Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.
A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso Manifesto.
Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:
- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.
- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.
- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.
- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.
- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.
- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.
- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).
- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.
- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?
- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.
- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.
- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.
- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.
- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.
- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"
- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.
- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.
- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.
- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.
- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).
- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).
- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).
- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.
- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).
Para o 24º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
EDITORIAL NOVA ÁGUIA 22
Em todos os seus números, a Revista NOVA ÁGUIA tem assumido o propósito de, sem qualquer complexo histórico, dar voz às várias culturas lusófonas. Eis o que neste número uma vez mais acontece, de forma particularmente eloquente, desde logo na secção de abertura, onde publicamos uma selecção de textos apresentados no V Congresso da Cidadania Lusófona, promovido pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono.
Na secção seguinte, publicamos uma dezena de textos sobre Dalila Pereira da Costa, cujo centenário do nascimento se comemora em 2018. Depois de já a termos homenageado no ano do seu falecimento (2012), promovemos este ano um Ciclo Evocativo sobre a sua Obra no Palacete Viscondes de Balsemão, no Porto, sua cidade natal, onde alguns dos textos que aqui publicamos foram apresentados em primeira mão.
A par de Dalila Pereira da Costa, Francisco de Holanda é a grande figura em destaque neste número da NOVA ÁGUIA. Em 2017 assinalaram-se os quinhentos anos do seu nascimento e o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em parceria com outras entidades, promoveu, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, um Colóquio sobre a sua “Pintura e Pensamento”. No essencial, são os textos apresentados nesse Colóquio que aqui publicamos: dezena e meia de textos, que dão conta das diversas facetas de uma obra absolutamente singular no âmbito da cultura lusófona.
Temos depois uma série de outras “Evo(o)cações”, naturalmente mais breves: de Albano Martins, que nos deixou neste ano, até Dora Ferreira da Silva e Manuel Antunes (que completariam igualmente cem anos em 2018), passando por outras figuras não menos relevantes – nomeadamente, Ferreira Deusdado, falecido há cem anos (e que será o autor de referência do IV Colóquio do Atlântico, por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, da Universidade dos Açores e da Universidade Católica Portuguesa).
Na secção seguinte, “Outros voos”, mantemos essa senda lusófona, começando por dois ensaios: um sobre a “Expressão e Sentido da Saudade na poesia angolana e moçambicana”, outro sobre o “Ensino da Filosofia em Cabo Verde”. Como igualmente tem sido hábito, publicamos, em “Extravoo”, mais alguns inéditos – nomeadamente, de Agostinho da Silva e António Telmo, dois autores de referência para a NOVA ÁGUIA. Por fim, em “Bibliáguio”, publicamos uma série de recensões de algumas obras recentemente lançadas (parte das quais publicadas também com a nossa chancela), e, em “Memoriáguio”, registamos fotograficamente alguns eventos para memória futura.
A Direcção da NOVA ÁGUIA
Post Scriptum: Dedicamos este número, no plano pessoal, a Manuel Ferreira Patrício, que completou em Setembro oitenta anos (particularmente fecundos) de vida – no próximo número, publicaremos um extenso ensaio, de Emanuel Oliveira Medeiros, sobre a sua Obra. No plano institucional, dedicamos este número à Academia Internacional da Cultura Portuguesa, que, em Junho deste ano, honrou o MIL: Movimento Internacional Lusófono (e, por extensão, a NOVA ÁGUIA) com a distinção de “Instituição Honorária”. À Academia Internacional da Cultura Portuguesa, na pessoa de Adriano Moreira, o nosso público reconhecimento por tão honrosa distinção.
NOVA ÁGUIA Nº 22: ÍNDICE
NOVA ÁGUIA Nº 22: ÍNDICE
Editorial…5
CIDADANIA LUSÓFONA: V CONGRESSO
Intervenções de Adriano Moreira (p. 8), Braima Cassamá (p. 10), Delmar Maia Gonçalves (p. 11), Elter Manuel Carlos (p. 12), Isabel Potier (p. 15), Ivonia Nahak Borges (p. 16), Luísa Timóteo (p. 18), Maria Dovigo (p. 18), Mariene Hildebrando e Paulo Manuel Sendim Aires Pereira (p. 21), Valentino Viegas (p. 23), Zeferino Boal (p. 26) e Carlos Mariano Manuel (p. 27).
DALILA PEREIRA DA COSTA, 100 ANOS DEPOIS
DALILA PEREIRA DA COSTA: NOTA BIO-BIBLIOGRÁFICA | Rui Lopo…32
IN VOCAÇÃO | Alexandre Teixeira Mendes…35
DALILA PEREIRA DA COSTA E A MITOLOGIA PORTUGUESA | António Braz Teixeira…36
DALILA PEREIRA DA COSTA E A NATUREZA MATRIARCAL DE PORTUGAL | Artur Manso…42
A COROGRAFIA SAGRADA NA OBRA DE DALILA PEREIRA DA COSTA | Joaquim Domingues…51
ENCONTRO NA NOITE: ACERCA DO ONIRISMO MÍSTICO DE DALILA PEREIRA DA COSTA | José Rui Teixeira…56
COM DALILA NO REEGA…GAÇO DE ATAEE…GINA | Maria José Leal…61
DA SUBLIMAÇÃO DA MULHER NO PENSAMENTO DE DALILA PEREIRA DA COSTA | Maria Luísa de Castro Soares…67
DALILA: O PANO DE FUNDO OU UMA PREMISSA INTERPRETATIVA ESSENCIAL | Pedro Sinde…74
LEMBRANÇA DE UMA TESE DE DALILA | Pinharanda Gomes…76
FRANCISCO DE HOLANDA, 5 SÉCULOS DEPOIS
O SENTIDO METAFÍSICO DA CRIAÇÃO EM FRANCISCO DE HOLANDA: ARTE E SER | Américo Pereira…80
FRANCISCO DE HOLANDA, OU DE COMO DESENHAR OS NOVOS MUNDOS POR ACHAR | António Moreira Teixeira…83
FRANCISCO DE HOLANDA, O VARÃO ILUSTRE, CENSURADO E ESQUECIDO | Delmar Domingos de Carvalho…93
FRANCISCO DE HOLANDA: DA IMITAÇÃO À IDEIA | Idalina Maia Sidoncha…94
FRANCISCO DE HOLANDA E O DIÁLOGO LUSO-ITALIANO NO CONTEXTO DO RENASCIMENTO EUROPEU DO SÉC. XVI | José Almeida…101
FRANCISCO DE HOLANDA E O FUROR DIVINO | José Eliézer Mikosz…106
A VISÃO DE LIMA DE FREITAS SOBRE O OLHAR DE FRANCISCO DE HOLANDA | Lígia Rocha…113
A TEORIA ESTÉTICO-METAFÍSICA DA PINTURA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Manuel Cândido Pimentel…121
A CIDADE DA ALMA EM FRANCISCO DE HOLANDA | Manuel Curado…126
FRANCISCO DE HOLANDA E A ARTE | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…134
OS MEDALHÕES NA OBRA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Maria Teresa Amado…127
APONTAMENTO SOBRE FRANCISCO DA HOLANDA | Mário Vítor Bastos…143
FRANCISCO DE HOLANDA: A CIRCULAÇÃO DO SABER EM ARQUITETURA NO SÉCULO XVI | Paulo de Assunção…153
A NOÇÃO DE ARTE COMO PARTICIPAÇÃO DA CRIAÇÃO DIVINA, NO MISTICISMO MANEIRISTA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Samuel Dimas…165
A TEORIA DO PINTOR NA OBRA DE FRANCISCO DE HOLANDA | Teresa Lousa…170
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES
AGOSTINHO DA SILVA | Pedro Martins…176
ALBANO MARTINS | António Fournier e António José Borges…181
ANTÓNIO BRAZ TEIXEIRA | Samuel Dimas…184
ANTÓNIO CABRAL | Manuela Morais…195
ANTÓNIO QUADROS | José Lança-Coelho…196
CASAIS MONTEIRO | António Braz Teixeira…197
DORA FERREIRA DA SILVA | Constança Marcondes César…200
FERREIRA DEUSDADO | Artur Manso…202
MANOEL TAVARES RODRIGUES-LEAL | Luís de Barreiros Tavares…212
MANUEL ANTUNES | Nuno Sotto Mayor Ferrão…216
MÁRCIA DIAS | Zeferino Boal…218
OUTROS VOOS
EXPRESSÃO E SENTIDO DA SAUDADE NA POESIA ANGOLANA E MOÇAMBICANA DA GERAÇÃO DE 1985 | António Braz Teixeira…220
BREVE REFLEXÃO SOBRE O ENSINO DA FILOSOFIA EM CABO VERDE | Elter Manuel Carlos…224
PARA UMA DECLARAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DA MÃE | José Eduardo Franco…231
A FISSURA NA MURALHA OU O “PRINCÍPIO DA AUTODETERMINAÇÃO” | Pedro Sinde…233
DOZE DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS | Renato Epifânio…235
AUTOBIOGRAFIA 5 | Samuel Dimas…248
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…262
DIÁLOGOS DO MÊS DE OUTUBRO (EXCERTO) | António Telmo…264
BIBLIÁGUIO
A VIA LUSÓFONA III | Miguel Real…270
AMADEO DE SOUZA-CARDOSO: A FORÇA DA PINTURA & A “RENASCENÇA PORTUGUESA”: PENSAMENTO, MEMÓRIA E CRIAÇÃO | Renato Epifânio…272
NO REGAÇO DE ATAEGINA | José Almeida…274
MESTRES DA LÍNGUA PORTUGUESA | Jorge Chichorro Rodrigues…275
POEMÁGUIO
RENASCER A SUL | Maria Luísa Francisco…30
EXPRESSAR UM ISMO; PROVA DEVIDA | António José Borges…31
ABORRECIMENTO | Arthur Grupillo…174-175
DOM SEBASTIÃO, O QUE NÃO DESCANSA; IBN QASI, TODA A VIDA NA MORTE | Jesus Carlos…215
FAZEMOS METÁFORAS; PEREGRINAÇÃO | Samuel Dimas…261
ROSTO; RESIDUAL; ARRAIS; CUNEIFORME; ANJO | Luísa Borges…268-269
CRONOS & KAIROS; PRINCIPIUM SAPIENTIAE | Paulo Ferreira da Cunha…279
MEMORIÁGUIO…280
MAPIÁGUIO…281
ASSINATURAS…281
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284
Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.
MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.
PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:
https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas
O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"
Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
sexta-feira, 11 de março de 2016
sábado, 28 de abril de 2012
quarta-feira, 23 de junho de 2010
O Oriente e o Budismo em Antero, Sérgio e Agostinho da Silva


No próximo dia 24 de Junho (quinta-feira), pelas 17h, no Anfiteatro II (2) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Romana Valente Pinho e Amon Pinho darão duas prelecções sobre os seguintes temas: "O Oriente e o legado de Antero de Quental no Pensamento de António Sérgio" e "Da interpretação niilista de O Budismo ao Buda-Dharma e ao universalismo, percursos de Agostinho da Silva". Estas prelecções inserem-se no âmbito do curso de Filosofia e Estudos Orientais. A entrada é livre.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
A antítese Oriente-Ocidente e a síntese ecuménica
- António Sérgio, "Seara Nova", 1927.
domingo, 24 de janeiro de 2010
ANTÓNIO SÉRGIO

DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
ANTÓNIO SÉRGIO
Damão, Índia 3.9.1883-Lisboa, 24.1.1969
No dia 24 de Janeiro de 1969, o meu avô materno, Armando Aguiar, disse-me que o nosso país acabava de perder um grande português.
O seu nome era António Sérgio, filho do almirante Sérgio de Sousa, viveu a sua infância na Índia e na África, abraçando a carreira da Marinha que abandonou após a proclamação da República, tornando-se um grande lutador pela instauração da democracia neste país, contra a ditadura salazarista.
Eu conhecia-o desde há muito e até já lera algumas das suas obras, sendo a primeira o Bosquejo da História de Portugal (1923), que me forneceu uma nova visão da nossa História, diferente daquela que o regime ditatorial me inculcara na Instrução Primária e no Liceu.
Aqui em casa existem muitos livros escritos por Sérgio, alguns bem peculiares, como são os casos de uns pequeninos chamados Antologia Sociológica (1956), que foram feitos em edição de autor, entre 1956 e 1957, para além dos oito volumes dos clássicos Ensaios (1971-1974) e, sobretudo, a Introdução Actual ao Problema Cooperativista (1937 e as Confissões de um Cooperativista, que diziam tanto ao meu avô, que acreditando nesta actividade, sinónimo de solidariedade, fundara a primeira cooperativa de consumo do país.
Há muitos anos, ainda eu não era nascido, já o meu avô seguia atentamente o programa politico e socioeconómico proposto por Sérgio.
Quem mo disse foi a minha mãe que, ainda uma jovem menina, com doze ou treze anos, acompanhava o seu pai, a um local em Campo de Ourique (Lisboa), que se chamava ‘A Padaria do Povo’, onde António Sérgio falava a quem o quisesse, ou melhor, pudesse, ouvir, já que, a PIDE, como infelizmente lhe ‘competia’, arrecadava alguns dos assistentes às ditas palestras, levando-os para os identificar na sua sede na Rua António Maria Cardoso, ou quando já eram ‘conhecidos’ para o seu Quartel-General, no Forte de Caxias.
Devo ainda acrescentar que, o meu avô tinha a coragem de ir às masmorras de Caxias visitar os presos políticos, levando a minha mãe com ele, para que ela tivesse noção do que era o regime em que se vivia; bem como de fundar a “Cooperativa de Consumo 2ª Comuna”, sita na Rua do Alvito, o que lhe valeu muitas chamadas à PIDE.
O orador falava de cooperativismo associativista como uma forma de educação, e não do corporativismo, sistema em que se baseava a ditadura de Salazar; falava também de partilha, solidariedade e socialismo democrático.
Sérgio fazia parte do chamado ‘Grupo da Biblioteca Nacional’ constituído por outros vultos da cultura portuguesa como, Jaime Cortesão (1884-1960), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Raul Proença (1884-1941) que, em 1924, lançou a revista ‘Lusitânia’, de que guardamos alguns exemplares.
A colaboração de Sérgio em revistas literárias não se resume à anteriormente citada, tendo assinado artigos em ‘A Águia’ (1910), a ‘Vida Portuguesa’ (1912), órgão da Renascença Portuguesa, na ‘Atlântida’(1916), na ‘Pela Grei’(1918), e na ‘Seara Nova’, de que se tornou director a partir do ano de 1923.
Neste ano de 1923, Sérgio fez parte de um governo republicano, ocupando a pasta da Instrução, tendo fundado o Instituto Português de Oncologia.
Após a instauração da ditadura militar em 28 de Maio de 1926, conheceu o exílio. Quando regressou a Portugal dedicou-se ao ensino e à direcção e elaboração duma obra monumental que, para além da minha, deveria existir em todas as casas portuguesas, uma vez que nos tira todas as dúvidas sobre qualquer assunto, que dá pelo nome de Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
Ensaísta, crítico literário e social, pedagogo, historiador, político e filósofo, participante efectivo de todos os movimentos contra o Estado Novo, conhecendo a prisão política por cinco vezes, é considerado um dos mentores mais significativos do socialismo não totalitário português. Aqui fica o elenco das suas obras literárias, ainda não referidas, nesta pequena digressão pela minha memória: O Desejado 1924, 0 Seiscentismo 1926, História de Portugal 1926, Cartesianismo Ideal e Cartesianismo Real 1937, História de Portugal – I 1941, Antero de Quental e António Vieira 1948, Cartas do Terceiro Homem 1953-1957, Democracia 1974.
*
DIÁRIO DO ESCRITOR
24 de Janeiro de 1949 – “ (…) tenho verificado que as melhores aulas da minha curta vida surgiram de repente, por causa de uma palavra, por causa de uma insignificância em que eu não pensara antes. Falei nisto ao metodólogo. Apoiou-me no que costume fazer, que é não levar, em português, a aula preparada tim-tim por tim-tim e concluiu que A LIÇÃO DE PORTUGUÊS ACONTECE.
SEBASTIÃO DA GAMA, Diário, Lisboa, p. 43, s/d.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Extracto da Comunicação para o Colóquio sobre a Seara Nova (FLUL, 28-30 de Outubro)
Entre os movimentos da Renascença Portuguesa e da Seara Nova - da Lusitanidade à Lusofonia: o caso de Agostinho da Silva.
Dentre as cisões que animaram a nossa história cultural, a cisão Renascença Portuguesa-Seara Nova é, decerto, uma das mais fracturantes, senão mesmo a mais fracturante.
Perante ela, parece fácil tomar posição. Tanto mais porque, historicamente, foi a Seara Nova que parece ter vencido, pelo menos nesse plano retórico onde muitas vezes, senão sempre, se joga o destino das histórias culturais.
Segundo essa mesma retórica, temos, de um lado – da Renascença Portuguesa –, um movimento saudosista, logo passadista, logo reaccionário, que, alegadamente, pretendia enclausurar Portugal em si próprio[2]; do outro lado – da Seara Nova –, temos um movimento progressista, modernizador, que, ao invés, pretendia abrir Portugal à Europa, a todo o mundo…
Como quase todas as visões caricaturais, também esta é tão substancialmente falsa quanto acidentalmente verdadeira. É verdade que a Renascença Portuguesa – na perspectiva de Pascoaes, em particular – sobrepunha, como veremos, os paradigmas endógenos aos exógenos. Isso não faz dele, contudo, a priori, menos progressista.
O que aqui há são diversas concepções de progresso, e mesmo de modernidade. Se, para Teixeira de Pascoaes, “o fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas”[3], para Raul Proença, por exemplo, o paradigma é de facto outro. Ouçamos, para o atestar estas suas palavras:
“O nosso espírito, a nossa maneira de encarar os problemas, o nosso modo de os resolver, as ideias fundamentais que formamos da vida e do mundo, tudo isso que é o que importa numa sociedade, porque é o que nela há de garantias para uma sociedade melhor, são coisas anacrónicas, sem relação nenhuma com o meio europeu em que nos integramos fisicamente. É como se fossemos uma pústula no meio da Europa, onde circula ininterruptamente sangue sempre novo e sempre vivificante. Como estremunhados pensamos ideias que não são para o nosso tempo, continuamos num sonho distante, estranhos à actividade, estranhos ao pensamento moderno”[4].
De facto, estamos aqui perante dois paradigmas: de um lado, pugnava-se por um progresso a partir de dentro, que fosse fiel à nossa alegada singularidade histórico-cultural; do outro, pugnava-se por uma adequação de Portugal ao que aparentava ser o exemplo máximo de modernidade: a Europa.
Esta divergência – de ordem cultural, filosófica e até ideológica – foi, de resto, assumida, de uma forma tanto mais nobre porquanto não envolveu qualquer desqualificação ético-moral da “outra parte”.
Foi esse, por exemplo, o caso de Raul Proença, que se referiu aos seus “oponentes” do movimento da Renascença Portuguesa como “criaturas de alto valor, de nobre senso moral, credoras da nossa admiração e do nosso respeito”[5]. O que é de enaltecer, pois que, entre nós, o mais habitual é as divergências de ordem cultural, filosófica e até ideológica redundarem em desqualificações ético-morais…
Neste caso, isso não aconteceu, até porque a divergência era de facto clara: entre, por exemplo, alguém como António Sérgio, que “não se pensava sob a categoria do nacional”[6], e alguém como Teixeira de Pascoaes, que pensou a Pátria como “um ser vivo superior aos indivíduos que o constituem, marcando, além e acima deles, uma nova Individualidade”[7], era claramente difícil, senão impossível, haver um caminho comum…
*
Não obstante, houve casos que ultrapassaram essa fronteira aparentemente intransponível: prova de que os percursos pessoais são sempre irredutíveis a todos os rótulos, a todas as etiquetas…
Exemplo máximo disso foi, a nosso ver, o caso de Agostinho da Silva. Não tendo sido propriamente um “renascente” – até por questões de ordem etária: Agostinho da Silva nasceu em 1906, apenas 6 anos antes da criação do movimento da Renascença Portuguesa – alguns textos de juventude aproximam-se, bastante, do ideário da Renascença.
Atentemos, por exemplo, no seguinte texto:
AS RESPONSABILIDADES DE EÇA DE QUEIROZ[8]
(...)
Comparemo-lo agora com o seguinte texto, escrito apenas cinco anos após, quando Agostinho da Silva militava já nas fileiras da Seara Nova[9]:
DA IMITAÇÃO DA FRANÇA[10]
(...)
A diferença, de facto, dificilmente poderia ser maior. No primeiro texto, acusa Eça de Queiroz de ter criado “um ambiente de desprezo pela pátria” – eis, de resto, a acusação que Agostinho da Silva imputou a toda a “Geração de 70”, à excepção de Francisco Manuel de Melo Breyner, conde de Ficalho, que, ao contrário dos outros, “não teve pessimismos, não considerou a nação falida, não troçou de ninguém”[11]. No segundo, conclui com seguinte exortação: “Imitemos a França, imitemo-la inteiramente…”.
Cerca de uma década e meia depois, já no Brasil – para onde parte em 1944 –, vai, contudo, Agostinho da Silva reencontrar a nossa singularidade histórico-cultural – para ele, de resto, como ele próprio escreverá, foi a criação do Brasil que terá “definitivamente livrado Portugal das daninhas influências europeias que não o deixaram ter nem regime cultural nem acção nem política verdadeiramente adequadas à sua mentalidade”[12], antes procuraram “fazer de Portugal uma Dinamarca latina”[13].
Esse reencontro não se constituiu todavia como um regresso. Ainda que tenha retornado a este país, em 1969, aqui permanecendo os últimos vinte e cinco anos da sua vida – Agostinho da Silva faleceu no dia 3 de Abril de 1994 –, o autor da Reflexão à margem da literatura portuguesa jamais verdadeiramente regressou. Desde os anos cinquenta o seu horizonte foi sempre já outro: não já a Lusitanidade, não já Portugal, mas a Lusofonia, a Comunidade Lusófona, da qual Portugal era apenas uma extensão, a extensão europeia. No princípio de um novo século, eis o novo horizonte que se depara aos nossos olhos[14].
[2] Partindo desta perspectiva, mais ou menos expressamente enunciada, inevitável é depois falar-se do “esgotado movimento da Renascença Portuguesa e da revista A Águia” (como, por exemplo, in Seara Nova: Razão, Democracia, Europa, Porto, Campo das Letras, 2001, p. 7). Como visão contrapolar a esta, refira-se, nomeadamente, a de José Marinho, para quem “com a ‘Renascença Portuguesa’, e com tudo quanto se lhe segue em afinidade espiritual ou crítico contraste, surge a mais funda transmutação na vida espiritual portuguesa desde o Renascimento.” [cf. Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, Porto, Lello, 1976, pp. 224-225].
[3] Cf. “Manifesto da Renascença Portuguesa”, in A Vida Portuguesa, ano l, nº 22, 10/2/1914, pp. 10-11.
[4] In A Vida Portuguesa, Ano I, nº 22, 10/ 02/ 1914, p. 12
[5] Idem, ibidem.
[6] Cf. “Prefácio” a O Mundo que o Português criou, de Gilberto Freyre, Lisboa, Livros do Brasil, 1940, p. 10.
[7] In A Arte de Ser Português, Lisboa, Delraux, 1978, p. 33.
[8] In Acção Académica, Porto, 15 de Outubro de 1925, ano I, nº 3, p. 3.
[9] Agostinho da Silva aproximou-se em particular de António Sérgio, a quem inclusivamente chegou a reconhecer como seu “mestre” – isto apesar destas suas considerações: “…Sérgio não ousou afrontar os problemas filosóficos mais profundos, as questões de dúvida. Preferia manter-se na certeza.”; “Mesmo como pedagogo, a sua atitude tendia a ser de grande arrogância intelectual.” [cf. Dispersos, introd. de Fernando Cristóvão, apres. e org. de Paulo A. E. Borges, Lisboa, ICALP, 1988/ 1989 (2ª, revista e aumentada)., p. 55]. Como, contudo, o próprio Agostinho reconhece, o seu discipulato relativamente a Sérgio cumpriu-se, sobretudo, por oposição: “…mas ele [Sérgio] não me ensinou o racionalismo: ensinou-me antes o irracionalismo, por reacção minha.” [cf. Francisco Palma Dias, “Agostinho da Silva, Bandeirante do Espírito”, in AA.VV., Agostinho [da Silva], São Paulo, Green Forest do Brasil Editora, 2000, p. 155]. Nessa medida, ainda que indirectamente, Agostinho terá sido, muito mais do que um “discípulo de Sérgio”, um “discípulo de Leonardo” – António Telmo considerou-o mesmo, de resto, como “o último discípulo de Leonardo Coimbra” [cf. “Testemunho”, in Diário de Notícias, 4/4/1994]. Isto apesar do próprio Agostinho da Silva, na sua expressão algo jocosa, “nunca ter sido leonardesco” [cf. AA.VV., Agostinho [da Silva], ed. cit., p. 155] –, não obstante ter reconhecido a sua “largueza de espírito” [cf. Dispersos, ed. cit., p. 174]. Mais do que discípulo de Leonardo, Agostinho terá permanecido sempre, sobretudo, discípulo da Faculdade de Letras do Porto enquanto “escola de liberdade” [cf. ibid., p. 147].
[10] In Seara Nova, Lisboa, nº 197, 23 de Janeiro de 1930.
[11] Cf. “Desconhecidos, quase”, in Vida Mundial, 12/11/1971, p. 25.
[12] Cf. Reflexão à margem da literatura portuguesa, in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira, Lisboa, Âncora, 2000, vol. I, p. 66.
[13] Cf. “Desconhecidos, quase”, in Vida Mundial, 12/11/1971, p. 25.
[14] A esse respeito, uma breve referência à NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI (www.novaaguia.blogspot.com) e ao MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (www.movimentolusofono.org). Ambos, de diversos modos, procuram, no princípio deste novo século, cumprir esse horizonte.
terça-feira, 30 de junho de 2009
António Sérgio por Gilberto Freyre
A inteligência que não possua este poder, não de improvisação, mas de compreensão ágil, talvez não seja senão meia-inteligência. A melhor inteligência do homem parece estar nisto: em poder ou saber apanhar o assunto, não parado ou quase morto, mas vivo e em movimento, que é como os assuntos são completos e naturais.
É como António Sérgio sabe surpreendê-los: nesta espécie de voo. Daí a sua palavra ser, não a eloquente ou a brilhante do improvisador ou do causeur convencional, mas a surpreendente, do homem de inteligência ao mesmo tempo ágil e profunda. Surpreendente na conversa quase tanto como é no ensaio, Sérgio nunca vê banalmente um assunto nem comenta convencionalmente um facto. Surpreende nos factos e nos problemas aspectos inesperados que nos revela com nitidez às vezes didáctica. É o que ele tem feito principalmente do ensaio em língua portuguesa: um instrumento de revelação de factos e de clarificação de ideias.
Impossível, hoje, considerar os factos da expansão portuguesa no Oriente e nos trópicos e as ideias que se têm acumulado em torno desses factos, sem considerar o critério sugerido por António Sérgio - ele próprio nascido em Damão, filho de português ilustre, depois visconde, que governou durante anos províncias da Índia - para a reinterpretação de tais factos e para a clarificação de quanta ideologia turva nos vem separando deles. Pode haver na sua atitude e na dos jovens estudiosos de assuntos portugueses que a seguem - sistematicamente talvez nenhum, vários, um deles Vitorino Magalhães Godinho, livremente - excesso de racionalismo como que linear. Impaciência com as muitas curvas que fazem do passado e da natureza humana complexos em que intervêm desigualmente no tempo, como no espaço, influências diversas e contraditórias e algumas rebeldes ao puro esclarecimento nacional. Não há dúvida, porém, de que Sérgio, com as suas «considerações histórico-pedagógicas» sobre os descobrimentos portugueses no seu ensaio sobre A Conquista de Ceuta e no seu esboço, publicado em inglês, na Índia, da história de Portugal, veio ampliar sobre todo um grupo de factos como que desnaturalizados por alguns historiadores, a visão já «económico-científica» - como a chama o próprio Magalhães Godinho - de um Oliveira Martins um tanto injustamente desdenhado como «romântico» no mau sentido - quando o foi principalmente no bom; a acrescentar a essa visão de homem de génio - homem de génio meio desajustado entre historiadores convencionais, como foi Martins - novos e sugestivos modos de considerar-se o complexo problema da expansão lusitana. Uma expansão cujo sentido económico vinha sendo esquecido ou desprezado pelos apologetas de um Portugal expansionista considerado apenas «campeão da Fé» ou da «Cristandade».
António Sérgio pôs em relevo, como uma das causas da expansão portuguesa, a crise de subsistência em Portugal no século XV: crise para a qual o celeiro marroquino se apresentava como solução imediata. Ao lado dessa crise regional, salientou a europeia: estava a economia europeia ameaçada pelos triunfos turcos no Levante - que substituiriam, entre os maometanos, uma civilização acomodatíciamente mercantil por outra, guerreira, intolerantemente guerreira, talvez - de desequilibrar-se, perdendo o contacto comercial com a Índia. E não nos esqueçamos - Mestre Sérgio dá todo o relevo ao facto - de que, em Portugal estava, desde o século XIV, no poder, a burguesia comercial-marítima. Era dentro da comunidade portuguesa a parte mais particularmente sensível a um desequilíbrio na economia comercial da Europa, em suas relações com a Índia.
Destacando essas influências, na verdade decisivas e apenas entrevistas pela poderosa inteligência de Oliveira Martins, ao considerar os motivos da expansão portuguesa na África, Sérgio deixou-se levar pelo encanto da interpretação linear. E pela interpretação linearmente económica abandonou de tal modo a político-religiosa, que resvalou no extremo de considerar desprezível o fervor religioso entre os estímulos à actividade expansionista dos portugueses na África e no Oriente. Exagero em que o vêm rectificando historiadores, por sua vez exagerados na exaltação, mas não na consideração, do factor religioso: Joaquim Bensaúde e Jaime Cortezão, entre outros. Mestre Jaime Cortezão - tão mestre quanto Sérgio - sem nunca desprezar a realidade económica; Bensaúde perdendo-se, às vezes, em exageros de retórica patriótica e nacionalista, numa como sobrecompensação da sua consição de português de origem israelita.
A Cortezão sempre pareceu difícil de separar, na tentativa de explicar-se a expansão portuguesa, o motivo económico do religioso: se a feição marítima tomada pela economia europeia - inclusive a portuguesa - como que obrigava a Europa a entrar em conflito com outra civilização também marítima e mercantil como a dos árabes, empenhados há longo tempo na exploração do mesmo ouro africano e das mesmas especiarias orientais agora desejadas pelos europeus, também favorecia o conflito entre as duas civilizações o ódio teológico que separava cristãos de maometanos: um ódio teológico acentuado entre cada um dos dois grandes grupos pelo fervor proselitista que em cada um deles animava poderosos subgrupos. Entre os cristãos, o principal subgrupo militantemente expansionista teria sido, segundo Cortezão, o franciscano, com os seu amor senão ao estudo, à contemplação da natureza, ao qual se teria juntado aquele «apetite de conhecimento» desenvolvido nos europeus do sul pela ciência greco-árabe.
Recorda Magalhães Godinho ter em 1940 Jaime Cortezão modificado a sua interpretação da expressão portuguesa no Oriente e nos trópicos, no sentido de acentuar a importância do factor religioso como estímulo aos descobrimentos e às actividades lusitanas no Ultramar. O facto apenas parece indicar, tratando-se de pesquisador tão honesto, a dificuldade em torno do que o mesmo Magalhães Godinho - cujo excelente ensaio A Expansão Quatrocentista Portuguesa venha lendo - chama «diagnóstico da causa decisiva». Para Magalhães Godinho, «o problema da génese dos descobrimentos desdobra-se em três aspectos» que seriam, um de «impulsões e solicitações», a ser estudado sociológicamente; outro de «iniciativas e adaptações», psicológico; outro de «valores culturais», lógico. Desprezando o «imperialismo turco» como causa da expansão portuguesa no século XV, Magalhães Godinho prefere destacar, divergindo de Sérgio mais em sistemática do que em orientação, «a convergência das necessidades de dilatação territorial da nobreza e de conquista de mercados da burguesia», que teria sido uma causa sociológica «por impulsão»; e ao lado dela, por «solicitação» - causa também sociológica - os cereais, panos, ouro, pescarias e posição estratégica de Marrocos; o ouro, a malagueta, os escravos da Guiné; as especiarias, pedras preciosas, madeiras raras e aromáticas da Índia. A expansão não se teria realizado como uma «iniciativa única» mas como uma pluralidade de iniciativas. Não teria sido só no sentido da conquista territorial (interesse da nobreza) mas no comercial (interesse da burguesia): orientação reunidas por D. João II em Marrocos. A Ordem de Cristo é que teria tido a iniciativa dos descobrimentos portugueses; mas não por fervor religioso e sim porque era «uma organização de riqueza fundiária e mobiliária». Quanto ao Infante, teria sido movido no seu modo de pôr-se a «serviço de Deus e do reino», pela «curiosidade, a perspectiva comercial, o espírito de cruzada e cavalaria e considerações político-estratégicas».
Como se vê, atribui o continuador de António Sérgio na interpretação materialista da expansão portuguesa na África e no Oriente, importância tal aos factores económicos que deixa na sombra - a não ser com relação ao Infante - os religiosos ou idealistas ou românticos ou místicos. É como se não existisse da parte do português aquele lirismo, ao mesmo tempo religioso e naturalista, que Cortezão simplifica sob o nome de «franciscanismo»; e que parece ter sido o motivo de atracção de tantos homens do Reino para a vida livre nos trópicos, para os encantos da natureza tropical, para a actividade românticamente missionária no estilo da de João de Brito na Índia. O mesmo lirismo ou romanticismo em que se teria inspirado, através de novelas ainda quase infantis mas sugestivas, como expressão literária de efusão lírica, o romantismo de Rousseau.
Ninguém hoje que se interesse pelo estudo das actividades não só económicas como religiosas, não só comerciais, mas a seu modo, românticas, que definem a presença do português no Oriente e nos trópicos, pode desprezar as páginas que sobre a expansão lusitana nessas áreas já escreveu António Sérgio. São lúcidas e iniciaram uma fase em estudos, que Oliveira Martins foi o primeiro a libertar de exagero de «ufanismo» português em relação com um passado nem sempre cor-de-rosa. O mesmo direi dos recentes ensaios de Magalhães Godinho, tão influenciado por Sérgio nos seus primeiros pontos de partida. Mas são interpretações, tanto as que eles oferecem como as já clássicas - a despeito de «românticas» - de Oliveira Martins, a que precisamos de opor, mais de uma vez, as oferecidas por outro ensaísta português, tão moderno quanto Sérgio em sua formação de historiador e com igual sentido sociológico do passado que pretende reconstituir e interpretar: o hoje meio-brasileiro Jaime Cortezão.»
Gilberto Freyre. Aventura e Rotina, Livros do Brasil, Lisboa. (s/data), pp. 191-194.)
domingo, 17 de maio de 2009
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Tudo e nada Ou Alguma coisa

Sérgio, e essa foi a sua coragem e a sua glória, recusou-se a qualquer neutralidade, colaborante ou não, tanto sobre o plano da acção como do pensamento. A sua obra é uma obra de combate, herdeira do primeiro Antero e de algum Oliveira Martins.
Eduardo Lourenço, Sérgio Como Mito Cultural, O Tempo e o Modo, Janeiro de 1969
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Vidas Portuguesas: António Sérgio (1883-1969) 125 Anos
António Sérgio, Explicações ao Ex.mo Sr. Professor Martinho Nobre de Melo sobre as Doutrinas Morais dos meus Ensaios
“Numerosas pessoas que nestes últimos tempos se têm dado a repetir a minha divisa: ‘reforma da mentalidade’, lhe atribuem um significado não só diverso, mas até contrário, ao que por essas palavras eu tentei exprimir. O que elas chamam ‘reforma da mentalidade’ é uma substituição no conteúdo das convicções; é deixar de acreditar em certos dogmas políticos para acreditar nos dogmas que lhe são opostos. Ora, o que eu quis significar por aquela máxima não é uma modificação no conteúdo das crenças, e sim na forma do pensamento dos homens, isto é, a passagem da mentalidade catecismal e dogmática (que se encontra igualmente nos dois campos opostos, entre homens da direita e entre homens da esquerda, entre vermelhos e azuis) para a atitude de espírito indagadora e crítica, - para a do livre exame, para a da correcção incessante, para a da discussão aberta, para a da investigação contínua”.
António Sérgio, Introdução Geográfica-Sociológica à História de Portugal
António Sérgio de Sousa Júnior, mais conhecido como António Sérgio, nasceu na cidade de Damão, na antiga Índia portuguesa, no dia 3 de Setembro de 1883.
Descendente de uma linhagem de oficiais da Marinha, passará a infância na Índia e no Congo devido às funções de Governador que o seu pai exercia nesses lugares. Só no fim da sua meninice é que se fixa em Lisboa. Nesta cidade, estuda no Colégio Militar, na antiga Escola Politécnica e, devido à influência que a vocação familiar exerce na sua vida, envereda, tal como o seu pai e os seus avós, pela carreira de Oficial da Marinha. Deste modo, entre os anos de 1903 e 1904, frequenta a Escola Naval. É lá, curiosamente, que conhece Leonardo Coimbra (1883-1936) – do qual foi professor de remo. No entanto, logo depois da Implantação da República, António Sérgio abandona a carreira militar e passa a dedicar-se a um trabalho de cariz mais intelectual e, por vezes, itinerante.
Assim, em 1912, depois de passar por Londres, viaja para o Rio de Janeiro, cidade na qual vive por cerca de um ano. Para além de se dedicar aos seus estudos e aos seus trabalhos, ajuda também no negócio do pai da sua mulher – Luísa Estefânia Gershey da Silva (1879-1960) –, com a qual se tinha casado há pouco tempo. No início de 1914, deixa a cidade brasileira e ruma para o continente europeu: detém-se por alguns meses em Nice e Genebra. Voltará a esta última, entre 1915/1916, para frequentar a Escola de Educação do Instituto Jean-Jacques Rousseau. Regressa a Lisboa mas, em 1919, volta novamente ao Rio de Janeiro, onde se demora por mais de dois anos.
Em 1922, depois de deixar a América do Sul, passa por Paris, pela Suiça (onde se cura de uma crise psíquica ganha à custa de muito trabalho e do excessivo calor que o atormentava na cidade do Rio) e pela Alemanha. Em 1923, já plenamente assentado em Lisboa, começa a dedicar-se à Seara Nova (revista que havia sido criada em 1921 e, para a qual, desde o seu início, Raul Proença (1884-1941) o havia convidado para colaborar). O ideólogo dos Ensaios nela permanecerá até 1939, afastando-se apenas porque não concordava com a administração danosa de Luís da Câmara Reys (1885-1961). No fim do ano de 1923, e por curtíssimo tempo, exercerá funções de Ministro da Instrução.
Perseguido pela Ditadura Militar, António Sérgio vê-se obrigado a exilar-se, em França, durante seis anos. Em 1926, depois de uma curta estada em Madrid, fixa-se em Paris. Só regressará a Lisboa em 1933, depois de um período como leitorado na Universidade de Santiago de Compostela. Voltará ao exílio madrileno entre 1935 e 1936.
A partir desta altura, e, em certa medida, como já vinha a acontecer desde a sua demissão da Marinha, António Sérgio terá sempre uma vida finaceira um pouco periclitante. Eram as edições e as organizações de livros, as traduções, o trabalho na Paramount, e algumas aulas que dava, que lhe permitiam viver e dedicar-se à sua obra intelectual. Uma obra imensa que, ainda hoje, só uma parte é que está disponível ao grande público.
Depois da morte da mulher (verdadeiro baluarte da sua vida), em 1960, António Sérgio sofrerá grandes depressões e não produzirá muito mais, acabando por falecer, em Lisboa, no dia 24 de Janeiro de 1969, com 85 anos.
Apontamento Crítico
Os críticos mais efusivos e os discípulos mais dilectos de António Sérgio já caracterizaram a sua figura, a sua vida e a sua obra das maneiras mais variadas possíveis. De filósofo a historiador, de pedagogo a político, de polemista a racionalista inveterado, de matemático a economista, de poeta a tradutor. Cremos, contudo, que os epítetos de filósofo e ensaísta são os que melhor lhe assentam.
Embora se interesse pela Filosofia, já no fim da adolescência, quando lê pela primeira vez a Ética de Espinosa, a sua vida intelectual ficará incontornavelmente ligada ao ensaio filosófico. É por meio dele, através do seu método e da sua linguagem, que Sérgio se exprimirá quase sempre, mesmo quando trata de literatura ou de história, por exemplo. O seu viés platónico, espinosista e neo-kantiano acaba por estar presente em praticamente tudo aquilo que escreve.
Racionalista convicto, chega até a dizer que, se antes dele, não tivessem existido racionalistas, ele seria o primeiro, António Sérgio questiona a inexistência de um cariz estritamente filosófico e racionalista nos pensadores portugueses, na sua generalidade, e propõe uma reforma da mentalidade portuguesa. Se, a posteriori, tal transformação é de natureza cultural, educativa, política e social, a priori, ela é de natureza filosófica. Para o autor dos Ensaios, à semelhança de Platão, a Filosofia é a base da sociedade. Ora, é por este motivo que se empenha numa reestruturação das mentalidades dos portugueses, e, de igual modo, que critica o posicionamento intelectual que os saudosistas propunham. Ora, é na altura da fundação do movimento da Renascença Portuguesa, portanto, que António Sérgio polemiza com Joaquim Teixeira de Pascoaes (1877-1952) e com todos aqueles que se insurgem a favor de um neo-lusismo. O ensaísta, por sua vez, propõe um racionalismo crítico (e místico), uma ideia de progresso, uma evolução da ciência que, na sua concepção, não era compatível com os ideais que o saudosismo defendia. Nesta perspectiva, aproveita ainda para questionar os contornos que a História de Portugal acabou por assumir ao longo do tempo, sobretudo a decadência em que o país mergulhou depois de Alcácer-Quibir e a relevância que os movimentos sebastianistas assumiram na construção do estado psicológico do país. Segundo aquilo que pensa, um país que se pretende novo, progressista, futurista, científico e filosófico, não pode relevar os erros do passado nem pode carpir mágoas e saudades. Deve, antes, olhar para o Futuro. Para tal, é necessário preparar-se o presente e valorizar-se, em certa medida, aquilo que de melhor Portugal foi e produziu durante o seu período medieval.
Quando se fala do racionalismo crítico que está subjacente a toda a obra sergiana, dever-se-á ter em conta um conjunto de noções que, em alguma medida, o sustentam e promovem: a saber, cultura, espírito, liberdade e cristianismo ético. Sem estes conceitos, não se consegue compreender a verdadeira dimensão da proposta crítica que António Sérgio faz durante quase cinquenta anos e que, muitas vezes, tem sido interpretada erroneamente: ou porque lhe é atribuído um racionalismo puro, sem contactos ou mediações com outras interpretações gnosiológicas (esquecendo-se que o racionalismo sergiano também é místico e se integra num humanismo integral); ou porque se sobrevaloriza a sua vertente polemista em detrimento da sua vertente filosófica. Se, de facto, a polémica é um matiz, relativamente forte da sua obra e até da sua personalidade (em certa carta escrita ao seu amigo José Régio (1901-1969), Sérgio afirma que a polémica se tornou numa maneira de ser da sua própria vida espiritual porque nasceu com uma conformação intelectual contrária à moda do seu tempo), não se deverá permitir que ele camufle tudo o resto. E a divulgação e a compreensão da obra de António Sérgio, mais do que a de Raul Proença (que também foi um polemista, por exemplo), sofreu preconceitos que ainda hoje duram porque a sua veia polemicante se destacou.
Numa altura em que se passam 125 anos do nascimento de António Sérgio convém relembrar que, mais do que um cruzado da Razão, como lhe chamou Eduardo Lourenço (1923), e do que um detractor do pensamento lusíada, como o definiram (e definem ainda hoje!) os seus inimigos intelectuais, o ilustre seareiro foi um dos homens que, na primeira metade do século XX, mais se empenhou em reformular o modo de pensar da sociedade portuguesa.
Bibliografia Indicativa
Rimas (1908)
Notas sobre os Sonetos e as Tendências Gerais da Filosofia de Antero de Quental (1909)
Da Natureza da Afecção (1913)
Educação Cívica (1915)
Ensaios I (1920)
O Desejado. Depoimentos de contemporâneos de D. Sebastião sobre este mesmo rei e sua jornada de África (1924)
Sobre a Política de Camões (1924)
Tréplica a Carlos Malheiro Dias Sobre a Questão do Desejado (1925)
Ensaios II (1929)
História de Portugal (1929)
Método Científico, História, Política e Tradição (1929)
Ensaios III (1932)
Diálogos de Doutrina Democrática (1933)
Democracia (1934)
Cartas despretenciosas a um anti-intelectualista bergsoniano (1934)
Esclarecimentos e interrogações de um idealista (1934)
Ensaios IV (1934)
Ensaios V (1936)
Cartesianismo ideal e cartesianismo real (1937)
Um problema anteriano (1943)
Ensaios VI (1946)
Alocução aos Socialistas (1947)
Confissões de um cooperativista (1948)
Cartas de Problemática dirigidas a um grupo de jovens amigos, alunas e alunos da Faculdade de Ciências (1952-1955)
Cartas do Terceiro Homem (1953-1957)
Ensaios VII (1954)
Ensaios VIII (1958)
Correspondência para Raul Proença (1987)
Correspondência para Castelo Branco Chaves (1989)
Correspondência para José Régio (1933-1958) (1994)




