
(Wikipédia)
Regresso à Pangeia: Terra de Pã
«A vaca receberá
A nova gente que vem,
Com prazer de tanto bem
Seu lei-te derramará.
As chagas do Redemptor,
E Salvador
São as armas de nosso Rei:
Porque guarda bem a Lei,
E assim a grei
Do mui alto Creador.
Nenhum Rei, e Imperador,
Nem grão Senhor
Nunca teve tal signal,
Como este por leal,
E das gentes guardador.
Oh! quem tivera poder
Pera dizer,
Os sonhos que o homem sonha!
Mas hei medo, que me ponha
Grão vergonha
De mos não quererem crer.
Vi um grande Leão correr
Sem se deter
Levar sua viagem,
Tomar o porco selvagem
Na passagem,
Sem nada lho defender.
Tirará toda a erronia
Será paz em todo o Mundo
De quatro Reis o segundo
Haverá toda a victória.
Sonhava com grão prazer,
Que os mortos ressuscitavam,
E todos se alevantavam,
E tornavam a nascer.
E via aos que estão
Trás os rios escondidos;
Sonhava, que eram saídos
Fora daquela prisão.
Vejo um alto engenho
Em uma roda triunfante
Vejo subir um Infante
No alto de todo o lenho.
Desamparar o cortiço
Uma abelha mestra vejo;
As outras com muito pejo
Não têm asas para isso.»
Bandarra, Trovas
«(...) o disse João - só na terceira o Espírito virá pleno e, dissolvendo o fenómeno, dará a todos aquela santidade, aquele perder-se no Inominado, sem que perda haja, que só foi até hoje o de raros - e talvez sobretudo o daqueles que anónimos a Igreja celebra no dia que, em termos do porvir, mais fundo vai - o de Todos os Santos. Reino de Deus sem rei, porque sem súbditos; Império sem número algum, porque sem memória de que lhe antecederam e sem nenhum que venha a suceder-lhe; Sociedade sem classes, porque soltos os homens da política que os distingue; e da economia que os separa; da morte que a todo vivo a vida empalidece. Idade que virá e de que foi profeta o Cristo de João, ou o Abade Joaquim de Fiori, que Dante cita; Idade que fugazmente foi povo em Portugal e é Povo nas Ilhas atlânticas e é Povo no Brasil; naquele Portugal de Pessoa ortónimo ou heterónimo que em Dora vive, como outra ressurrecta ânfora, toda fremente de Mar Universal, mesmo que de lágrimas feito, e naquele Brasil, futuro do passado, que em Dora tão plenamente também vive, apesar de São Paulo - afinal tão mártir de uma técnica que, por ainda, como em todo o mundo, tateando seus passos, opressora parece, quando afinal em si traz mensagem plena de liberdade. Aquela liberdade por que ansiaram os gregos - e lhes foi apenas Democracia e Democracia de raros, como aliás o têm sido todas as Democracias; a liberdade que possuíram, depois, os Santos em sua Comunhão; mas Liberdade que só se afirmará, não sendo por ter substituído todo o ortodoxo e todo o heterodoxo pelo Paradoxo que tão raros ousaram e por ele morreram; mas que por ele ressurgirão num outro terceiro dia, em que mais escola alguma matará a Criança Eterna que todos deveríamos ser e se sentarão, como nós todos, se o ousarmos ser já, à mão direita de um Deus que não terá mais nenhum culto, se não o que a si próprio, por o ser, a Divindade se presta. Ancorada, como parece, na primeira Idade, a ligeira galera de cuja amurada Dora transparece as águas, voga ela à Terceira e no Atlântico de África e Brasil se transformará na Barca divina dos mais antigos que os gregos, aqueles que, fechando o ciclo, serão os primeiros dos últimos. Simultâneos primeiros e últimos, no único tempo que verdadeiramente importa: o que é contemporâneo do eterno.»
Agostinho da Silva, Carta de Agostinho da Silva sobre Talhamar (1988)
«Ornada de nastros
fareja a espuma,
olhos chamejantes, ante o mar.
(Na areia há poças de céu e nuvens,
nódoas de negras mariposas.)
A novilha baixa a cerviz, balindo,
mas não se afasta: fareja o hálito do Pai
e à vaga se entrega (para a morte, para a vida,
não sabe). Sopra o vento de Dionisos rubro
e em velo de ouro seu corpo se transmuda.
Fogem delfins. Alastram-se algas,
seres híbridos de progênie incerta.
A novilha flutua em luminoso torvelinho
às fitas de ouro enlaçada;
seus grandes olhos descem às profundezas
e vê as quatro portas do tenebroso Mar.
Borbulha o abissal; deuses se forjam e o tempo,
armam-se auroras de capacetes cintilantes
e sóis se diluem; do arcano do sono
nutrem-se sonhos e ao germinar infuso
treva e luz são arrancadas.
Vê os nomes primordiais
que às coisas conferem vida e esplendor:
onde, sem nenhum apoio, finalmente está,
onde, sem ontem e amanhã, finalmente está
e fulgura sem que nada a ilumine.
A luz dali não vem, pois é a luz em seu primeiro vagido.
Nome não tem e a tudo nomeia
nas entrançadas raízes das coisas por nascer.
Não é, não existe, simplesmente está no Incontaminado
e fora do tempo, porque o tempo dele se origina.
A um suspiro seu, a cadeia da vida se propaga.
Diz a Palavra, desviando o olhar: A vida
é o ponto escolhido para o triunfo célere de um deus.
Cada pedra, cada homem ou árvore
vela e desvela uma face rápida e divina.
(Os deuses espreitam a vida com olhos temerosos.)
Porque a vida não é, a vida está.
nada ia no barco
e tudo era o Mar»
Dora Ferreira da Silva, Talhamar (1982)
*«A deusa do mar, a mais jovem das Titânidas, filha de Urano, o Céu, e de Gaia, a Terra. Seu nome em grego significa ama, nutriz»
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5 comentários:
«I
Sobre aquele pinheiro, aureolado
De inerte e vegetal melancolia,
Um passarinho, alegre e alvoroçado,
Cantou, cantou, durante todo o dia...
Fiquei-me a ouvi-lo, mudo e extasiado...
Mas, por fim, perguntei-lhe: Que alegria,
Se fez, em ti, ó corpo acostumado
À cruz das tuas asas de agonia?
Que descobriste, além, no céu profundo?
Ou que milagre aconteceu, no mundo?
Grande cousa decerto adivinhaste...
A aurora revelou-te o seu mistério?
E divina canção de amor etéreo,
À luz, sombra de Deus, alevantaste?
II
E a avezinha serena e confiada,
Num olhar de ternura me envolveu;
E em sua doce voz iluminada,
E tão cheia de graça, respondeu:
Meu canto é luz do sol em mim filtrada;
Vou a cantar.. e canta a luz do céu.
E das aves da noite a voz cerrada
É penumbra que nelas se embebeu.
Sonho a perfeita e mística alegria!
Desejo ser a alma da harmonia,
Que toda a terra e todo o espaço inflama!
Quero ser o Infinito e a Eternidade;
Não ser a estrela e ser a claridade;
Ser apenas o Amor, não ser quem ama.»
Teixeira de Pascoaes, 'As Sombras'
«... Grão vergonha
De mos não quererem crer.»
Que a única vergonha do Homem é não sonhar ser o que é. Tudo.
Que o único desrespeito do Homem é o que ele faz consigo mesmo, com a sua vida:
é não almejar Ser o Amor.
Seu Pai e Filho.
O único Herói ('Eros') no Mundo.
Amar é preciso, morrer não é preciso.
A Lei? É o que Cria a Lei.
O Amor que Ama.
A Vera Lei é a que Nutre,
nenhuma outra.
Muito Amor.
E digam o que disserem... a 'minha' Lei vem antes do 'dizer'. Vem do Ser.
Meu Coração é Portugal à Solta.
A-o -Uno- Sol.
Também o meu com a sina de ter seguido o mar e ser agora também daqui...
É agora também do mundo, mas ainda ser aí na minha pequenina aldeia perdida no fim do mundo onde eu quero sempre voltar...
... e voltará.
Já o que eu queria era estar aí e aqui...
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