A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Da Epopeia do Mar à de Amar

«Mas a Ideia quem é? quem foi que a viu,
Jamais, a essa encoberta peregrina?
(...)
Outra amante não há! não há na vida
Sombra a cobrir melhor nossa cabeça,
Nem bálsamo mais doce, que adormeça
Em nós a cantiga, a secular ferida!
(...)
Será sempre ela a esposa prometida!»
Antero de Quental, Prosas da Época de Coimbra

«Pois aquilo que cada navegante e seu capitão [coração] realizam nesta ilha [vida] será o acto supremo de conhecer seu anjo e com ele se unir, para sua imortalidade. A alma só tomando consciência de si mesma, como Anima, poderá conhecer o seu anjo, ou duplo celeste.

É uma morte iniciática o que provoca a sua contemplação: poderoso choque que levará o amante a outro nível espiritual de vida (...). Dirá Dante: «transformar-se-á em nobre coisa ou morrerá» (Vita Nova). E Camões dirá desse choque, tal o dum relâmpago: «Amor, que o gesto humano na alma escreve, / Vivas faiscas me mostrou um dia (...).

Dante dirá: «assim sou Ella» (Vita Nova) e Camões, «Olhai-me a mim, que sou feitura vossa».

Em todos os relatos do sulismo, de fonte gnóstica o Anjo do Conhecimento é identificado ao Espírito Santo; Natureza perfeita, ou Inteligência agente, como o Dador. A angelologia sendo aqui inseparável do processo de individuação, ou libertação perfeita da alma, como face a face última do homem com seu eu verdadeiro, supra-pessoal (...) Havendo ainda nesta tradição, uma referência a partir do Espírito Santo e Anjo Gabriel, à «Virgem da Luz» do maniqueísmo, como figura de Sophia divina, que na gnose, é identificada ao Espírito Santo.
Vemos assim, que fundas implicações de sabedoria e de tradição religiosa portuguesa, estarão implicadas na figura divinizada da mulher, na poesia lírica de Camões, como «figura angélica» e na sua poesia épica, como «ninfa mor»: a figura feminina surgindo como doadora da sabedoria suprema, iniciadora dos mistérios invisíveis do céu.»
Dalila Pereira da Costa, Raízes Arcaicas da Epopeia Portuguesa e Camoniana



«Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo
(...)
Vejo-me, somos dois...»
Fernando Pessoa

terça-feira, 21 de abril de 2009

Na Volta que a Serpente de Fogo Dá...

A Lei da Vida cria-Se a Si mesma, pelo Amor que (se) Ama, que (se) Nutre. Que (para) sempre d(ar)á à luz a vida, à custa de a ir tirando:ardendo.

O Amor-Sangue redimido do Corpo de Jesus
renascerá como Leite de Tétis, da Mãe-Terra:
Sangue Espiritual do Novo Homem - Icor:
pela Aliança Eterna do Homem consigo próprio
na Viva Poesia da Língua Portuguesa.

Tal como o Som se cria Luz, assim o Sangue se criará Leite:
Sangue de Luz.



... para chegar ao Seu L-ug-ar: a Vera Lusitânia.
À Terra da Luz do Céu igualada à Luz do Mar da Terra:do Sangue do Homem.
À Ilha de São Vicente.

A Nov'Ilha do Mar: (de) Tétis*














(Wikipédia)
Regresso à Pangeia: Terra de Pã

«A vaca receberá
A nova gente que vem,
Com prazer de tanto bem
Seu lei-te derramará.

As chagas do Redemptor,
E Salvador
São as armas de nosso Rei:
Porque guarda bem a Lei,
E assim a grei
Do mui alto Creador.
Nenhum Rei, e Imperador,
Nem grão Senhor
Nunca teve tal signal,
Como este por leal,
E das gentes guardador.

Oh! quem tivera poder
Pera dizer,
Os sonhos que o homem sonha!
Mas hei medo, que me ponha
Grão vergonha
De mos não quererem crer.

Vi um grande Leão correr
Sem se deter
Levar sua viagem,
Tomar o porco selvagem
Na passagem,
Sem nada lho defender.

Tirará toda a erronia
Será paz em todo o Mundo
De quatro Reis o segundo
Haverá toda a victória.

Sonhava com grão prazer,
Que os mortos ressuscitavam,
E todos se alevantavam,
E tornavam a nascer.

E via aos que estão
Trás os rios escondidos;
Sonhava, que eram saídos
Fora daquela prisão.

Vejo um alto engenho
Em uma roda triunfante
Vejo subir um Infante
No alto de todo o lenho.


Desamparar o cortiço
Uma abelha mestra vejo;
As outras com muito pejo
Não têm asas para isso.»
Bandarra, Trovas

«(...) o disse João - só na terceira o Espírito virá pleno e, dissolvendo o fenómeno, dará a todos aquela santidade, aquele perder-se no Inominado, sem que perda haja, que só foi até hoje o de raros - e talvez sobretudo o daqueles que anónimos a Igreja celebra no dia que, em termos do porvir, mais fundo vai - o de Todos os Santos. Reino de Deus sem rei, porque sem súbditos; Império sem número algum, porque sem memória de que lhe antecederam e sem nenhum que venha a suceder-lhe; Sociedade sem classes, porque soltos os homens da política que os distingue; e da economia que os separa; da morte que a todo vivo a vida empalidece. Idade que virá e de que foi profeta o Cristo de João, ou o Abade Joaquim de Fiori, que Dante cita; Idade que fugazmente foi povo em Portugal e é Povo nas Ilhas atlânticas e é Povo no Brasil; naquele Portugal de Pessoa ortónimo ou heterónimo que em Dora vive, como outra ressurrecta ânfora, toda fremente de Mar Universal, mesmo que de lágrimas feito, e naquele Brasil, futuro do passado, que em Dora tão plenamente também vive, apesar de São Paulo - afinal tão mártir de uma técnica que, por ainda, como em todo o mundo, tateando seus passos, opressora parece, quando afinal em si traz mensagem plena de liberdade. Aquela liberdade por que ansiaram os gregos - e lhes foi apenas Democracia e Democracia de raros, como aliás o têm sido todas as Democracias; a liberdade que possuíram, depois, os Santos em sua Comunhão; mas Liberdade que só se afirmará, não sendo por ter substituído todo o ortodoxo e todo o heterodoxo pelo Paradoxo que tão raros ousaram e por ele morreram; mas que por ele ressurgirão num outro terceiro dia, em que mais escola alguma matará a Criança Eterna que todos deveríamos ser e se sentarão, como nós todos, se o ousarmos ser já, à mão direita de um Deus que não terá mais nenhum culto, se não o que a si próprio, por o ser, a Divindade se presta. Ancorada, como parece, na primeira Idade, a ligeira galera de cuja amurada Dora transparece as águas, voga ela à Terceira e no Atlântico de África e Brasil se transformará na Barca divina dos mais antigos que os gregos, aqueles que, fechando o ciclo, serão os primeiros dos últimos. Simultâneos primeiros e últimos, no único tempo que verdadeiramente importa: o que é contemporâneo do eterno.»
Agostinho da Silva, Carta de Agostinho da Silva sobre Talhamar (1988)

«Ornada de nastros
fareja a espuma,
olhos chamejantes, ante o mar.
(Na areia há poças de céu e nuvens,
nódoas de negras mariposas.)
A novilha baixa a cerviz, balindo,
mas não se afasta: fareja o hálito do Pai
e à vaga se entrega (para a morte, para a vida,
não sabe). Sopra o vento de Dionisos rubro
e em velo de ouro seu corpo se transmuda.

Fogem delfins. Alastram-se algas,
seres híbridos de progênie incerta.
A novilha flutua em luminoso torvelinho
às fitas de ouro enlaçada;
seus grandes olhos descem às profundezas
e vê as quatro portas do tenebroso Mar.
Borbulha o abissal; deuses se forjam e o tempo,
armam-se auroras de capacetes cintilantes
e sóis se diluem; do arcano do sono
nutrem-se sonhos e ao germinar infuso
treva e luz são arrancadas.

Vê os nomes primordiais
que às coisas conferem vida
e esplendor:
onde, sem nenhum apoio, finalmente está,
onde, sem ontem e amanhã, finalmente está
e fulgura sem que nada a ilumine.
A luz dali não vem, pois é a luz em seu primeiro vagido.

Nome não tem e a tudo nomeia
nas entrançadas raízes das coisas por nascer.
Não é, não existe, simplesmente está no Incontaminado
e fora do tempo, porque o tempo dele se origina.
A um suspiro seu, a cadeia da vida se propaga.

Diz a Palavra, desviando o olhar: A vida
é o ponto escolhido para o triunfo célere de um deus.
Cada pedra, cada homem ou árvore
vela e desvela uma face rápida e divina.
(Os deuses espreitam a vida com olhos temerosos.)
Porque a vida não é, a vida está.

nada ia no barco
e tudo era o Mar»
Dora Ferreira da Silva, Talhamar (1982)

*«A deusa do mar, a mais jovem das Titânidas, filha de Urano, o Céu, e de Gaia, a Terra. Seu nome em grego significa ama, nutriz»
Site

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Oriente da Alma

Homenagem ao Nosso Poeta do Arquipélago dos Amores,
que Amanhã e (para) Sempre celebrará o seu Nascimento.

«A contemplação inerte não pode ser o ar que o espírito do homem pede para respirar! O ar da vida é outro... A vida! no seu voo para o céu, na sua sublime ambição ideal, foi isso que esqueceu ao Cristianismo - a terra, a vida.

VII
Viver! ser homem! Que mais alta ambição pode um coração conceber?
Círculo de ilimitado desejo que abraça a terra, o horizonte até onde o olhar se perde, o espaço até onde se some a fantasia!
São as esperanças do céu e os cuidados da terra. Os ardentes amores do mundo, e as vagas aspirações de além túmulo. O finito deste momento que se sente, e o infinito da duração que se adivinha. O que as Religiões da Natureza podem dar à vida de calor e força, e o que podem inspirar de lânguido e místico as Religiões do Espírito. É pensar, crer, pressentir e amar! Erguer-se para cima, sem por isso desprezar o palmo de terra aonde se firmam os pés. Inclinar a cabeça sobre o brando regaço da realidade, sem esquecer o áspero caminho do ideal por onde tem de se seguir. Aonde há aí lei, religião, código que contenha no abraço ambicioso maior porção de verdade, da vida universal? A certeza do roteiro, que, para guiar-nos, nos dão esses pilotos de mares encobertos some-se, esvai-se na orla do horizonte que abrangem com os olhos. Para lá é o desconhecido; o oceano do possível - e os caminhos estão todos por abrir!
Uma bússola só, por fatídico condão, aponta o Norte e o Sul. Mas não é a civilização dum ou outro século, a tradição desta ou daquela raça, o absoluto que uns sonham para que outros acordem em face do nada - um código ou uma religião -. É o secreto instinto da vida! a revelação natural! a voz da lei humana!

(...) como se explica o próprio facto do movimento, que deste modo está em toda a parte sem estar em parte alguma? que é por toda a parte efeito, sem ter causa em parte alguma? como se concebe esse modo de ser, que, não tendo autonomia em nenhum dos pontos onde se realiza e realizando-se universalmente, parece ser e não ser ao mesmo tempo?

A causa do fenómeno está na mesma natureza do ser onde ele se dá, ou antes, do qual ele é essencial modalidade. "No fundo, a verdadeira causa dos fenómenos reside no ser dos mesmos fenómenos, cujo fim último é a afirmação plena de si mesmo." (Comentário de Leonel Ribeiro dos Santos)
(...) na espontaneidade inconsciente da matéria está a raiz do que na consciência e na razão se chama verdadeiramente liberdade.»
Antero de Quental, Filosofia

«Se há só seres, como existe o bem, a harmonia e a beleza?
(...) O Absoluto e o Relativo não são opostos irreconciliáveis como o não são a Razão e a Realidade; mas encontram-se na Experiência, como, e igualmente, na Memória se encontra o idêntico e o diverso, o subsistente e o transitório.»
Leonardo Coimbra, O Pensamento Filosófico de Antero de Quental

«As religiões antigas não faziam da alma humana prisioneira dum dogma imutável. Sentiam ser ela mesma o verdadeiro dogma. Abriam o seio a cada palavra inspirada e transformavam-na em sangue do coração...»
Antero de Quental, Prosas da Época de Coimbra

«Deixemo-nos de nénias - enterremos
As antigas paixões!
É d'ar puro e de luz que nós vivemos...
E nossos corações
De luminoso amor, d'amor contente,
Disso querem viver eternamente!

Viver de flores, como insecto alado...
E, como ave, de cantos
Viver de beijos, de prazer sagrado..
Sim, de prazeres santos,
Como homem que embala noite e dia
O fecundo regaço da alegria!

Serena fonte, que nos banha a vida
Em dulcíssimas águas:
E, através da existência dolorida,
Nos lava as velhas mágoas...
A alma parece nova: e limpa e bela,
Brilha em face de Deus, como uma estrela!

Brilha em face do mundo! Resplandece
Como lúcida aurora!
É o sol da ventura, que alvorece!
Vale e monte colora
Co'as mil cores do íris da bonança...
E as mil do íris d'alma - a esperança!

Amor que espera e crê... amor ditoso...
Quer Deus que se ame assim!
Dormir no mundo o sono mavioso
De prazeres sem fim...
Passar como em triunfo, em mago enleio,
Mãos unidas e seio contra seio...

Põe teus olhos nos meus, para que veja
Luz melhor que a do céu...
O que dentro em teu peito rumoreja
Tudo, é tudo meu!
Meus são teus ais e minha essa harmonia
A que chamas amor, e eu poesia.

Poesia não são lágrimas... são beijos...
E abraços também...
Paixões não são suspiros... são desejos...
Quantos a vida tem!
Compõe com tuas mãos minha poesia
De paixão e de beijos e alegria.

Vem comigo na vida! Hei-de levar-te
Por caminhos de flores...
Cantará para ti, por toda a parte,
Um viveiro d'amores...
Eu sei o que é amor! estes conselhos
Amor tos dá - deixa falar os velhos!

Deixa, deixa-os dizer, os velhos sábios,
Que só sabem chorar!
Mulher bela, se Deus te pôs nos lábios
Botão de flor sem par,
Flor de luz e ventura... é por que o riso
A abra e transforme em flor do Paraíso!»
Antero de Quental, Primaveras Românticas

«Mete-se a mão no coração e fala-se - são palavras de vida as que assim se proferem. Que importa a tradição, o caminho trilhado, a ordem velha? Longe, nas últimas brumas, se perdem as extremas orlas do antigo continente. Incerto crepúsculo! e nenhuma carta diz o rumo que indicam as estranhas constelações desse hemisfério, pela vez primeira avistadas! Mas, lá para o Oriente, vê-se um brilho pálido no céu, como reflexo de luzes à distância. Para lá se inclina a alma. Para esse lado, o lado da luz, há (...) um novo mundo a descobrir!»
Antero de Quental, Prosas da Época de Coimbra

Terra do Sempre

A Morte e o Amor, os dois lados de uma só face: a Nossa;
a Ausência e a Ausência da Ausência, a Presença.
Ahh!, o Possível é, pois, o Impossível do Impossível...
ou o extremo do Impossível.
Como não Desejar alcançar a Terra do Nunca?,
se aqui, onde vivemos, é já a Terra do Nunca do Nunca,
e só por isso nela andamos.
Mas não, eu só quero a Terra do Sempre. Sem-pré.
É lá que mora o meu Coração Independente da Morte: de Si.
Eterno vagabundo, vag(ue)ando pelas ondas do Amor sem fim.

O Amor Real é o que se sente imortal, pois só assim se pode unir à Morte (que o precede): existir.
Só a Morte pode ser Amada, só assim o amador se transforma na amada.
O Amor Ama, a Morte é Amada. A Morte Ama o Amor, matando-O...
O Amor, espelho da Morte, mata a Morte: torna-a Imortal.
É Amando para lá do Amor - em Amor Absoluto, que a Morte é Amada para lá da Morte: que a Morte mata sem matar.

À falta de um Amor de(a) Morte que nos ligue, restou-nos nas mãos esta morte do Amor...

«Nas praças, nos templos e olivais
um grito de louvor à Terra, dançai!

Vim sem o esplendor da aurora, mendiga,
não como as musas de outrora, dadivosas Diotimas,
vim mendigar o que há muito vos ofertei, Poetas:
sopro-vos à garganta dilatada, vossos olhos ceguei
para que o fundo olhar se liberte. Sibila em agonia,
há tanto silenciada, falarei por vossas bocas,
em vossos versos arquejará minha voz embriagada, rouca -
sustos e soluços, gritos, silvos, neblinas de esgares,
mares de canto e pranto. No tempo além do tempo
meus lábios murmuram por ti e perto dos templos derruidos,
a respiração do velho Mar, seus haustos e gemidos.

Mostra-me o silêncio o lacre escarlate, verbo indigente
dos mitos que sempre me uniram às setas de Apolo.
Há tanto minha palavra foi calada, os deuses recuavam...
Mas os poetas mantiveram-me viva. O mais ínfimo
deu-me de beber e em sua hídria refresquei meu rosto.
Sensíveis a meu sopro, os maiores coroaram-me de folhas verdes.
O nascimento do Poema é o silvo que Apolo harmoniza e Orfeu faz cantar.
Rompendo as cisternas escuras eu vim, raiz coleante
por entre as pedras e a secura. Dilacerada, arquejante,
acolhe-me Apolo em seus braços de névoa.
Gemidos rasgam mil caminhos na gruta: Ai, ai, oh...
A Sibila arrasta-se no pó, soluça, seus lábios deliram,
traça no ar os gestos incertos dos agonizantes, colhe flores
na neblina. Ai, ai, oh... Foram-se os deuses da Grécia,
só espelhos reflectem espelhos, o eterno assim se dá e esconde.

Onde Afrodite, a de róseos tornozelos, ungida de óleo incorruptível,
com seus perfumes, colares e pulseiras cintilantes?
Onde Ártemis, a de doçura selvagem? Foram-se as ninfas
e hamadríades! Nunca mais a vida estuante dos bosques,
suas flores e clareiras, onde Zeus e Hera adormeciam ao calor do dia.

Ai, ai, neblina, o que enlaçarão agora nossos braços?
Não mais que névoa e vento. Apolo, assim te afastas, e me deixas presa
à teia indecifrável destes sons selvagens? Aaa Oooo...
Em teu ombro dourado me apoiava, inventando poemas que ditavas
a meu secreto entendimento. Infeliz de mim! Agora
só posso tocar névoa e memória. Dissiparam-se Mundo e Palavra.

A Sibila chorou.

Nesse momento as coisas cessam, silenciosas,
atemorizadas. Os ventos param de soprar,
nas árvores as folhas não se movem.
Os rios adormecem e o gigantesco Mar
é liso e sem ondas. Paira sobre tudo um
SANTO SACRO SILÊNCIO

Perde-se na neblina a medida do Tempo,
tudo se abisma no silêncio, à espera
do alto Deus, meta dos séculos.

A Sibila abre os grandes olhos
e vê o Deus que nasce.

A Mãe, junto ao Menino, parece uma vinha
e enquanto a Lua surge, clara, ela adora
o Filho em seus braços. De ouro vivo é a Criança
e em resplendores toda a gruta se ilumina.
Luz nascida como o orvalho descendo do Céu à Terra
e em torno, suavíssimo aroma.
Anjos perpassam, alígeras borboletas
e cantam: Amém.

A Sibila sorri.

Um cântico novo brota em seus lábios, mas não é seu,
o infinito o modulou:

O aroma de teus perfumes é delicado
e teu nome, óleo que se derrama.
Serás novo júbilo e alegria...
Não repares em minha tez morena, que o sol queimou.
Irados, meus irmãos fizeram-me guardar as vinhas,
eu, esquecida da Vinha!

Ouço a voz do meu Amado batendo à porta
Lentos são meus pés e ao abrir a porta
o Amado já se foi. Corre minha alma
e o busca por toda a parte. Não respondes, Amor,
ao meu chamado?

Eu vos suplico, filhas de Jerusalém,
se o encontrardes
dizei-lhe que estou doente de amor.

O que tem ele - elas perguntam -
o que tem o teu Amado mais do que os outros
para que assim o busques, quase morta?

Meu Amado é róseo e brilhante,
meu Amado vermelho. Sua cabeça é de ouro puro,
seus cachos, negro-azulados.
Seus olhos são duas rolas
perto de um lento riacho.
Destila mirra
o lírio de seus lábios.
Sei que habita um jardim,
companheiros ouvem sua voz...
Oh, faze que eu também te escute!

Quem é essa que vem do deserto
como um cântaro apoiado a um peito amoroso?
Ele é um selo sobre seu coração,
sobre seu braço moreno,
pois o Amor é forte como a Morte,
seus centelhas são de fogo:
uma chama divina!

Dissipa-se na névoa um rosto efêmero,
mas a face do Amado permanece.»
Dora Ferreira da Silva, Poesia Reunida

Portugal está Vivo!...
Pois É a - Vera - Vida!




«Só na reflexão do espelho da água, ou do tempo que passa, se duplica e vem mostrar a eternidade: o céu se reflecte na terra.»
Dalila Pereira da Costa, Introdução à Saudade

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Idade da Águia

Ao Julio, um seu conterrâneo:

«"A águia pelo tempo sendo achada, no cimo do invisível vai entrar."

As palavras são mãos que aprenderam a ver.

Na luz o tempo acaba.

(...) os rios que correm aquém da infância, nada têm com os outros. Sob um eixo maior se movem. Como plantas em órbitas junto à foz do sol. As ondas, de grandes olhos, brincam de ser rio.

Tinhas na ponta da língua: amor, ias falando com a didática da luz. E atalhou Laor, com as feições de um albatroz desajeitado sobre a trancosa oliveira:
- Aqui tudo convive e essa é a língua que te ensino, aprendendo a respirar. E falas o que assopra o paraíso.

E a(l)mou.

(...) a alma (...) lia o céu em letras de vento.

A ilha era a alma.

E amor é a fala do paraíso.»
Carlos Nejar, A Idade da Aurora

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A Dama do Apocalipse


















"Branco por cima e o negro de um sorriso herói
Trancam-me a mente e eu nego o quanto a dor destrói
Rasgam-me o sonho e o mal me põe na vida

E a vida me faz sem medo
Nos diademas, pragas, anjos de neon
Nos holocaustos trompas, flexas, megatrons
Rasgam-me a terra e o fogo traz a vida

E a vida não tem segredo
Fecha-se o ar e o sol se nega, nega-se o pão e a paz
E o amor me cega

Sete rajadas correm, somem
E uma mulher

Se entrega e se impõe ardente
Constante, serpente, vulgar
Rasga-se o sonho e o corpo sente a dor crescer
Abre-se a mente e o cego vê a luz nascer
Trava-se a guerra e o fogo faz a vida"
Nathan Marques / Crispim Del Cistia, Lilian Bosco

domingo, 19 de outubro de 2008

Nossa Senhora do Silêncio, também conhecida como Deusa da Palavra e da Voz

"Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folheio-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ler mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas antigas visões demoradas de paisagens outras, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um Sonho que eu sonhe?
Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Teu perfil? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada?
(...)
Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada, nem te ergo ante mim como santa.
Esplendor do nada, nome do abismo, sossego do Além...
Virgem eterna antes dos deuses e dos pais dos deuses, e dos pais dos pais dos deuses, infecunda de todos os mundos, estéril de todas as almas...
Esplende, ausência de sol; brilha, luar que cessas...

Só tu, sol que não brilhas, alumias as cavernas, porque as cavernas são tuas filhas.
(...)
És a mulher anterior à Queda, escultura ainda daquele barro que paraíso.
(...)
Pura só tu, Senhora dos Sonhos, que eu posso conceber amante sem conceber mácula porque és irreal. A ti posso-te conceber mãe, adorando-o, porque nunca te manchaste nem do horror de seres fecundada, nem do horror de parires.
(...)
Quem sabe se sonhando-te eu não te crio, real noutra realidade; se não serás minha ali, num outro e puro mundo, onde sem corpo táctil nos amemos, com outro jeito de abraços e outras atitudes essenciais de posse? Quem sabe mesmo se não existias já e não te criei nem te vi apenas, com outra visão, interior e pura, num outro e perfeito mundo?
(...)
Não sei mesmo já [se] não te amei, num vago onde cuja saudade este meu tédio perene talvez seja. Talvez sejas uma saudade minha, corpo de ausência, presença de Distância, fêmea talvez por outras razões que não as de sê-lo.

Posso pensar-te virgem e também mãe porque não és deste mundo. A criança que tens nos braços nunca foi mais nova para que houvesses de a sujar de a ter no ventre. Nunca foste outra do que és e como não seres virgem portanto? Posso amar-te e também adorar-te porque o meu amor não te possui e a minha adoração não te afasta.

Sê o Dia Eterno e que os meus poentes sejam raios do teu sol possuídos em ti.
Sê o Crepúsculo Invisível e que as minhas ânsias e desassossegos sejam as tintas da tua indecisão, as sombras da tua incerteza.
Sê a Noite Total, torna-te a Noite Única e que todo eu me perca e me esqueça em ti, e que os meus sonhos brilhem, estrelas, no teu corpo de distância e negação...
(...)
Realizadora dos absurdos, Seguidora de frases sem nexo. Que o teu silêncio me embale, que a tua mão me adormeça, que o teu mero-ser me acaricie e me amacie e me conforte, ó heráldica do Além, ó imperial de Ausência; Virgem-Mãe de todos os silêncios, Lareira das almas que têm frio, Anjo da Guarda dos abandonados, Paisagem humana e irreal de triste e eterna Perfeição.

Tu não és mulher. Nem mesmo dentro de mim evocas qualquer coisa que eu possa sentir feminina. É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Porque tenho de te falar com ternura e amoroso sonho, as palavras encontram voz para isso apenas em te tratar como feminina.
Mas tu, na tua vaga essência, não és nada. Não tens realidade, nem mesmo uma realidade só tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto.
(...)
Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os interstícios das minhas sensações.
(...)
Debruço-me sobre o teu rosto branco nas águas noturnas do meu desassossego, no meu saber que és lua no meu céu para que o causes(...).

E se acaso falo com alguém longínquo, e se, hoje nuvem de possível, amanhã caíres, chuva de real sobre a terra, não te esqueças nunca da tua divindade original de sonho meu. Sê sempre na vida aquilo que possa ser o sonho de um isolado e nunca o abrigo de um amoroso. Faz o teu dever de mera taça. (...) Ninguém diga de ti o que a alma do rio pode dizer das margens, que existem para o limitar. Antes não correr na vida, antes secar de sonhar.

Que o teu génio seja o ser supérflua, e a tua vida a arte de olhares para ela, de seres a olhada, a nunca idêntica. Não sejas nunca mais nada.
Hoje és apenas o perfil criado deste livro, uma hora carnalizada e separada das outras horas. Se eu tivesse a certeza de que o eras, ergueria uma religião sobre o sonho de amar-te. És o que falta a tudo. És o que a cada coisa falta para a podermos amar sempre. Chave perdida das portas do Templo, caminho encoberto do Palácio, Ilha longínqua que a bruma nunca deixa ver..."
Bernardo Soares, "Livro do Desassossego"

sábado, 18 de outubro de 2008

Ulisses e Atena

"(...) a associação do nome latino da cidade de Lisboa com o do herói grego Ulisses tem uma longa tradição: erudita em André de Resende, literária em Luís de Camões, criativa em Fernando Pessoa. (...) André de Resende tenta evitar recriminações formuladas um século antes por Lorenzo Valla; simultaneamente, assenta argumentos de glória para a cidade do Tejo que, ao tempo, se agiganta perante a Europa com o comércio desencadeado pelos feitos marítimos dos homens que dela partiam para o mundo inteiro (...). Não bastava que os novos feitos superassem os dos antigos (...) tornava-se necessário que a glória dos antigos se prolongasse nos novos heróis e assim se garantisse glória definitiva – que o seria tanto mais quanto se pudesse provar que nada era fruto do acaso, mas tudo se integrava em projecto de uma divindade que zela pelo Mundo com sabedoria harmoniosa. Tal factor de engrandecimento sobreleva em Camões, com a particularidade de avinculação com a antiguidade permitir integração que assegura facúndia épica por parte de uma divindade tutelar, Palas Atena, cuja protecção foi decisiva para o herói primitivo sair vencedor de todos os perigos; o testemunho dessa protecção, aliás, estaria concretizado pelo altar votivo que o herói ao chegar a Olisipo não teria deixado de aí erguer. Em F. Pessoa, o nome do fundador alarga-se, só por si, em mito – um «nada que é tudo», porque, mesmo que lhe falte fundamentação histórica, fornece o impulso necessário para o projecto (...) de uma nação inteira em tempo de plenitude que cumpre a utopia e «conquista a Distância / Do mar ou outra». (...) A forma envolve complexidade poética, pois o processo contempla projecção especular de modo a transferir para a cidade do extremo ocidente a glória que a preservação da cidade do oriente, onde o herói lutara, teria mantido pelos tempos fora. Olisipo é a nova Tróia; o mito recupera, em projecção especular, e amplia para o futuro o que fora negado no ponto de partida à infaustosa cidade que não foi poupada ao incêndio e à destruição. Efectivamente, Lisboa contrapõe-se a Tróia na figuração de Camões e de Pessoa; não é apenas o legado de um herói de passagem que lhe confere atributos, mas sim a imagem recuperada que a relança no futuro. (...) Por seu lado, o herói não se define pelo que destrói, mas pelo que resgata e repõe na harmonia do universo, alguma vez violada. Lugar antigo tinha de ser Lisboa; os títulos de glória que os tempos recentes, no séc. XVI, lhe traziam, tinham de advir de um fundador, mais que de um conquistador, por muito insigne que ele fosse, pois a sua acção buscara legitimidade na reintegração do lugar naquilo de que andara afastado; se há transposição, ela é obra de um fundador: como tal, cabem ao novo local as prerrogativas do antigo. Lugar extremo é também Lisboa: local longínquo (no fim do mundo – ponta da Europa), serve para erguer ao máximo o esforço do herói; local dos confins ocidentais é lugar propício para contraponto com cidade de partida (Tróia); é, por isso mesmo a Nova Roma e o seu herói não será o de um vencido, mas o de um triunfador da História (ardiloso para encontrar os estratagemas da vitória) e de um vencedor da Natureza (superando as adversidades da viagem pelo mar). Lugar distante, Lisboa é mais que lugar de passagem Lisboa (ainda que também o seja), porque é lugar de radicação – traço significativo são as relações familiares que tornam o local propício para transmissão hereditária. É por isso lugar de retorno: como regresso e como recuperação; lugar de regresso, porque o herói das aventuras por mar só no centro, em Ítaca (ou na Ilha dos Amores, em Camões), poderá concluir as suas façanhas e obter o canto que imortalize o herói e lhe confirme ter atingido a Sabedoria (...); lugar de recuperação se tornará quando o exercício da memória integrar os que ficaram a tomar conta do Finisterra. Neste processo cultural, mais do que qualquer elemento material que pudesse certificar a passagem do herói por um lugar, é nobilitante que tenha ficado nome ou descendente – se ele levantou um templo, este só podia ser caduco e deixar para os vindouros testemunho em ruínas (tanto mais que outro culto havia surgido, entretanto). O nome, aliás, é tudo, porque só ele cabe na memória (e no mito) dos homens, aberto ao canto (ode que é logos) do poeta; o descendente instaura laços de sangue e de poder continuado.
(...)
Mesmo que a crítica histórica obrigue a reconhecer que as origens não são certas e que o mito transborda para fora do quadro geográfico e histórico primitivo, havemos de reconhecer que em Olisipo / Ulixbona se constitui uma comunidade de homens que a si mesmos se reconhecem no suposto epónimo da sua cidade e lhe dão continuidade de viajantes – que ostentam a marca de descobridores até aos confins do mundo, de onde sempre pretendem regressar. Ultrapassam eles a personagem mítica, que nunca pretendeu descobrir nada nem recolher nada e na distância escondeu o nome próprio, que apenas desejou regressar ao seio da família tradicional e recupera a própria identidade no canto do aedo no palácio de Alcíno. A esta memória passiva contrapõe-se uma memória activa – de reconhecimento de novos horizontes na recuperação do passado. Na audácia dos novos cometimentos, aqueles que evocam o fundador soltam amarras sobre um Novo Mundo e nessa atitude mostram a diferença: o protagonista de 'Os Lusíadas' será o primeiro a contar a história do seu país e a reivindicar uma missão de descoberta – «Os Portugueses somos do Ocidente / imos buscando as terras do Oriente». O Mediterrâneo deixa de ser um Mare Clausum para se prolongar num Mare Infinitum (...). Às aventuras do mar sucede, não o mistério, mas o deslumbramento. O horizonte não é já apenas o mar sem fim, tenebroso e tremendo, mas um Mundo Novo em que os homens espalhados pelo orbe inteiro passam a estar ligados pelo mar oceano, em vontade de novo convívio e com a possibilidade de acolher as experiências dos povos mais longínquos, em admiração mútua e em confiança recíproca. A Europa ganha nova dimensão, o mundo assume também nova espessura e o Homem assegura novas capacidades: a maior delas será a de admiração frente aos outros, depois de se ter convencido da dignidade própria. A Europa regressa a si mesma, no dramatismo de reconhecer as suas próprias limitações, mas algo mais segura de que o mundo não termina no Finisterra euro-asiático. Na Utopia que se lhe abre (e que lhe traça Tomás Moro, mas Fernando Pessoa caracteriza), «os olhos com que vê são gregos»; «o rosto com que fita é Portugal». (...)
Em texto poético e na explicação que lhe anexa, Resende junta elementos dispersos e forja toda a lenda com traços fabulosos: o herói, em viagem pelo Oceano, impelido pelos ventos, que lhe alteram o rumo, interna-se pelo golfo do Tejo, descobre a fertilidade dos campos; sente-se reconfortado com o facto de se entender com os indígenas na própria língua (na base de que eram descendentes de Luso, filho de Dioniso); a conselho de Palas Atena, constrói uma pequena muralha e levanta um templo à deusa. (...)
Um território de fim do mundo: o Elysium. (...) A. Resende sublinha a amenidade da região onde Ulisses funda a nova cidade. (...). Segundo Estrabão, a cidade de Odysseia situava-se na região que Proteu havia descrito a Menelau como sendo o Elýsion Pedíon, nos confins da Terra, «onde reina o ruivo Radamante, onde os humanos gozam uma vida feliz, livres da neve, do gelo e da chuva, e onde, no seio do Oceano, se levanta a brisa suave e fagueirado Zéfiro». Este passo da Odisseia, é comentado pelo geógrafo da seguinte maneira: «A pureza do ar e a suave influência do zéfiro são efectivamente características próprias da Ibéria depois de dada a volta completa para o lado do Ocidente; possui ali um clima verdadeiramente temperado e, além disso, está situada nos últimos confins da terra habitada, isto é, nos lugares extremos, onde o mito, como dissemos, colocou o Hades, pois a menção de Radamante nos versos citados implica a proximidade de Minos e, como é sabido, diz Homero: "Ali vi a Minos, o nobre filho de Zeus, que, com o seu ceptro de ouro na mão, administrava a justiça aos mortos"». Na zona ocidental da Ibéria, frente ao Atlântico, segundo o geógrafo, havia uma região de felicidade, de que as Ilhas dos Bem-aventurados, que lhe ficavam na vizinhança, não seriam mais que um prolongamento.
É largo o percurso do mito das Ilhas Afortunadas (...). Vários são os prolongamentos medievais. Recordemos apenas alguns: no mapa da dispersão apostólica incluído nos Beatos uma cartela explicita a sua localização frente à desembocadura mediterrânica no grande mar do Atlântico; (...) cuja tradição mais antiga está em testemunhos de origem hispânica, conduz o protagonista com os seus monges ao encontro de uma ilha a ocidente, onde avistam o paraíso; (...) situa a ocidente uma pequena ilha onde a experiência celestial cumula de felicidade um eremita que ali se aventura a partir até ela, depois de a avistar numa subida à Torre de Hércules; numa ilha afortunada, a Ocidente, (...).
O nome de Elysium concorre com essa designação e acaba por se cruzar com o de Lisboa."
Aires Nascimento

"Quando a filosofia pinta cinza sobre o grisalho,
uma forma de vida já envelheceu e, com o cinza
sobre cinza não se pode rejuvenescer, apenas reconhecer;
A coruja de Minerva (Atena) alça seu vôo
somente com o início do crepúsculo."
Hegel (1770-1830), "Filosofia do Direito"

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Tétis, ninfa do Mar

"Tétis, de graça ornada e gravidade,
Pera que com mais alta glória dobre
As festas deste alegre e claro dia,
Pera o felice Gama assi dizia:

- «Faz-te mercê, barão, a Sapiência
Suprema de, cos olhos corporais,
Veres o que não pode a vã ciência
Dos errados e míseros mortais.
Sigue-me firme e forte, com prudência,
Por este monte espesso, tu cos mais.»"
Luiz de Camões, "Lusíadas", Canto X (75, 76)

domingo, 28 de setembro de 2008

Terra Nostra

Como bem lembrado pelo Paulo Borges:
"Quem encontramos é o mesmo que buscava, o labirinto é a própria busca antes que a Saudade, de súbito, a faça reverter para o lar da nossa perpétua infância. Aí vemos que o esquecimento não triunfou, que o Inst-ante onde enraizamos corre imóvel sob o seu reflexo tornado criatura a que chamamos Tempo. A segunda vez, o re-conhecimento que a Saudade manifesta é a verdadeira primeira vez, terra de nascimento e não túmulo. Com profunda justiça foi que Pascoaes lhe chamou Criação..."
Eduardo Lourenço, Tempo e Poesia
"O verdadeiro nascimento e a verdadeira criação: reconhecimento no que Insta, no que In-sta, no sempiternamente que não se sedimenta no estar, no ex-istir!"

"Portugal só plenamente será quando perceber que a viagem contada nos Lusíadas é a Ilha dos Amores onde divino e humano darão filhos que, sendo, não existam."
Agostinho da Silva

"O corpo sem alma já não é sacrificado.
O dia da morte se transforma em dia do renascimento.
O espírito divino faz a alma feliz quando se vê a Palavra em sua eternidade."
Nostradamus

Nota: Quem achar, eventualmente, que este não seja assunto para ser colocado aqui, manifeste-se igualmente para que não sejam colocados os nomes de Agostinho da Silva e Fernando Pessoa, pois senão é para desenvolver (e já agora cumprir...) as suas ideias principais então não tem sentido a sua invocação. Grata a Todos. E a Nada também...
E porque Natália me pede:
"Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer."
A poesia mantém-se encarnada, o restante conhecimento humano, (por)que a ignora, não tem corpo.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

As Portas do Sol

A Voz do Sexo é a Voz do Céu, do Cio: a de Deus, de-o Dois. É pelo sexo que Deus brinda a humanidade com a Eterna Criança que vive no fundo de cada ser humano.
Desde sempre, o que o Homem finge desprezar é aquilo que ainda o mantém vivo: o regresso do homem ao interior da mulher pela penetração sexual... do filho ao ventre da mãe, da dor ao interior do prazer, do ódio ao interior do amor, do tempo ao interior da eternidade, da Terra ao interior do Sol, da mortalidade ao interior da imortalidade.
O que faz rodar a Terra, a chave da Porta do Sol, do Paraíso: o sexo entre os opostos do mundo. Deus é sexo, sendo sexo a união de tudo ao nada.
O Útero da mulher representa a matriz para a qual a Terra caminha, onde tudo é Um, onde os sexos se voltam a juntar*...

O Homem confunde-se pensando que é no Céu que vive a pureza, esquecendo-se que por baixo dele, no meio da Terra, está o mesmo Sol que vê - o mesmo Céu. Convenceu-se que é através da razão que assegura a sua superioridade em relação à sua origem animal, esquecendo-se que é no sexo que vive a eternidade divina. Neste mundo dos contrários, o que vive mais em baixo e sombrio é o mais divino e luminoso.
Quem vive o sexo de modo profano não é o pecador original, quem vive o pensamento de modo sagrado é que o é, pois o primeiro é apenas consequência do segundo, e para que nos foi dado o sexo senão para ser vivido? Pensar parcialmente em vez de amar inteiramente, com o corpo da alma, eis o maior sacrilégio da história humana.

No homem, o cérebro é a Lua, o coração é a Terra, o sexo é o Sol (com a pele): a Lua, semente-masculina, sonha o que a Terra, semente-feminina, realiza no Sol - o novo ser.
O interior do Homem é a Lua, o exterior o Sol: para que o ser humano nasça realmente de si próprio precisa de voltar a viver no chão da Terra, no Sol, deixar de pensar (de modo sério), porque pensar é estar, em todo o seu sentido, na Lua!

|*Hermafrodita, do grego, Hermes, Mercúrio + Afrodite, Vénus.|

domingo, 29 de junho de 2008

Da Ilha dos Amores como alternativa às câmaras de gás da alma

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Nunca se escutou Camões, o que cantou não a Fé nem o Império, não o encontro de culturas, mas a “expedição” de Eros “Contra o mundo rebelde, por que emende / Erros grandes que há dias nele estão, / Amando cousas que nos foram dadas, / Não para ser amadas, mas usadas” (Os Lusíadas, IX, 25). O que cantou a redenção do mundo pela conformidade do masculino e do feminino na Ilha dos Amores, a plenitude do amor sensual e sexual pela qual se abre a divina visão, o messianismo erótico de uma nova raça andrógina de deuses humanos e homens divinos. Ninguém o escuta. Crucifica-se Eros na pornografia e nessas outras obscenidades que são o intelecto, o poder e as honras, o sucesso, a fama e a riqueza. O que faz avançar a civilização, a ciência e a miséria. As câmaras de gás da alma. Mas Eros ri e voa. E quem na cruz fica, exangue e triste, és tu !

in A Cada Instante Estamos A Tempo de Nunca Haver Nascido, Corroios, Zéfiro, 2008, p.9.