A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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domingo, 24 de janeiro de 2010

E se Deus for (fosse/vier a ser) gay?

A propósito da polémica em torno das noivas de Santo António...


Não há nenhum entrave teológico a que Deus possa decidir sair do armário.

Encerrado que está em tantas caixas de preconceito e intolerância, Deus, se existir, terá uma tarefa complicada pela frente sempre que quiser comunicar com aqueles que acreditam nele.

Para alguns só seres que usem saias podem contactar directamente com Ele. Mas esses seres não podem ser mulheres. Têm que ser homens de barba rija que se abstêm de qualquer actividade sexual, mesmo que nela não envolvam terceiros.

O que parece que exclui o Príncipe Carlos que, de vez em quando, usa saias. Se bem que tenha umas orelhas que lhe permitiriam dedicar-se à escuta dos divinos ditames, parece que Deus não quererá nada com ele enquanto a sua matusalénica mãe não se decidir a passar-se de vez para o outro mundo. E isto dando de barato que a Igreja Anglicana é mesmo uma Igreja.

Ora, o que parece ser um sarilho teológico é a Humanidade precisar de procriar e, por isso, ter que chafurdar entre lençóis nas safadezas do sexo. Mais valia os homens não precisarem de se dar com mulheres. Não fosse o Adão chorar baba e ranho nas profundezas do seu inferno terreal, mesmo no centro do Paraíso, e uma das suas costelas não precisava de ser transformada numa tentação com pernas.

E se o Adão não se tivesse rebelado em relação à sua condição de homossexual? Caro leitor, não estou a abusar da sua paciência: o facto de só existir um homem, não tendo ainda sido inventada a mulher, essa criatura improvável, não significa que esse espécime nascido directamente da operosidade divina, pudesse, sequer, pensar em gostar de mulheres? como terá sido criado com todas as pendurezas que hoje ainda são bem evidentes até no mais requintado metrossexual, se tivesse vindo de origem com uma libido funcional, para quem se viraria ele? Se existisse outro ser igual a si, se calhar não se faria rogado. Não havendo, teria três opções: o onanismo, o bestialismo ou a teofilia. Sim, caro leitor, Adão poderia ver no próprio criador um foco de investimento objectal. Talvez a invenção da mulher tivesse sido um estratagema homofóbico. Quem sabe?

O que nos remete para o problema, muito bem colocado por Alberto Costa, das noivas de Santo António, em reacção à imprudência dos serviços camarários. Que um evento com o timbre do Estado Novo tenha voltado em força para povoar o imaginário popular com a propaganda ao casamento dos heterossexuais (embora com a inovação progressista dos casamentos pelo civil) não parece causar quaisquer problemas a um presidente da câmara socialista. Mas como é que se poderia arranjar noivas num casamento entre homens? Talvez os casamentos lésbicos pudessem fazer aumentar exponencialmente o número de noivas, o que deixaria, de certo, muito contentes os patrocinadores, pois teriam muitas mais fadas do lar no evento, com o mesmo dispêndio de verbas. Mas não se pode discriminar entre homens e mulheres no que diz respeito ao casamento. O que é muito justo. Por isso nem todas as noivas poderão participar nas noivas de Santo António.

Mas Santo António recusar-se-ia a partir a bilha às meninas lésbicas que iam à fonte? Não estaria assim a desmentir os evidentes sinais de precoce santidade que exibia quando, ainda pueril marmanjo, se metia tão descaradamente com as raparigas?

Mas voltando à opção sexual do próprio Deus (mais um argumento em favor da aparente monstruosidade teológica: Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, não foi? Se o criou sexuado… Até o Descartes seria incapaz de descogitar esta conclusão…): Deus será, se existir e se tiver tomado uma opção sexual, teossexual, teófilo, por assim dizer. Mas aí talvez fique explicada a criação do homem. Não podendo criar outro Deus para com ele se antecipar ao argumentista do brokeback mountain, não terá sido por isso que das suas mãos saiu esse boneco de barro que hoje olhamos com desdém, 150 anos depois da publicação da Origem das Espécies. Seria uma espécie de boneca insuflável dos tempos antediluvianos? Talvez…

E o Paraíso Terreal poderá ter sido o cenário duma espécie de Peep-show. Pode bem ser que estejamos perante um Criador voyeurista. Nesse caso a mulher deu cabo do espectáculo. Foi uma intrusa no meio dum cenário elaboradíssimo. E a coisa deu para o torto. Ou o espectáculo estava montado para a coisa dar para o torto. Mas não vou entrar por aí para não ter que me ver com o caos da Patrística e as agudezas do problema do livre-arbítrio. Pena que naquela altura ainda não existissem jornalistas da SIC a promover petições a pedir ajudas tecnológicas para a arbitragem. O melhor seria já existirem essas coisas logo nos primeiros instantes da Criação. A coisa talvez teria saído mais escorreita… Imaginem um mundo em que o dióxido de carbono não provocasse o efeito de estufa, ou composto só de duas ou três espécies de bicheza para calar por antecipação os chatos dos ambientalistas sempre a clamar contra o fim da biodiversidade. Mas convenhamos que a criação do Adão sem um par foi um golo na própria baliza. Isso parece-me irrefutável.

Tanto atabalhoamento é como terem deixado entrar um emplastro numa megaprodução do Cecil B. Demille. Imaginem o Cromagnon de direita, defensor acérrimo da posse de armas, a fazer de Moisés, com as tábuas da Lei no ar, pronto a dar vazão à sua birra de quem viu Deus e ninguém quis saber, e lá ao fundo, um fulano português a gritar «Pinto da Costa olé, olé…».

Mas se a História tiver um sentido teodiceico, e ninguém pode negá-lo em absoluto, talvez o Criador possa chegar à conclusão de que o melhor é assumir de vez a sua tendência para sobrestimar o lado masculino das coisas. Mas talvez venha até a ser excomungado pelos seus mais poderosos representantes. «Não há lugar aqui para um Deus teófilo, fim à teofilia!».



Publicado por Paulo Feitais em:
serpenteemplumada.blogspot.com

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Jean-Yves Leloup - Deus: É quem? É o quê?



Conheça uma revista a sair em breve dedicada ao diá-logo entre culturas, que publicará um inédito enviado por Jean-Yves Leloup:

arevistaentre.blogspot.com

sábado, 16 de maio de 2009

Cristo Rei

«Em 1934, ao passar pelo Rio de Janeiro, o então Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Cerejeira, ao ver a imponente imagem de Cristo Redentor do Corcovado, nasce no seu coração o desejo de construir semelhante obra frente a Lisboa. (...)
Em 1939 inicia-se a II Guerra Mundial. Neste período a ideia da construção do Monumento a Cristo Rei ganha um novo sentido e vigor. Em 20 de Abril de 1940, em Fátima, os Bispos fazem um voto: Se Portugal fosse poupado da Guerra, erguer-se-ia sobre Lisboa um Monumento ao Sagrado Coração de Jesus, sinal visível de como Deus, através do Amor, deseja conquistar para Si toda a humanidade. Portugal não entrou na Guerra. (...)
A 17 de Maio de 1959 (Dia de Pentecostes) perante a imagem de Nossa Senhora de Fátima... inaugurou-se o Monumento. (...) Nas palavras do Cardeal Cerejeira: Este será sempre um sinal de Gratidão Nacional pelo dom da Paz.»

Google

"(...) à fidelidade de Pedro cometeu o Senhor as chaves do seu Reino: Tibi dabo claves regni cælorum. Primeiro lhe chamou homem de pedra e depois lhe entregou as chaves, porque as chaves do Reino só em homens de pedra estão seguras. Os homens de barro quebram, os de pau corrompem-se, os de vidro estalam, os de cera derretem-se; tão duro e tão constante há-de ser como uma pedra, quem houver de ter nas mãos as chaves do Reino: Tu es Petrus, tibi dabo claves. (...) Que havia logo de fazer com elas S. Pedro? Atar e desatar, diz Cristo: Quodcumque ligaveris, erit ligatum: quodcumque solveris, erit solutum. A peste do governo é a irresolução. Está parado o que havia de correr, está suspenso o que havia de voar; porque não atamos, nem desatamos.»
Padre António Vieira

«Urge aprontar o caminho para a nova forma de cristianismo que deve bem querer aparecer

Vibra, clarim, cuja voz diz.
Que outrora ergueste o grito real
Por D. João, Mestre de Aviz,
E Portugal!

E, se o futuro é já presente
Na visão de quem sabe ver,
Convoca aqui eternamente
Os que hão de ser!

A todos, todos, feitos num
Que é Portugal, sem lei nem fim,
Convoca, e, erguendo-os um a um,
Vibra, clarim!

E outros, e outros, gente vária,
Oculta neste mundo misto.
Seu peito atrai, rubra e templária,
A Cruz de Cristo.

Transcende a Grécia e a sua história
Que em nosso sangue continua!
Deixa atrás Roma e a sua glória
E a Igreja sua!

Depois transcende esse furor
E a todos chama ao mundo visto.
Hereges por um Deus maior
E um novo Cristo!

Não foi para servos que nascemos
De Grécia ou Roma ou de ninguém.
Tudo negamos e esquecemos:
Fomos para além.

Vibra, clarim, mais alto! Vibra!
Grita a nossa ânsia já ciente
Que o seu inteiro voo libra
De poente a oriente.

Vibra, clarim! A todos chama!
Vibra! E tu mesmo, voz a arder,
O Portugal de Deus proclama
Com o fazer!

O Portugal feito Universo,
Que reúne, sob amplos céus,
O corpo anónimo e disperso
De Osíris, Deus.

O Portugal que se levanta
Do fundo surdo do Destino,
E, como a Grécia, obscuro canta
Baco divino.

Aquele inteiro Portugal,
Que, universal perante a Cruz,
Reza, ante à Cruz universal,
Do Deus Jesus.»
Fernando Pessoa

«Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização, social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio; ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para um bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte das preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de exploração e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.»
Agostinho da Silva

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Catedral

«Tenho tal medo da palavra dos homens.
Eles exprimem tudo com tanta clareza:
e isto chama-se cão e aquilo casa,
e aqui é o começo e acolá é o fim.

E também me amedronta o seu sentido e o seu jogo com o escárnio,
eles sabem tudo o que vai ser e já foi;
não há monte que lhes seja maravilha;
o quintal e a quinta deles vão às fronteiras de Deus.

Hei-de advertir e opor-me: Ficai de largo!
Gosto tanto de ouvir cantar as coisas.
Mal lhes tocais, ficam hirtas e mudas.
Matais-me todas as coisas.»
Rainer Maria Rilke, Alba Poética

«O que estava sentado no trono afirmou: Eu renovo todas as coisas
Ap 21:5

«Vamos-te construindo com mãos a tremer
e pomos, em torre, átomo sobre átomo
Mas quem pode concluir-te,
Catedral?

O que é Roma?
Desmorona-se.
O que é o Mundo?
Despedaça-se
antes de as tuas torres terem cúpulas,
antes que de milhas de mosaico
surja a tua fronte resplendente.
Mas muitas vezes em sonho
posso abarcar
o teu espaço,
fundo, desde o início
até à aresta dourada do telhado.
E vejo então: os meus sentidos
formam e constroem
os últimos ornatos.»
Rainer Maria Rilke, O Livro das Horas

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Grito (do) Criador

«As criaturas da esperança recebem a palavra do apóstolo, a palavra nova, que é o seu próprio silêncio feito voz. Ouvindo-a, alegram-se, como num súbito ambiente luminoso. Ávidas de arder, incendeiam-se de alegria. Elas e o apóstolo encontraram-se no mesmo caminho do Futuro. Algumas, tentam deter-lhes a marcha, ou ficam, nas margens, paradas ou hesitantes. Mas quem as deterá no seu ímpeto? Quem deterá a fome, a sede...?
Paulo não transmitia às almas a sua doença, porque elas já sofriam, como ele; mas sofriam sem remédio. Escravas, ignoravam a liberdade; criminosas, ignoravam o perdão; mortais, ignoravam a imortalidade. E eis que aparece um criminoso, que viu o perdão em Jesus Cristo; um escravo, que viu a liberdade em Jesus Cristo; um mortal, que viu a imortalidade em Jesus Cristo. É S. Paulo.
Todos queremos emendar a nossa vida; mais: emendar a Vida. A que aspira o criminoso? A ser inocente. E quem sofre? A gozar. E quem morre? A ressuscitar. Será possível? A razão diz que não. Mas Paulo diz que sim, gritando. Este sim é ele mesmo, volatilizado num grito, que abala e renova todas as coisas. Podemos duvidar duma palavra, dum grito ninguém duvida; vem de mais fundo que a palavra e sobe mais alto do que ela. O verbo do apóstolo tem a intensidade dos gritos. É o verbo divino da loucura, que todo o acto criador é de loucura, desde o Genesis. Ofende a ordem estabelecida, a harmonia consagrada, os ditâmes da razão humana. A atitude divina é anti-racional [supra].
Paulo afirma de tal modo a sua ideia religiosa, que lhe dá perfeita realidade. É um condensador de nubelosas, um acendedor de estrelas. Para ele, evocar é materializar. Evoca Jesus e converte-o num ser presente. A dor pertence ao corpo, embora seja a alma a padecê-la. A dor é deste mundo; e o seu poder plástico infinito concebe anjos e deuses, que penetram nos domínios da existência.
Paulo afirma Jesus e todos o acreditam, porque o vêem, na sua afirmação, como ele o vê. Paulo viu Jesus e ouviu-o! Como descrer ou duvidar? A descrença é cegueira e a dúvida é falta de vista. Duvidar é pensar em linha quebrada; mas crer é pensar em linha recta. A crença é a mais curta distância entre a Verdade e o nosso pensamento, ou é, talvez, a ausência de distância entre a Verdade e o Pensamento.
Nem os seus olhos nem os seus ouvidos se enganaram. Não é Paulo o espírito da luz e o do som, o instinto fatal que não se ilude? Esse instinto de anjo ou bruto, que divinizou a ibis e o touro negro, no Egipto, e outros bichos ainda, que nos bichos, e até nas árvores, há um valor secreto e mitológico. Moisés e Alexandre usaram chifres, na cabeça. Tocaram-se de mistério e divindade, como Virgílio, cingindo a coroa de louros, e os padres celtas envolvendo-se na sombra litúrgica dos bosques.»
Teixeira de Pascoaes, São Paulo

«Já viram Deus as minhas sensações...»
Fernando Pessoa, Passos da Cruz

terça-feira, 12 de maio de 2009

Voto de Ardente Amor Divino

«Amar Jesus é ser com ele na morte passageira e na vida eterna. Não se trata de sobrevivência, em nós, de qualquer entidade invisível e abstrata, mas do próprio corpo [do coração] ressurgido.»
Teixeira de Pascoaes, São Paulo

«Quem me dera por língua um raio ardente
Que os corações abrirá e abrasará,
E os derreterá, unirá e transformará,
No amor, que arde e inflama suavemente.

Amor, que tudo quer, nada consente,
Amor, que não se vê, sendo luz clara,
Amor, que do céu vem, e no céu pára,
Amor, que quem o sente, não se sente.

Amor que n'alma imprime um ser divino,
Que alumiando abre, abrindo acende,
Derrete unindo, e une transformando,

Amor, que cá na terra é peregrino,
Amor, que atrai o spírito e o suspende,
Amor, enfim, que só se adquire amando.»
Frei Agostinho da Cruz

sábado, 25 de abril de 2009

Toda a Palavra significa Liberdade

«Eucken afirma a necessidade de uma cultura noológica de permanência espiritual, que seja a medula da civilização, de outra forma dispersa em oca actualidade. O fluxo desagregou o pensamento platónico, arrancou a alma às ideias e as ideias à realidade (...).

Qual o rio que, atravessando os mundos, os traga cinturados e reflectidos a repassarem as mesmas viagens, a repetirem o milagre do encontro?
A Memória.
Esse o grande rio do tempo regressando à origem, como peregrino que fosse a ver o mundo e ao lar doméstico voltasse (...).

A máscara humana é um acaso da Natureza, é um milagre de equilíbrio, só a lembrança da palavra, acusando-a, faz tremer e a mostra à beira do Abismo do Nada em que se erguera. (...)
Não é a nossa máscara um penhasco talhado pela erosão das lágrimas?
Não é em nossos olhos que a paisagem chora uma Saudade tão velha como os mundos?

Oh, meus amados portugueses (...) alvorece a nova luz! (...)
Fraternidade é a palavra do Deus Infante, do D. Sebastião redimido! Ele aprendeu Portugal no exílio, e traz do exílio a sua alma aos portugueses sem ânimo. Esse exílio ensinou-lhe que o homem é o eterno exilado de si mesmo, se em si mesmo não acende Deus. No exílio aprendeu a perfeita bondade, porque conheceu o íntimo da vida.
E ele volta para Portugal, porque Portugal é agora o Universo.
Tudo será perdoado, porque o Deus Infante é português e tudo fraterniza nesta língua de silêncio, de intimidade imediata, de amor aceso no próprio coração divino.
(...)
Deus é o Amor que une, e cada consciência é a unidade elementar que pelo amor se move atraído pela «grande Unidade». Por isso, a compreensão é a Unidade e compreender é Amar.

A luz é o grande músico do Infinito
Leonardo Coimbra, Dispersos II - Filosofia e Ciência, Dispersos I Poesia Portuguesa, Sobre a Obra de Teixeira de Pascoaes, Regresso ao Paraíso

Todo o homem nasce cego. É apenas graças à luz do Sol que pode ver. Ao Sol nascido do Mar do Amor.
Luz não é só o que ilumina, é também o que é iluminado, pois nada existe fora da Luz.

A Palavra invisível simboliza o mundo visível, tal como o mundo visível simboliza o invisível. A Palavra espelha a Criação Original: a Luz originária.
A Palavra de Deus é Luz: do Amor, o Criador: do Homem.

A palavra Luso [de/a Luz], vem do Grego Lys significando Liberdade.

A Palavra é o som da Luz, é a Luz criando-se a si mesma:
toda a palavra significa Liberdade.

«A Terra inteira [através do Homem] dando à Luz o Céu.»
Teixeira de Pascoaes




«a chama, que a vida em nós criou...
A mão do vento pode erguê-la...»
Fernando Pessoa, Mensagem

Oh a poderosíssima mão da Nossa Voz!... Que é já a nossa Chama: chamando-Nos!
Iluminando e re(i)nascendo a Nossa Alma: Portugal.
O Porto onde Tudo é Igual, (pelo) Amor, (ao) Infinito.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A Seiva de Pascoaes, de Portugal

(Google - Rio Douro)
A Água é a Seiva da Serra

Tomai, e bebei! Este é o sangue de Portugal, o sangue da eterna nova Lusitânia! A Nossa Seiva de Sempre.

«Mas o Verbo divino, ao condensar-se
Em pobre corpo humano,
Não encarnou de todo, e nele vive.

Por mais que eu fale de outras pessoas, de viagens, das árvores (...) em última análise, o assunto da minha conversa sou eu próprio.

(...) o seu [do Homem] destino é interpretar e definir o Indefinido, talhar o informe, concluir, em outro plano, o mundo esboçado neste:
Concluir a imperfeita Criação
Que Deus iniciou.

A poesia espontânea só obedece ao ritmo da sua expansão natural. É instintiva. Despreza os modelos consagrados, porque ela contém a virtude de criar as leis que a regulam. É como as seivas das árvores, que trazem, no seio, quando afloram nas ramagens, o desenho futuro das folhas e das flores.

(...) a Dor, síntese do Amor e da Morte, é a própria essência da Poesia lusitana. As lágrimas duma Pátria caem sempre no coração dos seus poetas, para que eles as redimam nos seus cantos. Todo o canto é redentor. (...)
Eram tudo memórias... Sim... tudo é lembrança para o amor que deseja oculta a incerteza do futuro na certeza do que passou (...).
Há palavras que são estrelas. (...)
In principio erat verbum... e o Verbo é a Saudade. (...)
As cousas e os seres vivem mais na nossa memória que diante dos nossos olhos. Existir não é pensar: é ser lembrado. E para ser lembrado, é preciso amar. Só o amor cria a substância imperecível em que a nossa imagem se desenha.

D. Sebastião é o Desejado e o Encoberto ou antes o desejo encoberto da alma pátria, essa nuvem indecisa (...) o autor de D. Sebastião é o Povo, o poeta do Cancioneiro. O autor do D. Quixote é um homem. (...)
D. Sebastião é uma vaga existência divinizada e absorta no seu remoto encantamento. A sua acção pessoal não é presente, como no D. Quixote, mas futura, porque ele há-de vir numa incerta manhã de nevoeiro, e a esperança é o áureo fulgor da sua coroa...
D. Quixote é. D. Sebastião há-de ser. (...)
O português é indeciso e inquieto, como as nuvens em que as suas montanhas se continuam e as ondas em que as suas campinas se prolongam... É uma tendência do Passado para o Futuro, uma ansiedade sobre o Além, uma ave sentimental nas garras da Tentação, descrevendo um voo incerto e doloroso. (...) Alma que foge de ser corpo, insatisfeita e perdida numa existência vaga, sem limites. Tem um fundo de feminina ternura. A sua sombra é de mulher no pressentimento de um filho esperado em vão. É uma lembrança que chora, grávida de misteriosas esperanças: a eterna promessa de uma dádiva, um eterno crepúsculo amanhecente...
O Verbo, feito homem, espera a hora do seu regresso a Portugal...
Não regressou ainda, mas já sabemos o que ele sente, pensa e quer.
A alma portuguesa tinha de encarnar num ser individual e transcendente, a fim de encontrar o instrumento da sua actividade patriótica e religiosa.
Foi por isso que D. Sebastião, aplaudido por Camões, caminhou, aureolado de sonho, para a morte. E foi por isso também que se criou a Lenda, que é mãe de personagens vivos e não de simples e isolados sentimentos.

- A serpente que outrora se enroscou
Na árvore do Paraíso, seduzindo
Nossos Primeiros Pais.

Nem Hércules, nem o Anjo Gabriel,
Nem S. Jorge puderam destruí-la.
Foi ela que traçou, na escuridão,
Com a ponta da cauda traiçoeira,
As órbitas dos mundos.

Era a cobra o sinal do seu Império
A cobra e o riso eterno dos seus lábios:
Riso que anima as plantas e as estrelas
E que percorre o corpo humano - e é sangue
!

Aqui, no Inferno, neste sítio lúgubre,
As almas das criaturas são imagens
Vivas de corpos mortos e desfeitos,
(...)
A criatura expia o velho crime
De se ter entregado às mãos da Morte,
Havendo sido dada à luz da Vida.
Eis o crime sem fim, primordial...

Aqui, no País do Drama, nossos Pais
Desde a noite dos tempos têm vivido
A vida demoníaca e nocturna...
Quem de nada se lembra nada espera.

Aqui, no País da Sombra,
Da Saudade da Vida
, as criaturas
Sofrem a dor da sua imperfeição...
... e até parece
Haver turvado a misteriosa fonte
da Luz originária...

Mas a alma ressuscitará sem prejuízo do corpo. Há entre ele e ela um mal-entendido, que necessita de findar.

Cada alma tem seu medo...
O seu segredo
Que Deus lhe disse, ao nascer,
Para ela o não dizer...


É a Palavra misteriosa
Que faria eterna luz,
Na escuridão da Natura.
Mas nem a disse Jesus,
Nem Sibila fabulosa...
E só baixinho murmura,
Ou na lágrima primeira
Ou derradeira...
Di-la o primeiro vagido
E o derradeiro gemido...

Emana um fumo d'alma o crepitar do lume...
O incêndio duma flor dá a cinza do perfume...
A luz envolve a chama e a chama envolve a lenha...
Sensível musgo cobre uma insensível penha,
E sobre o musgo paira o aroma espiritual...
Mistério... Num aroma a pedra é imaterial!
E todavia são a mesma vida pura
O claro aroma, o verde musgo, a penha dura!...
A terra é a mãe da Alma, a terra deu à luz
O perfume da flor e a alma de Jesus
!...
No Poeta comovido há a loucura do vento;
A nuvem é um delírio, a água um sentimento...
A fonte que através dum areal se perde,
As suas margens vai vestindo de cor verde,
Lançando nessa terra estéril, ressequida,
Num beijo sempiterno, a semente da Vida...

Todos os robles dão, ardendo, a mesma luz...
Um tronco sobre um lar é um Cristo numa cruz!
E é calor que agasalha e facho que alumia
O que é em Cristo amor, piedade, harmonia...
E tudo o que é no poeta emoção e delírio
É luz no sol, canto nas aves, cor no lírio!...
E tudo o que é em nós Bondade é num rochedo
Viçoso musgo e santa sombra no arvoredo!...
E, enquanto dou a um pobre um bocado de pão,
O sol enche a luz o saco da amplidão!
E, qual Samaritana, a nuvem religiosa
Dá de beber a toda a terra sequiosa...
E enquanto eu sou a morte, ó velho e frio inverno,
Perante o sol - Jesus, és um Lázaro eterno...
E as verdes ervas são versículos sagrados
Que os ribeiros e o sol escrevem sobre os prados...
E uma pedra contém a história verdadeira
Do Génesis, da Luz e da Mulher primeira!...
E a mais estéril terra ainda recorda e chora
O tempo em que beijou teus lábios d'oiro, aurora.
Pela primeira vez, ardente de paixão!...
E nos olhos da terra ainda fulgura a imagem
Através da penumbra infinda do Mistério,
Até desabrochar num coração etéreo!
Há nos olhos da terra a imagem desse olhar
Que a saudade transforma, às vezes, em luar...

Deus disse à luz do sol o segredo da Vida.
Desvendemos a Luz amada e preferida!...
Vejamos a razão suprema da existência
E o que ela tem d'amor, de espírito e de essência,
O que nela é real, eterno e inconfundível
...
Que o nosso olhar penetre o mundo do invisível,
Os páramos do Sonho, a amplidão da Quimera,
Onde já se descobre a etérea Primavera, (...)
A nova Criação que está para surgir
Do caos do Amanhã, do beijo do Porvir
!...

E a nova Vida, numa onda a resplende,
Aflora à superfície ideal do novo ser.
Um novo Apolo vai tocar a nova Lira...
E na água que se bebe e no ar que se respira,
Nas nuvens onde dorme a clara luz dos céus,
Palpita um novo amor, murmura um novo Deus...

Vemos Deus pelos olhos da Saudade

Quero viver a Vida na Morte; beijá-las num só beijo...

E vejo erguer-se o rio cristalino,
Transfigurado em sonho, em nevoeiro,
E faz-se eterno espírito divino
Aquele corpo de água prisioneiro.

Ó láctea emanação! Ó névoa densa!
Ó água aberta em asa! Ó água escura!
Água dos fundos pégos no ar suspensa.
Vestida como um Anjo, de brancura.»
Teixeira de Pascoaes, Cânticos, O Homem Universal, Os Poetas Lusíadas, Regresso ao Paraíso, Terra Proibida, Para a Luz, Verbo Escuro, A Arte de Ser Português

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Saudade, Espelho Eterno: Presente de Deus

«ó gente humana, nascida para voar ao Paraíso, porque deixar-se abater por um ténue sopro de vento*? [Anjo no Purgatório: *desejo de glória (i)mundana]

(...) os bem-aventurados, contemplam todos Deus, que é o Espelho, em que se revela o teu pensamento ainda antes de o conceber.

Nos bem-aventurados o sentimento e a inteligência são de igual valor (...) pois que Deus iluminou com a luz da sua sapiência e com o calor do seu amor, nada é comparável a esta igualdade.»
Dante, Divina Comédia

«Pela Lembrança conhecemos o que fomos e pelo Desejo pressentimos o Futuro.»
Teixeira de Pascoaes

Saudade, Ponte entre Passado e Futuro: Presente de Deus, a Fonte.

«Vemos a imagem reflectida, mas não o espelho que a reflecte.»
Teixeira de Pascoaes, O Bailado

Vemos a Ponte mas não a Fonte... pois a Ponte é a Fonte, que para Si mesma caminha.

«Dois espelhos se confrontam mudos:
entre eles nós dois nos interpomos.
Alguém sabe quem somos? Simples nomes
ou reflexos falantes de um espelho?

Vem vindo oh vem vindo a estrela d'alva
olhando serena o espelho que se acalma.

a pomba vem e desata
o saber genuíno
do coração.

Ama por amar»
Dora Ferreira da Silva, Poemas da Estrangeira




«A Saudade, que nos mostra a Ausência dolorosa, cria a Presença radiosa... Mostra-nos o vácuo infinito, para o povoar de infinitas almas.»
Teixeira de Pascoaes

O Homem é Filho de sua Filha Ideia.
Para que haja o Filho é necessário que haja o Pai,
mas para que haja o Pai é necessário outro Pai:
que o Pai seja Filho de seu Filho.
Que todo o Homem seja Pai e Filho em simultâneo,
pelo Espírito Santo,
pelo Espelho da Alma do Amor,
pela Estrela d'Alva do Sol.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Dia do Mar de Pascoaes e Sophia

«O som é casto, não despe a sua túnica de névoa e só os anjos o contemplam.
A carne é água, o sangue é fogo, o esqueleto é pedra. E a alma? Névoa e fumo...
A palavra veste a alma como a carne o esqueleto.»
Teixeira de Pascoaes, O Bailado

«Tudo é música e a sua dimensão silenciosa, que o silêncio é o substractum da música, o leito da mobilidade ondulatória e a natureza fantástica das cousas. Há só música e orelhas surdas ou de mercador e olhos fechados contra a luz. Quem se atreve a ver e a ouvir? Quem se atreve a dar um passo para além da noite? O ideal é estarmos vivos, dentro do túmulo. Dormir, eis o ideal da besta carregada; mas dormir um sono consciente, dormir gozando o próprio sono, a doce quietação, o desmaio delicioso. Como é belo divagar no crepúsculo, nessa praia ocidental, onde quebra a vaga do sol e a espuma do luar nos molha os pés...»
Teixeira de Pascoaes, O Homem Universal

«Este é o canto do amor em que te falo
Para que escutando sejas minha
Este é o poema – engano do teu rosto
No qual busco a abolição da morte

As paredes são brancas e suam de terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar

Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites

Porque será que não há ninguém no mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar (...)
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança
(...)
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome
(...)
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro
(...)
E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
(...)
Caminho nos caminhos onde o tempo
como um monstro a si próprio se devora

O teu rosto era mais antigo do que todos os navios
No gesto branco das tuas mãos de pedra
Ondas erguiam seu quebrar de pulso
Em ti eu celebrei minha união com a terra

Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes...
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras...
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio (...)
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto

Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias

Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves grandes vagos
Lagos
Reflectindo o mundo
E eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços»
Sophia, No Tempo Dividido, Dual, Geografia

domingo, 19 de abril de 2009

Na Livre Vida só há a Palavra de Luz

«Estás preso dentro da luz»
Carlos Nejar, A Idade da Noite

«O Espírito vive, mas amarrado à palavra, à cruz.»
Teixeira de Pascoaes, O Homem Universal

Nostradamus

As páginas do Livro da Vida estão vazias.
Pois as suas palavras somos nós.
O único Livro da Vida é a própria Vida: Livre.

Todo o Ato de Vida é Mudo.
O Som-Palavra é o caminho que o Ser toma para se conceber:conhecer. Mas o seu Fim só pode ser o seu Princípio: o Ser que (se) fala: o Coração do Silêncio. Quando o Homem reconhecer que o Lugar da Palavra é sempre o Silêncio: a Luz do seu Olhar, permitirá o regresso à sua Origem. Então, a Grande Mudança se dará, quando a Música do Mundo voltar a ser dançada de acordo com a sua natureza: Muda. Quando o Homem de novo se Vir na Palavra-Luz do Sol Amado: Vivo!... E o Amor em Pessoa terá vindo.

A-té-Deus.