A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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quinta-feira, 19 de junho de 2008

GALANDUM GALUNDAINA, «BINTE CINCO» & «ASSALTO AL CASTIELHO»


Como a Mariazinha já deve ter ido para os braços de Morfeu, para amanhã acordar fresquinha para ensinar os meninos, publico eu esta pérola, por ela indicada para companhia musical do seu texto «LHAÇO».



LHAÇO



Respira fundo. Lentamente, começa a vestir-se como quem se traja para o campo de batalha. Sente no sangue a herança dos antepassados e, quando, de lá de fora, lhe chegam aos ouvidos os sons dos bombos e das caixas, a serem afinados, e os gemidos das gaitas de foles que se preparam, a pele eriça-se-lhe num arrepio de antecipação. Cuidadosamente, desdobra e veste a imaculada camisa de linho. Enfia os três alvos saiotes com rendas, um de cada vez, cumprindo o ritual que viu desde criança aos homens que mais respeitava na aldeia. Com todo o cuidado, prende à cintura os coloridos lenços de seda, autênticas preciosidades seculares que lhe deixou o Avô, de quem herdou também a alcunha e a paixão. Calça as meias tricotadas pela Avó, sente como a lã lhe pica a pele, mantendo-o alerta. Gosta disso. Seguem-se as grossas botas de bezerro, que aperta com mão firme. É com cerimónia que enverga o colete enfeitado e coloca ao pescoço o lenço colorido. Por fim, o chapéu, decorado com flores e fitas de cor, cada uma com o seu simbolismo. Hoje sorri ao ver reflectida no espelho a cor amarela das fitas, a mais importante, a que representa o Rei, segundo a tradição da aldeia. Usar o amarelo é honraria que se reserva apenas aos que merecem, e ele, pela dedicação que sempre mostrou e pela bravura e intensidade com que se entrega, irá usá-lo e comandar os outros até um dia passar o testemunho. Pega nos bastões de rijo carvalho e nas castanholas negras, que ajusta e aperta entre os dedos. O guerreiro está pronto. Junta-se aos restantes. Com a cabeça, dá o sinal. Avançam.



Soa a gaita de foles: a ronca como base, com o seu som da entranha da terra, a melodia soprada e sentida pelo tocador. Nos minutos que se seguem, irá recriar-se a luta mítica do Bem contra o Mal, do Homem contra algo maior do que ele próprio. Poderá ver-se bater paus, saltar, rodopiar, atacar e defender, avançar e recuar em complexas coreografias. Em cada lhaço existirá entre-ajuda e bravura. O uníssono do final será exultação e exaltação, um verdadeiro baile triunfal. Quem assiste será invadido por um ruído forte, marcado, imponente, intimidatório, de afirmação de poder e demarcação de território: um ruído do princípio dos tempos. Irão sentir-se, inevitavelmente, as mais profundas raízes ibéricas. Respirar-se-á alma lusa.



[as danças de pauliteiros são dançadas] "atirando-se incessantemente pancadas rítmicas à cabeça, ao peito, às pernas, pela frente, pela rectaguarda, à direita, à esquerda, pancadas que o adversário desvia ou apara nos seus paus com perícia suma, saltando, para ferir o adversário, por cima da cabeça dos que o cercam, parando repentinamente em fila para dançar ao som das castanholas, que tocam, e recomeçando com a mesma brevidade o ataque, saltando ao ar ou em avanço, como para transpor obstáculo."

Abade de Baçal*



Fotos retiradas daqui e daqui.

* Chaves, L. (1942). “Danças, bailados e mímicas guerreiras”, in Ethnos, Vol II, Lisboa, Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia, p.21

domingo, 9 de março de 2008

Então e o Mirandês?

Isto vem na sequência da leitura do bom texto publicado ainda neste dia pelo nosso caro colega Clavis.


Já aqui várias vezes foi mencionada a questão da realidade da unidade nacional, que umas das suas causas seja a língua comum ao nosso povo, daqui extrapolamos para os nossos irmãos lusófonos por esse Mundo fora, de como a língua pode ser, e de facto é, uma fonte de unidade entre nós. Falamos e sonhamos todos os dias de uma maior aproximação entre os irmãos lusófonos. Mas não nos esquecemos de algo? E os nossos mais do que irmãos Mirandeses?
A sua raiz linguística é diferente da nossa, mas o seu espírito não. Quantos bravos de Miranda não tombaram de Norte a Sul desta terra para construir Portugal? Quantos não estão enterrados por esse vasto Mundo onde se lutava pelo Império? Quando sangue de Miranda não terão bebido as areias de Alcácer-Quibir?
Gostaria de ver aqui neste blog textos em Mirandês, gostaria de ver textos em Mirandês publicados na Nova Águia. Quem melhor nos poderá falar sobre unidade Nacional do que alguém que ainda que não fazendo parte do nosso padrão linguístico e mental sempre lutou por pelo todo. Que lutou pela sua afirmação pessoal sem nunca a dissidência lhe ter passado pela mente, alguém que tendo a sua própria tradição e língua escolhe voluntariamente ser uno connosco em Portugal?
Gostaria de saber, existe até agora algum plano de cooperação entre o MIL e alguma das organizações de protecção e difusão do Mirandês?

Viva o povo de Miranda do Douro, terra de foliões e chocalheiros!