A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Texto de António Braz Teixeira para a NA 7


António Braz Teixeira

BREVE NOTA SOBRE A SAUDADE NO “LIVRO DO DESASSOSSEGO”

No estudo da reflexão portuguesa sobre o sentimento saudoso não tem, em geral, sido dada a devida atenção à múltipla e diversa obra pessoana, onde, no entanto, ela não deixa de ocupar lugar muito significativo e de assumir feições ou dimensões próprias, que a singularizam no quadro amplo da filosofia da saudade.

(excerto)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Pensamento Insituado - Saudade

Saudade: Ausência, Ab-s-entia, desligamento da entificação, di-stância, afastamento do estar.

domingo, 9 de maio de 2010

Texto que nos chegou...

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Saudade na Árvore

A Saudade, um dos temas caros do pensamento Português, desde literalmente há séculos que é passada pelo crivo de Filósofos e Poetas, no entanto, a verdadeira extensão do seu significado Cósmico apenas se começou a compreender com a brilhante geração de pensadores do início do século passado.
Como é óbvio este é dos tais temas que, devido à sua extensão, se poderá aprofundar infinitamente sem que nunca se chegue ao seu mistério nuclear, pois o desvendar seria desvendar a própria essência do Cosmos; a Saudade tem as suas raízes na própria base do Universo como coisa criada e existente, Saudade é pois sinónimo de existência.
Ainda assim há que continuamente perseguir este eterno vislumbre, sendo que esta foi a vez de fazer passar a Saudade pelo crivo Cabalista, usar este poderoso e magnifico sistema, em que tudo tem o seu lugar, para encontrar a Saudade e a sua função no complexo esquema Divino .

Comecemos então por uma afirmação simples: «Saudade é o desejo da Cousa ou Criatura amada, tornado dolorido pela ausência» . Esta é uma das definições, bastante afim de inúmeras outras, que ao longo do tempo, em muitos e longos livros, tem sido dada como uma aproximação da complexidade sentimental que na língua Portuguesa se chama “Saudade”.
Ainda que não se concorde com a citação acima na sua totalidade, poder-se-á concordar, como fundo de todo o estudo da Saudade, que esta emerge de algo em falta, algo que se sente como ausente. É o sentimento de algo perdido, quer tenha havido alguma coisa a se perder ou não.
Esta ideia de perda remete-nos rapidamente e sem muito esforço para algo que se poderá equacionar directamente com a noção de Queda judaico-cristã. Sendo que, na sua origem, o Homem estaria num estado de graça e proximidade com a divindade sua criadora (vulgo Deus – bendito seja o seu nome) e a brusca e violenta perda deste estado é o que o torna eternamente saudoso dessa completude e perfeição arcaicas, traduzida na expressão “Saudade de Deus”. Esta é a ideia claramente apresentado por Leonardo Coimbra, entre outros:

«O éden era a Pátria, donde o homem foi escorraçado como consequência da revolta da sua vontade contra a união amorosa com o Deus criador.
Tombado do Éden, como o anjo rebelde da presença de Deus, eis que o homem caminha, em exílio, por entre a matéria rebelde.
(…) mas a Saudade do Éden é o bendito óleo que faz arder ainda aquela luz originaria.
Tudo tombou na desordem como o primeiro pecado e os mundos seguiram suas orbitas de morte, nelas arrastando o homem, enquanto este ficou a sonhar o regresso, à luz da Saudade, que, por dentro, o esclarecia.»

E novamente, alguns séculos antes, sublimemente retratada por Camões nos seus “Sôbolos rios que vão”:

Não é, logo, a saudade
das terras onde nasceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa Cidade,
donde esta alma descendeu.
E aquela humana figura,
que cá me pode alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio da Fermosura,
que só se deve de amar.

A Saudade é então o eterno desassossego que sempre impeliu o homem em direcção ao futuro, um futuro esperançado com a lembrança de um passado idílico. É a raiz de todo o sentimento e pensamento religioso, como a força de regresso ao paraíso, um inverter da Queda, levando o Homem e a natureza, nas suas condições de criados, ou na sua dualidade, à sua original condição de unidade .

Ora, toda esta questão de Queda e retorno (ou desejo de retorno) tem logicamente uma tradução Cabalista. Esta remete-nos às noções da Árvore da Vida pré-Queda usualmente pouco abordadas na literatura da especialidade.
Aceitando então que na história do Cosmos existiram dois momentos (pré e pós Queda) em que a configuração e leis Universais eram completamente distintas, então é apenas lógico que estes dois momentos tenham que apresentar configurações diferentes da Árvore da Vida, como um mapa para o Cosmos, o Homem e a Divindade.
Esta Árvore pré-Queda será então a Árvore perfeita e esta perfeição traduz-se como uma Árvore harmoniosa e simétrica em todos os seus eixos. A notória diferença então entre esta Árvore perfeita e a que nos é apresentada hoje será o facto de que a décima Sefira, Malkuth, o Reino, o mundo material, não terá existência. Ao em vez disto, no Pilar do Equilíbrio, acima de Tiphareth, encontrar-se-á a Sefira Daath concreta e existente , contrariamente à existência “ilusória” com que se apresenta na disposição actual. Nesta configuração o Homem habitaria a Sefira Yesod, que seria uma reflexão exacta de Kether, sendo então o Homem neste estado uma imagem exacta de Deus – bendito seja o seu nome.
Daath é a Sefira que traduz a síntese de Chokmah e Binah, Sabedoria e Compreensão, que geram Conhecimento (Daath), este é o ponto em que toda a unidade do Conhecimento está contida . Assim o mito bíblico do arrancar e comer do fruto da Árvore do Conhecimento relaciona-se directamente com a Sefira Daath.
No momento da Queda, do arrancar do fruto do Conhecimento, a Sefira Daath como que caí do seu lugar para a posição que agora conhecemos como a de Malkuth e no seu antigo lugar abre-se o Abismo, uma fenda entre o Homem e os Mundos inferiores e os Divinos . A Queda representa então a queda do Homem e da natureza para a matéria, para o estado de criação separada do criador. Isto traduz o banimento do Homem do Jardim do Éden para o mundo do exílio, este Mundo que nos é hoje apresentado, Malkuth, e assim se gera a Árvore na sua configuração actual.
Se é então Daath o ponto central do desenrolar da tragédia divina, a marca do exílio do Homem, da sua Queda para Malkuth, a abertura do Abismo e a perda de comunhão com o Divino, é então aqui a génese do primeiro sentimento de falta no espírito do Homem, da lembrança da plenitude e da sua perda, o ponto de origem da Saudade portanto. A actual Daath (a Sefira “ilusória”) e o Abismo são a chaga cósmica da Queda, a eterna e dolorida lembrança, cuja existência emana para os mundos inferiores o sentimento de Saudade (podemos agora somar à frase de Pinharanda Gomes, «Assim, o Cristo seria o acto histórico em que melhor a saudade se manifestou como saudade no homem para Deus », a seguinte, «Qabalistically, the crucifixion of Jesus symbolizes how, through his death, he creates a bridge over the Abyss and thus re-unites God and man » e obter uma harmoniosa ideia de Cristologia).
Para mais, a definição da Saudade como “síntese de opostos”, tantas vezes assim apresentada por Pascoaes, vem corroborar esta posição. Sendo a posição do Abismo e de Daath, imediatamente anterior às três Séfiras Supernais (Binah, Chokmah e Kether), na sua travessia pelo adepto está então implícita a transcendência da dualidade, conceito desprovido de sentido nos Mundos Superiores. Assim a travessia do Abismo e o fim da noção de dualidade é o concretizar da Saudade divina, a transformação final do homem pela Saudade, a porta\chave para as três Sefiras superiores.
Ainda, sendo a Queda tida como uma das origens do conceito de “Mal” Cósmico, uma falta para com as leis divinas, é precisamente nesta chaga do Abismo e Daath, e também no seu resultado directo, Malkuth, o nadir da criação, onde se encontram as duas grandes portas por excelência para a Sitra Ahra, o outro lado da Árvore da Vida, os Reinos Qliphoticos. Daí que estando a Saudade precisamente no portão entre o lado luminoso e sombrio da Árvore (também entre as Sefiras Supernais e as inferiores, sendo o ponto onde todas as forças cósmicas se cruzam ), numa abordagem superficial, esta apresente dois aspectos tão distintos como a já referida tendência para o Futuro, para a Divindade, e o também conhecido e muitas vezes popularizado passadismo, inércia e decadência de uma Saudade “mal sentida”. Citando Pascoaes: «A saudade, no mais alto sentido, significa a divina tendência do português para Deus; na sua expressão decadente, patológica, representa a tendência do português para o fantasma…» . Estes são os dois aspectos da Saudade, como sentimento entreposto entre a Luz e as Trevas, Deus – bendito seja o seu nome – e o “fantasma”, a Árvore Sefirotica e a Árvore Qliphotica.

No entanto, esta interpretação da Saudade como aqui apresentada, embora lógica, poderá não corresponder a uma verdade completa. Embora no estado actual do Cosmos, “caído”, o sentimento de Saudade divina possa ser associado directamente às chagas da Queda, não se poderá excluir a hipótese de que já no Cosmos pré-Queda existisse algo que já se pudesse designar de Saudade. Ainda que na pré-Queda a criação gozasse de uma proximidade e semelhança ao divino, esta já estava criada. Significando isto que, por mais perfeita que fosse a existência, haveria já um distanciamento do original e uno divino, Kether, ou mesmo de Ain Soph. Tal é apenas um corolário da existência de uma Árvore com dez Sefiras.
Ainda que se possa supor que, no seu estado édenico, não tendo colhido da Árvore do Conhecimento (Daath), o Homem não possuísse a fome ou insistente desejo de Futuro (Saudade), especulações como a da seita dos Shabatianistas acerca da fonte do Mal podem dar azo a pensamentos contrários. Nos escritos de Nathan de Gaza sugere-se que em Ain Soph, antes do inicio da criação, existiria uma dualidade de uma luz pensante e uma luz não pensante, tendo a primeira o desejo de criação e a segunda o desejo de permanecer emersa em si mesma . Esta ideia poderá então sugerir que o Divino, ou parte do Divino, tem Saudade da sua própria unidade; unidade que foi quebrada com o primeiro instante da criação. No entanto a lógica desta especulação é, numa nota pessoal, um desafio, mas fica aqui assente a hipótese. Neste momento particular do Tempo, tais especulações nunca poderão ser mais que isso, e com tal completamente impossíveis de fundamentar. Seria necessário reverter a Queda para se verificar se no coração de Homem, ou de algo que ainda sentisse, algum sentimento Saudoso restaria.

Por fim, e estabelecendo definitivamente a Saudade como residente em Daath, várias mais implicações tomam lugar. Como já múltiplas vezes referido, a Saudade é o impulso do homem para o Divino, a “tendência para Deus”, mas isto de facto é apenas metade da verdade. Retomando as considerações de Pinharanda Gomes em torno da Saudade, encontramos desenvolvida com bastante insistência a ideia da Saudade como sentimento da singularidade . Isto faz de facto sentido na nossa perspectiva. O primeiro passo para uma transcendência do próprio é o sentimento, a noção, de singularidade e individualidade. Isto poderá parecer contraditório, mas este é o primeiro aspecto a ser desenvolvido e cultivado para a ascensão através dos mundos e das várias Séfiras, para, aquando da travessia do Abismo, ser descartado e sacrificado, marcando o fim da dualidade entre o Eu e o Outro (todo o Outro, toda a criação no fundo), o processo em que o adepto sacrifica o seu sentido de identidade terrena .
No entanto, se agora trouxermos para o campo das nossas ideias os caminhos do Diabolismo, damos de caras com algo da maior relevância. Até agora apenas considerámos a Saudade no contexto de caminhos que procuram um reverter da Queda e uma restauração da unidade original com o Divino, caminhos que apontam para o subir da Árvore em direcção à Luz. No outro lado do espectro temos os caminhos que buscam uma concretização final e aprofundamento da Queda, o caminho em direcção oposta ao Divino criador, na busca da auto-deificação. Nestes caminhos o adepto segue as forças da Sitra Ahra, uma descida na Árvore Qliphotica (isto não de facto uma obrigatoriedade, mas simplifique-se a questão para fins de argumentação), como tal, a questão da singularidade e identidade ganham uma relevância obsessiva da maior importância para o adepto, e esta fome de singularidade é ela também um processo Saudoso.
Voltando a Pinharanda Gomes, o seu desenvolvimento em torno da questão do “Emparedado Vivo” ganha aqui uma grande relevância, valendo a pena a sua leitura semi-integral:

«(…) Quando, sob a pressão da ditadura democrática mais antiga e mais moderna, ou dos totalitarismo aristocráticos e monocráticos, alguém resolvia professar como Emparedado Vivo, isso significa que esse alguém chegava a saber que a liberdade egotista corria o risco de sucumbir perante a violência do poder da alteridade. A decisão de emparedamento é uma forma de guardar a virgindade da saudade perante a presença inquisitorial da alteridade. A extrema quietude surge como o ultimo reduto em que a singularidade do mesmo se protege da diversidade do outro sublimando-se, ou degradando-se, consoante a reflexão proposta, ou na esperança salvítica, ou na morte. No entanto a razão critica do eu enquanto ele mesmo, só se revela em plenitude na liberdade autorizada, ou na autoridade liberativa, e as exigências que de fora lhe são propostas, ou impostas, afirmam-se como tentativas de assassinato – de onde a saudade, ou suidade, ao reflectir a quietude, não ter outro caminho que não seja o do extremo individualismo e, pois, o da cisão definitiva e universal relativamente a quanto surja como limitativo da sua mais funda verídica onticidade.»

Ora, se em vez dos exemplos dados por Pinharanda Gomes, transportarmos esta ideia para o reino do espiritual, e considerarmos um adepto, alguém com “fome de Deus”, que perante o próprio Divino sinta repulsa, desejando, por medo ou convicção, conservar a sua individualidade até a situação extrema, a Saudade que sente, a sua “fome da Deus”, guardando-se ao extremo (do próprio Deus – bendito seja o seu nome) toma o sentido oposto, para o «extremo individualismo e, pois, o da cisão definitiva e universal relativamente a quanto surja como limitativo da sua mais funda verídica onticidade», acabando por glorificar a rebeldia demoníaca como salvítica. Isto poderá chegar ao limite extremo, como o descrito pelo autor anónimo do Liber Niger Legionis, em que o diabolista, estendendo a sua mão esquerda ao Diabo, recebe deste a sua mão direita, levando-o a um aprofundamento do mistério do Outro, que dirige o Ser para o seu interior em devoção isolacional, um êxtase de separação do amado Divino, reflectindo o próprio auto-isolamento de Satanás, a eterna oposição. Isto gera um desejo maior que qualquer realização, a imortal dissatisfação da negação absoluta . Portanto, um aprofundar infinito da Saudade, ao invés da sua concretização.
Assim, temos que a Saudade é a fonte da busca tanto dos caminhos da Luz como das Trevas (palavra um pouco estigmatizada, pense-se antes em Luz Negra), mais uma vez sublinhando a razão da sua presença em Daath e no Abismo. Saudade, então, pode não ser de Deus, será mais correcto dizer, em vez de “Saudade de Deus”, “Saudade de Divindade”.

A compreensão destas ideias, e um estudo adequado da Árvore da Vida, revelará ao leitor interessado uma miríade de articulações e ramificações que sem dúvida o auxiliarão na compreensão de si próprio e desta nossa cultura.

José Leitão

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Texto que nos chegou...

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SAUDADE DA FILOSOFIA: A SAUDADE DÁ FILOSOFIA.

Willis Santiago Guerra Filho

Em homenagem a Pinharanda Gomes, no transcurso de seus setenta anos.

Certa vez, uma dessas enquetes que não se sabe bem como são feitas, anunciou algo de que intuitivamente desconfiamos: a palavra (galego-)portuguesa “saudade” é uma das cinco palavras mais intraduzíveis, dentre todas de todos os idiomas (!). Ora, isso nos dá o que pensar, tanto que se pode até chegar a fazer uma “filosofia da saudade”, como muitos autores, expressando-se nessa língua, de fato tentaram, quando a filosofia era algo mais almejado, desejado. E mais do que uma filosofia da saudade, houve quem falasse em “metafísica da saudade” e, até, “teologia da saudade”, à qual corresponderiam, como religião, o saudosismo sebastianista, messiânico. É o que podemos depreender da leitura da antologia feita por Dalila L. Pereira da Costa e Pinharanda Gomes, intitulada “Introdução à Saudade”. Mas para saber o que seria isso, uma vez que, saudade, os que nascemos na língua portuguesa, sabemos o que é, precisaríamos saber mais sobre o que é isso de filosofia, metafísica e teologia. Vamos lá, então. A filosofia, como indica a própria etimologia da palavra, surge, na antiga Grécia, como uma tal desejar (philein), um anelo, uma intenção (philia), que era uma nostalgia – mas não uma saudade - da sabedoria “sobrehumana”, divina (sophia), de que dispunham – ou dispuseram - os sábios (sophian), para nós perdida, e perdida já naquela época em que surgiu, pelo aparecimento das doutrinas, as mais diversas e em conflito, dos que estudavam a physis, a natureza (de todas as coisas), os “físicos” ou “fisiólogos” (de physis + logoi = “discursos sobre a natureza”). Uma das acusações contra Sócrates, no processo que os atenienses moveram contra ele – e, também, contra a filosofia, que com ele propriamente se iniciava -, foi a de ele praticar a física, sendo esta acusação a que ele repudiou com mais veemência. Já aquela, de que apregoava a substituição dos deuses oficiais, por se referir sempre ao seu daimon pessoal, foi descartada com a costumeira (e sábia) ironia, lembrando a contradição que havia entre essa acusação e uma terceira, a de que corrompia a juventuda ateniense ensinando-lhe o ateísmo...Para Platão, seu discípulo mais famoso, a filosofia seria "epistéme epistemés", "ciência da ciência", enquanto o mais célebre discípulo deste, Aristóteles, na "Metafísica" (Livro VII ou zetha, 1), a define como "epistéme ton próton arkhôn kaì aítion theoretiké", conhecimento dos primeiros princípios e causas explicativos de tudo. Comentando essa passagem, Heidegger, no texto "Que é isto, a filosofia?", recorda que epistéme deriva de epistámenos, que seria aquela pessoa vocacionada e competente para uma determinada atividade - no caso da filosofia, a atividade de teorizar, sendo a theoria o que os gregos considerariam propriamente a ciência, saber contemplativo das verdades universais, eternas e transcendentes, para além do saber mundano, habitual, a doxa, e que, no princípio do livro apenas citado de Aristóteles, é considerado um conhecimento através do qual os homens se ombreariam com os deuses, devendo, por isso, temer a inveja deles. Uma outra forma de conhecimento, mais próprio das contingências da vida, é aquele que os gregos denominavam techné, a técnica, um conhecimento operativo, instrumental e produtivo, limitado e finito, por voltado ao atendimento de finalidades específicas, mas sempre revelador de potencialidades, donde sua tradução para o latim como ars.
Então, a epistéme seria algo intermediário entre essas duas formas de conhecimento, por referir-se à atividade de conhecer a partir das necessidades de um certo tipo de explicação, isto é, não as explicações que se fazem necessárias e úteis à manutenção da vida, inclusive no convívio social e político, mas sim aquelas que, a rigor, são desnecessárias, inúteis, embora sejam elas o que desejamos, anelamos, quando nos maravilhamos, sentindo o assombro, o espanto, o thaumatzein, quando, no duplo sentido dessas palavras, negativo e positivo, nos espantamos e assombramos diante do universo ao nosso redor e em nós mesmos, o cosmos, sendo desse sentimento (pathos) que nasceria a filosofia, segundo os dois filósofos gregos citados - de certa forma os primeiros, por ter chegado até nós o registro de seu pensamento, e até hoje maiores entre todos: Platão, no seu diálogo "Teeteto" (155 d), e Aristóteles, na já citada "Metafísica” (Livro I ou alfa, 2).
Eis que se agora retornamos ao nosso princípio, percebemos que se falarmos em uma filosofia da saudade, isso seria mais para explicar a saudade aos que a sentem sem saber, por não ter uma palavra para sintetizar esse sentimento, tão grande e tão plural, a que chamamos, simplesmente, saudade. E podemos aventar a hipótese de que é um sentimento desses o que acomete a quem passar pela experiência do thaumatzein, a qual nos lança para a filosofia.
Saudade não é o desiderium, que um clássico latino definiu como libido videndi eius qui non adsist, ou seja, a vontade de ver aqueles que não estão presentes, já porque saudade sentimos muita saudade de coisas e lugares, sentimos muito saudade da terra natal, mais do que dela gostamos quando nela estamos, o que demonstra haver na saudade algo de desejo de um futuro melhor realizado do que foi o passado próximo. Saudade não é a nostalgia, que tem a língua castelhana, porque a nostalgía é a tristeza pelo que passou e não volta mais, mas isso também tem na saudade, só que ela é mais: é também uma alegria suave, por saber que o futuro poderá trazer o retorno do que se foi, ainda que sob outras formas, e nesse sentido se assemelha à Sehnsucht alemã. A saudade não nos mata, como o banzo matava os heróicos africanos, brutalmente forçados à emigração para as Américas; nós, ao contrário, matamos a saudade, ainda que por um breve instante, pois ela logo renasce, para depois ser morta novamente, por os que morrem de saudade, sem ser mortos por ela. A saudade não é a Angst depressiva, parente da agonia, que, nos lançando de cara com o nada, revela o ser a parte de todo ente, como propõe a metafísica existencial heideggeriana, tentando pensar o que ficou de fora de toda metafísica anterior, e com isso pretendendo descartar até a própria metafísica, tragada também no buraco negro do nada. A saudade do ser é serenidade, Gelassenheit: deixa o ser, ser, esperando que venha a nós, ao invés de nos precipitarmos em busca desesperada d'Ele.
Saudade pode corresponder melhor do que a qualquer outra à palavra catalã anyoransa, mas só alguém com boa vivência nas duas línguas pode julgar. Ao mesmo tempo, temos a palavra añoranza, em galego, que é nossa língua irmã (xifópaga), e ela não substitui a também galega saudade, sendo aquela mais do registro espacial, horizontal, do que temporal, vertical, como a Heimweh alemã ou o souvenir, francês - portanto, mais sofrida do que a audade, com a qual mais nos animamos do que padecemos.
A philia grega, que está na filo-sofia, não deixa de se aproximar da saudade, no que ela tem de uma perspectiva de reencontrar no futuro o que já esteve no passado - no caso, a sabedoria, considerada, a rigor, para sempre perdida, para quem, como Sócrates, se dizia filósofo, com sua costumeira ironia, por só saber que nada sabia, e ainda assim saber mais do que quem se dizia sábio, sabedor de muitas coisas, se não,de tudo, como certos sofistas, que para Sócrates não passavam de sabidos, espertos, experts, como se diz hoje em dia, ou seja, no máximo, especialistas, com a arrogância de por isso, por saberem muito de um pouco, saberem também o bastante sobre tudo. É assim que, ao invés de filosofia da saudade, metafísica da saudade, teologia da saudade, a mim parece que nos carece mais a saudade da filosofia, saudade da busca desejante de sabedoria, assumindo que ela nos falta; a saudade da metafísica, da meditação sobre o ser de tudo que é, sobre o que é ser; a saudade da teologia, do estudo, ainda que impossível, mas necessário, do que não nos deixa solitário em nosso ser, singular, inexplicado, ínfimo, precário e, ao mesmo tempo, infinito. Eis que a palavra “saudade” tem parentesco com o nome da flor sucena ou cecém, de assucena, como dizemos no nosso sertão imemorial, a Susana dos hebreus, a flor real dos latinos, assim chamada por ser a mais linda e de odor mais doce dentre todas as outras. Os trovadores medievais diziam ssuydade, vindo de soedade, passando por soidade, de sonoridade mais provençal, referindo-se ao que é de si, mais do que ao que se dá coom quem está só, como na matriz latina solitudo, donde veio por derivação, soletate, a soledad castelhana, que é nossa solidão. Antes de ser saudade, a palavra soou sódade e, em Lisboa, particularmente, soudade, como ainda hoje se pode ouvir das bocas mais ciosas da língua que aprenderam de seus antepassados, aquelas das classes populares de lugares como a eterna Bahia: há mesmo um samba-lamento, clássico, em que Clementina de Jesus canta “soudade, meu bem, soudade”. Em saudade há saúde, saudação e salvação.

domingo, 12 de julho de 2009

Da Saudade e da "Índia de miragem"

“Saudade… […] movimento pendular do coração lusíada entre a pátria e todas as Índias que se atingem e aquela Índia de miragem, que não é nenhuma destas e sempre se procura e deseja, quando estas se nos deparam; incessante movimento do coração do homem entre as terras e os céus visíveis e um Céu e uma Terra que apenas se pressentem na misteriosa polarização de toda a nossa alma”

– Leonardo Coimbra, “Sobre a Saudade”, in Dispersos. III - Filosofia e Metafísica, compilação, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel, nota preliminar de Francisco da Gama Caeiro, Lisboa, Editorial Verbo, 1988, pp.137-138.

sábado, 30 de maio de 2009

Cioran: Música, êxtase e saudade

"S.J.: Em resumo, a música confronta-nos com este paradoxo: a eternidade entrevista no tempo.
C.: É com efeito o absoluto captado no tempo, mas incapaz de aí permanecer, um contacto simultaneamente supremo e fugitivo. Para que permanecesse, seria necessária uma emoção musical ininterrupta. A fragilidade do êxtase místico é idêntica. Nos dois casos o mesmo sentimento de incompletude, acompanhado por uma mágoa dilacerante, por uma nostalgia sem limites.

S.J.: Esta nostalgia é precisamente o fundamento da vossa visão do mundo. Como a definiríeis?
C.: Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”

- Cioran, Entretien avec Sylvie Jaudeau, Entretiens, Paris, Gallimard, 1999, p.230.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Saudade, Espelho Eterno: Presente de Deus

«ó gente humana, nascida para voar ao Paraíso, porque deixar-se abater por um ténue sopro de vento*? [Anjo no Purgatório: *desejo de glória (i)mundana]

(...) os bem-aventurados, contemplam todos Deus, que é o Espelho, em que se revela o teu pensamento ainda antes de o conceber.

Nos bem-aventurados o sentimento e a inteligência são de igual valor (...) pois que Deus iluminou com a luz da sua sapiência e com o calor do seu amor, nada é comparável a esta igualdade.»
Dante, Divina Comédia

«Pela Lembrança conhecemos o que fomos e pelo Desejo pressentimos o Futuro.»
Teixeira de Pascoaes

Saudade, Ponte entre Passado e Futuro: Presente de Deus, a Fonte.

«Vemos a imagem reflectida, mas não o espelho que a reflecte.»
Teixeira de Pascoaes, O Bailado

Vemos a Ponte mas não a Fonte... pois a Ponte é a Fonte, que para Si mesma caminha.

«Dois espelhos se confrontam mudos:
entre eles nós dois nos interpomos.
Alguém sabe quem somos? Simples nomes
ou reflexos falantes de um espelho?

Vem vindo oh vem vindo a estrela d'alva
olhando serena o espelho que se acalma.

a pomba vem e desata
o saber genuíno
do coração.

Ama por amar»
Dora Ferreira da Silva, Poemas da Estrangeira




«A Saudade, que nos mostra a Ausência dolorosa, cria a Presença radiosa... Mostra-nos o vácuo infinito, para o povoar de infinitas almas.»
Teixeira de Pascoaes

O Homem é Filho de sua Filha Ideia.
Para que haja o Filho é necessário que haja o Pai,
mas para que haja o Pai é necessário outro Pai:
que o Pai seja Filho de seu Filho.
Que todo o Homem seja Pai e Filho em simultâneo,
pelo Espírito Santo,
pelo Espelho da Alma do Amor,
pela Estrela d'Alva do Sol.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Nau Nossa Senhora da Vida II

«Porque nesse tempo antigo da Grécia, se teria jugulado lentamente o mito, - até à sua exaustão, pelos romanos. E aqui [em Portugal], ele renasceria de novo, vivo, noutra vida, então agora unido à razão.

Aqui na Península [Ibérica], o Oriente e o Ocidente, a pré-história e a história, o mito e a razão, como coincidência de coordenadas de espaço, tempo e pensamento, no homem e na terra, se unirão no exacto ponto e momento de 1500. No ano de Pedro Álvares Cabral: esse será o sentido dessa falha ou união entre dois séculos; a descoberta do Brasil foi o fechar do círculo, conclusão do novo mar.

E só unindo saber e terra se pode compreender a forma de conhecimento que nasceu nesta civilização e por ela foi ofertada ao mundo e com ele partilhada. Porque tudo se fez, pelos homens, em união com a Terra.
E agora, um meio milénio passado, num mar agora ultrapassado, transfigurado, o do espírito, ou pelo espírito, ou mar interior, novo feito de novos argonautas, se avizinhará, urgirá avizinhar-se: como penetração e desvendamento e desenho nesse outro mar de suas costas e limites e baías as mais profundas e vaus e linhas de orientação: como repetição do primeiro passo de toda a iniciação, e retomar do apelo de Sócrates, ou de mais atrás, do deus da luz, o que estava escrito ao alto no seu templo de Delfos: «Conhece-te a ti mesmo.» De novo trazendo para as costas atlânticas o princípio regenerador do humanismo mediterrâneo.
Será este o feito futuro, renovado, da nova descoberta. Para novo ciclo histórico da pátria lusíada e do Ocidente.

Vês agora a união da saudade com a água? Com a água e com a morte. Bernardim Ribeiro sabia. Era esse o segredo cantado no canto do rouxinol sobre a corrente.

(...) baptismo na água.

Mas agora outra vinda dos Descobrimentos se fará para os homens e para a Terra num homem e numa terra transcendentes, transfigurados, porque na vinda, baptismo no fogo, do Espírito Santo.
O espaço agora a conquistar será o transcendente interior, seu.
E agora pelo homem pelo Cristo novo, na sua Segunda Vinda, tudo passará de terrestre ao cósmico, transcendente.
Para a nova eleição e serviço duma nação, urge pela primeira vez atentar na sua posição no espaço da terra, por uma geografia sagrada. E na sua vinda no tempo, por uma história que nela também se veja de sentido sagrado. Ver aí a sua eleição e serviço, na intercepção do tempo e do espaço. Porque tudo se fará por uma nova visão de tudo que está dada mostrada já.
Seis séculos após, a verdade dos Descobrimentos se abrirá, se libertará. Como seis décadas após, Portugal se libertou do jugo castelhano. E após outras seis décadas, o anúncio da verdade pela Renascença Portuguesa, virá por fim à luz. Como germinações e eclosões de sementes escondidas.
E também então se revelará a verdade da saudade.

Saudade é a polpa do eu eterno.

Porque a saudade não é conclusa em si, mas seu sentido está no seu ultrapassar. Saudade é tempo de gestação.

E a terra finalmente como Virgem, subirá em Assunção ao céu.

E ver que união, como fusão final de fogo e água, se teria dado aqui nestas margens peninsulares: pelo afundamento do disco rubro do Sol, nas águas de Posídon, como fusão do deus dos povos da velha Atlântida e de Apolo o deus dos povos da Grécia (...).

A terra finalmente unida ao céu, ou Apolo a Gaia, ou a Serpente ao Sol, em enlace último, como promessa dum novo mundo, a nascer.

O ser saudoso é o ser livre na necessidade, o ser da eternidade no tempo. O que traz para a lei da terra a lei do céu. Ou a eternidade para o devir.

Porque a poesia terá a mesma origem que a profecia: as Musas são filhas da Memória.

E assim ao discurso se substituirá essa supra-razão e a unidade do paraíso de novo será atingida.

(...) só, aí, na brancura cintilante e doce (a tal inefável), do seu seio último. Semente do fruto. Trono do mundo. Coração do homem.

A saudade é o segredo de Apolo.»
Dalila Pereira da Costa, A Nova Atlântida

«(...) a força da Saudade, criando vida e afogando o sol nas suas lágrimas (...)»
Teixeira de Pascoaes



(Maria Bethânia e Gal Costa)



«Roubam-me Deus
Outros o diabo
Quem cantarei

Roubam-me a Pátria
e a humanidade
outros ma roubam
Quem cantarei

(...)
E de mim mesmo
Todos me roubam


Quem cantarei
Quem cantarei

Roubam-me a voz
quando me calo
ou o silêncio
mesmo se falo

Aqui d'El Rei»

D'El Rei... Amor!

domingo, 22 de março de 2009

O Estrangeiro

"O estrangeiro é o que vem de outro lado e não é daqui. Para aqueles que são daqui, é pois o estranho, o inabitual e o incompreensível; mas o seu mundo, esse, é também completamente incompreensível para o estrangeiro que vem habitar aqui; é como uma terra estranha onde ele se encontra longe do seu país. Suporta então o destino do imigrado; é isolado, não é protegido, não é compreendido e não compreende, tudo isto numa situação plena de perigo. Angústia e saudade da pátria fazem parte da sua sorte"

- Hans Jonas, La Religion Gnostique, Paris, Flammarion, 1978, p.73.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Academia Campista de Letras realiza"...em trilhas da saudade!"


ACL faz homenagem a escritores

A Academia Campista de Letras realiza na próxima segunda, 23, o evento “...em trilhas da saudade!” para abrir os trabalhos de 2009. Será às 18h30, na sede da entidade, no Jardim São Benedito em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro- Brasil. Haverá apresentação de orquestra e homenagens aos acadêmicos Waldir Pinto de Carvalho, Álano Barcelos, Antônio Roberto Fernandes e Wilson Paes, que morreram entre 2007 e janeiro de 2009. Também será declarada aberta uma vaga na academia.

Informação do Blog Urgente

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Da Saudade

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A orientação filosófica de um povo reflecte e faz parte essencial da sua identidade, ainda que obviamente a reflexão filosófica apenas a alguns homens possa despertar, seja ela mais ou menos marcante, mais ou menos considerada, por aqueles que elaboram as Histórias da Filosofia. Se os grandes modelos e os grandes exemplos de orientações filosóficas vêm sobretudo da Alemanha, da França e da Inglaterra, o mesmo não invalida que a reflexão filosófica não aconteça noutros países, mesmo que a possamos ignorar pelas mais diversas razões. Como cultores da filosofia, é do interesse vital o estudo e conhecimento da Filosofia em Portugal, e, quiçá, de uma “filosofia portuguesa” como uma filosofia da saudade ontológica, simultaneamente religiosa e metafísica, pela especificidade que advém da cultura de um povo situado no mundo “onde a terra acaba e o mar começa”, por mais anti-filosófico que esse mesmo povo se possa apresentar.
As características próprias e intrínsecas de uma cultura em si considerada configuram depois o pensamento que se gera no seio dessa mesma cultura, não porque a actividade pensante tenha que acontecer ou se desencadeie por causa da cultura, mas porque esta é o solo no qual ela se pode enraizar e encontrar o seu alimento. Desde logo, uma língua, sem a qual nenhum pensamento se pode erguer.
É o pensamento, a reflexão filosófica que em Portugal ao longo dos tempos se foi desenvolvendo, além da iniludível dimensão filosofante do humano, uma consequência de um determinado modo de ser e estar, em que, entre outras, as características de natureza geográfica e de natureza religiosa assumem decisivo relevo.
Junto ao Atlântico e próximo da entrada do Mediterrâneo, entre a Europa e a África, entre a Europa e as Américas, na zona temperada do Norte, vizinhos da zona tórrida, a cultura portuguesa vai emergindo entre a errância, a itinerância de um povo que para lá da terra, tem o e o céu. Terra, Mar e Céu são, pois, os elementos a partir dos quais podemos em certa medida reflectir no sentido de encontrar algumas explicações fundamentais, tanto na ordem cultural como filosoficamente. Uma certa indefinição e consequente desassossego repartido entre o infinito e o finito, o que somos e não somos, traduzem em grande parte o nosso mais íntimo ser, as nossas inquietações e aspirações mais profundas, com as inevitáveis repercussões, nomeadamente de natureza especulativa, que a nossa filosofia apresenta.
Algumas “teorias da esperança”, onde podemos encontrar significativo contributo para a compreensão do perfil espiritual dos portugueses surgem assim mais compreensíveis no contexto geral. Pode dizer-se que não só para o Messianismo, Sebastianismo e Saudosismo, como até para a questão do Quinto Império, que, sobretudo a partir de Padre António Vieira, ganha maior importância, com o messianismo formulado nas Sagradas Escrituras relativo ao Messias Salvador, assim como com a ideia de pecado original, mal e, obviamente, com a ideia de Deus e de morte, pontos matriciais de forte influência não só para estas “teorias da esperança”, como também ideias-noções nucleares das problemáticas fundamentais de grande parte dos filósofos portugueses, intitulem-se eles deístas, agnósticos ou ateus.
Esperança em algo ou nalgum redentor de uma humanidade considerada degradada, quedada ou perdida, seja porque caiu da sua condição original, porque cometeu pecado, porque perdeu a sua natureza sagrada, a sua felicidade, bondade, verdade, sabedoria e até identidade (política ou outra), a cultura portuguesa e a seu modo a filosofia em Portugal está fortemente ligada a estas dimensões da esperança, podendo também traduzir-se a seu modo como dimensões da Saudade.
Será também de referir a tendência de alguns pensadores portugueses que se voltaram para o estrangeiro – daí o nome de “estrangeirados”, como vieram a ser designados a partir do séc. XVIII (como é o caso de Verney) –, procurando adaptar alguns paradigmas apreendidos lá fora à realidade portuguesa (“reino cadaveroso”), ou, noutros casos, pretendendo mesmo moldá-la.Não pretendendo identificar Filosofia e Cultura, ou reduzir a “Filosofia em Portugal” à “Filosofia da Cultura Portuguesa”, no caso português, como noutros, é importante que, para uma melhor compreensão do nosso pensamento filosófico, tenhamos em consideração aquelas que poderão ser as marcas mais relevantes da nossa Cultura. Daí a matriz da nossa filosofia: uma filosofia muito radicada no sentimento, em particular na Saudade.

Maria Celeste Natário

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

"Minha Pátria é Minha Língua"


“Se você tem uma idéia incrível…

…É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão” ‘Caetano Veloso’ - música : Língua

Se Caetano fala só ser possível filosofar na língua germânica, fico pensando-sentindo o quanto é bom sonhar em português, fazer poesia em nossa língua,amar nesse idioma.

Essa reflexão veio quando ouvia a música do Stevie Wonder - I Just Call To Say I Love You na maravilhosa versão do Gilberto Gil. Um dos mais belos trechos é justamente a que fala de saudade, essa palavra que nos é tão cara:

“Quando a saudade vem não tem explicação...”

Algumas canções, ouvimos durante anos sem parar para senti-las. Com essa aconteceu assim, como ando mais musical, mais sensível às letras e melodias (durante anos ouvir música “me irritava”) ouvi com outros ouvidos e só então me dei conta da beleza da versão do Gil, em minha opinião muito superior à original graças ao seu talento para compor e da grande ferramenta que tem em mãos: A Língua Portuguesa.

Parece abstração ficar comparando esteticamente um idioma com outro e nem é sobre isso que estou escrevendo, mas sobre como a letra da canção me tocou. Abaixo dois links,para a letra e para um vídeo do Gil.

http://letras.terra.com.br/gilberto-gil/46245/

http://www.youtube.com/watch?v=EMSlEatQQGs





sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Da Saudade como Via de Libertação



Este livro versa sobre um dos temas mais característicos da cultura galaico-portuguesa e lusófona, apresentando uma nova filosofia da saudade como a memória e desejo que em todos os seres há da sua natureza primordial, o infinito, desvelada nas experiências mais gratificantes da vida. A sua novidade, além da reflexão aprofundada sobre a etimologia e a semântica da palavra, além de explorar a relação entre a saudade e as possibilidades da consciência e da existência, reside em assumir-se ponto de partida de uma via de libertação e transformação efectiva de si e do mundo, a percorrer mediante um exercício ético-meditativo e uma linha de acção concreta.
Recria-se assim a tradição galaico-portuguesa e lusófona da saudade, mostrando toda a sua universalidade. Na mesma medida em que transcende o universo linguístico e cultural onde radica, a saudade, aspecto fundamental do ser divino, humano e cósmico, revela simultaneamente, pela riqueza e singularidade da sua evolução semântica do latim para o galaico-português, toda a potencialidade deste para devir matriz de uma profunda visão filosófica da natureza primordial, da existência universal e da possibilidade de um despertar libertador. Por via da saudade, a filosofia regressa às suas origens: não mera busca intelectual e conceptual do saber, mas uma arte e um modo integral de vida.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A Metafísica do Amor


O fim. O inicio.

Acabou o meu verão. Acabaram as férias (de infância). Não por este ano mas para o resto desta vida. Fui há duas semanas a casa da minha avó. Chorei ao abrir a porta da despensa. E comparar o que vi com a imagem que tenho no meu computador. Os tachos continuavam reluzentes, mas faltava vida a tudo. Sentia-se uma aridez, um frio tremendo. Como se com a morte dela tudo aquilo em que ela tocava normalmente se tivesse resignado, deixado estagnar. A embaciar de dor.
Nada diz mais que uma pessoa morreu do que abrir, escancarar os móveis que dantes se abriam, devagarinho, sem fazer barulho e para onde se espreitava com a curiosidade ingénua das crianças. Separar posses. Distribui-las por sacos plásticos. Virar gavetas do avesso. Desmembrar guarda-fatos...
Sempre senti aquela casa como se fosse parte de mim. Conheço-a de cor. Cada rebordo, cada canto, cada esquina.
Lembro-me daquelas noites quentes de Verão (sim, quando era criança o verão ainda era quente) em que o vento sapateava pela rua do Pedaço acima e se lembrava de entrar pelos postigos da sala. Fazia rodopiar as cortinas que lançavam sombras longas pela casa. Irremediavelmente levantava-me, ia espreitar o silêncio da rua, sorver o calor do vento. E fingia ser tudo entre sala e quarto. Princesa, heroína, meretriz, mártir, feliz, infeliz.
Acordar de manhã com os barulhos do Pedaço. A mota do vizinho. A padeira. Os pregões da peixeira. O barulho da cafeiteira para aquecer o leite a pousar nos bicos do fogão. Aquele fogão pequeno entre o borralho gigante e a chaminé imensa. O cheiro da pomada e spray para os ossos. Aquele cheiro de limpeza absoluta e carinhosa que se lançava de cada superficie. As vizinhas a abrirem o portão, a passarem pelo pátio e a entrarem: "Precisas disto? Vou ali ao mercado e..". "E a menina?" "A menina está a dormir."
E a menina já tinha acordado. E voltado a adormecer. E escutava deliciada as conversas da rua.
Sempre me fascinou a vida assim. Toda a gente nos conhecer. Ver-nos crescer. Alternar entre beijinho na bochecha e festinhas no cabelo. A amizade. O companheirismo. Se uma vizinha estava doente, as outras faziam fila à porta dela para se oferecerem para toda e qualquer tarefa. Sempre me fascinou a troca de pratos de arroz doce em dias assinalados. A broa de abóbora.
As tuas amigas, colegas de carteira e de porta fazem parte do meu imaginário de infância também. A senhora Maria Pinta e a sua casa sempre branca com debruns verde forte. A Rosa Rebola e os suspiros, sequilhos e fusis. A Gilda, com o rádio eternamente ligado. A senhora Leonilde e o senhor Joaquim, que sempre me pareceram, desde pequena, um casal de gnomos bondosos. E tantos, tantos outros.
Lembras-te daquele senhor capitão baixinho, que andava sempre de boina e tinha uns olhos mais azuis do que quaisquer que vi até agora? Como ele fingia que me vinha fazer cócegas quando eu estava ao portão para eu correr para dentro a gritar e a rir ao mesmo tempo? Não me recorda o nome dele...como era, vó?
Nunca soubeste que eu tinha um fraquinho pelo Nélson. Esse da casa em frente. Que o ouvia virar para a rua, à noite, à distância, e me ia pespegar ao postigo para não perder um instante. O barulho da chave na porta. O ranger da porta no soalho. O arrastar. clac clac. A luz do quarto que se filtrava pela persiana permanentemente (mal) fechada. Esperava mais 5 minutos até a calma regressar. Às vezes sentava-me ainda por breves momentos, a apreciar o silêncio. Só quebrado pelo relógio da cozinha (que se ouvia em toda a casa) que agora marca incessantemente as horas aqui ao meu lado.
Lembro-me dos cheiros todos. Do refogado que atravessava o pátio e vinha ao meu encontro mal abria o portão vinda de qualquer recado. Da sopa de feijão inchado. Do arroz doce. Da pá do leite creme a queimar o açúcar e a canela. Do Omo que gostavas de usar para lavar a louça, até a minha mãe te convencer do virtuosismo do SuperPop Limão. Do louro pendurado no fio do pátio. Do café levezinho da tarde. Dos cachorros que fazias com pão, manteiga quente e salsicha.
Cheirava tudo...cheirava tudo a amor. A emoção.
Já te disse que tudo ganhava vida nas tuas mãos? Não só as panelas que tanto areavas. Tudo. A renda. A roupa presa a secar. Tudo...Até as andorinhas voltavam todos os anos para o teu pátio não para te chatearem, mas porque gostavam de ti. Nunca te disse esta, pois não avó?
Senti, naquela tarde de segunda-feira, que se me acabava o verão. Não há mais rádio da Gilda, o Nélson (casado e com filhos) há anos que já não mora ali, longe vão os suspiros e cada vez mais raros são os pratos de arroz doce. As faixas verdes da casa da senhora Maria desbotaram. Está para venda. O senhor capitão....ainda eu era pequena e ele já tinha morrido. Não morrem os olhos azuis na minha memória.
Já não há histórias de antigamente. Já não ouço as anedotas do teu café. Quem é que tinhas atado ao pé da mesa ao certo? :) Já não ouço as vizinhas a perguntarem se precisas de algo nem o toque da padeira. Já não vou aparar o pão há séculos. A minha mãe tem alguns dos sacos de pão lá em casa. Aqui soa o relógio, vela a tua mantinha e estendem-se as passadeiras.
O meu verão morreu. Já te tinha dito? Não importa que não o passasse aí em casa nos últimos anos. Não interessa que, ultimamente, nem tu lá estivesses. O meu verão, a minha infância, era, e sempre foi, aquela casa, os sons, os cheiros, os sabores, e tu.
Morreste avó...mas juro que te vi sorrir na foto em que preguei os olhos a caminho do cemitério. Eu e as minhas primas com as chaves na mão. Não queria ir, sabes...
Quando me despedi de ti apertei-te a mão e ela estava quentinha e macia. Como sempre. Desde que sou gente lembro-me sempre de ti assim, vó.
Nunca te cheguei a dizer que te amava pois não? Nunca o ouviste? Mas sabia-lo.
Nem acredito que o meu verão acabou (assim)...
Brida, http://www.maosvazias.blogspot.com/
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Chega um momento da nossa vida em que o Verão tem que ser segregado de dentro do nosso coração. É um testemunho que nos é passado por quem teve a Graça de nos instaurar como os destinatários do Verão.
Não será por acaso que o nosso ascendente, quase sempre, é o signo solar de um dos nossos avós. O acaso é um dos sortilégios do Verão.
E faz parte do assumirmos a nossa herança solar vivermos a partida de quem na nossa vida se repartiu, se deu a comer e a beber, nessa eucaristia dos afectos e das presenças, nessa entrega totalmente grácil.
E não encontro palavras para te dizer o quanto partilho da tua dor. Prefiro dizer-te do Amor e de como nunca o perdemos, de como ele nos eleva e nos torna aráveis e fecundos. Aí assoma sempre o futuro, levedado, alvo, irrevogável e sempre resguardado dos nossos medos.
Temos, pois, que deixar partir quem parte em direcção à fonte suprema do tempo, lá onde as águas são sempre puras e as almas assumem a verdade da memória e do esquecimento. Deixar partir quem já não é nosso porque nos deixou tudo. E é com esse infinito que temos que alimentar os que nos chegam. Também nós partiremos e só levaremos o que não é nosso, o Amor, essa chama que nos aproxima, por vezes sem sabermos porquê, de seres com uma vibração igual.
E vale a pena vivermos a entrega plena ao Amor. Mesmo quando a dor nos parece insuportável. Mesmo quando ficamos rasgados por dentro e deixamos de nos saber. É preferível isso do que acreditarmos na morte ou no medo, ou na vida sem errância e sem entrega.
E assim, também, nos desfazemos e nos podemos tornar incompreendidos. Mas essa incompreensão prepara-nos para o Verão. É ela que faz regressar as aves do eterno que navegam os ares na demanda do Sul.
E, então, o Amor ilumina-nos por dentro, de dentro, bem de fora de nós e do tempo em que não nos sonhamos. Essa a nossa grandeza. Por isso há encontros que iluminam a nossa vida, mesmo que nos sintamos obscurecidos pela intensidade da luz que nos chama para um novo Verão. É esse que nos consumirá e nos conduzirá à saudade dos que ficarão.
Partir não é, então, uma traição, nem ao Amor, nem a nós, nem à vida. É uma precisão que nunca entenderemos. Porque agora não somos isto que, camada, sobre camada, encapsula o Vivo Amor de que somos a expressão, essa luz claríssima que nenhuma gramática enclausura, que nenhum desejo dissipa, que nenhum discurso alcança. Por isso, em verdade, nunca partimos, repartimo-nos mas não nos partimos. E não há distância se aprendermos a recolher-nos no Amor.
Por isso Agostinho da Silva tem razão quando diz que amar é fazermo-nos ao mar. E fazermo-nos ao mar é tornarmo-nos embarcadiços. E isso é sonharmos com a Ilha, mesmo que não saibamos como aportar nela. É que os encontros decisivos não podem ser forçados e o maior dom que podemos conceder aos que amamos é a soltura. Só isso os poderá resgatar do medo e da morte. Mas devemos viver isto sem desistência. Sempre sem desistência.
Como a brisa da manhã, logo extinta mal damos conta dela, assim também o hálito dos que nos afagam se extingue, marca da suprema entrega, sinal do que em nós nos sagra mais do que a vida.
Que o Amor se cumpra então, hoje e sempre, nas nossas vidas, marcadas pela brevidade e pela festa de nos sabermos unidos por um mesmo fogo, inextinguível, total, absoluto e absolutivo.