A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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quinta-feira, 1 de abril de 2021

Sobre Eduardo Lourenço, na NOVA ÁGUIA nº 27...

 

ABERTURA DE UMA VIAGEM COM PESSOA, NIETZSCHE E KIERKEGAARD” | Eduardo Lourenço & Luís de Barreiros Tavares

EDUARDO LOURENÇO, LEITOR: REVISITAÇÃO | Annabela Rita

CINCO PARÁGRAFOS EM CRESCENDO PARA O HOMEM QUE VENCEU A MORTE EM VIDA | António José Borges

A MEMÓRIA E O MAL SEGUNDO EDUARDO LOURENÇO | Carlos Nogueira

EDUARDO LOURENÇO: O ORTÓNIMO E ALGUNS DOS SEUS HETERÓNIMOS | Gabriel Magalhães

EX NIHILO NIHIL FIT | Isabel Ponce de Leão

NA MORTE DE EDUARDO LOURENÇO | José Carlos Seabra Pereira

DES-CONCERTANTE EDUARDO: LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE EDUARDO LOURENÇO | José Eduardo Reis

SAUDAÇÃO AO IRMÃO HUMANO EDUARDO LOURENÇO | Manuel Ferreira Patrício

EDUARDO LOURENÇO E O PENSAMENTO DA RELAÇÃO | Maria Graciete Besse

O LABIRINTO DA SAUDADE DE EDUARDO LOURENÇO: “UMA VIAGEM DENTRO DE NÓS MESMOS” | Maria Luísa de Castro Soares

EDUARDO LOURENÇO E A EUROPA | Miguel Real

EDUARDO LOURENÇO COMO MITO CULTURAL | Renato Epifânio


sábado, 26 de dezembro de 2020

Homenagem da NOVA ÁGUIA a Eduardo Lourenço (1923-2020)

 




A colaboração de Eduardo Lourenço na NOVA ÁGUIA não foi particularmente extensa, mas foi cirurgicamente marcante. Assim, no nº 15, da nossa Revista, em que assinalámos o centenário da Revista “Orpheu”, foi de Eduardo Lourenço o ensaio de abertura: “Orfeu ou a Poesia como Realidade”. Evocação que se estendeu ao número seguinte, com a transcrição da sua Conferência de Encerramento do “Congresso 100 – Orpheu”, em que a NOVA ÁGUIA esteve igualmente envolvida.

Nos números 18º e 20º da Revista, destacamos ainda dois ensaios seus – sobre Agostinho da Silva e António Vieira, respectivamente. Sendo que o texto mais marcante foi, decerto, uma extensa entrevista concedida a Luís de Barreiros Tavares (publicada no nº 16), depois editada em Livro, com a chancela do MIL: Movimento Internacional Lusófono (“Eduardo Lourenço em roda livre", MIL/ DG Edições, 2016, 73 páginas).

Na hora da sua partida, anunciamos que no primeiro número de 2021 iremos ter uma secção em sua Homenagem, que não será, de resto, a primeira que a NOVA ÁGUIA lhe presta – Eduardo Lourenço recebeu, como estamos ainda todos lembrados, o Prémio Vida e Obra do 1º Festival Literário TABULA RASA. Caso queira contribuir para esta Homenagem, deverá enviar-nos o seu texto até final do presente mês de Dezembro. Entretanto, publicamos aqui um texto inédito de Manuel Ferreira Patrício, a ser incluído na edição das suas “Obras Escolhidas”, que o MIL lançará ao longo do próximo ano…

SAUDAÇÃO AO IRMÃO HUMANO EDUARDO LOURENÇO[1]

 Manuel Ferreira Patrício

Portugal, cuja grandeza frustrada é uma das nossas dores mais dificilmente suportáveis, como se árvore anémica fosse, dá-nos de quando em vez um fruto de grande dimensão e envergadura, imponente aspecto, qualidade suma e delicioso sabor, que atenua a nossa insatisfação histórica. Eduardo Lourenço é um desses frutos, em que até a modéstia da sua compleição física redunda em benefício do seu esplendor espiritual. Ele é, sem dúvida, um gigante cultural do século XX português, mantendo intactas as suas qualidades na segunda década em que já vamos do século XXI. Pode olhar para trás e sorrir contente pelo que fez. Pode o sorriso persistir pelo que continua fazendo, com toda a lucidez e sabedoria. Nós também sorrimos, do mesmo contentamento, onde assoma a consciente gratidão do muito que nos deu ao longo das décadas em que pudemos beneficiar do seu companheirismo humano e da sua infatigável operosidade intelectual, de que ia brotando o ouro que escorria para as nossas consciências e a nossa alma, enriquecendo dia a dia o nosso património espiritual, aliás crítico de si mesmo.

Nós os de Évora, consideramo-lo também nosso. Pela sua amizade e camaradagem com Vergílio Ferreira, nosso evidentemente, pela nossa própria ligação de amizade e cumplicidade cívica e cultural com os seus irmãos António e Adriano, que aqui viveram e trabalharam uns anos, pela ligação à Universidade que estabelecemos com ele, pelo facto de sermos seus leitores e admiradores desde a longínqua década de 60, época em que na Livraria Nazareth ― em 67 ― pudemos adquirir (o Fernando Martinho e eu próprio, professores no Liceu) o livro Heterodoxia-II, que representou um marco de reforço no nosso itinerário intelectual e cívico. Mais tarde, nos anos 70 e 80, trabalhando na Universidade, na Divisão (hoje Departamento) de Pedagogia e Educação, investindo apaixonadamente na formação de professores para o Portugal democrático, que ansiávamos viesse a ser lidimamente livre e culto, intentámos apoiar-nos na sua bússola vital prestando a devida atenção à sua obra Labirinto da Saudade ― Psicanálise mítica do destino português ― destino que continua a fazer-nos figas, empurrando-nos, na hora que corre, mais para o psiquiatra que para o psicanalista. Hoje, a Universidade de Évora trabalha directamente na preparação da edição das Obras Completas de Eduardo Lourenço, o que é honra para todos nós.

Li há poucos dias a extraordinária entrevista que Eduardo Lourenço concedeu à Revista Letras com(n)Vida, conduzida por José Eduardo Franco, impressionando-me a atenção minuciosa e de quente inteligência fria (de sabedoria…) prestada ao momento presente da Europa, do Ocidente, do Oriente, do Mundo, todos nós com o pé no fio da espada na tentativa de nos mantermos erectos e vivos, de escaparmos. A hora de A Tentação do Ocidente, de André Malraux, já passou, a hora de A Decadência do Ocidente, de Oswaldo Spengler, também, a decadência da Europa é um facto, a decadência dos Estados Unidos da América anuncia-se por si mesma e na ascensão da antiquíssima China, que julgaríamos ter morrido e renasce. Um novo mundo vem aí. Com o olhar estóico que me parece ser o seu, Eduardo Lourenço diz serenamente o que vê, anuncia o que vai vir. Não diz, como o imperador Septímio Severo, que foi tudo e nada vale a pena. O seu olhar escatológico é outro e a mim serena-me. É talvez o olhar do seu cristianismo suave e tingido da liberdade de pensar e ser desde a casca ao cerne. Não somos nós quem vai para o futuro, é o futuro que vem para um novo presente.

Eduardo Lourenço, querido irmão humano da família de François Villon, esteja connosco para festejarmos juntos essa chegada.



[1] Maio de 2013.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Na NOVA ÁGUIA 16 | Entrevista a Eduardo Lourenço, por Luís de Barreiro Tavares


L.B.T. : O Pascoaes diz qualquer coisa crítica relativamente à questão poética no Pessoa... 

E.L. : Uma das primeiras coisas que me aconteceram foi ficar muito indignado com uma frase numa entrevista ao Pascoaes, onde a dada altura lhe perguntaram: "o que é que pensa do poeta Fernando Pessoa?" E ele respondeu: "mas ele não é poeta." Não é poeta? Eu fiquei muito indignadíssimo. Mas sei o que ele queria dizer com aquilo.

L.B.T. : O professor estava lá?

E.L. : Não, li num texto. Acho que foi n’O Primeiro de Janeiro[1]. Não sei se já o tinha conhecido naquela altura. Porque uma das coisas mais bonitas que aconteceram em Coimbra quando lá estive foi uma homenagem que nós fizemos ao Teixeira de Pascoaes. E eu pensava que ele já tinha morrido há muito tempo, se não, não mandavam livros, não é [risos]. Então, nós estudantes, fizemos uma festa muito bonita. Então ele apareceu e eu pensava que já tinha morrido há muito tempo [de novo risos]. Eu tinha lido uns versos dele quando tinha, para aí, catorze anos, nuns papéis arrancados numa revista qualquer. Era um poema de um livro famoso chamado As Sombras... "Ah se não fosse a névoa (...) // Eu não era o que sou" [do poema "Canção duma sombra" do livro As Sombras de 1907].

Há muitas coisas que são de dois poetas imensos, ele e o Pessoa. Mas dois poetas completamente diferentes. A poética do Pascoaes é uma poética romântica e mesmo hiper-romântica. A inspiração não é ele, não é? E o Fernando Pessoa trocou isso por miúdos. Faz uma análise sobre essa própria inspiração. E ele [Pascoaes] não, ele considera que tudo o que não sai da inspiração no sentido clássico do termo - propriamente do termo - não é propriamente poesia, é outra coisa. Logo que a inteligência começa a controlar isso, a coisa que é dada pelos deuses, pela musa, etc., já não é realmente a poesia. E é isso que ele queria dizer. Mas eu naquela altura não li isso assim [relativamente ao seu comentário sobre Pessoa]: Mas afinal o que é que o homem quer dizer? Fiquei-lhe com uma raiva [risos]. Só mais tarde é que eu recuperei para mim o Pascoaes, que considero um dos maiores poetas portugueses de sempre.

(excerto)


[1] “O que nós vemos das cousas são as cousas”, verso do poema XXIV de O Guardador de Rebanhos (Alberto Caeiro). Este verso citado por Pascoaes na sua última entrevista teve o seguinte comentário: “veja o poema (o poema?!) que começa ‘O que nós vemos das coisas são as coisas’… isto não é poesia nem filosofia, nem nada.” (n’ O Primeiro de Janeiro, 25 de Maio de 1950, republicada in Teixeira de Pascoaes, Ensaios de Exegese Literária e vária escrita: opúsculos e dispersos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004, pp. 249-253). Contextualizando e analisando várias perspectivas, favoráveis e desfavoráveis, de Pascoaes sobre Pessoa, leia-se, por exemplo, o artigo de Renato Epifânio intitulado «Entre “Orpheu” e a “Águia”, entre Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes» (Nova Águia 15). Também: Luís Tavares, “Escrever, descrever e sensações em Álvaro de Campos”, in Revista Nova Águia, nº14, 2º semestre, Zéfiro, 2014, pp. 152-159.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Reino Português de Lourenço e Saramago



Dimas Macedo
Poeta e Crítico Literário.
Professor da Universidade Federa do Ceará.

   Do mar português de Luís de Camões, ao tudo enquanto nada que permeia a criação literária de Fernando Pessoa, correm as águas armoriais da cultura lusa. O Barroco, no campo literário, é, possivelmente, o seu melhor tecido emblemático; e o labirinto linguístico é feito às vezes de surpresas, que ousam renovar os desvios da língua, mas o que fazem, não raro, é pagar tributos à geografia simbólica da solidão e da saudade.
   Herculano, Garret, Pascoaes, Camilo Castelo Branco e tantos outros, fiéis ao imaginário do mito português, desenharam de Portugal a tatuagem lírica, mas não de forma genial ou sutil quanto Eça de Queiroz ou Miguel Torga, ou não de jeito tão francamente existencial e filosófico quanto Guerra Junqueiro ou Antero de Quental, ascendentes maiores de Pessoa e de Vergílio Ferreira.
   Mas nenhum deles, acredito, foi tão perdidamente simbólico ou tão rispidamente cético e barroco quanto, respectivamente, Eduardo Lourenço e José Saramago, possivelmente os dois maiores escritores portugueses vivos. [em 2000].
    O que impressiona, neles, é como ambos foram tocados pelo sentimento da diáspora e como se expatriaram do território português e continuaram devendo à cultura lusa as maiores reverências possíveis. Lourenço lhe fazendo acenos de Vence, em pleno território francês; e Saramago se resignando à solidão dolorida de Las Tias, pequeno povoado da ilha Lanzarote, nas Canárias – ambos, no entanto, envolvidos até a medula com a melancolia feliz e com os signos da simbologia imperial portuguesa, que os castelos de Pessoa e a polifonia armilar dos seus brasões elevaram talvez ao plano da cosmogonia e representação universal.
     Neste sentido, como ponto de partida, parece-me ser o verso célebre de Fernando Pessoa – Minha pátria é a língua portuguesa – o coroamento de síntese inimaginavelmente icônica em qualquer cultura moderna.
     A reinvenção do barroco, na literatura de Saramago, e a Mitologia da Saudade, almejando Portugal como destino, na Heterodoxia de Eduardo Lourenço, são espaços seminais que refletem um indiscu­tível apelo saudosista.
    Podemos observar em Saramago, especialmente em um livro de crônicas de uma fase bem anterior àquela de construção do grande romancista, intitulado – A Bagagem do Viajante, uma referência expressa às “Saudades da Caverna”, onde Saramago leciona que “esta atração pelo primitivo português, que até na decoração de nossas casas ganha aspectos de ideia fixa, quase agressiva, se por um lado pode significar a continuidade, em plano diferente, de certa atração de contrários que nos caracterizou como sociedade particular, (...) há de certamente obedecer a razões menos visíveis e mais universais”.
   Essas razões a que se refere José Saramago, penso que são aquelas da tradição e do imaginário português que, segundo Eduardo Lourenço, “ousaram colocar-se no centro do mundo”, revelando assim o autor de Heterodoxia a ousadia e a erudição da eterna sensibilidade portuguesa e da sua alma tão enlevada e envolvente.
     Sem a fidelidade à língua portuguesa e sem a sua recriação através de volteios e de inigualáveis torneios barrocos, talvez Saramago jamais tivesse conseguido ser lido, e é possível também que essa língua – que é nossa e pela qual sentimos e pensamos de maneira quase solitária – jamais pudesse almejar o seu futuro Prêmio Nobel, uma vez que o passado não permitiu a Portugal os louvores do reconhecimento.
     A Bagagem do Viajante, de forma gentil e emblemática, aponta para o eterno retorno da cultura lusa. Mas sobre o seu autor cabe finalmente perguntar: o que seriam José de Sousa Saramago e a sua imaginação sediciosa? Em que consistiria o êxtase da sua grande aventura com a língua? Estas perguntas, claro, me exigem que lhes diga algo sobre o estilo saramaguiano, isto é, sobre os traços góticos e barrocos de sua escri­tura literária.
   Minhas rendas verbais, no entanto, possuem outros acentos literários e, por isto mesmo, prefiro dizer que amo Saramago pelas muitas virtudes do seu texto e pela virtuose semântica e estilística do seu universo polifônico. E que vejo em sua obra os fundamentos da cultura lusa como um todo, principalmente o memorial do convento português, que é o lócus que esconde a sua solidão de místico e de poeta, que se tornou cético em relação ao destino que não lhe permitiu pensar por intuições e metáforas, mas apenas por alusões e alegorias.
   Particularmente, do ponto de vista da linguagem, José de Sousa Saramago é um escritor enigmático. É cético, como disse, e pessimista como todo intelectual que se preza. Se tivesse enveredado pelo romance de ideias, talvez fosse hoje um ficcionista derrotado. Teve, no entanto, o dom de pesquisar a estética e estabelecer um tormentoso diálogo com a língua. E isto talvez seja tudo para sua reputação de militante político renomado.
    A excelência que permeia a luminosidade do seu texto, a extraordinária beleza de sua dicção literária, a polissemia dos sentidos e a arqueologia da existência social e individual, a consciência de estar no mundo e de ter que gravitar em meio a incompreensão e a desigualdade – configuram, com certeza, uma personalidade e uma estrutura literária maiores do que se podiam pretender.
    No mais, que se ponha em relevo, na imensa bagagem saramaguiana, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o maior, talvez, de todos os seus empreendimentos barrocos, e que se releve o Evangelho Cristão-Português de Saramago, antes mesmo que a cegueira seja uma visão a enfocar o nosso sentimento e o modo de sentir e de pensar o reino português.
   Isto pode nos levar, também, à concussão de que a mitologia do mar português de Luís de Camões tenha se esgotado talvez nos artifícios barrocos saramaguianos. Não é assim que penso, no entanto.
    O que não posso esquecer é aquilo que me ensinou Eduardo Lourenço no seu livro – Mitologia da Saudade, o seu último conjunto de escritos, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em 1999, com orelhas espantosamente saramaguianas.

     Pois bem: para Eduardo Lourenço, “na trama do imaginário português convivem: a imagem do reino cristão, o sentimento de isolamento e fragilidade, o sebastianismo e a ideia de um povo messiânico, a visão de um país – predestinadamente colonizador e oniricamente imperial”.
   Mas é a saudade, assegura Lourenço, o ícone maior da cultura que se armou em Portugal, e o elemento que alinhava todos os demais. Saudades da infância, também, ou do tudo que é nada - o lugar não dito ou não revelado na escritura de Saramago, e que se tornou, igualmente, uma obsessão em suas entrevistas, especialmente depois que assumiu a diáspora e não conseguiu esquecer Portugal como destino. A Mitologia da Saudade nele é tão intensa e tão forte quanto em Eduardo Lourenço.
  Para Saramago, Eduardo Lourenço sempre insistiu no labirinto de sua vasta obra – a obra de maior ensaísta português da atualidade – em referir-se a “um lugar de crepúsculo que se esvai como um rio entre a decepção de outrora carregada de sonho e o sonho de hoje sonhado pela memória dessa decepção”.
   E acrescenta Saramago: “nenhuma dúvida, portanto, sobre o tema central das reflexões de Eduardo Lourenço: o que sempre o ocupou e preocupou foi Portugal, um Portugal que, depois de ter inventado, como lhe cabia, os seus mitos fundadores, fantasiosos como todos são, também precisou criar o que poderá ser chamado de mitos mantenedores, cujo ofício têm sido o de sustentar e prolongar as esperanças coletivas, sucessivamente colocadas num porvir que sucessivamente se nega”.
  “Foi por este caminho que viemos desde as trovas do Bandarra ao profetismo pessoano, com passagem pela “volta” de D. Sebastião, pelas exaltações patrióticas de Vieira, pelo melancolismo saudoso de Pascoaes. Equívoco grave, porém, seria pensar-se que a reflexão de Eduardo Lourenço se gratifica em brumosas contemplações de ausências. Pelo contrário: tudo o que o autor de Nós Como Futuro escreveu até hoje obedece a uma necessidade de ver e compreender o que há por trás dos véus em que parecem esconder-se, mais do que Portugal, os portugueses”.
    Por fim, registro que A Viagem a Portugal, de José Saramago, muito mais do que A Bagagem do Viajante, a que me referi, assim como as linhas barrocas da sua arquitetura verbal e polifônica, são atestados, grandiloquentes também, de que Saramago sucumbiu ao mar português de Luís de Camões e ao sebastianismo que fez de Pessoa o Príncipe-Infante da modernidade literária.

Palestra apresenta no VI Encontro de Intelectuais e Artistas da Diáspora, realizado em Fortaleza, em junho de 2000.

domingo, 24 de maio de 2009

Amanhã e quarta, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto...

.
Raul Leal e a Tradição Cultural e Filosófica Portuguesa

25 de Maio, segunda-feira, sala 201 pelas 15h00

II - "Aspectos do pensamento filosófico de Raul Leal."

Por

Paulo Borges e Rui Lopo



FILOSOFIA E LITERATURA NA OBRA DE EDUARDO LOURENÇO -
PARADIGMAS TEÓRICOS E POSICIONAMENTO HERMENÊUTICO

por

Maria Manuel Baptista


no dia 27 de Maio, pelas 17.30h, na sala do Departamento de Filosofia
da FLUP (piso 1, torre B)

domingo, 5 de outubro de 2008

EDUARDO LOURENÇO, 85 ANOS - CONGRESSO INTERNACIONAL

Programa do Congresso
Dias 6 e 7 de Outubro de 2008, Fundação Calouste Gulbenkian

2ª feira, 6 de Outubro
Auditório 2
9h30 - Sessão de Abertura
Rui Vilar
Guilherme d’Oliveira Martins
Sua Excelência o Ministro da Cultura
Sua Excelência o Presidente da Assembleia da República

10h15– 1º Painel – Europa e História
Moderador : Rui Alarcão
Dulce Martinho
A Europa e a “excepção” francesa segundo Eduardo Lourenço
João Tiago Pedroso de Lima
Imaginar a Europa: de Sujeito a enjeu da História
José Eduardo Franco
Espelho e Mito: A ideia de Europa em Eduardo Lourenço
Mendo Castro Henriques
Eduardo Lourenço , o português sem fronteiras

11h30 – Intervalo

12h00 - 2º Painel – Divulgar Eduardo Lourenço
Moderador: José Carlos Vasconcelos
Dália Dias
Divulgar Eduardo Lourenço
Carlos Câmara Leme
O Entrevistado e o Entrevistador - Ou de como Eduardo Lourenço nos Devorou e nós o Devorámos

João Francisco Santos
Crítica e clínica em Eduardo Lourenço: uma análise didáctica do português contemporâneo
Sérgio Quaresma
O papel das elites e o (ab)uso da História na construção labiríntica da identidade nacional

13h00 – Almoço

14h30 – 3º Painel – Cultura Portuguesa
Moderador: Adriano Moreira
Carlos Leone
O exílio como cultura política portuguesa
Guilherme d’Oliveira Martins
Eduardo Lourenço herdeiro da Geração de 70 e da primeira Seara Nova
Ingemai Larsen
Dançando na corda bamba: Mito e mitologia nacional na obra de Eduardo Lourenço (ou: como Eduardo Lourenço sobreviveu o golpe mortal dos construtivistas)
Margarida Calafate Ribeiro
O Fim da Excepção Atlântica: culturas em línguas portuguesas
Paulo Borges
O Labirinto da Saudade e o Fio de Ariadne do Instante
Renato Epifânio
De José Marinho a Eduardo Lourenço, passando por Álvaro Ribeiro e Agostinho da Silva – breve reflexão sobre o nosso “atraso”.
Romana Valente Pinho
Eduardo Lourenço e a análise da ideia de Razão em António Sérgio
Victor K. Mendes
Leitura e nacionalismos em Eduardo Lourenço

16h30 – Intervalo

17h00 – 4º Painel – Literatura e Crítica Literária
Moderador: Almeida Faria
António Lobo Antunes

Ana Maria Almeida Martins
Antero de Quental e Eduardo Lourenço: textos de polémica
Annabela Rita
Eduardo Lourenço, crítico literário
Fernando Pinto do Amaral
Eduardo Lourenço - a escrita e o «claro enigma» do mundo
Maria das Graças Moreira de Sá
Eduardo Lourenço: Teixeira de Pascoaes e a Saudade
Onésimo Teotónio Almeida
O ensaio de Eduardo Lourenço: Existo, logo penso (e sinto)
Roberto Vecchi
A excepção portuguesa e a soberania do crítico: Eduardo Lourenço e o ensaio como forma do trágico

3ª feira, 7 de Outubro
Auditório 2
9h30 – 5º Painel – Teoria Politica
Moderador: António Barreto*
António Braz Teixeira
Democracia e Socialismo em Eduardo Lourenço
Luís Machado de Abreu
Nos labirintos do poder impotente
Manuela Cruzeiro *
O Pensamento Politico de Eduardo Lourenço
Miguel Real
Eduardo Lourenço e o conceito de "colonialismo orgânico"
Paulo Ferreira da Cunha
Eduardo Lourenço e o Socialismo (Democrático)

11h00 – Intervalo

11h30 – 6º Painel – Literatura e Critica Literária
Moderador: Lidia Jorge
Ana Cristina Marrucho
Um texto sobre o “Orfeu” e a “Presença” – ensaio sobre a cegueira ou a revolução do discurso crítico em Portugal
Ana Nascimento Piedade
Eça e Pessoa no Labirinto de Eduardo Lourenço
Carlos Reis
Eduardo Lourenço Queirosiano
Maria de Lourdes Soares
Encontros de confrontação que nos faltam: Eduardo Lourenço e Maria Gabriela Llansol
Patricia Sacadura
A Vida da Metáfora na escrita diarística de Eduardo Lourenço

13h00 – Almoço

14h30 – 7º Painel – Filosofia e Ensaismo
Moderador: Helder Macedo
Celeste Natário
O existencialismo: diálogo entre Eduardo Lourenço e Vergílio Ferreira
João Barrento
As pedras brancas de Eduardo Lourenço - Para uma fenomenologia do ensaio
Jorge Croce Rivera
Enigmática e Situação no pensamento de José Marinho e Eduardo Lourenço
Maria Manuel Baptista
Pela mão de Heidegger e Lacan…Ontologia e imaginário em Eduardo Lourenço
Teresa Rodrigues
Eduardo Lourenço hermeneuta do imaginário
Viriato Soromenho Marques
Representações da América no Pensamento de Eduardo Lourenço

16h30 – Intervalo


17h00 – Sessão de Encerramento:Testemunhos
Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins
Ana Costa Lopes
Fernando J.B.Martinho
Gastão Cruz
Helder Macedo
João Bénard da Costa
José Saramago
José Carlos Vasconcelos
Manuel Alegre
Maria Helena Rocha Pereira*

* a confirmar

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Saudade e Instante

"Para a radical imobilidade da nossa vertiginosa vida e para o gritante silêncio com que clama absurdamente por si mesma, onde encontraremos uma mais sensível figura que nessa Saudade em que o mesmo Pascoaes resumiu o nosso ser profundo? Enganam-se os que vêem nela apenas a disposição anímica prevalente da nossa particular existência. É só uma atenção aguda ao que ela traduz o que nos pode ser imputado. Enganam-se mais ainda os que nela denunciam a mera complacência pelo nosso pasado. A Saudade é a sensível existência humana, a si mesma incessível e próxima. Inacessível porque próxima. Como a de Teseu, a nossa circular aventura decorre num labirinto buscando o dono dele, desde sempre aí esperando-nos, mas impossível de tocar se para ele não nos encaminham os fios do amor e da esperança. São eles que nos asseguram o regresso que a Saudade significa. Nela vemos que os meandros sem fim da nossa caminhada não conseguiram expulsar-nos da terra incircunscrita do Instante. Quem encontramos é o mesmo que buscava, o labirinto é a própria busca antes que a Saudade, de súbito, a faça reverter para o lar da nossa perpétua infância. Aí vemos que o esquecimento não triunfou, que o Instante onde enraizamos corre imóvel sob o seu reflexo tornado criatura a que chamamos Tempo. A segunda vez, o re-conhecimento que a Saudade manifesta é a verdadeira primeira vez, terra de nascimento e não túmulo. Com profunda justiça foi que Pascoaes lhe chamou Criação..."
- Eduardo Lourenço, "Tempo e Poesia", in Tempo e Poesia, Lisboa, Relógio d'Água, 1987.