Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
sábado, 1 de novembro de 2008
A ORGANIZACÃO DA DIÁSPORA PORTUGUESA...
A actual situação de vulnerabilidade das bases económicas e culturais da independência nacional, que se manifesta não só ao nível das estruturas económicas internas, mas também ao nível de afirmação do nosso país no contexto internacional e em particular no contexto europeu, exige dos nossos governantes a realização de uma profunda reflexão visando identificar os factores que possam reforçar a posição de Portugal no mundo face aos desafios da mundialização.
Os responsáveis políticos e os investigadores nacionais têm orientado de um modo limitado e redutor, as suas análises e as suas propostas politicas e estratégicas para os factores de competitividade das estruturas económicas internas, e também par os niveis insuficientes da eficácia administrativa dos nossos sectores público e privado.
Esta visão redutora leva os nossos responsáveis a, consciente ou inconscientemente, esquecer um factor estratégico que já é, de facto, e pode revelar-se ainda mais importante no futuro, extremamente importante para a afirmação de Portugal no sistema de poder ao nível mundial: a diáspora portuguesa, constituída por comunidades que se implantaram e desenvolveram num grande número de países de vários continentes, que se aproximam hoje dos 15 milhões, sendo 5 milhões de portugueses directos, e os restantes luso-descendentes com nacionalidade portuguesa, dupla nacionalidade, ou simplesmente uma ascendência portuguesa.
Pelo elevado seu elevado número, e pela sua cada vez maior importância no contexto social, económico, e político, dos países de acolhimento, as comunidades portuguesas constituem sem dúvida um dos maiores vectores da influência e da afirmação de Portugal ao nível mundial.
É incompreensível em termos políticos e mesmo históricos, que os nossos dirigentes não tenham até agora, « devido a uma cegueira política e ideológica que infelizmente tem afectado, até hoje, partidos e intelectuais » tomado consciência, nem concebido estratégias adequadas para dar expressão real á grande força de re-dinamização e de reforço da nação portuguesa que constitue a nossa diáspora.
A nossa diàspora no mundo deve ser orientada e ajudada a organizar-se de maneira inteligente para que ela possa dar uma nova dimensão ao potencial de afirmação e de influência histórica dos portugueses, e ao reforço da portugalidade no mundo; não só politicamente, através da participação dos emigrantes na vida política dos países de acolhimento, mas sobretudo ao nível sócio económico, através do estabelecimento de redes de cooperação empresarial e de solidariedade profissional.
O poder político e as administrações públicas, nomeadamente as diplomáticas, de que o nosso país dispõe, na situação actual, não tem meios, nem um projecto político á altura para realizar a grande tarefa nacional que é a organização da diáspora portuguesa ao nível mundial.
Face a esta insuficiência decorrente da incapacidade actual do estado, da administração, e do nosso sistema político - o caminho mais fácil, o mais evidente, é o do fomento da auto-organização da nossa diáspora, mobilizando a sua capacidade de iniciativa e o seu dinamismo, pois os seus grupos mais activos e mais esclarecidos poderão suprir estas insuficiências públicas formando e dinamizando um projecto político e organizativo expressamente adequado para esse efeito.
Um projecto naturalmente virado para defesa dos interesses dos portugueses e de Portugal no mundo, englobando todos os países de expressão portuguesa, e as regiões onde a língua e a memória portuguesa ainda subsiste, como por ex. Malaca, Goa (veja-se o dinamismo do site Viva Goa), Damão e Diu, Casamança (crioulo português), Indonésia (Flores) Togo e o Benim ( S. João Baptista de Ajudá), sem esquecer a Europa, onde em países como a França e o Luxemburgo onde a comunidade portuguesa tem grande relevo.
Malaca, onde cerca de 3 milhões de pessoas falam, cantam, sentem, vivem, e rezam á maneira portuguesa, esquecidos há muitos anos pela pátria longínqua que lhes deu uma identidade, sem escolas ou apoios culturais que lhes permitam não só a continuação evolutiva da língua, como da sua própria expansão nesse canto da Ásia ; Guiné e Senegal onde a língua portuguesa entrou oficialmente nas universidades; África do Sul, onde começa a despontar a importância nacional da língua portuguesa como forma diferenciada da colonização inglesa com a influência e o apoio de moçambicanos e angolanos, na Africa do Sul o português ocupa já uma posição de relevo nos lugares das línguas oficiais ;
Na Califórnia e nas Costa Oeste e Leste dos Estados Unidos; no Canada, cujo território foi descoberto e baptizado pelos navegadores portugueses os irmãos Corte Real.
Países e espaços que se acrescentam e complementam os Países de Língua Oficial Portuguesa: Brasil, Angola, Moçambique, Guiné – Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e Timor. Todos estes países têm hoje já as suas próprias diásporas espalhadas pelo mundo. Diásporas lusófonas que pertencem pelos laços humanos, históricos e espirituais à portugalidade, à comunidade histórica dos países e dos povos que falam e sentem em português.
Timidamente, demasiado timidamente, o governo central de Lisboa começa a reconhecer o potencial de influencia da nossa diàspora, embora sem ter um projecto político á altura, nem estruturas consequentes de apoio.
Aproveitando os recursos das novas tecnologias de informação e de comunicação, há que promover a criação e a multiplicação de 'cyber' espaços e de redes ‘Internet’ de contacto, diálogo e solidariedade entre os grupos que constituem a diáspora portuguesa alargada no mundo.
Existem hoje meios instrumentais e técnicos que permitem com facilidade pôr em comunicação e organizar, auto-organizar, as centenas de milhões de indivíduos que falam português e reivindicam a portugalidade no mundo.
Esperemos que este potencial irrefutável possa ser compreendido pelos nossos responsáveis políticos.
Sequeira Carvalho
Bruxelas
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Somos todos ciganos
Em tempo salazarento Portugal era o País dos três efes: Fátima, Futebol e Fado. Hoje, Portugal é o País dos três efes: Fundos, Finanças e Futebol. A História, por mais que queiram que ela mude constante e permanentemente, bem ao contrário vai avançando com bastas repetições, mas, sobretudo, com muitas adaptações.

Somos, aliás, uma raça de adaptados – e de adoptados. Costumo dizer que somos ciganos. Não os dos tiros, das desordens, das feiras, dos roubos, da droga – que os há, como é sabido. Se calhar, também possuímos um qb destes nos cromossomas a que temos direito. Porem, aqui, é outro o conceito. Para constatar que somos uma mistura aciganada, basta que miremos a nossa genealogia.
Os residentes sem cartão mas residentes, começaram, segundo dizem, por ser os protoibéricos. Na fila (antigamente eu usava bicha, mas hoje…) encontramos de seguida os ibéricos, os lusitanos, os romanos, os vândalos, os suevos, os alanos, os visigodos, os mouros, e diversos outros que não menciono para não esgotar as listas de registo e as respectivas certidões. Mesmo assim, convém não esquecer os fenícios e os gregos. Muitos.

Já nos primórdios da nacionalidade, conta-se com um bolonhês e cruzados das mais diversas origens, tonalidades e defeitos, sem certificados de qualidade e de proveniência. Isto tudo misturado – miscigenado para usar palavra erudita que fica sempre bem em escrito – foi originando o Português. E vieram os Descobrimentos. Mais achas para a fogueira. Pretos, indianos, malaios, chineses, coreanos, tailandeses, chinês, japoneses, timorenses. É obra.
Bom, já o tenho escrito, nós colonizámos sobretudo na cama. É esta comezinha constatação, no meu mais do que modesto entender, que pôde justificar a afirmação de que a nossa colonização foi diferente de outras, ou, mesmo, das outras. Não terá sido completamente assim. Mas quem é o escriba para assim perorar, se a mulher com quem casou de igreja e tabelião, é… Goesa?
Acrescento só mais uma pequena «ocorrência». O nosso terceiro e último filho nasceu em Luanda. Quando já nos reinstaláramos em Portugal, findos os anos de Angola, fomos registá-lo na Conservatória dos Registos Centrais. O zeloso funcionário encarregado de fazer o assento, perguntou o nome do rapazito: Luís Carlos etc. Natural de? Luanda. Filho de? Henrique torna e deixa, natural de Lisboa, freguesia de São Sebastião da Pedreira (há uma caterva deles). E de Raquel tal e modos, natural de Raia, concelho de Salcete, antigo Estado Português da Índia. Abreviando: as duas testemunhas arregimentadas à porta conservatorial, eram, um moçambicano, e o outro, damanense. Palavra de honra.

O agente administrativo apontou tudo cuidadosa e conscientemente, à mão, naturalmente, no livro de registos monumental, leu o escrito e deu para assinar. Finalmente, fê-lo ele próprio. Só por pura curiosidade e face ao fácies, perguntei-lhe de onde era. Do Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde.
Saímos, agradeci às testemunhas e paguei-lhes o combinado, já que nunca nos tinham visto, sendo que um era amigo de um primo da Raquel, da Beira e outro conhecido do meu sogro que fora director da Alfândega de Damão. E foram à vida deles. E nós, à nossa. Um slogan então muito na moda referindo a banca, saltou de imediato do Paulo o meu do meio: «Olha, agora és nacionalizado, nosso»…
E logo o Miguel, o primogénito, plantou uma alcunha no pimpolho com os seus quatro anos: «a partir de hoje, és o tuti-fruti».E depois, digam-me lá se somos ou não somos ciganos?
(Também publicada no www.sorumbatico e noutros, vários...)
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Goa-Research-Net convida as Águias forum-eiras!
O fórum conta neste momento com 238 membros e o sucesso do fórum depende da participação activa de todos os membros. Não favorece a presença de membros dormentes e dos curiosos escondidos. Este fórum é “controlado”, não para exercer censura das opiniões pessoais, mas para evitar exageros e contestações menos respeitosas das opiniões dos outros. Não se permite neste fórum colocação das opiniões dos terceiros ou dos outros que não estejam presentes no fórum para se defenderem. Em suma, e para utilizar um termo tipicamente goês, não providencia espaço para «diriô», ou seja, touradas. O Moderador reserva o direito de excluir qualquer mensagem que considere ofensiva ou pouco conducente para o cumprimento dos objectivos deste fórum. Qualquer membro que não se sujeita à displina do fórum após lhe ser chamada a atenção, poderá ser excluido da participação no fórum.
Este fórum é dedicado a Abbé Faria, um pioneiro oitocentista do hipnotismo. Ele é apresentado na página inicial deste fórum com uma ilustração filatélica. Portugal dedicou-lhe um selo comemorativo por ocasião de 250 anos do seu nascimento. Para ler mais sobre ele:
http://www.geocities.com/Athens/Forum/1503/faria.html
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
O dancing-bar "Vasco da Gama"


Quase fronteiro ao meu está o prédio onde é rei da noite local o ‘Dancing-Bar Vasco da Gama’, catedral da luxúria e dos desejos lascivos com bolsos menos afortunados. Uma prostituição de classe intermédia, sem ser a naif que se visita nas barracas do caniço profundo nem a espampanante dos bares próximos ao porto, lá na zona baixa da cidade, Rua Araújo e adjacentes; algo a meio caminho entre a modesta capulana que se abre num só gesto, para alimentar a criança que também aninha, e as mini-mini saias de lantejoulas e meias de nylon, também o modesto lenço na cabeça em oposição à cabeleira postiça, rígida de laca e despenteada em vãs ilusões.
Cresci conhecendo-as, mirando ao longe a sua ostentação corporal, e não fui muito tempo indiferente à sua oferta. Nas noites em que adormecia ouvindo o seu linguarejar que subia a rua onde os táxis se sucediam, as suas gargalhadas, às vezes os seus gritos e impropérios, na privacidade dos sonhos íntimos adivinhava em mim cresceres, maturações corporais, e nas carícias onanistas que a mim concedia eram elas as ninfas que oniricamente as guiavam.
A fauna militar em folga era a clientela de eleição do bar, mais o pequeno assalariado da cidade de cimento, mais todos os malandros e proto-malandros do bairro e arredores. Por tudo isto, pelo caldeirão inevitavelmente explosivo que junta putedo e tropa, embriaguês de frustrações e vidas falhadas, a autoridade policial era visita regular do ‘Vasco da Gama’. Se os jeep’s da polícia civil só lá acorriam quando chamados a por cobro a desmandos, mais frequentes em fins-de-semana, os da polícia militar paravam sempre por lá na sua ronda, com os tropas de capacete branco bebendo nos olhares de receio os ‘desenfiados’ que procuravam. Noutras vezes acorriam chamados pela polícia civil por causa de brigas que envolviam militares, assim como a polícia aérea e a naval, embora estas fossem raras de ver nos subúrbios da cidade pois os seus soldados eram elite ao lado do vulgo ‘feijão-verde’, e saciavam necessidades de evasão em locais mais perfumados que este ‘dancing-bar’ de 3ª classe, onde as incansáveis juke-boxes eram substituídas por veros conjuntos musicais, e a idade das moças ofertantes não pesava tanto nos atributos físicos que vendiam, como nas, que em regra, ganhavam os dias nas noites do ‘Vasco da Gama’. Naturalmente estava proibido de lá entrar, ou sequer de me abeirar, quando os serões de verão autorizavam gostosas horas em brincadeiras no passeio em frente ao meu prédio.
Entre nós, putos do prédio que nos juntávamos em conversas secretas num qualquer muro enseroado tentando adivinhar o crescer, o ‘Vasco da Gama’ e o seu acesso era visto como se de passaporte para a desejada vida adulta se tratasse. O nocturno, o verdadeiro. Porque, à luz do dia, todos nós, em grupo ou a solo, já lá tínhamos penetrado olhos curiosos a pretexto duma chuinga ou duma laranjada. Tentando descobrir no bucólico vazio das mesas a magia da sua animação nocturna, no olhar a uma ou outra prostituta em espera de trabalho fora de horas, tentávamos adivinhar segredos que a vida ainda não desmistificara. Passaram anos e noites húmidas antes de ousar nele penetrar na sua hora própria, palácio de desejos e tentações revelado em toda a sua cor e ruído, alegria. Timidamente, claro. Mais ousadamente à segunda, claro, como se de veterano desses folguedos se tratasse. Depois mudei de bairro e não tenho memória de lá ter regressado, ganhara outras asas e independências que iam mais longe que o furtivo atravessar duma rua. Mas passava lá em frente muitas vezes, mais de dia que de noite, e havia sempre um olhar cúmplice que trocava com a sua fachada, com os seus velhos dizeres a néon.
Quando a Frente de Libertação de Moçambique entrou na capital moçambicana após o acordo de Lusaka de 1974, careceu dum local para sua sede e foi o edifício do velhinho ‘dancing-bar Vasco da Gama’ que foi escolhido. Foi simbólica a mensagem que pretendeu transmitir, e eu percebi-a. Mas, quando lá passava e os olhos brilhavam ao fitá-lo, não o faziam só à bandeira das utopias que lá esvoaçava, ainda prometedora; era também ao néon definitivamente apagado e às memórias que ele me induzia, ao tempo do “era uma vez”, vezes tantas que marcaram o meu crescer e ensinaram-me que há mistério e beleza numa puta que sorri e gargalha, seja envolta em gasta capulana ou despida em lantejoulas.
(fotos do jornalista moçambicano Ricardo Rangel, ambas obtidas no blogue do meu blogo-amigo 'jpt': o "ma-schamba".)
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Humanus Laurentinus
Face à mutação de climas e de ambiente, embora apresente ainda coloração bronzeada, acredita-se na sua extinção completa em 30, 50 anos. Os descendentes reconhecem objectos e locais visualizados, mas o seu sentido de olfacto não memorizou outro trópico, e o seu corpo não reage da mesma forma à exposição solar ou ao calor. A sua rápida adaptação ao novo habitat e dispersão por outras tribos do sul europeu e doutras regiões por onde se espalharam (após movimentos sociais de algum vulto doutra História), não tem permitido aos antropólogos um estudo mais aprofundado desta espécie que, ainda que de curta existência autónoma, vê-se ameaçada de morte pela impossibilidade de recriar o local de nascimento para procriação de novas gerações que reúnam as mesmas estruturas, e permita adoptar os mesmos comportamentos tribais.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Algumas memórias recém-publicadas em Goa e em Portugal
São memórias de cinco autores goeses e quatro portugueses. Qualquer delas já vem tarde para intervir e alterar o rumo.
São pós-visões do passado, e o pós-visionismo põe em risco a capacidade de captar a contemporaneidade dos processos que acompanharam as lógicas imperiais. Mas acho que podem ter algum valor positivo de apanhar as implicações destes processos a longo prazo.
As transições e a continuidade merecem ser levadas em conta para avaliar melhor os processos que nos interessam e que não podem ser estudados validamente somente na sua contemporaneidade e isolados do seu passado e do seu futuro.
É com esta perspectiva de “processos contemporâneos” que eu pensei em chamar a atenção para a utilidade das memórias “recém-publicadas” de alguns actores que participaram nesses processos. Quero deixar um caveat: São também armadilhas “montadas” e que nos podem distrair do verdadeiro caminho para a compreensão dos mesmos processos.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Memórias Moçambicanas IV - Levanta-se o réu!

A tarde de sábado nada prometia em especial e no grupo que se formara no bar do hotel Moçambicano o consenso foi-se formando. Sobre a mesa e ao lado das bicas que o mestre Abílio ia servindo, sempre muito elegante na sua magreza com o lacinho negro na camisa branca, casaco azul, já só restavam duas propostas como aproveitáveis para salvar a tarde, que a noite já era sempre outra conversa e poderia depender e muito da forma de passá-la, a tarde. Há festas que nascem diariamente e nos locais mais insuspeitos: havia que circular para gozar o dia e preparar a noite. Portanto era: umas voltas de carro por outros cafés à procura de novas doutros grupos, eventualmente visitar um ou outro à porta de quem passássemos e desse para entrar e ouvir uns lp’s, ou ir ao cinema pois havia sempre um filme ou outro que valeria a pena ver e, lá, pela fauna sabiam-se muitas novidades sobre a flora. Nem me lembro em qual votei mas o certo é que a última ganhou e lotamos o meu carro rumo à baixa da cidade, descendo a antiga av. Anchieta de forma a tomar-se a da República (esta hoje av. 25 de Setembro, ao que penso) por detrás do Bazar, perto do restaurante Telavive e depois da cervejaria Nacional. A intenção era de passar em frente ao Scala e ver os cartazes e o tamanho da fila, idem para o Avenida, Dicca e Estúdio 222.
Como nas salas de cinema não se fuma, e lá dentro ou cá fora é também proibido fumar cigarros feitos à mão e de conteúdo exótico, o carro parecia um cinzeiro ambulante quando virou a esquina já contada. Éramos cinco, ia cheio. Não sei bem quem lá ia mas havia mais de um encartado, e eu não era nenhum deles. Talvez pela névoa interna ou pela imunidade que a idade imagina, quando entrei na avenida da Republica e vimos o auto-stop ao fundo, ainda distante, visível pelo aparato pois era feito de ambos os lados da avenida, os comentários não divergiram muito do já habitual resmungo à seca que eram ou auto-stop’s policiais, agora acrescidas de revistas aos carros, até ao prudente conselho de apagar as beatas e fechar as janelas. Pensando bem, além de ter podido estacionar e mudar-se de condutor, poderia ter feito entrada pelo parque do bazar e depois um desvio para a av. D.Luís, ou até uma inversão de marcha sem nenhum problema para além dos normais de trânsito. Mas foi com postura inocente e ar cândido que o conduzi a Daihatsu 1000 Station para a boca do lobo, melhor contando a palma da mão erguida da camarada Hamina Daúde, moçoila com umas trancinhas na carapinha e voluptuosamente excessiva para a apertada farda azul que tinha, ainda a cheirar a nova. E bastante aborrecida no momento, facto que veio a originar a segunda parte desta história. O carro estacionado antes do meu, e também sob seu controlo, tinha um problema com o fecho da bagageira que não cedia a nenhuma investida, com ou sem chave. Não abria, e ela e o condutor já estavam meios esquerdos um com o outro. Um porque aquilo não abria de forma nenhuma, a outra porque o queria ver aberto.
Em tão sorridente cenário dei-lhe um montão de cartões para a mão na esperança da quantidade ocultar as carências. As coisas estavam portanto bem encaminhadas e já havia quem olhasse para o relógio e fizesse contas ao tempo que duram os documentários antes do filme... Entretanto, a camarada Hamina dedicava mais atenção à zanga com o meu colega da frente e já era ela em corpo e peso que investia sobre a impávida fechadura, sem nenhum sucesso e com os meus papéis na mão. Pensei estar aí a oportunidade e aproximei-me do carro da mala avariada para namorar-lhe a devolução da minha papelada mais a ordem para recuperar o já anunciado atraso para a matiné, quando a situação descambou, como tem tendência a descambar o que anda torto.
Mas ela, camarada polícia Hamina Daúde como depois li nos bilhetinhos que amorosamente me dedicou e autografou, estava sem paciência para decidir sobre questões filosóficas que fossem além da viabilidade de pegar numa chave de rodas e escaqueirar a traseira do outro carro até que a bagageira desistisse e abrisse a boca, e como estava com vontade de reinvestir sobre a maldita aviou-me com uma multa e com uma espécie de notificação para ir à morada tal, logo na segunda-feira seguinte, explicar melhor essa história meio esquisita do papel-que-não-era-carta-mas-valia-tanto-como-se-a-fosse. Até mais, provavelmente diria quem me ouvia, mas ela estava surda. Bem, o tal vago "terceiro" que tinha de ser encartado lá passou para o banco da frente e lá fui a resmungar para o cinema, eles com hilariantes piadas mascaradas de palavras de conforto, eu a ver a vidinha complicada.
Lá chega a minha vez, e estava embrenhado a contar a minha vida em números e moradas ao zeloso escrivão quando me apercebo que está alguém ao meu lado, atento ao que ouve e a tentar ler pouco discretamente a folha que já se dobrava sobre o rolo da máquina e descaía para a secretária. É outro de raça branca, um rapaz mais ou menos da minha idade. Olhamo-nos e eu, que até então estivera para ali mudo a ler o jornal de parede e os editais pendurados até começar a debitar às perguntas do escrivão, perguntei-lhe, confesso que com olhar solidário: "- é por não ter carta. e tu?". Não gostei do olhar dele, mas esse e o silêncio de resposta foram rapidamente esquecidos porque o questionário ainda não terminara, e também porque ele desapareceu como aparecera. Quando olhei de novo, já se sumira. E lá fomos para a sala do julgamento. Chamaram-nos todos ao mesmo tempo e lá nos sentamos à espera que a sessão começasse. Talvez uns catorze ou quinze, à volta disso. Pelo que já perceberam todos os outros réus eram de raça negra, e esclareço que a maioria era tão jovem que as suas caras indiciavam ainda serem mais novos que eu, eu que então tinha vinte anos e já 'emancipado' para tirar a carta de condução mas que nunca sentara o inhófe num carro de ensino.
A sala tinha bancos corridos cá atrás, uma paliçada para lá do meio e, ao fundo e sobre um estrado em madeira como os das salas de aulas antigas, a douta secretária vaga à espera do juiz, que surgiu aperaltado com a primeira toga que vi ao vivo na minha vida. Era ‘ele’, o outro rapaz branco, o curioso de poucas falas, provavelmente um dos estudantes de direito que foram promovidos ad-hoc a juízes de causas menores após a sangria geral de quadros no sistema público que o fim da administração colonial portuguesa trouxe a Moçambique. Estava a começar a ter a sensação de que esta história toda começara mal e estava com sérias vontades de assim continuar, render juros em memórias prolongadas, enfim, já me coçava. É feita a chamada individual e das perguntas e respostas extraio que o resto da malta trabalha toda em oficinas e contam que ganham uma miséria, eu sou o único empregado num escritório e ganho a fortuna de sete contos por mês – já o confessara ao tal da máquina de picotar e era com espanto que ouvia os ordenados dos outros e achava-me rico sem nunca antes de tal fortuna me ter apercebido. Mais o emprego de luxo ao lado das roupas com manchas de óleo. E não se esqueça que era o único português e branco, eles eram todos moçambicanos e negros. Como a tal cereja que não deve faltar em cima de bolo que se preze, o caríssimo juiz podia estar mal impressionado sobre a minha curiosidade sobre a sua personalidade criminosa. Estava tramado...
Foi com este ânimo que ajeitei a camisa para dentro das calças e passei a mão pelos caracóis, e avancei para o homem do bibe preto quando chegou a minha vez. Optimista e diplomata, ter-lhe-ei feito até um pequeno aceno de velhos conhecidos, e cá de baixo terei piscado o olho lá para cima tentando ocultar que já estava a suar fininho, a minha estreia judicial estava mesmo a correr mal. Os olhos dele gelavam quando olhou para mim, de cima para baixo e voltaram a subir, e disse-me e eu também gelei: "- Isso são maneiras de apresentar-se num Tribunal?" Impossível. Era impossível. Primara como se fosse a um baile, até tivera o cuidado de limpar o pó do assento da carrinha para não me sujar a caminho do tribunal, e não viera na motorizada por isso mesmo. Olhei-me todo, até conferi se a braguilha estava ou não fechada, e mirei os sapatos; tudo normal, mais do que bom e até podia ir casar-me. A minha cara de espanto era tão natural quando lhe voltei o olhar que, então, ele apontou-me a razão lobrigada para abrir a lide com capote de ouro, e declarou em voz de indignação autoritária: "- O botão! aperte-o!" E apontava para a minha camisa que tinha não o vulgar um mas sim dois botões desapertados. Aquele velho hábito de justificar com a entrada de ar fresco e deixar a peitaça à mostra das pitas, o segundo botão desapertado... se não fosse um tribunal até um terceiro tinha seguido igual caminho, digo, abertura.
Bem, lá o apertei e não sei quantos tormentos legais depois ouvi a pena. Uma quantidade enorme de dias de prisão (mentalmente já estava a fazer contas às férias que seria forçado a antecipar e gastar com a 'pildra'), no fim explicado que eram dias remíveis ao pagamento duma multa, um dinheirão por cada dia. No fim de tudo e da toga findar o seu tenebroso voo, juntamo-nos todos junto ao escrivão que fez as contas individualmente a cada um, mais as custas. Calhou-me quatro contos e quinhentos, o que me deixou teso e a ganir um mês inteiro. A malta das oficinas, colegas de crime mas não de profissão, ficou com uma média de um terço do que eu tive de pagar daí a uns dias. Raios partam as manchas de óleo na roupa, a descabida pretensa solidariedade racial, e a ditadura do proletariado que impunha complexos de pequeno-burguês a quem não trabalha a terra ou nos caminhos-de-ferro. E raios partam a camarada Hamina Daúde pois essa malandra das trancinhas é que teve a culpa daquilo tudo. Vinguei-me depois, numa das historietas do "Demmis" e da "Amélia": ainda não foi promovida e continua na esquadra da Baixa a fazer o giro, como castigo condenei-a a eternos pés-chatos.
Uma nota final pois lembrei-me dela na busca de hipótese de localização do tal ‘tribunal de polícia’ na Maxaquene. Estou em crer que é no mesmo velho edifício de traça colonial, onde funcionava uma repartição pública tipo conservatória de registo civil, e onde até 30 de Setembro de '75 se entregavam as declarações de opção de nacionalidade e se instruíam os processos de naturalização moçambicana. Foi lá, nos últimos dias, que entreguei a minha opção, ainda tenho guardado o recibo dos emolumentos. Nasci em Lisboa mas vivia em LM desde os sete anos. Foi essa a minha decisão do coração.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Epistolar estudantil: as minhas memórias do Liceu António Enes




Há tempos recebi um mail que me provocou uma chuva de memórias em volta da minha fugaz passagem pelo Liceu António Enes de Lourenço Marques, hoje respectivamente Escola Francisco Mayanga e cidade de Maputo.
Veio de alguém que não conheço e que sabendo provavelmente por algum comentário meu aqui pela Internet que lá tinha ‘passeado os livros’, divulga-me um site alusivo e diz que recordações daquele tempo, estórias que são a sua história, são bem vindas.
Na resposta alarguei-me, pois conforme escrevia ia recordando mais e mais... Ficou assim:
“A. J., meu amigo: primeiro quero agradecer-lhe ter-se lembrado de mim como ex-aluno do Liceu António Enes. Não sei se foi pelos sites MSN ou pelo blogue que soube que fui lá (mau) aluno, e acredite-me que muito me sensibiliza este convite. Tenho é um grande problema: como se terá talvez apercebido quando escrevinho recordando o meu passado laurentino, a minha memória do Antº Enes já é bastante difusa e por exemplo digo-lhe que tenho recordações mais fortes da Escola Joaquim de Araújo, para onde 'transitei' após subtil sugestão da reitoria do AE aos meus pais... bem, mas essa é uma das tais estórias que me deixam envergonhado e pelo menos até me dar uma de louco, não a conto a não ser com sentença judicial e sob tortura, perdidos os recursos possíveis e portanto transitada em julgado, sem emprego possível em Londres na V & A, Associados, Ltd."
Bem, e vendo melhor, até que me lembro de alguns episódios no AE onde passeei os books dois anos e onde a minha irmã já era ‘dos crescidos’... foi lá à porta, naquele terreno tipo baldio mesmo em frente da escadaria, do outro lado da estrada, que levei um enorme arraial de porrada, provavelmente o maior até hoje, felizmente... uma daquelas estórias entre putos que depois já não se sabe como nem quem começou; mas ficou no ar público aprazado combate fora do recinto da escola e no fim das aulas... o 'incidente' entre eu e o meu algoz deverá ter-se passado logo à entrada ou no 1º intervalo, dedução que obtenho do peito feito que então fiz e lhe mostrei, ao desafiar para umas lambadas 'a sério' um matulão qualquer que me pisou os calos ou eu a ele... na verdade e lembrando-me, conforme as aulas iam passando e a cada intervalo, havia cada vez mais olhares de pena que me eram dirigidos e lá no corredores ou no pátio era apontado a dedo com um olhar de dó e aquela curiosidade mórbida, então já latente em nós, putos e pitinhas, de saber quem era - e ver-lhe a cara..., a anunciada vítima do massacre já apregoado por todo o liceu... é que o outro era - e não estou a justificar o arraial que levei, não!, ele era um bom palmo maior que eu, além de demasiado bem entroncado ao lado do lingrinhas caixa d'óculos, eu. Quando saí e desci as escadas fronteiras eu não imaginava que 'descia' para o cadafalso, eu fazia-o de facto: é que fi-lo entre duas filas de salivantes espectadores e quando levantava os olhos do chão era para ver na outra extremidade, já no tal terreiro, o meu carrasco pronto para a exibição do século: até já estava sem camisa e eu, mesmo míope, já imaginava mais que via músculos a mais para os (poucos) que eu admitia aguentar... bem, como o resultado era já antecipadamente conhecido fui-me logo a ele e - espero que a memória esteja correcta, em defesa da minha honra!...., a 'primeira' foi minha e acertei-lhe. Depois... ok, depois as coisas começaram a correr mal a uma velocidade excessiva, acho que deixei de ver as caras que me rodeavam quando dei a talvez 5ª volta no chão, até que a minha irmã apareceu, avisada por alguma inimaginável alma caridosa de aluno e conseguiu safar-me do maior arraial de pancada que levei em toda a vida. Permito-me aqui fazer uma pausa para repetir o já falado "felizmente".
(na última imagem vê-se esse terreno; é o mesmo ao fundo da avenda que termina em frente ao Liceu, onde está agora um muro. Na penúltima, reparem no tamanho da escadaria neste ângulo e visualizem-me com os olhos do meu pavor naquele momento, cordeiro a caminho da ara onde seria sacrificado em nome da Honra de Macho...)
E do AE onde, sei lá se no 1º ou 2º ano que lá andei, na estrada que passava entre o campo de básket e as barreiras, ao lado duns prédios que ali havia, houve uma explosão de granada e, contava-se, morreu um 'terrorista' que a transportava. Sim, vivia-se no tempo em que o 'terrorismo' era o diabo colonial e a explosão até poderá ter sido por um acidente, algo do género: sabe-se que muitos militares após desmobilizados traziam consigo material de guerra desviado aos direitos, como soe dizer-se. E até quando de férias na 'capital' provavelmente alguns lembravam-se de meter umas 'castanhas' ao bolso, nem que fosse para se armarem aos cucos junto dos amigos do antes-tropa. Bem, sei lá se verdade ou boato, a estória correu então assim e lembro-me de se apontar para umas manchas na parede exterior do tal prédio ao lado do qual a tragédia aconteceu, e para as árvores perto, e apontarem-se as manchas e gritar-se 'sangue', e apontar-se tudo o que fosse susceptível de parecença ou confusão e gritar-se ainda mais que aquilo eram pedaços de carne do 'terrorista'. E se calhar sim, até era sangue e carne do desgraçado que rebentou a ameixa nas próprias mãos. Sei lá. Mas nesse dia já não houve mais aulas e fomos todos mandados para casa. Uma estória do Liceu António Enes, portanto...
Também me recordo dum ‘granda maluco’ que lá havia - há-os sempre em qualquer escola que se preze! e que por via duma aposta, daquelas apostas estúpidas que se fazem quando a parvoíce é a nossa forma de viver "não és homem nem és nada se não fizeres isto ou aquilo", o grande doido saltou da varanda do 2º piso - e se o pé-direito dos andares do AE era pequeno... - para um daqueles pátios com relva que lá havia (e ainda há)... claro que partiu os dois tornozelos e houve peregrinação ao local onde, supostamente mas não contestado por ninguém! viam-se as marcas dos seus pés quando caiu, marcadas na relva. São assim os Heróis, não é? eheh e se nessa idade temos tendência de acreditar em heróis, em imaginá-los como bem reais e nossos conhecidos... da lenda consta ainda que antes do salto que lhe deu acesso aos anais, ele foi-se informar com o prof de ginástica em como se devia 'cair bem' após um salto; e dizia-se em defesa do Herói que ele até fez tudo bem e deveria ter saído da aventura como o novo Vice-Rei da cidade, e incólume, e isso só não aconteceu - o incólume, obviamente... porque ele cometeu o erro xis e o erro ypson, coisa que nós nunca faríamos se um dia nos tivéssemos de submeter a tal prova de masculinidade que nos abriria as portas da glória. E abanávamos a cabeça que sim, todos muito entendidos nessas coisas de saltar dum segundo andar. Já não me lembro do nome do 'herói' mas recordo-me da estória do salto, episódio já da história do LAE.
(na 2ª imagem um dos tais dois pátios interiores; reparem na altura do varandim do segundo andar...)
Lá conheci a Alice, o meu primeiro amor, tal como o conto no Xicuembo sob o título "quando os amores eram eternos". E, sabe-se, não há amores como os primeiros, além de que, facto, a Alice era a pitinha mais linda em toda a cidade. Brigava então e brigo hoje com quem o negar. Hoje e via esta maravilhosa Net, voltei a encontrá-la e deixei os olhos sorrirem ao recordar os rubores que sentia quando ela me olhava, indecisa entre o trocista e o amigável; do terno que era era estar-se perdidamente apaixonado com dez anos, mas ser tão tímido que caso ela me dirigisse palavra morria de facto e de jure de imediato. É bom recordar...
Sei lá como nem porquê, foi no AE que tirei o curso de "chefe de quina" da Mocidade Portuguesa, coisa que me deu muito jeito quando fui emigrado para a J. Araújo e, mui prazenteiramente, livrei-me de marchar na minha turma aos sábados de manhã pois, estúpidos, os de lá quando souberam que era ch-d-q deram-me uma turma inteira (a mim!!!) para 'comandar'... caramba! nunca na Araújo houve malta mais acertada e disciplinada a marchar como a 'minha' turma era, e isto até virarmos a primeira esquina e, em posição de sentido, após rápidos olhares em volta para ver se havia mouros na costa, ouvir-se o mais célere 'destroçar' que as manhãs de sábado da Araújo alguma vez ouviram, por certo... era um "ala que se faz tarde" e lá por trás, pelo lado das oficinas, raspava-se tudo o mais depressa possível e havia toda uma manhã de sábado à nossa espera... não podíamos era ficar lá dentro pois 30 putos fardados a passear dava mais nas vistas que a falta duma turma inteira a marchar.
Eu seguia sempre para a Baixa e passava horas com os sonhos colados à montra da Casa Vilaça, vendo os Matchboxes, os Corgi e os Dinky Toys. Ou ia ao John Orr, do outro lado da rua, e chegava a conseguir que me dessem um dos catálogos anuais que essas marcas de miniaturas faziam com fotos das colecções inteiras, que eu lia e relia até materializar em sonhos todos os prazeres que a sua posse (virtual, sim, é verdade; mas que sonhava, isso...) dava. Houve uma altura em comecei a temer que alguém estranhasse um puto fardado andar desenfiado na Baixa à hora em que deveria estar a marchar e a dar ordens de "à esqueerda! o..bli....quaar! 'êrdo, 'êito, óp eis, 'squerdo 'eito, óp eis, 'squerdo!", e tinha uma severa desconfiança que naquele mundo gigantesco da baixa de LM dos adultos, as minhas divisas de chefe-de-quina não serviriam para me safarem se alguém estranhasse e me inquirisse.
Comecei a atravessar a rua para o outro lado mas não julgue, caro A. J., que me escondia nos Correios ou no Scala. Não evito um sorriso quando me lembro que ao fim duns tempos eu já não atravessava a rua para me esconder: quando chegava à Baixa, desenfiado da MP aos sábados de manhã, entrava directo na Biblioteca e alarguei lá a minha capacidade de sonhar anos que, indubitavelmente, eram muito mais propícios e dignos de qualquer outra parvoeira que de... marchar :-(
(finalmente, na primeira imagem, o edifico meu refúgio ao ‘marchar, marchar’: a biblioteca pública da baixa lourenço-marquina)
Bem, mas esta já é estória dos tempos da Araújo, embora as divisas tenham sido 'ganhas' no Liceu António Enes. Como lhe disse, do AE lembro-me de muito pouco e não me recordo dos profs, menos ainda dos seus nomes. Talvez haja por aqui uma memória do de ginástica, creio que já com umas cãs brancas e, talvez, com óculos. Bom tipo, eu gostava dele embora eu fosse um pisso em desporto. Mas ganhei com ele 'tesão' pela ginástica e já não sei se quando fui para a Araújo se ainda no 2º ano do AE inscrevi-me na 'ginástica aplicada' do Ferroviário, onde andei dois anos se não estou enganado. O prof. era o sr. Abranches, um ex-praticante já quarentão, mulato, que tinha um ‘caparro’ do caraças. Andava lá o Agostinho, o Néneco, o Júlio, sei lá quem mais. E o Cândido de Azevedo era então 'star', Cândido que vim a encontrar aqui pelo Ribatejo duas décadas depois (actualmente está em Pequim, após uma data de anos em Macau). Eu gostava da barra fixa e das paralelas e detestava o cavalo de arções e as argolas, já fazia o flique atrás mas nunca dei um mortal sem o 'cinto'.
O que é que mais me lembro do AE? da separação masculino-feminino nas salas e nos corredores e que só na zona do refeitório/bar é que havia misturas que se desejavam e se suspiravam: que prazer de expectativa havia naqueles empurrões malandros que se davam na bicha e ninguém fugia à deliciosa confusão de corpos comprimidos contra corpos, havia um brilho especial quando se ia para a bicha das senhas no bar, na demanda do chocoleite e da arrufada... Recordo-me também duma sala em anfiteatro que era onde havia aulas de música, mas o canto coral era passado a ensaiar 'Angola é nossa' e coisas do género... uma seca. Dos campos desportivos: lembro-me bem deles. Sempre preferi o básket e ia mais para o do fundo do pátio, mas, no outro mesmo em frente à porta de trás, talvez a meio do terreno dos pátios, no campo de futebol/andebol que lá havia (alcatroado se bem me lembro), fui elemento equipado duma equipa de andebol que levou uma trepa tal no 1º jogo que nunca mais fez nenhum: o prof. exigiu que a turmas se organizassem em equipas de andebol de sete para um mini campeonato interno. A 'minha equipa' não fez um único treino e, suspeito, todos ou quase todos sabiam de leis do andebol o mesmo que eu: zero. Descobri em próprio jogo que além das mãos não se podem usar os pés (quem diria uma coisa dessas? que raio de ideia, hein! e nem avisaram...), que não há contacto corporal como no rugby e, havendo-o, o alcatrão é danado para os cotovelos e os joelhos. Ao intervalo já estaria uns vinte-zero, ou coisa parecida. Foi memorável e ainda hoje tenho comichão quando leio uma notícia sobre andebol: há coisas que ficam para sempre, tecnicamente os profissionais chamam-lhe "traumatismos" :-)
Bem, se calhar outro dia recordo-me de mais. Mas acho que não. Como disse ao princípio, A. J., eu mal me lembro dos tempos do LAE. Ah! Há ainda outra estória e que também está no Xicuembo: a da caderneta de cromos dos aviões de guerra, passada com o Jorge que era meu compincha e que era da Matola, e que ficou com o álbum no fim do ano embora tivesse sido feita pelos dois. Esse malando, vim a encontrá-lo num Grupo MSN uns quarenta anos depois e, claro! pedi-lhe contas pela 'nossa' caderneta... Nas palavras dele ficou lá, na Matola. Ainda bem, desejo que outro puto tenha sonhado, desfolhado-a.
Um abraço do cg”
(Obviamente que as fotos foram gamadas na net; sei lá onde ou a quem... 'nacionalizei-as' pois essas imagens também fazem parte do meu passado)
terça-feira, 15 de julho de 2008
OS D’«A ÁGUIA» – ANTÓNIO PATRÍCIO
SAUDADE DO TEU CORPO
Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?…
Anda a saudade do teu corpo (sentes?…)
sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado…»
É o teu corpo em sombra esta saudade…
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade…
Fecho os olhos ao sol p'ra estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra…
Vês?! A saudade é um escultor antigo.
António Patrício
.In «A Águia», Nº 10, 1ª série, Porto, 1911
A baía de Hong Kong (1939), Ferreira de Castro & Elena Muriel, in A Volta ao Mundo, Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1939
PEQUENA NOTA BIOGRÁFICA
ANTÓNIO PATRÍCIO nasceu na cidade do Porto a 7 de Março de 1878 e faleceu em Macau a 4 de Junho de 1930. Na cidade invicta cursou três anos de Matemática, tendo depois frequentado a Escola Naval em Lisboa, mas acabou por regressar ao Porto, onde concluiu licenciatura na Escola Médica em 1908. A conselho de Guerra Junqueiro, seu grande amigo, acaba por optar pela carreira diplomática, que exerce até à morte, muito prestigiando Portugal, com o seu zelo, fidelidade, inteligência, educação e cultura. Representou Portugal em Cantão, Manaus, Brema (onde ficou em prisão domiciliária três anos durante a I Grande Guerra), Atenas, Istambul, Caracas, Londres, tendo ainda desempenhado missão secreta na Corunha, relacionada com as incursões monárquicas de Paiva Couceiro, que ameaçavam a jovem República. Chegou a Ministro Plenipotenciário e, ao deslocar-se para Pequim, sua última nomeação, em 1930, faleceu a caminho do seu destino, durante a sua estadia em Macau.
Homem cordato, não o podemos igualar ao «embaraço» chamado Fernando Pessoa, mas é também uma singularidade, pela sua poética liberta dos códigos do Romantismo tardio comuns no panorama dos colaboradores d’«A Águia»: reinventa as técnicas do Simbolismo numa fala pessoal, bem como, ao longo da sua obra, incorpora diversas influência modernas, pelo contacto com a cultura europeia de vanguarda, e atmosferas icónicas e paisagísticas de várias paragens, do Norte da Europa ao Brasil e à Ásia, deambulação existencial que lhe foi proporcionada pela sua carreira de diplomata. O gosto pelo Decadentismo, pelo Ultra-romantismo e pelos processos narrativos e poéticos do Gótico literário do século XVIII são recorrentes na sua obra, fundidos numa contemporaneidade repleta de símbolos da morte, do amor e da melancolia. Um dos grandes poetas e dramaturgos Portugueses do século XX, injustamente quase esquecido.
OBRA
Poesia: Oceano (1905), – postumamente – Poesias (1942), Poesias Completas (1980).
Teatro: O Fim (1909), Pedro, o Cru (1913), Dinis e Isabel (1919), D. João e a Máscara (1924).
Ficção: Serão Inquieto, contos (1910).
Colaboração dispersa: «A Águia», «Atlântida», «Límia», «Gente Lusa» e outros.
Klatuu Niktos
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Memórias moçambicanas III - Princesa das duas cidades
terça-feira, 8 de julho de 2008
CARTA PARA O-YONÉ

Excerto de carta de Wenceslau de Moraes ao seu amigo Alfredo Dias Branco, datada de 23 de Fevereiro de 1919
Ao alvor, pelos riachos, quando voltares, o musgo
Tão puro dos seixos te celebrará e o espelho
Brumoso do quarto agitará os seus navios –
Aos continentes as especiarias do prazer e do sonho
Retornarão. No Egipto, os homens erguem pirâmides.
No Japão, transportam os pássaros o sémen vegetal,
Cartas de amor das cerejeiras. A noite, a luz.
O mel, a flor. Não se tocarão nunca e amam-se.
A tinta, a pena, não sentirão nunca e amam-te.
Andei pela casa à procura do teu pólen nos móveis.
Quando voltares, não esqueças os recados, o coração
Floral, os brincos e os anéis, os lábios e os livros.
Klatuu Niktos
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Memórias moçambicanas I - Jethro Tull
sexta-feira, 20 de junho de 2008
GOA, CORAÇÃO DE SAUDADE

«Lusofonia» sem «Lusofilia»? o Caso do Antigo Estado da Índia
Défice de Reciprocidade Cultural
Teotónio R. de Souza
Imperativo LER (link).
segunda-feira, 16 de junho de 2008
MÁGOAS

Eu nunca tinha lido o Diário XII de Miguel Torga quando a barca de Caronte levou esse homem grande da língua portuguesa, que pagou o seu óbolo deixando à eternidade dos homens a sua obra. Doeu-me quando o seu olhar, reconhecidamente duro e inflexível, há mais de quarenta anos varreu os espaços que eu conheci: «Escrevo diante da paisagem feia para que abri os olhos... embondeiros disformes, edemaciados, monstruosos... mamoeiros esgrouviados, sintéticos, de testículos ao pescoço...» O deserto, «um mundo seco, estéril, asséptico... um mundo onde nenhum poema de esperança teria sentido...»
Como é possível que alguém tivesse pousado os olhos no meu mundo de menina, no mundo de sonho de muitos que nem lá nasceram, e pudesse sentir essa repulsa, essa rejeição instantânea a uma natureza que apenas peca por ser diferente das penedias rudes e também estéreis da região transmontana? Miguel Torga olhou com os olhos da alma, com o corpo dorido de um Portugal esvaído por mor de uma terra estranha, como os sogros olham um intruso que entrou na família mas não tem o seu sangue.
Como Camus sentiu na sua alma a terra que o criou – «J’ai mal à l’Algérie comme d’autres ont mal au poumon» – também a mim me dói Angola. E os meus sentidos obrigam desde logo a trocar na ortografia o e pelo i ao escrever imbondeiro, porque a grafia com e o torna logo mais identificado com um olhar que não é o meu; e fazem acudir a textura e o sabor impar da papaia; e obrigam a cerrar os olhos e ter a ilusão de descer a Leba a caminho da imensidão do Namibe e escrever como aos treze anos: Sou filha da negra África / brotada da terra inculta / e sinto que em mim se oculta / o trago que a torna única...
Para além das imagens de destruição e miséria que nos vão chegando, para além do que se publica sobre o mercado Roque Santeiro, sobre as mansões, os apartamentos de luxo que crescem por entre os musseques dos que em nome da liberdade defraudam todo um povo e espoliam uma terra pródiga, para além das palavras doutas de Miguel Torga, há uma África que foi parte integrante de Portugal, e não sei se é inteiramente justo para as gerações do presente que não seja mostrado o que foram essas províncias portuguesas em África. O bom e o mau, não regateio. Há documentos, e há ainda documentos humanos vivos, mas por pouco tempo, que as gerações morrem.
Também minha mãe foi quase transmontana e levou para longe as únicas recordações que lhe permitiram os seus parcos anos, as festas da Senhora dos Remédios. De meu pai recebi a saudade da sua Bairrada que ele nunca quis rever, mas que fez crescer em mim como se eu fora realmente filha das terras que ele me deixou da herança de seus pais, e em mim cultivou este imenso amor pelo idioma que eu encontrei aqui tão maltratado.
Registo, à laia de conclusão, algumas passagens das memórias que me deixou meu pai, da terra a que entregou a sua vida desde
