Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
sábado, 4 de dezembro de 2010
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Flores
Criança de Timor Leste, Autor (?)
No céu eu vejo morar
As entidades dos deuses sem lar
Na terra eu vejo ficar
As vozes de Timor a clamar.
Lá em baixo passam os mortos
Que eu tanto queria Marômac ver
Serpente sem noite e dia
Nem sol ou lua, no lulik
Enrolada na catana sagrada
Na pedra encantada
E de ouro sonhada.
Uma bandeira, com o desenho
Dos antepassados que o céu
Pintou com compasso
E eixo do mundo a esmagar
Os sacrifícios das aves de madeira
Dos crocodilos e dos répteis
Que guardam as portas.
O matan doc levou-me hoje à montanha dos anciãos e disse: estás bonita como a velha ferik, que no rosto gravou a floresta e a ribeira, a pedrinha pequenina e a árvore grande. Estás bonita como as coisas, minha menina, porque as pessoas são as coisas e as coisas são pessoas.
sábado, 3 de outubro de 2009
E SE?...

A imagem acima apresentada foi reproduzida a partir do meu exemplar da fotobiografia de bolso de Fernando Pessoa, da autoria de Maria José de Lencastre. Mais uma na série que ficou para a posteridade, a dos retratos do poeta em movimento nas ruas da Baixa lisboeta*, esta tem no entanto uma particularidade que a legenda parece descrever acuradamente: «Pessoa descendo o Chiado com Augusto Ferreira Gomes».
*: Quase(?) uma encenação - a do "poeta citadino", como comentou o meu amigo João Alves.
De facto, esta imagem mostra a decomposição de um movimento em três... fotografias, ou deveria eu dizer: três fotogramas.
Eu não sou, de modo nenhum e pelo contrário, especialista em fotografia, mas quer me parecer que uma máquina fotográfica normal não permite este tipo de "representação", ainda para mais na época em que parece se desenrolar a "acção"...
E foi assim que eu acabei por perguntar à autora do livro (durante um "curso livre" sobre F.P. no final de 2007 ou início de 2008, na Faculdade de Letras de Lisboa) se aquilo não era, enfim, parte de um filme ou qualquer coisa assim ...
Para me justificar, e porque de facto pensei assim, disse que os furos que seguiam paralelamente as imagens faziam lembrar a película dos filmes.
Alguém contrapôs logo que com as máquinas fotográficas também era assim, e de facto é. (Até parece que não sou ainda desse tempo, o das máquinas não digitais).
Maria José de Lencastre, quanto a ela, um pouco surpreendida pela pergunta, respondeu-me que não se lembrava do suporte físico da(s) imagem, visto já terem passado muitos anos desde a realização do livro (o que é perfeitamente compreensível), e em jeito de brincadeira acrescentou que «se houvesse um filme do F.P., já seria do conhecimento público».
Posteriormente, lembrei-me de que os negativos das máquinas fotográficas é que têm, esses sim, os furos dispostos na horizontal, ao contrário do que parece acontecer para os filmes.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
DIÁRIO DE MOEMA, V
Christian Coigny, Alekan, s/dAs águas gélidas foram tomando cada centímetro do meu corpo, como quem saúda um amigo esperado.
Deitei-me ao colo do rio e o peso tornou-se leve, e as vozes líquidas. Na eternidade daquele instante senti-me um elo da grande corrente.
Pousada no peito, a minha concha contava-me histórias de errantes que encontraram o caminho de casa. Uns ficaram, outros voltaram a partir. Em todos se acendeu a chama da pertença e a certeza de uma candeia que nunca se apaga.
Sem aviso, explodiu o sorriso desdentado do Poeta a salpicar versos por quem não o ouvia. O vizinho de mesa de Moema, o Homem-com-um-tique-na-perna, convidou-o a juntar-se-lhe. Num encontro de loucos, ficaram frente a frente, a partilhar uma linguagem desconhecida.
Traga uma cerveja aqui para este amigo.
Por entre tragos de cerveja soltavam-se grandes nomes da literatura. O Poeta, declamando Baudelaire, como o maior de entre os maiores. O Homem-com-um-tique-na-perna sorria e soltava a voz noutro poema.
Um dos copos continuava cheio.
Os olhos azul-água, do velho Poeta, estavam turvos, da embriaguês de um único trago.
Vá bebendo, amigo, se quiser eu peço outra, que essa já está morta.
O Poeta semicerrou o olhar e, num doce rosnar, desabafou.
Como é que eu posso beber mais um gole, se eu já sou um gole, no copo vazio que é a minha vida?!
Olharam-se e deixaram o silêncio tomar conta do tempo.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
MIL NOSSO

Piss Christ, Andres Serrano, 1989
MIL nosso, que estais na terra,
Testemunhado seja o Vosso nome.
Venha a nós o Vosso reino.
Seja feita a Vossa obra,
Aqui na terra e depois do mar.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje.
Castigai os nossos inimigos,
Assim como nós combatemos
A quem nos tem ofendido.
Não nos deixeis cair em desânimo,
Mas livrai-nos dos tolos.
É a Hora!
segunda-feira, 6 de julho de 2009
PEQUENO MURAL SEM MORAL
Queriam todos ser a montanha porque ficavam mais altos. Vinha um e gritava lá de cima: Eu sou a montanha. E logo se ouvia: Não, eu é que sou a montanha. E logo outro e outro: Não, eu é que sou a montanha. Não…
Um fazia funerais religiosos a feijões, outro fotografava as meninas da aldeia, outro dormia pendurado pelos pés, outro imitava cucos a bater com uma colher nas bochechas. Não serviam para nada e agora estavam velhos.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Ricardo Rangel (1924-2009)

O fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel, 85 anos, morreu no dia 11 deste mês, em Maputo, enquanto dormia, disse uma fonte familiar. Ricardo Rangel é uma referência da fotografia em Moçambique, através da qual denunciou a ditadura colonial, participando em dezenas de exposições em diversos países, incluindo o Museu Guggenhheim, em Nova York. Foi condecorado com o grau de Oficial das Artes e Letras pelo governo francês. Começou a trabalhar na área da fotografia aos 17 anos num laboratório, passou pelo jornal bilingue “Lourenço Marques Guardian” e depois entrou para o jornal “Notícias da Tarde”, onde foi o primeiro foto-jornalista não branco. Na década de 60 foi editor do jornal “A Tribuna” e trabalhou posteriormente em outros órgãos de comunicação, como o “Diário de Moçambique” ou “Voz Africana”, sendo co-fundador no início da década seguinte da revista “Tempo”, a primeira a usar cor em Moçambique. Já depois da independência foi editor de fotografia no jornal “Notícias” e depois do semanário “Domingo”, estando na origem, em 1981, da Associação Moçambicana de Fotografia. A partir de 1984 criou e dirigiu o primeiro Centro de Formação de Fotografia.
Fonte: Lusa/SOL
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Portugal em fotos...
http://www.pbase.com/diasdosreis/photos_of_portugal
Cumprimentos a todos.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
DIÁRIO DE MOEMA, IV
Hoje estive a tomar um café na esplanada da aldeia.
Uma réstia de sol ajudou a afastar o terror que me assombra de noite. Continuo sem conseguir ler as palavras que de vermelho se escrevem e apagam perante o meu olhar.
O verde viscoso que escorre pelas paredes enche-me de pânico. São verdes os montes que me rodeiam, plenos de promessas de vida, mas são também verdes esses outros pântanos de águas podres, estagnadas. A cor do broto que desponta é a do lodo de que fujo.
A verdura que luta com o verde!
O vermelho que joga comigo!
~Ü£w^’€>
Sentada na esplanada, resguardada do vento que soprava, Moema segurava na mão um livro esquecido. Os seus olhos, fixos na mesma página, vagueavam por outras paragens, indiferentes ao movimento do mercado.
As mulheres entravam e saiam carregadas de sacos de fruta, verduras e peixe. O muge era muito procurado, frito ou no forno, era um verdadeiro petisco que poucos dispensavam.
Os homens, amontoados em pequenos grupos, enchiam o largo de conversas cantadas. Davam uma vista de olhos pelo jornal desportivo, faziam-se prognósticos para os jogos de futebol…olhavam Moema pelo canto do olho.
Bonita moça!
A mais não se atreviam, pelas mulheres que podiam estar alerta, pelo ar sério e meio ausente com que ela se recostava na cadeira desconfortável.
O empregado, de tez morena, trouxe o café da manhã. Entre o tom educado, com que indica o melhor pão caseiro, dá um relance pela capa do livro, marcado com o indicador.
É de poucas falas. E pelo que lê também não chego lá!
Entre um encolher de ombros e um ligeiro aceno de cabeça, pegou na bandeja, sem novidades para contar.
Lá dentro, o vinho tinto servia-se a copo, entre nódoas marcadas no balcão de mármore gasto pelo tempo.
domingo, 31 de agosto de 2008
DIÁRIO DE MOEMA, III
2006, 22 de Março.
Encontrei um pequeno lugar guardado entre montes.
Sei-me observada pelos penedos, mas sinto a sua indiferença. Para eles, o tempo tem outra contagem. Não passo de um pestanejar da eternidade.
Parei junto ao rio. Fiquei a ver a viagem da corrente que passa sem saber para onde vai. Tive vontade de lhe gritar o seu destino. Ouvi os penedos e fiquei em silêncio.
Tenho a resposta, mas as águas não fizeram a pergunta.
~Ü£w^’€>
O rio corria na verdura do vale, ao lado do casario antigo. Era pequena a aldeia, feita de gente simples e de claras verdades – o dia segue a noite e não há mal que sempre dure. As reflexões profundas eram deixadas para o Poeta, o louco, que falava de coisas que eles não entendiam, mas que davam um certo colorido às conversas de rua. Já estavam habituados a frases sem nexo e longos ditos, a que ele chamava poesia. Sorriam e acenavam a cabeça, pois se nem sequer rimava…
Novidade, foi a chegada de Moema, uma mulher sozinha, a viver numa casa andante.
Não é coisa normal por estas paragens.
Entre o aviar do bacalhau e o contar das notas - que nem parecem nossas - comentava-se à boca cheia.
Anda fugida pela certa. Não há-de ter feito coisa boa.
No café, espreitavam a porta, não fosse ela aparecer. Tinham dado pela sua chegada ao amanhecer, à hora da bica, estava a sala cheia. Tempo era coisa que por ali não faltava. O destino já tinha marcado a hora para o jardim das tabuletas, e o serviço não fugia.
À beira-rio, Moema estava sentada, a abraçar as pernas, de olhar perdido na paisagem. Tinha ido ali parar sem saber bem como. Deixava-se levar pelo rumo do vento ou pelo cheiro da água. Estava cansada de conduzir. Queria descansar os olhos do alcatrão sempre igual, do barulho dos carros, do torpor do volante.
Os chocalhos do rebanho que se aproximava, trouxeram um sorriso ao seu olhar.
Ia ficar ali, por uns dias.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
DIÁRIO DE MOEMA,II
2006, 17 de Março.
Hoje encontrei o lugar ideal, um campo verde pincelado de vermelho. Tinha a certeza que o reconheceria assim que o visse, sempre esteve lá à minha espera.
Tirei uma foto. Um destes dias tenho que organizar o álbum da minha viagem.
Andei, até onde a estrada não me via, e finalmente mudei de nome. Recuso ser nomeada como aquela que já não existe. Reinventei-me, num abraço ao universo, e conquistei a minha identidade.
Moema é o meu nome.
Moema… Moema… Moema…
Gritei, aos quatro ventos para que não se esqueçam de mim, ao Sol para que me dê força, à terra para que me guie, à água para que me dê vida.
Moema é o meu nome, Moema.
Sei que ganhei uma nova alma e que as forças da natureza me apadrinharam.
No caminho de volta, aconteceu uma coisa estranha. Encontrei uma concha na berma da estrada. Estava ali tão deslocada e perdida como uma oliveira à beira-mar. Tive a certeza de que era um sinal. Desatei a tira de couro que trazia ao pescoço e pendurei-a. Este é o colar de Moema, nunca mais o vou tirar.
~Ü£w^’€>
Sentada no banco do condutor, Moema escrevinhava no diário, um pequeno caderno, de capa preta, protegido por um elástico. Era a segunda página que enchia com a sua letra redonda, tudo o resto, em branco, ainda. Não o folheava, queria-as imaculadas, como um futuro que ninguém conhece.
Por duas vezes levou a mão à concha, que lhe adivinhava o decote. Parecia ter encontrado um verdadeiro amuleto, oculto na forma de adereço. Foi o acaso que lho trouxe às mãos, os verdadeiros achados procuram-nos, quando deles precisamos. É preciso ter o coração aberto, os olhos são, quase sempre, cegos.
O sorriso, límpido, denunciava uma esfoliação da alma.
Demorou-se a admirar cada letra do seu novo nome, a inebriar-se com a pronúncia de um som, o desafio de uma musicalidade antiga.
Abriu o porta-luvas e retirou um livro que, de tanto uso, se abriu na página desejada. Recostou-se, compondo os cabelos em desalinho, e leu em voz alta:
«É como uma barca que te vai conduzir pela vida porque você sabe quem é.»
Sentia um verdadeiro fascínio pelos rituais indígenas, as culturas ancestrais, a certeza ingénua do lugar de cada indivíduo, a ligação à comunidade. Seriam, talvez, mais felizes, mais próximos da natureza e seguros dos valores por que se conduziam.
Perdida nas tradições dos Guarani, retomou o diário. Acrescentou uma última linha, siglas ilegíveis de uma só palavra. Justificou o último cadeado, com uma voz rouca e grave:
Tenho que ter um nome que só eu conheça. O que me revela e desnuda não pode ser pronunciado, ou ganharão o poder de me dominar.
Agora podia prosseguir viagem. Sem mapa nem bússola, fez-se à estrada à procura de lugar nenhum.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
DIÁRIO DE MOEMA, I
2006, 16 de Março.
Este é o momento zero. Sufoco com a primeira golfada de ar, como um veneno a que preciso de me habituar. A capa uterina, do mundo onde cresci, nada mais tem para me oferecer. Não me perguntaram se queria nascer. Revoltaram-se quando decidi renascer. Da primeira vez, fui amparada, por mãos que me embalaram; agora, aconchego-me na minha jangada de quatro rodas e faço dela o meu berço de mulher.
~Ü£w^’€>
Sentia um verdadeiro prazer em conduzir. Percorrer estradas e caminhos, sem outro rumo que o chamamento da paisagem. Gostava das rectas ladeadas de árvores, dos campos cobertos de flores silvestres, da cor da terra lavrada, das casas perdidas em nenhures. Dos casebres abandonados, das esculturas dos penedos, das árvores que não morrem de pé.
Tinha sido uma boa compra aquela autocaravana, mesmo em segunda mão estava em óptimo estado. Ainda tinha regateado o preço, mas a verdade é que não conseguiria nenhuma mais em conta. Já andava cansada de procurar uma casa rolante, tinha pressa de partir e não estava interessada em luxos. Desde que não deixasse entrar água e o motor estivesse em bom estado, era quanto bastava. O espaço não era problema, precisava de pouco, umas mudas de roupa prática, objectos de higiene, a máquina fotográfica, o velho macaco de peluche, uns livros e – o mais importante – o seu diário. Claro, não podia dispensar a sua caneta preferida. Não prescindia dela, detestava esferográficas, eram impessoais, sem história, não conheciam o seu traço próprio.
Da berma da estrada sorria-lhe uma papoila. Acreditava, desde que se lembrava de si própria, na linguagem da natureza, na forma como estas frágeis flores anunciam algo de mágico. A Primavera chegou, as papoilas sabem esperar o momento certo e só o anunciam a pessoas especiais.
Encostou à berma e espreguiçou-se. A altura chegara. Sabia o que tinha de fazer.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Mosteiro de Santa Clara-a-Velha

Fotos de Anabela R.segunda-feira, 25 de agosto de 2008
AO MESMO SANTO
A foto eu roubei de quem me deu a conhecer.
Nas entranhas da mãe alumiado
Da luz que nas da Virgem dentro via,
Sentiu João quamanho bem seria
Trocar pelo deserto o povoado.
Dele fugindo vai, todo abrasado
Do fogo que em seu peito arder sentia;
Mais quer de animais brutos companhia
Que ser de gente humana acompanhado.
A troca foi ditosa em tenra idade:
A solitária vida é mais segura,
Que do mundo cruel a falsidade.
Nas pedras do deserto achou brandura,
Nas serpentes da serra piedade,
E nas peles das feras cobertura.
Frei Agostinho da Cruz
domingo, 17 de agosto de 2008
Um olhar na noite de S. João (a menina dentro d'«A Menina Júlia» de Strindberg)
__Hamletmaschine, Gottfried Helnwein, 1997
Júlia – Há um sonho, que tenho de tempos a tempos, e de que me recordo neste momento. Tendo trepado até ao cimo dum pilar, vejo-me aí sentada sem qualquer possibilidade de descer; quando baixo os olhos, sinto vertigens, e tenho de voltar para o solo mas não tenho coragem de me atirar; não posso conservar-me ali e estou ansiosa por cair, mas não caio. Contudo, não conheceria a paz, nem conheceria o repouso senão quando estivesse lá em baixo, absolutamente lá em baixo, no chão […].
Para a menina Júlia, as paredes impossíveis do casarão oblíquo, das divisões descomunais aos espartilhos febris da moral católica, sempre foram um pesadelo pendurado em pétalas de lilases.
O mundo é um aborrecimento sobre si mesmo desde o dia em que o inspirou pela primeira vez, vinte e cinco anos antes, já, ainda, à guarda da Velha Morte.
No cimo do monte dourado, onde a vida é um entrançado de inferno em horas de marfim cortante e canoas partidas de, em madrepérola, gargareja o sufoco seguro da protecção parental, no viril abismo oitocentista, que desafia.
Lá em baixo, no chão de terra suada, os abutres farejam os céus: aguardam impacientemente um pedaço de Júlia, de menina, da menina Júlia, as sanguessugas já lhe devoram a alma, ora inquietas com o demasiado lento desabrochar das consequências cardíacas, ora aquietadas pela certeza da inevitabilidade das gotas escarlates, serpenteando imparáveis do ninho de ouro, aos espinhos metálicos da realidade humana.
A menina Júlia sempre gostou de beber cerveja entre copos de vinho. Nunca se importou com os devaneios das gentes da terra, que a delambiam de putéfia, selvagem e provocadora, a indecorosa e ultrajante filha do senhor Conde, que se rebaixa dançando nas noites de S. João com a criadagem, ordenando aos homens de pés rotos e enegrecidos que lhe beijem os seus de prata.
A sede indomável do seu espírito em luta contra a imagem idealizada da mulher casta e angelical impingida, as múltiplas faces, verdades, desta personagem, são a ponte entre gritantes disparidades de classe que se assumem contraditórias, ainda dentro do seu próprio leito, pela mão de Strindberg: a menina deseja conciliar a sua natureza demoníaca, primordial, com a necessidade de paz e serenidade, libertando-se das amarras da moral puritana da época, saltando definitivamente do pedestal onde sempre se encontrou, directamente para o útero infernal, que ao mesmo tempo receia e deseja morbidamente.
A necessidade de libertação desta personagem, a par com o desejo de poder de quem nada possui de verdadeiramente seu e o desprezo que nutre pelos homens, que seduz para brincar entre as labaredas do desejo que instiga e que posteriormente nega, revelam a intenção de Strindberg em contar e questionar uma sociedade exageradamente estratificada, que esquece as incongruências da natureza humana, os abismos e a complexidade da pessoa por trás da persona, construída sobre placas de desejos, sentimentos, sensações, instintos e impulsos recalcados e que se vai reciclando, reinventando e repetindo sobre estes mesmos recalques, ignorante das consequências desta mesma castração do Homem, no Homem.
A terra degolada em horas desesperadas de sacro sacrifício fazem calos no Ser, e ainda que não pela raiz, a esperança é cortada pelo tronco, como quando se corta uma árvore muito antiga e alta.
Deseja dançar com os pés dentro de sapatos finos e luzidios, deixar a condição de criado e alcançar o ouro do cume da montanha.
Strindberg enlaça duas personagens que se encontram irremediavelmente desencontradas, não apenas por representarem classes distintas, mas pela sede que os move, os levar para campos opostos. No entanto, encontram-se a meio caminho, entre a queda e a subida, pelo amor cruel, cru e limpo que lhes arranha a carne e o espírito.
Neste amor real, espelhado de igual para igual, cada um pretende superar o outro, ultrapassá-lo para que seja o próprio a decidir se pretende ou não voltar atrás para salvar este sentimento ou fugir, para sentir que possui esse poder ou o controlo da relação, para conquistar o papel de herói na peça, o herói das dissertações de Nietzsche e que Strindberg relembrou.
O mordomo degola o canário da menina Júlia.
Os relógios param e espetam os ponteiros nos dois corações desencontrados, consequências mútuas, anulam-se.
A menina Júlia mendiga pelas ruas vertiginosas o desassossego da sua própria contradição.
Um casarão oblíquo com paredes impossíveis, divisões descomunais, espartilhos febris, pesadelos que emolduram pétalas de lilases, será sempre insuficiente o peso do sonho sobre os pilares da desgraça?
O mundo é um aborrecimento sobre si mesmo desde o dia em que o inspirou pela primeira vez, vinte e cinco anos antes, já, ainda, à guarda da Velha Morte.
Paradoxos de mundos que se cosem em realidades urbanas, rotativas, cíclicas, realidade?
Menina Júlia, para onde foram as tuas mãos de mármore escarlate?
O mordomo João regressa à nula aquiescência caseira, da rotina de canários degolados.
Quem era o mordomo João entre as incontáveis meninas Júlia?
Onde estariam as meninas Júlia num espaço-tempo sem uma noite de S. João?
sábado, 9 de agosto de 2008
Gulliver
Cai o corpo
O pó voa juntamente com a alma
Que sobe
Até o limiar das estrelas
O sangue corre
Livre, esvaindo-se sem destino
A lágrima escorre
Como o último grito de quem já não pode gritar
A garganta seca
O sabor férreo da morte é o que lhe resta
Nesse amargo instante contempla o firmamento
E, num segundo, vê todos os seus sonhos ruírem
Todos os esforços e sacrifícios tornam-se pó
Que sobe
Guiando sua alma à morada das estrelas
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
AS PRIMEIRAS ÁGUAS
Dedicado ao The Glower
.
THE MOMENT
Watching two surfers walk toward the tide,
Floating their boards beside them as the shore
Drops slowly off, and first the knee, then waist
Goes down into the elemental grasp,
I look to them to choose it, as the one
Wave gathers itself from thousands and comes on:
And they are ready for it facing round
Like birds that turn to levitate in wind:
All is assured now as they slide abreast:
Much as I envy them their bodies’ skill
To steady and prolong the wild descent,
I choose that moment when their choice agrees
And, poised, they hesitate as though in air
To a culmination half theirs and half the sea’s.
O MOMENTO
A observar dois surfistas a caminho da rebentação,
As pranchas a flutuar ao seu lado enquanto a linha
De água cai lenta e vai, e os joelhos, depois a cintura
Afundam-se naquele abraço dos elementos,
Olho para eles para escolher, enquanto a
Vaga se forma de milhares e se levanta:
Encontra-os prontos a enfrentá-la em círculo
Como aves que viram para levitar no vento:
Tudo é domínio agora que deslizam juntos:
Muito os invejo, aos seus corpos capazes
Para aguentar e prolongar a descida feroz,
Escolho o momento em que a sua escolha coincide
E ainda que no ar hesitam, suspensos,
Para uma culminação tão sua quanto do mar.
Charles Tomlinson
Tradução de Klatuu Niktos
.

.
IV. DEATH BY WATER
Phlebas the Phoenician, a fortnight dead,
Forgot the cry of gulls, and the deep sea swell
And the profit and loss.
__________________A current under sea
Picked his bones in whispers. As he rose and fell
He passed the stages of his age and youth
Entering the whirlpool.
__________________Gentile or Jew
O you who turn the wheel and look to windward,
Consider Phlebas, who was once handsome and tall as you.
IV. MORTE PELA ÁGUA
Phlebas o Fenício, há quinze dias morto,
Esqueceu o grito das gaivotas, e o crescendo do mar fundo
E o ganho e a perda.
__________________Uma corrente submarina
Apanhou-lhe os ossos em queixumes. Ao subir e descer
Passou as etapas da sua idade e juventude
A entrar no sorvedouro.
__________________Gentio ou Judeu
Ó tu que viras o leme e olhas para barlavento,
Lembra-te de Phlebas, que foi um dia belo e alto como tu.
T. S. Eliot
Tradução de Klatuu Niktos
.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Machamba

ritmadamente
Uma para o imposto…
outra para o mulungo…
e mais esta, também…
Uma para mim…
tantas para não sei quem…
As AK's ergueram-se e soaram,
ritmadamente
"José Alberto Sitoe", m/heterónimo em memória dos tempos em que morei na Mafalala.
Foto de Ricardo Rangel "gamada" aqui, e sei que os titulares do blogue não se importarão.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
APONTAMENTOS: UMA SERPENTE NO TEJO
Nuno Benavente, In Utero, 2002O comboio desliza sobre o Tejo, tão próximo, numa distância cortante.
Os meus olhos cansados repousam nas águas, olhos atentos às estrelas artesanais, dependuradas em mastros de ferrugem temporal, colocados em cada margem, para sinalizar o fim do sonho.
O Tejo, também destinado a ser espelho de dois abismos nas trevas do mundo, faz destas estrelas ilusórias, dançarinas divinas, no baile silencioso do seu reino nocturno.
O Tejo… o Tejo é saudade de partidas lacrimosas e chegadas honrosas de velha glória.
O Tejo é amor, melancolia de novelos de água em entrançados de lua salgada.
Na noite, tudo é Uno. O rio e o céu são um só, como um espelho... como um ovo.
domingo, 20 de julho de 2008
BOCA DO INFERNO
Para Fernando Pessoa e Aleister Crowley

Se te debruças para o céu plúmbeo os ouvidos
Ressoam-te vazios, vácuo de concha
Para um ressoar maior;
Se te debruças para o turbilhão das águas
Quatro bocas hiantes te dilaceram.
Voragem do ser, mais do que água és, fonte,
Canto, estrela, laje: espelho do mundo;
Dilacerado espelho que constrói o espelho,
O informe: furna: boca hiante:
Boca: cloaca: báratro das imagens.
Ouves as trompas. Por baixo os esgotos,
O esterco das eras, fósseis,
Peixes cegos, mais fundo, lagunas,
O labor de vermes de ouro,
O horror primordial, o belo, a noite,
A tua vida como um uivo da água.
Lord of Erewhon





