
O fogo crepita e fala, para não termos medo, para erguermos bem alto o devorador de crânios*, para gritarmos de júbilo quando o enxame de abelhas** cruzar os céus sedento do nosso sangue, porque o navio virá, entraremos nele e seremos transportados para além dos mares da Escócia, para uma terra verde onde não há dor nem ódio, onde tudo é puro.
O funéreo navio virá, por entre os rolos da névoa, a sulcar indomável a espuma alva, o espelho borbulhante das águas. Dizem que é filho do crepúsculo, que é feito das unhas dos mortos, que nele só entram os que morrem de rosto erguido, que o vento canta junto às suas velas de sangue vivo.
O navio virá, porque um homem não pode ser o urso para sempre, porque o machado pesa, porque só na morte os guerreiros encontram a sua amante eterna.
Klatuu Niktos
* Metáfora viking para «machado».
** Metáfora viking para «grupo de flechas atiradas».