Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.
A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso Manifesto.
Tal como n’ A Águia, temos tido o contributo das mais relevantes figuras da Cultura Lusófona...
Para o 26º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
Lançamento da NOVA ÁGUIA 25
10 de Março, no Palácio da Independência (na foto: Miguel Real, António Braz Teixeira, Renato Epifânio e Abel Lacerda Botelho). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...
Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.
MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.
O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"
Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
"Breves considerações sobre a dinâmica histórico-cultural do conceito de Lusofonia"
O Padre António Vieira foi um dos precursores da defesa dos Direitos Humanos, no contexto colonial, no Brasil do século XVII ao denunciar e condenar a escravização a que eram submetidos os nativos deste território português (Vide Padre António Vieira, Sermão do 1º Domingo da Quaresma, Maranhão, 1653).
A lusofobia foi um sentimento depressivo que emergiu, no subconsciente dos portugueses, do complexo de inferioridade nacional que andou associado à ideia da decadência da pátria lusitana ao perpassar grande parte do século XIX que levou, inclusivamente, ao suicídio de Mouzinho de Albuquerque.
O Luso-tropicalismo surgiu no século XX como uma teoria sociológica do brasileiro Gilberto Freyre, ao chamar a atenção para a aculturação mútua entre o autóctone e o colonizador português, que depois passou a integrar a ideologia colonial do Estado Novo após a 2ª Guerra Mundial, no contexto internacional anticolonialista (Luso-tropicalismo – uma teoria social em questão, org. Adriano Moreira e José Carlos Venâncio, 2000).
Como derradeira etapa desta dinâmica histórica, a lusofonia emergiu como conceito explícito, a par da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), na qualidade de resposta identitária, dos países de expressão cultural e linguística portuguesa afectivamente unidos, na era da Globalização. Este conceito expressa o sentimento de união e de familiaridade entre estes povos e comunidades. Nesta medida, a CPLP, o Prémio Camões, a revista Nova Águia, o Movimento Internacional Lusófono e ONG’s como a Associação Médica Internacional são instituições que acreditam neste Património de identidade existencial.
No futuro, no quadro da lógica da Globalização do século XXI, antevista pelos portugueses desde as Descobertas marítimas quinhentistas, poder-se-à caminhar para a ansiada União Lusófona em que Agostinho da Silva tanto acreditava.
Nuno Sotto Mayor Ferrão
Publicado no MILhafre:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/01/breves-consideracoes-sobre-dinamica.html
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
"Raça"
Nota 1. An inevitable problem in the comparative discussion of race is semantic disjunction: raça in Portuguese and raza in Spanish do not mean the same as “race”; mestiçagem has connotations beyond the usual “race mixture” translation, which reflects the centrality of descent and genetics in Anglo-Saxon conceptions of race. Here as elsewhere I use italicised Portuguese and Spanish terms rather than English, to do justice to the greater plasticity of Latin American racial terminology. The whole point of the words is that they typically do not have an English equivalent, and a great deal of unnecessary trouble would be saved if this were the usual practice.
Fonte: http://www.transcomm.ox.ac.uk/working%20papers/cleary.pdf
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
O outro Brasil que vem aí
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
Mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.
Gilberto Freyre 1926
sábado, 26 de setembro de 2009
Euclides da Cunha por Gilberto Freyre

(...)
O caipira desfibrado, sem o desempenho dos titãs bronzeados que lhe formam a linhagem obscura e heróica ... uma ruína maior por cima daquela ruinaria da terra.
Só o registro da decadência do caboclo das fazendas: simples comparsa de um drama que teve por personagens decisivos os senhores brancos e os escravos de cor. Por onde se confirma - um exemplo dentre vários - que foi constante, em Euclides, o afã de idealizar e romantizar o indígena; o ameríndio; o caboclo - isto é, o brasileiro mais próximo do escritor; mais seu irmão; mais do seu sangue e mais da sua terra. Do mesmo modo que foi constante nele o critério de caracterizar paisagens, reduzindo-as não só a expressões de "resistência de materiais" - um critério de engenheiro - como a manifestações de violência do homem contra a natureza: um critério de ecologista. Ecologista, engenheiro e caboclo repita-se que são presenças constantes no escritor Euclides da Cunha: nos seus temas; nas suas visões de terras e de populações brasileiras; no seu estilo. No seu famoso estilo cuja originalidade parece decorrer, em grande parte, da fusão desses três homens num só escritor: fusão que pela primeira vez aconteceu nas letras brasileiras realizada pelo autor d'Os Sertões.
(...)
Por outro lado Euclides foi dos grandes escritores brasileiros um dos que mais deixaram à mocidade do seu país o exemplo, de que ser um escritor homem de estudo metódico e homem de trabalho sistemático não significa escassear-lhe o talento ou faltar-lhe o gênio. Neste particular ele pertenceu ao número dos Rui Barbosa, dos Joaquim Nabuco, dos Machados de Assis. Em vez de ter valorizado a tradição do escritor boêmio e improvisador, valorizou a outra: a do escritor, homem de estudo. A do escritor, homem de trabalho. Com o que prestou um serviço imenso à cultura nacional, vítima, ainda hoje, do mito que associa ao escritor de gênio as boêmias de café ou as bebedeiras nas cervejarias.
Euclides - recordou uma vez do autor d'Os Sertões, o cronista João Luso, que o conhecia de perto - "escrevia com grande lentidão". Não só com "grande lentidão": também à base de conhecimento objetivo e de estudo honesto do tema que versasse. Era antes scholar que diletante: ele próprio comparou-se uma vez - informa João Luso - ... com certos pássaros que para despedir o vôo precisam de trepar primeiro a um arbusto. Abandonados no solo raso e nu, de nada lhes servem as asas; e tem que ir por aí afora à procura do seu arbusto.
O seu arbusto, dizia Euclides que era "o Fato".
(...)
FREYRE, Gilberto: Euclides da Cunha, revelador da realidade brasileira, prefácio a CUNHA, Euclides da, Obra completa, Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1966.
terça-feira, 30 de junho de 2009
António Sérgio por Gilberto Freyre
A inteligência que não possua este poder, não de improvisação, mas de compreensão ágil, talvez não seja senão meia-inteligência. A melhor inteligência do homem parece estar nisto: em poder ou saber apanhar o assunto, não parado ou quase morto, mas vivo e em movimento, que é como os assuntos são completos e naturais.
É como António Sérgio sabe surpreendê-los: nesta espécie de voo. Daí a sua palavra ser, não a eloquente ou a brilhante do improvisador ou do causeur convencional, mas a surpreendente, do homem de inteligência ao mesmo tempo ágil e profunda. Surpreendente na conversa quase tanto como é no ensaio, Sérgio nunca vê banalmente um assunto nem comenta convencionalmente um facto. Surpreende nos factos e nos problemas aspectos inesperados que nos revela com nitidez às vezes didáctica. É o que ele tem feito principalmente do ensaio em língua portuguesa: um instrumento de revelação de factos e de clarificação de ideias.
Impossível, hoje, considerar os factos da expansão portuguesa no Oriente e nos trópicos e as ideias que se têm acumulado em torno desses factos, sem considerar o critério sugerido por António Sérgio - ele próprio nascido em Damão, filho de português ilustre, depois visconde, que governou durante anos províncias da Índia - para a reinterpretação de tais factos e para a clarificação de quanta ideologia turva nos vem separando deles. Pode haver na sua atitude e na dos jovens estudiosos de assuntos portugueses que a seguem - sistematicamente talvez nenhum, vários, um deles Vitorino Magalhães Godinho, livremente - excesso de racionalismo como que linear. Impaciência com as muitas curvas que fazem do passado e da natureza humana complexos em que intervêm desigualmente no tempo, como no espaço, influências diversas e contraditórias e algumas rebeldes ao puro esclarecimento nacional. Não há dúvida, porém, de que Sérgio, com as suas «considerações histórico-pedagógicas» sobre os descobrimentos portugueses no seu ensaio sobre A Conquista de Ceuta e no seu esboço, publicado em inglês, na Índia, da história de Portugal, veio ampliar sobre todo um grupo de factos como que desnaturalizados por alguns historiadores, a visão já «económico-científica» - como a chama o próprio Magalhães Godinho - de um Oliveira Martins um tanto injustamente desdenhado como «romântico» no mau sentido - quando o foi principalmente no bom; a acrescentar a essa visão de homem de génio - homem de génio meio desajustado entre historiadores convencionais, como foi Martins - novos e sugestivos modos de considerar-se o complexo problema da expansão lusitana. Uma expansão cujo sentido económico vinha sendo esquecido ou desprezado pelos apologetas de um Portugal expansionista considerado apenas «campeão da Fé» ou da «Cristandade».
António Sérgio pôs em relevo, como uma das causas da expansão portuguesa, a crise de subsistência em Portugal no século XV: crise para a qual o celeiro marroquino se apresentava como solução imediata. Ao lado dessa crise regional, salientou a europeia: estava a economia europeia ameaçada pelos triunfos turcos no Levante - que substituiriam, entre os maometanos, uma civilização acomodatíciamente mercantil por outra, guerreira, intolerantemente guerreira, talvez - de desequilibrar-se, perdendo o contacto comercial com a Índia. E não nos esqueçamos - Mestre Sérgio dá todo o relevo ao facto - de que, em Portugal estava, desde o século XIV, no poder, a burguesia comercial-marítima. Era dentro da comunidade portuguesa a parte mais particularmente sensível a um desequilíbrio na economia comercial da Europa, em suas relações com a Índia.
Destacando essas influências, na verdade decisivas e apenas entrevistas pela poderosa inteligência de Oliveira Martins, ao considerar os motivos da expansão portuguesa na África, Sérgio deixou-se levar pelo encanto da interpretação linear. E pela interpretação linearmente económica abandonou de tal modo a político-religiosa, que resvalou no extremo de considerar desprezível o fervor religioso entre os estímulos à actividade expansionista dos portugueses na África e no Oriente. Exagero em que o vêm rectificando historiadores, por sua vez exagerados na exaltação, mas não na consideração, do factor religioso: Joaquim Bensaúde e Jaime Cortezão, entre outros. Mestre Jaime Cortezão - tão mestre quanto Sérgio - sem nunca desprezar a realidade económica; Bensaúde perdendo-se, às vezes, em exageros de retórica patriótica e nacionalista, numa como sobrecompensação da sua consição de português de origem israelita.
A Cortezão sempre pareceu difícil de separar, na tentativa de explicar-se a expansão portuguesa, o motivo económico do religioso: se a feição marítima tomada pela economia europeia - inclusive a portuguesa - como que obrigava a Europa a entrar em conflito com outra civilização também marítima e mercantil como a dos árabes, empenhados há longo tempo na exploração do mesmo ouro africano e das mesmas especiarias orientais agora desejadas pelos europeus, também favorecia o conflito entre as duas civilizações o ódio teológico que separava cristãos de maometanos: um ódio teológico acentuado entre cada um dos dois grandes grupos pelo fervor proselitista que em cada um deles animava poderosos subgrupos. Entre os cristãos, o principal subgrupo militantemente expansionista teria sido, segundo Cortezão, o franciscano, com os seu amor senão ao estudo, à contemplação da natureza, ao qual se teria juntado aquele «apetite de conhecimento» desenvolvido nos europeus do sul pela ciência greco-árabe.
Recorda Magalhães Godinho ter em 1940 Jaime Cortezão modificado a sua interpretação da expressão portuguesa no Oriente e nos trópicos, no sentido de acentuar a importância do factor religioso como estímulo aos descobrimentos e às actividades lusitanas no Ultramar. O facto apenas parece indicar, tratando-se de pesquisador tão honesto, a dificuldade em torno do que o mesmo Magalhães Godinho - cujo excelente ensaio A Expansão Quatrocentista Portuguesa venha lendo - chama «diagnóstico da causa decisiva». Para Magalhães Godinho, «o problema da génese dos descobrimentos desdobra-se em três aspectos» que seriam, um de «impulsões e solicitações», a ser estudado sociológicamente; outro de «iniciativas e adaptações», psicológico; outro de «valores culturais», lógico. Desprezando o «imperialismo turco» como causa da expansão portuguesa no século XV, Magalhães Godinho prefere destacar, divergindo de Sérgio mais em sistemática do que em orientação, «a convergência das necessidades de dilatação territorial da nobreza e de conquista de mercados da burguesia», que teria sido uma causa sociológica «por impulsão»; e ao lado dela, por «solicitação» - causa também sociológica - os cereais, panos, ouro, pescarias e posição estratégica de Marrocos; o ouro, a malagueta, os escravos da Guiné; as especiarias, pedras preciosas, madeiras raras e aromáticas da Índia. A expansão não se teria realizado como uma «iniciativa única» mas como uma pluralidade de iniciativas. Não teria sido só no sentido da conquista territorial (interesse da nobreza) mas no comercial (interesse da burguesia): orientação reunidas por D. João II em Marrocos. A Ordem de Cristo é que teria tido a iniciativa dos descobrimentos portugueses; mas não por fervor religioso e sim porque era «uma organização de riqueza fundiária e mobiliária». Quanto ao Infante, teria sido movido no seu modo de pôr-se a «serviço de Deus e do reino», pela «curiosidade, a perspectiva comercial, o espírito de cruzada e cavalaria e considerações político-estratégicas».
Como se vê, atribui o continuador de António Sérgio na interpretação materialista da expansão portuguesa na África e no Oriente, importância tal aos factores económicos que deixa na sombra - a não ser com relação ao Infante - os religiosos ou idealistas ou românticos ou místicos. É como se não existisse da parte do português aquele lirismo, ao mesmo tempo religioso e naturalista, que Cortezão simplifica sob o nome de «franciscanismo»; e que parece ter sido o motivo de atracção de tantos homens do Reino para a vida livre nos trópicos, para os encantos da natureza tropical, para a actividade românticamente missionária no estilo da de João de Brito na Índia. O mesmo lirismo ou romanticismo em que se teria inspirado, através de novelas ainda quase infantis mas sugestivas, como expressão literária de efusão lírica, o romantismo de Rousseau.
Ninguém hoje que se interesse pelo estudo das actividades não só económicas como religiosas, não só comerciais, mas a seu modo, românticas, que definem a presença do português no Oriente e nos trópicos, pode desprezar as páginas que sobre a expansão lusitana nessas áreas já escreveu António Sérgio. São lúcidas e iniciaram uma fase em estudos, que Oliveira Martins foi o primeiro a libertar de exagero de «ufanismo» português em relação com um passado nem sempre cor-de-rosa. O mesmo direi dos recentes ensaios de Magalhães Godinho, tão influenciado por Sérgio nos seus primeiros pontos de partida. Mas são interpretações, tanto as que eles oferecem como as já clássicas - a despeito de «românticas» - de Oliveira Martins, a que precisamos de opor, mais de uma vez, as oferecidas por outro ensaísta português, tão moderno quanto Sérgio em sua formação de historiador e com igual sentido sociológico do passado que pretende reconstituir e interpretar: o hoje meio-brasileiro Jaime Cortezão.»
Gilberto Freyre. Aventura e Rotina, Livros do Brasil, Lisboa. (s/data), pp. 191-194.)
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
SAGRES
mural pintado no tecto do Museu Militar de Lisboa),
José Malhoa, 1907
As primeiras chuvas: uma proa
Que fica na maré – limos mortos, tábuas:
A solidão dos últimos pomos
Madurando ao sol. Nadas.
Do peso da luz. Os príncipes concordaram
Que a vida é insubstante – esta
História é mais antiga que o tempo.
Nada existe ainda; a não ser o terror.
A linha de água, as aves rasas,
Tudo espera ainda o dia
Dos Portugueses. O extremo ou o nada.
O tempo é breve como duas ondas,
Gemebundo entre as rochas, os faróis
Derruídos. Aqui perdura: proa.
Ainda que passe.
Sagres: umbigo do mundo. O barco
Contra a luz. O pescador tira as redes.
É um ermo em forma de cabo,
De breu e sal. A faina de uma pura
Lenda; uma faina de separar abismos.
O homem é maior que a vida. As
Primeiras cinzas do crepúsculo
Rasgam a fraga agónica.
São os mortos que regressam.
Lord of Erewhon
domingo, 10 de agosto de 2008
Nosso povo brasileiro
meu povo é doce
malandro sensual
é um povo gostoso
dançarino musical
meu povo é mestiço
linguarudo fofoqueiro
é um povo inteligente,
ignorante e condoreiro
(...)
Estes fragmentos da poesia de Glauber Rocha (cineasta, ator e escritor) retratam bem o povo brasileiro. É um povo com características peculiares de cada região, todas ricas em folclores e tradições. Em cada brasileiro, o linguajar é melodioso e característico. Povo surgido de diferentes matizes e matrizes, onde muitos são sábios iletrados.
Darcy Ribeiro, em seu livro O Povo Brasileiro, descreve-o como um povo novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiças, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais oriundos.
Nesta reconstituição, ele enfatiza a confluência, ou seja, fala da união ocorrida entre portugueses, índios e negros, matrizes étnicas do Brasileiro. Ainda uma esclarecedora visão de Darcy Ribeiro, de um brasileiro para brasileiros :
"Foi desindianizando o índio, desafricanizando o negro, deseuropeizando o europeu e fundindo suas heranças culturais que nos fizemos. Somos, em consequência, um povo síntese, mestiço na carne e na alma, orgulhoso de si mesmo, porque entre nós a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Um povo sem peias que nos atenham a qualquer servidão, desafiado a florescer, finalmente, como uma civilização nova, autônoma e melhor. Nossa matriz africana é a mais abrasileirada delas. Já na primeira geração, o negro, nascido aqui, é um brasileiro. O era antes mesmo do brasileiro existir, reconhecido e assumido como tal. O era, porque só aqui ele saberia viver, falando como sua língua do amo. Língua que não só difundiu e se fixou nas áreas, onde mais se concentrou, mas amoldou, fazendo do idioma o Brasil um português falado por bocas negras, o que se constata ouvindo o sotaque de Lisboa e de Luanda.."
"Também, porque se vê a si mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano diferente de quantos existam. E, porque é um novo modelo de estruturação societária, que inaugura uma forma fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímel alegria e espantosa vontade de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove todos os brasileiros." (O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro).
Através da música e da literatura, podemos traçar um perfil deste povo moreno, caboclo, com variados tipos – do rural ao urbano – que caracterizam os " Brasis" (Crioulo, caboclo, sertanejo, caipira, e os Brasis sulinos: gaúchos, matutos e gringos).
Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato eternizou-se no linguajar designativo e pejorativo do roceiro. O Operário em Construção, de Vinicius de Moraes, retrata o tipo urbano pobre. O malandro, tipo bem brasileiro, a personificação de Bezerra da Silva e tão bem retratado nas músicas de Chico Buarque. Além de inúmeras figuras como João Francisco dos Santos, o Madame Satã, transformista brasileiro. Ainda na música Zé do Caroço de Leci Brandão , retrato bem atual de mais um tipo brasileiro.
Não deixo aqui o registro apenas das tipificações masculinas. As mulheres brasileiras, a sua força e bravura tiveram grande influência neste meu Brasil. De Amélia (música de Mário Lago) que exalta a mulher cordata, servil, companheira e passiva a inúmeras outras mulheres que infrigiram normas sociais e culturais como Chiquinha Gonzaga, que revolucionou a nossa música e hábitos, com o toque sensual e brejeiro da mulher brasileira.
Não poderia de registrar aqui a fortaleza, a garra da mulher nordestina, As paraibanas, chamadas mulher-macho, em nada incorpora a mulher masculinizada, mas a sua garra e fortaleza.
Belezas mulatas e índias são retratadas na literatura, música e pelos pincéis de Di Cavalcanti e Candido Portinari.
Finalizo, com uma pequena estrofe da poesia de Gilberto Freyre, "O Outro Brasil Que Vem
Eu ouço as vozes
(...)
quinta-feira, 24 de julho de 2008
DOIS DOS MEUS MESTRES: GILBERTO FREYRE & AGOSTINHO DA SILVA
BARCOS PORTUGUÊSES
Os barcos de proas altas
reviradas e decoradas de figuras de cor
são belos porque os pescadores
querem que sejam assim belos e arcaicos.
Há pescadores aqui que não têm casas.
Suas casas são os barcos,
dormem nos barcos,
cozinham dentro deles suas caldeiradas,
confabulam com deuses, sereias e mães-d’águas.
SAGRES
Sagres
Paisagem terrivelmente magra.
Não se compreende gente comodista nesta ponta de terra áspera
(ela própria cheia de ossos, cheia de espinhos).
Só homens como o Infante
Ascetas doutos quase bruxos com suas capas negras
Árabes
Judeus
Matemáticos
Astrólogos
Geógrafos
olhando o mar com olhos de feiticeiros
ouvindo os ventos com ouvidos de tísicos ou de médicos
estudando os céus
emendando mapas
adivinhando terras
profetizando Índias, Áfricas e Brasis.
Gilberto Freyre
AGOSTINHO DA SILVA: DA MORTE PARA OS PARVOS
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