«O som é casto, não despe a sua túnica de névoa e só os anjos o contemplam.
A carne é água, o sangue é fogo, o esqueleto é pedra. E a alma? Névoa e fumo...
A palavra veste a alma como a carne o esqueleto.»
Teixeira de Pascoaes, O Bailado
«Tudo é música e a sua dimensão silenciosa, que o silêncio é o substractum da música, o leito da mobilidade ondulatória e a natureza fantástica das cousas. Há só música e orelhas surdas ou de mercador e olhos fechados contra a luz. Quem se atreve a ver e a ouvir? Quem se atreve a dar um passo para além da noite? O ideal é estarmos vivos, dentro do túmulo. Dormir, eis o ideal da besta carregada; mas dormir um sono consciente, dormir gozando o próprio sono, a doce quietação, o desmaio delicioso. Como é belo divagar no crepúsculo, nessa praia ocidental, onde quebra a vaga do sol e a espuma do luar nos molha os pés...»
Teixeira de Pascoaes, O Homem Universal
«Este é o canto do amor em que te falo
Para que escutando sejas minha
Este é o poema – engano do teu rosto
No qual busco a abolição da morte
As paredes são brancas e suam de terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar
Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites
Porque será que não há ninguém no mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar (...)
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança
(...)
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome
(...)
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro
(...)
E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
(...)
Caminho nos caminhos onde o tempo
como um monstro a si próprio se devora
O teu rosto era mais antigo do que todos os navios
No gesto branco das tuas mãos de pedra
Ondas erguiam seu quebrar de pulso
Em ti eu celebrei minha união com a terra
Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes...
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras...
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio (...)
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento
O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto
Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias
Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves grandes vagos
Lagos
Reflectindo o mundo
E eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços»
Sophia, No Tempo Dividido, Dual, Geografia
A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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quarta-feira, 22 de abril de 2009
domingo, 24 de agosto de 2008
O Largo da Graça
1-Amor e Amizade
A síntese perfeita: "Amar o Amor", li em Agostinho da Silva. Ou seja, Amor é mesmo Amar - o si, os outros e o mundo.
"Sei que a poesia está para a prosa assim como o Amor está para a Amizade. E quem há-de negar que esta lhe é superior?", ouvi numa canção do Caetano Veloso.
Um Amigo ainda é mais que o Amor (Deus)? Bem, talvez o Caetano seja ateu...
(P.S.: O título do textinho tem música. Basta clicar em cima. A postagem desta música é dedicada ao António Telmo, ele lá saberá porquê.)
Luis Santos
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
As Letras do Caetano Veloso
Você já pegou as Letras do Caetano Veloso
Para ler direito em vez de só simplesmente ouvir?
Pense no Haiti-Carandiru mas pegue as letras no estojo
Para você poder se situar - e escolher se Sentir
E senti-las em grudes - as palavras rimam
Porque as Letras do Caetano Veloso brilham
Como carvão vegetal
Na escuridão mental dos horrores
E sirvam-se radicais frilas
Porque as Letras de Caetano Veloso dizem sabores
Coisas que soadas não falam cores
É preciso portanto um atiçado lê-las
As Letras de Caetano Veloso têm estrelas
Porque hoje é sábado tire o encarte colorido
Da capa do qualquer um jóia mesmo cedê
Você pega umas e outras no embalo havido
Desliga o som cáustico e as letras todas lê
As Letras de Caetano Veloso - craque da MPB
São letras que adbduzem à mim e à você
As Letras de Caetano Veloso tem a subtração
Do que desdizem na exato mosaico de fragmentação
E nas entrelinhas dizem coisas claras como sumo em pó
Criando pêlo em ovo e sol maior sem dó
As Letras de Caetano Veloso precisam ser lidas
E divulgadas como mensagens de santos suicidas
Pois trazem sapiências que só compreenderemos quando
Descobrirmos que Caetano Veloso não é um só - mas um bando
E diz exatamente um bando loquaz quando
Atrás de si, todo elétrico sempre sai soando...
As Letras de Caetano Veloso têm um pan-concretismo
Usando um experimentalismo todo cínico-irônico com sofismo
Que ele dodecafônico tira música de pedra e a poesia rima
Cantando bregas baladas ainda cem por cento por cima
As Letras de Caetano Veloso merecem ser revistas
E almanaques e ensaios - e até Antrologias
Saque um encarte mãos ao alto e siga as pistas
Puras dialéticas faladas em sons e poesias
As Letras de Caetano Veloso têm tudo a ler
Experimente desligar o som são tantas as esgrimas
Na retina da lucidez o achado é jazida de puro prazer
As latinidades pós-modernas com macunaimas
Por isso ao ouvir Caetano Veloso sem as Letras
Pense na Dona Canô, no grande palco-philco da Grã Bethânia
Mas pregue o encarte no olhar zen e adquira as trombetas
Que ele berra para muito além desse gueto marginália infâmia
O Haiti-Sampa é aonde você for
Alegria-Alegria mesmo qualquer esparramo amor
Porque o Caetano Vianna Telles Veloso poeta-cantor
É gomo além pop como um sabor
De menta-eucaliptal ou levedo-andor
Pimenta-cajá-hortelã-ariticum
Sempre meio a meio em infinito UM.
As Letras de Caetano Veloso dizem
Mais do que você mesmo pode supor-ver
E enxergar no claro é não ter picumã-fuligem
Em uma alumbrada iluminura interior prazer
Como fruta-pão - pássaro-flor
Moenda e caroço uns e outros são e vão e hão
No labiríntico tropical dessa alumbração
As Letras de Caetano Veloso são os olhos ultrapássaros dele
DENTRO E SOBRE TODAS AS COISAS
Silas Corrêa Leite, da Estância Boêmia de Itararé-SP, Cidade Poema
Site do autor: www.portas-lapsos.zip.net
E-mail: poesilas@terra.com.br
sábado, 16 de agosto de 2008
Caetano Veloso contra remoção da calçada portuguesa em Salvador
O compositor e cantor brasileiro Caetano Veloso manifestou hoje, em declarações à imprensa da Bahia, a sua forte oposição ao desmantelamento da calçada portuguesa no Porto da Barra, em Salvador.
"O calçamento português é marca importante da nossa vida física e espiritual. Os incómodos que porventura venham de sua má conservação não são motivo para destruí-lo" - afirmou.
E acrescentou: "Em São Luís do Maranhão (actualmente a cidade mais bonita do Brasil), as antigas calçadas portuguesas foram restauradas com o esmero técnico adequado e não provocam trepidação em carrinhos de bebé nem engolem saltos de madames. E são vastas e extensas áreas da cidade que as ostentam. As praças de Lisboa apresentam a mesma firmeza e a mesma elegância."
"É caso para se ouvirem os especialistas, respeitarem-se os locais históricos e míticos, esboçar-se uma reestruturação inteligente da cidade (...) Então, um lugar como o Porto da Barra pode ser violado assim? Não. Protesto veementemente."
Fonte: Embaixada de Portugal no Brasil, 15-08-08.
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