A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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sábado, 16 de maio de 2009

Cristo Rei

«Em 1934, ao passar pelo Rio de Janeiro, o então Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Cerejeira, ao ver a imponente imagem de Cristo Redentor do Corcovado, nasce no seu coração o desejo de construir semelhante obra frente a Lisboa. (...)
Em 1939 inicia-se a II Guerra Mundial. Neste período a ideia da construção do Monumento a Cristo Rei ganha um novo sentido e vigor. Em 20 de Abril de 1940, em Fátima, os Bispos fazem um voto: Se Portugal fosse poupado da Guerra, erguer-se-ia sobre Lisboa um Monumento ao Sagrado Coração de Jesus, sinal visível de como Deus, através do Amor, deseja conquistar para Si toda a humanidade. Portugal não entrou na Guerra. (...)
A 17 de Maio de 1959 (Dia de Pentecostes) perante a imagem de Nossa Senhora de Fátima... inaugurou-se o Monumento. (...) Nas palavras do Cardeal Cerejeira: Este será sempre um sinal de Gratidão Nacional pelo dom da Paz.»

Google

"(...) à fidelidade de Pedro cometeu o Senhor as chaves do seu Reino: Tibi dabo claves regni cælorum. Primeiro lhe chamou homem de pedra e depois lhe entregou as chaves, porque as chaves do Reino só em homens de pedra estão seguras. Os homens de barro quebram, os de pau corrompem-se, os de vidro estalam, os de cera derretem-se; tão duro e tão constante há-de ser como uma pedra, quem houver de ter nas mãos as chaves do Reino: Tu es Petrus, tibi dabo claves. (...) Que havia logo de fazer com elas S. Pedro? Atar e desatar, diz Cristo: Quodcumque ligaveris, erit ligatum: quodcumque solveris, erit solutum. A peste do governo é a irresolução. Está parado o que havia de correr, está suspenso o que havia de voar; porque não atamos, nem desatamos.»
Padre António Vieira

«Urge aprontar o caminho para a nova forma de cristianismo que deve bem querer aparecer

Vibra, clarim, cuja voz diz.
Que outrora ergueste o grito real
Por D. João, Mestre de Aviz,
E Portugal!

E, se o futuro é já presente
Na visão de quem sabe ver,
Convoca aqui eternamente
Os que hão de ser!

A todos, todos, feitos num
Que é Portugal, sem lei nem fim,
Convoca, e, erguendo-os um a um,
Vibra, clarim!

E outros, e outros, gente vária,
Oculta neste mundo misto.
Seu peito atrai, rubra e templária,
A Cruz de Cristo.

Transcende a Grécia e a sua história
Que em nosso sangue continua!
Deixa atrás Roma e a sua glória
E a Igreja sua!

Depois transcende esse furor
E a todos chama ao mundo visto.
Hereges por um Deus maior
E um novo Cristo!

Não foi para servos que nascemos
De Grécia ou Roma ou de ninguém.
Tudo negamos e esquecemos:
Fomos para além.

Vibra, clarim, mais alto! Vibra!
Grita a nossa ânsia já ciente
Que o seu inteiro voo libra
De poente a oriente.

Vibra, clarim! A todos chama!
Vibra! E tu mesmo, voz a arder,
O Portugal de Deus proclama
Com o fazer!

O Portugal feito Universo,
Que reúne, sob amplos céus,
O corpo anónimo e disperso
De Osíris, Deus.

O Portugal que se levanta
Do fundo surdo do Destino,
E, como a Grécia, obscuro canta
Baco divino.

Aquele inteiro Portugal,
Que, universal perante a Cruz,
Reza, ante à Cruz universal,
Do Deus Jesus.»
Fernando Pessoa

«Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização, social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio; ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para um bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte das preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de exploração e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.»
Agostinho da Silva

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Saudade, Espelho Eterno: Presente de Deus

«ó gente humana, nascida para voar ao Paraíso, porque deixar-se abater por um ténue sopro de vento*? [Anjo no Purgatório: *desejo de glória (i)mundana]

(...) os bem-aventurados, contemplam todos Deus, que é o Espelho, em que se revela o teu pensamento ainda antes de o conceber.

Nos bem-aventurados o sentimento e a inteligência são de igual valor (...) pois que Deus iluminou com a luz da sua sapiência e com o calor do seu amor, nada é comparável a esta igualdade.»
Dante, Divina Comédia

«Pela Lembrança conhecemos o que fomos e pelo Desejo pressentimos o Futuro.»
Teixeira de Pascoaes

Saudade, Ponte entre Passado e Futuro: Presente de Deus, a Fonte.

«Vemos a imagem reflectida, mas não o espelho que a reflecte.»
Teixeira de Pascoaes, O Bailado

Vemos a Ponte mas não a Fonte... pois a Ponte é a Fonte, que para Si mesma caminha.

«Dois espelhos se confrontam mudos:
entre eles nós dois nos interpomos.
Alguém sabe quem somos? Simples nomes
ou reflexos falantes de um espelho?

Vem vindo oh vem vindo a estrela d'alva
olhando serena o espelho que se acalma.

a pomba vem e desata
o saber genuíno
do coração.

Ama por amar»
Dora Ferreira da Silva, Poemas da Estrangeira




«A Saudade, que nos mostra a Ausência dolorosa, cria a Presença radiosa... Mostra-nos o vácuo infinito, para o povoar de infinitas almas.»
Teixeira de Pascoaes

O Homem é Filho de sua Filha Ideia.
Para que haja o Filho é necessário que haja o Pai,
mas para que haja o Pai é necessário outro Pai:
que o Pai seja Filho de seu Filho.
Que todo o Homem seja Pai e Filho em simultâneo,
pelo Espírito Santo,
pelo Espelho da Alma do Amor,
pela Estrela d'Alva do Sol.

Da Epopeia do Mar à de Amar

«Mas a Ideia quem é? quem foi que a viu,
Jamais, a essa encoberta peregrina?
(...)
Outra amante não há! não há na vida
Sombra a cobrir melhor nossa cabeça,
Nem bálsamo mais doce, que adormeça
Em nós a cantiga, a secular ferida!
(...)
Será sempre ela a esposa prometida
Antero de Quental, Prosas da Época de Coimbra

«Pois aquilo que cada navegante e seu capitão [coração] realizam nesta ilha [vida] será o acto supremo de conhecer seu anjo e com ele se unir, para sua imortalidade. A alma só tomando consciência de si mesma, como Anima, poderá conhecer o seu anjo, ou duplo celeste.

É uma morte iniciática o que provoca a sua contemplação: poderoso choque que levará o amante a outro nível espiritual de vida (...). Dirá Dante: «transformar-se-á em nobre coisa ou morrerá» (Vita Nova). E Camões dirá desse choque, tal o dum relâmpago: «Amor, que o gesto humano na alma escreve, / Vivas faiscas me mostrou um dia (...).

Dante dirá: «assim sou Ella» (Vita Nova) e Camões, «Olhai-me a mim, que sou feitura vossa».

Em todos os relatos do sulismo, de fonte gnóstica o Anjo do Conhecimento é identificado ao Espírito Santo; Natureza perfeita, ou Inteligência agente, como o Dador. A angelologia sendo aqui inseparável do processo de individuação, ou libertação perfeita da alma, como face a face última do homem com seu eu verdadeiro, supra-pessoal (...) Havendo ainda nesta tradição, uma referência a partir do Espírito Santo e Anjo Gabriel, à «Virgem da Luz» do maniqueísmo, como figura de Sophia divina, que na gnose, é identificada ao Espírito Santo.
Vemos assim, que fundas implicações de sabedoria e de tradição religiosa portuguesa, estarão implicadas na figura divinizada da mulher, na poesia lírica de Camões, como «figura angélica» e na sua poesia épica, como «ninfa mor»: a figura feminina surgindo como doadora da sabedoria suprema, iniciadora dos mistérios invisíveis do céu.»
Dalila Pereira da Costa, Raízes Arcaicas da Epopeia Portuguesa e Camoniana



«Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo
(...)
Vejo-me, somos dois...»
Fernando Pessoa

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Dia do Mar de Pascoaes e Sophia

«O som é casto, não despe a sua túnica de névoa e só os anjos o contemplam.
A carne é água, o sangue é fogo, o esqueleto é pedra. E a alma? Névoa e fumo...
A palavra veste a alma como a carne o esqueleto.»
Teixeira de Pascoaes, O Bailado

«Tudo é música e a sua dimensão silenciosa, que o silêncio é o substractum da música, o leito da mobilidade ondulatória e a natureza fantástica das cousas. Há só música e orelhas surdas ou de mercador e olhos fechados contra a luz. Quem se atreve a ver e a ouvir? Quem se atreve a dar um passo para além da noite? O ideal é estarmos vivos, dentro do túmulo. Dormir, eis o ideal da besta carregada; mas dormir um sono consciente, dormir gozando o próprio sono, a doce quietação, o desmaio delicioso. Como é belo divagar no crepúsculo, nessa praia ocidental, onde quebra a vaga do sol e a espuma do luar nos molha os pés...»
Teixeira de Pascoaes, O Homem Universal

«Este é o canto do amor em que te falo
Para que escutando sejas minha
Este é o poema – engano do teu rosto
No qual busco a abolição da morte

As paredes são brancas e suam de terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar

Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites

Porque será que não há ninguém no mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar (...)
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança
(...)
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome
(...)
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro
(...)
E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
(...)
Caminho nos caminhos onde o tempo
como um monstro a si próprio se devora

O teu rosto era mais antigo do que todos os navios
No gesto branco das tuas mãos de pedra
Ondas erguiam seu quebrar de pulso
Em ti eu celebrei minha união com a terra

Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes...
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras...
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio (...)
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto

Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias

Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves grandes vagos
Lagos
Reflectindo o mundo
E eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços»
Sophia, No Tempo Dividido, Dual, Geografia

terça-feira, 21 de abril de 2009

A Nov'Ilha do Mar: (de) Tétis*














(Wikipédia)
Regresso à Pangeia: Terra de Pã

«A vaca receberá
A nova gente que vem,
Com prazer de tanto bem
Seu lei-te derramará.

As chagas do Redemptor,
E Salvador
São as armas de nosso Rei:
Porque guarda bem a Lei,
E assim a grei
Do mui alto Creador.
Nenhum Rei, e Imperador,
Nem grão Senhor
Nunca teve tal signal,
Como este por leal,
E das gentes guardador.

Oh! quem tivera poder
Pera dizer,
Os sonhos que o homem sonha!
Mas hei medo, que me ponha
Grão vergonha
De mos não quererem crer.

Vi um grande Leão correr
Sem se deter
Levar sua viagem,
Tomar o porco selvagem
Na passagem,
Sem nada lho defender.

Tirará toda a erronia
Será paz em todo o Mundo
De quatro Reis o segundo
Haverá toda a victória.

Sonhava com grão prazer,
Que os mortos ressuscitavam,
E todos se alevantavam,
E tornavam a nascer.

E via aos que estão
Trás os rios escondidos;
Sonhava, que eram saídos
Fora daquela prisão.

Vejo um alto engenho
Em uma roda triunfante
Vejo subir um Infante
No alto de todo o lenho.


Desamparar o cortiço
Uma abelha mestra vejo;
As outras com muito pejo
Não têm asas para isso.»
Bandarra, Trovas

«(...) o disse João - só na terceira o Espírito virá pleno e, dissolvendo o fenómeno, dará a todos aquela santidade, aquele perder-se no Inominado, sem que perda haja, que só foi até hoje o de raros - e talvez sobretudo o daqueles que anónimos a Igreja celebra no dia que, em termos do porvir, mais fundo vai - o de Todos os Santos. Reino de Deus sem rei, porque sem súbditos; Império sem número algum, porque sem memória de que lhe antecederam e sem nenhum que venha a suceder-lhe; Sociedade sem classes, porque soltos os homens da política que os distingue; e da economia que os separa; da morte que a todo vivo a vida empalidece. Idade que virá e de que foi profeta o Cristo de João, ou o Abade Joaquim de Fiori, que Dante cita; Idade que fugazmente foi povo em Portugal e é Povo nas Ilhas atlânticas e é Povo no Brasil; naquele Portugal de Pessoa ortónimo ou heterónimo que em Dora vive, como outra ressurrecta ânfora, toda fremente de Mar Universal, mesmo que de lágrimas feito, e naquele Brasil, futuro do passado, que em Dora tão plenamente também vive, apesar de São Paulo - afinal tão mártir de uma técnica que, por ainda, como em todo o mundo, tateando seus passos, opressora parece, quando afinal em si traz mensagem plena de liberdade. Aquela liberdade por que ansiaram os gregos - e lhes foi apenas Democracia e Democracia de raros, como aliás o têm sido todas as Democracias; a liberdade que possuíram, depois, os Santos em sua Comunhão; mas Liberdade que só se afirmará, não sendo por ter substituído todo o ortodoxo e todo o heterodoxo pelo Paradoxo que tão raros ousaram e por ele morreram; mas que por ele ressurgirão num outro terceiro dia, em que mais escola alguma matará a Criança Eterna que todos deveríamos ser e se sentarão, como nós todos, se o ousarmos ser já, à mão direita de um Deus que não terá mais nenhum culto, se não o que a si próprio, por o ser, a Divindade se presta. Ancorada, como parece, na primeira Idade, a ligeira galera de cuja amurada Dora transparece as águas, voga ela à Terceira e no Atlântico de África e Brasil se transformará na Barca divina dos mais antigos que os gregos, aqueles que, fechando o ciclo, serão os primeiros dos últimos. Simultâneos primeiros e últimos, no único tempo que verdadeiramente importa: o que é contemporâneo do eterno
Agostinho da Silva, Carta de Agostinho da Silva sobre Talhamar (1988)

«Ornada de nastros
fareja a espuma,
olhos chamejantes, ante o mar.
(Na areia há poças de céu e nuvens,
nódoas de negras mariposas.)
A novilha baixa a cerviz, balindo,
mas não se afasta: fareja o hálito do Pai
e à vaga se entrega (para a morte, para a vida,
não sabe). Sopra o vento de Dionisos rubro
e em velo de ouro seu corpo se transmuda.

Fogem delfins. Alastram-se algas,
seres híbridos de progênie incerta.
A novilha flutua em luminoso torvelinho
às fitas de ouro enlaçada;
seus grandes olhos descem às profundezas
e vê as quatro portas do tenebroso Mar.
Borbulha o abissal; deuses se forjam e o tempo,
armam-se auroras de capacetes cintilantes
e sóis se diluem; do arcano do sono
nutrem-se sonhos e ao germinar infuso
treva e luz são arrancadas.

Vê os nomes primordiais
que às coisas conferem vida
e esplendor:
onde, sem nenhum apoio, finalmente está,
onde, sem ontem e amanhã, finalmente está
e fulgura sem que nada a ilumine.
A luz dali não vem, pois é a luz em seu primeiro vagido.

Nome não tem e a tudo nomeia
nas entrançadas raízes das coisas por nascer.
Não é, não existe, simplesmente está no Incontaminado
e fora do tempo, porque o tempo dele se origina.
A um suspiro seu, a cadeia da vida se propaga.

Diz a Palavra, desviando o olhar: A vida
é o ponto escolhido para o triunfo célere de um deus.
Cada pedra, cada homem ou árvore
vela e desvela uma face rápida e divina.
(Os deuses espreitam a vida com olhos temerosos.)
Porque a vida não é, a vida está.

nada ia no barco
e tudo era o Mar»
Dora Ferreira da Silva, Talhamar (1982)

*«A deusa do mar, a mais jovem das Titânidas, filha de Urano, o Céu, e de Gaia, a Terra. Seu nome em grego significa ama, nutriz»
Site

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Missão do Homem: Sonhar o Céu na Terra

( Google)

O Sol irradia a Luz do Mar, o Som irradia a Luz do Coração.
É o Coração do Mar que bate no Homem, o Som do Sol o Canto da Humanidade: a Luz da Alma-Sol.

O Espírito Vê pelos olhos do Corpo: espelho da Alma, pois é sendo eles que Ele vê pela Luz do Sol-Alma.
O Espírito Ouve em Luz pelos sentidos do Corpo, pois é o Corpo a Mãe-Terra que dá à Luz a Alma:

O Som dos Ouvidos cria a Luz da Visão, como os Ovários (sem Género) criam o Corpo de Luz. Mas é do Útero: do Olhar Único - Unido, que o Corpo nasce. Que o Homem Re(i)nasce.

O Som dos Ouvidos é o Som do Mar da Terra: o Som que cria a Luz da Visão é o mesmo Som que cria a Luz do Sol.
O Sol acompanha o Olhar do Homem:

Queira o Homem sonhar o Céu na Terra, assim Verá a Luz do Seu Sonho: Virá à Luz o Seu Sonho: o Céu na Terra!



Existe um povo*
Que a bandeira empresta
Para cobrir tanta infâmia e covardia
(...)
Levantai-vos, heróis do novo mundo


*de Luz: Luzófono: cujo Som é Luz!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O destino de Portugal e a visão profética de Joaquim de Flora

(Joaquim de Flora)
(Joaquim de Flora)

Joaquim de Flora (1135-1202) dividiu em três partes a História do Homem, decalcando-as das três pessoas divinas: Idade do Pai, Idade do Filho e Idade do Espírito Santo. Foi precisamente a convicção do abade cisterciense de que a última Idade ainda não tinha chegado que o tornou herético aos olhos da Igreja. Esta acreditava que após a vinda do tempo da "Lei", que se interpretava como sendo a Idade do Pai, a Idade do Filho, a época da presença de Cristo entre os Homens e a Era atual, o "tempo da Graça" regido pela Santa Igreja. Flora previa que o ano de 1260 fosse o ano do fim da Idade do Filho, começando a Idade do Espírito Santo imediatamente a seguir.

A inspiração do abade provinha diretamente do Antigo Testamento, nomeadamente de Isaías e na leitura que Daniel fez do sonho do rei Nabucodonossor, sobre a visão da estátua, composta por quatro metais diferentes, em níveis diferentes e representando cada um deles um diferente império mundial. A estátua seria destruída pela "pedra", entendida aqui com um... "Quinto Império", origem primeira do termo, aliás. Seria este o império que "nunca seria destruído e cuja soberania jamais passará para outro povo, pois submeterá e aniquilará todos os outros, e subsistirá eternamente" (Daniel, II, 44).

A leitura literal da profecia é anacrónica, pelo que a devemos colocar em contexto, naturalmente. Ou seja, se Daniel as encarava como sendo uma antecipação na vitória de Israel sobre os Estados vizinhos, e se depois Flora a interpretou como uma consagração da vitória do Cristianismo sobre os não-crentes. Depois dele, António Vieira buscaria aqui talvez inspiração para os seus impulsos milenaristas e, certamente - porque o claramente disse e escreveu várias vezes - também Agostinho da Silva encontraria em Flora o fundamento para o movimento religioso, social e até político que surgiu em Portugal no reinado de Dom Dinis, cruzando influências joaquimitas, com o legado trazido de Aragão pela rainha Isabel com um fundo local de fraternidade e humanidade que estava ainda muito vivo no interior português e que em última instância era até mais antigo em Portugal que o próprio Cristianismo.

A segunda parte, que começa com D. Dinis, é a História do mito do Quinto Império, enquanto a História dos Descobrimentos é, em boa medida, a história da Demanda do Preste João; nos tempos recentes, a História da nossa Restauração é a História do reavivar do mito sebástico e do mito do Quinto Império, como a prova a obra do Padre António Vieira na "História do Futuro".

Portugal confundir-se-ia assim com os propósitos que levaram Bernardo de Claraval a criar a Ordem do Templo. E assim, os destinos, caminhos e objetivos de Portugal e da Ordem do Templo confundir-se-iam. Portugal seria uma criação para a Ordem do Templo, um "reino templário", um conceito bem compatível com a defesa insistente feita em Portugal contra o mandato papal que exigia a extinção da Ordem. O projeto templário confundia-se com o projeto português e o grande motor da portugalidade que foi o processo dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa. O mito do "Quinto Império" que hoje ainda sobrevive com tanta energia na cultura lusófona é uma persistência desse perdido projeto templário, que se tentou concretizar em Portugal e na sua Expansão e que ainda verá a luz do dia, é nossa convicção e crença firmes.

Fonte:

Lima de Freitas; "Porto do Graal"; Ésquilo

Lima de Freitas: os dois mitemas fundamentais à Cultura portuguesa e lusófona em geral


O mestre Lima de Freitas identifica no "Porto do Graal" os dois mitemas essenciais que impulsionaram o processo dos Descobrimentos portugueses no século XIV e XVI:

1. Demanda do Preste João, que incorpora a Demanda do Graal, da procura pelo Paraíso terreal, enfim, da procura do "centro do mundo" evoliano que reponha o Homem em comunicação com o Divino.

2. O mitema da unificação do mundo, sob a forma do estabelecimento físico e mental do "reino do Espirito Santo" ou "Quinto Império", enfim, todos os temas oriundos do mesmo fundo milenarista de raiz judaica de onde brotou a vinda do Paracleto, o retorno de Dom Sebastião, assim como a "Ilha dos Amores" de Camões e a espera pela "nova Terra e novos céus" dos profetas do Antigo Testamento.

Compreender esta dualidade, é compreender o essencial da missão portuguesa no mundo. É esta dualidade que esta na base de toda a criação literária, mental, erudita e popular verdadeiramente "portuguesa" e isenta de estrangeirismos. É a busca pelo Graal que forma a base da fundação da Nacionalidade, exposta pela importância que esse mitema tinha no sistema mental templário. Após esta fundação, o movimento para o retorno a um mundo perdido, mais justo e humano é retomado em força, a partir de Dom Dinis, com a generalização do culto do Espírito Santo. O Graal era o motor da busca, o Reino o local.