A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Extracto da Comunicação para o Colóquio sobre a Seara Nova (FLUL, 28-30 de Outubro)
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Entre os movimentos da Renascença Portuguesa e da Seara Nova - da Lusitanidade à Lusofonia: o caso de Agostinho da Silva.
Dentre as cisões que animaram a nossa história cultural, a cisão Renascença Portuguesa-Seara Nova é, decerto, uma das mais fracturantes, senão mesmo a mais fracturante.
Perante ela, parece fácil tomar posição. Tanto mais porque, historicamente, foi a Seara Nova que parece ter vencido, pelo menos nesse plano retórico onde muitas vezes, senão sempre, se joga o destino das histórias culturais.
Segundo essa mesma retórica, temos, de um lado – da Renascença Portuguesa –, um movimento saudosista, logo passadista, logo reaccionário, que, alegadamente, pretendia enclausurar Portugal em si próprio[2]; do outro lado – da Seara Nova –, temos um movimento progressista, modernizador, que, ao invés, pretendia abrir Portugal à Europa, a todo o mundo…
Como quase todas as visões caricaturais, também esta é tão substancialmente falsa quanto acidentalmente verdadeira. É verdade que a Renascença Portuguesa – na perspectiva de Pascoaes, em particular – sobrepunha, como veremos, os paradigmas endógenos aos exógenos. Isso não faz dele, contudo, a priori, menos progressista.
O que aqui há são diversas concepções de progresso, e mesmo de modernidade. Se, para Teixeira de Pascoaes, “o fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas”[3], para Raul Proença, por exemplo, o paradigma é de facto outro. Ouçamos, para o atestar estas suas palavras:
“O nosso espírito, a nossa maneira de encarar os problemas, o nosso modo de os resolver, as ideias fundamentais que formamos da vida e do mundo, tudo isso que é o que importa numa sociedade, porque é o que nela há de garantias para uma sociedade melhor, são coisas anacrónicas, sem relação nenhuma com o meio europeu em que nos integramos fisicamente. É como se fossemos uma pústula no meio da Europa, onde circula ininterruptamente sangue sempre novo e sempre vivificante. Como estremunhados pensamos ideias que não são para o nosso tempo, continuamos num sonho distante, estranhos à actividade, estranhos ao pensamento moderno”[4].
De facto, estamos aqui perante dois paradigmas: de um lado, pugnava-se por um progresso a partir de dentro, que fosse fiel à nossa alegada singularidade histórico-cultural; do outro, pugnava-se por uma adequação de Portugal ao que aparentava ser o exemplo máximo de modernidade: a Europa.
Esta divergência – de ordem cultural, filosófica e até ideológica – foi, de resto, assumida, de uma forma tanto mais nobre porquanto não envolveu qualquer desqualificação ético-moral da “outra parte”.
Foi esse, por exemplo, o caso de Raul Proença, que se referiu aos seus “oponentes” do movimento da Renascença Portuguesa como “criaturas de alto valor, de nobre senso moral, credoras da nossa admiração e do nosso respeito”[5]. O que é de enaltecer, pois que, entre nós, o mais habitual é as divergências de ordem cultural, filosófica e até ideológica redundarem em desqualificações ético-morais…
Neste caso, isso não aconteceu, até porque a divergência era de facto clara: entre, por exemplo, alguém como António Sérgio, que “não se pensava sob a categoria do nacional”[6], e alguém como Teixeira de Pascoaes, que pensou a Pátria como “um ser vivo superior aos indivíduos que o constituem, marcando, além e acima deles, uma nova Individualidade”[7], era claramente difícil, senão impossível, haver um caminho comum…
*
Não obstante, houve casos que ultrapassaram essa fronteira aparentemente intransponível: prova de que os percursos pessoais são sempre irredutíveis a todos os rótulos, a todas as etiquetas…
Exemplo máximo disso foi, a nosso ver, o caso de Agostinho da Silva. Não tendo sido propriamente um “renascente” – até por questões de ordem etária: Agostinho da Silva nasceu em 1906, apenas 6 anos antes da criação do movimento da Renascença Portuguesa – alguns textos de juventude aproximam-se, bastante, do ideário da Renascença.
Atentemos, por exemplo, no seguinte texto:
AS RESPONSABILIDADES DE EÇA DE QUEIROZ[8]
(...)
Comparemo-lo agora com o seguinte texto, escrito apenas cinco anos após, quando Agostinho da Silva militava já nas fileiras da Seara Nova[9]:
DA IMITAÇÃO DA FRANÇA[10]
(...)
A diferença, de facto, dificilmente poderia ser maior. No primeiro texto, acusa Eça de Queiroz de ter criado “um ambiente de desprezo pela pátria” – eis, de resto, a acusação que Agostinho da Silva imputou a toda a “Geração de 70”, à excepção de Francisco Manuel de Melo Breyner, conde de Ficalho, que, ao contrário dos outros, “não teve pessimismos, não considerou a nação falida, não troçou de ninguém”[11]. No segundo, conclui com seguinte exortação: “Imitemos a França, imitemo-la inteiramente…”.
Cerca de uma década e meia depois, já no Brasil – para onde parte em 1944 –, vai, contudo, Agostinho da Silva reencontrar a nossa singularidade histórico-cultural – para ele, de resto, como ele próprio escreverá, foi a criação do Brasil que terá “definitivamente livrado Portugal das daninhas influências europeias que não o deixaram ter nem regime cultural nem acção nem política verdadeiramente adequadas à sua mentalidade”[12], antes procuraram “fazer de Portugal uma Dinamarca latina”[13].
Esse reencontro não se constituiu todavia como um regresso. Ainda que tenha retornado a este país, em 1969, aqui permanecendo os últimos vinte e cinco anos da sua vida – Agostinho da Silva faleceu no dia 3 de Abril de 1994 –, o autor da Reflexão à margem da literatura portuguesa jamais verdadeiramente regressou. Desde os anos cinquenta o seu horizonte foi sempre já outro: não já a Lusitanidade, não já Portugal, mas a Lusofonia, a Comunidade Lusófona, da qual Portugal era apenas uma extensão, a extensão europeia. No princípio de um novo século, eis o novo horizonte que se depara aos nossos olhos[14].
[2] Partindo desta perspectiva, mais ou menos expressamente enunciada, inevitável é depois falar-se do “esgotado movimento da Renascença Portuguesa e da revista A Águia” (como, por exemplo, in Seara Nova: Razão, Democracia, Europa, Porto, Campo das Letras, 2001, p. 7). Como visão contrapolar a esta, refira-se, nomeadamente, a de José Marinho, para quem “com a ‘Renascença Portuguesa’, e com tudo quanto se lhe segue em afinidade espiritual ou crítico contraste, surge a mais funda transmutação na vida espiritual portuguesa desde o Renascimento.” [cf. Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, Porto, Lello, 1976, pp. 224-225].
[3] Cf. “Manifesto da Renascença Portuguesa”, in A Vida Portuguesa, ano l, nº 22, 10/2/1914, pp. 10-11.
[4] In A Vida Portuguesa, Ano I, nº 22, 10/ 02/ 1914, p. 12
[5] Idem, ibidem.
[6] Cf. “Prefácio” a O Mundo que o Português criou, de Gilberto Freyre, Lisboa, Livros do Brasil, 1940, p. 10.
[7] In A Arte de Ser Português, Lisboa, Delraux, 1978, p. 33.
[8] In Acção Académica, Porto, 15 de Outubro de 1925, ano I, nº 3, p. 3.
[9] Agostinho da Silva aproximou-se em particular de António Sérgio, a quem inclusivamente chegou a reconhecer como seu “mestre” – isto apesar destas suas considerações: “…Sérgio não ousou afrontar os problemas filosóficos mais profundos, as questões de dúvida. Preferia manter-se na certeza.”; “Mesmo como pedagogo, a sua atitude tendia a ser de grande arrogância intelectual.” [cf. Dispersos, introd. de Fernando Cristóvão, apres. e org. de Paulo A. E. Borges, Lisboa, ICALP, 1988/ 1989 (2ª, revista e aumentada)., p. 55]. Como, contudo, o próprio Agostinho reconhece, o seu discipulato relativamente a Sérgio cumpriu-se, sobretudo, por oposição: “…mas ele [Sérgio] não me ensinou o racionalismo: ensinou-me antes o irracionalismo, por reacção minha.” [cf. Francisco Palma Dias, “Agostinho da Silva, Bandeirante do Espírito”, in AA.VV., Agostinho [da Silva], São Paulo, Green Forest do Brasil Editora, 2000, p. 155]. Nessa medida, ainda que indirectamente, Agostinho terá sido, muito mais do que um “discípulo de Sérgio”, um “discípulo de Leonardo” – António Telmo considerou-o mesmo, de resto, como “o último discípulo de Leonardo Coimbra” [cf. “Testemunho”, in Diário de Notícias, 4/4/1994]. Isto apesar do próprio Agostinho da Silva, na sua expressão algo jocosa, “nunca ter sido leonardesco” [cf. AA.VV., Agostinho [da Silva], ed. cit., p. 155] –, não obstante ter reconhecido a sua “largueza de espírito” [cf. Dispersos, ed. cit., p. 174]. Mais do que discípulo de Leonardo, Agostinho terá permanecido sempre, sobretudo, discípulo da Faculdade de Letras do Porto enquanto “escola de liberdade” [cf. ibid., p. 147].
[10] In Seara Nova, Lisboa, nº 197, 23 de Janeiro de 1930.
[11] Cf. “Desconhecidos, quase”, in Vida Mundial, 12/11/1971, p. 25.
[12] Cf. Reflexão à margem da literatura portuguesa, in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira, Lisboa, Âncora, 2000, vol. I, p. 66.
[13] Cf. “Desconhecidos, quase”, in Vida Mundial, 12/11/1971, p. 25.
[14] A esse respeito, uma breve referência à NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI (www.novaaguia.blogspot.com) e ao MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (www.movimentolusofono.org). Ambos, de diversos modos, procuram, no princípio deste novo século, cumprir esse horizonte.
Entre os movimentos da Renascença Portuguesa e da Seara Nova - da Lusitanidade à Lusofonia: o caso de Agostinho da Silva.
Dentre as cisões que animaram a nossa história cultural, a cisão Renascença Portuguesa-Seara Nova é, decerto, uma das mais fracturantes, senão mesmo a mais fracturante.
Perante ela, parece fácil tomar posição. Tanto mais porque, historicamente, foi a Seara Nova que parece ter vencido, pelo menos nesse plano retórico onde muitas vezes, senão sempre, se joga o destino das histórias culturais.
Segundo essa mesma retórica, temos, de um lado – da Renascença Portuguesa –, um movimento saudosista, logo passadista, logo reaccionário, que, alegadamente, pretendia enclausurar Portugal em si próprio[2]; do outro lado – da Seara Nova –, temos um movimento progressista, modernizador, que, ao invés, pretendia abrir Portugal à Europa, a todo o mundo…
Como quase todas as visões caricaturais, também esta é tão substancialmente falsa quanto acidentalmente verdadeira. É verdade que a Renascença Portuguesa – na perspectiva de Pascoaes, em particular – sobrepunha, como veremos, os paradigmas endógenos aos exógenos. Isso não faz dele, contudo, a priori, menos progressista.
O que aqui há são diversas concepções de progresso, e mesmo de modernidade. Se, para Teixeira de Pascoaes, “o fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas”[3], para Raul Proença, por exemplo, o paradigma é de facto outro. Ouçamos, para o atestar estas suas palavras:
“O nosso espírito, a nossa maneira de encarar os problemas, o nosso modo de os resolver, as ideias fundamentais que formamos da vida e do mundo, tudo isso que é o que importa numa sociedade, porque é o que nela há de garantias para uma sociedade melhor, são coisas anacrónicas, sem relação nenhuma com o meio europeu em que nos integramos fisicamente. É como se fossemos uma pústula no meio da Europa, onde circula ininterruptamente sangue sempre novo e sempre vivificante. Como estremunhados pensamos ideias que não são para o nosso tempo, continuamos num sonho distante, estranhos à actividade, estranhos ao pensamento moderno”[4].
De facto, estamos aqui perante dois paradigmas: de um lado, pugnava-se por um progresso a partir de dentro, que fosse fiel à nossa alegada singularidade histórico-cultural; do outro, pugnava-se por uma adequação de Portugal ao que aparentava ser o exemplo máximo de modernidade: a Europa.
Esta divergência – de ordem cultural, filosófica e até ideológica – foi, de resto, assumida, de uma forma tanto mais nobre porquanto não envolveu qualquer desqualificação ético-moral da “outra parte”.
Foi esse, por exemplo, o caso de Raul Proença, que se referiu aos seus “oponentes” do movimento da Renascença Portuguesa como “criaturas de alto valor, de nobre senso moral, credoras da nossa admiração e do nosso respeito”[5]. O que é de enaltecer, pois que, entre nós, o mais habitual é as divergências de ordem cultural, filosófica e até ideológica redundarem em desqualificações ético-morais…
Neste caso, isso não aconteceu, até porque a divergência era de facto clara: entre, por exemplo, alguém como António Sérgio, que “não se pensava sob a categoria do nacional”[6], e alguém como Teixeira de Pascoaes, que pensou a Pátria como “um ser vivo superior aos indivíduos que o constituem, marcando, além e acima deles, uma nova Individualidade”[7], era claramente difícil, senão impossível, haver um caminho comum…
*
Não obstante, houve casos que ultrapassaram essa fronteira aparentemente intransponível: prova de que os percursos pessoais são sempre irredutíveis a todos os rótulos, a todas as etiquetas…
Exemplo máximo disso foi, a nosso ver, o caso de Agostinho da Silva. Não tendo sido propriamente um “renascente” – até por questões de ordem etária: Agostinho da Silva nasceu em 1906, apenas 6 anos antes da criação do movimento da Renascença Portuguesa – alguns textos de juventude aproximam-se, bastante, do ideário da Renascença.
Atentemos, por exemplo, no seguinte texto:
AS RESPONSABILIDADES DE EÇA DE QUEIROZ[8]
(...)
Comparemo-lo agora com o seguinte texto, escrito apenas cinco anos após, quando Agostinho da Silva militava já nas fileiras da Seara Nova[9]:
DA IMITAÇÃO DA FRANÇA[10]
(...)
A diferença, de facto, dificilmente poderia ser maior. No primeiro texto, acusa Eça de Queiroz de ter criado “um ambiente de desprezo pela pátria” – eis, de resto, a acusação que Agostinho da Silva imputou a toda a “Geração de 70”, à excepção de Francisco Manuel de Melo Breyner, conde de Ficalho, que, ao contrário dos outros, “não teve pessimismos, não considerou a nação falida, não troçou de ninguém”[11]. No segundo, conclui com seguinte exortação: “Imitemos a França, imitemo-la inteiramente…”.
Cerca de uma década e meia depois, já no Brasil – para onde parte em 1944 –, vai, contudo, Agostinho da Silva reencontrar a nossa singularidade histórico-cultural – para ele, de resto, como ele próprio escreverá, foi a criação do Brasil que terá “definitivamente livrado Portugal das daninhas influências europeias que não o deixaram ter nem regime cultural nem acção nem política verdadeiramente adequadas à sua mentalidade”[12], antes procuraram “fazer de Portugal uma Dinamarca latina”[13].
Esse reencontro não se constituiu todavia como um regresso. Ainda que tenha retornado a este país, em 1969, aqui permanecendo os últimos vinte e cinco anos da sua vida – Agostinho da Silva faleceu no dia 3 de Abril de 1994 –, o autor da Reflexão à margem da literatura portuguesa jamais verdadeiramente regressou. Desde os anos cinquenta o seu horizonte foi sempre já outro: não já a Lusitanidade, não já Portugal, mas a Lusofonia, a Comunidade Lusófona, da qual Portugal era apenas uma extensão, a extensão europeia. No princípio de um novo século, eis o novo horizonte que se depara aos nossos olhos[14].
[2] Partindo desta perspectiva, mais ou menos expressamente enunciada, inevitável é depois falar-se do “esgotado movimento da Renascença Portuguesa e da revista A Águia” (como, por exemplo, in Seara Nova: Razão, Democracia, Europa, Porto, Campo das Letras, 2001, p. 7). Como visão contrapolar a esta, refira-se, nomeadamente, a de José Marinho, para quem “com a ‘Renascença Portuguesa’, e com tudo quanto se lhe segue em afinidade espiritual ou crítico contraste, surge a mais funda transmutação na vida espiritual portuguesa desde o Renascimento.” [cf. Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, Porto, Lello, 1976, pp. 224-225].
[3] Cf. “Manifesto da Renascença Portuguesa”, in A Vida Portuguesa, ano l, nº 22, 10/2/1914, pp. 10-11.
[4] In A Vida Portuguesa, Ano I, nº 22, 10/ 02/ 1914, p. 12
[5] Idem, ibidem.
[6] Cf. “Prefácio” a O Mundo que o Português criou, de Gilberto Freyre, Lisboa, Livros do Brasil, 1940, p. 10.
[7] In A Arte de Ser Português, Lisboa, Delraux, 1978, p. 33.
[8] In Acção Académica, Porto, 15 de Outubro de 1925, ano I, nº 3, p. 3.
[9] Agostinho da Silva aproximou-se em particular de António Sérgio, a quem inclusivamente chegou a reconhecer como seu “mestre” – isto apesar destas suas considerações: “…Sérgio não ousou afrontar os problemas filosóficos mais profundos, as questões de dúvida. Preferia manter-se na certeza.”; “Mesmo como pedagogo, a sua atitude tendia a ser de grande arrogância intelectual.” [cf. Dispersos, introd. de Fernando Cristóvão, apres. e org. de Paulo A. E. Borges, Lisboa, ICALP, 1988/ 1989 (2ª, revista e aumentada)., p. 55]. Como, contudo, o próprio Agostinho reconhece, o seu discipulato relativamente a Sérgio cumpriu-se, sobretudo, por oposição: “…mas ele [Sérgio] não me ensinou o racionalismo: ensinou-me antes o irracionalismo, por reacção minha.” [cf. Francisco Palma Dias, “Agostinho da Silva, Bandeirante do Espírito”, in AA.VV., Agostinho [da Silva], São Paulo, Green Forest do Brasil Editora, 2000, p. 155]. Nessa medida, ainda que indirectamente, Agostinho terá sido, muito mais do que um “discípulo de Sérgio”, um “discípulo de Leonardo” – António Telmo considerou-o mesmo, de resto, como “o último discípulo de Leonardo Coimbra” [cf. “Testemunho”, in Diário de Notícias, 4/4/1994]. Isto apesar do próprio Agostinho da Silva, na sua expressão algo jocosa, “nunca ter sido leonardesco” [cf. AA.VV., Agostinho [da Silva], ed. cit., p. 155] –, não obstante ter reconhecido a sua “largueza de espírito” [cf. Dispersos, ed. cit., p. 174]. Mais do que discípulo de Leonardo, Agostinho terá permanecido sempre, sobretudo, discípulo da Faculdade de Letras do Porto enquanto “escola de liberdade” [cf. ibid., p. 147].
[10] In Seara Nova, Lisboa, nº 197, 23 de Janeiro de 1930.
[11] Cf. “Desconhecidos, quase”, in Vida Mundial, 12/11/1971, p. 25.
[12] Cf. Reflexão à margem da literatura portuguesa, in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira, Lisboa, Âncora, 2000, vol. I, p. 66.
[13] Cf. “Desconhecidos, quase”, in Vida Mundial, 12/11/1971, p. 25.
[14] A esse respeito, uma breve referência à NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI (www.novaaguia.blogspot.com) e ao MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (www.movimentolusofono.org). Ambos, de diversos modos, procuram, no princípio deste novo século, cumprir esse horizonte.
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terça-feira, 1 de setembro de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Entre os movimentos da Seara Nova e da Renascença Portuguesa: breve reflexão (resumo)
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Os homens em geral – e, dir-se-ia, os portugueses em particular –, são dados a antíteses. Para cada questão, parece sempre haver uma fronteira intransponível, uma fractura insanável. Face a ela, ou estamos de um lado ou do outro.
Eis a lógica do pensamento sectário, que emerge, em particular, nos momentos revolucionários: ver tudo, como se costuma dizer, “a preto e branco”. Se formos dos “brancos”, nada dos “pretos” se aproveita. Se formos dos “pretos”, tudo dos “brancos” é para renegar. Fácil é de ver que, por via dessa lógica, nunca poderá haver sustentado progresso. Mais cedo ou mais tarde, temos que recomeçar tudo de novo.
Essa nostalgia por uma origem absoluta a partir da qual se pudesse recomeçar tudo de novo, como se isso fosse realmente possível é, de resto, por si, inibidora de progresso. Sem capacidade de aceitar o que está para trás, nunca será realmente possível seguir em frente…
A “fractura” entre os movimentos da Renascença Portuguesa e da Seara Nova é uma das que mais se cimentou na nossa memória histórico-cultural. Na nossa comunicação, procuraremos, sem escamotear as diferenças, desconstruir essa “fractura”, salientando, desde logo, a complexidade de alguns percursos pessoais – como os de Agostinho da Silva e de Jaime Cortesão, e mesmo o de António Sérgio –, os quais, devidamente considerados, transcendem algumas dessas fronteiras.
Os homens em geral – e, dir-se-ia, os portugueses em particular –, são dados a antíteses. Para cada questão, parece sempre haver uma fronteira intransponível, uma fractura insanável. Face a ela, ou estamos de um lado ou do outro.
Eis a lógica do pensamento sectário, que emerge, em particular, nos momentos revolucionários: ver tudo, como se costuma dizer, “a preto e branco”. Se formos dos “brancos”, nada dos “pretos” se aproveita. Se formos dos “pretos”, tudo dos “brancos” é para renegar. Fácil é de ver que, por via dessa lógica, nunca poderá haver sustentado progresso. Mais cedo ou mais tarde, temos que recomeçar tudo de novo.
Essa nostalgia por uma origem absoluta a partir da qual se pudesse recomeçar tudo de novo, como se isso fosse realmente possível é, de resto, por si, inibidora de progresso. Sem capacidade de aceitar o que está para trás, nunca será realmente possível seguir em frente…
A “fractura” entre os movimentos da Renascença Portuguesa e da Seara Nova é uma das que mais se cimentou na nossa memória histórico-cultural. Na nossa comunicação, procuraremos, sem escamotear as diferenças, desconstruir essa “fractura”, salientando, desde logo, a complexidade de alguns percursos pessoais – como os de Agostinho da Silva e de Jaime Cortesão, e mesmo o de António Sérgio –, os quais, devidamente considerados, transcendem algumas dessas fronteiras.
domingo, 3 de maio de 2009
A esse respeito…

1. Estando a preparar uma comunicação para um Congresso, ando a reler textos de personalidades da Seara Nova: nomeadamente, do Raul Proença e do António Sérgio. O percurso político deste grupo é deveras curioso…
2. Sendo democratas, inequivocamente, acompanharam, com evidente desgosto e ainda maior raiva, todo o processo de enquistamento partidocrático da I República. Regime que, com o passar dos anos, se tornou numa cada vez maior farsa democrática. Sim, a não condescendência com o Estado Novo não nos deve levar a mitificar a I República, como em geral, por ignorância histórica, se faz...
3. De tal modo concluíram que a situação não tinha saída, que chegaram a teorizar a necessidade de uma Ditadura. E ela, ainda que não por consequência, chegou, com o golpe militar de 28 de Maio de 1926…
4. Hoje, estamos bem longe dessa situação. Desde logo, não é equacionável qualquer espécie de golpe militar. Nem qualquer espécie de suspensão das liberdades cívicas e políticas…
5. Dito isto, assiste-se igualmente a um processo de enquistamento partidocrático. Como diversos estudos de opinião o comprovam, há um fosso crescente entre os partidos políticos, no seu conjunto, e a sociedade. Basta, de resto, andar na rua com os ouvidos abertos para o saber…
6. Todos os regimes políticos, ou renovam-se por dentro, ou originam situações de ruptura. É preferível, pois, que se renovem…
P.S.: A esse respeito, e desculpe a insistência (eu sei que sou chato), já assinou a Petição MIL?
CONTRA A PARTIDOCRACIA, EM PROL DE UMA VERDADEIRA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA:
http://www.gopetition.com/online/26885.html
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Trans-Pátria - Porque não somos um partido político?
“PORQUE NÃO SOMOS UM PARTIDO POLÍTICO
Sendo nosso intento contribuir para que se renove completamente a política portuguesa, porque não somos um partido político? Não seria essa a maneira mais directa e eficaz de exercer uma influência positiva sobre a sociedade portuguesa? Recuaremos nós perante as responsabilidades e as fadigas da acção política, quando acima de tudo pregamos a necessidade da acção, previamente esclarecida pela inteligência?
Esta pergunta, que possivelmente foi formulada por alguns dos nossos leitores, requer uma resposta categórica; e por isso este artigo.
Não somos, em primeiro lugar, um partido político, porque a nossa acção não pretende limitar-se à simples esfera política. Para além dela vemos toda a vida da nação nas suas actividades essenciais; e à renovação dessas actividades nos consagramos. É preciso que, duma vez para sempre, se deixe de ver no político o bode expiatório de todas as desgraças nacionais. É em todas as modalidades da vida portuguesa que devemos encontrar o vírus profundo da nossa degeneração. Cada um de nós, no círculo das suas actividades próprias (quer sejamos empregados públicos, professores, militares, industriais ou agricultores), tem manifestado essa mesma ausência de capacidade criadora e de subordinação aos interesses gerais que tão de boamente assacamos aos nossos políticos. Simples órgãos de correlação, os políticos não podem elevar-se acima das condições gerais da actividade e da mentalidade nacional. Simples função de correlação, a função política não pode ser a única que haja a modificar e corrigir. Há, pois, que agir sobre todos os tecidos do corpo colectivo, que modificar todas as funções desse corpo. E sobretudo que modificar aquele organismo que está destinado a exercer sobre todos os outros uma acção directiva: numa palavra, que reformar a estrutura espiritual, a forma da mentalidade do escol português, tão certo é que têm sido os vícios mentais dos portugueses os seus piores inimigos.
A nossa empresa é, pois, cumpre vê-lo a toda a luz, extremamente ambiciosa. Não podemos ser um simples partido político, porque a nossa missão social excede o campo de acção de todo o partido político.
Mas há mais. Por maior que sejam o desinteresse e a boa-vontade das pessoas que se resolvam a constituir-se em partido político, a verdade é que dentro em breve à consideração inicial dos interesses colectivos se junta e sobrepõe a dos interesses partidários. Forma-se uma nova psicologia, uma nova moral, deveres para com o partido e o grupo, em conjunção algumas vezes, muitas outras em oposição aos deveres para com o País. Outra palavra soará, mais tarde ou mais cedo, além da dos supremos interesses colectivos: falar-se-á então dos interesses de tal partido em oposição com tal outro. E assim se explica, dentro desta psicologia e desta moral gregária, como homens da mais perfeita isenção e dignidade intelectual toleram, dentro dos partidos, os maiores agravos à dignidade e às conveniências nacionais. O espírito de partido cria interesses próprios de partido, e exerce sobre toda a actividade mental uma acção perturbadora. E no que vai dito considera-se apenas a melhor hipótese possível: a hipótese, puramente teórica e verbal, de o partido se não engrossar com a malta dos pescadores de todas as águas, que fariam do movimento apenas mais um anzol para pescar na vasa podre do País o peixe dourado das suas ambições. O mais belo movimento de salvação nacional arriscar-se-ia assim a ser pervertido e falsificado pela massa ignata [sic; ignara?] dos sectários, não tardando a ser reduzidos ao silêncio e a ser sacrificados os apóstolos da salvação.
Estou a ver uma objecção aflorar aos lábios do leitor: «O que diz dos partidos políticos não se pode aplicar de pleno direito a todo e qualquer grupo? Não se sobreporão em nenhum caso os interesses do vosso grupo aos interesses do País?»
Mas não querendo nós, em caso algum, deter, como grupo, a governança da nação, quando e como podiam os interesses do nosso grupo colidir com os interesses gerais do País? A minha sinceridade intelectual obriga-me a responder que tal caso era possível. Seria possível, por exemplo, que o estabilismo mental, que o amor às nossas ideias, nos levasse a defendê-las tão afincadamente que a nossa propaganda resistisse à demonstração da sua falsidade ou da sua inconveniência. Esta e muitas outras hipóteses são absolutamente plausíveis quando não abandonamos o campo das simples possibilidades lógicas.
Temos, pois, que um grupo como o que constituímos na Seara Nova pode, em princípio, ser levado à defesa de ideias, de homens e de processos políticos que estejam em conflito com os interesses da nação. O que não se pode, porém, deixar de reconhecer é que as possibilidades desse facto estão aqui reduzidas a um mínimo que não se encontra realizado nos partidos políticos. Um grupo não partidário vale o que valem os seus homens; um partido político, pelo contrário, cria vícios e defeitos próprios. Cremos, pois, ter demonstrado que, dado um mesmo grupo de homens, esse grupo dá mais garantias de desinteresse conservando-se completamente fora de todas as facções do que arrebanhando-se num partido político. A consciência dos interesses nacionais é assim menos refractada que através dum meio puramente partidário.
Mas há mais. A missão que a Seara Nova quer exercer na sociedade portuguesa tem de ser realizada em parte por homens de espírito científico, educados nas disciplinas do pensamento crítico, e por isso fundamentalmente incapazes de se arregimentarem em qualquer facção. Nunca em caso algum esses homens seriam homens de partido. Nunca em caso algum eles poriam, acima das suas convicções, das suas dúvidas ou das suas reservas mentais, qualquer dogma político ou qualquer autoridade partidária.
Mas, mesmo na hipótese de nos resolvermos a constituirmo-nos em partido político, nem por isso deixava de subsistir a necessidade de existir acima dele e de todos os outros partidos um órgão supremo da consciência nacional, em que todos fossem avaliados, comparados e discutidos, e que constituísse, por assim dizer, o tribunal da opinião para que houvesse sempre apelação e agravo.
Ora é este supremo órgão directivo, inspirador e orientador da opinião pública, formado por cabeças e não por espadas, que nós precisamos, antes de mais nada, constituir em Portugal. Enquanto isso se não fizer, o corpo da nação será sem alma e sem vontade, sem rumo e sem destino.
Constituindo-nos em partido político seria novamente errar o caminho — seria frustrar mais uma vez todas as esperanças de renovação nacional.
- Raul Proença, Seara Nova, nº 2, 5-11-1921; in Raul Proença, Antologia, I, prefácio, selecção e notas de António Reis, Lisboa, Ministério da Cultura, 1985, pp.266-269.
Dispensamo-nos para já de mais comentários a este texto impecável e certeiro, que parece vir a talhe de foice para responder a algumas questões que se levantam ao MIL, fruto de um grande e clarividente espírito, injustamente esquecido, mas que, com a Seara Nova, está entre as fontes de inspiração de que a Nova Águia se reclama, tendo sido também destas águas que brotou a clarividência e independência de Agostinho da Silva.
Sendo nosso intento contribuir para que se renove completamente a política portuguesa, porque não somos um partido político? Não seria essa a maneira mais directa e eficaz de exercer uma influência positiva sobre a sociedade portuguesa? Recuaremos nós perante as responsabilidades e as fadigas da acção política, quando acima de tudo pregamos a necessidade da acção, previamente esclarecida pela inteligência?
Esta pergunta, que possivelmente foi formulada por alguns dos nossos leitores, requer uma resposta categórica; e por isso este artigo.
Não somos, em primeiro lugar, um partido político, porque a nossa acção não pretende limitar-se à simples esfera política. Para além dela vemos toda a vida da nação nas suas actividades essenciais; e à renovação dessas actividades nos consagramos. É preciso que, duma vez para sempre, se deixe de ver no político o bode expiatório de todas as desgraças nacionais. É em todas as modalidades da vida portuguesa que devemos encontrar o vírus profundo da nossa degeneração. Cada um de nós, no círculo das suas actividades próprias (quer sejamos empregados públicos, professores, militares, industriais ou agricultores), tem manifestado essa mesma ausência de capacidade criadora e de subordinação aos interesses gerais que tão de boamente assacamos aos nossos políticos. Simples órgãos de correlação, os políticos não podem elevar-se acima das condições gerais da actividade e da mentalidade nacional. Simples função de correlação, a função política não pode ser a única que haja a modificar e corrigir. Há, pois, que agir sobre todos os tecidos do corpo colectivo, que modificar todas as funções desse corpo. E sobretudo que modificar aquele organismo que está destinado a exercer sobre todos os outros uma acção directiva: numa palavra, que reformar a estrutura espiritual, a forma da mentalidade do escol português, tão certo é que têm sido os vícios mentais dos portugueses os seus piores inimigos.
A nossa empresa é, pois, cumpre vê-lo a toda a luz, extremamente ambiciosa. Não podemos ser um simples partido político, porque a nossa missão social excede o campo de acção de todo o partido político.
Mas há mais. Por maior que sejam o desinteresse e a boa-vontade das pessoas que se resolvam a constituir-se em partido político, a verdade é que dentro em breve à consideração inicial dos interesses colectivos se junta e sobrepõe a dos interesses partidários. Forma-se uma nova psicologia, uma nova moral, deveres para com o partido e o grupo, em conjunção algumas vezes, muitas outras em oposição aos deveres para com o País. Outra palavra soará, mais tarde ou mais cedo, além da dos supremos interesses colectivos: falar-se-á então dos interesses de tal partido em oposição com tal outro. E assim se explica, dentro desta psicologia e desta moral gregária, como homens da mais perfeita isenção e dignidade intelectual toleram, dentro dos partidos, os maiores agravos à dignidade e às conveniências nacionais. O espírito de partido cria interesses próprios de partido, e exerce sobre toda a actividade mental uma acção perturbadora. E no que vai dito considera-se apenas a melhor hipótese possível: a hipótese, puramente teórica e verbal, de o partido se não engrossar com a malta dos pescadores de todas as águas, que fariam do movimento apenas mais um anzol para pescar na vasa podre do País o peixe dourado das suas ambições. O mais belo movimento de salvação nacional arriscar-se-ia assim a ser pervertido e falsificado pela massa ignata [sic; ignara?] dos sectários, não tardando a ser reduzidos ao silêncio e a ser sacrificados os apóstolos da salvação.
Estou a ver uma objecção aflorar aos lábios do leitor: «O que diz dos partidos políticos não se pode aplicar de pleno direito a todo e qualquer grupo? Não se sobreporão em nenhum caso os interesses do vosso grupo aos interesses do País?»
Mas não querendo nós, em caso algum, deter, como grupo, a governança da nação, quando e como podiam os interesses do nosso grupo colidir com os interesses gerais do País? A minha sinceridade intelectual obriga-me a responder que tal caso era possível. Seria possível, por exemplo, que o estabilismo mental, que o amor às nossas ideias, nos levasse a defendê-las tão afincadamente que a nossa propaganda resistisse à demonstração da sua falsidade ou da sua inconveniência. Esta e muitas outras hipóteses são absolutamente plausíveis quando não abandonamos o campo das simples possibilidades lógicas.
Temos, pois, que um grupo como o que constituímos na Seara Nova pode, em princípio, ser levado à defesa de ideias, de homens e de processos políticos que estejam em conflito com os interesses da nação. O que não se pode, porém, deixar de reconhecer é que as possibilidades desse facto estão aqui reduzidas a um mínimo que não se encontra realizado nos partidos políticos. Um grupo não partidário vale o que valem os seus homens; um partido político, pelo contrário, cria vícios e defeitos próprios. Cremos, pois, ter demonstrado que, dado um mesmo grupo de homens, esse grupo dá mais garantias de desinteresse conservando-se completamente fora de todas as facções do que arrebanhando-se num partido político. A consciência dos interesses nacionais é assim menos refractada que através dum meio puramente partidário.
Mas há mais. A missão que a Seara Nova quer exercer na sociedade portuguesa tem de ser realizada em parte por homens de espírito científico, educados nas disciplinas do pensamento crítico, e por isso fundamentalmente incapazes de se arregimentarem em qualquer facção. Nunca em caso algum esses homens seriam homens de partido. Nunca em caso algum eles poriam, acima das suas convicções, das suas dúvidas ou das suas reservas mentais, qualquer dogma político ou qualquer autoridade partidária.
Mas, mesmo na hipótese de nos resolvermos a constituirmo-nos em partido político, nem por isso deixava de subsistir a necessidade de existir acima dele e de todos os outros partidos um órgão supremo da consciência nacional, em que todos fossem avaliados, comparados e discutidos, e que constituísse, por assim dizer, o tribunal da opinião para que houvesse sempre apelação e agravo.
Ora é este supremo órgão directivo, inspirador e orientador da opinião pública, formado por cabeças e não por espadas, que nós precisamos, antes de mais nada, constituir em Portugal. Enquanto isso se não fizer, o corpo da nação será sem alma e sem vontade, sem rumo e sem destino.
Constituindo-nos em partido político seria novamente errar o caminho — seria frustrar mais uma vez todas as esperanças de renovação nacional.
- Raul Proença, Seara Nova, nº 2, 5-11-1921; in Raul Proença, Antologia, I, prefácio, selecção e notas de António Reis, Lisboa, Ministério da Cultura, 1985, pp.266-269.
Dispensamo-nos para já de mais comentários a este texto impecável e certeiro, que parece vir a talhe de foice para responder a algumas questões que se levantam ao MIL, fruto de um grande e clarividente espírito, injustamente esquecido, mas que, com a Seara Nova, está entre as fontes de inspiração de que a Nova Águia se reclama, tendo sido também destas águas que brotou a clarividência e independência de Agostinho da Silva.
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