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DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
VOLTAIRE: TRÊS RELAÇÕES POUCO CONHECIDAS
A historiadora Suzanne Chantal no seu livro A Vida em Portugal no Tempo do Terramoto informa-nos que Voltaire (Paris, 21.11.1694-ibid. 30.5.1778) era muito conhecido em Portugal, como por exemplo, quando afirma: «Em Valença do Minho lia-se Voltaire, Hobbes, Rousseau (…)» (1), ou ainda, de um modo mais lato, «[Em Portugal] As pessoas blasonavam de lerem Voltaire, de citarem Rousseau.» (2). Assim, gostaríamos de citar dois factos pouco conhecidos, que envolvem o nome de três mulheres, duas portuguesas e uma francesa.
Comecemos por Cecília Rosa de Aguiar, considerada a maior actriz portuguesa do séc. XVIII. Nascida na freguesia de Nª Sra. da Anunciada, em Setúbal, a 23 de Agosto de 1746, estrear-se ia no palco do famoso teatro do Bairro Ato, em Lisboa, com a tragédia de Nicolau Luz, intitulada Inês de Castro.
É curioso assinalar que, Cecília pertencia a uma família de artistas, de onde se destacam as suas irmãs, Isabel Efigénia de Aguiar, também actriz, e a célebre cantora lírica, Luísa Todi (Setúbal 9.1.1753 – Lisboa 1.10.1833), conhecida nos grandes palcos europeus.
A relação de Cecília Rosa de Aguiar com Voltaire, provém do facto de, serem duas peças deste último – Alzira e Zaira -, que a consagraram como a maior actriz portuguesa do séc. XVIII. Se esta relação tem grande curiosidade, sobretudo para o intercâmbio entre as culturas portuguesa e francesa no séc. XVIII, pensamos que a próxima é também interessante, não só atendendo aos mesmos parâmetros, mas, sobretudo, para reconhecer a influência da epistolografia portuguesa na literatura europeia dos séculos XVII e XVIII.
Falemos, então, da segunda personagem feminina que nos propomos abordar, de seu nome Mlle. Aissé (Circassia 1694 – Paris 1773), que se encontra ligada à literatura pela sua vertente de epistológrafa.
Não existe grande certeza quanto à data do seu nascimento, que parece ter ocorrido no ano de 1694, na Circassia. Filha de um chefe circassiano (povo caucásico que vive no noroeste do Cáucaso, junto do mar Negro e no norte da Turquia), a sua existência foi verdadeiramente rocambolesca a partir dos quatro anos, idade com que foi raptada por bandoleiros turcos que saquearam a casa dos seus pais. Em seguida vamos encontrar o seu paradeiro em Constantinopla, onde foi comprada pelo conde de Ferriol, na altura, embaixador francês naquela cidade, que a enviou para Paris, onde iniciou a sua educação, entregando-a aos cuidados da sua cunhada.
Anos mais tarde, destacar-se-à na corte francesa, pelos seus inúmeros atributos, de que se destacam, a beleza e a educação. Seriam, aliás, estes atributos que despertariam as atenções amorosas do regente, Filipe, duque de Orleans, às quais resistiu, dando provas de fidelidade pelo Chevalier d’Aydie, com quem se envolvera e de quem chegou a ter uma filha. É neste momento que se torna possível formular uma relação entre Mlle. Aissé e Voltaire, já que seria o grande pensador francês, em 1787, o primeiro editor das cartas incendiadas de paixão, que a referida cortesã trocou com o seu amante e com uma amiga confidente, de nome Mme. Calandrini.
Para além da relação estabelecida com Voltaire, estas cartas servirão para introduzir a terceira mulher que falámos no início destas linhas. As referidas cartas conheceram uma segunda edição, em 1846, da autoria de J.J. Ravenel, acompanhada de uma notícia de Sainte-Beuve (Boulogne-sur-Mer 23.12.1804-Paris 13.10.1869). Finalmente, em 1873, Eugéne Asse (Paris 1830-ibidem 1901), publicou em Paris, as cartas de Mlle. Aissé conjuntamente com as da célebre Soror Mariana Alcoforado(1640-1723), intitulando-se a obra Lettres du XVII et du XVIII siécle. Lettres Portugaises avec les reponses. Lettres de Mlle Aissé, suivies, etc. (Cartas dos sécs. XVII e XVIII. Cartas Portuguesas com as respostas. Cartas de Mlle. Aissé, seguidas, etc.).
Como é do conhecimento geral, Soror Mariana Alcoforado era uma freira portuguesa do convento da Conceição de Beja. Ignoram-se as razões objectivas que ligam o seu nome à obra do autor Lavergne de Guilheragues (Bordéus ?-Constantinopla 1864)que, no ano de 1669, procedeu à publicação da obra Lettres Portugaises (Cartas Portuguesas), como se se tratasse de uma tradução de cinco cartas originais portuguesas escritas pela referida freira, pelo que esta se tornou universalmente um símbolo literário do amor-paixão.
Voltando mais propriamente ao título da última edição referida, este mostra a importância decisiva que as cartas portuguesas tiveram na literatura epistolográfica dos sécs. XVII e XVIII. Por outro lado, - e era este o ponto que desejávamos acentuar -, só foi possível unir as cartas de Mlle Aissé e as atribuídas a Mariana Alcoforado, graças à edição das primeiras efectuada por Voltaire.
Notas:
1. CHANTAL, Suzanne, A Vida Quotidiana em Portugal no Tempo do Terramoto, ed. Livros do Brasil, col. A Vida Quotidiana, nº 23, Lisboa, s/d, p. 72.
2. Idem, id., pp. 196-7.
A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
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Donde vimos, para onde vamos...
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Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
VOLTAIRE, "DIÁLOGOS FILOSÓFICOS"
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DIÁLOGO TRADUZIDO DO INGLÊS
PÉRICLES, UM GREGO MODERNO, UM RUSSO
PÉRICLES[1] — Tenho algumas perguntas a fazer-vos: Minos[2] disse-me que éreis grego.
O GREGO — Minos disse-vos a verdade; eu era o muito humilde escravo da Sublime Porta[3].
PÉRICLES — Que é isso de escravo? Um grego escravo!
O GREGO — Acaso um grego pode ser outra coisa?
O RUSSO — Ele tem razão: grego e escravo é a mesma coisa.
PÉRICLES — Justos céus! Como lamento os meus pobres compatriotas!
GREGO — Não são tão lamentáveis como vós julgais; por mim, estava muito contente com a minha situação: cultivava uma leira de terra que o Pachá da Romélia tivera a bondade de me dar; era por isso que pagava tributo a Sua Alteza.
[22]PÉRICLES — Um tributo! Que palavra estranha na boca dum grego. Mas dizei‑me: em que consistia esse humilhante estigma de servidão?
O GREGO — Em abandonar uma parte do fruto do meu trabalho, o mais velho dos meus filhos e as mais belas das minhas filhas.
PÉRICLES — Covarde! Então entregáveis à escravatura vossos próprios filhos? Quem viu jamais os contemporâneos de Milcíades, de Aristides, de Temístocles...[4].
O GREGO — Eis aí uns nomes que nunca ouvi pronunciar na minha vida. Esses homens eram «bostangis», «capigi-bachis», ou pachás de três rabos?
PÉRICLES (para o russo) — Que são esses títulos ridículos e bárbaros, cujo som me escorcha os ouvidos? Estou, sem dúvida, a dirigir-me a algum grosseiro beócio ou a um espartano imbecil. (Para o grego) —Já ouvistes naturalmente falar de Péricles?
O GREGO — De Péricles? Não, nada... Ora esperai... Não é o nome de um famoso ermitão?
PÉRICLES — Que é isso de ermitão? Era a personagem mais elevada do Estado?
O GREGO — Ora! São pessoas que não têm nada que ver com o Estado, nem o Estado que ver com elas.
PÉRICLES — Como se tornou então famoso esse ermitão? Fez como eu? Travou batalhas e fez conquistas para a sua pátria? Erigiu grandes monumentos aos deuses? Fundou estabelecimentos úteis ao público? Protegeu as artes, encorajou o mérito?
[23]O GREGO — Não, o homem de que estou a falar não sabia nem ler nem escrever; habitava numa cabana onde vivia de raízes. A primeira coisa que fazia, todas as manhãs, era rasgar os ombros à chicotada: oferecia a Deus as suas flagelações, as suas vigílias, os seus jejuns e a sua ignorância.
PÉRICLES — Julgais que a reputação desse frade pode igualar a minha?
O GREGO — Certamente; todos os gregos veneram a sua memória tanto como a de qualquer outro grande homem.
PÉRICLES — O destino! Mas dizei-me: não continua a minha memória a ser venerada em Atenas, nessa cidade onde eu introduzi a magnificência e o bom gosto?
O GREGO — E pergunta a que não sei responder-vos; eu morava num lugar a que chamam Setines; é uma aldeola miserável; mas, segundo ouvi dizer, foi outrora uma cidade magnífica.
PÉRICLES — Quer dizer: é-vos tão desconhecida a famosa e soberba cidade de Atenas como os nomes de Temístocles e de Péricles; decerto vivíeis nalgum lugar subterrâneo, numa região ignorada da Grécia.
O RUSSO — Nada disso: morava mesmo em Atenas.
PÉRICLES — O quê? Vivia em Atenas e não me conhece? Nem sabe o nome dessa famosa cidade!
O RUSSO — Há milhares de homens que habitam hoje em Atenas e que o sabem tanto como ele; a cidade outrora tão opulenta e tão altiva é hoje uma vilória pobre e imunda chamada Setines.
PÉRICLES — É verdade o que me dizeis?
[24]O RUSSO — É o efeito dos estragos do tempo e das invasões dos bárbaros, mais destruidores ainda do que o tempo.
PÉRICLES — Sei muito bem que os sucessores de Alexandre[5] subjugaram a Grécia; mas Roma não lhe restituiu a liberdade? Nem ouso perguntar mais: tenho receio de vir a saber que a minha pátria recaiu na servidão.
O RUSSO — Desde esse tempo já mudou muitas vezes de senhor. Durante um certo período, a Grécia partilhou com os romanos o império do mundo, império que as duas potências juntas não puderam conservar; mas, para só falarmos da Grécia, sabereis que sofreu sucessivamente o domínio dos franceses, dos venezianos e dos turcos.
PÉRICLES — Essas três nações bárbaras são-me absolutamente desconhecidas.
O RUSSO — Vê-se bem por essas palavras que sois um grego antigo; a vossos olhos, todos os estrangeiros eram bárbaros; nem exceptuáveis os egípcios a quem devíeis as bases de todos os vossos conhecimentos. Reconheço que os turcos, outrora, só sabiam a arte de conquistar e, hoje, apenas a de conservar as suas conquistas; mas os venezianos e, sobretudo, os franceses igualaram os vossos gregos em numerosos pontos e foram-lhes superiores em muitos outros.
PÉRICLES — Bonito quadro. Mas talvez haja aí um pouco de vaidade. Dizei-me: não sois francês?
O RUSSO — Nem nada que se pareça: sou russo.
PÉRICLES — É fora de dúvida que os habitantes da terra inteira mudaram de nome depois que vivo no Eliseu; ouvi tanto falar de russos como de franceses, venezianos e turcos. No entanto, os conhecimentos que mostrais fazem-me presumir que a vossa nação é muito antiga; não será um resto desses egípcios de que dizíeis há pouco tão bonitas coisas?
[25]O RUSSO — Não é; só conheço esse povo através dos nossos historiadores; quanto à nossa nação, provém dos citas e dos sarmatas[6].
PÉRICLES — É possível que um descendente dos sarmatas e dos citas conheça melhor o que era a Grécia antiga do que um grego moderno?
O RUSSO — Só há uns cinquenta anos ouvimos falar de egípcios, gregos e sarrnatas; um dos nossos soberanos[7], que era um homem de génio, concebeu o projecto de banir a ignorância dos seus Estados; e rapidamente se desenvolveram as artes e as ciências, as academias e os espectáculos. Estudamos a história de todos os povos e a nossa história mereceu a atenção dos outros povos.
PÉRICLES — Acho que, para produzir essa espécie de metamorfoses, só é preciso que o príncipe tenha vontade e coragem; mas é mais verdade ainda que perdi o meu tempo: esperava ter tornado o meu nome imortal e vejo que já o esqueceram no meu próprio país.
O RUSSO — Dir-vos-ei, para vos consolar, que é conhecido no meu; e isto não esperáveis, vós, tenho a certeza.
[26]PÉRICLES — É certo; no entanto, não posso deixar de ter pena de que Atenas tenha esquecido tudo quanto fiz por ela. Bem, ir-me-ei consolar com Osiris, Minos, Licurgo, Sólon e com todos os legisladores e fundadores de impérios cujas acções e máximas estão, como as minhas, mergulhadas no olvido. Vejo que a ciência é um astro que só pode iluminar de cada vez uma parte do globo, mas que espalha a sua luz sucessivamente sobre cada uma delas. Cai a noite numa nação, no momento em que a aurora rompe noutra.
[1] Político ateniense do séc. V a. C. e um dos homens de Estado que mais tem feito apelo à inteligência e à generosidade dos governados.
[2] Rei lendário de Creta, depois colocado como juiz nos infernos.
[3] O governo turco, que, por essa altura, dominava a Grécia.
[4] Políticos e generais atenienses do séc. V a. C.
[5] Alexandre Magno, rei da Macedónia, depois senhor de um império que englobou a Grécia, o Egipto e grande parte do Próximo Oriente (séc. IV a. C.).
[6] Nomes que davam os gregos aos povos que habitavam regiões que fazem hoje parte da Rússia.
[7] Pedro I, tzar da Rússia, que tentou, por vezes com brutalidade, europeizar o seu país (1672-1725).
DIÁLOGO TRADUZIDO DO INGLÊS
PÉRICLES, UM GREGO MODERNO, UM RUSSO
PÉRICLES[1] — Tenho algumas perguntas a fazer-vos: Minos[2] disse-me que éreis grego.
O GREGO — Minos disse-vos a verdade; eu era o muito humilde escravo da Sublime Porta[3].
PÉRICLES — Que é isso de escravo? Um grego escravo!
O GREGO — Acaso um grego pode ser outra coisa?
O RUSSO — Ele tem razão: grego e escravo é a mesma coisa.
PÉRICLES — Justos céus! Como lamento os meus pobres compatriotas!
GREGO — Não são tão lamentáveis como vós julgais; por mim, estava muito contente com a minha situação: cultivava uma leira de terra que o Pachá da Romélia tivera a bondade de me dar; era por isso que pagava tributo a Sua Alteza.
[22]PÉRICLES — Um tributo! Que palavra estranha na boca dum grego. Mas dizei‑me: em que consistia esse humilhante estigma de servidão?
O GREGO — Em abandonar uma parte do fruto do meu trabalho, o mais velho dos meus filhos e as mais belas das minhas filhas.
PÉRICLES — Covarde! Então entregáveis à escravatura vossos próprios filhos? Quem viu jamais os contemporâneos de Milcíades, de Aristides, de Temístocles...[4].
O GREGO — Eis aí uns nomes que nunca ouvi pronunciar na minha vida. Esses homens eram «bostangis», «capigi-bachis», ou pachás de três rabos?
PÉRICLES (para o russo) — Que são esses títulos ridículos e bárbaros, cujo som me escorcha os ouvidos? Estou, sem dúvida, a dirigir-me a algum grosseiro beócio ou a um espartano imbecil. (Para o grego) —Já ouvistes naturalmente falar de Péricles?
O GREGO — De Péricles? Não, nada... Ora esperai... Não é o nome de um famoso ermitão?
PÉRICLES — Que é isso de ermitão? Era a personagem mais elevada do Estado?
O GREGO — Ora! São pessoas que não têm nada que ver com o Estado, nem o Estado que ver com elas.
PÉRICLES — Como se tornou então famoso esse ermitão? Fez como eu? Travou batalhas e fez conquistas para a sua pátria? Erigiu grandes monumentos aos deuses? Fundou estabelecimentos úteis ao público? Protegeu as artes, encorajou o mérito?
[23]O GREGO — Não, o homem de que estou a falar não sabia nem ler nem escrever; habitava numa cabana onde vivia de raízes. A primeira coisa que fazia, todas as manhãs, era rasgar os ombros à chicotada: oferecia a Deus as suas flagelações, as suas vigílias, os seus jejuns e a sua ignorância.
PÉRICLES — Julgais que a reputação desse frade pode igualar a minha?
O GREGO — Certamente; todos os gregos veneram a sua memória tanto como a de qualquer outro grande homem.
PÉRICLES — O destino! Mas dizei-me: não continua a minha memória a ser venerada em Atenas, nessa cidade onde eu introduzi a magnificência e o bom gosto?
O GREGO — E pergunta a que não sei responder-vos; eu morava num lugar a que chamam Setines; é uma aldeola miserável; mas, segundo ouvi dizer, foi outrora uma cidade magnífica.
PÉRICLES — Quer dizer: é-vos tão desconhecida a famosa e soberba cidade de Atenas como os nomes de Temístocles e de Péricles; decerto vivíeis nalgum lugar subterrâneo, numa região ignorada da Grécia.
O RUSSO — Nada disso: morava mesmo em Atenas.
PÉRICLES — O quê? Vivia em Atenas e não me conhece? Nem sabe o nome dessa famosa cidade!
O RUSSO — Há milhares de homens que habitam hoje em Atenas e que o sabem tanto como ele; a cidade outrora tão opulenta e tão altiva é hoje uma vilória pobre e imunda chamada Setines.
PÉRICLES — É verdade o que me dizeis?
[24]O RUSSO — É o efeito dos estragos do tempo e das invasões dos bárbaros, mais destruidores ainda do que o tempo.
PÉRICLES — Sei muito bem que os sucessores de Alexandre[5] subjugaram a Grécia; mas Roma não lhe restituiu a liberdade? Nem ouso perguntar mais: tenho receio de vir a saber que a minha pátria recaiu na servidão.
O RUSSO — Desde esse tempo já mudou muitas vezes de senhor. Durante um certo período, a Grécia partilhou com os romanos o império do mundo, império que as duas potências juntas não puderam conservar; mas, para só falarmos da Grécia, sabereis que sofreu sucessivamente o domínio dos franceses, dos venezianos e dos turcos.
PÉRICLES — Essas três nações bárbaras são-me absolutamente desconhecidas.
O RUSSO — Vê-se bem por essas palavras que sois um grego antigo; a vossos olhos, todos os estrangeiros eram bárbaros; nem exceptuáveis os egípcios a quem devíeis as bases de todos os vossos conhecimentos. Reconheço que os turcos, outrora, só sabiam a arte de conquistar e, hoje, apenas a de conservar as suas conquistas; mas os venezianos e, sobretudo, os franceses igualaram os vossos gregos em numerosos pontos e foram-lhes superiores em muitos outros.
PÉRICLES — Bonito quadro. Mas talvez haja aí um pouco de vaidade. Dizei-me: não sois francês?
O RUSSO — Nem nada que se pareça: sou russo.
PÉRICLES — É fora de dúvida que os habitantes da terra inteira mudaram de nome depois que vivo no Eliseu; ouvi tanto falar de russos como de franceses, venezianos e turcos. No entanto, os conhecimentos que mostrais fazem-me presumir que a vossa nação é muito antiga; não será um resto desses egípcios de que dizíeis há pouco tão bonitas coisas?
[25]O RUSSO — Não é; só conheço esse povo através dos nossos historiadores; quanto à nossa nação, provém dos citas e dos sarmatas[6].
PÉRICLES — É possível que um descendente dos sarmatas e dos citas conheça melhor o que era a Grécia antiga do que um grego moderno?
O RUSSO — Só há uns cinquenta anos ouvimos falar de egípcios, gregos e sarrnatas; um dos nossos soberanos[7], que era um homem de génio, concebeu o projecto de banir a ignorância dos seus Estados; e rapidamente se desenvolveram as artes e as ciências, as academias e os espectáculos. Estudamos a história de todos os povos e a nossa história mereceu a atenção dos outros povos.
PÉRICLES — Acho que, para produzir essa espécie de metamorfoses, só é preciso que o príncipe tenha vontade e coragem; mas é mais verdade ainda que perdi o meu tempo: esperava ter tornado o meu nome imortal e vejo que já o esqueceram no meu próprio país.
O RUSSO — Dir-vos-ei, para vos consolar, que é conhecido no meu; e isto não esperáveis, vós, tenho a certeza.
[26]PÉRICLES — É certo; no entanto, não posso deixar de ter pena de que Atenas tenha esquecido tudo quanto fiz por ela. Bem, ir-me-ei consolar com Osiris, Minos, Licurgo, Sólon e com todos os legisladores e fundadores de impérios cujas acções e máximas estão, como as minhas, mergulhadas no olvido. Vejo que a ciência é um astro que só pode iluminar de cada vez uma parte do globo, mas que espalha a sua luz sucessivamente sobre cada uma delas. Cai a noite numa nação, no momento em que a aurora rompe noutra.
[1] Político ateniense do séc. V a. C. e um dos homens de Estado que mais tem feito apelo à inteligência e à generosidade dos governados.
[2] Rei lendário de Creta, depois colocado como juiz nos infernos.
[3] O governo turco, que, por essa altura, dominava a Grécia.
[4] Políticos e generais atenienses do séc. V a. C.
[5] Alexandre Magno, rei da Macedónia, depois senhor de um império que englobou a Grécia, o Egipto e grande parte do Próximo Oriente (séc. IV a. C.).
[6] Nomes que davam os gregos aos povos que habitavam regiões que fazem hoje parte da Rússia.
[7] Pedro I, tzar da Rússia, que tentou, por vezes com brutalidade, europeizar o seu país (1672-1725).
VOLTAIRE, "DIÁLOGOS FILOSÓFICOS"
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DIÁLOGO ENTRE UM FILÓSOFO E UM MINISTRO DAS FINANÇAS
O FILÓSOFO — Sabeis vós que um ministro das finanças pode fazer mais bem, e, por consequência, ser um homem muito mais notável do que vinte marechais de França?
O MINISTRO — Bem sabia eu que algum filósofo quereria abrandar em mim a dureza que se costuma censurar no meu cargo; mas não esperava que quisesse despertar-me a vaidade.
O FILÓSOFO — A vaidade não é um vício tão grande como vós julgais. Se Luiz XIV não fosse um pouco vaidoso, o seu reinado não teria sido tão ilustre. Também o era o grande Colbert[1]; vede se tendes a vaidade de o ultrapassar. Nascestes num tempo mais favorável do que o dele; é preciso que vos eleveis com o século.
O MINISTRO — Concordo em que aqueles que cultivam uma terra fértil têm grande vantagem sobre os que primeiro a arrotearam.
[13]O FILÓSOFO — Crede que não há nada de útil que não possais fazer com facilidade. Colbert encontrou, por um lado, a administração das finanças em toda a desordem em que as guerras civis e trinta anos de rapina a tinham mergulhado; por outro lado, uma nação leviana, ignorante, escravizada a preconceitos que já tinham mil e trezentos anos de ferrugem. Não havia um homem no conselho que soubesse o que era câmbio; não havia um que soubesse o que era a proporção das moedas; não havia um que tivesse ideia do comércio. Agora as luzes correram de um a outro; a populaça continua na profunda ignorância em que a devem manter a necessidade de ganhar a vida e, se não é ousado dizê-lo, o bem do Estado[2]. Mas a classe média foi esclarecida; ora esta classe é muito importante: dirige os grandes que pensam algumas vezes e os pequenos que não pensam nunca. Aconteceu nas finanças, depois do célebre Colbert, o que aconteceu na música depois de Lulli[3]; as sinfonias de Lulli eram muito simples, mas foi-lhe difícil encontrar homens que pudessem executá-las; hoje o número de artistas capazes de executar a música mais complicada aumentou na proporção em que a arte se aperfeiçoava; passa-se o mesmo na filosofia e na administração. Colbert fez mais do que o duque de Sully[4]; é preciso fazer mais do que Colbert.
[14]A estas palavras, o ministro, vendo que o filósofo tinha alguns papéis, manifestou desejo de os ver; era um conjunto de algumas ideias que podiam dar azo a numerosas reflexões. O ministro pegou no papel e leu:
«A riqueza de um Estado consiste no número dos seus habitantes e no seu trabalho.
«O comércio não serve para tornar um Estado mais poderoso do que os seus vizinhos, senão porque dentro de um certo número de anos há guerra com esses vizinhos, exactamente como dentro de um certo número de anos há sempre uma calamidade pública. Ora, nesta calamidade da guerra, a nação mais rica vence necessariamente as outras, desde que todas as outras circunstâncias sejam iguais, porque pode comprar mais aliados e mais tropas estrangeiras. Sem a calamidade da guerra, o aumento da massa de ouro e da prata seria inútil; efectivamente, desde que haja bastante ouro e prata para a circulação, desde que a balança comercial esteja equilibrada, é evidente que nada nos falta.
«Se houver dois milhões num reino, todos os géneros e a mão de obra custarão o dobro do que custariam se apenas houvesse um milhão. Sou tão rico com cinquenta mil libras de renda, quando compro a libra de carne a quatro soldos, como com cem mil, quando a compro a oito soldos; e o mesmo para o resto. A verdadeira riqueza dum reino não está, pois, no ouro e na prata, está na abundância de todas as mercadorias, está na indústria e no trabalho. Não há muito tempo que se viu no rio da Prata um regimento espanhol cujos oficiais tinham todos espadas de ouro, mas não tinham nem camisas nem pão.
[15]«Suponho que, desde os tempos de Hugo Capeto[5], a quantidade de dinheiro não aumentou no reino, mas se aperfeiçoou a indústria, em todas as artes, umas cem vezes mais; afirmo que somos realmente cem vezes mais ricos do que na época de Hugo Capeto: porque ser rico é gozar de alguma coisa. Ora eu gozo de uma casa mais arejada, mais bem construída, mais bem distribuída do que a do próprio Hugo Capeto; cultivam-se melhor as vinhas e bebo vinho melhor; aperfeiçoaram-se as manufacturas e visto-me com tecidos mais belos; a arte de agradar ao paladar com preparados mais finos faz-me ter todos os dias refeições mais delicadas do que os festins reais de Hugo Capeto. Para se transportar duma casa para a outra quando estava doente tinha uma carreta; eu vou numa sege cómoda e agradável onde a luz me chega sem que o vento me cause desconforto. E não foi preciso que houvesse no reino mais dinheiro para suspender a tira de couro numa caixa de madeira pintada; foi preciso indústria; e assim por diante. Das mesmas pedreiras se tiraram as pedras com que se fez a casa de Hugo Capeto e aquelas de que se constroem hoje as casas de Paris. Não é preciso mais dinheiro para construir uma vil prisão do que para fazer uma casa agradável; não é mais caro plantar um jardim bem concebido do que talhar ridiculamente o buxo e fazer nele grosseiras representações de animais. Outrora apodreciam os carvalhos nas florestas; hoje utilizam-se nos soalhos; a areia deixava-se no chão: é com ela que hoje se fazem os vidros.
«Ora é seguramente rico o que goza de todas as vantagens; só a indústria as obtém. Não é, portanto, o dinheiro que enriquece um reino; é o espírito; quero dizer, o espírito que dirige o trabalho.
[16]«O comércio faz o mesmo efeito que o trabalho das mãos; contribui para a comodidade da minha vida; se eu tiver necessidade duma obra das Índias, dum produto natural que só se encontra em Ceilão ou em Ternate, essa necessidade faz-me pobre; torno‑me rico quando o comércio a satisfaz. Não eram o ouro e a pedra que me faltavam; era o café e a cevada. Mas os que viajam seis mil léguas, com risco da vida, para que eu tome café todas as manhãs, não são mais do que o supérfluo dos homens laboriosos da nação. A riqueza consiste, pois, no grande número de homens laboriosos.
«O objectivo, o dever de um governo avisado são, portanto, e com toda a evidência, a povoação do reino e o trabalho.
«Nas nossas paragens, nascem mais varões do que fêmeas; é necessário, pois, que não façam morrer estas últimas; ora é claro que é fazê-las morrer para a sociedade enterrá‑las vivas nos claustros onde se perdem para a geração presente e onde aniquilam as gerações futuras. O dinheiro que se perde a dotar conventos seria muito bem empregado a encorajar o casamento. As raparigas que deixamos mirrar nos claustros são bem comparáveis às terras que em França existem ainda incultas; é preciso cultivá-las, a umas e outras.
«Há muitas maneiras de obrigar os cultivadores a arrotear uma terra abandonada; mas há um modo seguro de prejudicar o Estado: é permitir que subsistam estes dois abusos, o de sumir as raparigas e o de deixar os campos cobertos de silvas. A esterilidade, de qualquer espécie que seja, é ou um defeito da natureza ou um atentado contra a natureza.
«O rei, que é o ecónomo da nação, dá pensões às damas da corte, e faz bem, porque é dinheiro que vai ter aos mercadores, às cabeleireiras e às bordadoras. Mas por que razão não há também pensões para o desenvolvimento da agricultura? O dinheiro voltaria na mesma ao Estado, mas com mais proveito.
[17]«Sabe-se que é um defeito do governo haver mendigos; e há-os de duas espécies: os que vão, cobertos de farrapos, dum extremo ao outro do reino arrancar dos transeuntes, com os seus gritos lastimosos, o suficiente para irem para a taberna, e os que, vestidos de fatos todos iguais, vão obrigar o povo à contribuição, em nome de Deus, e voltam a jantar em grandes casas onde vivem à vontade. A primeira destas duas espécies é menos perniciosa do que a outra, porque, de caminho, traz filhos ao Estado e, se faz ladrões, também faz pedreiros e soldados. Mas ambas causam um mal de que toda a gente se queixa e que ninguém arranca pela raiz. E bem estranho que, num reino que tem terras incultas e colónias, se sofram habitantes que nem povoam nem trabalham. O melhor regime é aquele em que há menos homens inúteis. Donde procede que houve povos que, tendo menos ouro e prata do que nós, imortalizaram a sua memória por trabalhos que nós não ousamos imitar? E evidente que a sua administração valia mais do que a nossa, visto que levava mais homens ao trabalho.
«Os impostos são necessários. A melhor maneira de os lançar é a que mais facilita o trabalho e o comércio. Um imposto arbitrário é um defeito. Só a esmola pode ser arbitrária; mas, num Estado bem governado, não deve haver lugar para a esmola. O grande Xá Abas[6], ao fundar na Pérsia tantos estabelecimentos úteis, não construiu hospitais; perguntaram-lhe a razão; replicou: «— Não quero que haja necessidade de hospitais na Pérsia».
[18]«Que é um imposto? É uma certa quantidade de trigo, de animais, de géneros que os possuidores das terras devem àqueles que as não têm; o dinheiro não é mais do que a representação destes géneros; o imposto não se lança realmente senão sobre os ricos; não se pode pedir ao pobre uma parte do pão que ele ganha e do leite que os seios da mulher dão aos filhos. Não é sobre o pobre, sobre o trabalho que se deve lançar um tributo; é preciso, fazendo-o trabalhar, dar-lhe esperança de que seja um dia bastante feliz para pagar impostos.
«Ponho que, em tempo de guerra, se paguem a mais cinquenta milhões por ano. Destes cinquenta milhões passam vinte para terra estranha; trinta são empregados na chacina de homens. E ponho que, em tempo de paz, se paguem destes cinquenta milhões vinte e cinco; nada passa para o estrangeiro: faz-se trabalhar, para o bem público, o mesmo número de cidadãos que se matavam. Desenvolvem-se os trabalhos de toda a espécie; cultivam-se os campos; embelezam-se as cidades: é-se realmente rico pagando ao Estado. Os impostos, durante a calamidade da guerra, não devem servir para nos obter as comodidades da vida; devem servir para a defender. O povo mais feliz deve ser aquele que paga mais: é incontestavelmente o mais laborioso e o mais rico.
«O papel está para o dinheiro em prata, como o dinheiro em prata está para os produtos: é uma representação, um sinal de troca. O dinheiro só é útil porque é mais fácil pagar um carneiro com um luiz de ouro do que dar por ele quatro pares de meias. Do mesmo modo, é mais fácil a um recebedor da província enviar ao tesouro real quatrocentos mil francos numa letra do que enviá-los de carro, o que fica caríssimo; um banco, uma carta de crédito são, no governo dum Estado, no comércio e na circulação, o que os guinchos são nas pedreiras: levantam os fardos que os homens não poderiam mover a braço.
[19]«Um escocês, homem útil e perigoso, estabeleceu em França o papel de crédito; era um médico que dava aos doentes uma dose de emético demasiado forte; entraram em convulsões; mas é por se ter tomado demais dum bom remédio que se deve renunciar ao seu uso? Dos destroços do seu sistema ficou uma Companhia da Índia que os estrangeiros nos invejam e que pode fazer a grandeza da nação; portanto, este sistema, contido dentro de justos limites, teria feito mais bem do que mal.
«Alterar o valor das moedas é fazer moeda falsa; lançar a público mais papel do que o permite a massa e circulação das moedas e das mercadorias é também fabricar moeda falsa.
«Proibir a saída do ouro e da prata é um resto de barbárie e de indigência; é querer, ao mesmo tempo, não pagar as dívidas e perder o comércio. Efectivamente, é não querer pagar, visto que, se a nação é devedora, é necessário que salde as suas contas com o estrangeiro; e é perder o comércio porque o ouro e a prata são não somente o preço das mercadorias, mas também mercadoria, por si próprios. A Espanha tem conservado, como outras nações, esta lei antiga que não é senão uma antiga miséria. O único recurso do governo está em que esta lei se transgride sempre.
[20]«Carregar de taxas, nos seus próprios estados, os produtos do seu país que vão de uma província à outra; tornar a Champanha inimiga da Borgonha e a Guiena da Bretanha, é também um abuso vergonhoso e ridículo. Exactamente como se eu pusesse alguns dos meus criados numa antecâmara para deter e comer uma parte do meu jantar, na altura em que mo trazem. Tem-se diligenciado corrigir este abuso, mas, para vergonha do espírito humano, ainda nada se conseguiu.»
Havia ainda outras ideias nos papéis do filósofo; o ministro apreciou-as e obteve uma cópia; e foram estes os primeiros papéis de filósofo que jamais se viram na pasta dum ministro.
[1] Ministro de Luiz XIV, notável pelo desenvolvimento que imprimiu à economia francesa (1619-1683).
[2] Não se deve esquecer que Voltaire pertenceu a uma classe média que mostrou quase sempre pelo povo um desprezo tão grande como o dos aristocratas.
[3] Músico de origem italiana, criador de ópera em Paris (1633-1687).
[4] Ministro de Henrique IV e um dos melhores administradores que a França teve (1559-1641).
[5] Chefe da dinastia francesa dos Capetos (938-996).
[6] Um dos mais notáveis reis ou xás da Pérsia (1557-1628).
DIÁLOGO ENTRE UM FILÓSOFO E UM MINISTRO DAS FINANÇAS
O FILÓSOFO — Sabeis vós que um ministro das finanças pode fazer mais bem, e, por consequência, ser um homem muito mais notável do que vinte marechais de França?
O MINISTRO — Bem sabia eu que algum filósofo quereria abrandar em mim a dureza que se costuma censurar no meu cargo; mas não esperava que quisesse despertar-me a vaidade.
O FILÓSOFO — A vaidade não é um vício tão grande como vós julgais. Se Luiz XIV não fosse um pouco vaidoso, o seu reinado não teria sido tão ilustre. Também o era o grande Colbert[1]; vede se tendes a vaidade de o ultrapassar. Nascestes num tempo mais favorável do que o dele; é preciso que vos eleveis com o século.
O MINISTRO — Concordo em que aqueles que cultivam uma terra fértil têm grande vantagem sobre os que primeiro a arrotearam.
[13]O FILÓSOFO — Crede que não há nada de útil que não possais fazer com facilidade. Colbert encontrou, por um lado, a administração das finanças em toda a desordem em que as guerras civis e trinta anos de rapina a tinham mergulhado; por outro lado, uma nação leviana, ignorante, escravizada a preconceitos que já tinham mil e trezentos anos de ferrugem. Não havia um homem no conselho que soubesse o que era câmbio; não havia um que soubesse o que era a proporção das moedas; não havia um que tivesse ideia do comércio. Agora as luzes correram de um a outro; a populaça continua na profunda ignorância em que a devem manter a necessidade de ganhar a vida e, se não é ousado dizê-lo, o bem do Estado[2]. Mas a classe média foi esclarecida; ora esta classe é muito importante: dirige os grandes que pensam algumas vezes e os pequenos que não pensam nunca. Aconteceu nas finanças, depois do célebre Colbert, o que aconteceu na música depois de Lulli[3]; as sinfonias de Lulli eram muito simples, mas foi-lhe difícil encontrar homens que pudessem executá-las; hoje o número de artistas capazes de executar a música mais complicada aumentou na proporção em que a arte se aperfeiçoava; passa-se o mesmo na filosofia e na administração. Colbert fez mais do que o duque de Sully[4]; é preciso fazer mais do que Colbert.
[14]A estas palavras, o ministro, vendo que o filósofo tinha alguns papéis, manifestou desejo de os ver; era um conjunto de algumas ideias que podiam dar azo a numerosas reflexões. O ministro pegou no papel e leu:
«A riqueza de um Estado consiste no número dos seus habitantes e no seu trabalho.
«O comércio não serve para tornar um Estado mais poderoso do que os seus vizinhos, senão porque dentro de um certo número de anos há guerra com esses vizinhos, exactamente como dentro de um certo número de anos há sempre uma calamidade pública. Ora, nesta calamidade da guerra, a nação mais rica vence necessariamente as outras, desde que todas as outras circunstâncias sejam iguais, porque pode comprar mais aliados e mais tropas estrangeiras. Sem a calamidade da guerra, o aumento da massa de ouro e da prata seria inútil; efectivamente, desde que haja bastante ouro e prata para a circulação, desde que a balança comercial esteja equilibrada, é evidente que nada nos falta.
«Se houver dois milhões num reino, todos os géneros e a mão de obra custarão o dobro do que custariam se apenas houvesse um milhão. Sou tão rico com cinquenta mil libras de renda, quando compro a libra de carne a quatro soldos, como com cem mil, quando a compro a oito soldos; e o mesmo para o resto. A verdadeira riqueza dum reino não está, pois, no ouro e na prata, está na abundância de todas as mercadorias, está na indústria e no trabalho. Não há muito tempo que se viu no rio da Prata um regimento espanhol cujos oficiais tinham todos espadas de ouro, mas não tinham nem camisas nem pão.
[15]«Suponho que, desde os tempos de Hugo Capeto[5], a quantidade de dinheiro não aumentou no reino, mas se aperfeiçoou a indústria, em todas as artes, umas cem vezes mais; afirmo que somos realmente cem vezes mais ricos do que na época de Hugo Capeto: porque ser rico é gozar de alguma coisa. Ora eu gozo de uma casa mais arejada, mais bem construída, mais bem distribuída do que a do próprio Hugo Capeto; cultivam-se melhor as vinhas e bebo vinho melhor; aperfeiçoaram-se as manufacturas e visto-me com tecidos mais belos; a arte de agradar ao paladar com preparados mais finos faz-me ter todos os dias refeições mais delicadas do que os festins reais de Hugo Capeto. Para se transportar duma casa para a outra quando estava doente tinha uma carreta; eu vou numa sege cómoda e agradável onde a luz me chega sem que o vento me cause desconforto. E não foi preciso que houvesse no reino mais dinheiro para suspender a tira de couro numa caixa de madeira pintada; foi preciso indústria; e assim por diante. Das mesmas pedreiras se tiraram as pedras com que se fez a casa de Hugo Capeto e aquelas de que se constroem hoje as casas de Paris. Não é preciso mais dinheiro para construir uma vil prisão do que para fazer uma casa agradável; não é mais caro plantar um jardim bem concebido do que talhar ridiculamente o buxo e fazer nele grosseiras representações de animais. Outrora apodreciam os carvalhos nas florestas; hoje utilizam-se nos soalhos; a areia deixava-se no chão: é com ela que hoje se fazem os vidros.
«Ora é seguramente rico o que goza de todas as vantagens; só a indústria as obtém. Não é, portanto, o dinheiro que enriquece um reino; é o espírito; quero dizer, o espírito que dirige o trabalho.
[16]«O comércio faz o mesmo efeito que o trabalho das mãos; contribui para a comodidade da minha vida; se eu tiver necessidade duma obra das Índias, dum produto natural que só se encontra em Ceilão ou em Ternate, essa necessidade faz-me pobre; torno‑me rico quando o comércio a satisfaz. Não eram o ouro e a pedra que me faltavam; era o café e a cevada. Mas os que viajam seis mil léguas, com risco da vida, para que eu tome café todas as manhãs, não são mais do que o supérfluo dos homens laboriosos da nação. A riqueza consiste, pois, no grande número de homens laboriosos.
«O objectivo, o dever de um governo avisado são, portanto, e com toda a evidência, a povoação do reino e o trabalho.
«Nas nossas paragens, nascem mais varões do que fêmeas; é necessário, pois, que não façam morrer estas últimas; ora é claro que é fazê-las morrer para a sociedade enterrá‑las vivas nos claustros onde se perdem para a geração presente e onde aniquilam as gerações futuras. O dinheiro que se perde a dotar conventos seria muito bem empregado a encorajar o casamento. As raparigas que deixamos mirrar nos claustros são bem comparáveis às terras que em França existem ainda incultas; é preciso cultivá-las, a umas e outras.
«Há muitas maneiras de obrigar os cultivadores a arrotear uma terra abandonada; mas há um modo seguro de prejudicar o Estado: é permitir que subsistam estes dois abusos, o de sumir as raparigas e o de deixar os campos cobertos de silvas. A esterilidade, de qualquer espécie que seja, é ou um defeito da natureza ou um atentado contra a natureza.
«O rei, que é o ecónomo da nação, dá pensões às damas da corte, e faz bem, porque é dinheiro que vai ter aos mercadores, às cabeleireiras e às bordadoras. Mas por que razão não há também pensões para o desenvolvimento da agricultura? O dinheiro voltaria na mesma ao Estado, mas com mais proveito.
[17]«Sabe-se que é um defeito do governo haver mendigos; e há-os de duas espécies: os que vão, cobertos de farrapos, dum extremo ao outro do reino arrancar dos transeuntes, com os seus gritos lastimosos, o suficiente para irem para a taberna, e os que, vestidos de fatos todos iguais, vão obrigar o povo à contribuição, em nome de Deus, e voltam a jantar em grandes casas onde vivem à vontade. A primeira destas duas espécies é menos perniciosa do que a outra, porque, de caminho, traz filhos ao Estado e, se faz ladrões, também faz pedreiros e soldados. Mas ambas causam um mal de que toda a gente se queixa e que ninguém arranca pela raiz. E bem estranho que, num reino que tem terras incultas e colónias, se sofram habitantes que nem povoam nem trabalham. O melhor regime é aquele em que há menos homens inúteis. Donde procede que houve povos que, tendo menos ouro e prata do que nós, imortalizaram a sua memória por trabalhos que nós não ousamos imitar? E evidente que a sua administração valia mais do que a nossa, visto que levava mais homens ao trabalho.
«Os impostos são necessários. A melhor maneira de os lançar é a que mais facilita o trabalho e o comércio. Um imposto arbitrário é um defeito. Só a esmola pode ser arbitrária; mas, num Estado bem governado, não deve haver lugar para a esmola. O grande Xá Abas[6], ao fundar na Pérsia tantos estabelecimentos úteis, não construiu hospitais; perguntaram-lhe a razão; replicou: «— Não quero que haja necessidade de hospitais na Pérsia».
[18]«Que é um imposto? É uma certa quantidade de trigo, de animais, de géneros que os possuidores das terras devem àqueles que as não têm; o dinheiro não é mais do que a representação destes géneros; o imposto não se lança realmente senão sobre os ricos; não se pode pedir ao pobre uma parte do pão que ele ganha e do leite que os seios da mulher dão aos filhos. Não é sobre o pobre, sobre o trabalho que se deve lançar um tributo; é preciso, fazendo-o trabalhar, dar-lhe esperança de que seja um dia bastante feliz para pagar impostos.
«Ponho que, em tempo de guerra, se paguem a mais cinquenta milhões por ano. Destes cinquenta milhões passam vinte para terra estranha; trinta são empregados na chacina de homens. E ponho que, em tempo de paz, se paguem destes cinquenta milhões vinte e cinco; nada passa para o estrangeiro: faz-se trabalhar, para o bem público, o mesmo número de cidadãos que se matavam. Desenvolvem-se os trabalhos de toda a espécie; cultivam-se os campos; embelezam-se as cidades: é-se realmente rico pagando ao Estado. Os impostos, durante a calamidade da guerra, não devem servir para nos obter as comodidades da vida; devem servir para a defender. O povo mais feliz deve ser aquele que paga mais: é incontestavelmente o mais laborioso e o mais rico.
«O papel está para o dinheiro em prata, como o dinheiro em prata está para os produtos: é uma representação, um sinal de troca. O dinheiro só é útil porque é mais fácil pagar um carneiro com um luiz de ouro do que dar por ele quatro pares de meias. Do mesmo modo, é mais fácil a um recebedor da província enviar ao tesouro real quatrocentos mil francos numa letra do que enviá-los de carro, o que fica caríssimo; um banco, uma carta de crédito são, no governo dum Estado, no comércio e na circulação, o que os guinchos são nas pedreiras: levantam os fardos que os homens não poderiam mover a braço.
[19]«Um escocês, homem útil e perigoso, estabeleceu em França o papel de crédito; era um médico que dava aos doentes uma dose de emético demasiado forte; entraram em convulsões; mas é por se ter tomado demais dum bom remédio que se deve renunciar ao seu uso? Dos destroços do seu sistema ficou uma Companhia da Índia que os estrangeiros nos invejam e que pode fazer a grandeza da nação; portanto, este sistema, contido dentro de justos limites, teria feito mais bem do que mal.
«Alterar o valor das moedas é fazer moeda falsa; lançar a público mais papel do que o permite a massa e circulação das moedas e das mercadorias é também fabricar moeda falsa.
«Proibir a saída do ouro e da prata é um resto de barbárie e de indigência; é querer, ao mesmo tempo, não pagar as dívidas e perder o comércio. Efectivamente, é não querer pagar, visto que, se a nação é devedora, é necessário que salde as suas contas com o estrangeiro; e é perder o comércio porque o ouro e a prata são não somente o preço das mercadorias, mas também mercadoria, por si próprios. A Espanha tem conservado, como outras nações, esta lei antiga que não é senão uma antiga miséria. O único recurso do governo está em que esta lei se transgride sempre.
[20]«Carregar de taxas, nos seus próprios estados, os produtos do seu país que vão de uma província à outra; tornar a Champanha inimiga da Borgonha e a Guiena da Bretanha, é também um abuso vergonhoso e ridículo. Exactamente como se eu pusesse alguns dos meus criados numa antecâmara para deter e comer uma parte do meu jantar, na altura em que mo trazem. Tem-se diligenciado corrigir este abuso, mas, para vergonha do espírito humano, ainda nada se conseguiu.»
Havia ainda outras ideias nos papéis do filósofo; o ministro apreciou-as e obteve uma cópia; e foram estes os primeiros papéis de filósofo que jamais se viram na pasta dum ministro.
[1] Ministro de Luiz XIV, notável pelo desenvolvimento que imprimiu à economia francesa (1619-1683).
[2] Não se deve esquecer que Voltaire pertenceu a uma classe média que mostrou quase sempre pelo povo um desprezo tão grande como o dos aristocratas.
[3] Músico de origem italiana, criador de ópera em Paris (1633-1687).
[4] Ministro de Henrique IV e um dos melhores administradores que a França teve (1559-1641).
[5] Chefe da dinastia francesa dos Capetos (938-996).
[6] Um dos mais notáveis reis ou xás da Pérsia (1557-1628).
terça-feira, 4 de agosto de 2009
VOLTAIRE, "DIÁLOGOS FILOSÓFICOS"
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DOS EMBELEZAMENTOS DA CIDADE DE CACHEMIRA
Os habitantes de Cachemira são dóceis, levianos e preocupam-se com ninharias como outros povos com negócios sérios; vivem como crianças que nunca sabem a razão do que lhes ordenam, que murmuram de tudo, se consolam de tudo, zombam de tudo e de tudo se esquecem.
Não tinham naturalmente nenhum gosto pelas artes. O reino de Cachemira subsistiu durante mais de mil e trezentos anos, sem nunca ter tido nem verdadeiros filósofos, nem verdadeiros poetas, nem arquitectos sofríveis, nem pintores, nem escultores. Por muito tempo não tiveram nem fábricas nem comércio, a ponto de, durante mais de mil anos, ser obrigado a recorrer a um judeu ou a um baniane o marquês cachemiriano que queria roupa branca ou um belo gibão. Por fim, no começo do século passado, apareceram em Cachemira alguns homens, que nem pareciam da terra, e que, graças à ciência dos persas e dos indianos, levaram a razão e o génio aos últimos limites a que podem chegar. E houve por acaso um sultão que animou estes grandes homens e que, com a ajuda dum bom vizir, civilizou, embelezou e enriqueceu o reino. Os rachemirianos receberam todos os benefícios com zombarias e fizeram canções contra o sultão, contra o ministro e contra os grandes homens que os esclareciam.
[6]Depois, as artes de Cachemira entraram em decadência. O fogo que tinham acendido os génios inspirados pelo céu foi coberto de cinzas. Parecia que a natureza se esgotara. A glória das artes em Cachemira residia quase só nos pés e nas mãos. Havia gente com muita habilidade, que sabia passar uma perna por cima da outra, ao som de instrumentos e com uma graça maravilhosa; outros inventavam todas as semanas um modo admirável de atar uma fita; finalmente, apareceram químicos excelentes que, com essência de presunto e outros elixires semelhantes, punham, em poucos anos, uma casa inteira nas mãos dos médicos e dos credores. Os cachemirianos conseguiram, com estas belas artes, ter a honra de fornecer modas, dançarinos e cozinheiros a quase toda a Ásia.
[7]Falava-se muito, no entanto, em tornar a capital mais cómoda, mais limpa, mais saudável e mais bela do que era; falava-se e nada se fazia. Um filósofo do Industão, grande amador do bem público, e que dava com toda a boa-vontade, e toda a inutilidade, a sua opinião, sempre que se tratava de tornar os homens mais felizes e de aperfeiçoar as artes, passou pela capital de Cachemira. Teve com um dos principais «bostangis» uma longa conversa sobre a maneira de dar à cidade tudo o que lhe faltava. O «bostangi» concordava em que era vergonhoso não ter um grande e magnífico templo semelhante aos de Pequim ou de Agra; em que era uma pena não haver nenhum grande bazar, isto é, nenhum destes mercados e armazéns públicos, rodeados de colunas, que são ao mesmo tempo úteis e decorativos. Confessava que as salas destinadas aos jogos públicos seriam indignas de uma cidade de quarta ordem, que se viam com indignação casas ordinaríssimas sobre pontes belíssimas, e que em vão se desejavam praças, fontes, estátuas e todos os monumentos que fazem a glória de uma nação.
— Permiti-me — disse o filósofo indiano — que vos faça uma pequena pergunta. Por que razão não arranjais o que vos falta?
— Não vejo maneira — disse o pequeno «bostangi» —; ficaria muito caro.
— Ficaria de graça — replicou o filósofo.
— Já nos expuseram esse belo paradoxo — voltou o cidadão; mas são discorrências de filósofo, isto é, coisas admiráveis em teoria e ridículas na prática. Estamos fartos dessas sentenças magníficas.
— Mas que respondestes vós — disse o filósofo — àqueles que vos afirmaram que só era preciso querer com toda a vontade e que nada custaria ao Estado de Cachemira adornar a vossa capital, fazer todas as grandes coisas de que ela necessita?
— Não respondemos nada — disse o «bostangi» —; pusemo-nos a rir, conforme é costume nosso, e não examinamos nada.
— Pois então — retorquiu o filósofo — ride menos, examinai mais, e eu vos demonstrarei este paradoxo que vos tornaria felizes e que vos assusta.
O cachemiriano, que era homem muito delicado, mordeu os lábios, com medo de pregar uma gargalhada na cara do indiano; e tiveram então a seguinte conversa:
O FILÓSOFO — A que chamais vós ser rico?
O BOSTANGI — A ter muito dinheiro.
[8]O FILÓSOFO — Puro engano. Os habitantes da América meridional tinham outrora muita prata de que podiam fazer dinheiro, ainda mais do que aquela que vós podereis vir a ter em tempo algum; mas, como não eram industriosos, não tinham nada do que o dinheiro pode obter: na realidade, viviam na miséria.
O BOSTANGI — Já entendo; fazeis consistir a riqueza na posse dum terreno fértil.
O FILÓSOFO — De modo algum, porque os tártaros da Ucrânia habitam um dos países mais belos do universo e de tudo carecem. A opulência de um estado é como todos os talentos, que dependem da natureza e da arte. Assim, a riqueza consiste no solo e no trabalho. O povo mais rico e mais feliz é àquele que cultiva mais intensamente o melhor terreno; e o mais belo presente que Deus fez ao homem foi a necessidade de trabalhar.
O BOSTANGI — De acordo; mas para fazer o que se nos pede seria preciso o trabalho de dez mil homens durante dez anos; onde haveria dinheiro para lhes pagar?
O FILÓSOFO — E não pagastes vós soldo a cem mil soldados durante dez anos de guerra?
O BOSTANGI — É verdade; e, contudo, parece que o Estado não empobreceu.
O FILÓSOFO — O quê? Então vós tendes dinheiro para mandar para a morte cem mil homens e não o tendes para fazer viver dez mil?
O BOSTANGI — É diferente: fica muito mais barato enviar um cidadão a morrer do que mandá-lo esculpir mármore.
[9]FILÓSOFO — Novo engano. Só trinta mil homens de cavalaria são mais caros do que dez mil artífices; e a verdade é que nem uns nem outros são caros quando empregados na própria nação. Que julgais que tenha custado aos antigos egípcios construir as pirâmides e aos chineses levantar a sua grande muralha? Cebolas e arroz. Acaso as terras lhes ficaram esgotadas por terem alimentado homens laboriosos em lugar de terem engordado vadios?
O BOSTANGI — Vós venceis-me, mas não me convenceis. A filosofia discorre e o costume age.
O FILÓSOFO — Se os homens sempre tivessem seguido essa máxima, comeriam ainda bolotas e não saberiam o que é a lua-cheia. Para executar as maiores empresas só é preciso cabeça e mãos; e tudo se alcança. Tendes belas pedras, ferro, cobre, belas madeiras para travejamentos; só vos falta a vontade.
O BOSTANGI — Temos tudo. A natureza tratou-nos muito bem. Mas que despesas enormes para utilizar tantos materiais!
O FILOSOFO — Não compreendo nada do que dizeis De que despesas falais? A vossa terra produz com que alimentar e vestir todos os seus habitantes. Tendes debaixo dos pés todos os materiais; tendes à vossa volta duzentos mil vadios que podeis empregar; só é preciso fazê-los trabalhar e dar-lhes o salário suficiente para que se alimentem e vivam bem. Não vejo o que isso poderá custar ao reino de Cachemira, porque certamente também nada pagareis aos persas e aos chineses por terem feito trabalhar os vossos cidadãos.
O BOSTANGI — O que dizeis é absolutamente verdadeiro; do Estado não sairão nem géneros nem dinheiro.
O FILÓSOFO — Por que razão não mandais que os trabalhos principiem já hoje?
O BOSTANGI — É muito difícil fazer mover máquina tão grande.
O FILÓSOFO — E como procedestes vós para sustentar uma guerra que custou tanto sangue e tantos tesouros?
[10]O BOSTANGI — Mandamos contribuir, com toda a justiça, em proporção dos seus bens, os possuidores de terras e de dinheiro.
O FILÓSOFO — Pois bem; se se contribui para a infelicidade da espécie humana, não se poderá dar nada para a sua felicidade e para a sua glória? O quê! E possível que, desde que estais organizados em sociedade, ainda não tenhais descoberto o segredo de obrigar todos os ricos a dar trabalho a todos os pobres? Ainda não atingistes os primeiros elementos da civilização?
O BOSTANGI — Mesmo que tivéssemos arranjado tudo de maneira que os proprietários de arroz, de linho e de gado dessem pilao e camisas aos mendigos que empregássemos a revolver a terra e a transportar fardos, nada teríamos adiantado. Seria preciso fazer trabalhar todos os artistas que, pelo ano fora, se empregam noutros trabalhos.
O FILÓSOFO — Ouvi dizer que tendes no ano cerca de cento e vinte dias em que se não trabalha em Cachemíra. Porque não transformais metade destes dias de preguiça em dias úteis? Porque não empregais durante cem dias nos edifícios públicos os artistas desempregados? Os que não sabem nada, os que não têm mais que os dois braços depressa se tornarão industriosos: formareis um povo de artistas.
O BOSTANGI — Mas todo esse tempo é destinado às tabernas e à devassidão; e rende bastante para a fazenda pública.
O FILÓSOFO — A vossa razão é admirável; mas é só pela circulação que entra dinheiro no tesouro público. E não é verdade que o trabalho leva a maior circulação do que a pândega que só traz consigo a doença? E bem certo que seja do interesse do Estado que o povo se embriague durante um terço do ano?
[11]Esta conversação durou muito tempo. O «bostangi» confessou por fim que o filósofo tinha razão e foi ele o primeiro «bostangi» a ser persuadido por um filósofo. Prometeu fazer muito; mas os homens não fazem nunca nem tudo o que querem, nem tudo o que podem.
Enquanto o filósofo e o «bostangi» praticavam assim sobre a alta ciência, passou uma vintena de belos animais de dois pés, com um mantozinho por cima duma longa casaca, um capuz aguçado na cabeça, um cinto de corda à volta dos rins[1].
— Belos rapagões! — disse o indiano —; quantos homens há destes na vossa pátria?
— Mais ou menos cem mil de diferentes espécies — respondeu o «bostangi».
— Que gente magnífica para embelezar Cachemira! — disse o filósofo. Como eu gostaria de vê-los com a enxada, a colher e o esquadro nas mãos!
E eu também — retorquiu o «bostangi» —; mas são santos demais para trabalharem.
Mas que fazem então — perguntou o indiano? — Cantam, bebem e digerem — disse o «bostangi» — ! Como isso é útil ao Estado!
Esta conversação durou muito tempo e não deu grandes resultados.
[1] Voltaire refere-se aos frades; há outras alusões nos diálogos.
DOS EMBELEZAMENTOS DA CIDADE DE CACHEMIRA
Os habitantes de Cachemira são dóceis, levianos e preocupam-se com ninharias como outros povos com negócios sérios; vivem como crianças que nunca sabem a razão do que lhes ordenam, que murmuram de tudo, se consolam de tudo, zombam de tudo e de tudo se esquecem.
Não tinham naturalmente nenhum gosto pelas artes. O reino de Cachemira subsistiu durante mais de mil e trezentos anos, sem nunca ter tido nem verdadeiros filósofos, nem verdadeiros poetas, nem arquitectos sofríveis, nem pintores, nem escultores. Por muito tempo não tiveram nem fábricas nem comércio, a ponto de, durante mais de mil anos, ser obrigado a recorrer a um judeu ou a um baniane o marquês cachemiriano que queria roupa branca ou um belo gibão. Por fim, no começo do século passado, apareceram em Cachemira alguns homens, que nem pareciam da terra, e que, graças à ciência dos persas e dos indianos, levaram a razão e o génio aos últimos limites a que podem chegar. E houve por acaso um sultão que animou estes grandes homens e que, com a ajuda dum bom vizir, civilizou, embelezou e enriqueceu o reino. Os rachemirianos receberam todos os benefícios com zombarias e fizeram canções contra o sultão, contra o ministro e contra os grandes homens que os esclareciam.
[6]Depois, as artes de Cachemira entraram em decadência. O fogo que tinham acendido os génios inspirados pelo céu foi coberto de cinzas. Parecia que a natureza se esgotara. A glória das artes em Cachemira residia quase só nos pés e nas mãos. Havia gente com muita habilidade, que sabia passar uma perna por cima da outra, ao som de instrumentos e com uma graça maravilhosa; outros inventavam todas as semanas um modo admirável de atar uma fita; finalmente, apareceram químicos excelentes que, com essência de presunto e outros elixires semelhantes, punham, em poucos anos, uma casa inteira nas mãos dos médicos e dos credores. Os cachemirianos conseguiram, com estas belas artes, ter a honra de fornecer modas, dançarinos e cozinheiros a quase toda a Ásia.
[7]Falava-se muito, no entanto, em tornar a capital mais cómoda, mais limpa, mais saudável e mais bela do que era; falava-se e nada se fazia. Um filósofo do Industão, grande amador do bem público, e que dava com toda a boa-vontade, e toda a inutilidade, a sua opinião, sempre que se tratava de tornar os homens mais felizes e de aperfeiçoar as artes, passou pela capital de Cachemira. Teve com um dos principais «bostangis» uma longa conversa sobre a maneira de dar à cidade tudo o que lhe faltava. O «bostangi» concordava em que era vergonhoso não ter um grande e magnífico templo semelhante aos de Pequim ou de Agra; em que era uma pena não haver nenhum grande bazar, isto é, nenhum destes mercados e armazéns públicos, rodeados de colunas, que são ao mesmo tempo úteis e decorativos. Confessava que as salas destinadas aos jogos públicos seriam indignas de uma cidade de quarta ordem, que se viam com indignação casas ordinaríssimas sobre pontes belíssimas, e que em vão se desejavam praças, fontes, estátuas e todos os monumentos que fazem a glória de uma nação.
— Permiti-me — disse o filósofo indiano — que vos faça uma pequena pergunta. Por que razão não arranjais o que vos falta?
— Não vejo maneira — disse o pequeno «bostangi» —; ficaria muito caro.
— Ficaria de graça — replicou o filósofo.
— Já nos expuseram esse belo paradoxo — voltou o cidadão; mas são discorrências de filósofo, isto é, coisas admiráveis em teoria e ridículas na prática. Estamos fartos dessas sentenças magníficas.
— Mas que respondestes vós — disse o filósofo — àqueles que vos afirmaram que só era preciso querer com toda a vontade e que nada custaria ao Estado de Cachemira adornar a vossa capital, fazer todas as grandes coisas de que ela necessita?
— Não respondemos nada — disse o «bostangi» —; pusemo-nos a rir, conforme é costume nosso, e não examinamos nada.
— Pois então — retorquiu o filósofo — ride menos, examinai mais, e eu vos demonstrarei este paradoxo que vos tornaria felizes e que vos assusta.
O cachemiriano, que era homem muito delicado, mordeu os lábios, com medo de pregar uma gargalhada na cara do indiano; e tiveram então a seguinte conversa:
O FILÓSOFO — A que chamais vós ser rico?
O BOSTANGI — A ter muito dinheiro.
[8]O FILÓSOFO — Puro engano. Os habitantes da América meridional tinham outrora muita prata de que podiam fazer dinheiro, ainda mais do que aquela que vós podereis vir a ter em tempo algum; mas, como não eram industriosos, não tinham nada do que o dinheiro pode obter: na realidade, viviam na miséria.
O BOSTANGI — Já entendo; fazeis consistir a riqueza na posse dum terreno fértil.
O FILÓSOFO — De modo algum, porque os tártaros da Ucrânia habitam um dos países mais belos do universo e de tudo carecem. A opulência de um estado é como todos os talentos, que dependem da natureza e da arte. Assim, a riqueza consiste no solo e no trabalho. O povo mais rico e mais feliz é àquele que cultiva mais intensamente o melhor terreno; e o mais belo presente que Deus fez ao homem foi a necessidade de trabalhar.
O BOSTANGI — De acordo; mas para fazer o que se nos pede seria preciso o trabalho de dez mil homens durante dez anos; onde haveria dinheiro para lhes pagar?
O FILÓSOFO — E não pagastes vós soldo a cem mil soldados durante dez anos de guerra?
O BOSTANGI — É verdade; e, contudo, parece que o Estado não empobreceu.
O FILÓSOFO — O quê? Então vós tendes dinheiro para mandar para a morte cem mil homens e não o tendes para fazer viver dez mil?
O BOSTANGI — É diferente: fica muito mais barato enviar um cidadão a morrer do que mandá-lo esculpir mármore.
[9]FILÓSOFO — Novo engano. Só trinta mil homens de cavalaria são mais caros do que dez mil artífices; e a verdade é que nem uns nem outros são caros quando empregados na própria nação. Que julgais que tenha custado aos antigos egípcios construir as pirâmides e aos chineses levantar a sua grande muralha? Cebolas e arroz. Acaso as terras lhes ficaram esgotadas por terem alimentado homens laboriosos em lugar de terem engordado vadios?
O BOSTANGI — Vós venceis-me, mas não me convenceis. A filosofia discorre e o costume age.
O FILÓSOFO — Se os homens sempre tivessem seguido essa máxima, comeriam ainda bolotas e não saberiam o que é a lua-cheia. Para executar as maiores empresas só é preciso cabeça e mãos; e tudo se alcança. Tendes belas pedras, ferro, cobre, belas madeiras para travejamentos; só vos falta a vontade.
O BOSTANGI — Temos tudo. A natureza tratou-nos muito bem. Mas que despesas enormes para utilizar tantos materiais!
O FILOSOFO — Não compreendo nada do que dizeis De que despesas falais? A vossa terra produz com que alimentar e vestir todos os seus habitantes. Tendes debaixo dos pés todos os materiais; tendes à vossa volta duzentos mil vadios que podeis empregar; só é preciso fazê-los trabalhar e dar-lhes o salário suficiente para que se alimentem e vivam bem. Não vejo o que isso poderá custar ao reino de Cachemira, porque certamente também nada pagareis aos persas e aos chineses por terem feito trabalhar os vossos cidadãos.
O BOSTANGI — O que dizeis é absolutamente verdadeiro; do Estado não sairão nem géneros nem dinheiro.
O FILÓSOFO — Por que razão não mandais que os trabalhos principiem já hoje?
O BOSTANGI — É muito difícil fazer mover máquina tão grande.
O FILÓSOFO — E como procedestes vós para sustentar uma guerra que custou tanto sangue e tantos tesouros?
[10]O BOSTANGI — Mandamos contribuir, com toda a justiça, em proporção dos seus bens, os possuidores de terras e de dinheiro.
O FILÓSOFO — Pois bem; se se contribui para a infelicidade da espécie humana, não se poderá dar nada para a sua felicidade e para a sua glória? O quê! E possível que, desde que estais organizados em sociedade, ainda não tenhais descoberto o segredo de obrigar todos os ricos a dar trabalho a todos os pobres? Ainda não atingistes os primeiros elementos da civilização?
O BOSTANGI — Mesmo que tivéssemos arranjado tudo de maneira que os proprietários de arroz, de linho e de gado dessem pilao e camisas aos mendigos que empregássemos a revolver a terra e a transportar fardos, nada teríamos adiantado. Seria preciso fazer trabalhar todos os artistas que, pelo ano fora, se empregam noutros trabalhos.
O FILÓSOFO — Ouvi dizer que tendes no ano cerca de cento e vinte dias em que se não trabalha em Cachemíra. Porque não transformais metade destes dias de preguiça em dias úteis? Porque não empregais durante cem dias nos edifícios públicos os artistas desempregados? Os que não sabem nada, os que não têm mais que os dois braços depressa se tornarão industriosos: formareis um povo de artistas.
O BOSTANGI — Mas todo esse tempo é destinado às tabernas e à devassidão; e rende bastante para a fazenda pública.
O FILÓSOFO — A vossa razão é admirável; mas é só pela circulação que entra dinheiro no tesouro público. E não é verdade que o trabalho leva a maior circulação do que a pândega que só traz consigo a doença? E bem certo que seja do interesse do Estado que o povo se embriague durante um terço do ano?
[11]Esta conversação durou muito tempo. O «bostangi» confessou por fim que o filósofo tinha razão e foi ele o primeiro «bostangi» a ser persuadido por um filósofo. Prometeu fazer muito; mas os homens não fazem nunca nem tudo o que querem, nem tudo o que podem.
Enquanto o filósofo e o «bostangi» praticavam assim sobre a alta ciência, passou uma vintena de belos animais de dois pés, com um mantozinho por cima duma longa casaca, um capuz aguçado na cabeça, um cinto de corda à volta dos rins[1].
— Belos rapagões! — disse o indiano —; quantos homens há destes na vossa pátria?
— Mais ou menos cem mil de diferentes espécies — respondeu o «bostangi».
— Que gente magnífica para embelezar Cachemira! — disse o filósofo. Como eu gostaria de vê-los com a enxada, a colher e o esquadro nas mãos!
E eu também — retorquiu o «bostangi» —; mas são santos demais para trabalharem.
Mas que fazem então — perguntou o indiano? — Cantam, bebem e digerem — disse o «bostangi» — ! Como isso é útil ao Estado!
Esta conversação durou muito tempo e não deu grandes resultados.
[1] Voltaire refere-se aos frades; há outras alusões nos diálogos.
domingo, 17 de agosto de 2008
Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)
VOLTAIRE, DIÁLOGOS FILOSÓFICOS (IV)
DIÁLOGO TRADUZIDO DO INGLÊS: PÉRICLES, UM GREGO MODERNO, UM RUSSO
PÉRICLES[1] — Tenho algumas perguntas a fazer-vos: Minos[2] disse-me que éreis grego.
O GREGO—Minos disse-vos a verdade; eu era o muito humilde escravo da Sublime Porta[3].
PÉRICLES — Que é isso de escravo? Um grego escravo!
O GREGO — Acaso um grego pode ser outra coisa?
O RUSSO — Ele tem razão: grego e escravo é a mesma coisa.
PÉRICLES — Justos céus! Como lamento os meus pobres compatriotas!
GREGO — Não são tão lamentáveis como vós julgais; por mim, estava muito contente com a minha situação: cultivava uma leira de terra que o Pachá da Romélia tivera a bondade de me dar; era por isso que pagava tributo a Sua Alteza.
PÉRICLES — Um tributo! Que palavra estranha na boca dum grego. Mas dizei-me: em que consistia esse humilhante estigma de servidão?
O GREGO — Em abandonar uma parte do fruto do meu trabalho, o mais velho dos meus filhos e as mais belas das minhas filhas.
PÉRICLES — Covarde! Então entregáveis à escravatura vossos próprios filhos? Quem viu jamais os contemporâneos de Milcíades, de Aristides, de Temístocles...[4].
O GREGO — Eis aí uns nomes que nunca ouvi pronunciar na minha vida. Esses homens eram «bostangis», «capigi-bachis», ou pachás de três rabos?
PÉRICLES (para o russo) — Que são esses títulos ridículos e bárbaros, cujo som me escorcha os ouvidos? Estou, sem dúvida, a dirigir-me a algum grosseiro beócio ou a um espartano imbecil. (Para o grego) —Já ouvistes naturalmente falar de Péricles?
O GREGO — De Péricles? Não, nada... Ora esperai... Não é o nome de um famoso ermitão?
PÉRICLES — Que é isso de ermitão? Era a personagem mais elevada do Estado?
O GREGO — Ora! São pessoas que não têm nada que ver com o Estado, nem o Estado que ver com elas.
PÉRICLES — Como se tornou então famoso esse ermitão? Fez como eu? Travou batalhas e fez conquistas para a sua pátria? Erigiu grandes monumentos aos deuses? Fundou estabelecimentos úteis ao público? Protegeu as artes, encorajou o mérito?
O GREGO — Não, o homem de que estou a falar não sabia nem ler nem escrever; habitava numa cabana onde vivia de raízes. A primeira coisa que fazia, todas as manhãs, era rasgar os ombros à chicotada: oferecia a Deus as suas flagelações, as suas vigílias, os seus jejuns e a sua ignorância.
PÉRICLES — Julgais que a reputação desse frade pode igualar a minha?
O GREGO — Certamente; todos os gregos veneram a sua memória tanto como a de qualquer outro grande homem.
PÉRICLES — O destino! Mas dizei-me: não continua a minha memória a ser venerada em Atenas, nessa cidade onde eu introduzi a magnificência e o bom gosto?
O GREGO — E pergunta a que não sei responder-vos; eu morava num lugar a que chamam Setines; é uma aldeola miserável; mas, segundo ouvi dizer, foi outrora uma cidade magnífica.
PÉRICLES — Quer dizer: é-vos tão desconhecida a famosa e soberba cidade de Atenas como os nomes de Temístocles e de Péricles; decerto vivíeis nalgum lugar subterrâneo, numa região ignorada da Grécia.
O RUSSO — Nada disso: morava mesmo em Atenas.
PÉRICLES — O quê? Vivia em Atenas e não me conhece? Nem sabe o nome dessa famosa cidade!
O RUSSO — Há milhares de homens que habitam hoje em Atenas e que o sabem tanto como ele; a cidade outrora tão opulenta e tão altiva é hoje uma vilória pobre e imunda chamada Setines.
PÉRICLES — É verdade o que me dizeis?
O RUSSO — É o efeito dos estragos do tempo e das invasões dos bárbaros, mais destruidores ainda do que o tempo.
PÉRICLES — Sei muito bem que os sucessores de Alexandre[5] subjugaram a Grécia; mas Roma não lhe restituiu a liberdade? Nem ouso perguntar mais: tenho receio de vir a saber que a minha pátria recaiu na servidão.
O RUSSO — Desde esse tempo já mudou muitas vezes de senhor. Durante um certo período, a Grécia partilhou com os romanos o império do mundo, império que as duas potências juntas não puderam conservar; mas, para só falarmos da Grécia, sabereis que sofreu sucessivamente o domínio dos franceses, dos venezianos e dos turcos.
PÉRICLES — Essas três nações bárbaras são-me absolutamente desconhecidas.
O RUSSO — Vê-se bem por essas palavras que sois um grego antigo; a vossos olhos, todos os estrangeiros eram bárbaros; nem exceptuáveis os egípcios a quem devíeis as bases de todos os vossos conhecimentos. Reconheço que os turcos, outrora, só sabiam a arte de conquistar e, hoje, apenas a de conservar as suas conquistas; mas os venezianos e, sobretudo, os franceses igualaram os vossos gregos em numerosos pontos e foram-lhes superiores em muitos outros.
PÉRICLES — Bonito quadro. Mas talvez haja aí um pouco de vaidade. Dizei-me: não sois francês?
O RUSSO —Nem nada que se pareça: sou russo.
PÉRICLES — E fora de dúvida que os habitantes da terra inteira mudaram de nome depois que vivo no Eliseu; ouvi tanto falar de russos como de franceses, venezianos e turcos. No entanto, os conhecimentos que mostrais fazem-me presumir que a vossa nação é muito antiga; anão será um resto desses egípcios de que dizíeis há pouco tão bonitas coisas?
O RUSSO —Não é; só conheço esse povo através dos nossos historiadores; quanto à nossa nação, provém dos citas e dos sarmatas[6].
PÉRICLES — E possível que um descendente dos sarmatas e dos citas conheça melhor o que era a Grécia antiga do que um grego moderno?
O RUSSO — Só há uns cinquenta anos ouvimos falar de egípcios, gregos e sarrnatas; um dos nossos soberanos[7], que era um homem de génio, concebeu o projecto de banir a ignorância dos seus Estados; e rapidamente se desenvolveram as artes e as ciências, as academias e os espectáculos. Estudamos a história de todos os povos e a nossa história mereceu a atenção dos outros povos.
PÉRICLES — Acho que, para produzir essa espécie de metamorfoses, só é preciso que o príncipe tenha vontade e coragem; mas é mais verdade ainda que perdi o meu tempo: esperava ter tornado o meu nome imortal e vejo que já o esqueceram no meu próprio país.
O RUSSO — Dir-vos-ei, para vos consolar, que é conhecido no meu; e isto não esperáveis, vós, tenho a certeza.PÉRICLES — É certo; no entanto, não posso deixar de ter pena de que Atenas tenha esquecido tudo quanto fiz por ela. Bem, ir-me-ei consolar com Osiris, Minos, Licurgo, Sólon e com todos os legisladores e fundadores de impérios cujas acções e máximas estão, como as minhas, mergulhadas no olvido. Vejo que a ciência é um astro que só pode iluminar de cada vez uma parte do globo, mas que espalha a sua luz sucessivamente sobre cada uma delas. Cai a noite numa nação, no momento em que a aurora rompe noutra.
[1] Político ateniense do séc. V a. C. e um dos homens de Estado que mais tem feito apelo à inteligência e à generosidade dos governados.
[2] Rei lendário de Creta, depois colocado como juiz nos infernos.
[3] O governo turco, que, por essa altura, dominava a Grécia.
[4] Políticos e generais atenienses do séc. V a. C.
[5] Alexandre Magno, rei da Macedónia, depois senhor de um império que englobou a Grécia, o Egipto e grande parte do Próximo Oriente (séc. IV a. C.).
[6] Nomes que davam os gregos aos povos que habitavam regiões que fazem hoje parte da Rússia.
[7] Pedro I, tzar da Rússia, que tentou, por vezes com brutalidade, europeizar o seu país (1672-1725).
sábado, 16 de agosto de 2008
Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)
VOLTAIRE, DIÁLOGOS FILOSÓFICOS (III)
DIÁLOGO ENTRE UM FILÓSOFO E UM MINISTRO DAS FINANÇAS
O FILÓSOFO — Sabeis vós que um ministro das finanças pode fazer mais bem, e, por consequência, ser um homem muito mais notável do que vinte marechais de França?
O MINISTRO — Bem sabia eu que algum filósofo quereria abrandar em mim a dureza que se costuma censurar no meu cargo; mas não esperava que quisesse despertar-me a vaidade.
O FILÓSOFO — A vaidade não é um vício tão grande como vós julgais. Se Luiz XIV não fosse um pouco vaidoso, o seu reinado não teria sido tão ilustre. Também o era o grande Colbert[1]; vede se tendes a vaidade de o ultrapassar. Nascestes num tempo mais favorável do que o dele; é preciso que vos eleveis com o século.
O MINISTRO — Concordo em que aqueles que cultivam uma terra fértil têm grande vantagem sobre os que primeiro a arrotearam.
O FILÓSOFO — Crede que não há nada de útil que não possais fazer com facilidade. Colbert encontrou, por um lado, a administração das finanças em toda a desordem em que as guerras civis e trinta anos de rapina a tinham mergulhado; por outro lado, uma nação leviana, ignorante, escravizada a preconceitos que já tinham mil e trezentos anos de ferrugem. Não havia um homem no conselho que soubesse o que era câmbio; não havia um que soubesse o que era a proporção das moedas; não havia um que tivesse ideia do comércio. Agora as luzes correram de um a outro; a populaça continua na profunda ignorância em que a devem manter a necessidade de ganhar a vida e, se não é ousado dizê-lo, o bem do Estado[2]. Mas a classe média foi esclarecida; ora esta classe é muito importante: dirige os grandes que pensam algumas vezes e os pequenos que não pensam nunca. Aconteceu nas finanças, depois do célebre Colbert, o que aconteceu na música depois de Lulli[3]; as sinfonias de Lulli eram muito simples, mas foi-lhe difícil encontrar homens que pudessem executá-las; hoje o número de artistas capazes de executar a música mais complicada aumentou na proporção em que a arte se aperfeiçoava; passa-se o mesmo na filosofia e na administração. Colbert fez mais do que o duque de Sully[4]; é preciso fazer mais do que Colbert.
A estas palavras, o ministro, vendo que o filósofo tinha alguns papéis, manifestou desejo de os ver; era um conjunto de algumas ideias que podiam dar azo a e leu:
«A riqueza de um Estado consiste no número dos seus habitantes e no seu trabalho.
«O comércio não serve para tornar um Estado mais poderoso do que os seus vizinhos, senão porque dentro de um certo número de anos há guerra com esses vizinhos, exactamente como dentro de um certo número de anos há sempre uma calamidade pública. Ora, nesta calamidade da guerra, a nação mais rica vence necessariamente as outras, desde que todas as outras circunstâncias sejam iguais, porque pode comprar mais aliados e mais tropas estrangeiras. Sem a calamidade da guerra, o aumento da massa de ouro e da prata seria inútil; efectivamente, desde que haja bastante ouro e prata para a circulação, desde que a balança comercial esteja equilibrada, é evidente que nada nos falta.
«Se houver dois milhões num reino, todos os géneros e a mão de obra custarão o dobro do que custariam se apenas houvesse um milhão. Sou tão rico com cinquenta mil libras de renda, quando compro a libra de carne a quatro soldos, como com cem mil, quando a compro a oito soldos; e o mesmo para o resto. A verdadeira riqueza dum reino não está, pois, no ouro e na prata, está na abundância de todas as mercadorias, está na indústria e no trabalho. Não há muito tempo que se viu no rio da Prata um regimento espanhol cujos oficiais tinham todos espadas de ouro, mas não tinham nem camisas nem pão.
«Suponho que, desde os tempos de Hugo Capeto[5], a quantidade de dinheiro não aumentou no reino, mas se aperfeiçoou a indústria, em todas as artes, umas cem vezes mais; afirmo que somos realmente cem vezes mais ricos do que na época de Hugo Capeto: porque ser rico é gozar de alguma coisa. Ora eu gozo de uma casa mais arejada, mais bem construída, mais bem distribuída do que a do próprio Hugo Capeto; cultivam-se melhor as vinhas e bebo vinho melhor; aperfeiçoaram-se as manufacturas e visto-me com tecidos mais belos; a arte de agradar ao paladar com preparados mais finos faz-me ter todos os dias refeições mais delicadas do que os festins reais de Hugo Capeto. Para se transportar duma casa para a outra quando estava doente tinha uma carreta; eu vou numa sege cómoda e agradável onde a luz me chega sem que o vento me cause desconforto. E não foi preciso que houvesse no reino mais dinheiro para suspender a tira de couro numa caixa de madeira pintada; foi preciso indústria; e assim por diante. Das mesmas pedreiras se tiraram as pedras com que se fez a casa de Hugo Capeto e aquelas de que se constroem hoje as casas de Paris. Não é preciso mais dinheiro para construir uma vil prisão do que para fazer uma casa agradável; não é mais caro plantar um jardim bem concebido do que talhar ridiculamente o buxo e fazer nele grosseiras representações de animais. Outrora apodreciam os carvalhos nas florestas; hoje utilizam-se nos soalhos; a areia deixava-se no chão: é com ela que hoje se fazem os vidros.
«Ora é seguramente rico o que goza de todas as vantagens; só a indústria as obtém. Não é, portanto, o dinheiro que enriquece um reino; é o espírito; quero dizer, o espírito que dirige o trabalho.
«O comércio faz o mesmo efeito que o trabalho das mãos; contribui para a comodidade da minha vida; se eu tiver necessidade duma obra das Índias, dum produto natural que só se encontra em Ceilão ou em Ternate, essa necessidade faz-me pobre; torno-me rico quando o comércio a satisfaz. Não eram o ouro e a pedra que me faltavam; era o café e a cevada. Mas os que viajam seis mil léguas, com risco da vida, para que eu tome café todas as manhãs, não são mais do que o supérfluo dos homens laboriosos da nação. A riqueza consiste, pois, no grande número de homens laboriosos.
«O objectivo, o dever de um governo avisado são, portanto, e com toda a evidência, a povoação do reino e o trabalho.
«Nas nossas paragens, nascem mais varões do que fêmeas; é necessário, pois, que não façam morrer estas últimas; ora é claro que é fazê-las morrer para a sociedade enterrá-las vivas nos claustros onde se perdem para a geração presente e onde aniquilam as gerações futuras. O dinheiro que se perde a dotar conventos seria muito bem empregado a encorajar o casamento. As raparigas que deixamos mirrar nos claustros são bem comparáveis às terras que em França existem ainda incultas; é preciso cultivá-las, a umas e outras.
«Há muitas maneiras de obrigar os cultivadores a arrotear uma terra abandonada; mas há um modo seguro de prejudicar o Estado: é permitir que subsistam estes dois abusos, o de sumir as raparigas e o de deixar os campos cobertos de silvas. A esterilidade, de qualquer espécie que seja, é ou um defeito da natureza ou um atentado contra a natureza.
«O rei, que é o ecónomo da nação, dá pensões às damas da corte, e faz bem, porque é dinheiro que vai ter aos mercadores, às cabeleireiras e às bordadoras. Mas por que razão não há também pensões para o desenvolvimento da agricultura? O dinheiro voltaria na mesma ao Estado, mas com mais proveito.
«Sabe-se que é um defeito do governo haver mendigos; e há-os de duas espécies: os que vão, cobertos de farrapos, dum extremo ao outro do reino arrancar dos transeuntes, com os seus gritos lastimosos, o suficiente para irem para a taberna, e os que, vestidos de fatos todos iguais, vão obrigar o povo à contribuição, em nome de Deus, e voltam a jantar em grandes casas onde vivem à vontade. A primeira destas duas espécies é menos perniciosa do que a outra, porque, de caminho, traz filhos ao Estado e, se faz ladrões, também faz pedreiros e soldados. Mas ambas causam um mal de que toda a gente se queixa e que ninguém arranca pela raiz. E bem estranho que, num reino que tem terras incultas e colónias, se sofram habitantes que nem povoam nem trabalham. O melhor regime é aquele em que há menos homens inúteis. Donde procede que houve povos que, tendo menos ouro e prata do que nós, imortalizaram a sua memória por trabalhos que nós não ousamos imitar? E evidente que a sua administração valia mais do que a nossa, visto que levava mais homens ao trabalho.
«Os impostos são necessários. A melhor maneira de os lançar é a que mais facilita o trabalho e o comércio. Um imposto arbitrário é um defeito. Só a esmola pode ser arbitrária; mas, num Estado bem governado, não deve haver lugar para a esmola. O grande Xá Abas[6], ao fundar na Pérsia tantos estabelecimentos úteis, não construiu hospitais; perguntaram-lhe a razão; replicou: «— Não quero que haja necessidade de hospitais na Pérsia».
«Que é um imposto? É uma certa quantidade de trigo, de animais, de géneros que os possuidores das terras devem àqueles que as não têm; o dinheiro não é mais do que a representação destes géneros; o imposto não se lança realmente senão sobre os ricos; não se pode pedir ao pobre uma parte do pão que ele ganha e do leite que os seios da mulher dão aos filhos. Não é sobre o pobre, sobre o trabalho que se deve lançar um tributo; é preciso, fazendo-o trabalhar, dar-lhe esperança de que seja um dia bastante feliz para pagar impostos.
«Ponho que, em tempo de guerra, se paguem a mais cinquenta milhões por ano. Destes cinquenta milhões passam vinte para terra estranha; trinta são empregados na chacina de homens. E ponho que, em tempo de paz, se paguem destes cinquenta milhões vinte e cinco; nada passa para o estrangeiro: faz-se trabalhar, para o bem público, o mesmo número de cidadãos que se matavam. Desenvolvem-se os trabalhos de toda a espécie; cultivam-se os campos; embelezam-se as cidades: é-se realmente rico pagando ao Estado. Os impostos, durante a calamidade da guerra, não devem servir para nos obter as comodidades da vida; devem servir para a defender. O povo mais feliz deve ser aquele que paga mais: é incontestavelmente o mais laborioso e o mais rico.
«O papel está para o dinheiro em prata, como o dinheiro em prata está para os produtos: é uma representação, um sinal de troca. O dinheiro só é útil porque é mais fácil pagar um carneiro com um luiz de ouro do que dar por ele quatro pares de meias. Do mesmo modo, é mais fácil a um recebedor da província enviar ao tesouro real quatrocentos mil francos numa letra do que enviá-los de carro, o que fica caríssimo; um banco, uma carta de crédito são, no governo dum Estado, no comércio e na circulação, o que os guinchos são nas pedreiras: levantam os fardos que os homens não poderiam mover a braço.
«Um escocês, homem útil e perigoso, estabeleceu em França o papel de crédito; era um médico que dava aos doentes uma dose de emético demasiado forte; entraram em convulsões; mas é por se ter tomado demais dum bom remédio que se deve renunciar ao seu uso? Dos destroços do seu sistema ficou uma Companhia da Índia que os estrangeiros nos invejam e que pode fazer a grandeza da nação; portanto, este sistema, contido dentro de justos limites, teria feito mais bem do que mal.
«Alterar o valor das moedas é fazer moeda falsa; lançar a público mais papel do que o permite a massa e circulação das moedas e das mercadorias é também fabricar moeda falsa.
«Proibir a saída do ouro e da prata é um resto de barbárie e de indigência; é querer, ao mesmo tempo, não pagar as dívidas e perder o comércio. Efectivamente, é não querer pagar, visto que, se a nação é devedora, é necessário que salde as suas contas com o estrangeiro; e é perder o comércio porque o ouro e a prata são não somente o preço das mercadorias, mas também mercadoria, por si próprios. A Espanha tem conservado, corno outras nações, esta lei antiga que não é senão uma antiga miséria. O único recurso do governo está em que esta lei se transgride sempre.
«Carregar de taxas, nos seus próprios estados, os produtos do seu país que vão de uma província à outra; tornar a Champanha inimiga da Borgonha e a Guiena da Bretanha, é também um abuso vergonhoso e ridículo. Exactamente como se eu pusesse alguns dos meus criados numa antecâmara para deter e comer uma parte do meu jantar, na altura em que mo trazem. Tem-se diligenciado corrigir este abuso, mas, para vergonha do espírito humano, ainda nada se conseguiu.»
Havia ainda outras ideias nos papéis do filósofo; o ministro apreciou-as e obteve uma cópia; e foram estes os primeiros papéis de filósofo que jamais se viram na pasta dum ministro.
[1] Ministro de Luiz XIV, notável pelo desenvolvimento que imprimiu à economia francesa (1619-1683).
[2] Não se deve esquecer que Voltaire pertenceu a uma classe média que mostrou quase sempre pelo povo um desprezo tão grande como o dos aristocratas.
[3] Músico de origem italiana, criador de ópera em Paris (1633-1687).
[4] Ministro de Henrique IV e um dos melhores administradores que a França teve (1559-1641).
[5] Chefe da dinastia francesa dos Capetos (938-996).
[6] Um dos mais notáveis reis ou xás da Pérsia (1557-1628).
Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)
VOLTAIRE, DIÁLOGOS FILOSÓFICOS (II)
DOS EMBELEZAMENTOS DA CIDADE DE CACHEMIRA
Os habitantes de Cachemira são dóceis, levianos e preocupam-se com ninharias como outros povos com negócios sérios; vivem como crianças que nunca sabem a razão do que lhes ordenam, que murmuram de tudo, se consolam de tudo, zombam de tudo e de tudo se esquecem.
Não tinham naturalmente nenhum gosto pelas artes. O reino de Cachemira subsistiu durante mais de mil e trezentos anos, sem nunca ter tido nem verdadeiros filósofos, nem verdadeiros poetas, nem arquitectos sofríveis, nem pintores, nem escultores. Por muito tempo não tiveram nem fábricas nem comércio, a ponto de, durante mais de mil anos, ser obrigado a recorrer a um judeu ou a um baniane o marquês cachemiriano que queria roupa branca ou um belo gibão. Por fim, no começo do século passado, apareceram em Cachemira alguns homens, que nem pareciam da terra, e que, graças à ciência dos persas e dos indianos, levaram a razão e o génio aos últimos limites a que podem chegar. E houve por acaso um sultão que animou estes grandes homens e que, com a ajuda dum bom vizir, civilizou, embelezou e enriqueceu o reino. Os rachemírianos receberam todos os benefícios com zombarias e fizeram canções contra o sultão, contra o ministro e contra os grandes homens que os esclareciam.
Depois, as artes de Cachemira entraram em decadência. O fogo que tinham acendido os génios inspirados pelo céu foi coberto de cinzas. Parecia que a natureza se esgotara. A glória das artes em Cachemira residia quase só nos pés e nas mãos. Havia gente com muita habilidade, que sabia passar uma perna por cima da outra, ao som de instrumentos e com uma graça maravilhosa; outros inventavam todas as semanas um modo admirável de atar uma fita; finalmente, apareceram químicos excelentes que, com essência de presunto e outros elixires semelhantes, punham, em poucos anos, uma casa inteira nas mãos dos médicos e dos credores. Os cachemirianos conseguiram, com estas belas artes, ter a honra de fornecer modas, dançarinos e cozinheiros a quase toda a Ásia.
Falava-se muito, no entanto, em tornar a capital mais cómoda, mais limpa, mais saudável e mais bela do que era; falava-se e nada se fazia. Um filósofo do Industão, grande amador do bem público, e que dava com toda a boa-vontade, e toda a inutilidade, a sua opinião, sempre que se tratava de tornar os homens mais felizes e de aperfeiçoar as artes, passou pela capital de Cachemira. Teve com um dos principais «bostangis» uma longa conversa sobre a maneira de dar à cidade tudo o que lhe faltava. O «bostangi» concordava em que era vergonhoso não ter um grande e magnífico templo semelhante aos de Pequim ou de Agra; em que era uma pena não haver nenhum grande bazar, isto é, nenhum destes mercados e armazéns públicos, rodeados de colunas, que são ao mesmo tempo úteis e decorativos. Confessava que as salas destinadas aos jogos públicos seriam indignas de uma cidade de quarta ordem, que se viam com indignação casas ordinaríssimas sobre pontes belíssimas, e que em vão se desejavam praças, fontes, estátuas e todos os monumentos que fazem a glória de uma nação.
— Permiti-me — disse o filósofo indiano — que vos faça uma pequena pergunta. Por que razão não arranjais o que vos falta?
— Não vejo maneira — disse o pequeno «bostangi» —; ficaria muito caro.
— Ficaria de graça — replicou o filósofo.
— Já nos expuseram esse belo paradoxo — voltou o cidadão; mas são discorrências de filósofo, isto é, coisas admiráveis em teoria e ridículas na prática. Estamos fartos dessas sentenças magníficas.
— Mas que respondestes vós — disse o filósofo — àqueles que vos afirmaram que só era preciso querer com toda a vontade e que nada custaria ao Estado de Cachemira adornar a vossa capital, fazer todas as grandes coisas de que ela necessita?
— Não respondemos nada — disse o «bostangi» —; pusemo-nos a rir, conforme é costume nosso, e não examinamos nada.
— Pois então —retorquiu o filósofo — ride menos, examinai mais, e eu vos demonstrarei este paradoxo que vos tornaria felizes e que vos assusta.
O cachemiriano, que era homem muito delicado, mordeu os lábios, com medo de pregar uma gargalhada na cara do indiano; e tiveram então a seguinte conversa:
O FILÓSOFO — A que chamais vós ser rico?
O BOSTANGI — A ter muito dinheiro.
O FILÓSOFO — Puro engano. Os habitantes da América meridional tinham outrora muita prata de que podiam fazer dinheiro, ainda mais do que aquela que vós podereis vir a ter em tempo algum; mas, como não eram industriosos, não tinham nada do que o dinheiro pode obter: na realidade, viviam na miséria.
O BOSTANGI — Já entendo; fazeis consistir a riqueza na posse dum terreno fértil.
O FILÓSOFO — De modo algum, porque os tártaros da Ucrânia habitam um dos países mais belos do universo e de tudo carecem. A opulência de um estado é como todos os talentos, que dependem da natureza e da arte. Assim, a riqueza consiste no solo e no trabalho. O povo mais rico e mais feliz é àquele que cultiva mais intensamente o melhor terreno; e o mais belo presente que Deus fez ao homem foi a necessidade de trabalhar.
O BOSTANGI — De acordo; mas para fazer o que se nos pede seria preciso o trabalho de dez mil homens durante dez anos; onde haveria dinheiro para lhes pagar?
O FILÓSOFO — E não pagastes vós soldo a cem mil soldados durante dez anos de guerra?
O BOSTANGI — É verdade; e, contudo, parece que o Estado não empobreceu.
O FILÓSOFO — O quê? Então vós tendes dinheiro para mandar para a morte cem mil homens e não o tendes para fazer viver dez mil?
O BOSTANGI—É diferente: fica muito mais barato enviar um cidadão a morrer do que mandá-lo esculpir mármore.
FILÓSOFO — Novo engano. Só trinta mil homens de cavalaria são mais caros do que dez mil artífices; e a verdade é que nem uns nem outros são caros quando empregados na própria nação. Que julgais que tenha custado aos antigos egípcios construir as pirâmides e aos chineses levantar a sua grande muralha? Cebolas e arroz. Acaso as terras lhes ficaram esgotadas por terem alimentado homens laboriosos em lugar de terem engordado vadios?
O BOSTANGI — Vós venceis-me, mas não me convenceis. A filosofia discorre e o costume age.
O FILÓSOFO — Se os homens sempre tivessem seguido essa máxima, comeriam ainda bolotas e não saberiam o que é a lua-cheia. Para executar as maiores empresas só é preciso cabeça e mãos; e tudo se alcança. Tendes belas pedras, ferro, cobre, belas madeiras para travejamentos; só vos falta a vontade.
O BOSTANGI — Temos tudo. A natureza tratou-nos muito bem. Mas que despesas enormes para utilizar tantos materiais!
O FILOSOFO — Não compreendo nada do que dizeis De que despesas falais? A vossa terra produz com que alimentar e vestir todos os seus habitantes. Tendes debaixo dos pés todos os materiais; tendes à vossa volta duzentos mil vadios que podeis empregar; só é preciso fazê-los trabalhar e dar-lhes o salário suficiente para que se alimentem e vivam bem. Não vejo o que isso poderá custar ao reino de Cachemira, porque certamente também nada pagareis aos persas e aos chineses por terem feito trabalhar os vossos cidadãos.
O BOSTANGI — O que dizeis é absolutamente verdadeiro; do Estado não sairão nem géneros nem dinheiro.
O FILÓSOFO — Por que razão não mandais que os trabalhos principiem já hoje?
O BOSTANGI — É muito difícil fazer mover máquina tão grande.
O FILÓSOFO — E como procedestes vós para sustentar uma guerra que custou tanto sangue e tantos tesouros?
O BOSTANGI — Mandamos contribuir, com toda a justiça, em proporção dos seus bens, os possuidores de terras e de dinheiro.
O FILÓSOFO — Pois bem; se se contribui para a infelicidade da espécie humana, não se poderá dar nada para a sua felicidade e para a sua glória? O quê! E possível que, desde que estais organizados em sociedade, ainda não tenhais descoberto o segredo de obrigar todos os ricos a dar trabalho a todos os pobres? Ainda não atingistes os primeiros elementos da civilização?
O BOSTANGI — Mesmo que tivéssemos arranjado tudo de maneira que os proprietários de arroz, de linho e de gado dessem pilao e camisas aos mendigos que empregássemos a revolver a terra e a transportar fardos, nada teríamos adiantado. Seria preciso fazer trabalhar todos os artistas que, pelo ano fora, se empregam noutros trabalhos.
O FILÓSOFO — Ouvi dizer que tendes no ano cerca de cento e vinte dias em que se não trabalha em Cachemíra. Porque não transformais metade destes dias de preguiça em dias úteis? Porque não empregais durante cem dias nos edifícios públicos os artistas desempregados? Os que não sabem nada, os que não têm mais que os dois braços depressa se tornarão industriosos: formareis um povo de artistas.
O BOSTANGI — Mas todo esse tempo é destinado às tabernas e à devassidão; e rende bastante para a fazenda pública.
O FILÓSOFO — A vossa razão é admirável; mas é só pela circulação que entra dinheiro no tesouro público. E não é verdade que o trabalho leva a maior circulação do que a pândega que só traz consigo a doença? E bem certo que seja do interesse do Estado que o povo se embriague durante um terço do ano?
Esta conversação durou muito tempo. O «bostangi» confessou por fim que o filósofo tinha razão e foi ele o primeiro «bostangi» a ser persuadido por um filósofo. Prometeu fazer muito; mas os homens não fazem nunca nem tudo o que querem, nem tudo o que podem.
Enquanto o filósofo e o «bostangi» praticavam assim sobre a alta ciência, passou uma vintena de belos animais de dois pés, com um mantozinho por cima duma longa casaca, um capuz aguçado na cabeça, um cinto de corda à volta dos rins[1].
— Belos rapagões! — disse o indiano —; quantos homens há destes na vossa pátria?
— Mais ou menos cem mil de diferentes espécies — respondeu o «bostangi».
— Que gente magnífica para embelezar Cachemira! — disse o filósofo. Como eu gostaria de vê-los com a enxada, a colher e o esquadro nas mãos!
E eu também — retorquiu o «bostangi» —; mas são santos demais para trabalharem.
Mas que fazem então — perguntou o indiano? — Cantam, bebem e digerem — disse o «bostangi» — ! Como isso é útil ao Estado!
Esta conversação durou muito tempo e não deu grandes resultados.
Cadernos de Agostinho da Silva (excertos)
VOLTAIRE, DIÁLOGOS FILOSÓFICOS (I)
François Arouet, que usou depois o pseudónimo de Voltaire, nasceu em Paris em 1694; era filho de gente da classe média e foi educado num Colégio de Jesuítas, onde pôde travar relações com rapazes pertencentes às melhores famílias do reino; a vivacidade de espírito, a ambição de brilhar e a protecção de parentes levaram-no depressa aos melhores salões e fizeram-lhe antever uma carreira plenamente de acordo com os seus desejos de vida aristocrática; os nobres, porém, entendiam-no de outro modo e nunca se esqueciam da proveniência de Voltaire; um escrito satírico demasiado ofensivo levou-o, em 1717, a fazer na prisão de estado da Bastilha um estágio de alguns meses; em 1725, o senhor de Rohan, que se considerou insultado por Voltaire, mandou espancá-lo e conseguiu, depois, que o prendessem e o fizessem exilar-se pata Inglaterra; neste país se conserva até o ano seguinte e, ao voltar, as autoridades inquietam-no continuamente; em 1734 estabeleceu-se em Cirey, em casa de M.me de Châtelet, o que lhe deixa, pelo afastamento da vida de Paris, aprofundar as noções filosóficas e científicas que trouxera da Inglaterra, e, pela proximidade da fronteira, conservar sempre, entre ele e a polícia, uma certa margem de movimentos livres; a sua vocação para os negócios permite-lhe uma vida de luxo, ao mesmo tempo que espanta todos os visitantes pela sua actividade e resistência no trabalho; há depois uma reconciliação com a corte, mas depressa se vê obrigado a deixar a França e a acolher-se à protecção de Frederico II da Prússia; o entendimento, porém, não podia ser duradouro e, em 1763, Voltaire passa à Suíça, donde vai, sete anos depois para Ferney, em França, mas junto da fronteira; é já nesta altura uma grande personagem europeia, com influência em todas as classes; em 1770 faz uma viagem a Paris, onde o recebem como a um deus, e aí morre a 31 de Maio.
Até cerca de 1730, Voltaire é um poeta como tantos outros do século XV111, embora algumas tragédias, como Zaira e Maomet, sejam em parte, de critica religiosa e social; o exílio em Inglaterra abriu-o a novos problemas e as Cartas Filosóficas já aparecem como um deslumbramento ante o mundo novo que se lhe revelara e como um programa da sua actividade futura; vêm, depois, o Século de Luiz XIV, já com o tema de que a história é uma luta entre a inteligência e a superstição, Zadig, romance filosófico, e alguns dos Diálogos; a progressão acentua-se e é com o período da Suíça e de Ferney, já depois dos 6o anos, que se revela o Voltaire que maior influência exerceu no seu tempo e que a posteridade mais apreciou: o do Ensaio sobre os costumes, do Cândido, do Dicionário Filosófico, do Ingénuo, do Tratado da Tolerância, das dezenas de folhetos que se abatiam com toda a sua vivacidade, toda a sua ironia demolidora, toda a sua terrível penetração, sobre as instituições mais veneradas do regime; ao mesmo tempo surge o Voltaire que organiza a indústria de Ferney, se bate pela reabilitação de Calas, defende a memória do cavaleiro de la Barre; é o infatigável campeão da tolerância, da inteligência, da felicidade humana; servem-no a sua capacidade de apreensão do ridículo, o amor da justiça, a sensibilidade às aspirações profundas do seu século, a corajosa generosidade, o interesse pelo mundo material, o desejo de que o homem se reforme, o estilo límpido, simples, directo, em que, como num florete, tudo contribui para a agudeza e a rapidez do golpe.
Os três diálogos publicados neste caderno são bem representativos de Voltaire: neles aparecem, como fundo, o gosto pelas questões económicas, a luta anti-religiosa, ou melhor, anticlerical, a insistência sobre quanto a situação social pode influir no espírito dos homens; na composição são de notar a naturalidade das falas, o fino desenho das personagens, a sugestão do ambiente em que elas se movem, a habilidade em fazer ressaltar os factores essenciais; ao mesmo tempo que as qualidades vêm as limitações: a clareza de Voltaire traz muitas vezes consigo a superficialidade, o seu ímpeto de ataque tem como contrapartida o exagero e, às vezes, a injustiça, a sua compreensão de certos fenómenos como, por exemplo, o religioso, nem sempre é, como se desejava, profunda e digna; mas também é fora de dúvida que a nossa atitude de maior serenidade crítica nos é em grande parte possível graças ao combate decidido que Voltaire soube travar e vencer.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
É triste não ter amigos?

Ainda mais triste é não ter inimigos.
Porque, não ter inimigos,
É sinal de que não tem
Talento que faça sombra,
Carácter que impressione,
Coragem para que o temam,
Honra contra a qual murmurem,
Bens que lhe cobicem,
Nem coisa alguma que lhe invejem...
Porque, não ter inimigos,
É sinal de que não tem
Talento que faça sombra,
Carácter que impressione,
Coragem para que o temam,
Honra contra a qual murmurem,
Bens que lhe cobicem,
Nem coisa alguma que lhe invejem...
François-Marie Arouet (21 de Novembro de 1694, Paris - 30 de Maio de 1778, Paris), mais conhecido pelo pseudónimo Voltaire [furtado do A Bem da Nação]
Há muito que não pensava no blogue A Bem da Nação, do qual já fui visitante assíduo. Hoje, tendo estado presente na apresentação da Nova Águia na FNAC do Colombo (e tendo finalmente conhecido o Paulo Borges) veio-me à mente o luso-brasileiro blogue quando cheguei a casa, uma ligeira busca internética e lá o reencontrei, encontrei também esta citação seleccionada pelo Henrique Salles da Fonseca.
Se amigos não faltarão ao MIL, o certo é que inimigos também abundarão.
Se amigos não faltarão ao MIL, o certo é que inimigos também abundarão.
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