A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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sábado, 28 de novembro de 2020

Miguel Torga: Ensaios de Filosofia e Literatura

PREFÁCIO | Maria Luísa Malato

MIGUEL TORGA – A PALAVRA VOTIVA | Isabel Ponce de Leão

REVISITAÇÃO À OBRA “A VINDIMA” DE MIGUEL TORGA: UMA LEITURA ESTÉTICA E ÉTICA | António Júlio Rebelo

MIGUEL TORGA: UMA LEITURA PEDAGÓGICA DE A CRIAÇÃO DO MUNDO | Artur Manso

“SE TUDO É TORGA, TORGA É TUDO”: TORGA LIDO POR LOURENÇO | Hugo Monteiro

DA PAISAGEM IRROMPE A PERSONAGEM: CONSIDERAÇÕES ESTÉTICAS SOBRE A OBRA DE MIGUEL TORGA | Joaquim Braga

SOBRE TORGA E O 25 DE ABRIL | Luís G. Soto

UMA SERRA PARA DOIS POETAS: TORGA E PASCOAES | Maria Celeste Natário

ENTRE O CÉU E A TERRA: DO RELIGIOSO E DO MÍSTICO NA POESIA DE MIGUEL TORGA | Patrícia Calvário

ENTRE MIGUEL TORGA E AGOSTINHO DA SILVA: AFINIDADES (IN)SUSPEITAS | Renato Epifânio

MIGUEL TORGA, UM ANIMAL OBSTINADO | Rodrigo Araújo

A EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL DO SAGRADO EM MIGUEL TORGA | Samuel Dimas

O “GOSTO DA RESPONSABILIDADE ASSUMIDA”: A IDEIA DA TÉCNICA NO DIÁRIO DE MIGUEL TORGA | Tiago Mesquita Carvalho

TORGA, UMA POESIA DA ALMA E DA PAISAGEM: ENRAIZAMENTO E VIAGEM | Joaquim Escola

MIGUEL TORGA, UMA POESIA DA ALMA E DA PAISAGEM | Isabel Alves e Maria Hercília Agarez  

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Nos 20 anos da sua morte: Torga na NOVA ÁGUIA 16

Carlos Carranca, “AQUI, DIANTE DE MIM”: Tempos de aprendizagem na vida e na obra de Miguel Torga

Foi na idade dos doze anos que, acompanhado por meu Pai, subi, pela primeira vez, ao andar superior da Livraria Atlântida, na rua Ferreira Borges da cidade de Coimbra, com o propósito de adquirir alguns livros do poeta que adoptara como meu – Miguel Torga. Até aos dias de hoje, que o autor de Poemas ibéricos me vem ajudando a abrir alguns cenários literários, assim como orientando muito do que sou ética e politicamente. Que isto da Literatura não se basta a si mesma.

(excerto) 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

De João Bigotte Chorão, para a NOVA ÁGUIA 16...


É esse Torga que lembro na hora crepuscular do adeus. Um Torga que o leitor talvez tenha dificuldade em reconhecer no Diário. O diário nem sempre é o espelho mais fiel do autor, que, em geral, não regista os momentos felizes porque esses não têm história. De sorte que só abre o caderno para lhe confiar o que é negativo as horas e os dias de abandono, solidão e incompreensão. Que é a literatura — e mais do que todas a literatura intimista — senão a tentativa de preencher o vazio da vida e de sublimar carências afectivas, morais, intelectuais?
Cartas sem Resposta (excerto)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Miguel Torga: passam hoje 18 anos...

A 17 de Janeiro de 1995, morre, em Coimbra, o escritor Miguel Torga, nome literário do médico Adolfo Correia da Rocha. Proposto várias vezes para o Prémio Nobel da Literatura, a sua vasta obra abrange a poesia, o romance, o teatro, o conto, as crónicas de viagem e as memórias. Entre os seus textos mais conhecidos estão Os Bichos (1940), Odes (1946) e os 16 volumes do seu Diário, abrangendo o período entre 1941 e 1993. Ganhou o Prémio Internacional de Poesia (1977), o Prémio Montaigne (1981) e o prémio Luís de Camões (1989).

Fonte: O Leme

domingo, 12 de agosto de 2012

Para o Miguel Torga, no dia em que faria 105 anos

Brotas do chão
Sem flor, só raiz
Rocha em tronco

És uma torre
Deste xadrez
Do pátrio chão

No cimo de ti
Mais alvo se vê
O fundo da terra

quarta-feira, 18 de maio de 2011

MIGUEL TORGA NA PENA DE MANUEL ANTUNES S.J.


DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Quem se debruçar sobre a obra do fabuloso erudito padre Manuel Antunes, - o único professor catedrático da Faculdade de Letras que juntamente com David Mourão- Ferreira não precisou de prestar provas para ocupar a cátedra -, encontrará no seu livro Legómena – Textos de Teoria e Crítica Literária (1), múltiplas referências a escritores portugueses e estrangeiros, nomeadamente, a Miguel Torga.

É sobre as alusões de Manuel Antunes ao poeta de S. Martinho de Anta que nos vamos debruçar.

As primeiras referências a Torga surgem no ensaio intitulado «Panorama Literário Português de 1952» (2) e reportam-se à poesia. Assim, depois de falar de José Régio e do seu irmão Saul Dias, escreve o seguinte: “Outro poeta que também fez parte da ‘Presença’, mas que, breve, se autonomizou pela descoberta e pela adesão a um telurismo agónico, Miguel Torga, deu-nos ‘Alguns Poemas Ibéricos’ onde se encontram das coisas mais significativas da sua maneira, apesar de, pela contextura exterior, o livro se aproximar da ‘Mensagem’ de F. Pessoa. É que, antes de ser europeu – que o é, como demonstram certos fragmentos do seu ‘Diário’ – M. Torga é visceralmente peninsular: do centro, não da orla marítima.” (3) Da apreciação antuniana ressaltam três ideias charneira, a reter: telurismo agónico, semelhança com a Mensagem pessoana, e, visceralmente peninsular do centro. A primeira e a última radicam no simbolismo do seu pseudónimo: Torga, a pequena urze que resiste às inclemências do clima transmontano; Miguel como Cervantes, Molina e Unamuno. A segunda referência tem como tema a produção novelística do autor, isto é, “certos contos de Miguel Torga” (4)

A referência seguinte a Torga encontramo-la no ensaio «Pequena Crónica de Poesia» (5), quando Manuel Antunes ao analisar a poesia de A. Leitão a compara com a do vate de S. Martinho de Anta, escrevendo: “Como Miguel Torga, em certos de seus momentos, fatalista e revoltado: Faço-me altivo ao rumo de acabar/ Já que fui resolvido na matriz/ Num gesto – sorte de moeda ao ar!” (6)

A próxima referência ao autor de Bichos surge no artigo «Aspectos do Panorama Literário em 1953» (7), quando Antunes escreve o seguinte sobre o Diário VI, uma das obras paradigmáticas deste escritor e, que atingirá a edição de 16 volumes:”Miguel Torga prossegue um longo diálogo, em prosa e verso, sobre o destino do homem e o nosso destino de povo. Revolta contra o Absoluto ou aceitação da Transcendência? Europeização ou nacionalismo? E o autor vai optando pelos primeiros termos sem que, no entanto, a decisão final tenha sido dada. É trabalho para mais largo e atento estudo.” (8)

A derradeira referência a Torga aparece no artigo «Aspectos do Panorama Literário Português de 1954» (9) quando Antunes fala do livro da poesia torguiana, Penas do Purgatório, vencedor do Prémio Almeida Garrett, e do de Adolfo Casais Monteiro intitulado Voo sem Pássaro Dentro, afirmando que ambos têm em comum: “o antiteísmo e a vontade crispada de se fincarem na terra, de aderirem à terra; o irrequietismo insatisfeito, atravessado, lá bem no fundo, porquê? Pela nostalgia duma perfeição, dum universo entrevisto melhor. Mas este drama, idêntico na raiz – substancialmente idêntico – diversifica-se. Em Torga, aparece-nos o homem como que talhando-se vivo no próprio ser, criando-o e criando-se a si mesmo como um absoluto: daí a forma rude, descarnada, essencial, mas completa. (…) Dois poetas da revolta, vivos hoje, nestes nossos tempos prometeicos mas, talvez mais vivos ainda pela afirmação de Amor que essa revolta, no fundo, implica.” (10)

1 – Manuel Antunes S.J., Legómena – Textos de Teoria e Crítica Literária, Organização e selecção de Maria Ivone de Ornellas de Andrade, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1987, 587 pp.
2 – Id., ibid., pp. 233-241.
3 – Id., ibid., p. 234.
4 – Id., ibid., p. 238.
5 – Id., ibid., pp. 246-251.
6 – Id., ibid., p. 250.
7 – Id., ibid., pp. 285-292.
8 – Id., ibid., pp. 290-291.
9 – Id., ibid., pp. 363-370.
10 – Id., ibid., p. 364.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

LIVROS LIDOS POR MIGUEL TORGA E CITADOS NO DIÁRIO (II)



DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Terminámos o artigo anterior com uma apreciação negativa a Baudelaire da parte de Miguel Torga transcrita do Diário I, porém, o autor de S. Martinho de Anta volta a falar do autor de As Flores do Mal no Diário II, ao mesmo tempo que o compara com outros três autores, como se constata na seguinte passagem:
“Coimbra, 22 de Dezembro de 1942 – Não há dúvida nenhuma: se um leitor não se tem firme nos pés diante de certos livros e de certos autores, acontece-lhe como quando a gente se debruça a uma alta janela e olha com adesão exagerada para o fundo: atira-se dali abaixo. E coisa curiosa: tanto monta que o aceno venha dum clássico, como dum romântico, como dum realista, como dum futurista. Desde que a mão feiticeira que o faz saiba da sua poda, um homem, que ainda ontem era enforcado de Villon, passa a satânico de Baudelaire sem qualquer cerimónia. Por mim, já esta semana tive tentações de ser o Bimnarder da Menina e moça, o António de Faria da Peregrinação, o Nathanael das Nourritures terrestres, e não sei que mais. Mas é claro que me segurei ao parapeito da janela, e não cedi à atracção do abismo. – Calma! Calma – ia murmurando, a ter mão no juízo. Calma, que mais vale um caldo de couves em choupana nossa, do que um lauto banquete em palácio alheio.” (D. II, pp. 96-97)
Como já se percebeu, os autores que vimos citando aparecem aqui por ordem alfabética. Assim, depois de Baudelaire, surge Raul Brandão, o autor português de quem Torga cita a obra Os Pescadores.
“Leiria, 9 de Julho de 1939 – Berlengas o dia inteiro. Vide Raul Brandão, página 195 de Os Pescadores. (Para que raio há-de a gente estar para aqui a presumir).” (D. I, P. 99)
Em seguida, surgem diversos livros e seus respectivos autores ligados à Índia: Tagore, Fernão Mendes Pinto e Rudyard Kipling. Ao lado desses escritores, outros dois magos do pensamento humano – Buda e Gandhi.
“Coimbra, 9 de Agosto de 1941 – A propósito da morte de Tagore, fui reler coisas da Índia. Daquela Índia maravilhosa, que em mim começa em Fernão Mendes Pinto, passa pelo Buda, e acaba no Rudyard Kipling. Li, e perdi-me como sempre num fantástico labirinto humano, onde até um Deus pode morrer ortodoxamente duma indigestão de carne de porco. Passei pelos jejuns do Gandhi, pelo barqueiro que esteve um ano a fio a contemplar uma árvore, e só parei diante de um extraordinário monge, rapaz novo ainda, de lindos olhos, pelos quais a esposa de um mercador se enamorou. A tentá-lo, a mulher parecia a serpente do Paraíso. Falava-lhe daqueles olhos como das riquezas de um marajá. Mas ele sabia disto de castidade. E não esteve com meias medidas: arrancou um olho, e secou o pecado da cobra pondo diante do fogo do seu desejo aquele pedaço de carne sangrento e feio. (…)” (D. I, p.199)
Segue-se Byron, o autor que tratou tão mal os portugueses, quando os confrontou com as belezas de Sintra, pelas quais se apaixonou.
“Coimbra, 25 de Janeiro de 1937 – Leitura de uma «Vida de Byron». Não há dúvida nenhuma que aquele homem foi uma espécie de Henrique VIII do reino da poesia. Coragem de ser quem era, e coragem de pôr a sua realeza ao serviço do seu corpo. Pessoalmente, prefiro um Shelley honrado, a sustentar o sogro, a dar lebre por lebre, e sem sombras de incesto. Mas é evidente que se não fossem os Byrons que de vez em quando aparecem na família dos poetas, a humanidade, com o desprezo que tem por nós, já nos tinha mandado capar a todos.” (D. I, p. 35)

sábado, 9 de abril de 2011

APRECIAÇÃO DE LIVROS FEITA POR TORGA NO DIÁRIO (I)



DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Vejamos o que o escritor Miguel Torga escreveu acerca das obras que leu ao longo da sua vida e cujo registo nos deixou nos dezasseis volumes que constituem a sua colossal obra, a que chamou Diário.
A primeira referência tem duas vertentes, como constatamos no texto seguinte, um escritor policial chamado Armstrong, e o célebre norte-americano William Faulkner:

“Monte Real, Agosto de 1938, Quarta – É preciso dizer isto. É preciso fazer esta confissão, mesmo que a posteridade depois desista da lápide. É preciso dizer que li hoje de enfiada dois romances policiais, dum tal Sr. Armstrong, e que gostei. E acrescentar que tinha ao lado, interrompida, A Luz de Agosto de Faulkner.” (D. I, p. 72)

Seguem-se dois livros escritos por franceses – Maupassant e Flaubert -, ao mesmo tempo que os compara com outros dois seus compatriotas, Zola e Balzac:

“Coimbra, 2 de Fevereiro de 1942 - Une vie. Um assombro, a cena do velório. Mas este Maupassant era mau aluno. Ouviu as lições do Flaubert, ouviu, e ficou-se na sua: - génio. E com ele escreveu os seus eternos contos, a rir-se dos romances do Zola, do Balzac, e até dos do próprio mestre, excluindo, Madame Bovary, claro está.” (D. II, p. 26)

Os próximos livros referidos pelo poeta de S. Martinho de Anta referem-se a autores portugueses. São eles, Carlos Malheiro Dias, Camilo Castelo Branco e o Bandarra. Por comparação, cita ainda, Eça de Queirós e o padre António Vieira:

“Coimbra, 20 de Outubro de 1941 – Outra morte no pequeno mundo das nossas letras. Também não era um génio, Carlos Malheiro Dias. A lição que o Eça lhe deixou merecia outro entendimento. Se a aprendesse, aquela Paixão de Maria do Céu nem teria os limites do Vieira, nem o melaço das rabanadas. Seria um grande romance. Mas, quê! O autor convenceu-se de que era preciso reaportuguesar o Amor de Perdição que o Camilo atirara à barra do Doiro, na esperança fundada de que, como ao vinho do Porto, dali qualquer barco veleiro o levaria à Europa. E vá de recolher o náufrago, de lhe cegar os olhos que luz da França conspurcara, e de o reintegrar na solidão montanhesa do solar dos Sepúlvedas. É triste e desanimador. Mas aos românticos e aos realistas, a quem o mundo só meteu medo na medida em que o não conheciam, sucedeu uma gente estranha, maníaca dum Portugal à base de D. Sebastião e das alheiras de Chaves. E pronto: lá regressa a pobre da nossa literatura ao Bandarra e ao Flos Sanctorum – atoleiro que parece ser, afinal, o seu íntimo destino.” (D. II, pp. 18-19)

Torga volta de novo, à literatura anglo-saxónica, para falar de duas obras, Daphne Adeane e The Fountain, como se comprova com a leitura do seguinte excerto do Diário:

“Coimbra, 16 de Abril de 1941 – Segunda leitura de Daphne Adeane do Baring. Nada que se possa comparar à emoção forte que senti a primeira vez. Tenho a impressão de que certos livros vivem duma espécie de ópio que trazem diluído nas páginas por abrir. A gente prova o veneno, e não resiste. Mais tarde, quando estamos já vacinados, a estrutura frágil do conteúdo aparece em toda a sua extensão. É claro que Daphne Adeane continua a ter boas cenas, bom diálogo, e que todo o livro é bem escrito e bem arquitectado. Mas precisamente porque as manhas com que foi feito eram para toldar de mistério certo enredo, uma vez o mistério revelado, a gente verifica que o travejamento, afinal, não é de carvalho, resistente a qualquer hora e a qualquer leitura, como o The Fountain, por exemplo.” (D. I, P. 184)

A terminar (por hoje), fiquemo-nos com a referência torguiana a uma obra de Baudelaire, onde compara este poeta com Tolstoi, Morgan e Rilke:

“Caldas da Rainha, 15 de Setembro de 1939 – As Fusées de Baudelaire. Decididamente, não pertenço a semelhante raça. Aquilo, de resto, não é nada, a não ser o fígado a dar sinais de si. Ao pé de um Tolstoi, de um Morgan, de um Rilke, coisas assim parecem realmente vómitos biliosos.” (D. I, p. 111)

Para além das muitas ilações que se podem tirar dos excertos seleccionados do Diário de Torga, não podemos deixar de chamar a atenção para a erudição e os conhecimentos literários do grande escritor português.

domingo, 31 de janeiro de 2010

FERNANDO NAMORA


DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO

A 31 de Janeiro de 1989, faleceu o escritor e médico, Fernando Namora, nascido em Condeixa-a-Nova, a 15 de Abril de 1919.
Após licenciar-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, começou a exercer, primeiro na sua terra natal, e depois na Beira Baixa e no Alentejo. Testemunho desta actividade é o seu livro em dois volumes, Retalhos da Vida de um Médico, 1949-1963.
Estreou-se no universo literário com o livro de poemas Relevos 1938.
Três anos mais tarde, com o seu terceiro livro de poesia – Terra 1941 – deu início à colecção «Novo Cancioneiro», órgão do movimento literário neo-realista.
No campo da prosa, nomeadamente no romance, com o título As Sete Partidas do Mundo 1938, ganhou o Prémio Almeida Garrett.
A sua produção literária é vasta e variada. Assim, além da poesia e do romance, publicou contos, novelas, memórias, narrativas de viagem e biografias romanceadas.
Fernando Namora é dos escritores portugueses contemporâneos mais divulgados em todo o mundo, sendo as seguintes, as suas obras principais:
Casa da Malta 1945; Minas de S. Francisco 1946; Domingo à Tarde 1961; Rio Triste 1982.

***
DIÁRIO DO ESCRITOR

“Coimbra, 31 de Janeiro de 1966 – Os limites da angústia não coincidem obrigatoriamente com os limites da liberdade. Mas há terras onde nada impede que essa harmonia se realize, e deve ser bom ter o sentimento de que assim é. Pelo que me diz respeito, parece que morro sem conhecer o gosto de uma tal experiência humana. Aqui, a liberdade tem os limites do nosso corpo, e a angústia os da nossa alma.”

MIGUEL TORGA, Diário X, Coimbra, 1995, p. 979.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA FUNDA O TEMPO E O MODO


DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO

A 29 de Janeiro de 1963, António Alçada Baptista, nascido na Covilhã a 29 de Janeiro de 1927, funda a revista de cultura O Tempo e o Modo, da qual foi director na sua primeira fase, até 1969.

António Alçada Baptista formou-se em advocacia na Faculdade de Direito de Lisboa. Dedicou-se ao jornalismo, tendo sido director do jornal O Dia, e à difusão cultural através da editora Moraes.

Em 1984 exerceu o cargo de presidente do Instituto Português do Livro.

A sua produção literária é multifacetada, passando pelo ensaio, crónica, memorialismo e narrativa, tendo como característica principal, a tentativa da transformação do homem e da sociedade por imperativo interior de uma forte vinculação à transcendência, sendo a sua obra mais significativa, Peregrinação Interior.

Animado por este espírito, António Alçada Baptista funda a revista de cultura O Tempo e o Modo, com um grupo de estudantes universitários que participavam na «Acção Católica». A revista segue o modelo da Esprit, tornando-se um símbolo da geração de 60.

No dizer de João Bénard da Costa, a grande novidade da revista foi “institucionalizar historicamente o diálogo entre crentes e não-crentes”

Mário Soares, numa homenagem a António Alçada Baptista confessou que, este último, o convidou, e também a Salgado Zenha, para integrarem o quadro de redactores da revista, ao que Soares terá respondido que era agnóstico. Mesmo assim, os redactores da revista foram a votos, tendo, porém, rezado antes da votação um Pai-Nosso.

Após a votação, Soares e Zenha foram admitidos nos quadros da revista.

DIÁRIO DO ESCRITOR

29 de Janeiro de 2009

A PRIMEIRA DESILUSÃO

Logo que soube que ias à festa,

Passei a noite no desatino do ata, desata.

Apesar de jeitoso não me safei,

Sem pedir ajuda para o nó da gravata.

Com a lâmina rapei a pouca barba,

Penteei a trunfa, vesti o domingueiro fato.

E já que por ti pusera a odiada coleira,

Cuspindo, engraxei o bicudo sapato.

Os rapazes levavam altas bebidas,

As meninas comida para os tolos.

Ao meu pai surripiei uma garrafa de whisky,

Para te impressionar comprei uma dúzia de bolos.

Logo que tocou o primeiro slow,

Fui-te buscar para dançar.

Sentir todo o teu corpo no meu,

Foi tão bom que não deu para acreditar.

Disseste ires ao WC no fim do salão,

De mão dada com outro te vi a sair.

Tornaste-te na minha primeira desilusão,

E fizeste-me embebedar até cair.

Os rapazes levavam altas bebidas,

As meninas comidas para tolos.

Ao meu pai surripiei uma garrafa de wihsky,

Para te impressionar comprei uma dúzia de bolos.

JOSÉ LANÇA-COELHO

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

TEÓFILO BRAGA

DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO

A 28 de Janeiro de 1924, em Lisboa, faleceu o escritor e político Joaquim TEÓFILO BRAGA, que nasceu na ilha açoriana de Ponta Delgada, em 24 de Fevereiro de 1843.

Profissionalmente, começou por ser tipógrafo, tendo ele próprio composto o seu primeiro livro de poesia, intitulado Folhas Verdes (1860).

No ano seguinte, 1861, começou a estudar Direito na Universidade de Coimbra, participando na célebre polémica literária que opôs os românticos aos realistas, ficando conhecida por «Questão Coimbrã» e que opôs o grupo de António Feliciano de Castilho ao de Antero de Quental.

Finalmente, em 1868, doutorou-se em Direito.

De 1872 até 1910, ano da implantação da República, Teófilo Braga regeu a «cadeira» de Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras, em Lisboa.

Militante no Partido Republicano, de tendência socializante e anticlerical, presidiu ao governo provisório, surgido após a revolução republicana do 5 de Outubro de 1910, e foi Presidente da República durante algum tempo em 1915.

Dissemos acima que, Teófilo Braga se estreou no mundo das Letras, com um livro de poesia, estilo literário que cultivou até ao fim da sua vida, embora se tenha distinguido, sobretudo, no campo da história literária.

Teófilo Braga foi um dos principais apóstolos do sistema filosófico do positivismo em Portugal, que se reflecte na enciclopédia da história cultural portuguesa que nos legou.

* * *
DIÁRIO DO ESCRITOR

Serra da Estrela, 28 de Janeiro de 1973


NEVE

O banquete é de fria solidão.

Mas vale a pena ser,

Num intervalo limpo de viver,

Conviva na toalha desta mesa

Lavada e posta

No chão da natureza,

E, deslumbrado, ter

O gosto da mais pura

Brancura

Que a fome das pupilas pode ver.


Miguel Torga, Diário XI, Coimbra, 1995, p. 1136.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

AFONSO LOPES VIEIRA

.
José Lança-Coelho

DA MEMÓRIA…AFONSO LOPES VIEIRA

Leiria, 26.1.1878-Lisboa, 25.1.1946


Ainda criança veio morar para Lisboa, onde faria o Liceu. Com dezoito anos, em 1894, foi estudar para a Universidade de Coimbra, onde se formou em Direito (1900).

Após se casar, em 1902, viajou pela Europa, de onde regressou com a ideia de “reaportuguesar Portugal, tornando-o europeu”. É nesta matriz que se insere, o reavivar da obra literária de Gil Vicente, fazendo com que reaparecesse nos nossos palcos o homem de génio que introduziu o Teatro em Portugal. A sua “Campanha Vicentina” tem como precioso colaborador, o actor Augusto Rosa, que compreendeu os seus ideais.

As representações vicentinas do «Mestre da Balança» no velho Teatro da República arrebataram o público, tornando-se um exemplo que frutificou em Amélia Rey Colaço, para quem Afonso Lopes Vieira actualizava os textos, ao mesmo tempo que, preparava conferências, que eram autênticas lições de erudição, acessíveis a todas as inteligências.

A Mestre Gil Vicente seguiu-se o imortal Camões, autor para quem encontra a prestimosa colaboração do professor José Maria Rodrigues. Ambos publicam Os Lusíadas e a Lírica de Luís Vaz, fornecendo um inestimável serviço à cultura nacional.

Também as suas adaptações de O Romance de Amadis (1922), A «Diana» de Jorge de Montemor (1924) e O Poema do Cid (1929) contribuíram para valorizar a língua portuguesa.

Grande amigo das crianças escreveu para elas livros como, Animais Nossos Amigos, Conto Infantil, Fernão Mendes no Japão e Bartolomeu Marinheiro. Deste último, aqui fica a conhecida quadra:


“Que era o mar antigamente?

Um quarto escuro.

Onde os meninos tinham medo de ir…

O mar agora é amplo e seguro.

E foi um português que o foi abrir!”


O mar foi um dos dois grandes motivos da sua inspiração poética, como se pode constatar, visitando a sua casa de S. Pedro de Muel, ao lado da seiva revigoradora dos cancioneiros e do romanceiro português, como podemos constatar no seguinte poema:




FLORES DO VERDE PINHO


Ó meu jardim de saudades,

Verde catedral marinha

E cuja reza caminha

Pelas reboantes naves…


Ai flores do verde pinho,

Dizei que novas sabedes

Da minha alma, cujas sedes

Me perderam no caminho!


Revejo-te e venho exangue;

Acolhe-me com piedade,

Longo jardim de saudade

Que me puseste no sangue.


Ai flores do verde ramo,

Dizei que novas sabedes

Da minha alma, cujas sedes

Ma alongaram do que eu amo!


- A tua alma em mim existe

E anda no aroma das flores

Que te falam dos amores

De tudo o que é lindo e triste.


A tua alma, com carinho,

Eu guardo-a e deito-a, a cantar,

Das flores do verde pinho

- Àquelas ondas do mar.


(in País Lilás, Desterro Azul)


As obras principais da sua poesia são: Rosas Bravas 1911, Canções do Vento e do Sol 1911, Ilhas de Bruma 1917, País Lilás, Desterro Azul 1922, e Onde a Terra se Acaba e o Mar Começa 1940.

Colaborou em revistas como, A Águia 1911, e Lusitânia 1924-1927, publicou a novela Marques 1904, para além de peças de teatro, conferências e ensaios.

Poeta, prosador, filólogo, investigador, honrou a literatura e a arte portuguesas.


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DIÁRIO DO ESCRITOR


“Coimbra, 25 de Janeiro de 1979 – É escusado. Cada português que se preza é uma muralha de suficiência contra a qual se quebram todas as vagas da inquietação. Conhece tudo, previu tudo, tem solução para tudo. E quando alguém se apresenta carregado de dúvidas, tolhido de perplexidades, vira-lhe as costas ou tapa os ouvidos. Um mínimo de atenção ao interlocutor seria já uma prova de fraqueza, uma confissão de falibilidade. Quanto mais apertado o seu horizonte intelectual, mais porfia na vulgaridade das certezas que proclama. Não há maneira humilde e cabeçuda dos que se limitam a transmitir sem análise um saber ancestral, mas como um presumido doutor, impante de mediocridade.”


MIGUEL TORGA, Diário XIII, Coimbra, 1995, p. 1288.

sábado, 23 de janeiro de 2010

RAFAEL BORDALO PINHEIRO

DA MEMÓRIA …JOSÉ LANÇA-COELHO
23 DE JANEIRO
RAFAEL BORDALO PINHEIRO


Este desenhador e ceramista nasceu em Lisboa, a 21 de Maio de 1846 e, faleceu, nesta mesma cidade, a 23 de Janeiro de 1905.
Na capital do país, frequentou as Belas-Artes e o Curso Superior de Letras e, na década de 70 do século XIX, o seu nome começou a ser falado nas lides artísticas portuguesas. Tal facto, porém, não obstou a que, em 1875, embarcasse para o Rio de Janeiro, tornando-se assim, num dos raros emigrantes artísticos do seu tempo. No entanto, a sua estadia no país irmão, não durou mais do que quatro anos, devido às invejas que os seus confrades brasileiros lhe votavam, pela sua qualidade artística.
Muitas das inovadoras ideias do artista ficaram registadas nos jornais brasileiros, que, posteriormente foram desenvolvidas nos jornais portugueses, como a invenção de figuras-tipo extraídas do quotidiano da política e do social, de que é caso paradigmático, o famoso ‘Zé-Povinho’ (1875), nascido nas páginas do jornal humorístico, A Lanterna Mágica, e que será uma constante na obra de Rafael Bordalo Pinheiro, nomeadamente, em A Paródia, no Álbum das Glórias.
Ao contrário de outras figuras míticas representativas de outras nações, como o inglês ‘John Bull’, ou o norte-americano ‘Tio Sam’, o ‘Zé-Povinho’ não é uma figura exemplar, pelo contrário, ele é o representante paradigmático de um povo ou país, que, em qualquer circunstância, como por exemplo, na revolta, é constantemente a alegre vítima das instituições. Por outro lado, ele tem também um estatuto individualizado, uma vez que é a representação do próprio Rafael Bordalo Pinheiro, envelhecendo com ele no eterno, e bem lusíada «sempre à espera».
O seu labor e capacidade artística levam-no, não só, a ser considerado o maior caricaturista e desenhador humorista português do século XIX, mas também, um precursor da Banda Desenhada e da publicidade artística.
Por sugestão do escritor Ramalho Ortigão (Porto 24.10.1836-Lisboa 27.9.1915), orientou o seu trabalho no barro, para a criação, em 1885, da Fábrica de Faiança das Caldas da Rainha, onde desenvolverá uma cerâmica criativa de vários objectos, como pratos, jarras, bilhas e azulejos, algumas vezes monumental como nas célebres peças, a Talha Manuelina de 1892, ou na Jarra Beethoven, eivada de características naturalistas extremamente coloridas.
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DIÁRIO DO ESCRITOR
Coimbra, 23 de Janeiro de 1979 – Um farrapo. Aparentemente ninguém diz, mas eu é que sei como caio aos bocados por dentro. Nunca devia ter nascido. Sem jeito para viver, arrasto-me no mundo como se ele não fosse o meu ambiente natural. Quando era novo, já admitia num poema Ser qualquer desgraça acontecida / Fora do seio mãe da natureza. Só que os versos dizem sempre mais do que o poeta adivinha, e é passados muitos anos que consciencializo a verdadeira extensão daquele lamento. Sim, sou mesmo o que então intuí. Um pobre homem absurdo que nunca se acostumou a respirar fora do líquido amniótico.
Miguel Torga, Diário XIII, Coimbra, 1975, p.1288.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ainda em memória de Miguel Torga...

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DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO

UM EPISÓDIO DESCONHECIDO DA BIOGRAFIA DE MIGUEL TORGA

Andei a remexer nuns velhos papéis que me enchem as gavetas da secretária, e dei com esta página de ‘Diário’, ainda manuscrita num lápis cinzento deslavado, que transcrevo em letra de forma:

Mem Martins, 2 de Dezembro de 1999 – Mais um dia de peregrinação pelas escolas a favor da divulgação literária. Mem Martins, Primária nº1, foi o estabelecimento de ensino que me acolheu, para a habitual palestra sobre os meus modestos livros, que finaliza sempre com uma sessão de questões, onde os meus leitores me perguntam «tudo e mais alguma coisa». Nesta última parte, mesmo que não seja questionado sobre esse tema, falo sempre dos meus escritores preferidos, e, claro, é impossível não referenciar Miguel Torga. Acabo de dizer quanto gosto deste transmontano, como artesão da escrita e como verdadeiro representante do que deveria ser a espécie humana, sobretudo, no que respeita à solidariedade e à luta contra todas as formas de opressão e intolerância, quando sou inesperadamente interrompido pela voz da directora da escola, que assiste à palestra com a turma a que dá aulas.

- Só a mim é que ele havia de dar um estalo!

Se esta exclamação me surpreende, por outro lado, deixa-me adivinhar, fascinado!, um episódio desconhecido da vida de um dos escritores que considero meu Mestre. Que terá acontecido entre Torga e esta minha colega de profissão? As únicas palavras que me ocorrem são:

- Quem me dera ter levado esse estalo! Pelo menos, era sinal que o tinha conhecido pessoalmente, como tanto gostava…

A professora explica-me então, a sua afirmação, começando por concordar com a coerência e justeza intelectual do escritor, porém, a sua exclamação reporta-se ao médico Adolfo Correia da Rocha que o pseudónimo Miguel Torga comporta.

Conta que é de S. Martinho de Anta, - essa terra mítica que é uma das grandes capitais do Mapa da Literatura Universal -, que aos doze anos teve de ser operada às amígdalas, no hospital de Vila Real, que quando sentiu o efeito da anestesia lhe pareceu sufocar, começando a espernear freneticamente.

As suas pernas de criança aflita foram bater no cirurgião, que, caindo para trás, se estatelou contra a mesa onde estavam os instrumentos necessários à operação. Vendo a atrapalhação da miúda, o médico que, como já se percebeu, era o meu mestre Torga envergando a imaculada bata da profissão, assim que se levantou, foi junto da paciente e, com o tal estalo bem dado, ajudou-a a receber o resto da anestesia que lhe faltava, adormecendo-a em definitivo para a necessária intervenção cirúrgica.

Aqui está, pois, um incidente, que não me lembro de Torga referir num dos meus dezasseis livros de cabeceira, que correspondem a outros tantos volumes do seu Diário. Uma das muitas coisas que me fascina na espécie humana são estes pequenos episódios do quotidiano, a que os grandes vultos da Humanidade não dão valor, talvez até por fazerem parte do seu dia-a-dia, mas que nós, ‘os mais comuns dos mortais’, andamos sempre a farejar, não só pelo pitoresco que encerram, como também porque essas situações nos dão uma perspectiva desconhecida da pessoa a quem se referem, e a aproximam mais da nossa realidade e natureza humanas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ainda em memória de Miguel Torga...

DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
TORGA – 15 ANOS DE SAUDADE

O grande Homem que foi o cidadão e o escritor Miguel Torga, deixou-nos no dia 17 de Janeiro de 1995, fez ontem quinze anos de saudade.

Como, em virtude do fim-de-semana, me encontrava num local onde a Internet não funciona, aqui estou hoje, 18 de Janeiro, a render-lhe a minha humilde homenagem, com a transcrição de o único poema, escrito neste dia, nos dezasseis volumes que constituem o seu fabuloso Diário.

Coimbra, 18 de Janeiro de 1949


PEQUENA HISTÓRIA DE UM MITO

O pregador da vida, quando começou,

Queria nascer também.

E o que pregou,

Pregou bem.

Porque além das quimeras que pregava,

Mostrava

Frutos e flores em cada mão.

E o povo gostava,

E acreditava nele e no sermão.

Mas o tempo passou,

O pregador cresceu,

E a sua fé murchou,

E o seu amor morreu.

O pregador da vida já não tem fiéis.

Na sua velha igreja abandonada

Não há mais nada

Senão capitéis

Onde a seiva parou petrificada.

Miguel Torga, Diário IV, 3ª edição, Coimbra, p. 153.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Passam hoje 15 anos...

A 17 de Janeiro de 1995, morre, em Coimbra, o escritor Miguel Torga, nome literário do médico Adolfo Correia da Rocha. Proposto várias vezes para o Prémio Nobel da Literatura, a sua vasta obra abrange a poesia, o romance, o teatro, o conto, as crónicas de viagem e as memórias. Entre os seus textos mais conhecidos estão Os Bichos (1940), Odes (1946) e os 16 volumes do seu Diário, abrangendo o período entre 1941 e 1993. Ganhou o Prémio Internacional de Poesia (1977), o Prémio Montaigne (1981) e o prémio Luís de Camões (1989).

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

NO 102º ANIVERSÁRIO DE MIGUEL TORGA

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TEIXEIRA DE PASCOAIS NO DIÁRIO DE TORGA

JOSÉ LANÇA-COELHO

No vasto Diário de Miguel Torga composto por 16 volumes existem apenas quatro referências a Pascoais, três no VIº volume, e uma no XIIº.
Comecemos então por ver o que escreveu o poeta de S. Martinho de Anta acerca do seu émulo de Amarante.
A primeira referência data de 25 de Agosto de 1952, e foi escrita nas termas de Caldelas, onde Torga passava períodos regulares, em que não deixava de fazer as suas apreciadas digressões pelo solo Ibérico. Assim, depois de referir a sua visita às localidades de Ribeira de Pena, Cerva e Mondim, diz o seguinte do rio Tâmega, onde destaca os escritores Camilo Castelo Branco e Teixeira de Pascoais, como margens:
“Um Tâmega de vinho verde, ora físico ora metafísico, indeciso entre a prosa de Camilo e a poesia de Pascoais, e a Senhora da Graça, no alto dum parafuso de macadame, com ricas vistas redondas.” (1)
A segunda e a terceira datam de 15 de Dezembro de 1952, foram escritas em Coimbra, e relacionam-se com a morte de Pascoais.
Torga começa por recordar uma homenagem feita a este poeta, dizendo que a mesma foi a mais bonita que a cidade dos doutores fez a todos que já celebrou.
“ (…) fez-me bem a lembrança da recente e festiva tarde primaveril em que ajudei a coroá-lo de flores, na mais bela homenagem que Coimbra prestou jamais a alguém.” (2)
Em seguida, o autor de A Criação do Mundo faz uma afirmação desfavorável à poesia de Pascoais, dizendo que, o poeta de O Grito que Deus Ouve é uma “(…) nova glória ambígua [que] surge no Olimpo doméstico da nossa poesia.”(3)
Esta ambiguidade emerge do facto de o nome de Pascoais se ir colocar ao lado de outros dois ou três que, não se podem deixar de referir, sempre que se procede a uma sentida homenagem, mas onde o autor de Elegias “ficará sempre esfumado e contingente”(4) devido, a não ter sido capaz de uma renovação dos temas que tratou.
De seguida, Torga especifica essa temática do seguinte modo:
1º no que respeita à vivência do amor em relação à do autor de Os Lusíadas:
“ e eu penso na sua vivência do amor, tão banal ao lado da de Camões” (5)
2º numa representação da morte ainda exterior, quando os autores que abordavam este tema já o representavam com uma decisiva interioridade:
“ na sua representação da morte, ainda de foice à nossa espera ao canto da rua, quando outros no-la mostravam já dentro de nós”(6)
Em suma, o autor de o Diário conclui que, por um lado, “O pseudo-pensamento, a metafísica de caixa alta, as sínteses-arbitrárias e o resto, são escuridões que só geniais relâmpagos de intuição e de autêntica beleza, marcadamente seus, conseguem iluminar.” (7); e, por outro, “A ascese que redimiu a poesia, e é por certo a maior conquista que se fez ultimamente no campo do espírito, não a pôde entender o autor de Marânus.”(8)
Esta crítica negativa que Miguel Torga expressa relativamente ao autor de Arte de ser Português acentua-se, quando o primeiro escreve: “faltou a Pascoais a compreensão de que o abandono emotivo passara a ser fiscalizado implacavelmente, para que nenhum elemento impuro viesse toldar a claridade sucinta do poema. Criança no mais rigoroso e temporal sentido, o Poeta não conseguiu a ordenação adulta dos grandes criadores.”(9)
Porém, ao terminar esta página do Diário, Torga redime a obra de Pascoais, ao afirmar que o grande interesse da mesma radica na eterna infância do autor e na ingenuidade a ela subjacente: “E é talvez nessa infância que durou uma vida, na perplexa visão dum mundo informe, e na ingénua maneira de o testemunhar, que reside o interesse e o problema da sua personalidade e da sua obra.”(10)
Finalmente, a derradeira referência a Pascoais, adquire um carácter extremamente positivo, uma vez que o autor de São Paulo ombreia com os maiores vultos da poesia nacional, e surge no Diário XII, tendo sido escrita em Bruxelas, a 6 de Junho de 1977, e consta de uma comunicação que Torga foi fazer à capital belga integrada na bienal «Knocke» como diz nesta sua página diarística, acerca da poesia portuguesa. Assim, escreve: “ Nela cantaram e cantam grandes vultos inspirados, de Camões a Fernando Pessoa, de Bernardim Ribeiro a Teixeira de Pascoais.”(11)

Notas:
(1) Miguel Torga, Diário VI, 3ª ed., Coimbra, 1978, p. 119.
(2) Idem, idem, p. 142.
(3) Id., id., p. 142.
(4) Id., id., p. 142.
(5) Id., id., p. 142.
(6) Id., id., p. 142.
(7) Id., id., p. 142.
(8) Id., id., p. 143.
(9) Id., id., p. 143.
(10)Id., id., p. 143.
(11) Miguel Torga, Diário XII, Coimbra, 1995, p. 1242.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Mais um texto que nos chegou...

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TEIXEIRA DE PASCOAIS NO DIÁRIO DE TORGA

JOSÉ LANÇA-COELHO

No vasto Diário de Miguel Torga composto por 16 volumes existem apenas quatro referências a Pascoais, três no VIº volume, e uma no XIIº.
Comecemos então por ver o que escreveu o poeta de S. Martinho de Anta acerca do seu émulo de Amarante.
A primeira referência data de 25 de Agosto de 1952, e foi escrita nas termas de Caldelas, onde Torga passava períodos regulares, em que não deixava de fazer as suas apreciadas digressões pelo solo Ibérico. Assim, depois de referir a sua visita às localidades de Ribeira de Pena, Cerva e Mondim, diz o seguinte do rio Tâmega, onde destaca os escritores Camilo Castelo Branco e Teixeira de Pascoais, como margens:
“Um Tâmega de vinho verde, ora físico ora metafísico, indeciso entre a prosa de Camilo e a poesia de Pascoais, e a Senhora da Graça, no alto dum parafuso de macadame, com ricas vistas redondas.” (1)
A segunda e a terceira datam de 15 de Dezembro de 1952, foram escritas em Coimbra, e relacionam-se com a morte de Pascoais.
Torga começa por recordar uma homenagem feita a este poeta, dizendo que a mesma foi a mais bonita que a cidade dos doutores fez a todos que já celebrou.
“ (…) fez-me bem a lembrança da recente e festiva tarde primaveril em que ajudei a coroá-lo de flores, na mais bela homenagem que Coimbra prestou jamais a alguém.” (2)
Em seguida, o autor de A Criação do Mundo faz uma afirmação desfavorável à poesia de Pascoais, dizendo que, o poeta de O Grito que Deus Ouve é uma “(…) nova glória ambígua [que] surge no Olimpo doméstico da nossa poesia.”(3)
Esta ambiguidade emerge do facto de o nome de Pascoais se ir colocar ao lado de outros dois ou três que, não se podem deixar de referir, sempre que se procede a uma sentida homenagem, mas onde o autor de Elegias “ficará sempre esfumado e contingente”(4) devido, a não ter sido capaz de uma renovação dos temas que tratou.
De seguida, Torga especifica essa temática do seguinte modo:
1º no que respeita à vivência do amor em relação à do autor de Os Lusíadas:
“ e eu penso na sua vivência do amor, tão banal ao lado da de Camões” (5)
2º numa representação da morte ainda exterior, quando os autores que abordavam este tema já o representavam com uma decisiva interioridade:
“ na sua representação da morte, ainda de foice à nossa espera ao canto da rua, quando outros no-la mostravam já dentro de nós”(6)
Em suma, o autor de o Diário conclui que, por um lado, “O pseudo-pensamento, a metafísica de caixa alta, as sínteses-arbitrárias e o resto, são escuridões que só geniais relâmpagos de intuição e de autêntica beleza, marcadamente seus, conseguem iluminar.” (7); e, por outro, “A ascese que redimiu a poesia, e é por certo a maior conquista que se fez ultimamente no campo do espírito, não a pôde entender o autor de Marânus.”(8)
Esta critica negativa que Miguel Torga expressa relativamente ao autor de Arte de ser Português acentua-se, quando o primeiro escreve: “faltou a Pascoais a compreensão de que o abandono emotivo passara a ser fiscalizado implacavelmente, para que nenhum elemento impuro viesse toldar a claridade sucinta do poema. Criança no mais rigoroso e temporal sentido, o Poeta não conseguiu a ordenação adulta dos grandes criadores.”(9)
Porém, ao terminar esta página do Diário, Torga redime a obra de Pascoais, ao afirmar que o grande interesse da mesma radica na eterna infância do autor e na ingenuidade a ela subjacente: “E é talvez nessa infância que durou uma vida, na perplexa visão dum mundo informe, e na ingénua maneira de o testemunhar, que reside o interesse e o problema da sua personalidade e da sua obra.”(10)
Finalmente, a derradeira referência a Pascoais, adquire um carácter extremamente positivo, uma vez que o autor de São Paulo ombreia com os maiores vultos da poesia nacional, e surge no Diário XII, tendo sido escrita em Bruxelas, a 6 de Junho de 1977, e consta de uma comunicação que Torga foi fazer à capital belga integrada na bienal «Knocke» como diz nesta sua página diarística, acerca da poesia portuguesa. Assim, escreve: “ Nela cantaram e cantam grandes vultos inspirados, de Camões a Fernando Pessoa, de Bernardim Ribeiro a Teixeira de Pascoais.”(11)

Notas:
(1) Miguel Torga, Diário VI, 3ª ed., Coimbra, 1978, p. 119.
(2) Idem, idem, p. 142.
(3) Id., id., p. 142.
(4) Id., id., p. 142.
(5) Id., id., p. 142.
(6) Id., id., p. 142.
(7) Id., id., p. 142.
(8) Id., id., p. 143.
(9) Id., id., p. 143.
(10) Id., id., p. 143.
(11) Miguel Torga, Diário XII, Coimbra, 1995, p. 1242.