudente, nos trabalhos incansável, no governo atento, no amor da república cuidadoso, do seu acrescentamento ardentíssimo, e vigilante, legítimo sucessor do Império Lusitano”. [1]
A crítica contemporânea, apoiada nos adiantamentos da ciência política, na mudança de perspectivas, e no progresso da metodologia e fontes da história, separa a definição, como que mitológica, do evento, das realidades dominantes na área das legitimidades jurídicas da época, na distância de então entre o princípio tardio da exigente coincidência entre Nação e Estado e as vigências do legitimismo.
Mas do ponto de vista da identidade nacional, e do que isso significa e crescentemente importa na conjuntura que vivemos nesta entrada do terceiro milénio, é que a História de Portugal Restaurado, escrita pelo Conde da Ericeira D. Luís de Meneses, a persistente doutrinação do Padre Vieira, o sobrevivente sebastianismo a adaptar-se a cada época, é finalmente, (Ramos, 2010) o facto de que “no ambiente nacionalista da viragem para o século XX, não só se ampliou o interesse pelo estudo do acontecimento, como o mesmo foi elevado ao estatuto de uma das datas essenciais da afirmação da identidade nacional”. As dificuldades da mobilização militar, as dificuldades financeiras, a designação das chefias militares competentes, e os condicionamentos adversos da circunstância internacional, não impediriam que a mais longa guerra em que Portugal esteve envolvido, de 1640 a 1668, vencesse os Habsburgos, recuperasse o império com perdas limitadas, recuperando igualmente o lugar independente na cena internacional. Como lembrou D. Manuel Clemente, em 1810 o Estado estava falido e foi necessário refundar o Estado, em 1910 o Estado estava falido e foi necessário refundar o Estado, em 2010 o Estado está em circunstância de desastre, e, com base na identidade, é necessário de novo reconciliar a Nação com o Estado, com base no espírito que vive nesta instituição. As evidências não parecem discutíveis.
Na dificílima circunstância em que se encontra Portugal, amarrado à séria circunstância do globalismo sem regras, começa a ganhar enorme relevo o facto de ter sido negociado um acordo internacional de auxilio financeiro, com regras severas e vigilantes atentos, e tudo parece remetido para futuriveis incertos pelos debates que antecedem necessariamente as eleições.
Não se trata apenas de ter um povo para governar, dentro de um território limitado e excessivamente abandonado, com escassos recursos próprios a dinamizar, e leis da Republica a observar, também acresce nesta data um compromisso internacional que estrutura o limite da criatividade sem regras que a soberania usou demasiadas vezes, ao longo da história e para além das capacidades e das leis.
O debate sobre as personalidades, e sobretudo envolvendo as ambições incompatíveis dos interlocutores, ultrapassa facilmente a capacidade de o eleitorado finalmente ver a realidade que permanece para além do que se consegue ouvir. Disse o Padre Vieira, no Sermão para o dia de S. Bartolomeu, que “não há coisa mais difícil, que eleger um homem outro homem”, porque “com a paixão, ou ainda sem ela, nenhum homem conhece o outro”, e o alarido em que frequentemente se transformam os debates e comentários não contribuem para vencer esta barreira. Do que se trata é do futuro, se possível aceitável, porque do passado todos conhecem o suficiente pelos efeitos que atingem a terra e as gentes, situação que não melhora com reinterpretações e voz forte.
Voltando ao Padre Vieira, e agora ao Sermão da Quarta Feira da Quaresma do ano de 1669, parece apropriado lembrar este texto: “Estais Cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra, vedes as obrigações, que se descarregam sobre o vosso cuidado, vedes o povo, que carrega sobre as vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos grandes, e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores, e gemidos de todos? Ou os vedes, ou os não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se não remediais, como os vedes? Estais cegos”.
O Padre não viveu os tempos em que os meios de comunicação consentissem que o Estado Espectáculo, em todas as suas vertentes da soberania, sem distinguir entre detenção do poder e oposição, se tornou no modelo mais cultivado, de modo que nem o eleitorado, não fora medir as circunstâncias pelos efeitos que sofre, não conseguiria ver, ao menos parte da realidade, pela cortina de palavras que tem de ouvir. De algum modo, a própria Europa no seu todo, tendo por alarme algumas anunciadas reacções não efectivadas contra o auxilio a Portugal, designadamente da Finlândia, da Alemanha, ou da Inglaterra, está a por em causa a percepção da debilidade colectiva em que se encontra perante o resto do mundo, supondo que o regresso aos atomismos dos interesses próprios de cada país não atinge gravemente a debilidade colectiva de um agregado que, com as suas guerras interiores, destruiu o império que tinha sobre o que chamou “resto do mundo”, que é onde se encontram as matérias primas, as energias não renováveis, e até os suplementos da alimentação que não produz.
E também a nova vaga dos que crescem de poder e não diminuem a memória de submissões passadas. A política não tem a gratidão como uma das suas virtudes fundamentais, mas a solidariedade de um espaço que decaiu de poder, e que pretende não apenas salvaguardar o que ainda tem, mas progredir, se possível, no equilíbrio mundial, é com base nos interesses, que moveram a sabedoria dos fundadores, que tem de basear decisões bem definidas para salvaguardar não apenas o espaço europeu, mas de facto o espaço ocidental. Os ditos de espírito, ou falta dele, podem aliviar tensões individuais, mas não resolvem problemas. Precisamos sobretudo de vozes que ajudem a ver a realidade, que promovam as solidariedades cívicas, que tenham o bem comum como paradigma. Com isto preservam as diferenças.
Quando, em 1890, a humilhação do Ultimato feito pela Inglaterra, colocando um ponto final na ambição excessiva do Mapa Cor de Rosa, as manifestações patrióticas que tiveram expressão no apelo à vontade nacional com A Portuguesa de Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, mas também de desânimo expresso com o Finis Patriae de Junqueiro, não foi o regime político o valor a salvar, não foi o declínio desse regime o inspirador, tratou-se da identidade nacional, do seu paradigma apoiado como sempre em realidades e mitos, mas proclamado, ou com esperança e projecto, ou com desânimo e lamentos, de facto animando finalmente a constituição do Terceiro Império, o africano, que terminaria, acompanhando o fim do Império Euromundista em que participava, em 1974.
Neste ano, parece-me oportuno referenciar, relembrando D. Manuel Clemente, esta permanência da identidade nacional como valor directivo da mobilização das vontades cívicas, não subordinadas à estrutura política como demonstrou no passado, consolidado progressivamente o princípio de que o Estado, como estrutura de governança, que na convicção do Lord Acton em regra precedeu a Nação, é definitivamente um servidor dela, e que deve ser reformulado sempre que a função o exige.
A esta tendência impulsionada pelo globalismo, que é um factor externo, acrescenta-se em vários casos, numa das integrações em regionalismos como o da União Europeia, a evolução do Estado para Estado Exíguo, isto é, para uma situação de relação acentuadamente negativa entre os recursos e os objectivos dessa entidade, já submetida à evolução da soberania renascentista para a soberania cooperativa que implica transferência de competências para centros de poder do novo espaço integrador. É nesta situação que se encontra o Estado Português, abrangido com os parceiros da União nas transferências de competência do Tratado de Lisboa, mas também fortemente atingido pela crise financeira e económica mundial, sendo objecto da crise de confiança que lavra por toda a União, quer na relação da sociedade civil com o Poder político, quer na vida privada em que, ao lado da sociedade civil, cuja estrutura de solidariedade e confiança, expressa no património imaterial da sua cultura específica, sofre deteriorações várias, quer na sequência da transformação das fronteiras geográficas em apontamentos administrativos, quer pelo descontrolo das migrações, uma realidade não absorvida pelo tecido cultural da sociedade civil, e que corresponde ao conceito de multidão, com as implicações de conflitos que se multiplicam em várias grandes cidades europeias.
Nesta crise, com certamente raros exemplos passados de referência, a questão do valor fundamental das identidades emergiu entre as inquietações que interpelam grandes e pequenos Estados.
Nos EUA, a chegada das antigas minorias ao poder, que inquietou Huntington, foi sublinhada pela proclamação de Obama quando afirmou – somos todos americanos –, uma temática que começa a ter réplicas preocupantes dentro da superpotência sobrante. Mas é o globalismo, de efeitos colaterais insuficientemente identificados, que obriga a acompanhar com atenção preocupada, indagações como a levada a cabo por François Jullien, sobre os conceitos de universal, uniforme e comum, em confronto com realidades a que correspondem os conceitos de alteridade, heterogéneo, e singular.[2]
É nesta categoria do singular que a questão da identidade dos povos tem um lugar principal e uma exigência de meditação inadiável.
Voltando à relação actual de Portugal com a sua circunstância, interna e externa, tudo aponta para o imperativo de olhar com sentido histórico, cívico, e de futuro, para relação entre identidade e Estado, numa data em que o Estado dá sinais irrecusáveis de evolução para Estado Exíguo, com o valor básico da confiança atingido na vida civil e na relação entre a Nação e o Estado, para assumir que a crise do Estado não é a crise da identidade nacional, que no passado graves crises do Estado foram resolvidas e ultrapassadas pelo dinamismo cívico derivado da solidez da identidade nacional. Seria inteiramente falso e abusivo, e talvez agravante da crise, imaginar ou sugerir que é a natureza filosófica e jurídica dos regimes que estas crises inevitavelmente atingem. De facto é a crise do valor da confiança que leva ao apelo urgente à autenticidade, à exigência de vozes capazes de elucidar sobre a realidade desafiante e mobilizar para respostas inovadoras com os sacrifícios indispensáveis. É a própria soberania, que não pode deixar de evoluir respondendo à mudança imperativa das circunstâncias mundiais, mas que não é imperativo que nessa evolução perca o sentido da igualdade na tomada de decisão e a noção da exigência de assegurar a capacidade de a manter. Recentemente, o professor Jonh Crowley escrevia que “longe de ser um “repli”, a identidade é, para o melhor e o pior, um avanço. Para o pior se tomarmos à letra a sua pretensão de ser “naturelle”; para o melhor se os particularismos puderem ser o ponto de apoio para um universalismo coerente”.
Voltando aos conceitos de François Jullien, no globalismo que nos envolveu sem projecto e largamente construído com efeitos colaterais, o particularismo da identidade nacional não se confunde nem com as interdependências desses efeitos colaterais, nem com a uniformidade dos consumismos que resulta da teologia de mercado: a identidade nacional é um institucionalismo criado pela história, é uma célula irredutível da marcha para a articulada unidade da governança mundial a construir, e por isso mesmo a titular da vontade de reorganizar o Estado em crise para o habilitar a servir a comunidade. Foi o que aconteceu no 1.º de Dezembro de 1640, uma celebração que não é apenas um exercício de veneração do passado, é um exercício de inspiração no passado a pensar na responsabilidade cívica de reabrir o futuro.
No caso português, sem poder ignorar o processo evolutivo do Brasil, que prudentemente avalia a escolha de futuros entre os compromissos com o regionalismo sul-americano e a sua própria afirmação de grande potência, a solidariedade procurada entre os países de língua portuguesa, na organização que espera mais atenção e desenvolvimento, que é a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), é uma contribuição sua. Não apenas para a racionalização do globalismo, e para o património imaterial de que se ocupa a UNESCO, mas também para o interesse desta Europa, à procura de objetivo estratégico convictamente partilhado, de governança finalmente racionalizada, com imaginação criadora e lideranças credíveis. Tudo para que a Euráfrica não seja apenas um sonho que a realidade semeie de pontos de interrogação, a que lembranças revitalizadas do passado impeçam de encontrar respostas construtivas. Na circunstância atual, não é fazendo renascer o espirito de cidadelas na União que a fraqueza desta encontrará remédio, porque não poderá dispensar os esforços ordenados para dominar a irracionalidade do globalismo.
Finalmente, sempre lembrarei que não se escolhe o país em que se nasce, mas que decidir ficar é um ato voluntário e de amor. Uma decisão que não se toma a benefício de inventário do passado, torna-se, com esperança, a benefício do futuro da maneira portuguesa de estar no mundo.

[1] In Rui Ramos (coord.), História de Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, pg. 295.
[2] François Jullien, O Diálogo entre as culturas, do universal ao multiculturalismo, ZAHAR, Rio de Janeiro, 2009.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

"Conciliar o Mundo", de Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 13

Não foi acertada, julgamos, a ideia de Fukuyama do fim da história, foi imprudente o unilateralismo na presidência Bush, mas o facto mundial é que desapareceu a hierarquia das potências que o Conselho de Segurança da ONU acolheu, que a Carta e os Tratados são atingidos pela crise mundial, e que não é difícil aceitar que é urgente – conciliar o mundo – em face de duas ameaças fundamentais: a proliferação nuclear e a fome, quando a fronteira da pobreza passou para o norte do Mediterrâneo, que poderes emergentes – como a China – se mostram a caminho de juntarem o poder militar ao poder financeiro. Sem solidariedade assumida no Atlântico, em que os EUA têm não uma retaguarda, mas uma participação, a decadência do Ocidente não será facilmente detida. Sabemos que o Pacifico lhes é importante, mas o Atlântico faz parte da urgência. Somos todos ocidentais. 
(excerto)

domingo, 1 de setembro de 2013

De Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 12: "O Futuro de Portugal"


Para abordar esta questão complexa que se enuncia, no encontro em curso, com a fórmula de simples leitura – O futuro de Portugal – tem de lembrar-se que a pergunta, – sempre angustiante e não tranquilizadora – foi mais de uma vez colocada na história, longa de séculos, de um país que frequentemente teve de avaliar a relação de capacidade com a efetivação de um Projeto Estratégico Nacional.
(excerto)

domingo, 12 de agosto de 2012

De Adriano Moreira, para o próximo nº da NOVA ÁGUIA


"País de suicidas, diria Unamuno, ao registar também que era o único povo, que, perante as adversidades, dizia – isto dá vontade de morrer.
E todavia, pequeno e pobre, imaginou o V Império, com raízes Bíblicas, tendo no Padre António Vieira o grande inspirador de um Império mundial do Espírito guiado pelo Papa, e tendo o Rei de Portugal, renascido este para a independência, D. João de Bragança, o poder temporal. Ao primeiro exame surpreende que um povo com a gesta dos Lusíadas tenha como referência de esperança um Rei vencido, e não um Rei triunfador. Com a última versão em Agostinho da Silva, que parecia antever a subida de Portugal ao Calvário, para renascer nas comunidades unidas pela língua portuguesa e pela maneira de Portugal estar no mundo.
Mas atrevo-me a leitura diferente, e tomar de guia Bartolomeu Dias, que por três vezes embarcou para descobrir a rota da Índia, incluindo ter vencido o Adamastor, e morreu no mar sem ter conseguido o propósito: morreu tentando, não morreu desistindo. E essa é a virtude do português de sempre: – se necessário, morrer tentando, mas não morrer desistindo."

(excerto)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Adriano Moreira: Personalidade Lusófona de 2011



Após ter ouvido o parecer do seu Conselho Consultivo – constituído por 70 membros, representando toda a Comunidade Lusófona –, a Direcção do MIL decidiu atribuir o Prémio Personalidade Lusófona de 2011 ao Professor Doutor Adriano Moreira, por todo o seu trabalho em prol do reforço dos laços entre os países e regiões do espaço da lusofonia, no plano cultural, social, económico e político – desígnio estratégico do MIL.

Recordamos os anteriores premiados: Embaixador Lauro Moreira (2009) e Bispo Ximenes Belo (2010).

A sessão pública de entrega do Prémio, que decorrerá no dia 24 de Fevereiro, será anunciada em breve.

MIL: Movimento Internacional Lusófono
www.movimentolusofono.org

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

UMA PROSPECTIVA DA CPLP (excerto)*


A língua é o nosso instrumento mobilizador do mais importante dos capitais de recuperação, porque transporta valores, nunca é neutra.

Com a língua portuguesa acontece que, implantada em todas as latitudes, também, como aconteceu com o cruzamento das espécies, se tornou mestiça. Por isso tenho afirmado que a língua portuguesa não é nossa, também é nossa, querendo significar que em cada lugar de implantação, pela soberania, pela evangelização, ou pelo comércio, agregou valores que lhe dão especificidade na adopção plural que conseguiu.

Tem um traço comum, a que sempre chamei a maneira portuguesa de estar no mundo, que é a sua trave mestra, o conceito que une todas as etnias e culturas que atraiu, e que permitiu a formação da CPLP.

Nenhuma das potências, que participaram no Império Euromundista, conseguiu organização semelhante, nem mesmo a Espanha que também implantou o castelhano em tantos lugares.

Esta união de pessoas que conservam a identidade específica e a ligação comum que é a língua, constitui um instrumento, e o exemplo, da capacidade de responder à exigência de finalmente reconhecer que a Terra é a casa comum dos homens, que sem diferenças de etnias, crenças, e culturas, todos participam a mesma aventura de viver, e que o globalismo que realmente os unifica é enfrentarem um risco global. A contribuição dos que partilham a maneira portuguesa de estar no mundo para o património comum da humanidade, que inclui os valores que apontam para colocar o diálogo no lugar do combate, e alargar o reconhecimento recíproco pelo respeito que dispensa a tolerância, é uma parcela valiosa e indispensável desse património. E também contribuição para a segurança de que será possível reconstruir um novo futuro promissor, para além da crise brutal, e das ameaças inquietantes.

ADRIANO MOREIRA

* Texto a publicar na íntegra no próximo número da NOVA ÁGUIA.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sobre "A VIA LUSÓFONA"






O seu livro foi quase uma revelação, não pela orientação, mas pela forma, de notável clareza e pertinência, para já não falar na continuidade e coerência com que desenvolve o seu pensamento. Mas também – e no caso não é o aspecto menos importante – pela lúcida e contida coragem de que dá mostras, não só enfrentado os problemas, mas também as críticas.

Se é verdade que não subscrevo tudo o que diz (…), julgo que só nos matizes e num ou noutro desenvolvimento prático isso não acontece. Por exemplo, mal conheço o Doutor Fernando Nobre para ter opinião acerca da sua candidatura, embora me agradem os argumentos que apresenta a seu favor. No essencial e no conjunto reconheço-me nas posições que assume e sinceramente me alegro por ver que há quem as defenda em público e com tal determinação; fazendo votos por que, para além do meu Amigo, elas representem o pensamento de boa parte da nova geração (…).

Felicito-o também pelo apreço que mostra pelo Professor Adriano Moreira, pessoa com quem nunca falei, mas que tenho como o único político que realmente pensa a nossa situação e os nossos problemas a partir do sistema de valores a que o Renato Epifânio chama a cultura, a nossa cultura. Acontece porém que essa cultura ou sistema de valores tem sido sujeito a tão persistente e violento desgaste que se tornou cada vez mais algo virtual e portanto uma referência dificílima de usar com proveito. Estou mesmo convencido de que as forças que nos são adversas – e elas existem, patentes ou ocultas, agindo sobretudo no interior da sociedade –, essas forças há muito dirigem a barragem de fogo contra os valores culturais que possam sustentar a nossa identidade.

Por mim, que nem sou da geração do Professor Adriano Moreira nem da do Renato Epifânio e tenho a noção dos meus limites, mas combato na mesma hoste, tenho-me limitado à defesa e promoção desses valores culturais. A passagem pela política activa, para a qual não tive vocação, resultou de circunstâncias imperiosas e não teve condições para dar real expressão a esses valores. Por isso mais aprecio a atitude do Renato Epifânio e daqui o incito a continuar, pois urge que haja quem dê forma concreta a uma “república” tanto mais desacreditada quanto mais se tornou a bandeira de partidos, que aliás mais parecem bandos de malfeitores.

A tarefa é muito difícil e crucial, tanto mais porque se a Espanha, por exemplo, não envia as suas forças armadas para conquistar Portugal, não desiste do intento de o conseguir por via económica, como é notório, esperando algo semelhante ao que sucedeu em 1580. Por outro lado, os ressentimentos, mesmo se não forem espontâneos, serão artificialmente cultivados, como ainda hoje se observa em muitos brasileiros, passados quase dois séculos da independência, por sinal protagonizada pelo herdeiro do trono português. Dificuldades estas (como outras) que o Renato Epifânio não subestima decerto, embora compreensivelmente procure reduzi-las à dimensão que convém. Aliás, parece-me muito feliz a opção por valorizar tanto o caso de Timor, para quem as nossas responsabilidades são enormes.

Deixe-me só acrescentar que se Portugal, felizmente, não nasceu sobre um poço de petróleo, dispõe de excepcionais condições naturais e estratégicas que só não usa porque, como diz, não tem projecto próprio e deixou de acreditar em si mesmo (…)

Joaquim Domingues
Braga, 13 de Maio de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Duas fotos da sessão de ontem...

(Adriano Moreira, presidindo à sessão)
(Lauro Moreira, no discurso de agradecimento do Prémio Personalidade Lusófona 2009)


P.S.: Em breve, disponibilizaremos o vídeo da sessão.




O MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO é um movimento cultural e cívico que conta já com mais de dois milhares adesões, de todos os países da CPLP.
Se quiser aderir ao MIL, basta enviar um e-mail:
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MIL-COMISSÃO EXECUTIVA:António José Borges, Casimiro Ceivães, Eurico Ribeiro, José Pires F., Renato Epifânio (porta-voz) e Rui Martins.
MIL-CONSELHO CONSULTIVO:Alexandre Banhos Campo (Galiza), Amândio Silva (Portugal), Amorim Pinto (Goa), Artur Alonso Novelhe (Galiza), Carlos Frederico Costa Leite (Brasil), Carlos Vargas (Portugal), Fernando Sacramento (Portugal), Francisco José Fadul (Guiné-Bissau), Jorge Ferrão (Moçambique), Jorge da Paz Rodrigues (Portugal), José António Sequeira Carvalho (Portugal), José Jorge Peralta (Brasil), José Luís Hopffer Almada (Cabo Verde), José Manuel Barbosa (Galiza), Lúcia Helena Alves de Sá (Brasil), Luís Costa (Timor), Luísa Timóteo (Malaca), Manuel Duarte de Sousa (Angola), Miguel Real (Portugal), Miriam de Sales Oliveira (Brasil), Nuno Rebocho (Portugal), Octávio dos Santos (Portugal), Paulo Daio (São Tomé e Príncipe), Paulo Pereira (Brasil) e Vitório Rosário Cardoso (Macau).

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Para ler o resto, vai ter que esperar pelo nº 5 da NOVA ÁGUIA...



Foi do Padre António Vieira o conceito de que Deus “fez o homem para a eternidade e não para o tempo”. Mas esta conclusão da fé, que orienta no sentido de aceitar que o Deus cristão “não é uma divindade da natureza mas sim o Deus da história, assumindo-se o cristianismo como religião em que Deus se revela no tempo” (P. Calafate), fez da vida de cada ser uma experiência limitada, um tempo breve que procura articular com um tempo longo das gerações que alongam a recusa dos tempos breves, dos quais disse Santo Agostinho: “se dissera estou aqui, entre a primeira sílaba e a segunda já o estou não seria estou, nem o aqui seria o mesmo lugar, porque como tudo está passando, tudo se teria mudado”.

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