[fabricio.fortes@hotmail.com]
Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Intervalo de Almoço (por Fabrício Fortes)
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sábado, 13 de setembro de 2008
O VELHO E-TERNO

Ele, por detrás da sua roupagem negra, cofiou a barba branqueada de dois dias, sorriu, respondendo:
– Minha filha, a virtude está em ser um e-terno velho, quando dizemos disparates todos sorriem boquiabertos, fazem vénias e ainda nos repetem até à exaustão!
Crónica sem nexo
Não fui eu! Não fui eu, mas um fantasma
Gerado no meu ser!
Vi-o surgir da noite e erguer o busto
À altura do meu busto, e dominar-me...
E esse fantasma era ilusório sonho!
O Criador apenas conhecia
O barro da sua Obra. E só por isso
Veio de encontro a mim o seu castigo.»
Teixeira de Pascoaes, Regresso ao Paraíso, Assírio e Alvim, Lisboa, 1986, p.33.
______
Podem as ilusões matar(-nos)?
O fratricídio só pode ser fruto da ilusão. Não é necessário descer aos infernos com Pascoaes, viandante muito experimentado nesses trilhos pouco conhecidos de nós outros, para o aprendermos da boca sombria de Caim.
Matar o outro, o outro visto como o que nos impede, a nós, de dominarmos o mundo, co-criado connosco, e, se calhar, para nós, mas não só para nós, é uma tendência libidinal bem entranhada no nosso psiquismo.
E por que razão Caim não matou a sombra de Abel? Se calhar porque Abel não era sombrio. Ou matou a sua sombra negra antes dela se poder apropriar das suas mãos terrosas, feitas de barro e saliva divina.
O problema surge quando confundimos as sombras com o barro.
Mas é muito difícil libertarmo-nos, na vida individual ou colectiva, do infantilismo. Quando se é menino brinca-se com castelos de areia, com tudo o que possa ser apropriado pela fantasia (é óbvio que hoje a coisa vem encaixotada e "engarrafada" em cds e dvds e é consumida já sem a saudável reinação de outros tempos). E é indiferente, para os meninos, o que possa resultar dali. Resulta enquanto resulta. E eles vão-se atribuindo potestades, têm jogos de dominação, há lideranças de recreio.
Ora, crescer é complicado quando o mundo, hoje, é um recreio. Vivemos num mundo infantil. Tudo vale. Tudo se aceita se agradar à seita.
O facto de lidarmos com outros seres humanos é uma coisa que não nos interessa. Quem os mandou nascer humanos? Quem nos mandou nascer humanos?
E quem nos demanda como humanos?
Talvez ninguém nos demande. Ou nos demande dessa forma.
E, já agora, para algum leitor mais atento que julgue que este texto não tem nada que ver com a lusofonia, deixo, aqui bem no meio, uma frase sobre a lusofonia: É.
Ora, sermos demandados como humanos é um privilégio. Significa que alguém reconhece a nossa humanidade.
E vermo-nos reconhecidos na nossa humanidade leva a que a tal sombra que matou Abel não será gerada a partir do nosso coração (que, como é óbvio, embora esteja muito esquecido, é uma coisa que todos temos).
Mas já assisti ao curioso fenómeno de ver essa sombra despontar precisamente quando uma pessoa trata bem outra pessoa. Por vezes parece que a bondade que nos é dirigida, mesmo quando é verdadeira, é uma forma refinadíssima de maldade. É que no mundo em que vivemos parece que parecer bom resulta apenas de duas possibilidades: da ingenuidade ou da maldade.
A tal história dos cordeiros vestidos de lobos e a das vítimas que se enamoram do seu destino.
A política, a autêntica, nada tem que ver com puericultura.
Se bem que faltem creches, jardins de infância, como agora se lhes chama, e os meninos de serviço se afadiguem a construir a imagem de que estão a investir na Educação. É triste ver como se vive uma meninice quando deveríamos assumir a maturidade como o nosso modo de sermos íntegros e verdadeiros.
E temos que perder a mania que o mundo é um espelho.
Temos que aprender a gostar de nós próprios, assim como somos.
Mas só se ama quem ama.
E só chama a si os outros quem se chama a si.
Mas aqui a coisa complica-se mais uma vez: o que é o "si"? Problema!
É claro que a coisa, aqui, aqui nestas linhas, é só retórica. Estou mais interessado em saber do Sol.
Mas isso é uma coisa minha.
Mas não deixa de ser, também, musical. E, já agora que estamos a falar dessa coisa, o ensino da música é muito importante. Em todos os níveis de escolaridade.
Ajuda a afinar o ouvido e a temperar os humores que mantêm a coesão do barro. E ajuda a que queiramos que as nossas fendas não sejam tapadas com cera. A coisa, depois, já não retine como deve ser.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Esta noite
Alguém me compreenderá se eu disser que esta noite a minha pátria é New Orleans. O lugar onde uma vez morreu o Sargento Roma. Uma rua no Porto onde numa cave de granito ouvi pela primeira vez o Joaquim Castro Caldas (hoje, ele morreu) e os seus poemas de rasgar. O senhor dom João Afonso de Albuquerque, "o do ataúde", que viveu há seiscentos anos e que tem uma história de que hoje de manhã me lembrei. Santa Maria de Belém do Pará, que hoje encontrei na montra de uma livraria e onde morreu a minha trisavó Emília. A casa onde nasceu Camilo Castelo Branco, a cuja porta hoje me encostei para fumar um cigarro. Um texto de Antoine de Saint-Exupery sobre a morte dos inimigos e o amor aos inimigos ("hoje morreu aquele que reinava a Leste do meu império..."). A gruta de Elefanta perto de Bombaim. Os olhos quase verdes da minha filha. Uma coisa que ficou por dizer na última conversa aqui. Uma recordação de 1979. Um rosto de pedra que encontrei junto a um texto chamado "Diário de Moema". Um lama tibetano que falou em 1948 com um explorador italiano que escreveu o livro que ando a ler. Cerveja. Uma lua que hoje não vi. O corvo que me saudou quando em Julho atravessei o rio Minho e entrei em terras galegas. A forma portuguesa como estas coisas me fazem.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
"Sejamos realistas: exijamos o impossível"
Não há cão nem gato daquela geração (e junto-lhe ‘a seguinte e meia’) que não conheça o slogan irreverente, desafiador: esta frase e a cara do Cohn-Bendit são os primeiros ‘flashs’ quando Maio de 68 vem à lembrança.Nunca me interroguei sobre a sua origem, quando apareceu pela primeira vez, em que cabecinha inspirada ela ‘brilhou’ pela primeira vez. Onde, sabemo-lo: ‘aquela’ Paris, que suspeito ser tão cadáver como a Lisboa do quartel do Carmo o é. Em suma: interiorizei-a como uma das tais ‘tiradas’ anónimas que, depois, ficam no património colectivo, uns segundos extra quando se a vê inesperadamente, um sorriso em cima da amargura de, de repente, sentirmo-nos envelhecidos. Lembrança de ventos e brisas, de tanta coisa que faleceu ou foi internada, e ficou este friozinho filho-da-puta de, baixando os olhos, murmurarmos ‘estamos velhos’ e seguirmos em frente, padronizados como códigos de barras com prazo de validade.
Folheio a “le magazine littéraire” de Fevereiro de 2007 e na crónica de Enrique Vila-Matas, “Une âme belle”, fico atónito com a revelação, a ‘denúncia’ do autor (no caso autora) da célebre frase-ícone: Margarite Duras. Juro que não o sabia e estou mesmo convencido que ninguém o sabia. Diz o Enrique, logo a abrir:
“Margarite Duras est l’auteur (à ce jour, anonyme) de l’un dês plus célèbres grafittis de Mai 68: «Soyez réalistes, demandez l’impossible» C’est l’Argentin Raul Escari qui le révèle dans son livre autobiographique ‘Dos relatos porteños’ (...)” (2006, de Ed. Mansalva, Buenos Aires; o link e este acrescento são meus)
Depois desfia uma série de coisas ‘giras’ - crónica é crónica e há que esgalhá-las - mete Roland Barthes ao barulho e deixa mais uma 'pérola': uma confidência acerca do seu (Barthes) hiper-famoso “Fragmentos do discurso amoroso”, e de como as palavras se trocam, nascem, realizam-se:
“(…) L’écriture de son autobiographie (refere-se ao Escari) est direct, proche du ‘degré zéro’ , presque documentaire. Il veut que que tout soit pris au pied de la lettre. Et c’est ainsi que nous le prenons, ‘littéralement’, quand il raconte, par exemple, que Barthes lui avait dit au Flore qu’il était allé, une foi, consulter Lacan pour lui raconter son ‘amour fou’ pour un garçon et que Lacan, aprés l’avoir écouté un bon moment sans dire un mot, s’était contenté de lui dire à la fin: «Laissez tomber ce garçon». Lacan n’avait rien ajouté. «C’est étrange que des mots aussi banals, aussi plats, aient pu avoir sur moi un tel effet, immédiat, radical. J’ai mis un terme à la relation et je me suis consacré au séminaire ‘Le Discours amoureux'» avait conclu Barthes.”
…mas a surpresa-surpresa foi aquele primeiro parágrafo: quase quarenta anos depois o segredo que não o era é revelado - e não o era pois ninguém se preocupava com quem fora o pintor do famoso grafiti: quem foi o primeiro a exigir o impossível. Duras, agora já sabemos. De Daniel é conhecido pois Bruxelas é uma aldeia grande; falta saber do polícia da foto, embora esteja com ideia de, há coisa duns poucos anitos atrás, houve qualquer zum-zum sobre ele numa reportagem de imprensa, naquelas comemorativas dos xis anos da data tal.
(a famosa foto de "Daniel Cohn-Bendit enquanto jovem" estava aqui.)
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
NOS TERÁ É NHOS TÉRA (our ground is your ground)








Fui ao encontro do meu continente. A terra cresceu para mim, mais seca e mais árida do que a minha anhara do planalto da infância. Qual superfície lunar, areia e pedra solta por toda a ilha, até ao horizonte. E então o mar. As águas límpidas, as ondas mansas, a areia suavíssima a afagar os pés. Logo a seguir o mergulho da entrega à frescura ímpar da água ansiada. Um prazer de deuses.
Na ilha mais árida de Cabo Verde, a Ilha do Sal, o turismo com os melhores hotéis e resorts em construção, as praias magníficas, fazem dela a mais frequentada do arquipélago. E Portugal presente, manifestado no mais banal: na sinalização das estradas, indicações de direcção, nas caixas estandardizadas para encomendas nos correios, na palavra dos guias referindo a Pedra de Lume como o primeiro encontro da terra com os portugueses. No nome dos barcos. Na referência à continuação dos estudos, completado o Ensino Secundário. Coimbra, o destino preferencial dos estudantes para o curso superior. E, claro, o futebol. Sou do Sporting, diz o nosso guia Hércules que tem uma filha a estudar em Faro.
Mas o inglês faz ali o seu trabalho, sem esmorecer. Um casal de ingleses conduz-nos à noite para o local onde as tartarugas fazem habitualmente a desova. Ela, residente no arquipélago desde há cinco anos, fala fluentemente o crioulo. E português? Entende, mas não fala, naturalmente. Não lhe interessa.
Hei-de voltar com mais tempo para conhecer as outras ilhas. No Sal, o turismo inflacionou tudo, a habitação condigna tornou-se incomportável para os autóctones, sem salário mínimo sequer estabelecido. A construção agressiva por parte dos italianos ocupa pedaço considerável das terras à beira-mar, desrespeitando o ambiente, levando o governo a impedir recentemente a ocupação de mais terrenos para construção. Os salários são baixos. A terra nada produz com a falta de chuvas. A Terra Boa, onde todos têm um espaço de cultivo, pujante ainda há duas décadas, está reduzida a algumas acácias tristes, dobradas pela seca e pelo vento quente que sopra de África.
Mas há escola para todos e ali ensina-se a Língua Portuguesa.
FESTA AMERICANA
Na verdade, tomei conhecimento da festa uma hora antes, e não percebi também muito bem qual a ligação entre os americanos e a escola onde estou a trabalhar, e através da qual recebi o convite (depois descobriria que a Directora tem um namorado americano, e portanto que este tinha sido the right guy in the right place).
O navio de guerra era mais precisamente uma fragata que tem estado fundeada ao largo de S Tomé desde há alguns dias. Os tripulantes pareciam ter-se fartado da vida monótona de barco-polícia-do-mundo e decidiram organizar uma festança no Hotel Miramar, como se disse o de mais nomeada em São Tomé. Houve jantar, música (trouxeram aparelhagem de som e um grupo deles passou quase a festa toda a cantar hip-hop e outros sons afro-americanos, como não podia deixar de ser), enfim, muita bebida e comida a correr às custas de Mr. Bush, I presume. Ainda para mais, um deles fazia anos, um tipo altíssimo, devia ter uns 2.10m. Chamava-se David, aquele americano típico com o ar e a cor desbotada de quem come flocos de aveia todos os dias e que se notava queria era diversão. E depois havia elementos femininos na tripulação também, claro, também não enganavam ninguém sobre a sua origem (só lhes faltavam os pompons e armar a coreografia). Mas isso foi só a seguir ao jantar-volante, com animação q.b., distribuição de lugares dentro mas também fora da sala de refeições e de um são-tomense esganiçando hits do Bob Marley ter tentado em vão que alguém o acompanhasse.
Tudo melhorou de facto com a entrada “em palco” do grupo dos kaméricas músicos (“kaméricas” é um termo encontrado nos livros do Pepetela, o seu a seu dono) e, puxando a brasa à minha sardinha, também às libações do vinho alentejano que tinha regado o jantar. Logo ali se improvisou uma pista de dança em frente ao bar, e entre nós já se comentava que estávamos todos a correr perigo, se eles voltassem ao barco completamente drunks – o que tudo fazia crer que sim, já que a maior parte tinha entretanto tomado de assalto o bar do hotel –, podiam carregar sem querer no botão que acordaria os mísseis e mandar a ilha pelos ares. Não foi no entanto preciso chegar a esse ponto, já que a páginas tantas o comandante da fragata salta para o palco, tira o microfone ao rapper e anuncia que a festa tinha terminado, que já se tinha bebido mais do que o suficiente e que tinha de ir tudo para o barco. Houve algum burburinho, o David, ao lado do mandante, pronunciou um silencioso fuck e lá começou tudo a dispersar da pista, a pegar nas mochilas e a sair. Nesta altura, diga-se em nome da verdade dos acontecimentos realmente passados, já os americanos se tinham metido com as portuguesas e já havia algumas na pista. O certo é que também nós fomos levados, não para o barco, mas a dar por encerrada a festança. Já no exterior do hotel, o insólito passou à frente dos nossos olhos (se fosse o ex-famoso jornalista da praça Artur Albarrã, diria «O horror», «O drama»): um americano tombado, ou tinha havido uma baixa, para utilizar terminologia militar, e logo se pôs a questão: como é que o exército mais poderoso do mundo pode ter sofrido baixas em S Tomé, quando é certo e sabido que as forças militares locais não tinham arsenal suficiente nem mesmo para resgatar o Ilhéu das Cabras se o mesmo fosse invadido por tropas inimigas? Do dito americano se fez rapidamente o diagnóstico, bastou a observação para perceber que era bebedeira, de qual bebida não sabemos dizer, mas era improvável que fosse de aguardente da terra, cacharamba como é chamada, que bebidas destas não entram em hotéis do Pestana como é este Miramar. Foi assim que tudo terminou, pensámos os americanos regressaram ao barco e nós vamos beber mais um copo a um bar da cidade (aliás, ao bar da cidade, não há outro). Enganámo-nos mais uma vez, pois quando chegámos ao Tropicana, estava lá um grupo de americanos escapulidos. Não por muito tempo, na contagem de cabeças faltavam aquelas que só ali poderiam estar, deve ter pensado o comandante, pois pouco depois estava a entrar no bar com o mesmo ar imperturbábel que tinha posto ao microfone do rapper quando anunciara o fim de festa, e nem foi preciso dizer nada, entrou mudo e mudo saiu do bar, como de resto o grupo desertor que saía atrás de si, afinal de contas estamos a falar do poderoso e temível exército do Tio Sam.
João Paulo Pereira – Professor em STP
Nota: Vários barcos de guerra norte-americanos vêm fundeando com regularidade ao largo de São Tomé e Príncipe, no quadro da sua política militarista que parece ter tomado o mundo de assalto. Esta crónica reporta-se a uma dessas ocasiões em que os embarcadiços do Tio Sam, aproveitando para folgar da vida embarcada, acabaram emborcando a rodos na festa que os mesmos prepararam no então hotel mais conceituado da cidade.