A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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domingo, 7 de setembro de 2008

Se te incomoda


Se te incomoda ouvir falar da elevação no império posso antes mostrar-te o jardim, e o constrangimento que o jardineiro impõe às ervas. E adivinho já o teu fastio: vais dizer-me que te aborrecem os caminhos programados do Palácio, a disposição geométrica das rosas, a igualitária decapitação das sebes; vais dizer-me que está cheio de tabuletas com proibições e que os teus pés descalços dançam melhor no prado das fadas. E como posso eu não te dar razão? Não tenho culpa do cansaço e da frieza dos príncipes. Ah, mas não é ao jardim deles que te quero levar: não perco tempo a propor-te bailes de máscaras.

Por isso te mostro o jardim, e por ele entendo o que nos espera se deixarmos para trás o Palácio e as ruas arrogantes dos mercadores e generais: aqui a horta humilde que abastece os mercados, mais além a floresta dos lobos, no meio dela o teu prado das fadas; deste lado a montanha coberta de carvalhos e faias, por ali o caminho que conduz ao mar. Em qualquer lugar tu situas-te: apetece-te a solitária companhia das dunas e sabes que cortas à esquerda a seguir ao moinho de água; mas se tens saudades da roda das fadas sabes que tens primeiro que atravessar a encosta dos abetos. E se te perdes na noite de Outono sabes em que direcção vai a lua nascer.

Ainda sentes o constrangimento? Na verdade, os carvalhos não progrediram além da linha da areia, aqui no prado das fadas não ocorreu ao hortelão plantar as suas cebolas. Olha para estes ramos despidos: não é ainda o tempo das maçãs. Em vão procurarias aqui a orquídea dos trópicos, e elas enchem no entanto a orgulhosa estufa dos príncipes. É essa a duríssima lei do jardineiro maior. E, vês? Não recorreu para isso a tabuletas nem a cães de guarda.

Mas as dunas, dirás tu que as dunas hão-de um dia ser morada de lobos e que o hortelão só ganharia se de manhã encontrasse orquídeas em vez de cebolas e que acabas de reparar que então há direcções onde nunca vemos a lua nascer? As dunas, dirás tu que lhes falta a liberdade de ser tudo, dirás que é injusto as fadas elegerem o prado verde para dançar e que serias mais feliz se a partir do moinho de água pudesses escolher qualquer caminho e todos descessem ao mar? Aí, onde irias quando ansiasses pela solidão? Onde, quando o teu coração quisesse dançar?

Entendes porque te afastei dos caminhos geométricos do Palácio? Não há neles sequer a sombra de um jardim, e por isso todos eles vão dar à varanda dos príncipes cansados. E para os construir foi preciso derrubar a cabana e a fonte, e por isso aqueles guardas carrancudos que te ficaram na memória como guardiães do império. Impostores. Não te esqueças de que essa história foi escrita para agradar aos generais, foi paga pelos mercadores que dependem do luxo dos príncipes. Mas tu escapavas-lhes de noite, e saltavas a muralha para brincar com as crias do lobo.

Na verdade, a tua liberdade é constrangimento das ervas: se elas se dispersarem, não terás um prado para dançar. E o teu constrangimento é a liberdade das árvores: que será delas se derrubares quem se interpõe entre ti e o mar? Mas ambos se fundam no jardim, que a tudo situa em hierarquia e poema.

E em ti, quem eu quero fundar é o jardineiro.

DITADURA


99 Cent Store, Andreas Gursky, 1999


Ditadura, sim. Um Império se erga acima do formigueiro de corruptas urbes, das vias rápidas sem destino, das pontes quebradas pelo lixo, das muitas casas, queimadas e escuras, das muitas gentes, robóticas e sem fala. Erga-se, defenda-se, alastre-se, um fogo do espírito, uma lei acima das leis, um costume acima dos costumes, uma justiça acima das justiças, uma assembleia universal igual para todos, iguais no assento da palavra. «Nada farei, ó César, para te agradar, / Nem me interessa se és branco ou preto.»*. O mesmo direi de cada um de vós. Que comeis. Onde, quando. A que deus ou deuses rezais. Ou a nenhum. Que fazeis na cama. Com quem. Que fazeis na casa. Como vestis. Com que entretenimentos ocupais o tempo vosso. A ditadura é o Império, despreza-vos nas vossas diferenças, em todas aquelas pequenas inutilidades onde julgais que acontece a vossa vida, isso é folclore humano, isso é merda, um caos de emoções envolvido em pratas e púrpuras. A lei do Império é universal, só reconhece indivíduos nos atributos comuns da sua humanidade; perante o Império são calados os vossos deuses e o vosso ganir de matilha, as identidades medíocres que julgais acima das dos outros, os vossos tiques de pertença, que quereríeis, megalomanamente, supremos, mas que mais não são que a súmula patológica das vossas insuficiências e mediocridades e vilezas. Nada sois de vosso perante o Império, porque o Império não vos reconhece a propriedade sobre nada que seja a humanidade, sobre nada que pertença a todos, sobre nada que seja a civilização no seu progresso futuro e imparável, sobre nada que seja a manifestação suprema da liberdade como motor da História.
A civilização é a casa da humanidade. O Império, a sua assembleia única. A ditadura, a sua guardiã. Um Rei, o seu autor.


Klatuu Niktos



* XCIII

Nil nimium studeo, Caesar, tibi velle placere,
nec scire utrum sis albus an ater homo.


Gaius Valerius Catullus, poeta do Império Romano, 87 a.C. – 54 a.C.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

RIMANCE DO CAVALEIRO DAS ESCÓCIAS (IV & V)



AQUELE QUE VAI MORRER


«A guerra é mãe e rainha de todas as coisas; a alguns transforma em deuses, a outros, em homens; de alguns faz escravos, de outros, homens livres.»

Heraclito


O exército parou a marcha e formou em frente à floresta. Esperaram, entre os relinchos das montarias e o calor intenso. Da floresta saiu um Cavaleiro, um só Cavaleiro, de armadura negra e cavalo negro, e parou. A sua posição e atitude no campo não deixavam incertezas, tinha vindo para o combate, para enfrentar aquele imenso exército.
Durante um segundo nada se moveu nas fileiras silentes, depois um quarto dos homens sorriu, um quarto riu alto e metade sentiu um medo inexplicável. Os capitães olharam para o Duque, e o Duque olhou para os capitães; depois os capitães olharam uns para os outros. Nem uma palavra foi proferida.
Para um observador externo a conclusão seria simples e rápida. O Cavaleiro de armadura negra, estático e extático, no seu cavalo estátua, bloco único de rocha da noite, não mais era que um lunático suicida e o destino da batalha estava decidido ainda antes de começar.
No entanto, é avisado acreditar que os instantes em que um homem eleva a matéria vil do mundo à grandeza que o transcende chamam sempre a atenção de observadores estranhos. Deus é esse observador. Superno às tristes criaturas, Ele somente não tem dúvidas que o milagre é uma espada que trespassa, sem dificuldade, a carne pútrida do mundo.





O REINO


Era uma vez um Cavaleiro que jurara lealdade a um Rei e uma Rainha, e um dia o Reino partiu-se e o Rei e a Rainha enviaram exércitos um contra o outro. Nesse dia o Cavaleiro fustigou a montada branca à ponta de um desfiladeiro e apeou-se na beira do precipício. Olhou os céus, olhou o rio de águas prateadas no fundo, muito fundo do abismo. Ficou ali, imóvel, enquanto o cavalo pastava, manhã e tarde, até que o cair do Sol lhe pintou a face de vermelho, e depois de negrume. Tinha feito uma jura, uma Jura de Cavaleiro e não poderia quebrá-la.
Voltou para comandar o exército do Rei e na sua armadura de prata conduziu a Cavalaria Real num movimento audaz, que forçou a retirada do exército da Rainha. Após a ceia recolheu à tenda e deixou ordens para não ser perturbado antes do claror da alba.
Quando tudo estava quieto, a coberto do escuro e com um manto negro, iludiu as sentinelas e caminhou para o centro da floresta densa, entrou numa antiga cabana de bruxa e de lá saiu um Cavaleiro de armadura mais de treva que a mais funérea das noites, que montou um cavalo preto, de longa crina. Qual espectro dos infernos, irrompeu pelo acampamento do exército do Rei e trucidou centenas de homens estremunhados e atónitos, uns que mal o enfrentavam, outros que fugiam em pânico, alguns que ajoelhavam e faziam o sinal da cruz.
Durante um lento e árduo ano, o exército do Rei progredia assim durasse a luz, chefiado pelo Cavaleiro de armadura de prata, mas assim a noite estendia o seu véu sobre o mundo eram duramente sangrados pela fúria do Cavaleiro Negro.
Nos exércitos em conflito militavam, cada um do seu lado, dois capitães que eram primos e que tinham estabelecido o pacto de, enquanto fossem vivos, se encontrar aos domingos numa capela, como amigos e família. Uma manhã, após terem rezado, confessaram as suspeitas que lhes devoravam o coração e escolheram uma noite para se reunir na floresta, cada um com um grupo de dez soldados valentes.
Era Lua cheia e viram nitidamente o Cavaleiro dirigir-se à cabana decrépita, que tinha um cavalo preto, de longa crina, com as rédeas atadas ao alpendre. Aguardaram que o Cavaleiro entrasse, fizeram cerco ao covil infecto e gritaram que se rendesse, uns em nome do Rei, outros em nome da Rainha.
Curta foi a espera, quando de lá saiu o Cavaleiro, equipado com partes de ambas as armaduras, que, ignorando o cavalo, se perfilou em frente da cabana, de escudo erguido e espada preparada, junto a uma lápide nua, sem qualquer inscrição. Os capitães de imediato deram sinal de ataque e um deles gritou «Traidor!», e o outro gritou também «Traidor!».
O combate durou uma interminável hora, o Cavaleiro foi ferido incontáveis vezes, nada parecia poder derrubá-lo e matou muitos, sem dizer palavra. Então, quando já só restavam seis dos soldados e os capitães, e desesperavam de poder vencer, a Rainha surgiu de dentro da noite a galope e atravessou o peito do Cavaleiro com uma flecha. O Cavaleiro deixou cair a espada e o escudo, foi golpeado pelos oito e tombou.
Sempre em silêncio, tentou arrastar-se para a lápide incógnita de pedra cega, mas uma lança pregou-o ao chão e nesse lugar morreu. Os capitães viraram o rosto e não viram a Rainha e nunca mais ninguém a viu e a paz voltou ao Reino.
Dizem os crédulos que quem passa no desfiladeiro, e se aproxima do precipício, ouve a Rainha chorar.


Lord of Erewhon

quarta-feira, 9 de julho de 2008

RIMANCE DO CAVALEIRO DAS ESCÓCIAS (II & III)

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FINISTERRA


«O meu cavalo é a minha pátria.»

Dito por um proto-ariano anónimo no princípio dos tempos

«Quando estiveres perdido na batalha, meu filho, solta os cães, mas não para muito longe de ti, porque os cães já foram um dia lobos, criaturas selvagens.»

Dito por um guerreiro Dácio ao seu filho durante a iniciação militar


O mar sem fim, a luz feroz, acesa alto e o semi-deserto, florido de todas as maravilhas terrenas. Ó terra, recebe-me como teu filho, porque eu fui escorraçado de todas as pátrias e muito caminhei e padeci para aqui chegar. Tanta luz e mar e horizonte são a tua coroa, mãe generosa e doce, gentes tão diversas e felizes são as tuas vestes, limpas e simples e os perfumes do ar, em que se mistura toda a imensa beleza destes campos sagrados, são o teu ceptro, justo e altivo. Recebe-me, terra, recebe-me, mãe, que eu sou um errante sem pátria e já só tu, Terra do Fim, Terra das Serpentes, és a minha derradeira esperança.
Ouvi no vento furioso que no teu ventre santo guardas um tesouro e um sonho, que unirás todos os povos do mundo no teu seio manso e belo e erguerás um Império de Luz Extrema, em que os homens, as feras e as aves cantarão juntos. Recebe-me como filho, ó mãe, que me fizeram órfão e me roubaram tudo, eu serei o guardião do teu tesouro e o soldado do teu sonho e por ti combaterei, eu e todos estes por quem ergo a voz, cavaleiros fulvos das Escócias, aprumados lanceiros das Arábias, valentes guerreiros Mandingas das Áfricas primordiais, archeiros clarividentes da Cidade de D*us e muitos outros que virão, os que vierem de além das estepes, os de além dos gelos, os que descerem das montanhas, vestidos de nuvem e luz e os que se levantarão do fundo negro dos mares, ainda que lhes digam que estão mortos.
Ó Terra do Fim, mãe generosa e doce, Senhora minha, Rainha minha, aceita-me por teu filho e a este exército apátrida; sem mãe, um homem não tem centro nem paz e à nossa a mataram diante dos nossos olhos. Recebe-nos mar sem fim, recebe-nos luz alta, recebe-nos deserto desprezado do Ocidente, eu serei o teu filho fiel, o teu jardineiro proficiente e o teu bardo vociferante, sangrento e sem temor, inflamando pelo canto todos os que aqui perfilam comigo, ajoelhados na areia da praia última, frente ao mar Oceano, irmãos do meu sangue e teus filhos, que seremos a carne do teu Trono e da tua Glória!
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OS QUE VÃO MORRER


O homem baixo de olhos altivos acercou-se da montada do gigante de longos e revoltos cabelos castanho-avermelhados.
– «Senhor, os meus estão prontos. Já rezámos e quero dizer-lhe que o meu D*us o receberá no Seu Paraíso.»
O Cavaleiro de aspecto feroz moveu o rosto e olhou.
– «De que falais?»
– «Senhor, eu sei que morreremos hoje, o inimigo é dez vezes os nossos! Face à morte nada mais pode separar os homens… Quero que saiba que é sangue do nosso sangue para sempre, merece mais do que passar a Eternidade numa taberna suja!»
O gigante de cabelos revoltos, como lume, moveu um pé do estribo para o dar ao homem baixo de olhos estranhos, estendeu-lhe o braço. O cavalo tremeu.
– «Subi! Olhai para o fim do nosso exército!»
– «Alguns fogem, Senhor…»
– «Fogem sempre alguns. Olhai mais fundo, para além do horizonte…»
– «Vejo sombras, fogos-fátuos, vultos…»
– «Olhai agora para a direita e para a esquerda… e olhai para cima!»
O rosto e a voz do Israelita de olhos estranhos alteraram-se de um modo indizível e disse.
– «Os mortos…»
– «Sim, os mortos!» – replicou o Cavaleiro das Escócias – «O nosso exército dos mortos é mil vezes superior… e cada vez que um de nós cair aqui… irá engrossar o número daqueles» – estendeu o braço e apontou para o céu – «ali! Preparai-vos!»
Um vento começou a soprar. O inimigo dava já mostras de querer atacar. O Cavaleiro de bárbaros couros vestido ergueu a espada.
– «A mim! A mim, bravos das Escócias! Gritai comigo! Que nem um homem fique a dormir nas highlands! Que os clãs despertem e saibam que ganharemos hoje, aqui, a glória!»
Um grande grito humano se ouviu, urro terrível e temerário. Depois, uma espécie de grito, ainda maior, e era como um cântico e homens gritavam e, entre eles, Anjos.
– «Shema Yisrael Adonai Eloheinu Adonai Ehad!!»
O Cavaleiro carregou e, de imediato, foi ultrapassado por cavalaria rápida.
– «Santiago!!»
– «São Jorge!!»
Cavaleiros ibéricos de rosto fechado e, no meio dos cavalos, tão lestos quanto estes, se moviam sombras letais, guerreiros negros emplumados, de tronco nu. O Cavaleiro das Escócias, de longo cabelo revolto irmão do vento, empinou a montada e gritou.
– «Portugal!» – e ouviu-se um eco vindo da terra e do céu – «Portugal!!»
Os homens gritavam, mas também Anjos, cavalos, deuses esquecidos, mastins de guerra e o clamor do vento, a luz cheia e o rugido do mar.
«PORTUGAL!!!»


Lord of Erewhon

sábado, 5 de julho de 2008

COMENTÁRIO AO TEXTO DE RENATO EPIFÂNIO «Resumo de um texto a fazer…»


Muito honestamente, penso que a trave fundamental do Grupo da Filosofia Portuguesa é um recurso; mas não se pode ignorar que sobre o chão de uma mitosofia se ergueu sabedoria válida. Além de que o recurso não é de lunático: é um postulado.

Esse postulado, que sempre questionou e incomodou o pensamento mais europeísta por cá, também sempre me questionou, mais do que me incomodar. Transformar atrasos em virtudes, pouco me diz; principalmente porque Álvaro Ribeiro (e também Marinho, embora com maior amplidão) se reportou em demasia a um diagnóstico do presente (a primeira metade do século XX); Portugal não foi sempre atrasado em relação à Europa.

Hoje este postulado tem que ser reformulado, receber novo vigor. Não continuemos a fundamentar a nossa especificidade na evocada virtude de um atraso. O caminho é outro:

o da atipicidade da História do nosso País.

Esta ideia começou a assaltar-me não na leitura dos filósofos mas na dos historiadores (a História é a minha leitura mais recorrente; nela se funde todos os que sou). Charles Boxer permitiu-me reler os nossos historiadores do passado e a História de Portugal num novo rumo:

Portugal não tem funcionado pelos mesmo vectores genéricos da demais Europa Ocidental.

Ora toma a dianteira, ora se retarda. Alguma semelhança encontro na pátria de Boxer: o Reino Unido, mas Portugal é ainda mais atípico.

Portugal é um ilhéu dentro da ilha Ibérica. Esta insularidade do extremo, com o oceano sem fim ao lado, determinou a Alma desta Pátria, o seu destino e o carácter genérico dos Portugueses. As nossas virtudes, falências e singularidade.


P. S. Eu quero um Verney, um António Sérgio, etc. Se aqui não há polémica é porque os nossos opositores sempre estiveram mal representados!

P. P. S. Até já pensei encarnar um... agora com esta coisa da heteronímia anónima! Este carrasco pensa pra caraças dentro do carapuço... (-_-)


NOTA
Concebi dois novos conceitos – de poeta, claro, mas não isentos de sapiência:

(1) o de Império Último – que substitui o V Império; trata-se genericamente da Terceira Reconquista, encerrada a Segunda, as Descobertas, e o retorno à Primeira (interrompida pela Segunda, que a pretendeu continuar além fronteiras) e à valentia de recuperar o território da Primeira Dinastia;

(2) o de Arca de Chão (no sentido duplo de baú de tesouro e arca de navegar e também guardar); conceito que transforma o postulado de Álvaro Ribeiro numa Finisterra mágica, suspensa num tempo que namora a eternidade, que todos os homens, povos e credos procuram desde o início da Civilização Mediterrânica, por terra, como os Cavaleiros que procuram o Cálice, por mar, desde o que Avieno repõe de um passado que apenas escutou.



Klatuu Niktos

terça-feira, 24 de junho de 2008

EUROPA

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O despojo, um crânio sobre pneus,
Confunde a esfinge e o seu escriba
Sentado. (O búzio
Perdeu a ressonância,
Não canta por si,
É preciso soprá-lo.)
O deserto derrete as páginas.


Ecos, cópias, luzes falsas.

Lucrécio atormenta-se em casa,
Trancado com o Universo… enigmas
Prenhes de enigmas prenhes
De enigmas... Lucrécio não tem fundo.
E, de noite, o deus
Fá-lo cantar.

Imundície, pestes, mentiras.

(Quem comanda os meus passos?
As vielas, o tear de túneis,
Mergulham no Hades.)

Telémaco no bordel.
Penélope no secador.

As parcas douradas que tecem as ruas
Tecem o labirinto. Os sinais. Os corvos
De Zeus devoraram-se
No ar. Ulisses,
Não encontra o caminho de volta.
As vagas e os campos
São martelados pela tempestade.

As tochas dançam sem faunos,
Nem música. A nudez,
A beleza, etc, são agora crime.
Os lagos foram abandonados.
A populaça em fúria
Persegue o Minotauro,
Os cegos, o rapaz
De braços de gafanhoto que nasceu
Com seios, o chiador,
Os disformes; mongolóides, anões.
Os centauros são abatidos nas praças.

Teseu de ariana espada vem para nós
A 120 km/h da hidra subterrânea.

(Livros, rosas, seios, não sei,
Faltam-me as palavras.
A guerra – em breve
Os poetas serão um luxo.)

Chegou o mensageiro, falou:
«Prodígios no mar.
____A ira da noite nos ares.
A muralha Este ameaça derrocar.
____A pítia pariu um monstro,
Dizem que fala
____Com a voz de Péricles.
Uma praga de ratos no centro da cidade.
____César está doente.»

Segunda-feira de manhã, aguaceiros.
O espelho recusou-se a reflectir o rosto
Da mulher do cozinheiro.
Não sei onde meti as chaves,
Procurei, procurei,
Nada.



Klatuu Niktos

terça-feira, 17 de junho de 2008

A SÍNDROMA DE ALCÁCER-QUIBIR




O malfadado costume dos Portugueses se deixarem derrotar por vencidos… só pode ser uma predisposição emocional à tragédia. Deste a fundação da nossa Pátria que recusamos a mansidão – e optamos por uma realidade que nos sangre!
Somos Portugueses, um Povo de povos, em excelência nobre e altivo. As épocas de inércia, o quase, o previsível, sempre nos roubaram o ânimo; no mais fundo de nós nos recolhemos, no que nos resta de puro, de sagrado, de espírito e força, para nos erguermos – como o velame fustigado e valente de uma caravela! – e inventarmos um Novo Mundo. Assim temos fintado as leis da História e construímos a singularidade do nosso carácter colectivo e esta nação atípica.

O que a ânsia do neófito sonha que regresse em carne, nunca nos abandonou em Presença, companhia do Amigo, Mar de Levante para o audaz, Luz dentro de todos os nevoeiros, do mundo, dos homens e do tempo.


Bem hajam, todos os que são o meu sustento, que o meu coração ofertado ao Sacrifício entendem e sabem que a minha alma Serve e em nada a devora a soberba. Somente a Civilização Portuguesa é o meu Fogo íntimo – a Fraternidade de todos os lusófonos e uma Casa de Alegria para todos os que imploram a justiça, o respeito, a igualdade e o pão.

Um nome nada importa – se os lábios dizem: «Portugal».


Klatuu Niktos