A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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terça-feira, 28 de abril de 2009

O Mar

«Ser apenas o Amor, não ser quem ama.»
Teixeira de Pascoaes

«Dai-me uma alma transporta de argonauta,
Fazei que eu tenha, como o capitão
Ou o contramestre, ouvidos para a flauta
Que chama ao longe o nosso coração,
Fazei-me ouvir, como a um perdão,
Numa reminescência de ensinar,
O antigo português que fala o mar!»
Fernando Pessoa

Ser apenas o que falo, não ser quem fala.

terça-feira, 21 de abril de 2009

A Nov'Ilha do Mar: (de) Tétis*














(Wikipédia)
Regresso à Pangeia: Terra de Pã

«A vaca receberá
A nova gente que vem,
Com prazer de tanto bem
Seu lei-te derramará.

As chagas do Redemptor,
E Salvador
São as armas de nosso Rei:
Porque guarda bem a Lei,
E assim a grei
Do mui alto Creador.
Nenhum Rei, e Imperador,
Nem grão Senhor
Nunca teve tal signal,
Como este por leal,
E das gentes guardador.

Oh! quem tivera poder
Pera dizer,
Os sonhos que o homem sonha!
Mas hei medo, que me ponha
Grão vergonha
De mos não quererem crer.

Vi um grande Leão correr
Sem se deter
Levar sua viagem,
Tomar o porco selvagem
Na passagem,
Sem nada lho defender.

Tirará toda a erronia
Será paz em todo o Mundo
De quatro Reis o segundo
Haverá toda a victória.

Sonhava com grão prazer,
Que os mortos ressuscitavam,
E todos se alevantavam,
E tornavam a nascer.

E via aos que estão
Trás os rios escondidos;
Sonhava, que eram saídos
Fora daquela prisão.

Vejo um alto engenho
Em uma roda triunfante
Vejo subir um Infante
No alto de todo o lenho.


Desamparar o cortiço
Uma abelha mestra vejo;
As outras com muito pejo
Não têm asas para isso.»
Bandarra, Trovas

«(...) o disse João - só na terceira o Espírito virá pleno e, dissolvendo o fenómeno, dará a todos aquela santidade, aquele perder-se no Inominado, sem que perda haja, que só foi até hoje o de raros - e talvez sobretudo o daqueles que anónimos a Igreja celebra no dia que, em termos do porvir, mais fundo vai - o de Todos os Santos. Reino de Deus sem rei, porque sem súbditos; Império sem número algum, porque sem memória de que lhe antecederam e sem nenhum que venha a suceder-lhe; Sociedade sem classes, porque soltos os homens da política que os distingue; e da economia que os separa; da morte que a todo vivo a vida empalidece. Idade que virá e de que foi profeta o Cristo de João, ou o Abade Joaquim de Fiori, que Dante cita; Idade que fugazmente foi povo em Portugal e é Povo nas Ilhas atlânticas e é Povo no Brasil; naquele Portugal de Pessoa ortónimo ou heterónimo que em Dora vive, como outra ressurrecta ânfora, toda fremente de Mar Universal, mesmo que de lágrimas feito, e naquele Brasil, futuro do passado, que em Dora tão plenamente também vive, apesar de São Paulo - afinal tão mártir de uma técnica que, por ainda, como em todo o mundo, tateando seus passos, opressora parece, quando afinal em si traz mensagem plena de liberdade. Aquela liberdade por que ansiaram os gregos - e lhes foi apenas Democracia e Democracia de raros, como aliás o têm sido todas as Democracias; a liberdade que possuíram, depois, os Santos em sua Comunhão; mas Liberdade que só se afirmará, não sendo por ter substituído todo o ortodoxo e todo o heterodoxo pelo Paradoxo que tão raros ousaram e por ele morreram; mas que por ele ressurgirão num outro terceiro dia, em que mais escola alguma matará a Criança Eterna que todos deveríamos ser e se sentarão, como nós todos, se o ousarmos ser já, à mão direita de um Deus que não terá mais nenhum culto, se não o que a si próprio, por o ser, a Divindade se presta. Ancorada, como parece, na primeira Idade, a ligeira galera de cuja amurada Dora transparece as águas, voga ela à Terceira e no Atlântico de África e Brasil se transformará na Barca divina dos mais antigos que os gregos, aqueles que, fechando o ciclo, serão os primeiros dos últimos. Simultâneos primeiros e últimos, no único tempo que verdadeiramente importa: o que é contemporâneo do eterno
Agostinho da Silva, Carta de Agostinho da Silva sobre Talhamar (1988)

«Ornada de nastros
fareja a espuma,
olhos chamejantes, ante o mar.
(Na areia há poças de céu e nuvens,
nódoas de negras mariposas.)
A novilha baixa a cerviz, balindo,
mas não se afasta: fareja o hálito do Pai
e à vaga se entrega (para a morte, para a vida,
não sabe). Sopra o vento de Dionisos rubro
e em velo de ouro seu corpo se transmuda.

Fogem delfins. Alastram-se algas,
seres híbridos de progênie incerta.
A novilha flutua em luminoso torvelinho
às fitas de ouro enlaçada;
seus grandes olhos descem às profundezas
e vê as quatro portas do tenebroso Mar.
Borbulha o abissal; deuses se forjam e o tempo,
armam-se auroras de capacetes cintilantes
e sóis se diluem; do arcano do sono
nutrem-se sonhos e ao germinar infuso
treva e luz são arrancadas.

Vê os nomes primordiais
que às coisas conferem vida
e esplendor:
onde, sem nenhum apoio, finalmente está,
onde, sem ontem e amanhã, finalmente está
e fulgura sem que nada a ilumine.
A luz dali não vem, pois é a luz em seu primeiro vagido.

Nome não tem e a tudo nomeia
nas entrançadas raízes das coisas por nascer.
Não é, não existe, simplesmente está no Incontaminado
e fora do tempo, porque o tempo dele se origina.
A um suspiro seu, a cadeia da vida se propaga.

Diz a Palavra, desviando o olhar: A vida
é o ponto escolhido para o triunfo célere de um deus.
Cada pedra, cada homem ou árvore
vela e desvela uma face rápida e divina.
(Os deuses espreitam a vida com olhos temerosos.)
Porque a vida não é, a vida está.

nada ia no barco
e tudo era o Mar»
Dora Ferreira da Silva, Talhamar (1982)

*«A deusa do mar, a mais jovem das Titânidas, filha de Urano, o Céu, e de Gaia, a Terra. Seu nome em grego significa ama, nutriz»
Site

sábado, 18 de outubro de 2008

As rémoras

Naquela manhã quente de Setembro o termómetro indicava 35º e foi com algum sacrifício que vesti o meu fato semi-seco. A viagem de barco até à Ponta da Passagem foi célere mas mesmo assim ansiava o momento de rolar de costas rumo ao azul mais do que me é habitual.

Por fim o tão esperado momento mágico em que abandonamos o peso da gravidade e entramos no reino de Nereu.
Em contraste total a água estava fria, não passando dos 17º, foi com um alívio duplicado que senti a temperatura do neoprene descer rapidamente, avistei um cardume de sargos passeando pelo topo das rochas mais altas, olhando para baixo vi uma medusa ondulando os seus tentáculos na corrente e dou comigo a pensar que não consigo encontrar no fundo do mar uma criatura mesquinha como as moscas ou certos seres humanos.

A medusa adivinhou os meus pensamentos e disse-me para não olhar para ela, pois chatas eram as rémoras.
O pepino do mar sarapintado de pontos brancos avançou que mesmo assim elas apenas se colam aos peixes maiores e fazem-se passar por importantes, alimentando-se dos restos que estes deixam.

Eu acabei por acrescentar que lá em cima existem pessoas parecidas mas ao contrário das rémoras que apenas são uma preguiçosas e mandrionas essas juntam a esses predicados a maldade.

-Estás a pensar em alguém especificamente? - Perguntou-me o pepino.

-Não! Quer dizer talvez, mas não quero trazer esses seres para aqui para debaixo de água.

Um bodião-reticulado aproximou-se e segredou-me ao ouvido que talvez fosse uma boa ideia trazê-los mas sem garrafas!

-Não! Além de tudo sou um ecologista e isso de trazer lixo da superfície cá para baixo deixa-me horrorizado. Depois era dar muita importância a qem não a merece. Era bem melhor dar-lhes uma mão e apoiá-los a progredirem como seres humanos, mostrando-lhes que o caminho para a felicidade está dentro de nós e no AMOR e não no ódio nem na inveja.

Um sargo aproveitou a deixa e entrou na conversa.

-Porquê que vocês são assim? Quer dizer alguns de vocês.

-Não sei. Acho que ainda não viram a beleza do mundo, olham para os outros e invejam a sua felicidade e fazem tudo para que a destruir de maneira a ficarem como eles.

-Mas tu como consegues ser feliz? A vida até nem tem sido particularmente simpática, no entanto aqui estás sempre com um sorriso, sempre feliz.

-Sabes bem que nem sempre é assim mas eu tento sempre procurar a felicidade, mesmo nos momentos de mais completo desespero, acabo sempre por encontrar um par de minutos para contemplar o Oceano e sentir-me feliz por estar ali a inspirar o salgado sabor da maresia.


Fiquem Bem no Lado Escuro da Lua!

domingo, 14 de setembro de 2008

Ser Universal

Acordar inteiramente é passar a viver na superfície inconsciente do corpo-Terra, e este-a não existe dentro dos nossos pensamentos. O Homem acha-se criador de si mesmo e da realidade, esquece-se que é o Sol que o ilumina, não é ele que ilumina o Sol, que tudo o que suporta a sua existência está fora de si. Que é a sua mente que interpreta a realidade, mas que TODA ela é fruto do corpo-Terra. Que no seu interior, só o útero da Mulher representa plenamente essa mesma árvore.
Tudo o que existe hoje no mundo existe desde o princípio, a passagem do tempo está apenas a revelar o que encoberto ainda há, até que totalmente se descubra e se crie como ser universal que é. A Terra, como Plan-e-ta que cresce, desenvolve-se naturalmente, por si, e como ela o ser humano, ao ser uno com ela. A influência do consciente do Homem sobre si próprio é igual à do consciente da flor que brota da terra, que, como não o tem, é nenhuma.

O mar que gera as ondas é o mesmo mar do amor que gera o Homem. Cada onda forma-se porque se deixou formar, o Homem que resiste, resiste contra si próprio.
Do mar se forma a onda, da mãe se forma o filho, do corpo se forma a mente, de que serve querer o Homem controlar o próprio corpo que o forma? De que vale a onda querer controlar o mar? O Homem que se pensa como onda perde-se do mar que é, reduzindo-se a uma ideia sem corpo, a uma onda sem mar.
O ser humano esquece-se que não é só quando nasce que é formado pelo corpo da mãe, que continua vivo por estar sempre a ser formado pelo mar do seu corpo.
Agora percebo a minha indiferença quanto à actividade humana que se quer puramente consciente, não são mais do que ondas do mar, que ainda por cima se enganam a si mesmas como sendo algo mais do que o magno mar que as originou. O se-r-eno mar é o meu ser real, o horizonte que o une ao céu o meu único destino, ali onde o sol nasce rei, a ilha do sul onde veramente a cruz da vida floresce.

Assim como amar é deixar-se ser amado, viver é deixar-se ser vivido, que a vida -do Amor- nos viva, a que somos.

Madredeus

(Foto pessoal: do Cabo Espichel)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

NEPTUNO NA PRANCHA


a ciência desenha a onda, a poesia enche-a de água

Teixeira de Pascoaes




Envolto num halo de sal e de sol,
pequeno deus,
cavalgas a tua pequena nau
e sentes o poder
de domar o vento
e o medo.

A fome de mar é ancestral.
Hoje, é outro o adamastor,
é outra a descoberta:
ambos te esperam no abismo
que reside dentro de ti mesmo.


Há quem se procure no que vem de fora.
Tu há muito que entendeste

que é no regresso às origens

que te encontras.



Foto de Quim Oliveira.


domingo, 8 de junho de 2008

Conversas com o Mar I


Estou em Sagres, o vento sopra forte – como de costume por estas bandas – e trás calor, um ameno calor de verão. O mar é um amigo, por vezes cruel, por vezes doce, mas sempre pronto para nos escutar e dar os seus conselhos.

Não sabiam? O mar dá-nos conselhos, a maior parte das pessoas não os ouve, mas ele fala connosco, umas vezes suavemente, outras colérico, às vezes chega a ralhar. Experimentem a sentar-se na areia à sua beira, esperem em silêncio e vão ver que ele começa a falar convosco.

Uma vez contou-me que lá bem no fundo ele tem sereias, que são as mais belas criaturas do Universo, mas que elas estão magoadas com os Homens porque eles não ouvem o mar nem a elas. E tu? - Perguntei – Não ficas aborrecido dos Homens não te ouvirem? Ele riu-se, com aquelas gargalhadas que só ele consegue dar, e perguntou-me – E tu meu tonto? Não és tu um Homem? Não estás por acaso aqui a ouvir-me? - Voltou a rir-se cavernosamente, e acrescentou – Há mais marés do que marinheiros, nunca ouviste? Assim, eu já cá estava antes de vocês chegarem e cá vou continuar depois de vocês partirem, por poucos de vocês que me ouçam é bem melhor do que quando não havia ninguém para me ouvir.

Fiquei triste, imaginando como era solitária a vida do mar, ele pousou-me um dos seus braços em cima de mim e exclamou – Anda brincar, a tua vida são 2 dias, tens de aproveitá-la, eu às vezes tenho pena de vocês, vivem a correr de um lado para o outro e a trabalhar e não têm tempo para brincar. Olha eu já era adulto quando vi a humanidade nascer e não passa um dia que não brinque, se não for aqui contigo, brinco na Califórnia com os leões-marinhos, senão no Brasil com os golfinhos. Olha! Um dia apresento-te às sereias, vais ver como são bonitas e danadas para a brincadeira, tens é que continuar a ser um brincalhão, senão elas nem te querem ver.