A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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quarta-feira, 20 de agosto de 2008

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO


1ª Parte – Capítulo VIII

– Ai...uuu...é! Ai...uuu...é!

Eu brincava na vala sobre as raízes da tangerineira que lhe serviam de ponte e onde atava moinhos de cana que rodavam com a corrente. A mesma que atravessava o quintal entrando pelo tanque de lavar a roupa, onde o musgo prendia avencas que se espelhavam vaidosas à sombra da roseira de molhos de flores cremes, pequenas e olorosas, passava pela goiabeira ao lado e corria até bem ao fundo da horta, por entre as laranjeiras, esgueirando-se depois sob o muro até à lagoa grande lá em baixo.

A vala continha tesouros sem preço, nas noites ressoando o croá-croá dos sapos de goela inchada, os fios de gelatina pintalgados e esguios, longos, longos, presos nas beiras e ondeando coleantes na correnteza alegre. Os girinos escuros chegados logo depois dando à cauda, escorriam por entre os nossos dedos que em vão os queriam reter, ocupando horas infindas dos nossos dias.

A algazarra era imensa lá fora e eu trepei ao muro de adobe no fundo do quintal para mais depressa saber o que se passava. Corri um pouco ao longo do mesmo, esbarrei entretanto esfolando-me nas pernas e braços, mas segui em frente, sacudindo de mim a terra.

– Patrão matou jacaré. Vem, menino. Anda ver!

– Mentira… – mas continuei a correr.

Era certo que meu pai tinha saído a seguir ao almoço, fora dar uma volta pela fazenda à caça, decerto descera até ao rio e eu nem sequer o tinha ouvido chegar.

– É... é…! Verdade, menino!

Realmente a carrinha estava parada em frente ao portão grande, ajoujada com o peso do animal de que eu só conseguia ver a cauda pendurada. Cheguei arquejante junto ao círculo onde se juntavam todos: cozinheiro, lavadeira, criados, serventes, pastores, mulheres, garotos. Os mais pequenos escondiam-se agarrados aos panos das mães, assustados; as mulheres juntavam as mãos junto ao rosto como quem reza ou tapavam a boca com uma das mãos, segurando no outro braço o filho de colo; os homens comentavam:

– O’ngando inê...ê...êne!

– Haaca!

– Hum...hu. Avôiô...ô...!

Meu pai sorria, satisfeito, a língua a brincar com o capim seco na boca, de botas altas, enlameadas, rosto afogueado, cabelo colado à testa. Tinha chovido muito nos últimos dias e o rio transbordava, via-se de casa. Havia um tipo de veados que meu pai caçava – chissóvio – que habitavam os capinzais da beira-rio e raramente apareciam, saindo apenas durante as cheias, quando o nível das águas os forçava, e por isso meu pai descera. A sua carne era muito macia, de gosto agradável, e a pele de tom castanho-dourado, com leves riscas brancas no dorso, era sempre aproveitada: depois de salgada e seca ao sol, bem esticada, depois raspada com uma pedra para a amaciar, servia então para atapetar os quartos da casa.

Não era todos os dias que aparecia um crocodilo descuidado nas margens das lagoas de águas turvas que ladeavam o rio. Fora um acaso encontrá-lo e acertar-lhe no ponto certo para o imobilizar de imediato para que não pudesse deslizar para a água. Vezes sem conta os vi dentro do rio, boiando como um tronco pequeno onde se distinguiam apenas os olhos, mas atirar-lhes estava fora de questão, nunca poderiam ser retirados. Foi um dia de festa para todos, pois era muito apreciada a carne branca do réptil. Para nós, ficou a recordação de um cheiro pestilento e nauseabundo, que durante três dias empestou tudo em redor. E a pele.

É verdade, tenho de não me esquecer de estender esta ao sol, agora que está calor. É que no Inverno há demasiada humidade e pode encher-se de bolor. Há que preservá-la, afinal veio comigo de Angola num caixote, salgada, para ser curtida numa casa ali à Praça da Figueira, em Lisboa, vai para 40 anos…

Veio, foi, voltou. E aqui está intacta. Desafiando tudo. Enrolando tudo o que sobra das vidas que ficaram, no seu rolo escuro dentro do papel pardo, no armário húmido.

(segue)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO


1ª Parte – Capítulo VII


Demorou pouco, porém o suficiente para começar a sentir-se incomodado fisicamente. Logo o assistente, de jeito afável e solícito, o ajudou a levantar para regressar ao cubículo onde tinha deixado a sua roupa. Esperou ainda algum tempo e logo a seguir o outro exame, menos confrangedor.

Já na recepção, foi informado de que os resultados da ecografia e da TAC só estariam prontos na semana seguinte. Teria ainda de vir em jejum retirar sangue para análises diversas. Outra coisa que o constrangia, sem compreender como não tinham ainda inventado uma forma menos mórbida de fazer essa extracção. Claro que é uma questão de somenos, sangue é vida, deveria ser olhado naturalmente, mas não era o único – sabia-o – para quem a visão do líquido pastoso e vermelho fervilha no cérebro mais no sentido da morte. Depois era sempre uma agulha enorme, uma seringa amplíssima, só de pensar naquele instrumento a perfurar a pele provocava-lhe arrepios, quando não lhe dava a volta ao estômago.

Amanhã não podia ser, era dia de reuniões; logo a primeira, reunião geral às nove, nunca se sabe a que horas termina, nem pensar, talvez no dia a seguir. Anotou as datas na sua agenda de trabalho.

Entrou no carro e, distraidamente, ligou o rádio. Pensou aproveitar e passar no supermercado, há sempre alguma coisa a comprar, mas a música que ouvia agradou-lhe e resolveu escolher o caminho mais longo para chegar a casa, conduzindo brandamente. Felizmente havia já boa música portuguesa. Alguns grupos dedicavam-se à pesquisa e recriação de dizeres e cantares de antanho e o resultado era admirável. Não sabia os nomes nem se preocupava em identificá-los; aquela voz feminina era vibrante e de timbre melodioso a sobressair dos sons de cordas e tímbalos bem cadenciados. Era leigo na matéria, mas sabia ouvir com a alma.

Continuou em direcção a casa, deixando as compras para outra altura. Queria mesmo não pensar em nada, ser capaz de parar o rio dos pensamentos que lhe povoavam as entranhas. Tinha trabalho a fazer para a escola, que o Verão chegava ao termo e a preparação do novo ano lectivo já começara. Organizava um guia do professor, tentando colmatar algumas falhas que se repetiam ano após ano com o desconhecimento das normas da instituição pelos novos professores que sempre chegavam; calendarizava as semanas e dias de cada período, reunia materiais e programas para as planificações habituais, preparava já os testes de diagnóstico. Este ano não entrava na comissão de horários, sentia-se demasiado cansado para conseguir a concentração necessária para essa tarefa. Lá ia o tempo em que, com verdadeiro afã, preparava a chegada dos novos elementos vindos de outras escolas. Um piquenique na Serra, na Fonte Mariana, nos Olhos d’Água, almoço num restaurante, raras vezes. A seguir, um passeio pelos lugares à volta, donde provinham as crianças normalmente mais carenciadas, que necessitavam de maior apoio, quer a nível pedagógico, quer económico, e nem sempre bem referenciado. Havia que estar atento e o conhecimento dos locais de origem das crianças pelos professores e, principalmente, pelos directores de turma, era fundamental na detecção de falhas nas crianças. Quantas tinham de levantar-se de madrugada para apanhar o autocarro e estar a horas do primeiro tempo na escola, muitas vezes sem pequeno-almoço tomado, sonolentas de uma noite mal dormida, mal aquecida, sem a higiene devida.

Deu o sinal horário na Antena 1 e o noticiário abriu com uma série de dislates proferidos pelo Senhor da Ilhas. Sem lhe discutir o conteúdo, mas a forma, e apenas a forma, como educador, aquilo pareceu-lhe mentira; não podia ser verdade o que os seus ouvidos escutavam. Num repente sentiu o vazio da sua profissão, ali pôs em causa todo um percurso de vida. Ser professor não era para ele mera profissão, era entregar-se por inteiro, mostrar-se tal como sentia, como o baobá daquele conto africano que gostava de ler aos seus alunos. Era ensiná-los a viver, a colher, a ser, como o lebrão, alegres e irreverentes e curiosos e espantados e sinceros e doces e carinhosos e caridosos e também perspicazes para conhecer as hienas... ser professor era ser exemplo na hombridade e no carácter, era ser rei. E ser rei era ter sangue vermelho nas veias, era lutar na frente de combate, era ser respeitado porque mais experiente, mais sabedor, mais compreensivo e também humilde para ouvir os outros, mas com força para impor a lei.

Hoje as leis não se cumprem porque as há em excesso e a quantidade reduz a qualidade; depois, perde-se demasiado tempo a escrever sobre elas. Pouco se faz por intuição, por vocação, por amor. Tudo é obrigação, tudo é contabilizado para ser pago. Foi-se o tempo da permuta, da troca de bens, tudo se vende por dinheiro. Mesmo os sacerdotes têm ordenado para dizer missa, que não para encaminhar as almas que os não procuram já. Assim se cumpre o segundo milénio de cristianismo que já não tem lugar porque se perdeu na bruma do progresso que tudo altera, qual a humidade que penetra nos ossos e nas máquinas ali criando a ferrugem que mina e destrói.

Circulava em via de tolerância zero, que ele já desrespeitava com o ponteiro a ultrapassar os noventa, e os carros que vinham atrás passavam e zarpavam, desaparecendo a breve espaço. Nas auto-estradas quem respeita o limite? Ninguém, e ninguém é punido por isso. Passam as motos a velocidades estonteantes, ziguezagueando por entre os carros; passa o ministro, passa porque tem pressa, os guardadores da lei abrem caminho. Passa porque é ministro, passa porque tem trabalho, passa porque tem de chegar a tempo, passa e não respeita a lei. Aprova a lei mas para os outros, que ele está acima das que propõe e aprova. Para os outros.

Accionou o pisca-pisca e saiu da estrada principal, virou no meio de pinheiros e mimosas, um eucaliptal a seguir. Extenso, fundo, quase a lembrar os que davam apoio ao CFB na sua terra, relativamente, claro, mas doía-lhe ver tudo cercado de eucalipto, a minar a terra e os lençóis de água deste país ameno, cobrindo os campos outrora território de pinheiros. Os fogos chegam mais facilmente, trepando das ervas pelos troncos secos e folhosos do eucalipto, cedo atingindo os cumes e logo propagados num ápice. Será que ninguém entendia isto? Governos atrás de governos, de centro direita e de centro esquerda, nenhum tocava no óbvio, era difícil prescindir do reverter de milhões das companhias de celulose.

Um pouco mais e estava em casa. Entrou na garagem vazia, sinal de que estaria só por algum tempo. Sentia-se cansado, muito cansado e soube-lhe bem o silêncio. Subiu as escadas e a cada degrau as têmporas doíam mais forte; a respiração longa e compassada deixava sentir o sangue em sobressalto correndo desvairado dentro de si. Precisava parar, não pensar, não sentir, não ouvir-se. Tomou um ansiolítico com um copo de leite quente e estirou-se no sofá.

(segue)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO


1ª Parte – Capítulo VI

Estou agora a ler a Agustina, a quinta-essência da escrita: olhos gulosos de outros relatos, ambiência vivida, espírito sabedor, prosa forte, concisa, de português nobre. A obra é produto de um trabalho aturado, preciso, organizado. Eu, escrevedor de linhas para expurgar angústias, sopro no vento o meu xangrilá. Os meus dedos tocam as teclas por todos os sonhos e por todos os silêncios, por toda a saudade também, e neles afloram os espíritos dos meus mortos porque eu já sou eles.

Ler Agustina é lembrar que o mistério do Oriente pairou na casa de meus pais com o nome carinhoso que a família sempre deu a meu pai – o tio Chinês – e a minha irmã que, como ele, tinha os olhos ligeiramente oblíquos e salientes, a Chinesa – a Fu-Ling-Chu, para os momentos de arrelia. A magia chegava pelos objectos que decoravam a casa, das arcas de madeira esculpida outras incrustadas a madrepérola, ao bar gravado com dragões e pagodes e homens e pássaros estranhos, nas paredes do escritório os quadros alongados e estreitos de largo passepartout azul, com paisagens elaboradas a folha de cortiça, as chávenas de porcelana finíssima decorados a moedas estranhas, com uma chinesa no fundo quando olhadas à transparência.

No escritório havia dois grandes livros encadernados a vermelho sobre a história da China, e as ilustrações de um elegante Buda dourado e sério, de pernas traçadas, os pássaros, os dragões, aquela estrada larga sobre a Muralha, encantaram os meus olhos de menino. Os dedos tacteavam o ouro das letras na capa, deslizavam por sobre o papel brilhante como para sentir pelo tacto a verdade daquilo que me parecia tão fabuloso. Onde moravam os dragões? Era verdade que lançavam chamas pelas ventas? Tudo tão irreal como as histórias de um outro grande livro que, como os anteriores, só raramente podíamos desfolhar, sentados no colo de quem nos contava o que diziam as letras que ainda não sabíamos ler. Este era encadernado a verde, tinha por título «A Mitologia» e estava no escritório ao lado de dois outros volumes idênticos sobre a Grande Guerra. O Rapto das Sabinas, a Hidra de Lerna, o Velo de Oiro, Hércules e a Serpente, o Labirinto, o Fio de Ariadne, tudo fazia ferver a imaginação que os anos derreteram, como o sol fundiu a cera das asas de Ícaro.

Mas era o grande Buda – tarde soube ser apenas representação de um monge budista, um dos sete deuses da sorte – esculpido em madeira escura, na estante do escritório, de pé, com os braços erguidos e expressão risonha, que deliciava os meus olhos; ele simbolizava o meu pai, ainda hoje evoca em mim lembranças que não se apagam.

Escrever é agora a esperança que me resta, quando já tudo fenece, quando o sol se deita, quando a lua não brilha e as estrelas se apagam. Só a escrita como refúgio quando há paz e tudo está quieto. Porque é preciso tranquilidade para deixar que os nossos dedos falem o que lhes vai na alma, quietude para dizer da exaltação da vida, para transmitir ao mundo algo de apaziguador de todas as tragédias, de todas as angústias, de todos os medos, opressões, desesperos, violência. Porque é preciso esquecer, calar, afagar o soluço, a vaga que às vezes sobe e se agiganta mais e mais.

(segue)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO


1ª Parte – Capítulo V

Um lustro passado, depois outro e vários mais, não voltara a ouvir ninguém rir como seu pai. Gargalhadas sãs, de quem está de bem consigo e com a vida que é para ser levada sem mágoas, como a água límpida que corre sobre os seixos e os contorna e alisa, com decisão, com transparência e alegria.

Era vê-lo de conversa com os pastores em cada fim de dia, levando o sal que distribuía com uma grande colher de madeira ao longo do estreito atalho de conduzia ao rio, abaixo da casa. Bordão na mão, tocava de leve este ou aquele animal, afastando-lhe os chifres para passar, apontando um ou outro para separar, aquela porque está prenhe, este para castrar, aquele negro e mocho, de saliência no alto da cabeça, para manter e apurar a raça. No meio de cada tarefa de cavador ou servente, a sua chegada era recebida com agrado, conversa solta que ele não entendia, mas que breve suscitava ruídos de prazer que nunca soube imitar: gargalhadas de criança grande que dobra o riso e faz sorrir quem presencia.

Na sua mente cansada, perpassavam episódios que gostaria de reviver ali. No tempo do cacimbo, lá para os finais da colheita, acontecia aparecer um Sècuulo, velho idoso e muito respeitado, de longas barbas muito brancas, que só esporadicamente saía de casa. Eram-lhe prestadas certas deferências e, nesse dia, as conversas eram sempre mais moderadas, com cumprimentos efusivos e respeitosos. Seu pai conversava alegremente com ele, entre palmas e risos, pois as recordações de episódios passados em comum sucediam-se e era do agrado de todos que os partilhassem. Cultivava-se o prazer da conversa e o diálogo entre os dois velhos era escutado com devoção pelos presentes.

Portugal não sabe rir, é a fome, dizia seu pai. Mas agora não é a fome, é porque fica bem, porque assim devem ser os europeus. As pessoas devem ser contidas, severas no gesto, que o riso é alvar, é próprio dos tolos ou de quem está embriagado. Apenas sorrir é conveniente. Dixit.

Também ele já perdera a alegria. Chegou a sua vez no atendimento e felizmente alguém afável e eficiente consegue mesmo que aproveite o dia considerado perdido. Havia uma desistência e, entre telefonar e convocar quem não estava presente, cedeu-lhe a oportunidade. Para ele foi duplamente benéfico: primeiro, por não ter de voltar à policlínica e não ter de pensar mais nos exames médicos que tanto o contrariavam; segundo, porque dispunha de cada vez menos tempo para o seu trabalho que via amontoar-se em papéis e responsabilidades, tendo a perfeita noção de dia a dia se ver mais incapaz de assumir e concretizar. Há muito tempo, há demasiado tempo vinha acordando cansado, preocupado, inquieto e vazio. Tinha sempre de preparar aulas, matérias e testes, apressar a correcção dos que haviam sido feitos e nem sentia a cabeça, completamente oca, como se houvesse sido esvaziada, incapaz de coordenar o que quer que fosse. Fazia um esforço inumano para se levantar, ele que saltava da cama ainda há pouco, pronto a desafiar o mundo, no entusiasmo de viver cada dia contagiando os outros do seu prazer no trabalho, transmitindo a força que nem sempre sentia, mas passando-a, embora.

Levaram-no a um espaço exíguo para que se despisse e colocasse uma espécie de bata, tarefa que efectuou pausadamente. Sem grande demora, passou a uma sala relativamente grande e vazia, toda branca, branca como o que via agora dentro de si, roda de cores deslizando qual ventoinha tocada por vento forte, rodando, rodando e perdendo a coloração na velocidade. Ao fundo mal viu o que lhe pareceu um forno crematório. Foi convidado a deitar-se numa maca e na horizontal o conduziram para o túnel que a sua mente logo classificou de impróprio, desconfortável e deprimente. Cerrou os olhos com muita força.

(segue)


segunda-feira, 21 de julho de 2008

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO


1ª Parte – Capítulo IV


Quatro portas de madeira se abriam para o exterior da loja, nas duas paredes perpendiculares que ficavam fora do balcão. Grossas trancas de madeira as protegiam por dentro e quantas vezes, tarde da noite, eu ia, pequenito, de candeeiro na mão, alumiar o caminho para meu pai trancar as portas. Habitualmente só duas se abriam, uma do lado poente, outra do lado do rio, ficando aí outra sempre fechada. Só o cacimbo, com o sol ardente, sem chuva, trazia a força necessária para que todas as portas estivessem abertas desde a madrugada.

Era o tempo do milho. Grãos amarelinhos, macios ao tacto, aquecidos, deslizantes. Nos anos de abundância, o movimento era de tal ordem que não havia tempo de guardar o cereal que chegava às arrobas em quindas enormes trazidas à cabeça das mulheres ou em sacas em cima de um tronco enorme bifurcado, puxado por bois. Eram então colocadas tábuas de madeira a barrar a porta de entrada do armazém até meia altura e tudo era despejado directamente para o chão batido. Lá para Junho, Julho, já o milho aparecia à altura das tábuas e nós aguardávamos, ansiosos, o fim de tarde para a brincadeira no monte de grãos frescos, com a euforia própria da idade que nos deixava o corpo e cabelo cobertos de escamas.

Mas o que mais gostava era de acordar de manhã ao som da cantilena dos serventes na faina do tratamento do cereal. De quando em quando uma gargalhada vibrante, acompanhada de outras mais, de risos em coro: as graças de meu pai por entre a faina. Era sinal de vida, de alegria, de bulício, lugares novos para jogar às escondidas com a irmã, com os amigos que sempre trazíamos em tempo de férias.

Havia um trabalho de equipa. A duna de milho descia da porta de comunicação entre a loja e o armazém, que tinha o tapume de madeira, até à grande porta dos fundos que dava para norte, também para o rio lá em baixo. Aí era colocada a tarara, que iniciava o seu trabalho de manhãzinha e só descansava pelas cinco ou seis da tarde. A faina consistia em encher sacos com o milho amontoado, sacos esses que dois transportadores levantavam, segurando um de cada lado, com uma mão em cada ponta de baixo, e que deixavam tombar a parte superior sobre os outros dois braços livres entrelaçados, fazendo uma espécie de cadeirinha para aquele peso imenso. Iniciava-se então aquele soar... hing- hang ... hing-hang... hing-hang... que se prolongava por todo o dia. Uns levavam os sacos para a tarara, outros carregavam-nos com o milho já tareado para a balança e depois para o fundo do armazém onde eram alinhados e cosidos com fio de sisal enfiado numas agulhas enormes de cerca de um palmo, escuras e achatadas na ponta em que se enfiava o barbante.

Eu era fascinado pela conversa em surdina misturada com o barulho da máquina, os sons que não decifrava mas que me foram familiares desde que me lembro de mim. Havia sempre quem lhe facultasse uma daquelas agulhas enormes escuras para tentar coser também uma saca e uma mão amiga guiando a minha. Por pouco tempo embora, que era o tempo dos pássaros, de aprontar a fisga, de ir ver dos ninhos.

A culpa veio depois, no tempo da primeira comunhão, na capela do Colégio das Madres, na espera pela primeira confissão com a pergunta à minha irmã: também tenho de dizer que costumo matar passarinhos?

(segue)

terça-feira, 15 de julho de 2008

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO

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1ª Parte – Capítulo III


Que há valores, sabia-o bem. Mas valores, outros valores. Que valores? Valores são sonhos. Sonhos são fantasia, falsidade, logro. Têm uma conotação aliciante, aprazível, porque é algo que se deseja e só se anseia pelo que nos parece bom. Concretizam-se sonhos? Não. Nunca. Um sonho nunca deixa de o ser porque consiste num devaneio, numa ficção, porque é etéreo, porque não existe. Ainda. Quando acontece, acaba. E nunca é idêntico. Só serve para nos guiar e para nos fazer suportar a existência. O sonho é o tempo do devir e o tempo não existe. O tempo, somos nós. O tempo é a vida que passa. A vida não permanece. É. Passa. Flui. Quando se olha para ela, já acabou.

Revisitando a sua terra, cinquenta anos depois de África, seu pai viera mostrar aos filhos a herança dos avós que deixara intacta no final da Primeira Guerra, quando fizera as partilhas antes de abalar para responder à chamada dos irmãos mais velhos. A sua parte ficara à guarda da única irmã que permanecera na terra, já mãe de alguns filhos e doutros mais que viriam; terras de cultivo e olivais, para os ajudar a criar. Mas os pinheiros, ninguém lhes tinha tocado, nunca haviam sido resinados. A confirmação deste facto era-lhe sucessivamente assegurada após as viagens «de graciosa» de familiares. Em Vale de Cerejeira e nos Castanheirinhos, deixara-os já da altura de uma casa, agora, o abraço de um homem não chegaria para os contornar. E abria os braços desvanecido, enquanto acrescentava que, na Metrópole, os pais cortam os pinheiros que recebem de herança para construírem o seu início de vida, e logo plantam novos para que os filhos por sua vez os cortem e replantem de novo. Um corte de pinhal em cada geração, pois. Para os seus, porém, guardara ele orgulhosamente os dos avós: altos, vetustos, incólumes...

Só que a realidade foi diferente, e quando se deparou com ela, a certeza bateu forte. Resinados ano após ano, eventualmente replantados, haviam crescido esguios e frágeis. Cinquenta anos de ausência fora demasiado tempo e aqueles cortes na casca até bem alto, sentiu-os no coração já cansado de muitas labutas. Depois, ver sua irmã extremosa envelhecida, mais do que isso, velha e mirrada, descalça, já sem grande tino, foi outro choque. Aquela menina única que sua mãe não queria no campo, aquela irmã que o embalara e de quem se sentira sempre o irmão preferido, aquela irmã que se encheu de filhos, mais do que poderia manter a sua dignidade de mulher… por isso mergulhara na herança de seu irmão, que outros forçaram a que pensasse não voltar a ver, por isso deixou lancetar a carne dos pinheiros, deixou escorrer deles a seiva que era o sangue do seu menino de outros tempos. Só que ela não o sabia.

Ele também não questionou. Só desejou regressar rapidamente à sua terra, a terra de adopção que escolhera como sua, mas nem teve forças para chegar a casa. Oito dias no «Infante» a olhar as ondas da vida nas madrugadas na proa, o coração quieto ou em intenso pulsar, as cartas escritas com a alma a desfalecer, assim aportou à baía de Luanda. Mas já não conseguiu subir ao planalto.

Quisera viver um último sonho, e mal abriu os olhos, a vida parou.

(segue)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO

1ª Parte – Capítulo II


O sonho de uma noite é por vezes tão real na madrugada chuvosa que daria um daqueles quadros surrealistas o seu relato. Gravar não é preciso, iria sobrecarregar o disco rígido com memória já tão pesada. Só aumentando os RAM. Mas o tempo agora é de repouso, há que digerir e arrumar os ficheiros.

O gorgolejar da gasolina a entornar pelo funil largo – escoando de um garrafão guardado há meses ad hoc – ainda ressoa nas minhas noites, o sangue ainda circula mais quente e os músculos ainda traem a firmeza das mãos. O abraço longo e cheio de lágrimas à Sofia, a mulher leal que connosco partilhara os anos da criação dos filhos e as também últimas recomendações: os muitos envelopes selados com a direcção da aldeia natal, escreva, vá dando notícias… venha ao menos ver a casa… se venho eles matam-me, senhor, tenho de fugir, ir no mato…!

Já a caminho do aeroporto, deixadas as ruas largas de moradias abandonadas, algumas marcadas já de guerra com furos de balas nas paredes, jardins sem dono, queimados pelo longo cacimbo que mal chegara ao fim, a obstrução súbita da viagem por homens de fato camuflado, armados de G-3. Olhos baços e ensanguentados no rosto escuro, adiante a metralhadora feita braço a ordenar a saída do carro, o remexer na mala traseira, o terror estampado nos rostos das crianças afundadas no banco de trás, os próprios movimentos mecânicos, de reacção contida, o ar sem entrar nos pulmões, parado o sangue, muda a voz, o agora, o sempre, o nunca mais…

A palidez veio em seguida, esgotadas as forças, já com o carro estacionado a esmo, entre tantos outros no meio do capim circundante ao exterior da aerogare, antes de retirar os trinta e cinco quilos a que cada um tinha direito ao entrar no avião. De toda uma vida, trinta e cinco quilos. De quê? Agasalhos para o Inverno europeu, os livros de cabeceira, os discos da mocidade, o tractor do garoto, o chorão da filha, as pratas herdadas, os álbuns das fotos, das crianças, dos meus cinco anos de tropa, da minha infância... o que é mais importante? O que vai ser importante? Que futuro? Que força vai ser necessária para o equilíbrio de todos nós?

O aeroporto é um mar de gente. O chão de cimento coberto de caixas, malas, grades, colchões, crianças dormindo, pessoas estiradas, novos, velhos, doentes, sãos, todos cansados, despenteados, desordenados, desnorteados, refugiados vindos de Malange, fugidos à guerra. Outros encheram já os hospitais, as escolas primárias, o liceu Norton de Matos, a industrial Sarmento Rodrigues, a preparatória Gentil Martins. Alguns tiveram tempo de trazer os seus animais, pássaros, gatos, cães enormes em caixotes pregados, prontos a embarcar. Embarcar? Não sei. O nosso voo seria dentro de poucos minutos.

Finalmente a caminho para a entrada do avião da ponte aérea, horas mais tarde, a mulher à frente com o pequeno mais novo pela mão, na outra o saco, seguíamos em fila. Entre nós, de repente, uma corda quebrou o cordão humano. A nossa filha, oito anos de desvelos, ternuras, esperanças, com a mão livre agarrou a corda, a outra apertando a minha, e aterrada gritou MÃE! «Vai no próximo. Sai outro avião dentro de meia hora.» NÃO! A menina passou, tão breve o susto que não chegou a marcar.

Eu segui depois, encontrámo-nos no aeroporto em Lisboa, cada um a trocar cinco contos de réis em dinheiro da metrópole. As crianças não tinham direito sequer a esses valores.

(segue)


sexta-feira, 4 de julho de 2008

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO

1ª Parte – Capítulo I


A relva lisa e fresca, cortada rente, dava pouco refúgio para os insectos que uma arvéloa clara e fusiforme procurava para seu repasto. O dia estava claro e frio, a neblina da manhã mal disfarçava ainda o orvalho da noite e o velho, quase velho de corpo, quase jovem de espírito, olhava-a através dos quadrados da janela ovalada da clínica, reparando na inusitada presença daquela ave em reino de pardais. Desde que chegara de África, há quase trinta anos, fora a pouco e pouco perdendo a lembrança dos nomes dos pássaros da sua infância que povoavam os quintais de Angola: anduas, sacanjuères, catuituis, bicos-de-lacre, peitos-celeste, bigodes, andorinhas e morcegos ao entardecer. Mas o que recordava agora era que seu pai de adopção dizia que aqui também havia andorinhas. Que fugiam no Inverno do frio inóspito do hemisfério norte, para o lugar donde soprava o Suão que lhes dava alento, mas chegavam em todas as primaveras, mal acordavam os campos em pétalas rasteiras guardando nelas a cor do sol, mal brotavam dos ramos secos das árvores as primeiras flores, a prometer o fragrância, o deleite das primeiras frutas de Maio. Voltando às andorinhas, ele mal as via, salvo uma ou outra, aqui e além. Quando construíra a sua casa, tinha pensado em não deixar que elas lhe povoassem os beirais e que iria impedi-las logo aos primeiros indícios de construção dos ninhos, mas... qual quê, nem uma única se tinha dignado tentar a sorte. Melhor para si. Já lá iam primaveras, outros tantos verões e invernos, tinha até esquecido a inútil preocupação.

Com a idade, a reforma à porta, os filhos longe, iniciando caminhos, sentido inteiramente cumprido o lema paterno de dar-lhes em educação e instrução sempre algo mais do que havia recebido, esperava a chamada final, ao lado da companheira de sonhos e desesperos, de credos e vida. Que fosse breve para ambos, de preferência sem sofrimento. Afinal a vida não os tinha poupado, que os poupasse a morte.

Pelo interfone, uma voz chamou pelo seu nome e ele interrompeu os pensamentos, descendo à terra. Pôs os pés no chão: voltou a escutar o burburinho dos lamentos e queixumes das dores de cada um, as conversas sobre exames feitos, o recitar nomes de medicamentos já conhecidos e experimentados, as conversas íntimas. Bateu de leve à porta e entrou no quarto pequeno onde apenas cabia uma secretária, atrás um pequeno armário, o médico sentado que mal o olhou, apenas respondendo à saudação e apontando a cadeira em frente. Foi breve a consulta, ninguém quer saber da dor dos outros, e dos velhos, então!

Ele só queria aliviar um pouco aquelas noites de invernia, em que os ossos mordiam devagarinho e espantavam Morfeu; e bem precisava de entregar-se naqueles braços para esquecer, só para esquecer. Depressão deveria ser o que sentia, realmente. Tanta coisa para fazer no mundo, coisas bonitas, coisas boas, coisas úteis, um espírito por vezes tão lúcido que doía. Só que o físico não acompanhava, que tristeza o corpo envelhecer... Quem sabe, um dia ainda voltava à sua terra.

– Hades dizer à tua mãe que nã te corte o cabelo tã curto...

– Parece uma cria abandonada, desses ciganos dum raio...

– Não amandes a bola ao chão, criatura!

Escutar o português da terra de seus pais, o linguajar que corresponde ao comum dos mortais afinal, despertava-lhe sensações estranhas que não conseguia coligir. Como arrumar dentro de si, a um tempo orgulho e humildade, desprezo e solicitude, mágoa e bem-aventurança?

O tempo dele passara. Tinha cumprido a vida. Era a hora de dar lugar aos novos, como dizia seu pai, o único pai que conhecera e amara. Tarde soube que não era o biopai, mas que interessava? Os valores, a referência, fora ele, o seu padrinho de baptismo que o aceitara como filho, aos sete meses de idade. Sentia agora as suas mãos enormes, de palma aberta a apertar a sua cabecita – que idade teria? – levantando-o por detrás enquanto cantava: tin...tin...tin...telhão!

Por vezes as saudades incendiavam-no. Como aquele cheiro de queimada que lhe enchia as narinas e o chamava para a caçada. Como o capim que ardia nas margens do rio quieto e traiçoeiro no ardor do cacimbo africano. Como o sol torrava o corpo na ilha quando pescava sobre as rochas e o empurrava a mergulhar nas vagas. Como as lágrimas doíam no morno escondido das pálpebras. Não fora a mulher e a dependência da reforma miserável que o esperava aqui, já teria regressado.

Regressar é sempre uma palavra difícil. Longa e difícil. Talvez depois, quando acabasse de vez o encantamento de ainda sentir a vida, fosse mais fácil o regresso. Não praticava qualquer religião, e morrer seria apenas repousar, nada mais do que isso. Repouso pressupõe bem-estar, tranquilidade, regresso ao limbo, o que no imaginário de cada um corresponde à imersão no líquido amniótico materno. O seu limbo seria a terra onde nascera. Por outro lado, sessenta anos é só pouco mais de metade da vida, neste início de século. Só que a globalização do planeta entregou ao novo milénio o vírus do vil metal, que outros antes citaram sem conhecerem a enormidade dessa vileza.

É preciso a morte para se dar sentido à vida e morrem poucos, poucos nascendo, devendo nascer e morrer muitos. Esta inversão que o Homem provoca é o cancro do planeta, ele é a célula a abater. Neste final de milénio ocorre-lhe lembrar o desejo atávico do ser humano de encontrar qualquer elixir maravilhoso que o faça viver para sempre. Não é que já vão surgindo, nas séries de ficção científica que proliferam na televisão, situações em que seres humanos, mareantes eternos do cosmos, aspiram à suprema ventura de deixar de existir? Que bom pensar na educação do terceiro milénio com uma amplitude a ultrapassar as questões obsessivas actuais dos jovens e da sexualidade, avançar sem medo nem tabus para a certeza da mortalidade, preparando ao longo da vida essa última fase de vivência, com respeito, com amor, com liberdade até de decidir consciente e serenamente a sua interrupção, se for esse o caso, conferindo a dignidade devida a todo o ser humano.

Com a prescrição do médico na mão, chegou finalmente a sua vez no balcão de atendimento para aposição de carimbos e selos.

– Você tem que substituir este cartão, ou não sabe disso?

Sabia, realmente, só que não tinha tido ainda oportunidade e não lhe parecera tão urgente. Falou firme, mas com delicadeza:

– Se não visse inconveniente, eu tratava disso hoje, uma vez que estou aqui...

– Vocêses são todos iguais. Nunca têm tempo, depois a gente aqui é que temos que estar sempre prontos!

Era uma mulher jovem ainda, de rosto macilento, ruga funda entre os sobrolhos, cabelo escorrido em desalinho. Sem um olhar, sem ver, sem o esboço de um sorriso, fechada a alma, de parede erguida conta o mundo. Deu-lhe pena tanta amargura. Falta de amor, afazeres por cumprir, dificuldades, salários injustos...?

O ar da rua provocou-lhe um arrepio no corpo. Entrou no carro e rumou à policlínica para marcar os exames. Preparou-se para nova espera.

(segue)