Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
segunda-feira, 22 de junho de 2020
segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
quinta-feira, 24 de maio de 2018
24-26 de Maio, VI Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade...
24 de Maio
Xuventude
de Galicia: Centro Galego de Lisboa
14h00: Painel I
António Braz Teixeira | EXPRESSÃO E
SENTIDO DA SAUDADE NA POESIA ANGOLANA E MOÇAMBICANA DA GERAÇÃO DE 1985
Duarte Drumond Braga | A SAUDADE EM
GOA
Paulo Borges | SUYDADE: EXPERIÊNCIA DO
SI ABYSSAL
15h30: Painel II
Joaquim Pinto | A SAUDADE COMO
PROTENSÃO DOS ACTOS TOTAIS OU SUPERVIVÊNCIA DE EXPERIÊNCIAS SAGRADAS
Manuel Curado | A MEDICALIZAÇÃO DA
SAUDADE EM JOSÉ FELICIANO DE CASTILHO (1810-1879)
Rui Lopo | WENCESLAU DE MORAES: A RELIGIÃO DA SAUDADE
17h00: Painel III
Miguel
Real | A SAUDADE EM PEDRO MARTINS E RODRIGO SOBRAL CUNHA
Pedro
Martins | A FENOMENOLOGIA DA SAUDADE EM ANTÓNIO TELMO
Rodrigo
Sobral Cunha | A LUA E A SAUDADE
25 de Maio
Centro Regional
do Porto da Universidade Católica Portuguesa : Sala de Executivos
09h00: Painel IV
Jorge Teixeira da Cunha | A
UNIVERSALIZAÇÃO DO TEMA DA SAUDADE NO PENSAMENTO DE ANDRÉS TORRES QUEIRUGA
José Pedro Angélico | RADICAÇÃO E
FRONTEIRA, O ESTATUTO PRÉ-ONTOLÓGICO DA SAUDADE: APROXIMAÇÃO TEOLÓGICA À
FILOSOFIA DA SAUDADE EM ANDRÉS TORRES QUEIRUGA
Nuno Ornelas Martins | O SAUDOSISMO E A ECONOMIA: O
DEBATE ENTRE TEIXEIRA DE PASCOAES E ANTÓNIO SÉRGIO
10h30: Painel V
Joaquim Domingues | NOSSA SENHORA DAS SAUDADES
José Almeida | SAUDOSISMO E
MESSIANISMO: ASPECTOS DO MITO EM FERNANDO PESSOA
Lígia Rocha | LIMA DE FREITAS:
TRADIÇÃO E MODERNIDADE - QUERELAS SOBRE A SAUDADE
12h00: Painel VI
Alexandre Teixeira Mendes | DO EXÍLIO
DA PALAVRA E DA PRONUNCIAÇÃO QUE NÃO CESSA; O ENTRE-DITO DA SAUDADE
Maria Dovigo | ERNESTO GUERRA DA CAL:
EXÍLIO E SAUDADE
Pedro Jacob Morais | OUTRAS SAUDADES:
UMA APROXIMAÇÃO À OBRA DE TERRENCE MALICK
Colexio
Apóstol Santiago - Xesuítas (Vigo)
18h00: Painel VII
Fernando Ponte | A SAUDADE NO
PENSAMENTO E NA OBRA DE D. ROBERTO NOVOA SANTOS
Manuel Cândido Pimentel | A FENOMENOLOGIA DA SAUDADE
Miguel Ángel Martínez Quintanar |
SAUDADE: ENTRE FENÓMENO E ACONTECEMENTO
Samuel Dimas | A SAUDADE DO PARAÍSO FUTURO
26 de Maio
Colexio
Apóstol Santiago - Xesuítas (Vigo)
09h00: Painel VIII
Luís G. Soto | SOBRE ANDRÉS TORRES QUEIRUGA E A SAUDADE
Marcelino Agís Villaverde | FILOSOFÍA
E SAUDADE: A PROPÓSITO DE ANDRÉS TORRES QUEIRUGA
Renato Epifânio | REPENSANDO O
ATEÍSMO: ENTRE ANDRÉS TORRES QUEIRUGA E JOSÉ MARINHO
Rocío Carolo Tosar | O CARACTER
ONTOLÓXICO DA SAUDADE: RAMÓN PIÑEIRO E ANDRÉS TORRES QUEIRUGA
11h00: Intervenção de Andrés Torres
Queiruga
11h30: Apresentação de Sobre a Saudade: V Colóquio Luso-Galaico &
Revista NOVA ÁGUIA nº 21
12h00: Encerramento do Colóquio
Organização: Instituto de Filosofia Luso-Brasileira | Instituto
de Filosofia da Universidade do Porto (RG “Raízes e Horizontes da Filosofia e
da Cultura em Portugal”) | Centro Português de Vigo | Universidade de Santiago
de Compostela (Facultade de Filosofía: Departamento de Filosofía e Antropoloxía) | Universidade Católica Portuguesa
(CEFi: Centro de Estudos de Filosofia – Porto) | MIL: Movimento Internacional
Lusófono | Revista NOVA ÁGUIA
quarta-feira, 8 de junho de 2016
7-9 Junho | V COLÓQUIO LUSO-GALAICO SOBRE A SAUDADE
Para mais informações:
sexta-feira, 17 de maio de 2013
quinta-feira, 12 de julho de 2012
domingo, 9 de maio de 2010
Texto que nos chegou...
Saudade na Árvore
A Saudade, um dos temas caros do pensamento Português, desde literalmente há séculos que é passada pelo crivo de Filósofos e Poetas, no entanto, a verdadeira extensão do seu significado Cósmico apenas se começou a compreender com a brilhante geração de pensadores do início do século passado.
Como é óbvio este é dos tais temas que, devido à sua extensão, se poderá aprofundar infinitamente sem que nunca se chegue ao seu mistério nuclear, pois o desvendar seria desvendar a própria essência do Cosmos; a Saudade tem as suas raízes na própria base do Universo como coisa criada e existente, Saudade é pois sinónimo de existência.
Ainda assim há que continuamente perseguir este eterno vislumbre, sendo que esta foi a vez de fazer passar a Saudade pelo crivo Cabalista, usar este poderoso e magnifico sistema, em que tudo tem o seu lugar, para encontrar a Saudade e a sua função no complexo esquema Divino .
Comecemos então por uma afirmação simples: «Saudade é o desejo da Cousa ou Criatura amada, tornado dolorido pela ausência» . Esta é uma das definições, bastante afim de inúmeras outras, que ao longo do tempo, em muitos e longos livros, tem sido dada como uma aproximação da complexidade sentimental que na língua Portuguesa se chama “Saudade”.
Ainda que não se concorde com a citação acima na sua totalidade, poder-se-á concordar, como fundo de todo o estudo da Saudade, que esta emerge de algo em falta, algo que se sente como ausente. É o sentimento de algo perdido, quer tenha havido alguma coisa a se perder ou não.
Esta ideia de perda remete-nos rapidamente e sem muito esforço para algo que se poderá equacionar directamente com a noção de Queda judaico-cristã. Sendo que, na sua origem, o Homem estaria num estado de graça e proximidade com a divindade sua criadora (vulgo Deus – bendito seja o seu nome) e a brusca e violenta perda deste estado é o que o torna eternamente saudoso dessa completude e perfeição arcaicas, traduzida na expressão “Saudade de Deus”. Esta é a ideia claramente apresentado por Leonardo Coimbra, entre outros:
«O éden era a Pátria, donde o homem foi escorraçado como consequência da revolta da sua vontade contra a união amorosa com o Deus criador.
Tombado do Éden, como o anjo rebelde da presença de Deus, eis que o homem caminha, em exílio, por entre a matéria rebelde.
(…) mas a Saudade do Éden é o bendito óleo que faz arder ainda aquela luz originaria.
Tudo tombou na desordem como o primeiro pecado e os mundos seguiram suas orbitas de morte, nelas arrastando o homem, enquanto este ficou a sonhar o regresso, à luz da Saudade, que, por dentro, o esclarecia.»
E novamente, alguns séculos antes, sublimemente retratada por Camões nos seus “Sôbolos rios que vão”:
Não é, logo, a saudade
das terras onde nasceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa Cidade,
donde esta alma descendeu.
E aquela humana figura,
que cá me pode alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio da Fermosura,
que só se deve de amar.
A Saudade é então o eterno desassossego que sempre impeliu o homem em direcção ao futuro, um futuro esperançado com a lembrança de um passado idílico. É a raiz de todo o sentimento e pensamento religioso, como a força de regresso ao paraíso, um inverter da Queda, levando o Homem e a natureza, nas suas condições de criados, ou na sua dualidade, à sua original condição de unidade .
Ora, toda esta questão de Queda e retorno (ou desejo de retorno) tem logicamente uma tradução Cabalista. Esta remete-nos às noções da Árvore da Vida pré-Queda usualmente pouco abordadas na literatura da especialidade.
Aceitando então que na história do Cosmos existiram dois momentos (pré e pós Queda) em que a configuração e leis Universais eram completamente distintas, então é apenas lógico que estes dois momentos tenham que apresentar configurações diferentes da Árvore da Vida, como um mapa para o Cosmos, o Homem e a Divindade.
Esta Árvore pré-Queda será então a Árvore perfeita e esta perfeição traduz-se como uma Árvore harmoniosa e simétrica em todos os seus eixos. A notória diferença então entre esta Árvore perfeita e a que nos é apresentada hoje será o facto de que a décima Sefira, Malkuth, o Reino, o mundo material, não terá existência. Ao em vez disto, no Pilar do Equilíbrio, acima de Tiphareth, encontrar-se-á a Sefira Daath concreta e existente , contrariamente à existência “ilusória” com que se apresenta na disposição actual. Nesta configuração o Homem habitaria a Sefira Yesod, que seria uma reflexão exacta de Kether, sendo então o Homem neste estado uma imagem exacta de Deus – bendito seja o seu nome.
Daath é a Sefira que traduz a síntese de Chokmah e Binah, Sabedoria e Compreensão, que geram Conhecimento (Daath), este é o ponto em que toda a unidade do Conhecimento está contida . Assim o mito bíblico do arrancar e comer do fruto da Árvore do Conhecimento relaciona-se directamente com a Sefira Daath.
No momento da Queda, do arrancar do fruto do Conhecimento, a Sefira Daath como que caí do seu lugar para a posição que agora conhecemos como a de Malkuth e no seu antigo lugar abre-se o Abismo, uma fenda entre o Homem e os Mundos inferiores e os Divinos . A Queda representa então a queda do Homem e da natureza para a matéria, para o estado de criação separada do criador. Isto traduz o banimento do Homem do Jardim do Éden para o mundo do exílio, este Mundo que nos é hoje apresentado, Malkuth, e assim se gera a Árvore na sua configuração actual.
Se é então Daath o ponto central do desenrolar da tragédia divina, a marca do exílio do Homem, da sua Queda para Malkuth, a abertura do Abismo e a perda de comunhão com o Divino, é então aqui a génese do primeiro sentimento de falta no espírito do Homem, da lembrança da plenitude e da sua perda, o ponto de origem da Saudade portanto. A actual Daath (a Sefira “ilusória”) e o Abismo são a chaga cósmica da Queda, a eterna e dolorida lembrança, cuja existência emana para os mundos inferiores o sentimento de Saudade (podemos agora somar à frase de Pinharanda Gomes, «Assim, o Cristo seria o acto histórico em que melhor a saudade se manifestou como saudade no homem para Deus », a seguinte, «Qabalistically, the crucifixion of Jesus symbolizes how, through his death, he creates a bridge over the Abyss and thus re-unites God and man » e obter uma harmoniosa ideia de Cristologia).
Para mais, a definição da Saudade como “síntese de opostos”, tantas vezes assim apresentada por Pascoaes, vem corroborar esta posição. Sendo a posição do Abismo e de Daath, imediatamente anterior às três Séfiras Supernais (Binah, Chokmah e Kether), na sua travessia pelo adepto está então implícita a transcendência da dualidade, conceito desprovido de sentido nos Mundos Superiores. Assim a travessia do Abismo e o fim da noção de dualidade é o concretizar da Saudade divina, a transformação final do homem pela Saudade, a porta\chave para as três Sefiras superiores.
Ainda, sendo a Queda tida como uma das origens do conceito de “Mal” Cósmico, uma falta para com as leis divinas, é precisamente nesta chaga do Abismo e Daath, e também no seu resultado directo, Malkuth, o nadir da criação, onde se encontram as duas grandes portas por excelência para a Sitra Ahra, o outro lado da Árvore da Vida, os Reinos Qliphoticos. Daí que estando a Saudade precisamente no portão entre o lado luminoso e sombrio da Árvore (também entre as Sefiras Supernais e as inferiores, sendo o ponto onde todas as forças cósmicas se cruzam ), numa abordagem superficial, esta apresente dois aspectos tão distintos como a já referida tendência para o Futuro, para a Divindade, e o também conhecido e muitas vezes popularizado passadismo, inércia e decadência de uma Saudade “mal sentida”. Citando Pascoaes: «A saudade, no mais alto sentido, significa a divina tendência do português para Deus; na sua expressão decadente, patológica, representa a tendência do português para o fantasma…» . Estes são os dois aspectos da Saudade, como sentimento entreposto entre a Luz e as Trevas, Deus – bendito seja o seu nome – e o “fantasma”, a Árvore Sefirotica e a Árvore Qliphotica.
No entanto, esta interpretação da Saudade como aqui apresentada, embora lógica, poderá não corresponder a uma verdade completa. Embora no estado actual do Cosmos, “caído”, o sentimento de Saudade divina possa ser associado directamente às chagas da Queda, não se poderá excluir a hipótese de que já no Cosmos pré-Queda existisse algo que já se pudesse designar de Saudade. Ainda que na pré-Queda a criação gozasse de uma proximidade e semelhança ao divino, esta já estava criada. Significando isto que, por mais perfeita que fosse a existência, haveria já um distanciamento do original e uno divino, Kether, ou mesmo de Ain Soph. Tal é apenas um corolário da existência de uma Árvore com dez Sefiras.
Ainda que se possa supor que, no seu estado édenico, não tendo colhido da Árvore do Conhecimento (Daath), o Homem não possuísse a fome ou insistente desejo de Futuro (Saudade), especulações como a da seita dos Shabatianistas acerca da fonte do Mal podem dar azo a pensamentos contrários. Nos escritos de Nathan de Gaza sugere-se que em Ain Soph, antes do inicio da criação, existiria uma dualidade de uma luz pensante e uma luz não pensante, tendo a primeira o desejo de criação e a segunda o desejo de permanecer emersa em si mesma . Esta ideia poderá então sugerir que o Divino, ou parte do Divino, tem Saudade da sua própria unidade; unidade que foi quebrada com o primeiro instante da criação. No entanto a lógica desta especulação é, numa nota pessoal, um desafio, mas fica aqui assente a hipótese. Neste momento particular do Tempo, tais especulações nunca poderão ser mais que isso, e com tal completamente impossíveis de fundamentar. Seria necessário reverter a Queda para se verificar se no coração de Homem, ou de algo que ainda sentisse, algum sentimento Saudoso restaria.
Por fim, e estabelecendo definitivamente a Saudade como residente em Daath, várias mais implicações tomam lugar. Como já múltiplas vezes referido, a Saudade é o impulso do homem para o Divino, a “tendência para Deus”, mas isto de facto é apenas metade da verdade. Retomando as considerações de Pinharanda Gomes em torno da Saudade, encontramos desenvolvida com bastante insistência a ideia da Saudade como sentimento da singularidade . Isto faz de facto sentido na nossa perspectiva. O primeiro passo para uma transcendência do próprio é o sentimento, a noção, de singularidade e individualidade. Isto poderá parecer contraditório, mas este é o primeiro aspecto a ser desenvolvido e cultivado para a ascensão através dos mundos e das várias Séfiras, para, aquando da travessia do Abismo, ser descartado e sacrificado, marcando o fim da dualidade entre o Eu e o Outro (todo o Outro, toda a criação no fundo), o processo em que o adepto sacrifica o seu sentido de identidade terrena .
No entanto, se agora trouxermos para o campo das nossas ideias os caminhos do Diabolismo, damos de caras com algo da maior relevância. Até agora apenas considerámos a Saudade no contexto de caminhos que procuram um reverter da Queda e uma restauração da unidade original com o Divino, caminhos que apontam para o subir da Árvore em direcção à Luz. No outro lado do espectro temos os caminhos que buscam uma concretização final e aprofundamento da Queda, o caminho em direcção oposta ao Divino criador, na busca da auto-deificação. Nestes caminhos o adepto segue as forças da Sitra Ahra, uma descida na Árvore Qliphotica (isto não de facto uma obrigatoriedade, mas simplifique-se a questão para fins de argumentação), como tal, a questão da singularidade e identidade ganham uma relevância obsessiva da maior importância para o adepto, e esta fome de singularidade é ela também um processo Saudoso.
Voltando a Pinharanda Gomes, o seu desenvolvimento em torno da questão do “Emparedado Vivo” ganha aqui uma grande relevância, valendo a pena a sua leitura semi-integral:
«(…) Quando, sob a pressão da ditadura democrática mais antiga e mais moderna, ou dos totalitarismo aristocráticos e monocráticos, alguém resolvia professar como Emparedado Vivo, isso significa que esse alguém chegava a saber que a liberdade egotista corria o risco de sucumbir perante a violência do poder da alteridade. A decisão de emparedamento é uma forma de guardar a virgindade da saudade perante a presença inquisitorial da alteridade. A extrema quietude surge como o ultimo reduto em que a singularidade do mesmo se protege da diversidade do outro sublimando-se, ou degradando-se, consoante a reflexão proposta, ou na esperança salvítica, ou na morte. No entanto a razão critica do eu enquanto ele mesmo, só se revela em plenitude na liberdade autorizada, ou na autoridade liberativa, e as exigências que de fora lhe são propostas, ou impostas, afirmam-se como tentativas de assassinato – de onde a saudade, ou suidade, ao reflectir a quietude, não ter outro caminho que não seja o do extremo individualismo e, pois, o da cisão definitiva e universal relativamente a quanto surja como limitativo da sua mais funda verídica onticidade.»
Ora, se em vez dos exemplos dados por Pinharanda Gomes, transportarmos esta ideia para o reino do espiritual, e considerarmos um adepto, alguém com “fome de Deus”, que perante o próprio Divino sinta repulsa, desejando, por medo ou convicção, conservar a sua individualidade até a situação extrema, a Saudade que sente, a sua “fome da Deus”, guardando-se ao extremo (do próprio Deus – bendito seja o seu nome) toma o sentido oposto, para o «extremo individualismo e, pois, o da cisão definitiva e universal relativamente a quanto surja como limitativo da sua mais funda verídica onticidade», acabando por glorificar a rebeldia demoníaca como salvítica. Isto poderá chegar ao limite extremo, como o descrito pelo autor anónimo do Liber Niger Legionis, em que o diabolista, estendendo a sua mão esquerda ao Diabo, recebe deste a sua mão direita, levando-o a um aprofundamento do mistério do Outro, que dirige o Ser para o seu interior em devoção isolacional, um êxtase de separação do amado Divino, reflectindo o próprio auto-isolamento de Satanás, a eterna oposição. Isto gera um desejo maior que qualquer realização, a imortal dissatisfação da negação absoluta . Portanto, um aprofundar infinito da Saudade, ao invés da sua concretização.
Assim, temos que a Saudade é a fonte da busca tanto dos caminhos da Luz como das Trevas (palavra um pouco estigmatizada, pense-se antes em Luz Negra), mais uma vez sublinhando a razão da sua presença em Daath e no Abismo. Saudade, então, pode não ser de Deus, será mais correcto dizer, em vez de “Saudade de Deus”, “Saudade de Divindade”.
A compreensão destas ideias, e um estudo adequado da Árvore da Vida, revelará ao leitor interessado uma miríade de articulações e ramificações que sem dúvida o auxiliarão na compreensão de si próprio e desta nossa cultura.
José Leitão
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Texto que nos chegou...
SAUDADE DA FILOSOFIA: A SAUDADE DÁ FILOSOFIA.
Willis Santiago Guerra Filho
Em homenagem a Pinharanda Gomes, no transcurso de seus setenta anos.
Certa vez, uma dessas enquetes que não se sabe bem como são feitas, anunciou algo de que intuitivamente desconfiamos: a palavra (galego-)portuguesa “saudade” é uma das cinco palavras mais intraduzíveis, dentre todas de todos os idiomas (!). Ora, isso nos dá o que pensar, tanto que se pode até chegar a fazer uma “filosofia da saudade”, como muitos autores, expressando-se nessa língua, de fato tentaram, quando a filosofia era algo mais almejado, desejado. E mais do que uma filosofia da saudade, houve quem falasse em “metafísica da saudade” e, até, “teologia da saudade”, à qual corresponderiam, como religião, o saudosismo sebastianista, messiânico. É o que podemos depreender da leitura da antologia feita por Dalila L. Pereira da Costa e Pinharanda Gomes, intitulada “Introdução à Saudade”. Mas para saber o que seria isso, uma vez que, saudade, os que nascemos na língua portuguesa, sabemos o que é, precisaríamos saber mais sobre o que é isso de filosofia, metafísica e teologia. Vamos lá, então. A filosofia, como indica a própria etimologia da palavra, surge, na antiga Grécia, como uma tal desejar (philein), um anelo, uma intenção (philia), que era uma nostalgia – mas não uma saudade - da sabedoria “sobrehumana”, divina (sophia), de que dispunham – ou dispuseram - os sábios (sophian), para nós perdida, e perdida já naquela época em que surgiu, pelo aparecimento das doutrinas, as mais diversas e em conflito, dos que estudavam a physis, a natureza (de todas as coisas), os “físicos” ou “fisiólogos” (de physis + logoi = “discursos sobre a natureza”). Uma das acusações contra Sócrates, no processo que os atenienses moveram contra ele – e, também, contra a filosofia, que com ele propriamente se iniciava -, foi a de ele praticar a física, sendo esta acusação a que ele repudiou com mais veemência. Já aquela, de que apregoava a substituição dos deuses oficiais, por se referir sempre ao seu daimon pessoal, foi descartada com a costumeira (e sábia) ironia, lembrando a contradição que havia entre essa acusação e uma terceira, a de que corrompia a juventuda ateniense ensinando-lhe o ateísmo...Para Platão, seu discípulo mais famoso, a filosofia seria "epistéme epistemés", "ciência da ciência", enquanto o mais célebre discípulo deste, Aristóteles, na "Metafísica" (Livro VII ou zetha, 1), a define como "epistéme ton próton arkhôn kaì aítion theoretiké", conhecimento dos primeiros princípios e causas explicativos de tudo. Comentando essa passagem, Heidegger, no texto "Que é isto, a filosofia?", recorda que epistéme deriva de epistámenos, que seria aquela pessoa vocacionada e competente para uma determinada atividade - no caso da filosofia, a atividade de teorizar, sendo a theoria o que os gregos considerariam propriamente a ciência, saber contemplativo das verdades universais, eternas e transcendentes, para além do saber mundano, habitual, a doxa, e que, no princípio do livro apenas citado de Aristóteles, é considerado um conhecimento através do qual os homens se ombreariam com os deuses, devendo, por isso, temer a inveja deles. Uma outra forma de conhecimento, mais próprio das contingências da vida, é aquele que os gregos denominavam techné, a técnica, um conhecimento operativo, instrumental e produtivo, limitado e finito, por voltado ao atendimento de finalidades específicas, mas sempre revelador de potencialidades, donde sua tradução para o latim como ars.
Então, a epistéme seria algo intermediário entre essas duas formas de conhecimento, por referir-se à atividade de conhecer a partir das necessidades de um certo tipo de explicação, isto é, não as explicações que se fazem necessárias e úteis à manutenção da vida, inclusive no convívio social e político, mas sim aquelas que, a rigor, são desnecessárias, inúteis, embora sejam elas o que desejamos, anelamos, quando nos maravilhamos, sentindo o assombro, o espanto, o thaumatzein, quando, no duplo sentido dessas palavras, negativo e positivo, nos espantamos e assombramos diante do universo ao nosso redor e em nós mesmos, o cosmos, sendo desse sentimento (pathos) que nasceria a filosofia, segundo os dois filósofos gregos citados - de certa forma os primeiros, por ter chegado até nós o registro de seu pensamento, e até hoje maiores entre todos: Platão, no seu diálogo "Teeteto" (155 d), e Aristóteles, na já citada "Metafísica” (Livro I ou alfa, 2).
Eis que se agora retornamos ao nosso princípio, percebemos que se falarmos em uma filosofia da saudade, isso seria mais para explicar a saudade aos que a sentem sem saber, por não ter uma palavra para sintetizar esse sentimento, tão grande e tão plural, a que chamamos, simplesmente, saudade. E podemos aventar a hipótese de que é um sentimento desses o que acomete a quem passar pela experiência do thaumatzein, a qual nos lança para a filosofia.
Saudade não é o desiderium, que um clássico latino definiu como libido videndi eius qui non adsist, ou seja, a vontade de ver aqueles que não estão presentes, já porque saudade sentimos muita saudade de coisas e lugares, sentimos muito saudade da terra natal, mais do que dela gostamos quando nela estamos, o que demonstra haver na saudade algo de desejo de um futuro melhor realizado do que foi o passado próximo. Saudade não é a nostalgia, que tem a língua castelhana, porque a nostalgía é a tristeza pelo que passou e não volta mais, mas isso também tem na saudade, só que ela é mais: é também uma alegria suave, por saber que o futuro poderá trazer o retorno do que se foi, ainda que sob outras formas, e nesse sentido se assemelha à Sehnsucht alemã. A saudade não nos mata, como o banzo matava os heróicos africanos, brutalmente forçados à emigração para as Américas; nós, ao contrário, matamos a saudade, ainda que por um breve instante, pois ela logo renasce, para depois ser morta novamente, por os que morrem de saudade, sem ser mortos por ela. A saudade não é a Angst depressiva, parente da agonia, que, nos lançando de cara com o nada, revela o ser a parte de todo ente, como propõe a metafísica existencial heideggeriana, tentando pensar o que ficou de fora de toda metafísica anterior, e com isso pretendendo descartar até a própria metafísica, tragada também no buraco negro do nada. A saudade do ser é serenidade, Gelassenheit: deixa o ser, ser, esperando que venha a nós, ao invés de nos precipitarmos em busca desesperada d'Ele.
Saudade pode corresponder melhor do que a qualquer outra à palavra catalã anyoransa, mas só alguém com boa vivência nas duas línguas pode julgar. Ao mesmo tempo, temos a palavra añoranza, em galego, que é nossa língua irmã (xifópaga), e ela não substitui a também galega saudade, sendo aquela mais do registro espacial, horizontal, do que temporal, vertical, como a Heimweh alemã ou o souvenir, francês - portanto, mais sofrida do que a audade, com a qual mais nos animamos do que padecemos.
A philia grega, que está na filo-sofia, não deixa de se aproximar da saudade, no que ela tem de uma perspectiva de reencontrar no futuro o que já esteve no passado - no caso, a sabedoria, considerada, a rigor, para sempre perdida, para quem, como Sócrates, se dizia filósofo, com sua costumeira ironia, por só saber que nada sabia, e ainda assim saber mais do que quem se dizia sábio, sabedor de muitas coisas, se não,de tudo, como certos sofistas, que para Sócrates não passavam de sabidos, espertos, experts, como se diz hoje em dia, ou seja, no máximo, especialistas, com a arrogância de por isso, por saberem muito de um pouco, saberem também o bastante sobre tudo. É assim que, ao invés de filosofia da saudade, metafísica da saudade, teologia da saudade, a mim parece que nos carece mais a saudade da filosofia, saudade da busca desejante de sabedoria, assumindo que ela nos falta; a saudade da metafísica, da meditação sobre o ser de tudo que é, sobre o que é ser; a saudade da teologia, do estudo, ainda que impossível, mas necessário, do que não nos deixa solitário em nosso ser, singular, inexplicado, ínfimo, precário e, ao mesmo tempo, infinito. Eis que a palavra “saudade” tem parentesco com o nome da flor sucena ou cecém, de assucena, como dizemos no nosso sertão imemorial, a Susana dos hebreus, a flor real dos latinos, assim chamada por ser a mais linda e de odor mais doce dentre todas as outras. Os trovadores medievais diziam ssuydade, vindo de soedade, passando por soidade, de sonoridade mais provençal, referindo-se ao que é de si, mais do que ao que se dá coom quem está só, como na matriz latina solitudo, donde veio por derivação, soletate, a soledad castelhana, que é nossa solidão. Antes de ser saudade, a palavra soou sódade e, em Lisboa, particularmente, soudade, como ainda hoje se pode ouvir das bocas mais ciosas da língua que aprenderam de seus antepassados, aquelas das classes populares de lugares como a eterna Bahia: há mesmo um samba-lamento, clássico, em que Clementina de Jesus canta “soudade, meu bem, soudade”. Em saudade há saúde, saudação e salvação.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Reino da Consciolândia
- O conto que lhes vou contar chama-se Breve estória de um ser num universo.
D. Transpessoal e Sr. Al Quimista acenam com a cabeça. Eles lembram-se de ter ouvido falar neste conto.
Mãe Velha, curadora de almas e clarividente, começa assim:
- Dedico sempre esta "estória" a todas as crianças que eu tive o privilégio de amar pois contando-a mantenho viva em mim a criança que também sou.
- Lembram-se das palavras do GÉNESIS: Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus. Criou-o homem e mulher (Gn 1.26-27)? Pois ouçam com atenção e irão perceber porque começo a história referindo estas palavras...
Era uma vez uma Pessoa que nasceu num universo de energias que era como um grande e invisível coração a pulsar.
Ela só começou a existir porque duas energias pulsantes se partilharam, vibrando como uma só.
Foi assim que ela nasceu tornando-se uma porção materializada numa espaço temporalidade.
O ritmo pulsante desse um afectuoso coração abriu-lhe o caminho para esta vida: nasceu saindo de um ventre por um "buraco negro", ou Alçapão, que é como se dão os novos nascimentos…
E começou ela mesmo a pulsar, respirando: ora expandindo, ora contraindo…
A pouco e pouco foi-se habituando ao bater ritmado do seu próprio coração, ao ritmo dos dias e das noites, à alternância da luz e do escuro e, ao balanço desses ritmos foi crescendo, entendendo, aprendendo, comunicando, evoluindo... vivendo!
Outras pessoas – que já se tinham esquecido da sua origem, de que viver é pulsar – começaram a dizer-lhe: "cuidado, olha que estás dentro de uma "caixinha"; se aceleras muito a tua vibração, podes rebentá-la e é muito perigoso, porque fora das "caixinhas" ninguém pode mais existir!"
As "caixinhas" não eram senão projecções da mente daqueles seres que, há muito, tinham escolhido deixar de pulsar com medo de rebentar; de tal modo que já tinham perdido completamente qualquer memória da sua origem, que fora só vibração sem forma e se dedicavam totalmente a construir cada vez mais "caixinhas" todas feitas de "deve ser".
Mas a nossa Pessoa ainda inexperiente, não o sabia e foi aceitando como bons todos esses medos mascarados de bom senso que lhe eram transmitidos por pessoas já mais quadradas, cúbicas e escuras do que redondas e irradiantes.
Eram em grande número e, talvez por isso, eram consideradas o padrão de uma coisa que parecia ter muita força e a que chamavam “normalidade”, simplesmente por ser a maioria!
A pouco e pouco também a nossa Pessoa ser começa a pulsar com menos força. Sente-se fechado em cada vez mais "caixinhas", com cada vez mais falta de oxigénio, cada vez menos energia e cada vez mais medo de se rebentar ao rebentá-las. Quando está em casa, é a "caixinha" do quarto, da sala, dentro da "caixa" do prédio; depois as "caixas" dos transportes, do carro, do autocarro. E as "caixas" do emprego?! São todas muito direitinhas e bem arrumadinhas umas a seguir às outras, das maiores mais em cima às mais pequenas em baixo!!!
Acreditam até que, no fim de tudo, os restos que ficam vão acabar dentro de um preto e sinistro… "caixão”!
E assim, de "caixa" em "caixinha", conseguindo ainda pulsar um pouco aqui, outro pouco ali, lá vai vivendo com o oxigénio que há, sem se dar conta de que está ela também a ficar cada vez menos redonda...
De tal forma fica prisioneiro que as caixinhas lhe parecem já só terem saída umas para as outras!
Às vezes, muito raramente, atreve-se a sair de uma delas. Fica sozinho entre o céu e a terra. Então, sente-se mais liberto e lembra-se como tudo no Universo é pulsátil, redondo e aberto! Sente uma enorme e confortante sensação de paz e felicidade! Mas é tão breve… Mal começava a respirar mais fundo, logo fica com medo de rebentar e volta de novo à protecção da caixinha mais à mão, bem cubicamente segura.
O pior é quando começa a perceber que até a sua própria cabeça já está a ficar quadrada e dividida em muitos compartimentos, de tal modo que, mesmo quando se vira para dentro dela, são também montes de caixinhas prefabricadas que encontra!
Lentamente começa a entristecer e a definhar, a ficar cada vez mais cúbica, mais cheio de arestas. A tal ponto que passa a ser olhada como desagradável e mesmo agressiva.
Até que um dia...
Uma bola bem redonda passa ao seu lado, a grande velocidade, qual cometa! O que lhe chama a atenção é a forte vibração e o brilho auri prateado do rasto que dela irradia e que ela sente, de imediato, ser algo de muito precioso que lhe falta, algo sem o qual nunca poderá ser inteira e feliz.
É muito forte a emoção desse encontro e o desejo de se apossar desse bem. Cresce cada vez mais a obsessão de que, ao reencontrá-la, poderá sentir-se para sempre como naqueles breves e raros momentos em que consegue estar fora de todas as "caixinhas", sozinho com o Universo Todo, bem redondo e aberto! Um desejo muito forte toma conta do seu coração que pulsa de novo mais acelerado.
O que a nossa Pessoa não sabe logo é que esse “outro”, é de alguma forma também uma parte esquecida de Si mesma, que precisa recuperar...
O seu coração ganha novo alento, o que a faz lembrar-se do Pulsar do Grande Coração que tão intimamente sentiu antes de nascer, pois essa foi a Origem do seu Ser.
Ainda receosa de rebentar, tenta encolher-se de novo; mas, para seu enorme espanto, não consegue "encaixar" em nenhuma "caixinha" – nem mesmo em nenhum "caixote" – aquela Grande Emoção Redonda que dela se apoderou.
Fica dividida. Hesita muito. Pensa: "e se eles têm razão? E se eu rebento? Se eu não consigo voltar a entrar nas caixinhas que me dão tanto conforto, segurança e protecção, e me parecem tão indispensáveis?”
Quanto mais cresce o medo, mais cresce a emoção e o desejo, a obsessão do reencontro com aquele brilho esférico e irradiante.
A luta dentro de si torna-se tão grande que se sente ficar sem forças, sem energia, vazia de poder, de tão dividida que está.
Todas as suas forças não são suficientes para resistir às dúvidas e aos medos… Começa a definhar e fica doente. Sente-se morrer…
“Assim não posso continuar!” Percebe que é a hora de escolher: ou pulsar de novo e, agora, vibrando toda inteira, buscando o encontroi e união com essa Força Maior que vislumbrara e não mais esquecera, voltando à Vida, ou escolher deixar de pulsar e só continuar sobrevivendo, recusando a Vida, morrendo de inacção até acabar fechada num qualquer cúbico “caixão”!
É então que no meio do escuro desespero, impotente e exausta, se abandona finalmente a esse Grande Poder. Pede ajuda e aguarda, confiante, paciente e submissa. Faz-se luz no seu interior e ela percebe que a Força do Todo, da Origem, deixara bem escondidinha dentro da sua Pessoa uma semente da Vida vibrante e pulsátil que, nenhuma "caixinha", nenhum medo, nenhuma "morte", nenhum "deve ser" poderia nunca fazer desaparecer!
E escolhe: pede à Força vibrante em si, a essa Presença Viva, que a ajude a voltar a viver, livre de “caixinhas”, de medos, de dúvidas, de culpas, de frustrações, de ilusões.
Vem então um vento de energia vital que levanta e leva para bem longe todas as tampas! Uma lufada fresca de oxigénio ajuda-a a respirar de novo com mais força. Sente-se melhor. Sente-se crescer... e, mesmo ainda com algum medo, ousa respirar mais fundo, absorver plenamente a emoção dessa entrega ao Amor Maior que a invade e parece tocar-lhe a alma moribunda, ressuscitando-a para a Vida!
Descobre que quanto mais se entrega, mais forte fica a semente de Vida no âmago do seu ser; até que a sente tão forte e tão poderosa que percebe que já não lhe faz mais falta a segurança de nenhuma "caixinha" pois d’Ela vem toda a guia e protecção, todo o Amor.
Agora, ela própria bem redonda e aberta, deixa-se explodir de vibração pulsante, liberta de todas as (auto) limitações. Confiante na entrega, já sem medos, passa de novo como que por um Alçapão ou "buraco negro" – ou seria uma Clarabóia?! Talvez ambos… – e irrompe num outro Universo da Grande Galáxia, do Grande Coração Pulsante, sua Origem: é um Novo Universo de Interioridade. Uma Nova Consciência, a Consciência da Alma vivificada pela Presença do Amor Maior que a ressuscita.
Afinal – descobre – bastou levantar um pouco a tampa, bastou não ter medo de se entregar, de aceitar sentir a vibração harmónica da vibração do Todo em cada "parte" do seu Ser.
Sente-se feliz. Sente-se finalmente um Ser Humano inteiro e livre!
Já não tem medo de pulsar; aliás, já não sente medo nem solidão porque descobriu que, para além do sofrimento das "mortes", dos "buracos negros", estão sempre novos renascimentos em deslumbrantes Mundos que vale a pena conhecer e onde vai sempre ficando mais inteiro, vai ganhando sempre em Consciência de Ser.
Até que fique verdadeiramente Vivo.
Não sente mais falta de oxigénio para respirar, nem a sensação de asfixiar ou a ânsia de faltarem acontecer ainda mais universos, o desejo de alguma outra parte de que precisa para se sentir completo... Todas as partes, sabe agora, são partes de Um mesmo Todo: o Unus Mundus.
Então, finalmente, abre os olhos.
Olha para si, olha à sua volta: durante uma fracção de segundo tudo lhe parece estar exactamente igual. Ilusão sua!
Deslumbrado, faz a última, a maior e a mais importante de todas as descobertas: tudo daí para a frente continuando por fora a parecer igual passa realmente a ser inteiramente diferente!
De repente como que por milagre tudo se harmoniza à sua volta como dentro de si: já não há dentro e fora mas uma única, luminosa e harmónica vibração.
E percebe: sendo a Harmonia uma só, a do Todo, o que é harmonioso para uma parte só pode ser harmonioso para todas. E o que é harmonioso para um de nós, só pode ser harmonioso para Todos Nós. E vice-versa... Pois tudo é Uma Coisa Só: o "Grande Coração” ou o “Amor Pulsante" que é o Todo que contém todos os universos, todas as energias, todas as vidas, pois é a própria Vida!
Julgar o contrário é mais uma ilusão das mentes arrumadas em “caixinhas”, separadas de Tudo e de Todos por muitas “paredes”. Separadas, sobretudo, de si mesmas pelo muro do dentro e do fora. Sempre desesperadas, carentes, à procura fora de si de algo que as complete e minore a sua solidão, a sua angústia.
Tinha levado todo esse tempo para reaprender que afinal o importante é aceitar vibrar, pulsar com a Vida ora expandindo, ora contraindo, ora dentro de si, ora fora de si.
Aprendera que o sentir do próprio ser interior é a única bússola para esta Viagem de Todos Nós, cuja direcção podemos aferir na bússola da “resposta” que recebemos da Vida. Sem medos, aceitando atravessar corajosamente as próprias experiências para aprender o que resulta ou não harmonioso com a própria Matriz de Ser, parte e Todo que É.
Desse modo, a pouco e pouco o Processo que é Vida se vai encarregando de afastar o dissonante e trazer o harmónico, servindo de Guia.
Tinha levado todo esse tempo para aprender. Mas valera a pena.
Aprendera que viver é, antes de mais e para além de tudo, vibração do Ser Interior sintonizado com a harmonia do Processo. Esse é o caminho para o Amor Supremo. Aí, onde já nem vibração existe mais como no centro do turbilhão, encontrou finalmente a Paz e sabe que a pulsação de todos os corações, a Força Suprema de todas as Vidas, tem Um Só Nome...
A Bela Adormecida
As palavras de Mãe Velha ressoam fundo em Todos Nós.
Como explica Guia Interna no final “Breve estória de um ser num Universo” é uma alegoria da expansão multidimensional da consciência humana que irrompe para além da Bolha da Psique.
Sou Alma percebe quanto cresceram. Como a infância ficara para trás e sem darem por isso se tinham desligado da sua Origem." ……………….
Extraído do livro “Aventuras de Ego de Todos Nós no Misterioso Reino da Consciolândia” Carminda H. Proenca. Ed. Ecopy, 2008. Blog: http://reinodaconsciolandia.blogspot.com





