A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

RIMANCE DO CAVALEIRO DAS ESCÓCIAS (IV & V)



AQUELE QUE VAI MORRER


«A guerra é mãe e rainha de todas as coisas; a alguns transforma em deuses, a outros, em homens; de alguns faz escravos, de outros, homens livres.»

Heraclito


O exército parou a marcha e formou em frente à floresta. Esperaram, entre os relinchos das montarias e o calor intenso. Da floresta saiu um Cavaleiro, um só Cavaleiro, de armadura negra e cavalo negro, e parou. A sua posição e atitude no campo não deixavam incertezas, tinha vindo para o combate, para enfrentar aquele imenso exército.
Durante um segundo nada se moveu nas fileiras silentes, depois um quarto dos homens sorriu, um quarto riu alto e metade sentiu um medo inexplicável. Os capitães olharam para o Duque, e o Duque olhou para os capitães; depois os capitães olharam uns para os outros. Nem uma palavra foi proferida.
Para um observador externo a conclusão seria simples e rápida. O Cavaleiro de armadura negra, estático e extático, no seu cavalo estátua, bloco único de rocha da noite, não mais era que um lunático suicida e o destino da batalha estava decidido ainda antes de começar.
No entanto, é avisado acreditar que os instantes em que um homem eleva a matéria vil do mundo à grandeza que o transcende chamam sempre a atenção de observadores estranhos. Deus é esse observador. Superno às tristes criaturas, Ele somente não tem dúvidas que o milagre é uma espada que trespassa, sem dificuldade, a carne pútrida do mundo.





O REINO


Era uma vez um Cavaleiro que jurara lealdade a um Rei e uma Rainha, e um dia o Reino partiu-se e o Rei e a Rainha enviaram exércitos um contra o outro. Nesse dia o Cavaleiro fustigou a montada branca à ponta de um desfiladeiro e apeou-se na beira do precipício. Olhou os céus, olhou o rio de águas prateadas no fundo, muito fundo do abismo. Ficou ali, imóvel, enquanto o cavalo pastava, manhã e tarde, até que o cair do Sol lhe pintou a face de vermelho, e depois de negrume. Tinha feito uma jura, uma Jura de Cavaleiro e não poderia quebrá-la.
Voltou para comandar o exército do Rei e na sua armadura de prata conduziu a Cavalaria Real num movimento audaz, que forçou a retirada do exército da Rainha. Após a ceia recolheu à tenda e deixou ordens para não ser perturbado antes do claror da alba.
Quando tudo estava quieto, a coberto do escuro e com um manto negro, iludiu as sentinelas e caminhou para o centro da floresta densa, entrou numa antiga cabana de bruxa e de lá saiu um Cavaleiro de armadura mais de treva que a mais funérea das noites, que montou um cavalo preto, de longa crina. Qual espectro dos infernos, irrompeu pelo acampamento do exército do Rei e trucidou centenas de homens estremunhados e atónitos, uns que mal o enfrentavam, outros que fugiam em pânico, alguns que ajoelhavam e faziam o sinal da cruz.
Durante um lento e árduo ano, o exército do Rei progredia assim durasse a luz, chefiado pelo Cavaleiro de armadura de prata, mas assim a noite estendia o seu véu sobre o mundo eram duramente sangrados pela fúria do Cavaleiro Negro.
Nos exércitos em conflito militavam, cada um do seu lado, dois capitães que eram primos e que tinham estabelecido o pacto de, enquanto fossem vivos, se encontrar aos domingos numa capela, como amigos e família. Uma manhã, após terem rezado, confessaram as suspeitas que lhes devoravam o coração e escolheram uma noite para se reunir na floresta, cada um com um grupo de dez soldados valentes.
Era Lua cheia e viram nitidamente o Cavaleiro dirigir-se à cabana decrépita, que tinha um cavalo preto, de longa crina, com as rédeas atadas ao alpendre. Aguardaram que o Cavaleiro entrasse, fizeram cerco ao covil infecto e gritaram que se rendesse, uns em nome do Rei, outros em nome da Rainha.
Curta foi a espera, quando de lá saiu o Cavaleiro, equipado com partes de ambas as armaduras, que, ignorando o cavalo, se perfilou em frente da cabana, de escudo erguido e espada preparada, junto a uma lápide nua, sem qualquer inscrição. Os capitães de imediato deram sinal de ataque e um deles gritou «Traidor!», e o outro gritou também «Traidor!».
O combate durou uma interminável hora, o Cavaleiro foi ferido incontáveis vezes, nada parecia poder derrubá-lo e matou muitos, sem dizer palavra. Então, quando já só restavam seis dos soldados e os capitães, e desesperavam de poder vencer, a Rainha surgiu de dentro da noite a galope e atravessou o peito do Cavaleiro com uma flecha. O Cavaleiro deixou cair a espada e o escudo, foi golpeado pelos oito e tombou.
Sempre em silêncio, tentou arrastar-se para a lápide incógnita de pedra cega, mas uma lança pregou-o ao chão e nesse lugar morreu. Os capitães viraram o rosto e não viram a Rainha e nunca mais ninguém a viu e a paz voltou ao Reino.
Dizem os crédulos que quem passa no desfiladeiro, e se aproxima do precipício, ouve a Rainha chorar.


Lord of Erewhon

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Silepse


"Os portugueses somos do ocidente
imos buscando as terras do oriente"
Camões, Os Lusíadas



Silepse é uma palavra medonha que eu ignorava (acho) até há uns minutos atrás (espero esquecer-me dela ainda hoje), pelos vistos de estimável origem grega: cheira-me a construção por via erudita, e portanto a palavra inventada por sábios vitorianos, mas pode ser que não e que o divino Platão a tenha achado útil (e até bela aos seus helénicos ouvidos). A acreditar em textos académicos que encontrei no google, devemos usá-la para a hipótese aparentemente absurda de querermos gastar o nosso tempo a classificar determinadas figuras de estilo em que há uma não concordância de pessoa (entre o sujeito e o verbo, acho que se pode dizer assim). Dou a seguir um exemplo que encontro numa página brasileira escrita por professores de linguística computacional, e que adapto a Portugal para não parecer descortês: "os portugueses somos sem-vergonha".

Aparentemente, a frase de que venho falar contém a tal silepse, e portanto onde Camões escreveu "os portugueses somos do ocidente" deveria estar (e assim está explicitadíssimo e assumidíssimo em dezenas de pequenos net-textos pseudo-patrióticos) "Nós somos portugueses, e portanto somos do ocidente"; ou mesmo (não se esqueçam de que é o Gama a falar ao enigmático Rei de Melinde) "... somos do ocidente tal como os bascos, os habitantes do Yorkshire, os suíços e os norte-americanos e os australianos quando os houver, para o que aliás convinha que você, seu oriental, me deixasse cumprir a minha missão".

Mais valia falar menos grego e pensar mais português.

O Gama (o Camões) não silepsou coisa nenhuma, e o que está dito (posto em sequência mais simples) é "somos os portugueses do ocidente". E no momento em que esta frase foi escrita o Anjo de Portugal sorriu (pronto, sei que há aqui quem não acredite em Anjos, e muito menos neste: mas o século XIX deu-nos um infindável receituário de frases metafisicamente correctas, digam lá se fica bem ao mais exigente tribuno dizer antes "virou-se uma página da gloriosa história universal").

Somos os portugueses do ocidente, e no estado a que isto chegou é mais seguro começar por explicar que "ocidente" também não é o "western world" de alguns anglo-saxónicos, tão estreitos na sua visão da geografia e da história que não descansaram enquanto não liquidaram o correctíssimo "Próximo Oriente" com que sempre os franceses e os alemães se referiram à zona que vai de Alexandria a Bagdad, e o substituiram por um Médio-Oriente que nada diz nem quer dizer a não ser que vive lá gente que parece não ser o próximo de ninguém. Mas isso é uma outra conversa.

O Ocidente é a parte do mundo em que é maior a consciência de que o Mundo é uma história nossa, e é maior a consciência de que cada um de nós é um mundo para navegar. O Ocidente não é a parte do mundo que faz parte da Europa ou tem pena de não fazer, a parte do mundo em que o homem branco já levou o pesado fardo até ao ponto em que nada resta do fardo, a parte do mundo em que os MacDonalds dão lucro. E esta é a primeira distinção a fazer.

E por isso do ocidente os portugueses somos: gente ocidental que saiu de um minúsculo canto da Europa para transcender a Europa, e que por isso é, como disse Pessoa, o seu rosto (A Europa jaz, posta nos cotovelos /... / o rosto com que fita é Portugal): porque é no rosto que moram os olhos, e é pelos olhos que o mundo inteiro nos entra. Com a barriga da Europa fique quem a isso achar graça.

Do ocidente os portugueses somos, e seja bem vindo quem vier por bem. Que os amesquinhadores de palavras continuem a amesquinhar, que aos tolos Deus os ilumine, mesmo que não exista. Faz sentido sermos portugueses porque cada um dos homens e mulheres do mundo pode ser português na íntima ocidentalidade do seu Mistério único.

Portugal, ocidente do ocidente, finisterra das nações, promontório sacro de todos os deuses de boa vontade. Um enigma dentro de um enigma, e nesse sentido – ah, e nesse sentido o Mar.

E digo mais. Portugal – o Portugal-terra, o Portugal-rectângulo – é feito de celtas. É feito de mouros e de judeus. É feito de romanos, e de fenícios, e de gregos, e de berberes, e da ignomínia dos escravos africanos, é feito até dos improváveis borgonheses, dos estranhíssimos castelhanos. É feito dos emigrantes que foram, dos imigrantes que chegam. Somos os cafres da Europa e os europeus de Al-Andaluz. E se Portugal-terra é isso tudo, que não há-de ser Portugal-mar? Que não é, já, Portugal-dentro?

Digo mais ainda. Precisamente por isso é que a República Portuguesa – que é um Estado soberano e não um Império-a-haver, que é a casa dos portugueses e não o mundo dos portugueses, que é lugar onde se fala e se cala em português mas não é a lusofonia, e que é uma parte do mundo em que são e serão os portugueses a mandar – vai cumprir a sua parte das alianças europeias, das alianças atlânticas, da grande e ainda tão frágil aliança das nações. Não me digam que somos pobres, porque por graça de Deus nunca fomos outra coisa; não me digam que podemos ser derrotados: eu estive em Alcácer-Quibir. Somos isto que a terra é, que os mortos são: A todas as cinzas – paz.

"Silepse" é medonho. Os gregos temos palavras estranhas.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Corona Fulgens (II)


- Olhem o mar, disse o velho, mas olhem com olhos marinheiros já que é de Portugal que falo quando vos digo olhem o mar ("Georges!", não é? "Georges! Anda ver meu país de marinheiros / o meu país das naus..."). Às vezes esquecemos, tantas vezes vem o engano: de engano e de esquecimento parece que o mundo se fez, mas marinheiros não têm tempo para se enganar: olhem com olhos marinheiros para o mar que Portugal cumpriu.

- O mar, disse o estudante de azul, então também tu falas do mar; e também eu tantas vezes mas tantas vezes estou na falésia ou na duna ou na praia a olhar, a perder-me. Imensidão, encantamento líquido do mar. É esta a alma dos Portugueses.

- "O mar sem fim é português", disse o estudante de verde, e lembrou-se de outros versos do Pessoa e disse baixinho: Portugal é feito de mar.

- Nada disso, disse o velho, e essa é a armadilha maior: cautela com o mar, é o que o marinheiro vos diz. O marinheiro não ficava na falésia ou na duna, à praia só iam as viúvas e as noivas com os corações rasgados: "máraios partam o mar!" Portugal foi o domador do mar, e o mar era o Adversário. O Pessoa disse Deus ao mar o abismo deu, mas devias saber que ele às vezes diz a verdade e às vezes o seu exactíssimo contrário... Deus o mar ao Abismo deu.

- Estás velho e já não queres sonhar, disse o estudante de azul, e o estudante de verde disse isso que dizes, como pode ser? Não somos nós a bruma, a névoa atlântica de não ter fim? Não é essa a fonte e a consumação?

- Somos sim, disse o velho e disse: somos a névoa e a bruma mas isso é porque estamos ainda sem nada ser. Não te lembras? "Pescador da barca bela / inda é tempo, foge dela / foge dela / Oh! Pescador!" Encantamento da sereia, podridão da Atlântida, sofreguidão abissal de Sirius, são estas as histórias do mar, é isto o que nos prendeu. Povos do império do mar, é isto o que nos quer desde sempre barrar. Olhem o mar com olhos de marinheiro: o barco. Olhem o corvo santo que o leme conduz. Olhem Sagres, promontorium sacrum: sagrada a terra que fere o mar.

- Confundes-me, disse o estudante de verde, e o estudante de azul disse: Perturbas-me.

- Sim, disse o velho, e sorriu: abro-vos os olhos para a serpente do mar. No timbre de Portugal a Serpe Alada: e o mundo não sabe de batalha maior.

sábado, 12 de julho de 2008

O CAVALEIRO SEM CORAÇÃO

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Dedicado ao Paulo Borges



Entre valas negras, enterrou fundo
O seu pobre coração de chumbo e
Vai, para onde vai o vento. Os lábios,
Secos, a pedir a paga mais simples,
A sombra, o pão, a água e o caminho.

Devolvam ao cavaleiro perdido
A sua rosa de sangue, a que é pura,
A que canta alto na noite e,
Quando mãos a tocam, se desfaz
Em pássaros roxos. Escuras, tristes,
As águas choram, choram
Porque ele passa, passa e não fica.

Cavaleiro sem coração, «Adeus!»,
«Voltas quando voltar o vento?»,
O vulto que passa, passa e não fica,
Os pássaros roxos por companhia.

Ó devolvam-lhe, águas chorem, ó
Devolvam-lhe a sua rosa de sangue.


Lord of Erewhon

quarta-feira, 9 de julho de 2008

RIMANCE DO CAVALEIRO DAS ESCÓCIAS (II & III)

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FINISTERRA


«O meu cavalo é a minha pátria.»

Dito por um proto-ariano anónimo no princípio dos tempos

«Quando estiveres perdido na batalha, meu filho, solta os cães, mas não para muito longe de ti, porque os cães já foram um dia lobos, criaturas selvagens.»

Dito por um guerreiro Dácio ao seu filho durante a iniciação militar


O mar sem fim, a luz feroz, acesa alto e o semi-deserto, florido de todas as maravilhas terrenas. Ó terra, recebe-me como teu filho, porque eu fui escorraçado de todas as pátrias e muito caminhei e padeci para aqui chegar. Tanta luz e mar e horizonte são a tua coroa, mãe generosa e doce, gentes tão diversas e felizes são as tuas vestes, limpas e simples e os perfumes do ar, em que se mistura toda a imensa beleza destes campos sagrados, são o teu ceptro, justo e altivo. Recebe-me, terra, recebe-me, mãe, que eu sou um errante sem pátria e já só tu, Terra do Fim, Terra das Serpentes, és a minha derradeira esperança.
Ouvi no vento furioso que no teu ventre santo guardas um tesouro e um sonho, que unirás todos os povos do mundo no teu seio manso e belo e erguerás um Império de Luz Extrema, em que os homens, as feras e as aves cantarão juntos. Recebe-me como filho, ó mãe, que me fizeram órfão e me roubaram tudo, eu serei o guardião do teu tesouro e o soldado do teu sonho e por ti combaterei, eu e todos estes por quem ergo a voz, cavaleiros fulvos das Escócias, aprumados lanceiros das Arábias, valentes guerreiros Mandingas das Áfricas primordiais, archeiros clarividentes da Cidade de D*us e muitos outros que virão, os que vierem de além das estepes, os de além dos gelos, os que descerem das montanhas, vestidos de nuvem e luz e os que se levantarão do fundo negro dos mares, ainda que lhes digam que estão mortos.
Ó Terra do Fim, mãe generosa e doce, Senhora minha, Rainha minha, aceita-me por teu filho e a este exército apátrida; sem mãe, um homem não tem centro nem paz e à nossa a mataram diante dos nossos olhos. Recebe-nos mar sem fim, recebe-nos luz alta, recebe-nos deserto desprezado do Ocidente, eu serei o teu filho fiel, o teu jardineiro proficiente e o teu bardo vociferante, sangrento e sem temor, inflamando pelo canto todos os que aqui perfilam comigo, ajoelhados na areia da praia última, frente ao mar Oceano, irmãos do meu sangue e teus filhos, que seremos a carne do teu Trono e da tua Glória!
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OS QUE VÃO MORRER


O homem baixo de olhos altivos acercou-se da montada do gigante de longos e revoltos cabelos castanho-avermelhados.
– «Senhor, os meus estão prontos. Já rezámos e quero dizer-lhe que o meu D*us o receberá no Seu Paraíso.»
O Cavaleiro de aspecto feroz moveu o rosto e olhou.
– «De que falais?»
– «Senhor, eu sei que morreremos hoje, o inimigo é dez vezes os nossos! Face à morte nada mais pode separar os homens… Quero que saiba que é sangue do nosso sangue para sempre, merece mais do que passar a Eternidade numa taberna suja!»
O gigante de cabelos revoltos, como lume, moveu um pé do estribo para o dar ao homem baixo de olhos estranhos, estendeu-lhe o braço. O cavalo tremeu.
– «Subi! Olhai para o fim do nosso exército!»
– «Alguns fogem, Senhor…»
– «Fogem sempre alguns. Olhai mais fundo, para além do horizonte…»
– «Vejo sombras, fogos-fátuos, vultos…»
– «Olhai agora para a direita e para a esquerda… e olhai para cima!»
O rosto e a voz do Israelita de olhos estranhos alteraram-se de um modo indizível e disse.
– «Os mortos…»
– «Sim, os mortos!» – replicou o Cavaleiro das Escócias – «O nosso exército dos mortos é mil vezes superior… e cada vez que um de nós cair aqui… irá engrossar o número daqueles» – estendeu o braço e apontou para o céu – «ali! Preparai-vos!»
Um vento começou a soprar. O inimigo dava já mostras de querer atacar. O Cavaleiro de bárbaros couros vestido ergueu a espada.
– «A mim! A mim, bravos das Escócias! Gritai comigo! Que nem um homem fique a dormir nas highlands! Que os clãs despertem e saibam que ganharemos hoje, aqui, a glória!»
Um grande grito humano se ouviu, urro terrível e temerário. Depois, uma espécie de grito, ainda maior, e era como um cântico e homens gritavam e, entre eles, Anjos.
– «Shema Yisrael Adonai Eloheinu Adonai Ehad!!»
O Cavaleiro carregou e, de imediato, foi ultrapassado por cavalaria rápida.
– «Santiago!!»
– «São Jorge!!»
Cavaleiros ibéricos de rosto fechado e, no meio dos cavalos, tão lestos quanto estes, se moviam sombras letais, guerreiros negros emplumados, de tronco nu. O Cavaleiro das Escócias, de longo cabelo revolto irmão do vento, empinou a montada e gritou.
– «Portugal!» – e ouviu-se um eco vindo da terra e do céu – «Portugal!!»
Os homens gritavam, mas também Anjos, cavalos, deuses esquecidos, mastins de guerra e o clamor do vento, a luz cheia e o rugido do mar.
«PORTUGAL!!!»


Lord of Erewhon

sábado, 5 de julho de 2008

COMENTÁRIO AO TEXTO DE PAULO BORGES «Ainda a Saudade»


Denso; mas esta é uma saudade do absoluto, uma fome de transcendente e, como tal – espero correcção, a estar errado –, a saudade na alma cuja raiz é a carne, que é trespassamento das inconspícuas coisas do mundo de que nos afastam ou roubam, é aqui superada por essa elevação – ou redução?, porque há uma segunda perda – à saudade de todas as saudades. Para onde vão negadas as minhas humanas e simples saudades do meu avô e da minha avó falecidos, que me criaram, para que vazio são atiradas as minhas memórias de todas as mulheres que amei, em que fosso de nada são incendiadas todas as minhas evocações saudosas de ter visto, ouvido, cheirado, tocado?

Tu devolves a um abismo lavado a Serpente que perdeu asas, mas rastejou arduamente, em sacrifício e sofrimento, para se deleitar com a superfície do mundo, para ser dilacerada pelas perdas e perdições do tempo, dos dias, dos instantes, para se ferir de mortal beleza.

Tu baptizaste a Serpente com sal, mirra e especiarias de alhures – onde está, aqui, a nossa Serpente da Finisterra?


Lord of Erewhon