Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Ainda sobre a Galiza: texto que nos chegou...
Espanha, como Nação, com a sua capital no centro da Península Ibérica, carrega ainda duas grandes feridas. Uma de elas é, a do separatismo Basco, que teima persistir ao longo dos séculos, e a outra é, a da incompreensão da emancipação do condado Portucalense.
Espanha quer ser grande, quer ser poderosa, quer tirar partido da configuração geográfica que a Península Ibérica lhe confere, para sua afirmação no Mundo global...
Para se entender a dinâmica destas feridas, temos de penetrar na génese da fundação de Portugal e perceber as razões de D. Afonso Henriques ao libertar-se da alçada de sua mãe. A missão espiritual, ou de Alma, como lhe quisermos chamar, que esteve na motivação de D. Afonso Henriques, terá sido o de permitir a evolução, do cunho de S. Tiago de Compostela, conferido às terras da Galiza. Este cunho que é de Santidade, é por sua natureza masculino, "Yang", e ainda de "terceira visão".
O modo como foi feita a expansão de Portugal uns séculos mais tarde, através dos diversos Continentes, demonstra que fomos o Povo que mais actuou "centrado com o coração". Evolui-se assim, em termos energéticos, de uma consciência de dinâmica masculina, harmónica bipolar, para uma de dinâmica centrada no Amor Universal, mas que integra a anterior dinâmica.
Esta teoria tem de ser consciencializada e comprovada na prática. Julgo que é esta a missão dos povos LUSOFONOS nos dias de hoje. Só depois de bem provado, se compreenderá, se aceitará, e Espanha resolverá o seu problema de separatismo.
Galiza em termos de subconsciente colectivo, está mais próxima de Portugal, do que de consciências colectivas mais próximas da Europa Central, como são algumas provincias de Espanha, onde impera uma consciência energética bipolar, alicerçada no planeamento, aparentemente de grande desenvolvimento e harmónica, mas que o deixa de ser, sempre que se afasta do Amor Universal.
Têm-se de consciencializar as diferenças, e só depois ir unindo....
Maria de Lourdes Teixeira Puga Alvarez
domingo, 10 de maio de 2009
Unamuno
Del atlantico mar en las orillas,
desgreñada y descalza una matrona
se sienta al pie de sierra a que corona
triste pinar. Apoya en las rodillas
los codos y en las manos las mejillas;
e clava anciosos ojos de leona
en la puesta del sol. El mar entona
su tragico cantar de maravillas.
Dice de luengas tierras y de azares,
mientras ella sus pies en las espumas
bañando sueña en el fatal imperio
que se le hundió en los tenebrosos mares;
y mira como entre agoreras brumas
se alza don Sebastian, rey del misterio.
O grande estatuário do verso abriu, em castelhano mármore sonoro, o alto relevo mais perfeito e fiel da Pátria portuguesa: a sua paisagem de montes coroados de pinhais, a sua alma saudosa cravando ansiosos olhos de leoa no pôr do sol, e ao longe, entre agoureiras brumas, o corpo sebastianista do seu Sonho.
(...) o autor (...) é o mais profundo e comovido intérprete da Ibéria. (...) Na alma de Unamuno, todas as almas da Península se casaram.»
Teixeira de Pascoaes, Os Poetas Lusíadas
«(...) o espírito, que é palavra, que é verbo, que é tradição oral, vivifica; mas a letra, que é o livro, mata. (...) a alma respira com palavras.
(...) Só aquele que vive na história é que quer viver também na carne, é que quer enraizar a imortalidade da alma na ressurreição da carne.
Miguel de Unamuno, A Agonia do Cristianismo
sábado, 2 de maio de 2009
Ibéria
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.
Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...
Terra de pão e vinho
(A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).
Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.
(...)
Ter um destino é não caber no berço
Onde o corpo nasceu.
É transpor as fronteiras uma a uma
E morrer sem nenhuma...
(...)
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.
Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!»
Miguel Torga, Poemas Ibéricos
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
SOBRE A GALIZA E OUTRAS “REGIÕES” IBÉRICAS: 9 BREVES NOTAS…
Para o Clavis, o Luís Cruz Guerreiro e o Miguel Santos (e o Casimiro, se é que ele ainda nos segue…).
1. Gosto muito da Galiza, em particular de Santiago de Compostela. Imaginar-me-ia, mesmo, a viver lá…
2. Insiro a Galiza no espaço lusófono. Mais do que uma simpatia geral para com os portugueses, na Galiza tenho encontrado um grande amor pela nossa língua e cultura, muito maior do que em muitos portugueses. Verifiquei isso em 2006, aquando das Comemorações do Centenário de Agostinho da Silva, verifiquei isso, mais recentemente, aquando do lançamento da NOVA ÁGUIA…
3. A Galiza é muito mais do que uma “região espanhola”. Tal como a Catalunha e o País Basco não são “regiões espanholas”. São nações. Tendo uma língua e cultura própria, são, de facto, nações. Ainda que nações sem Estado.
4. Como já aqui escrevi, acho que o futuro natural dessas nações será a independência. Começando pela Catalunha, passando pelo País Basco…
5. E a Galiza? Quanto a ela, tenho mais dúvidas. Durante muitos anos, Fraga Iribarne, ex-ministro de Franco, cimentou a inclusão em Espanha. Depois, há um nível de vida que poderia ficar em causa com a independência… Mas, talvez, esta venha a acontecer, mais tarde. E se, assim for, a relação com Portugal será sempre muito particular…
6. Com Portugal enquanto nação, e não com apenas uma região em particular. Se em Portugal existem regiões, elas não são comparáveis com as referidas “regiões espanholas”. Desde logo pela dimensão – se olharmos para Península Ibérica e a dividirmos em “regiões” com uma dimensão semelhante, verificamos que Portugal forma uma única…
7. Daí, de resto, as minhas reservas quanto ao regionalismo. A União Europeia incentiva-o para, a meu ver, melhor poder reinar… No actual estado de coisas, a instância “nação” é a melhor barreira de resistência à União Europeia em particular e à Globalização em geral. Isto, como é óbvio, na perspectiva de quem pretende preservar a sua língua e cultura…
8. Já o municipalismo, no quadro na “nação”, parece-me algo de mais fecundo… Até porque os municípios, em livre associação, é que deveriam formar depois as “regiões” – naturais, de geometria variável, não desenhadas, a régua e esquadro, pelo Governo…
9. Tudo isto, como é óbvio, no quadro maior da convergência lusófona – desígnio primacial do MIL…
domingo, 7 de dezembro de 2008
Herança judaica e norte-africana
Fonte: Folha de São Paulo, 5 de dezembro de 2008Análise do DNA de espanhóis e portugueses mostra o impacto da conversão forçada dos judeus ibéricos.
“As linhagens paternas (transmitidas pelo DNA dos cromossomos Y) dos portugueses e espanhóis têm em média 20% de genes de ancestrais judeus sefarditas ( judeus ibéricos) e 11% de norte-afriacanos (mouros ). ” Relatam pesquisas de Universidades Européias e Israelenses (“A FOLHA DE SÂO PAULO” (05/12/08) no setor de Ciências) .
A presença judaica chegou à Europa após a conquista de Jerusalém pelos romanos (63 a C), e à Península Ibérica, principalmente, com a conquista dos mouros (700 d.C ). Com a reconquista Cristã ( concluída em 1492) e a Inquisição, os judeus que não aceitaram a conversão forçada se refugiaram em partes mais distantes do império colonial como na India, Madeira, Açores, Américas, e em outros paises europeus, mais tolerantes com o estilo de vida religioso do povo judeu.
Essas pesquisas comprovam que, em Portugal, não foi só na história dos Pereira e Oliveira que o povo judeu deixou raízes, foi também na herança cultural-genética e na expansão geográfica que ela propiciou.
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba 07/12/08
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Silepse
"Os portugueses somos do ocidente
imos buscando as terras do oriente"
Camões, Os Lusíadas
Silepse é uma palavra medonha que eu ignorava (acho) até há uns minutos atrás (espero esquecer-me dela ainda hoje), pelos vistos de estimável origem grega: cheira-me a construção por via erudita, e portanto a palavra inventada por sábios vitorianos, mas pode ser que não e que o divino Platão a tenha achado útil (e até bela aos seus helénicos ouvidos). A acreditar em textos académicos que encontrei no google, devemos usá-la para a hipótese aparentemente absurda de querermos gastar o nosso tempo a classificar determinadas figuras de estilo em que há uma não concordância de pessoa (entre o sujeito e o verbo, acho que se pode dizer assim). Dou a seguir um exemplo que encontro numa página brasileira escrita por professores de linguística computacional, e que adapto a Portugal para não parecer descortês: "os portugueses somos sem-vergonha".
Aparentemente, a frase de que venho falar contém a tal silepse, e portanto onde Camões escreveu "os portugueses somos do ocidente" deveria estar (e assim está explicitadíssimo e assumidíssimo em dezenas de pequenos net-textos pseudo-patrióticos) "Nós somos portugueses, e portanto somos do ocidente"; ou mesmo (não se esqueçam de que é o Gama a falar ao enigmático Rei de Melinde) "... somos do ocidente tal como os bascos, os habitantes do Yorkshire, os suíços e os norte-americanos e os australianos quando os houver, para o que aliás convinha que você, seu oriental, me deixasse cumprir a minha missão".
Mais valia falar menos grego e pensar mais português.
O Gama (o Camões) não silepsou coisa nenhuma, e o que está dito (posto em sequência mais simples) é "somos os portugueses do ocidente". E no momento em que esta frase foi escrita o Anjo de Portugal sorriu (pronto, sei que há aqui quem não acredite em Anjos, e muito menos neste: mas o século XIX deu-nos um infindável receituário de frases metafisicamente correctas, digam lá se fica bem ao mais exigente tribuno dizer antes "virou-se uma página da gloriosa história universal").
Somos os portugueses do ocidente, e no estado a que isto chegou é mais seguro começar por explicar que "ocidente" também não é o "western world" de alguns anglo-saxónicos, tão estreitos na sua visão da geografia e da história que não descansaram enquanto não liquidaram o correctíssimo "Próximo Oriente" com que sempre os franceses e os alemães se referiram à zona que vai de Alexandria a Bagdad, e o substituiram por um Médio-Oriente que nada diz nem quer dizer a não ser que vive lá gente que parece não ser o próximo de ninguém. Mas isso é uma outra conversa.
O Ocidente é a parte do mundo em que é maior a consciência de que o Mundo é uma história nossa, e é maior a consciência de que cada um de nós é um mundo para navegar. O Ocidente não é a parte do mundo que faz parte da Europa ou tem pena de não fazer, a parte do mundo em que o homem branco já levou o pesado fardo até ao ponto em que nada resta do fardo, a parte do mundo em que os MacDonalds dão lucro. E esta é a primeira distinção a fazer.
E por isso do ocidente os portugueses somos: gente ocidental que saiu de um minúsculo canto da Europa para transcender a Europa, e que por isso é, como disse Pessoa, o seu rosto (A Europa jaz, posta nos cotovelos /... / o rosto com que fita é Portugal): porque é no rosto que moram os olhos, e é pelos olhos que o mundo inteiro nos entra. Com a barriga da Europa fique quem a isso achar graça.
Do ocidente os portugueses somos, e seja bem vindo quem vier por bem. Que os amesquinhadores de palavras continuem a amesquinhar, que aos tolos Deus os ilumine, mesmo que não exista. Faz sentido sermos portugueses porque cada um dos homens e mulheres do mundo pode ser português na íntima ocidentalidade do seu Mistério único.
Portugal, ocidente do ocidente, finisterra das nações, promontório sacro de todos os deuses de boa vontade. Um enigma dentro de um enigma, e nesse sentido – ah, e nesse sentido o Mar.
E digo mais. Portugal – o Portugal-terra, o Portugal-rectângulo – é feito de celtas. É feito de mouros e de judeus. É feito de romanos, e de fenícios, e de gregos, e de berberes, e da ignomínia dos escravos africanos, é feito até dos improváveis borgonheses, dos estranhíssimos castelhanos. É feito dos emigrantes que foram, dos imigrantes que chegam. Somos os cafres da Europa e os europeus de Al-Andaluz. E se Portugal-terra é isso tudo, que não há-de ser Portugal-mar? Que não é, já, Portugal-dentro?
Digo mais ainda. Precisamente por isso é que a República Portuguesa – que é um Estado soberano e não um Império-a-haver, que é a casa dos portugueses e não o mundo dos portugueses, que é lugar onde se fala e se cala em português mas não é a lusofonia, e que é uma parte do mundo em que são e serão os portugueses a mandar – vai cumprir a sua parte das alianças europeias, das alianças atlânticas, da grande e ainda tão frágil aliança das nações. Não me digam que somos pobres, porque por graça de Deus nunca fomos outra coisa; não me digam que podemos ser derrotados: eu estive em Alcácer-Quibir. Somos isto que a terra é, que os mortos são: A todas as cinzas – paz.
"Silepse" é medonho. Os gregos temos palavras estranhas.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
O TERRITÓRIO
A Espanha dos nossos dias é o resto de um continente terciário que, ligado à África por Gibraltar, fechava num lago o Mediterrâneo, e estendo-se para Noroeste, em territórios depois submersos, ia talvez chegar à América.
Observe-se o mapa geológico da Península, e ver-se-á que, cingindo-a em duas metades quase iguais pelo meridiano de Madrid, se tem para Oriente uma Espanha terciária lacustre, para Ocidente um maciço de terrenos silúricos e graníticos principalmente. Foi esta circunstância que levou a geologia a reconhecer a necessidade da existência de uma Atlântida, na qual grandes rios terciários vinham, rumando a Sueste, entrar pela Biscaia e formar os lagos de então, hoje bacias do Ebro, do Douro, do Esla, e o planalto central de Castela, origem do Tejo, do Guadiana e do Jucar. Através das actuais províncias de Tarragona e Múrcia, o sistema lacustre da Espanha terciária vazava para o lago que então era o Mediterrâneo.
As revoluções que assinalaram a entrada da nossa idade geológica cindiram a Espanha da África pondo em comunicação o Mediterrâneo e o Atlântico, subverteram a Atlântida limitando a Espanha por Norte no Mar Cantábrico, e, secando as fontes que alimentavam os lagos interiores, erguendo contra o mar as barreiras cretáceas da Biscaia, deixaram a nu o fundo dos velhos lagos que são hoje campinas regadas por novos rios, cobertas de plantações e vilas.
[…]
A Espanha é outra para o Sul do paralelo que de Coimbra, em Portugal, acompanhando as cumeadas da espinha dorsal da Península vai passar em Madrid e através da Serra de Molina chegar a Tarragona no Mediterrâneo. Desde Perpinhão nos Pirinéus, por Barcelona a fabril, pelas bocas do Ebro, cujos vinhos são célebres, por Tortosa, até Valência, teatro das campanhas do Cid, nós já vimos que um cordão de montanhas limita contra o Mediterrâneo os vales interiores da Espanha Oriental.
A Ocidental, nesta metade, pode dividir-se em três zonas: o planalto das Castelas com as suas vertentes mediterrâneas até Valência e Múrcia; os vales do Tejo e do Guadiana, vertentes ocidentais ou atlânticas, com as serranias divisórias, isto é, a Lusitânia dos romanos; e, finalmente, a velha Bética ou a Bacia do Guadavalquivir engastada pela Serra Morena, montes Marianos, e pela Nevada, montes de Hipula. – Na primeira e na última destas regiões, dominam quase absolutamente os terrenos terciários; pertencem ambas à metade da Espanha geologicamente moderna. A segunda forma o resto da primitiva construção geognóstica da Península.
Oliveira Martins
In História da Civilização Ibérica, Oliveira Martins, Guimarães Editores, 13ª edição, Lisboa, 2007, pp. 21 e 25.
Link.