A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
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«Em nenhum outro lugar, ó Amada, haverá mundo senão em nosso íntimo. A nossa vida esvai-se na transformação. E o que é exterior, cada vez mais diminuto, desaparece. Para onde havia outrora uma permanente casa, propõe-se agora uma construção concebida, a toda a extensão, da ordem do pensável, como se estivesse toda ainda no cérebro. (...) Templos, já não os conhece. A estes, desbarato do coração, nós mais secretamente os resguardamos. Sim, onde quer que subsista uma coisa, uma coisa outrora feita de oração, de serviço, de genuflexão -, aflora já, tal como está, o invisível. Muitos dela não se apercebem já, nem têm a vantagem de o construírem agora no seu íntimo, com pilares e estátuas, maior!
Cada insensível rotação do mundo tem destes deserdados a quem não pertence nem o que foi, nem o que há-de seguir-se. Pois o que há-de seguir-se é longínquo para os homens. A nós isto não nos deve perturbar; antes nos dê a força de guardar a forma ainda reconhecível. Isto que outrora estava entre os homens, no seio do destino, desse destruidor, estava no não-saber-para-onde-ir, como ser sendo, e vergava para si as estrelas de céus firmes. Ó Anjo, a ti o mostro ainda, ali! no teu olhar, fique por fim a salvo, finalmente erguido, agora. Colunas, pilones, a Esfinge, esse erguer-se em anelo, na soturna cor de cidades em estertor ou de estranhas cidades, da catedral.
Estas coisas que vivem do declínio compreendem que tu as louves; efémeras, confiam-se-nos como coisas salvando-se, a nós os mais efémeros. Querem que as transformemos por completo no coração invisível, em - oh, infinitamente - em nós! Sejamos nós quem formos, afinal.
Terra, não é isto o que tu queres: surgir invisível em nós? Não é o teu sonho seres um dia invisível? Se a transformação não é a tua missão imperiosa, então qual será? Terra, ó minha querida, eu quero. Oh, acredita, não seriam mais necessárias as tuas Primaveras para me conquistar para ti -, só uma, ai! uma única e já demasiada para o sangue. Inominadamente, por ti me decidi, já de longe. Sempre tinhas razão e a tua sacra ideia é a discreta morte.» Rilke, O Livro das Horas, As Elegias de Duíno
Lima de Freitas, O Milagre das Rosas
«Rosa, ó contradição pura, volúpia de ser o sono de ninguém sob tantas pálpebras.» Rilke, Poemas - 1926
«Ouço-os de todo o lado. Eu é que sou assim, Eu é que sou assado, Eu é que sou o anjo revoltado, Eu é que não tenho santidade...
Quando, afinal, ninguém Põe nos ombros a capa da humildade, E vem.» Miguel Torga, Diário I
Humano - aceitação das fraquezas, amor ao próximo Húmido - que tem a natureza da água Humilde (de humus, filhos da terra) - virtude que nos dá o sentimento da nossa fraqueza
«A musa da indignação arrasta Camões pelos cabelos, e, vendo o mundo inteiro perdido, apela para a sua pátria, pedindo-lhe o esforço heróico da redenção de Cristo:
Vós, Portugueses, poucos quanto fortes, Que o fraco poder vosso não pesais; Vós, que, à custa de vossas várias mortes, A lei da vida Eterna dilatais: Assim do Céu deitadas são as sortes, Que vós, por muito poucos que sejais, Muito façais na santa Cristandade, Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!
À geração dos lusos «que tão pequena parte sois no mundo», é a ela que cumpre remir o Santo Sepulcro e terminar a epopeia das Cruzadas, enjeitada pelo «Galo indigno» [Francisco I] e esquecida pela Itália: a ela e por isso mesmo que se mostrou capaz do maior feito da época - a descoberta da Índia, que grande golpe de montante descarregado em cheio na força da Turquia. Eis aí o pensamento político dos Lusíadas, expresso claramente nos mesmos termos da boca do velho do Restelo. O pensamento religioso é o catecismo de Trento. A ideia de governo é o imperialismo, em cujo berço nascera o sol da Renascença e em cujo regaço poluído ele se afundava agora. O império fazia-se tirania; o racionalismo piedoso transformava-se em lamismo papista. Assim as ideias se corrompem em contacto com a realidade. O imperialismo camoneano é, porém, tão lídimo ainda como a sua religião. Se nas turbas não vê mais do que «o soberbo povo duro», isto é, um elemento ou um material para a construção artística do Estado; se a vontade dos reis, que são a chave da abóbada social, há-de ser absoluta, nem «pode ser por outrem derrogada»; se eles são supremos senhores dos seus súbditos; se os vassalos são membros de um corpo de que o rei é cabeça: a verdade, porém, é que tudo isso pressupõe no rei qualidades eminentes. É que ao poeta diz a história pátria, porque em Portugal
… o Reino, de altivo e costumado A senhores em tudo soberanos, A Rei não obedece nem consente Que não for mais que todos excelente.
Monarquia e religião, pois, tudo se depura no cadinho da poesia à chama intensa de Camões, em que a luz do heroísmo nacional vem reflectir-se, fundindo-se como numa lente, despede o raio e incendeia Portugal na ambição última da sua existência. Felizes são os povos que morrem como o sol, despedindo clarões!» Oliveira Martins, Camões
Tomai, e bebei! Este é o sangue de Portugal, o sangue da eterna nova Lusitânia! A Nossa Seiva de Sempre.
«Mas o Verbo divino, ao condensar-se Em pobre corpo humano, Não encarnou de todo, e nele vive.
Por mais que eu fale de outras pessoas, de viagens, das árvores (...) em última análise, o assunto da minha conversa sou eu próprio.
(...) o seu [do Homem] destino é interpretar e definir o Indefinido, talhar o informe, concluir, em outro plano, o mundo esboçado neste: Concluir a imperfeita Criação Que Deus iniciou.
A poesia espontânea só obedece ao ritmo da sua expansão natural. É instintiva. Despreza os modelos consagrados, porque ela contém a virtude de criar as leis que a regulam. É como as seivas das árvores, que trazem, no seio, quando afloram nas ramagens, o desenho futuro das folhas e das flores.
(...) a Dor, síntese do Amor e da Morte, é a própria essência da Poesia lusitana. As lágrimas duma Pátria caem sempre no coração dos seus poetas, para que eles as redimam nos seus cantos. Todo o canto é redentor. (...) Eram tudo memórias... Sim... tudo é lembrança para o amor que deseja oculta a incerteza do futuro na certeza do que passou (...). Há palavras que são estrelas. (...) In principio erat verbum... e o Verbo é a Saudade. (...) As cousas e os seres vivem mais na nossa memória que diante dos nossos olhos. Existir não é pensar: é ser lembrado. E para ser lembrado, é preciso amar. Só o amor cria a substância imperecível em que a nossa imagem se desenha.
D. Sebastião é o Desejado e o Encoberto ou antes o desejo encoberto da alma pátria, essa nuvem indecisa (...) o autor de D. Sebastião é o Povo, o poeta do Cancioneiro. O autor do D. Quixote é um homem. (...) D. Sebastião é uma vaga existência divinizada e absorta no seu remoto encantamento. A sua acção pessoal não é presente, como no D. Quixote, mas futura, porque ele há-de vir numa incerta manhã de nevoeiro, e a esperança é o áureo fulgor da sua coroa... D. Quixote é. D. Sebastião há-de ser. (...) O português é indeciso e inquieto, como as nuvens em que as suas montanhas se continuam e as ondas em que as suas campinas se prolongam... É uma tendência do Passado para o Futuro, uma ansiedade sobre o Além, uma ave sentimental nas garras da Tentação, descrevendo um voo incerto e doloroso. (...) Alma que foge de ser corpo, insatisfeita e perdida numa existência vaga, sem limites. Tem um fundo de feminina ternura. A sua sombra é de mulher no pressentimento de um filho esperado em vão. É uma lembrança que chora, grávida de misteriosas esperanças: a eterna promessa de uma dádiva, um eterno crepúsculo amanhecente... O Verbo, feito homem, espera a hora do seu regresso a Portugal... Não regressou ainda, mas já sabemos o que ele sente, pensa e quer. A alma portuguesa tinha de encarnar num ser individual e transcendente, a fim de encontrar o instrumento da sua actividade patriótica e religiosa. Foi por isso que D. Sebastião, aplaudido por Camões, caminhou, aureolado de sonho, para a morte. E foi por isso também que se criou a Lenda, que é mãe de personagens vivos e não de simples e isolados sentimentos.
- A serpente que outrora se enroscou Na árvore do Paraíso, seduzindo Nossos Primeiros Pais.
Nem Hércules, nem o Anjo Gabriel, Nem S. Jorge puderam destruí-la. Foi ela que traçou, na escuridão, Com a ponta da cauda traiçoeira, As órbitas dos mundos.
Era a cobra o sinal do seu Império A cobra e o riso eterno dos seus lábios: Riso que anima as plantas e as estrelas E que percorre o corpo humano - e é sangue!
Aqui, no Inferno, neste sítio lúgubre, As almas das criaturas são imagens Vivas de corpos mortos e desfeitos, (...) A criatura expia o velho crime De se ter entregado às mãos da Morte, Havendo sido dada à luz da Vida. Eis o crime sem fim, primordial...
Aqui, no País do Drama, nossos Pais Desde a noite dos tempos têm vivido A vida demoníaca e nocturna... Quem de nada se lembra nada espera.
Aqui, no País da Sombra, Da Saudade da Vida, as criaturas Sofrem a dor da sua imperfeição... ... e até parece Haver turvado a misteriosa fonte da Luz originária...
Mas a alma ressuscitará sem prejuízo do corpo. Há entre ele e ela um mal-entendido, que necessita de findar.
Cada alma tem seu medo... O seu segredo Que Deus lhe disse, ao nascer, Para ela o não dizer...
É a Palavra misteriosa Que faria eterna luz, Na escuridão da Natura. Mas nem a disse Jesus, Nem Sibila fabulosa... E só baixinho murmura, Ou na lágrima primeira Ou derradeira... Di-la o primeiro vagido E o derradeiro gemido...
Emana um fumo d'alma o crepitar do lume... O incêndio duma flor dá a cinza do perfume... A luz envolve a chama e a chama envolve a lenha... Sensível musgo cobre uma insensível penha, E sobre o musgo paira o aroma espiritual... Mistério... Num aroma a pedra é imaterial! E todavia são a mesma vida pura O claro aroma, o verde musgo, a penha dura!... A terra é a mãe da Alma, a terra deu à luz O perfume da flor e a alma de Jesus!... No Poeta comovido há a loucura do vento; A nuvem é um delírio, a água um sentimento... A fonte que através dum areal se perde, As suas margens vai vestindo de cor verde, Lançando nessa terra estéril, ressequida, Num beijo sempiterno, a semente da Vida...
Todos os robles dão, ardendo, a mesma luz... Um tronco sobre um lar é um Cristo numa cruz! E é calor que agasalha e facho que alumia O que é em Cristo amor, piedade, harmonia... E tudo o que é no poeta emoção e delírio É luz no sol, canto nas aves, cor no lírio!... E tudo o que é em nós Bondade é num rochedo Viçoso musgo e santa sombra no arvoredo!... E, enquanto dou a um pobre um bocado de pão, O sol enche a luz o saco da amplidão! E, qual Samaritana, a nuvem religiosa Dá de beber a toda a terra sequiosa... E enquanto eu sou a morte, ó velho e frio inverno, Perante o sol - Jesus, és um Lázaro eterno... E as verdes ervas são versículos sagrados Que os ribeiros e o sol escrevem sobre os prados... E uma pedra contém a história verdadeira Do Génesis, da Luz e da Mulher primeira!... E a mais estéril terra ainda recorda e chora O tempo em que beijou teus lábios d'oiro, aurora. Pela primeira vez, ardente de paixão!... E nos olhos da terra ainda fulgura a imagem Através da penumbra infinda do Mistério, Até desabrochar num coração etéreo! Há nos olhos da terra a imagem desse olhar Que a saudade transforma, às vezes, em luar...
Deus disse à luz do sol o segredo da Vida. Desvendemos a Luz amada e preferida!... Vejamos a razão suprema da existência E o que ela tem d'amor, de espírito e de essência, O que nela é real, eterno e inconfundível... Que o nosso olhar penetre o mundo do invisível, Os páramos do Sonho, a amplidão da Quimera, Onde já se descobre a etérea Primavera, (...) A nova Criação que está para surgir Do caos do Amanhã, do beijo do Porvir!...
E a nova Vida, numa onda a resplende, Aflora à superfície ideal do novo ser. Um novo Apolo vai tocar a nova Lira... E na água que se bebe e no ar que se respira, Nas nuvens onde dorme a clara luz dos céus, Palpita um novo amor, murmura um novo Deus...
Vemos Deus pelos olhos da Saudade
Quero viver a Vida na Morte; beijá-las num só beijo...
E vejo erguer-se o rio cristalino, Transfigurado em sonho, em nevoeiro, E faz-se eterno espírito divino Aquele corpo de água prisioneiro.
Ó láctea emanação! Ó névoa densa! Ó água aberta em asa! Ó água escura! Água dos fundos pégos no ar suspensa. Vestida como um Anjo, de brancura.» Teixeira de Pascoaes, Cânticos, O Homem Universal, Os Poetas Lusíadas, Regresso ao Paraíso, Terra Proibida, Para a Luz, Verbo Escuro, A Arte de Ser Português
O Sol irradia a Luz do Mar, o Som irradia a Luz do Coração. É o Coração do Mar que bate no Homem, o Som do Sol o Canto da Humanidade: a Luz da Alma-Sol.
O Espírito Vê pelos olhos do Corpo: espelho da Alma, pois é sendo eles que Ele vê pela Luz do Sol-Alma. O Espírito Ouve em Luz pelos sentidos do Corpo, pois é o Corpo a Mãe-Terra que dá à Luz a Alma:
O Som dos Ouvidos cria a Luz da Visão, como os Ovários (sem Género) criam o Corpo de Luz. Mas é do Útero: do Olhar Único - Unido, que o Corpo nasce. Que o Homem Re(i)nasce.
O Som dos Ouvidos é o Som do Mar da Terra: o Som que cria a Luz da Visão é o mesmo Som que cria a Luz do Sol. O Sol acompanha o Olhar do Homem:
Queira o Homem sonhar o Céu na Terra, assim Verá a Luz do Seu Sonho: Virá à Luz o Seu Sonho: o Céu na Terra!
Existe um povo* Que a bandeira empresta Para cobrir tanta infâmia e covardia (...) Levantai-vos, heróis do novo mundo
Homenagem ao Nosso Poeta do Arquipélago dos Amores, que Amanhã e (para) Sempre celebrará o seu Nascimento.
«A contemplação inerte não pode ser o ar que o espírito do homem pede para respirar! O ar da vida é outro... A vida! no seu voo para o céu, na sua sublime ambição ideal, foi isso que esqueceu ao Cristianismo - a terra, a vida.
VII Viver! ser homem! Que mais alta ambição pode um coração conceber? Círculo de ilimitado desejo que abraça a terra, o horizonte até onde o olhar se perde, o espaço até onde se some a fantasia! São as esperanças do céu e os cuidados da terra. Os ardentes amores do mundo, e as vagas aspirações de além túmulo. O finito deste momento que se sente, e o infinito da duração que se adivinha. O que as Religiões da Natureza podem dar à vida de calor e força, e o que podem inspirar de lânguido e místico as Religiões do Espírito. É pensar, crer, pressentir e amar! Erguer-se para cima, sem por isso desprezar o palmo de terra aonde se firmam os pés. Inclinar a cabeça sobre o brando regaço da realidade, sem esquecer o áspero caminho do ideal por onde tem de se seguir. Aonde há aí lei, religião, código que contenha no abraço ambicioso maior porção de verdade, da vida universal? A certeza do roteiro, que, para guiar-nos, nos dão esses pilotos de mares encobertos some-se, esvai-se na orla do horizonte que abrangem com os olhos. Para lá é o desconhecido; o oceano do possível - e os caminhos estão todos por abrir! Uma bússola só, por fatídico condão, aponta o Norte e o Sul. Mas não é a civilização dum ou outro século, a tradição desta ou daquela raça, o absoluto que uns sonham para que outros acordem em face do nada - um código ou uma religião -. É o secreto instinto da vida! a revelação natural! a voz da lei humana!
(...) como se explica o próprio facto do movimento, que deste modo está em toda a parte sem estar em parte alguma? que é por toda a parte efeito, sem ter causa em parte alguma? como se concebe esse modo de ser, que, não tendo autonomia em nenhum dos pontos onde se realiza e realizando-se universalmente, parece ser e não ser ao mesmo tempo?
A causa do fenómeno está na mesma natureza do ser onde ele se dá, ou antes, do qual ele é essencial modalidade. "No fundo, a verdadeira causa dos fenómenos reside no ser dos mesmos fenómenos, cujo fim último é a afirmação plena de si mesmo." (Comentário de Leonel Ribeiro dos Santos) (...) na espontaneidade inconsciente da matéria está a raiz do que na consciência e na razão se chama verdadeiramente liberdade.» Antero de Quental, Filosofia
«Se há só seres, como existe o bem, a harmonia e a beleza? (...) O Absoluto e o Relativo não são opostos irreconciliáveis como o não são a Razão e a Realidade; mas encontram-se na Experiência, como, e igualmente, na Memória se encontra o idêntico e o diverso, o subsistente e o transitório.» Leonardo Coimbra, O Pensamento Filosófico de Antero de Quental
«As religiões antigas não faziam da alma humana prisioneira dum dogma imutável. Sentiam ser ela mesma o verdadeiro dogma. Abriam o seio a cada palavra inspirada e transformavam-na em sangue do coração...» Antero de Quental, Prosas da Época de Coimbra
«Deixemo-nos de nénias - enterremos As antigas paixões! É d'ar puro e de luz que nós vivemos... E nossos corações De luminoso amor, d'amor contente, Disso querem viver eternamente!
Viver de flores, como insecto alado... E, como ave, de cantos Viver de beijos, de prazer sagrado.. Sim, de prazeres santos, Como homem que embala noite e dia O fecundo regaço da alegria!
Serena fonte, que nos banha a vida Em dulcíssimas águas: E, através da existência dolorida, Nos lava as velhas mágoas... A alma parece nova: e limpa e bela, Brilha em face de Deus, como uma estrela!
Brilha em face do mundo! Resplandece Como lúcida aurora! É o sol da ventura, que alvorece! Vale e monte colora Co'as mil cores do íris da bonança... E as mil do íris d'alma - a esperança!
Amor que espera e crê... amor ditoso... Quer Deus que se ame assim! Dormir no mundo o sono mavioso De prazeres sem fim... Passar como em triunfo, em mago enleio, Mãos unidas e seio contra seio...
Põe teus olhos nos meus, para que veja Luz melhor que a do céu... O que dentro em teu peito rumoreja Tudo, é tudo meu! Meus são teus ais e minha essa harmonia A que chamas amor, e eu poesia.
Poesia não são lágrimas... são beijos... E abraços também... Paixões não são suspiros... são desejos... Quantos a vida tem! Compõe com tuas mãos minha poesia De paixão e de beijos e alegria.
Vem comigo na vida! Hei-de levar-te Por caminhos de flores... Cantará para ti, por toda a parte, Um viveiro d'amores... Eu sei o que é amor! estes conselhos Amor tos dá - deixa falar os velhos!
Deixa, deixa-os dizer, os velhos sábios, Que só sabem chorar! Mulher bela, se Deus te pôs nos lábios Botão de flor sem par, Flor de luz e ventura... é por que o riso A abra e transforme em flor do Paraíso!» Antero de Quental, Primaveras Românticas
«Mete-se a mão no coração e fala-se - são palavras de vida as que assim se proferem. Que importa a tradição, o caminho trilhado, a ordem velha? Longe, nas últimas brumas, se perdem as extremas orlas do antigo continente. Incerto crepúsculo! e nenhuma carta diz o rumo que indicam as estranhas constelações desse hemisfério, pela vez primeira avistadas! Mas, lá para o Oriente, vê-se um brilho pálido no céu, como reflexo de luzes à distância. Para lá se inclina a alma. Para esse lado, o lado da luz, há (...) um novo mundo a descobrir!» Antero de Quental, Prosas da Época de Coimbra