Carlos Botelho, «Lisboa e o Tejo, Domingo» Ser lisboeta é vestir a calçada de negro negrume, amar as ruas de Lisboa como quem ama a Morte, acreditar nelas como em profecias impossíveis, saboreando o cheiro das horas perenes.
Os turistas, os mendigos e os outros que correm, num reboliço necessário à vida: a cidade vai vivendo, julgando-se viva, numa ilusão de liberdade.
Caminho para tudo pisando o chão que não me leva a lado algum, e nas matutinas manhãs como esta, quando as ruas ainda se espreguiçam sonolentas entre os prédios, Lisboa faz-me lembrar uma morgue cheia de corpos a chegar.
As minhas mãos são janelas abertas por onde a minha alma vai espreitando timidamente. O vento é um espectro de épicos cantos, que perdido me abraça.
Sorrio aos mendigos, mas não os sinto porque os sou e sendo, vejo apenas os que correm à minha volta sem ver.
Lisboa dos palcos alegres e tristes, cantando melancolicamente mais uma madrugada de saudade, és o meu pátio palco de cantigas de infância campo e cidade-cidade, a minha nudez de moça, transbordante de beatas por apagar.
Percorrendo-te, a minha sombra lembra-me sempre que existo e a minha existência em carne de pés, movimento, lembra-a sempre que não quer ser lembrada.
Entrego-te os meus dedos persianas, de janelas mãos em prédios altivos de rotos, entrego-tos, entrego-tos, para que os mergulhes na terra, calçada poluída, tornando-se raízes de uma possível árvore de mim, se me for justo dizê-lo, egoísmo-flor, de dizer ser-me de mim própria.
Lisboa, és o Corvo que observa as gentes do alto das estátuas, que as protege nas suas asas, aguardando o pulsar da noite.