EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).

- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).

- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.

- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).

- 25º número (1º semestre de 2020): Pinharanda Gomes: Textos e Testemunhos dos seus Amigos.

Para o 25º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 24

Capa da NOVA ÁGUIA 24

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 24

As personalidades maiores (ou mais aquilinas) são aquelas que mais transcendem fronteiras – culturais, religiosas ou ideológicas. Pela amostra (significativa – mais de uma dúzia) de testemunhos que aqui recolhemos, proferidos numa sessão em sua Homenagem promovida pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no dia 10 de Maio do corrente ano, no Palácio da Independência, João Bigotte Chorão foi, de facto, uma personalidade maior da nossa cultura lusófona.

Personalidade não menor foi a de Afonso Botelho, que completaria no dia 4 de Fevereiro 100 anos. Igualmente por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, realizou-se, nesse exacto dia, também no Palácio da Independência, um Colóquio que abordou as diversas facetas do seu pensamento e obra. São os textos então apresentados (com mais alguns entretanto chegados) que aqui publicamos (mais de uma dezena e meia de textos).

Dois mil e dezanove tem sido um ano especialmente rico em centenários. Para além de Afonso Botelho, evocamos aqui igualmente Jorge de Sena e José Hermano Saraiva. Para o próximo número, fica desde já prometida a evocação de Joel Serrão e de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde iremos também recordar Agustina Bessa-Luís, recentemente falecida, no início deste semestre, que marcou ainda presença na NOVA ÁGUIA – logo no primeiro número, onde publicámos um texto seu intitulado “O fantasma que anda no meu jardim”, que termina desta forma: “Voltaremos a encontrar-nos”. Até sempre, Agustina!

Ainda no vigésimo quarto número da NOVA ÁGUIA, para além do “Poemáguio” e do “Memoriáguio” (duas secções igualmente clássicas), publicamos cerca de uma dezena de “Outros Voos” e, em “Extavoo”, mais um capítulo da segunda parte (inédita) da Vida Conversável, de Agostinho da Silva, bem como a série completa das “Cartas sem resposta” de João Bigotte Chorão –, algumas das quais já publicadas em números anteriores da nossa revista. No “Bibliáguio”, por fim, publicamos mais de meia dúzia de recensões de obras que despertaram a atenção do nosso olhar aquilino.


A Direcção da NOVA ÁGUIA


Post Scriptum: Já na fase final da composição deste número, a 27 de Julho, faleceu, aos oitenta anos, Pinharanda Gomes, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, um dos mais importantes colaboradores da NOVA ÁGUIA, desde o primeiro número (até este que aqui se apresenta, com dois ensaios que nos fez chegar no primeiro semestre deste ano), e, sob todos os pontos de vista, uma das mais relevantes figuras da cultura lusófona do último meio século (facto que só por ignorância ou má-fé pode ser contestado). Por isso, no próximo número da revista, teremos, logo a abrir, uma série de Textos e Testemunhos em sua Homenagem.

NOVA ÁGUIA Nº 24: ÍNDICE

Editorial…5
HOMENAGEM A JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Textos e Testemunhos de J. Pinharanda Gomes (p. 8), Alfredo Campos Matos (p. 22), Annabela Rita (p. 22), António Braz Teixeira (p. 24), António Cândido Franco (p. 24), António Leite da Costa (p. 25), António Manuel Pires Cabral (p. 26), Artur Anselmo (p. 27), Eugénio Lisboa (p. 27), Isabel Ponce de Leão (p. 29), Jaime Nogueira Pinto (p. 29), Miguel Real (31), Paulo Ferreira da Cunha (p. 39) e Paulo Samuel (p. 41).
NOS 100 ANOS DE AFONSO BOTELHO
APOLOGIA E HERMENÊUTICA NA OBRA DE AFONSO BOTELHO | António Braz Teixeira…48
AFONSO BOTELHO SEMI-INÉDITO | António Cândido Franco…57
AFONSO BOTELHO NO 57: MOVIMENTO DE CULTURA PORTUGUESA | Artur Manso…59
EDUCAÇÃO E SAUDADE EM AFONSO BOTELHO | Emanuel Oliveira Medeiros…65
HUMANISMO ESPERANÇOSO DE AFONSO BOTELHO | Guilherme d’Oliveira Martins…86
À MEMÓRIA DE AFONSO BOTELHO | J. Pinharanda Gomes…88
AFONSO BOTELHO: TESTEMUNHO BREVE | Joaquim Domingues…90
AFONSO BOTELHO, UM ARISTOCRATA EXEGETA DE D. DUARTE | José Almeida…92
TESTEMUNHO E HOMENAGEM A AFONSO BOTELHO | José Esteves Pereira…97
MITO E MITOS FUNDANTES: A POSSIBILIDADE DO DISCURSO DA SAUDADE | Luís Lóia…98
O TEMA DA SAUDADE NA TEORIA DO AMOR E DA MORTE DE AFONSO BOTELHO | Manuel Cândido Pimentel…104
AFONSO BOTELHO: DA RAZÃO E DO CORAÇÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…108
AFONSO BOTELHO, DO PENSAMENTO À ESCRITA FICCIONAL NO 57: UMA ABORDAGEM DO CONTO O INCONFORMISTA | Maria Luísa de Castro Soares…112
A FICÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Miguel Real…118
DA FILOSOFIA COMO “SABEDORIA DO AMOR”: ENTRE JOSÉ MARINHO E AFONSO BOTELHO | Renato Epifânio…125
A RENÚNCIA DO MAL NA METAFÍSICA CRISTÃ DA REDENÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Samuel Dimas...127
SOBRE A MÓNADA HOMEMULHER EM AFONSO BOTELHO | Teresa Dugos-Pimentel…139
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES: JORGE DE SENA E JOSÉ HERMANO SARAIVA
A CRÍTICA LITERÁRIA EM JORGE DE SENA | Miguel Real…146
JOSÉ HERMANO SARAIVA: HISTORIADOR E DIVULGADOR DA CULTURA PORTUGUESA | Nuno Sotto Mayor Ferrão…151
OUTROS VOOS
A MANEIRA PORTUGUESA DE ESTAR NO MUNDO | Adriano Moreira…162
O PENSAMENTO ESTÉTICO DE EDUARDO LOURENÇO | António Braz Teixeira…165
O SENTIDO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO DA LUZ EM “VIRGENS LOUCAS” DE ANTÓNIO AURÉLIO GONCALVES | Elter Manuel Carlos…170
OS AÇORES E O MAR – O POVO, SOCIEDADE(S) E TERRITÓRIOS | Emanuel Oliveira Medeiros…176
SOBRE OS INÉDITOS DE JUNQUEIRO | Joaquim Domingues…188
VIVÊNCIAS COM MÁRIO CESARINY E FERNANDO GRADE: POETAS E PINTORES | Luís de Barreiros Tavares…194
SENTIDO E VALOR ACTUAIS DA MONARQUIA: UMA PERSPECTIVA TEÓRICO-CONSTITUCIONAL | Pedro Velez…197
CINCO DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS| Renato Epifânio…199
AUTOBIOGRAFIA 6 | Samuel Dimas…204
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…220
CARTAS SEM RESPOSTA | João Bigotte Chorão…227
BIBLIÁGUIO
ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA | Joaquim Domingues…256
A ESCOLA PORTUENSE EM QUESTÃO | Elísio Gala…256
LEONARDO COIMBRA: VIDA E FILOSOFIA | José Esteves Pereira…258
EUDORO DE SOUSA E A PRESENÇA DO MITO NA FILOSOFIA PORTUGUESA | Samuel Dimas…262
TABULA RASA II & ESTUDOS SOBRE HEIDEGGER | Renato Epifânio…263
PEITO À JANELA SEM CORAÇÃO AO LARGO | Onésimo Teotónio Almeida…264
ESPÍRITOS DAS LUZES | Anabela Ferreira…266
POEMÁGUIO
CATATÓNICO; GOLGOTHA | António José Borges…46
SEU HÁBITO MELHOR | Jaime Otelo…47
“NASCERÁ O MAIOR AMOR…” | Catarina Inverno…144
FUNDURA | Maria Leonor Xavier…145
MACAU | António José Queiroz…159
CANÇÃO SUPREMA | Carla Ribeiro…160
COMO PODEM ESPERAR | Delmar Maia Gonçalves…161
PELOS SENTIDOS | Juvenal Bucuane…161
NUME | Luísa Borges…218
STELA | Jesus Carlos…219
MIMNERNO E AS FOLHAS CAÍDAS DE JÚDICE | Susana Marta Pereira…254
LARGO | Joel Henriques…255
PARA O HERBERTO HELDER | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…267
SEGUNDA VARIAÇÃO | José Luís Hopffer C. Almada…268
MEMORIÁGUIO…272
MAPIÁGUIO…273
ASSINATURAS…273
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…274

Lançamento da NOVA ÁGUIA 24

Lançamento da NOVA ÁGUIA 24
18 de Outubro, no Palácio da Independência (na foto: Abel Lacerda Botelho, Renato Epifânio e António Braz Teixeira). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:

https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Silepse


"Os portugueses somos do ocidente
imos buscando as terras do oriente"
Camões, Os Lusíadas



Silepse é uma palavra medonha que eu ignorava (acho) até há uns minutos atrás (espero esquecer-me dela ainda hoje), pelos vistos de estimável origem grega: cheira-me a construção por via erudita, e portanto a palavra inventada por sábios vitorianos, mas pode ser que não e que o divino Platão a tenha achado útil (e até bela aos seus helénicos ouvidos). A acreditar em textos académicos que encontrei no google, devemos usá-la para a hipótese aparentemente absurda de querermos gastar o nosso tempo a classificar determinadas figuras de estilo em que há uma não concordância de pessoa (entre o sujeito e o verbo, acho que se pode dizer assim). Dou a seguir um exemplo que encontro numa página brasileira escrita por professores de linguística computacional, e que adapto a Portugal para não parecer descortês: "os portugueses somos sem-vergonha".

Aparentemente, a frase de que venho falar contém a tal silepse, e portanto onde Camões escreveu "os portugueses somos do ocidente" deveria estar (e assim está explicitadíssimo e assumidíssimo em dezenas de pequenos net-textos pseudo-patrióticos) "Nós somos portugueses, e portanto somos do ocidente"; ou mesmo (não se esqueçam de que é o Gama a falar ao enigmático Rei de Melinde) "... somos do ocidente tal como os bascos, os habitantes do Yorkshire, os suíços e os norte-americanos e os australianos quando os houver, para o que aliás convinha que você, seu oriental, me deixasse cumprir a minha missão".

Mais valia falar menos grego e pensar mais português.

O Gama (o Camões) não silepsou coisa nenhuma, e o que está dito (posto em sequência mais simples) é "somos os portugueses do ocidente". E no momento em que esta frase foi escrita o Anjo de Portugal sorriu (pronto, sei que há aqui quem não acredite em Anjos, e muito menos neste: mas o século XIX deu-nos um infindável receituário de frases metafisicamente correctas, digam lá se fica bem ao mais exigente tribuno dizer antes "virou-se uma página da gloriosa história universal").

Somos os portugueses do ocidente, e no estado a que isto chegou é mais seguro começar por explicar que "ocidente" também não é o "western world" de alguns anglo-saxónicos, tão estreitos na sua visão da geografia e da história que não descansaram enquanto não liquidaram o correctíssimo "Próximo Oriente" com que sempre os franceses e os alemães se referiram à zona que vai de Alexandria a Bagdad, e o substituiram por um Médio-Oriente que nada diz nem quer dizer a não ser que vive lá gente que parece não ser o próximo de ninguém. Mas isso é uma outra conversa.

O Ocidente é a parte do mundo em que é maior a consciência de que o Mundo é uma história nossa, e é maior a consciência de que cada um de nós é um mundo para navegar. O Ocidente não é a parte do mundo que faz parte da Europa ou tem pena de não fazer, a parte do mundo em que o homem branco já levou o pesado fardo até ao ponto em que nada resta do fardo, a parte do mundo em que os MacDonalds dão lucro. E esta é a primeira distinção a fazer.

E por isso do ocidente os portugueses somos: gente ocidental que saiu de um minúsculo canto da Europa para transcender a Europa, e que por isso é, como disse Pessoa, o seu rosto (A Europa jaz, posta nos cotovelos /... / o rosto com que fita é Portugal): porque é no rosto que moram os olhos, e é pelos olhos que o mundo inteiro nos entra. Com a barriga da Europa fique quem a isso achar graça.

Do ocidente os portugueses somos, e seja bem vindo quem vier por bem. Que os amesquinhadores de palavras continuem a amesquinhar, que aos tolos Deus os ilumine, mesmo que não exista. Faz sentido sermos portugueses porque cada um dos homens e mulheres do mundo pode ser português na íntima ocidentalidade do seu Mistério único.

Portugal, ocidente do ocidente, finisterra das nações, promontório sacro de todos os deuses de boa vontade. Um enigma dentro de um enigma, e nesse sentido – ah, e nesse sentido o Mar.

E digo mais. Portugal – o Portugal-terra, o Portugal-rectângulo – é feito de celtas. É feito de mouros e de judeus. É feito de romanos, e de fenícios, e de gregos, e de berberes, e da ignomínia dos escravos africanos, é feito até dos improváveis borgonheses, dos estranhíssimos castelhanos. É feito dos emigrantes que foram, dos imigrantes que chegam. Somos os cafres da Europa e os europeus de Al-Andaluz. E se Portugal-terra é isso tudo, que não há-de ser Portugal-mar? Que não é, já, Portugal-dentro?

Digo mais ainda. Precisamente por isso é que a República Portuguesa – que é um Estado soberano e não um Império-a-haver, que é a casa dos portugueses e não o mundo dos portugueses, que é lugar onde se fala e se cala em português mas não é a lusofonia, e que é uma parte do mundo em que são e serão os portugueses a mandar – vai cumprir a sua parte das alianças europeias, das alianças atlânticas, da grande e ainda tão frágil aliança das nações. Não me digam que somos pobres, porque por graça de Deus nunca fomos outra coisa; não me digam que podemos ser derrotados: eu estive em Alcácer-Quibir. Somos isto que a terra é, que os mortos são: A todas as cinzas – paz.

"Silepse" é medonho. Os gregos temos palavras estranhas.

9 comentários:

Renato Epifânio disse...

Belíssimo texto, Casimiro.
Mandei hoje um mail geral a chamar a atenção para a qualidade crescente do blogue e textos como este só me dão razão...
Não te esqueças, contudo, da nossa "polémica" em curso: sobre o império e as alianças. Que alianças e que império, à luz dessa visão de Portugal, do Ocidente, e do Mundo?

andorinha disse...

Simplesmente BRILHANTE!
Num só post e da tua forma muito peculiar, respondes a uma série de comentários, mais ou menos felizes - eufemisticamente falando - aqui feitos nas últimas horas.

És um fora-de-série, Casimiro:)

Beijinhos.

andorinha disse...

P.S. Quando comentei não tinha ainda visto o comentário do Renato, portanto comentei livre de qualquer influência:))))

Quanto à qualidade crescente do blogue ela é manifesta; comentei isso mesmo com o Klatuu um dia destes.

Quanto mais não seja, o tempo se encarregará de fazer a triagem.

O meu abraço profundo a quem aqui está de alma e coração desde o início sempre levando o barco a bom porto contra ventos e marés.

Não preciso de citar nomes, todos sabem quem são.

Um abraço MILitante.

Klatuu o embuçado disse...

Tu és único - a maré que lava a praia...

Abraço.
P. S. Estou cansado e sem palavras para honrar tudo o que o teu texto merece.

Anónimo disse...

Gostei muito do texto, Casimiro, mas não acho Silepse uma palavra medonha... aliás, adoro as "Figuras de linguagem", adoro a língua portuguesa assim mesmo, com sua miscelânea entranhada de outras línguas (isso ocorre principalmente com o português do Brasil)e inclusive gosto de perceber, independente do que fica feio ou bonito na linguagem, a dinâmica de sua evolução.
Bem, é por isso que estou me tornando lingüista... rsrs

Flores @>--

biazinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
biazinha disse...

Tio 2dão:
A palavra pode até parecer estranha, mas é uma figura de linguagem que valoriza muito um texto, e usa quem sabe, não quem quer. Sou chegadíssima numa silepse!
Porém é óbvio que neste texto a silepse é um recheio para metáforas mais fundas, todavia, neste momento estou sem tempo pra comentários mais profundos
Adorei... 2dão tu é o cara!

Beijão.

Casimiro Ceivães disse...

Ora, Renato, não me esqueci. Mal possa...

Amigos, obrigado. O que está a ser feito aqui, por todos, é importante.

Ah, e esta é uma barca com dois corvos, pois :)

Clarissa disse...

Casimiro, dois corvos já é bom... conto convosco para carregarem a minha alma até ao paraíso pois apesar de estar magrita tenho muita genica e um só não conseguia dar conta do recado :)

Vocês comem enciclopédias ao pequeno-almoço enquanto o comum dos mortais come torradinhas; tenham paciência...

Beijocas aos corvos