OS CASTELOS
Os de Castela rodearam a praça-forte alentejana ao raiar do dia, montou-se o cerco. Convictos da incapacidade Portuguesa de lhes resistir, enviaram um emissário com os termos de uma rendição clemente, antigo e ufano garbo Castelhano.
O emissário acercou-se das ameias e, depois de ter anunciado a Realeza de quem vinha, gritou mais alto os termos da rendição. Nada. Repetiu-os e repetiu-os. Nada. Incomodado, virou o tronco na montada para os seus e voltou a gritar o que era forçoso repetir. Nada.
Eis que uma sentinela dos Portugueses, ensonada, assoma à barbacã e lhe grita:
«– Pouco barulho, homem, ainda estamos a dormir!»
[Contado por um ilustre ancião eborense, entre o jornal e a bica, numa tarde soalheira e lenta no Café Arcada e recontado por mim.]
OS CAMPOS
O vigor e a galanteria deste exército napoleónico, que pela terceira vez atravessa a fronteira Portuguesa para dominar a insignificante e casmurra nação ibérica, adornado nas cores berrantes dos seus uniformes, atrai o riso das crianças nos caminhos. Imperturbáveis, param a marcha no início de uma daquelas estreitas pontes romanas do centro norte de Portugal. Trata-se de cavalheiros Franceses, uma nação implacável e refinada, um pequeno homem montado num burrico está a atravessar a ponte. Aguardam.
O pequeno Português e o seu burro atravessam a ponte e estacam em frente ao general dos francos:
«– Bom dia, passem, passem, não tenham medo, que não vos faço mal!»
[Relatado pelo Conde de Keyserling e recontado por mim.]
AS QUINAS
Diz-se que Dom Fernando nunca perdeu a Fé durante o cativeiro, que foi torturado e humilhado, que morreu como um herói, um mártir, um santo. Não sei. Eis o que eu sei.
A batalha estava perdida, mas a Ala dos Namorados estabeleceu um muro de carne entre os exércitos dos mouros e o centro, onde o Rei, malferido, amparado, morria lentamente. Os Portugueses estavam já sem artilharia e a débil ordem da Ala foi massacrada pela fuzilaria, as flechas e a bombardada dos Marroquinos e dos seus aliados – e desfez-se como um velame fustigado pela tormenta. Era o fim. Ouviu-se uma voz acima da vozearia, «Protegei o Rei!». Os cavaleiros, que ainda não estavam por terra, apearam-se das suas montarias e correram para o centro, «Protegei Sua Majestade!». Eram somente um destroçado bando de Portugueses, e alguns Italianos, Espanhóis e Ingleses entre eles. Na morte, os homens encontram conforto à sombra de uma Bandeira ou a resguardar um Rei moribundo. A exímia e ágil cavalaria berbere carregou de alfange no ar e lança em riste.
«Protegei Sua Majestade El Rey Dom Sebastião!», Dom Fernando encabeçava uma cunha em frente ao Rei, de borco já, desfalecido, e feriu e cortou e combateu e defendeu, incansável. A seu lado os corpos caíam, os dos seus e os dos mouros. Um cavaleiro rápido adianta-se e crava um croque no dorso do Rei e, do cavalo, arrasta o seu cadáver pela poeira. É o fim. Dom Fernando quer erguer a espada, acompanhar na morte o Seu Soberano, protegê-lO na morte, mas as forças esgotaram-se-lhe. Cai de joelhos, baixa o rosto, as vestes rasgadas são uma pasta de sangue. As lágrimas correm-lhe, do chão ergue-se um sudário de pó, vitoriosos, os cavaleiros de Alá rodeiam-no aos gritos.
[Ofertado por um sonho visionário e contado aqui.]
Lord of Erewhon
NOTA: Eu sei que o que descrevo é impossível. O cativeiro e morte de Dom Fernando aconteceu muito antes da Batalha de Alcácer-Quibir, mas a verdade dos sonhos não é para ser negada pelo sonhador. Talvez, nós, os vivos, é que sejamos fantasmas e toda a nossa verdade seja erro e pó – e a Alma de uma Nação sonha tanto como os seus Filhos e assiste aos mortos o direito de tentar proteger os vivos!
Dom Fernando, O Infante Santo, nasceu em Santarém a 29 de Setembro de 1402 – morreu no cárcere em Fez a 5 de Junho de 1443. Depois de morto, o seu cadáver foi embalsamado e pendurado nu e de cabeça para baixo às portas da cidade. Na sua Bandeira pessoal tinha feito escrever a insígnia «Le bien me plaît».
El Rey Dom Sebastião, O Desejado, nasceu em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554 – morreu em Alcácer-Quibir a 4 de Agosto de 1578. Tinha 24 anos. O seu corpo nunca foi encontrado.
