A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
Mostrar mensagens com a etiqueta Paganismo Transcendente. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paganismo Transcendente. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Círculos Azuis
Interrompeu-se a ânsia
Interrompeu-se a bonança
Interrompeu-se a luz
Interrompeu-se a treva
Interrompeu-se o fim
Interrompeu-se o meio
Interromperam-se os esgares
Interrompeu-se a manhã
A chuva, os olhos abertos
Com fundos de mundos
E paisagens de luar
Interrompeu-se o fado das ruas
O choramingar miudinho
A água que corre, o inverno
Que morre.
Interrompeu-se a sombra
O clarear e o mar.
Interrompeu-se a misogenia
A loucura e a segurança
A batalha, a paz
E a esperança.
Interrompeu-se a sedução
A voz, o perdão
O inferno, a condenação
Interrompeu-se tudo.
Então digo olá,
E vejo uma fada
Aqui e ali,
Surgem mais fadas,
À medida que te enrolas
No encantamento das palavras.
Babalith
Interrompeu-se a bonança
Interrompeu-se a luz
Interrompeu-se a treva
Interrompeu-se o fim
Interrompeu-se o meio
Interromperam-se os esgares
Interrompeu-se a manhã
A chuva, os olhos abertos
Com fundos de mundos
E paisagens de luar
Interrompeu-se o fado das ruas
O choramingar miudinho
A água que corre, o inverno
Que morre.
Interrompeu-se a sombra
O clarear e o mar.
Interrompeu-se a misogenia
A loucura e a segurança
A batalha, a paz
E a esperança.
Interrompeu-se a sedução
A voz, o perdão
O inferno, a condenação
Interrompeu-se tudo.
Então digo olá,
E vejo uma fada
Aqui e ali,
Surgem mais fadas,
À medida que te enrolas
No encantamento das palavras.
Babalith
O elemento vital do cristianismo é o paganismo transcendente, que inclui. É o elemento vital porquanto: 1) é aquele que estabelece continuidade com o passado; 2) é aquele que representa um prolongamento do passado, um passo a mais, e não um mero acrescentamento; 3) é aquele que, em todas as ocasiões de reviviscência europeia, nós vemos que surge como símbolo, modo em suma, dessa ressurreição.
Há no elemento pagão do cristianismo duas componentes a notar: o paganismo propriamente dito, e o interiorismo nado do paganismo que se aprofundou.
Chegado a um certo ponto, o paganismo não podia mais progredir objectivisticamente; só subjectivando-se podia continuar.
Ora em que consiste a subjectivização? Em 3 fenómenos:
(1) Na redução dos fenómenos objectivos a simbólicos, desmaterializando-os assim. Não se lhes erra as proporções ou a forma de realidade; dá-se a essa realidade um sentido de eco e não de palavra, não de questão mas de interpretação.
(2) Na atenção dada aos fenómenos subjectivos de modo a dar-lhes, ou a sentir-lhes, uma realidade concreta tão certa como a dos fenómenos objectivos. Isto é, no alargamento da experiência directa pela observação intensiva dos fenómenos do espírito.
Há no elemento pagão do cristianismo duas componentes a notar: o paganismo propriamente dito, e o interiorismo nado do paganismo que se aprofundou.
Chegado a um certo ponto, o paganismo não podia mais progredir objectivisticamente; só subjectivando-se podia continuar.
Ora em que consiste a subjectivização? Em 3 fenómenos:
(1) Na redução dos fenómenos objectivos a simbólicos, desmaterializando-os assim. Não se lhes erra as proporções ou a forma de realidade; dá-se a essa realidade um sentido de eco e não de palavra, não de questão mas de interpretação.
(2) Na atenção dada aos fenómenos subjectivos de modo a dar-lhes, ou a sentir-lhes, uma realidade concreta tão certa como a dos fenómenos objectivos. Isto é, no alargamento da experiência directa pela observação intensiva dos fenómenos do espírito.
Fernando Pessoa
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Palavras Comerciais
A pluralidade dos deuses é, com efeito, um dos característicos do paganismo. Mas cumpre entender qual o sentido que subjaz a essa pluralidade, cumpre ver qual o espírito que a anima. E para isso é preciso ter presentes três coisas: que acima dos deuses, no sistema pagão, paira sempre o Ananke, o Fatum, incorpóreo, submetendo os deuses como os homens aos seus decretos inexplicados; que os deuses se destacam dos homens e lhes são superiores por uma questão de grau, que não de ordem, que eles são antes homens aperfeiçoados, ou perfeitos, homens maiores, por assim dizer, do que homens diferentes ou ultra-homens; que um arbítrio absoluto, e não uma razão de ordem moral, qual a intervenção de Cristo pelos seus, ou os aparecimentos da Virgem aos seus merecidos pela virtude – rege as relações dos deuses com os homens. Com a percepção clara destes três elementos típicos do plurideísmo pagão, poder-se-á compreender o sentido íntimo da mitologia dos Gregos e dos Romanos.
O primeiro destes elementos confessa nos seus crentes a noção, intuitivamente exacta, da Lei Natural de que acima da própria força e grandeza dos deuses paira uma Lei, cujo sentido se desconhece, mas que age sempre e sobre tudo impera. No segundo elemento se reconhece a mentalidade de uma gente que tem a necessidade de objectivar tudo, para quem os deuses são, não fantasias concretizadas, mas probabilidades aumentadas. No terceiro elemento colhe-se a justa noção das coisas que tiveram os povos que notaram como a lei moral não tem valor fora da cidade e do povoado, como, no seu conjunto, não rege o mundo. Eles viram bem que a religião e a moral são necessidades sociais, não são factos que valham na metafísica das acções; que em tudo paira o arbítrio, no sentido de o amoral.
Esta noção instintiva do paganismo, de tratar a moral e a religião antes como virtudes cívicas do que como realidades metafísicas, é um dos factos em que mais há que reparar numa apreciação do espírito do paganismo.
Objectivos acima de tudo, os pagãos tinham a noção do Limite. Foram os primeiros a tê-la.
Ricardo Reis
Tudo o que sabemos sobre árvores é um conjunto estranho de chavões técnicos, símbolos, fragmentos de um universo descontínuo, despersonalizado e destituído de qualquer semelhança com a realidade. Na verdade, estamos permanentemente num estado alterado de consciência derivado dos hábitos incríveis de manipulação da percepção com que fomos obrigados a ser coniventes. A realidade é para nós algo abominável, nem queremos ouvir falar disso.
O primeiro destes elementos confessa nos seus crentes a noção, intuitivamente exacta, da Lei Natural de que acima da própria força e grandeza dos deuses paira uma Lei, cujo sentido se desconhece, mas que age sempre e sobre tudo impera. No segundo elemento se reconhece a mentalidade de uma gente que tem a necessidade de objectivar tudo, para quem os deuses são, não fantasias concretizadas, mas probabilidades aumentadas. No terceiro elemento colhe-se a justa noção das coisas que tiveram os povos que notaram como a lei moral não tem valor fora da cidade e do povoado, como, no seu conjunto, não rege o mundo. Eles viram bem que a religião e a moral são necessidades sociais, não são factos que valham na metafísica das acções; que em tudo paira o arbítrio, no sentido de o amoral.
Esta noção instintiva do paganismo, de tratar a moral e a religião antes como virtudes cívicas do que como realidades metafísicas, é um dos factos em que mais há que reparar numa apreciação do espírito do paganismo.
Objectivos acima de tudo, os pagãos tinham a noção do Limite. Foram os primeiros a tê-la.
Ricardo Reis
Tudo o que sabemos sobre árvores é um conjunto estranho de chavões técnicos, símbolos, fragmentos de um universo descontínuo, despersonalizado e destituído de qualquer semelhança com a realidade. Na verdade, estamos permanentemente num estado alterado de consciência derivado dos hábitos incríveis de manipulação da percepção com que fomos obrigados a ser coniventes. A realidade é para nós algo abominável, nem queremos ouvir falar disso.
A complexidade e mentalidade do universo urbano tem por equivalente o seu habitante que para se adaptar a este caos e conseguir ver alguma ordem nele tem de se ausentar do mundo prático do aqui e agora e passar para o mundo da imaginação e do simbolismo abstracto.
(...)
Não há cura para a morte. Quem vos vende disso, são charlatães, garanto-vos. Se algum orvalho da verdade caiu sobre eles, eles estão no seu intimo tão certos disto quanto eu - apenas não conseguem renunciar aos seus hábitos de vampiro. O único caminho é o do espírito na terra.
(...)
Não há cura para a morte. Quem vos vende disso, são charlatães, garanto-vos. Se algum orvalho da verdade caiu sobre eles, eles estão no seu intimo tão certos disto quanto eu - apenas não conseguem renunciar aos seus hábitos de vampiro. O único caminho é o do espírito na terra.
Excerto de:
O Quarto Livro Sem Nome, Babalith
terça-feira, 15 de julho de 2008
BERSERKERGANG

O fogo crepita e fala, para não termos medo, para erguermos bem alto o devorador de crânios*, para gritarmos de júbilo quando o enxame de abelhas** cruzar os céus sedento do nosso sangue, porque o navio virá, entraremos nele e seremos transportados para além dos mares da Escócia, para uma terra verde onde não há dor nem ódio, onde tudo é puro.
O funéreo navio virá, por entre os rolos da névoa, a sulcar indomável a espuma alva, o espelho borbulhante das águas. Dizem que é filho do crepúsculo, que é feito das unhas dos mortos, que nele só entram os que morrem de rosto erguido, que o vento canta junto às suas velas de sangue vivo.
O navio virá, porque um homem não pode ser o urso para sempre, porque o machado pesa, porque só na morte os guerreiros encontram a sua amante eterna.
Klatuu Niktos
* Metáfora viking para «machado».
** Metáfora viking para «grupo de flechas atiradas».
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Pessoa, o filósofo do “outro” de nós mesmos
Para além de ter sido o filósofo do “outro” do pensar, de todo o ser e de si próprio, Pessoa foi também, a nosso ver, o filósofo do “outro” de nós mesmos, não tivesse sido ele, a par de Teixeira de Pascoaes e de Agostinho da Silva, entre outros, o filósofo que mais profundamente reflectiu sobre o que significa “ser português”. Para muitos, “ser português” significa apenas ter nascido em Portugal – apenas isso, pouco mais do que isso. Para Pessoa, ao invés, isso é precisamente o que menos importa – dado que não é no início, ao nascermos, que sabemos se somos ou não portugueses, mas apenas no fim, na hora, no instante da morte – a seu ver, com efeito, só no fim, na hora, no instante da morte, saberemos se fomos ou não portugueses. Tudo isto porque, para Pessoa, “ser português” é, essencialmente, ter um destino, um destino espiritual, a cumprir – só se sendo pois assim português na exacta medida em que se cumpre esse mesmo destino. Nessa medida, Pessoa não se dirige àqueles que olham para o seu bilhete de identidade e se consideram portugueses apenas porque aí, pretensamente, se atesta tal “estatuto”. Pessoa dirige-se antes àqueles que, independentemente de terem ou não esse bilhete de identidade, de terem ou não nascido em Portugal, se mostram disponíveis para cumprir esse destino. Só, efectivamente, quem se mostra disponível para cumprir esse destino, esse destino espiritual, pode aspirar a ser português. Quem, ao invés, não se mostra disponível para cumprir esse destino, esse destino espiritual, bem pode acenar com o seu bilhete de identidade, com o seu passaporte, com o que quer que seja. Escusa igualmente de mostrar a sua árvore genealógica ou de fazer qualquer teste sanguíneo. Não há “sangue português”, não há nada que, à partida, ateste esse “estatuto”. Ser português não é, aliás, um “estatuto” – é, tão-só, muito simplesmente, à luz desta visão, um “estado de espírito”.
Se há poema onde nos é revelado esse destino, esse poema é a Mensagem. Neste poema, neste conjunto de poemas, triádica, perfeitamente estruturado, começa o poeta por nos dizer: "A Europa jaz,(...)/ De Oriente a Occidente jaz, fitando,/ (...)/ Olhos gregos, lembrando.// Fita, com olhar sphyngico e fatal,/ O Occidente, futuro do passado.// O rosto com que fita é Portugal.”[1]. A voz que assim se faz ouvir, se é que nós na verdade a ouvimos, é, muito mais do que a voz do poeta, a voz do próprio tempo. Diz-nos ela que a Europa jaz, reduzida que está ao que resta das ruínas gregas, à nostalgia de um “paraíso perdido”, como que ancorada no impasse de um “regresso eternamente impossível”. Para a libertar desse impasse, há um rosto, um rosto que fita, um rosto, um espelho no qual ela se fita: Portugal. Eis, com efeito, nas palavras de Pessoa, o destino de Portugal, desde logo, da “arte portuguesa”: “Arte portuguesa será aquela em que a Europa – entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro – se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações – a Grécia passada e o Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras.”[2]. Ainda nas palavras do próprio Pessoa, é esse, efectivamente, o destino da nossa nação – ser não só ela “mas também todas as outras” –, o nosso próprio destino – “sermos tudo”: “Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundido-os portuguesmente no Paganismo Superior. Não queiramos que fora de nós fique um único Deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa!”[3].
Toda a nossa história foi pois assim, nessa medida, uma demorada preparação para a concretização desse destino. Desde Viriato, aquele cujo ser “é como aquella fria Luz que precede a madrugada”[4], que todos os seus personagens foram os intérpretes dessa obra que, desde sempre, beneficiou da “assistência divina” – eis, pelo menos, o que Pessoa expressamente nos assegura, logo a abrir a segunda parte da sua Mensagem: “Deus quere, o homem sonha, a obra nasce./ Deus quiz que a terra fosse toda uma,/ Que o mar unisse, já não separasse./ Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,// E a orla branca foi de ilha em continente,/ Clareou, correndo, até ao fim do mundo,/ E viu-se a terra inteira, de repente,/ Surgir, redonda, do azul profundo (…).”[5]. Essa obra assim descrita não foi, contudo, como muitos pensam, nem a nossa “idade de ouro” nem, muito menos, o nosso “último passo”. Neste equívoco, neste recorrente equívoco, cada vez mais enraizado, reside, aliás, o maior entrave à concretização desse nosso destino. Paradoxalmente, as “Descobertas” significaram o nosso próprio “Encobrimento”. E por isso esperamos ainda pelo regresso do “Encoberto”, aquele que, ainda nas palavras do poeta, partiu na “última nau”: “Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,/ (...)/ Foi-se a última nau (...)// Não voltou mais. A que ilha indescoberta/ Aportou? Voltará da sorte incerta/ Que teve? (...)// Ah, quanto mais ao povo a alma falta,/ Mais a minha alma atlantica se exalta/ E entorna,/ E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,/ Vejo entre a cerração teu vulto baço/ Que torna.// Não sei a hora, mas sei que ha a hora (...).”[6]. O regresso de “D. Sebastião” não significa, contudo, senão o regresso de nós mesmos a nós próprios. Somos nós – é o Homem – o verdadeiro “Encoberto”. Recordemos aqui, a este respeito, as já célebres palavras de Sampaio Bruno, escritas em jeito de conclusão do seu O Encoberto: “Dissipe-se a nuvem que encobre o herói. O herói não é um príncipe predestinado. Não é mesmo um povo. É o Homem.”.
A viagem, a verdadeira viagem, está pois ainda por se iniciar. Ela só agora realmente se inicia – como nos diz o poema, já na sua terceira parte: “Grécia, Roma, Cristandade,/ Europa – os quatro se vão (...).”[7]. Falta, pois, cumprir Portugal, falta, assim, realizar o “Quinto Império” – o Império Outro, Outro porque realmente espiritual. E por isso ele não será apenas mais um Império, apenas mais um “Cadáver adiado”, um “Cadáver mandando”, como o são todos os Impérios não espirituais – nas palavras de Pessoa: “Todo o Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de Pé, um Cadáver mandando.”[8]. Para isso, contudo – para que o “Quinto Império” não seja apenas mais um Império, mas sim o Império Outro –, importa que Portugal se negue enquanto tal. Só assim ele se cumprirá. Só, com efeito, negando-se enquanto tal, só, efectivamente, outrando-se, poderá Portugal ser esse outro, esse “rosto” em que todos “se mirem e se reconheçam sem se lembrarem do espelho”. Persistindo em ser, Portugal nada será. Importa pois assim que ele deixe de ser – nas igualmente já célebres palavras de Agostinho da Silva: “Só então Portugal, por já não ser, será.”. Eis, em suma, o destino que Pessoa nos traça, destino esse em tudo idêntico ao seu próprio destino enquanto pessoa. Como aqui vimos, também Pessoa, com efeito, enquanto pessoa, se procurou cumprir precisamente desse modo: na negação, na outração de si mesmo, assim procurado “ser todos”, assim procurando “ser tudo de todas as maneiras”. Dirão alguns que, por isso, o “Quinto Império” não passa de um “sonho”, de mais uma das muitas “projecções pessoanas”. Pessoa, ele próprio, reconhece-o, porém. Daí, aliás, o seu repto: “Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.”[9]. Por isso mesmo que “irreal”, eis a “verdade” deste nosso “sonho”, deste nosso destino.
[1] Obras, vol. I, p. 1145.
[2] Obras, vol. III, p. 702.
[3] Ibid., pp. 703-704.
[4] Cf. Obras, vol. I, p. 1147.
[5] Ibid., p. 1154.
[6] Ibid., p. 1160.
[7] Ibid., p. 1162.
[8] Obras, vol. III, p. 682.
[9] Ibid., p. 710.
P.S.: Excerto de «Fernando Pessoa, o filósofo do “outro”: do pensar, de todo o ser, de si próprio, de nós mesmos», ensaio, da minha autoria, publicado na História do Pensamento Filosófico Português, direcção de Pedro Calafate, Lisboa, Caminho/ Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2000, vol. V, tomo 1, pp. 153-166
Se há poema onde nos é revelado esse destino, esse poema é a Mensagem. Neste poema, neste conjunto de poemas, triádica, perfeitamente estruturado, começa o poeta por nos dizer: "A Europa jaz,(...)/ De Oriente a Occidente jaz, fitando,/ (...)/ Olhos gregos, lembrando.// Fita, com olhar sphyngico e fatal,/ O Occidente, futuro do passado.// O rosto com que fita é Portugal.”[1]. A voz que assim se faz ouvir, se é que nós na verdade a ouvimos, é, muito mais do que a voz do poeta, a voz do próprio tempo. Diz-nos ela que a Europa jaz, reduzida que está ao que resta das ruínas gregas, à nostalgia de um “paraíso perdido”, como que ancorada no impasse de um “regresso eternamente impossível”. Para a libertar desse impasse, há um rosto, um rosto que fita, um rosto, um espelho no qual ela se fita: Portugal. Eis, com efeito, nas palavras de Pessoa, o destino de Portugal, desde logo, da “arte portuguesa”: “Arte portuguesa será aquela em que a Europa – entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro – se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações – a Grécia passada e o Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras.”[2]. Ainda nas palavras do próprio Pessoa, é esse, efectivamente, o destino da nossa nação – ser não só ela “mas também todas as outras” –, o nosso próprio destino – “sermos tudo”: “Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundido-os portuguesmente no Paganismo Superior. Não queiramos que fora de nós fique um único Deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa!”[3].
Toda a nossa história foi pois assim, nessa medida, uma demorada preparação para a concretização desse destino. Desde Viriato, aquele cujo ser “é como aquella fria Luz que precede a madrugada”[4], que todos os seus personagens foram os intérpretes dessa obra que, desde sempre, beneficiou da “assistência divina” – eis, pelo menos, o que Pessoa expressamente nos assegura, logo a abrir a segunda parte da sua Mensagem: “Deus quere, o homem sonha, a obra nasce./ Deus quiz que a terra fosse toda uma,/ Que o mar unisse, já não separasse./ Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,// E a orla branca foi de ilha em continente,/ Clareou, correndo, até ao fim do mundo,/ E viu-se a terra inteira, de repente,/ Surgir, redonda, do azul profundo (…).”[5]. Essa obra assim descrita não foi, contudo, como muitos pensam, nem a nossa “idade de ouro” nem, muito menos, o nosso “último passo”. Neste equívoco, neste recorrente equívoco, cada vez mais enraizado, reside, aliás, o maior entrave à concretização desse nosso destino. Paradoxalmente, as “Descobertas” significaram o nosso próprio “Encobrimento”. E por isso esperamos ainda pelo regresso do “Encoberto”, aquele que, ainda nas palavras do poeta, partiu na “última nau”: “Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,/ (...)/ Foi-se a última nau (...)// Não voltou mais. A que ilha indescoberta/ Aportou? Voltará da sorte incerta/ Que teve? (...)// Ah, quanto mais ao povo a alma falta,/ Mais a minha alma atlantica se exalta/ E entorna,/ E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,/ Vejo entre a cerração teu vulto baço/ Que torna.// Não sei a hora, mas sei que ha a hora (...).”[6]. O regresso de “D. Sebastião” não significa, contudo, senão o regresso de nós mesmos a nós próprios. Somos nós – é o Homem – o verdadeiro “Encoberto”. Recordemos aqui, a este respeito, as já célebres palavras de Sampaio Bruno, escritas em jeito de conclusão do seu O Encoberto: “Dissipe-se a nuvem que encobre o herói. O herói não é um príncipe predestinado. Não é mesmo um povo. É o Homem.”.
A viagem, a verdadeira viagem, está pois ainda por se iniciar. Ela só agora realmente se inicia – como nos diz o poema, já na sua terceira parte: “Grécia, Roma, Cristandade,/ Europa – os quatro se vão (...).”[7]. Falta, pois, cumprir Portugal, falta, assim, realizar o “Quinto Império” – o Império Outro, Outro porque realmente espiritual. E por isso ele não será apenas mais um Império, apenas mais um “Cadáver adiado”, um “Cadáver mandando”, como o são todos os Impérios não espirituais – nas palavras de Pessoa: “Todo o Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de Pé, um Cadáver mandando.”[8]. Para isso, contudo – para que o “Quinto Império” não seja apenas mais um Império, mas sim o Império Outro –, importa que Portugal se negue enquanto tal. Só assim ele se cumprirá. Só, com efeito, negando-se enquanto tal, só, efectivamente, outrando-se, poderá Portugal ser esse outro, esse “rosto” em que todos “se mirem e se reconheçam sem se lembrarem do espelho”. Persistindo em ser, Portugal nada será. Importa pois assim que ele deixe de ser – nas igualmente já célebres palavras de Agostinho da Silva: “Só então Portugal, por já não ser, será.”. Eis, em suma, o destino que Pessoa nos traça, destino esse em tudo idêntico ao seu próprio destino enquanto pessoa. Como aqui vimos, também Pessoa, com efeito, enquanto pessoa, se procurou cumprir precisamente desse modo: na negação, na outração de si mesmo, assim procurado “ser todos”, assim procurando “ser tudo de todas as maneiras”. Dirão alguns que, por isso, o “Quinto Império” não passa de um “sonho”, de mais uma das muitas “projecções pessoanas”. Pessoa, ele próprio, reconhece-o, porém. Daí, aliás, o seu repto: “Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.”[9]. Por isso mesmo que “irreal”, eis a “verdade” deste nosso “sonho”, deste nosso destino.
[1] Obras, vol. I, p. 1145.
[2] Obras, vol. III, p. 702.
[3] Ibid., pp. 703-704.
[4] Cf. Obras, vol. I, p. 1147.
[5] Ibid., p. 1154.
[6] Ibid., p. 1160.
[7] Ibid., p. 1162.
[8] Obras, vol. III, p. 682.
[9] Ibid., p. 710.
P.S.: Excerto de «Fernando Pessoa, o filósofo do “outro”: do pensar, de todo o ser, de si próprio, de nós mesmos», ensaio, da minha autoria, publicado na História do Pensamento Filosófico Português, direcção de Pedro Calafate, Lisboa, Caminho/ Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2000, vol. V, tomo 1, pp. 153-166
Subscrever:
Mensagens (Atom)

